Exibida originalmente entre 1979 e 1985, Os Gatões (The Dukes of Hazzard) ficou marcada pelas perseguições de carro, pelo Dodge Charger laranja conhecido como General Lee e pelas confusões protagonizadas por Bo e Luke Duke no fictício Condado de Hazzard.
A série teve 147 episódios ao longo de sete temporadas, tempo suficiente para acumular erros de continuidade, soluções improvisadas, mudanças de elenco e algumas decisões de produção que hoje chamam tanta atenção quanto as acrobacias com automóveis.
Algumas dessas falhas são discretas e passaram despercebidas durante décadas. Outras envolvem pontos importantes da própria história da série.
Bo e Luke saíram do condado apesar de serem proibidos de fazer isso
Um dos principais elementos do enredo de Os Gatões era a liberdade condicional de Bo e Luke Duke. Por causa de problemas anteriores relacionados ao transporte ilegal de bebidas, os primos tinham restrições para sair do Condado de Hazzard sem autorização.
A regra, porém, nem sempre recebeu o mesmo tratamento dos roteiristas.
O exemplo mais evidente surgiu na quinta temporada. John Schneider e Tom Wopat, intérpretes de Bo e Luke, afastaram-se temporariamente da produção durante uma disputa contratual. Para explicar o desaparecimento dos personagens, a série informou que eles haviam deixado Hazzard para disputar corridas profissionais da NASCAR.
O problema estava justamente aí: participar de um circuito desse tipo exigiria viajar para diferentes lugares, enquanto uma das condições recorrentes da liberdade condicional dos dois era permanecer no condado, salvo mediante autorização.
A série nunca apresentou uma explicação clara para essa longa ausência. Depois que Schneider e Wopat retornaram, as restrições dos personagens continuaram sendo mencionadas normalmente.
Durante o período sem Bo e Luke, os primos Coy Duke, interpretado por Byron Cherry, e Vance Duke, vivido por Christopher Mayer, assumiram funções muito semelhantes às dos protagonistas.
O motorista do General Lee muda durante a mesma sequência
A quantidade de perseguições e cenas de automóveis exigia que a produção reaproveitasse imagens em diferentes momentos. Isso acabou produzindo alguns problemas de continuidade.
Em determinadas sequências, por exemplo, Luke aparece dirigindo o General Lee. O plano seguinte utiliza uma imagem previamente gravada e coloca Bo ao volante. Pouco depois, quando a cena retorna ao material filmado para aquele episódio, Luke volta a ser o motorista.
Era um tipo de erro bem mais fácil de passar despercebido quando os episódios eram vistos apenas uma vez por semana na televisão. Com reprises, DVDs e vídeos disponíveis para serem pausados, essas pequenas trocas ficaram muito mais visíveis.
A reutilização de cenas aumentou ao longo da produção, principalmente porque destruir Dodge Chargers continuamente estava ficando caro e os carros disponíveis eram cada vez mais difíceis de encontrar.
Um carro chega a mudar de modelo durante uma acrobacia
Há casos ainda mais evidentes.
No episódio Carnival of Thrills, da terceira temporada, uma sequência envolvendo um salto de automóvel apresenta uma troca curiosa. Bo começa a tentativa dirigindo um Plymouth Satellite. Quando o veículo chega à rampa, ele se transforma em um Plymouth Fury. Depois da aterrissagem, surge como um Ford Gran Torino.
Tudo acontece dentro da mesma ação.
O episódio possui outros problemas de continuidade registrados, incluindo mudanças no tipo de estrada visto entre tomadas e alterações na estrutura de proteção do General Lee.
Essas inconsistências têm uma explicação prática: automóveis utilizados em grandes saltos frequentemente eram danificados ou destruídos. A prioridade era conseguir a tomada necessária, não necessariamente preservar o mesmo carro em todos os planos.
Até a buzina do General Lee começou por acaso
O som da buzina do General Lee se tornou uma das características mais reconhecíveis do carro, embora sequer estivesse previsto originalmente.
Durante as filmagens dos primeiros episódios na Geórgia, integrantes da produção ouviram um automóvel passando com uma buzina que reproduzia a conhecida melodia “Dixie”. Eles seguiram o motorista e conseguiram comprar o equipamento.
Depois descobriram que se tratava de um acessório comercial relativamente comum e que poderia ter sido comprado em uma loja de peças por uma fração do valor desembolsado.
A buzina física foi utilizada nos cinco primeiros episódios. Quando a produção passou a trabalhar nos estúdios da Warner Bros., o som começou a ser acrescentado durante a pós-produção.
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O General Lee também mudou de aparência
Nem todos os General Lee utilizados durante a produção eram perfeitamente iguais.
Nos cinco primeiros episódios, gravados na Geórgia, o carro apresentava um detalhe adicional próximo ao vidro traseiro: uma bandeira quadriculada junto à bandeira confederada.
O elemento acabou eliminado porque reproduzi-lo repetidamente nos diferentes Dodge Chargers utilizados nas filmagens complicava a preparação dos veículos.
E havia muitos carros para preparar.
Os saltos vistos na série frequentemente terminavam com danos estruturais sérios. Um Charger usado em uma acrobacia poderia ficar inutilizado depois de uma única tomada.
Com o passar dos anos, encontrar exemplares adequados ficou tão difícil que membros da produção chegaram a abordar proprietários de Dodge Chargers encontrados nas ruas para perguntar se estavam dispostos a vender seus veículos.
A escassez ajudou a explicar o aumento do uso de imagens reaproveitadas e até de miniaturas nas temporadas posteriores.
John Schneider inventou idade, origem e uma escola inteira
Nem todos os truques aconteceram diante das câmeras.
John Schneider tinha apenas 18 anos quando participou dos testes para interpretar Bo Duke. Os produtores, porém, procuravam alguém mais velho e com aparência de rapaz criado no interior do Sul dos Estados Unidos.
Schneider resolveu adaptar seu currículo às expectativas.
Ele disse ter 24 anos, afirmou ser um rapaz de fazenda da Geórgia e contou que havia concluído um curso em uma instituição chamada Georgia School of High Performance Driving.
Havia um pequeno inconveniente: a escola não existia.
Décadas depois, o ator confirmou que inventou a instituição e outras informações durante o processo de seleção. Schneider, na realidade, havia crescido em Nova York e já possuía experiência como ator. A estratégia funcionou e ele conseguiu o papel que definiria boa parte de sua carreira.
Boss Hogg podia cometer vários crimes, com duas exceções
Jefferson Davis “Boss” Hogg passou a série envolvido em golpes, esquemas e diferentes formas de corrupção. Mesmo assim, havia limites estabelecidos para o personagem.
O contrato de Sorrell Booke determinava que Boss Hogg não poderia participar de tráfico de drogas nem cometer assassinato.
A condição ajudava a manter o vilão dentro do tom cômico da série. Hogg poderia enganar os Duke, manipular Rosco e organizar seus planos ilegais, porém sem ultrapassar determinados limites que poderiam torná-lo ameaçador demais para o formato familiar do programa.
Booke também utilizava enchimentos sob o figurino para deixar Boss Hogg consideravelmente mais corpulento.
Os famosos shorts de Daisy quase foram barrados
Catherine Bach acabou criando uma associação tão forte entre Daisy Duke e seus shorts jeans que o nome da personagem entrou no vocabulário popular dos Estados Unidos: peças muito curtas desse tipo ainda são chamadas de “Daisy Dukes”.
A roupa, entretanto, provocou preocupação na emissora.
Os responsáveis consideraram os shorts reveladores demais para a televisão e exigiram que Bach utilizasse uma meia-calça cor da pele por baixo da peça, evitando que aparecesse além do permitido nas cenas.
A solução acabou fazendo parte do visual definitivo da personagem.
A escolha de Catherine Bach para Daisy também contrariou a ideia inicial dos produtores. Segundo a própria atriz, eles imaginavam alguém fisicamente semelhante a Dolly Parton. Bach não correspondia exatamente à descrição, fez o teste mesmo assim e conseguiu o papel.
Waylon Jennings aparecia na abertura sem mostrar o rosto
A voz do narrador de Os Gatões pertencia ao cantor country Waylon Jennings, responsável ainda pela música de abertura da série.
Nos créditos iniciais, porém, ele praticamente permanecia invisível. O público via suas mãos tocando guitarra, enquanto seu rosto não aparecia.
A situação virou piada dentro da própria música. Na versão lançada comercialmente, Jennings incluiu um trecho brincando que sua mãe assistia ao programa, porém só conseguia ver as mãos do filho na televisão.
Jennings finalmente apareceu de corpo inteiro em Welcome, Waylon Jennings, episódio exibido em 1984 no qual interpretou a si mesmo.
O General Lee quase teve outro nome
O Dodge Charger 1969 utilizado por Bo e Luke recebeu o nome General Lee em referência ao general confederado Robert E. Lee.
Antes disso, entretanto, outro nome esteve em consideração: Traveler.
A inspiração vinha do filme Moonrunners, obra que serviu de base para a criação de The Dukes of Hazzard. A referência estava ligada a traficantes de bebida clandestina que dirigiam um Chrysler de 1958 chamado Traveler.
Os produtores acabaram optando por General Lee.
Curiosamente, apesar de o carro ter se tornado praticamente um personagem da série, existe um episódio em que ele não participa: Mary Kaye’s Baby, exibido ainda no início da primeira temporada.
Ao longo de seis anos de produção, erros de continuidade, carros substituídos às pressas, cenas recicladas e soluções improvisadas acabaram ficando registrados nos episódios. Boa parte passou quase invisível na televisão dos anos 1980. Hoje, com a possibilidade de rever uma mesma sequência quantas vezes quiser, fica bem mais difícil esconder um Plymouth que vira Ford no meio de um salto.
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