Quando combatemos moinhos de vento

Assim como o personagem título do romance de Miguel de Cervantes, às vezes me pego combatendo moinhos de vento.

Há algum tempo li “Dom Quixote de la Mancha”, clássico da literatura espanhola escrito por Miguel de Cervantes. A trama segue os passos de Dom Quixote, um homem que perde a razão por muita leitura de romances de cavalaria e passa a acreditar que é um herói de capa e espada, como aqueles dos romances. No seu delírio de grandeza, Dom Quixote, ao lado de seu fiel escudeiro Sancho Pança, vive mil aventuras, combatendo monstros imaginários. Em um dos episódios do livro, Dom Quixote esbarra, em suas andanças, como um moinho de vento. Ele imediatamente vê no moinho a figura de um gigante a ser combatido. E é justamente esse episódio do moinho de vento que vez ou outra me volta à memória, quando identifico em mim mesmo, ou vejo em alguém, um mecanismo de defesa parecido com o de Dom Quixote.

Assim como o personagem título do romance de Miguel de Cervantes, às vezes me pego combatendo moinhos de vento. O inimigo não é real, ou pelo menos não tem a mesma figura que eu enxergo. Quando conheço alguém e, de cara, não simpatizo com a pessoa, posso ver nessa pessoa um inimigo, alguém que potencialmente me fará algum mal. Alguns chamam de sexto sentido, de instinto… E quem sabe, pode até ser. Mas aí eu me pergunto (porque desenvolvi o hábito): como posso alimentar sentimentos negativos em relação a alguém sem nem mesmo ter me dado a oportunidade de conhecê-lo? O que é que está por trás da minha imediata implicância com aquela pessoa? São as atitudes desse alguém ou são os meus próprios preconceitos e complexos de inferioridade que estão me levando a vê-lo como uma ameaça? Será que o inimigo não sou eu mesmo?

E cada vez mais me deparo com pessoas que passam a vida combatendo moinhos de vento. Pessoas que esperam sempre o pior do outro; que sabotam amizades sinceras e saudáveis por medo de serem traídas. É como se elas vissem o mundo através de uma janela empoeirada e suja. Por ter a absoluta certeza de que as pessoas do seu convívio hora ou outra irão pisar na bola, os “Quixotes” tendem a estar sempre na defensiva, à espera daquele momento em que serão passados para trás ou atraiçoados. Logo a sua previsão pessimista se concretiza, afinal, relações saudáveis não florescem em terreno hostil. E, ao invés de se dar conta da própria contribuição para que aquela situação acontecesse, os Quixotes só conseguem pensar, “Eu já sabia!”.

Traumas, Insegurança, medo, complexo de inferioridade, preconceito e muitos outros motivos nos levam a ver problema onde não existe. Estamos todos sujeitos a fazer uma interpretação equivocada da realidade que nos cerca, e por isso é preciso estar atento. Muitas vezes o que está em jogo é valioso demais para deixar se perder.

Vivamos as nossas relações como se deve, com plenitude, sem amarras, sem medo. Não estou defendendo um otimismo cego, apenas sugiro que às vezes vale à pena abrir a janela e enxergar o mundo lá fora com as cores que ele realmente tem.

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Imagem de capa: Obra de arte Surrealista Dom Quixote de Dali – Moinhos da Paz

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Felipe Souza
O socorrense Felipe Souza descobriu cedo o seu interesse pela literatura e pela escrita. Nos primeiros anos da escola já era uma criança imaginativa que tinha especial interesse pelas aulas de Redação e de Língua Portuguesa. Na adolescência, já se arriscando a produzir seus próprios textos, participou de três edições do Mapa Cultural Paulista, tradicional concurso literário do Estado, inscrevendo seus contos, “Procura-se uma identidade, de 2005, “Rotina”, de 2006 e “(Minha vida cabe dentro de um parêntese)”, de 2007, que, em suas respectivas participações, conquistaram a primeira colocação na fase municipal da competição.Felipe cursou Letras- Português e Inglês, na PUC-Campinas e trabalha desde novembro de 2016 produzindo conteúdo jornalístico para a Rádio Socorro.