“Pobre sofre muito”, diz filha de mulher que faleceu com suspeita de Covid-19 no RJ

Uma filha faz um relato indignado sobre como sua mãe, diabética e hipertensa, faleceu com suspeita de coronavírus depois de ter passado por dois hospitais no RJ. “Eu acho que, se eles tivessem tomado uma providência maior, se tivessem olhado mais para ela, a minha mãe estava aí presente. Eu acho que ela não teve o atendimento adequado.”, disse a filha.

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Daniele Freitas, moradora do Rio de Janeiro, enterrou neste domingo, 29, a sua mãe, Maria Aparecida da Paixão Freitas. O enterro foi feito, segundo ela, com o caixão lacrado, de forma rápida, sem nenhum velório ou chance de despedida.

“Ela tinha só 59 anos. A suspeita é que ela foi infectada pelo coronavírus. Era alegre, uma pessoa amorosa e trabalhava como autônoma, indo diariamente da comunidade onde morava, no bairro de Colégio, na Zona Norte do Rio, até a Ceasa.”, disse a filha em um relato divulgado nesta segunda-feira, dia 30, pelo jornal Extra.

Daniele conta que sua mãe era diabética e hipertensa e que na quarta-feira passada estava resfriada. “a levei para UPA (Unidade de Pronto-Atendimento) de Rocha Miranda. Lá, um exame acusou que a diabetes estava alta e ela foi medicada só para baixar os níveis. Em nenhum momento, o médico fez qualquer outro exame nela e a liberou para casa.”

Quatro dias depois, no sábado, quem passou mal foi seu pai. Ele tossia muito, de acordo com ela. Foi aí que ela decidiu levar ele e sua mãe, que continuava resfriada, até o UPA. “meu pai foi medicado com antibiótico, mas ninguém tirou uma chapa (raio X) dele. Não fizeram nada. Ela também foi atendida por um médico, que parecia não ser daqui… Ela sempre foi calma para falar sobre seus problemas de saúde, mas ele foi tão ignorante com ela, quase gritando, e disse que só a diabetes estava alta.”

PAM de Irajá onde a paciente Maria Aparecida Freitas morreu com suspeita de coronavírus Foto: Reprodução / Google Street View

Naquele mesmo dia, sua mãe teve febre alta e sua respiração passou a ficar ofegante, como fosse sintoma de bronquite. “Ela estava sentindo falta de ar, mas dizia que estava bem. Como a febre não baixou, eu a levei para o Hospital Municipal Francisco da Silva Telles (antigo PAM de Irajá). Chegando lá, por volta das 20h, nos colocaram em uma sala isolada. Ela estava conversando normalmente comigo.

“O médico nos explicou que, aparentemente, ela estava com o coronavírus. Daí, ele disse que iriam entubar ela. Depois disso, ela nunca mais voltou. Eu não sei o que eles fizeram com ela lá dentro.”

E então veio a pior notícia: “Entramos sábado, às 20h, e ela conversou bem até 0h. Ter sido entubada acabou com a vida dela. Eles não falaram o que de fato aconteceu. No atestado de óbito, conta que ela faleceu às 1h36 e com suspeita de coronavírus, porque ela tinha outros problemas. No papel, está escrito que ela teve pneumonia, um dos pulmões estava com problemas, diabetes elevada e insuficiência respiratória com suspeita de Covid-19. Só vou saber quando sair o resultado do exame, acho que demora dez dias… Eu não sei, não me falaram nada.” , conta a filha.

Daniele então faz um desabafo emocionado: “Só penso que é um descaso. Sinto que gente que é pobre sofre muito, mas o rico não. O rico com dinheiro consegue tudo rápido, atendimento, faz tudo que precisam. Já o pobre sofre para ter qualquer atendimento. O pobre não pode ficar doente, não tem nem o direito de levar os pais para o hospital particular, porque não tem dinheiro, não tem plano de saúde. Essa é a minha indignação. Eu perdi minha mãe e ninguém vai trazê-la de volta. […] Estou arrasada, agora preciso dar todo o apoio para o meu pai, que tem 67 anos.”

Daniele também teceu críticas à falta de investimento no sistema público de saúde: “Tanto dinheiro investido em coisas sem necessidade, e a saúde pública desse jeito. Por que não cancelaram o carnaval? Foi essa praga que trouxe essa doença infeliz para cá, e que está matando muita gente. Veio uma porrada de gente infectada para cá e trouxe o vírus para matar todo mundo e tirar a vida das pessoas boas, como a minha mãe”.

Resposta da Prefeitura

A Secretaria municipal de Saúde (SMS) confirmou que a paciente esteve na unidade para atendimentos em dois dias distintos. No primeiro, dia 25, ela não apresentava os sintomas de Covid-19, e “foi medicada para o quadro apresentado e liberada”. Na segunda vez, dia 28, ela passou por exames, “mas ao ser chamada para revisão pelo médico, tinha deixado a unidade”.

Daniele, no entanto, negou que a mãe tenha deixado a UPA sem autorização do médico. Ela explica que que sua mãe estava com um acesso no braço e que só depois que ela diminuiu a taxa da diabetes, elas deixaram a unidade.

Ainda segundo a Secretaria municipal, dona Maria Aparecida foi levada ao Hospital Municipal Francisco da Silva Telles (antigo PAM Irajá) com febre e insuficiência respiratória aguda, piorando rapidamente.

“Ela foi entubada e todos os procedimento de emergência foram realizados mas, infelizmente, ela não resistiu. O caso é considerado como suspeito de Covid-19 e a família foi orientada sobre os cuidados preventivos para evitar contaminação de outras pessoas. O exame da paciente foi enviado para o laboratório oficial e o resultado sairá dentro de alguns dias. Qualquer caso de coronavírus só pode ser notificado como confirmado após o laudo do exame ficar pronto”, diz parte da nota.

Procurada pelo Extra, a Secretaria estadual de Saúde (SES), ainda não respondeu se a morte de Maria Aparecida Freitas é investigada por suspeita de coronavírus, e se enquadra nos 47 óbitos no estado que estão em análise para Covid-19, segundo o último boletim divulgado no domingo.

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Redação CONTI outra. Com informações de Extra

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