Santa ironia. Os retiros espirituais tão cheios e os espíritos tão vazios.

André J. Gomes

Eu acho bonito, quando chega essa época do ano, ver tanta gente nos retiros espirituais. São pessoas de todo canto, de toda crença, de todo jeito, retirando o espírito para longe dessa loucura que, quase sempre, elas mesmas ajudaram a criar. Eu acho bonito.

Deus queira que essa gente toda não seja daquela espécie que passa o ano inteiro destilando veneno, magoando, pisando, gritando, batendo, e em dezembro fica uns dias no meio do mato ouvindo as cigarras, bebendo água da moringa, comendo fruta no pé, fazendo silêncio, dormindo, caminhando descalça, vivendo no céu mas depois, com o espírito renovado, volta a fazer da vida dos outros um inferno.

Você não me leve a mal, mas de que adianta encher os retiros espirituais nessa época e seguir vazio de espírito o ano inteiro? Sei não. Eu só acho que retiro espiritual não funciona se a gente não põe o espírito para trabalhar.

Retirar o time de campo nessas horas é fácil. Duro é voltar e contribuir. Trabalhar firme, colaborar, pôr em prática o que se aprende na teoria do isolamento. Afinal, por que raio alguém faz um retiro espiritual senão para aprender com o silêncio, ouvir a sua voz interior longe do burburinho e tentar dar jeito nas coisas?

Acontece que, do jeito como tudo anda, tem gente cuja voz interior não grita outra coisa além de “volte lá e acabe com todos eles”. É triste, mas verdadeiro.

Não há retiro espiritual que dê jeito em espírito de porco. Não sozinho. Esse buraco fica mais embaixo e bem mais longe que o retiro mais afastado.

Mas a gente não pode perder a esperança. Tomara que esse ano os retiros se encham de gente e os espíritos se completem de humanidade. Talvez seja esse o espírito da coisa.

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André J. Gomes
Jornalista de formação, publicitário de ofício, professor por desafio e escritor por amor à causa.