Professores pediram o cancelamento desta série coreana, mas ela virou sucesso absoluto na Netflix

Uma série sul-coreana sobre violência nas escolas conseguiu alcançar o primeiro lugar entre as produções de língua não inglesa mais assistidas da Netflix apenas três dias depois de sua estreia. O resultado chamou atenção especialmente porque, meses antes, organizações de professores e entidades de defesa dos jovens haviam pedido que o projeto fosse cancelado.

A produção é “Aprendendo a Lição”, conhecida internacionalmente como Teach You a Lesson. Lançada em 5 de junho de 2026, ela mistura ação e drama para acompanhar uma equipe de agentes que intervém em escolas marcadas por bullying, abusos de autoridade e conflitos entre estudantes, professores e familiares.

Em seus três primeiros dias, a minissérie acumulou 6,4 milhões de visualizações, segundo os dados divulgados pela Netflix. Na semana seguinte, o desempenho cresceu significativamente, chegando a 21,1 milhões de visualizações e colocando a produção entre os dez títulos mais assistidos em 91 países, incluindo o Brasil.

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Por que a série provocou tantos protestos na Coreia do Sul?

A controvérsia começou bem antes das gravações. A história foi adaptada do webtoon Get Schooled, uma publicação digital sul-coreana criada por Chae Yong-taek e ilustrada por Han Ga-ram.

Embora tenha conquistado leitores, a obra recebeu críticas pela maneira como retratava estudantes considerados problemáticos e pelas punições físicas aplicadas aos personagens.

Um dos episódios mais controversos foi publicado em 2023 e envolvia um personagem negro mestiço, apresentado como agressor, além do uso de uma expressão racista. A repercussão levou a plataforma Webtoon a retirar a publicação de seu catálogo norte-americano. Outros trechos também foram questionados por representações consideradas sexistas e pelo tratamento dado à violência como instrumento disciplinar.

Quando a adaptação para a televisão avançou, as críticas ganharam força.

Em julho de 2025, uma coalizão formada por 62 organizações e representantes da sociedade civil realizou uma manifestação diante da sede da Netflix na Coreia do Sul. Entre os participantes estavam integrantes de sindicatos de professores e grupos de defesa dos direitos de crianças e adolescentes.

As entidades argumentavam que a narrativa poderia contribuir para normalizar castigos físicos e enfraquecer avanços na proteção dos estudantes. Também questionavam a representação dos problemas enfrentados nas escolas, considerada exagerada e distante das soluções necessárias para a educação.

Os manifestantes chegaram a exigir a interrupção da produção e defenderam a criação de diretrizes éticas para conteúdos audiovisuais relacionados ao ambiente escolar.

Uma equipe que resolve problemas escolares de maneira nada convencional

Na trama, o governo cria um departamento fictício de proteção dos direitos educacionais, responsável por intervir em instituições onde os conflitos ultrapassaram a capacidade de atuação dos profissionais da escola.

O protagonista é Na Hwa-jin, interpretado por Kim Moo-yul, um inspetor que utiliza sua experiência em combate e métodos pouco ortodoxos para enfrentar agressores.

Ele trabalha ao lado de outros agentes, incluindo Im Han-rim, vivida por Jin Ki-joo, e Bong Geun-dae, interpretado por Pyo Ji-hoon. Lee Sung-min completa o elenco principal como Choi Gang-seok, autoridade responsável pela criação do departamento.

Ao longo dos dez episódios, os personagens enfrentam situações que envolvem intimidação entre estudantes, interferência de pais influentes, professores acusados injustamente e abusos dentro das instituições.

O diferencial está na maneira como esses casos são resolvidos. Em vez de apostar exclusivamente em procedimentos administrativos ou mediação de conflitos, os agentes frequentemente recorrem à força física e a confrontos diretos.

Essa abordagem garante cenas de ação e momentos de tensão, mas também alimenta o principal debate relacionado à produção: os limites da violência como resposta para problemas educacionais.

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A Netflix mudou elementos polêmicos da história original

Parte das controvérsias do webtoon não chegou à versão televisiva.

Segundo o jornal sul-coreano Korea JoongAng Daily, os responsáveis pela adaptação deixaram de fora algumas das passagens mais criticadas, incluindo o episódio envolvendo ofensas racistas e uma sequência que retratava uma professora sendo agredida por abordar conteúdos feministas.

O diretor Hong Jong-chan, conhecido por trabalhos como Juvenile Justice, reconheceu as preocupações relacionadas ao material original e procurou apresentar os conflitos sob uma perspectiva diferente.

Ainda assim, a série preservou situações controversas. Uma delas envolve uma estudante que faz uma falsa acusação de violência sexual contra um professor, desencadeando consequências graves.

A escolha recebeu críticas por potencialmente reforçar estereótipos sobre denúncias falsas de abuso.

Em entrevista ao Korea JoongAng Daily, Hong afirmou que a violência retratada na produção pertence ao campo da fantasia e não deve ser entendida como uma solução aceitável na vida real.

Sucesso de audiência não encerrou as críticas dos professores

A estreia dividiu opiniões entre educadores sul-coreanos.

Alguns reconheceram na narrativa situações semelhantes às dificuldades enfrentadas por professores, especialmente diante de episódios de bullying, conflitos com familiares e falta de respaldo institucional.

Outros demonstraram preocupação com a possibilidade de o público interpretar a atuação violenta dos protagonistas como uma forma legítima de restaurar a disciplina.

A Federação Coreana de Associações de Professores reconheceu que a produção aborda problemas presentes nas salas de aula, mas ressaltou que os profissionais da educação precisam de proteção jurídica e mecanismos institucionais, não de intervenções violentas.

A discussão ganhou espaço na imprensa sul-coreana mesmo enquanto a minissérie liderava os rankings de audiência.

Fora da Coreia do Sul, o desempenho foi igualmente expressivo. Na segunda semana após a estreia, Aprendendo a Lição alcançou a primeira posição entre as séries de língua não inglesa em 46 países, de acordo com a Netflix.

O interesse continuou nas semanas seguintes. A produção permaneceu durante quatro semanas consecutivas no topo do ranking mundial de séries não faladas em inglês e, até o final de julho, já havia ultrapassado 60 milhões de visualizações acumuladas, conforme os dados de audiência da plataforma.

Apesar do sucesso, uma segunda temporada ainda não havia sido confirmada na atualização divulgada em julho de 2026. O diretor manifestou interesse em continuar a história e explorar novos casos envolvendo os agentes do departamento fictício.

Com dez episódios, “Aprendendo a Lição” está disponível no catálogo brasileiro da Netflix, com classificação indicativa de 16 anos.

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Gabriel Pietro
Gabriel Pietro tem 24 anos, mora em Belo Horizonte e trabalha com redação desde 2017. De lá pra cá, já escreveu em blogs de astronomia, mídia positiva, direito, viagens, animais e até moda, com mais de 12 mil textos assinados até aqui.