Algumas vezes fui acusado de insensibilidade. E eu devo mesmo ter sido insensível por diversas vezes ao longo dos últimos vinte e nove anos, e por isso peço desculpas sinceras a todos os que já foram vítima da minha falta de habilidade com as emoções. Em minha defesa, argumento que fui ensinado desde muito cedo a castrar minha sensibilidade. Sei que as coisas vêm mudando, mas até pouquíssimo tempo atrás, ainda se ouvia uma voz coletiva dizendo aos meninos chorões: “Engula o choro! Homem não chora”.

Ser sensível sempre foi uma qualidade melhor aceita nas meninas. Em nossa sociedade, o que se exige dos garotos é que eles sejam fortes, destemidos, corajosos, com talento para as coisas de ordem prática. Um menino sensível é sempre visto como alguém a quem falta alguma coisa. Ou falta influências masculinas em sua vida, ou falta carinho em casa, ou falta alguém que o coloque na linha. É cruel, mas têm sido assim. Meninos sensíveis são podados até se tornarem homens embrutecidos, incapazes de entender seus próprios sentimentos. E nasce aí um problema que desde sempre vêm contaminando as relações, afinal, quem não entende os próprios sentimentos, por consequência, não considera, ou não entende, os sentimentos alheios.

Eu fui vítima desse processo de embrutecimento e isso moldou o padrão de grande parte das minhas relações afetivas na vida adulta. Por ter sido criado em um sistema opressor, que exigia de mim que eu passasse pelos problemas e pelas crises como um rolo compressor, sem me dar a oportunidade de entender o que estava acontecendo comigo e ao meu redor, aprendi a não sentir. Suprimi dores, amorteci o impacto das minhas perdas, fui deixando pedaços de mim pelo caminho, na ilusão de estar seguindo inteiro. E por isso ofereci a muitas das pessoas a quem amei um homem incompleto.

Há pouco me dei conta de que não tenho agido de acordo com o que a minha natureza pede, então tratei de ir recolhendo meus pedaços. Há de se dizer que o resgate da sensibilidade não é tarefa simples. É um aprendizado diário. Mas já sinto em mim uma sensibilidade em ebulição e eu não posso e não quero mais contê-la. Ser um homem sensível é um dom e uma dádiva. Minha natureza me permite enxergar e celebrar a beleza que permeia todas as coisas. Me permite entender a mim mesmo e ao outro. Me permite estar verdadeiramente inteiro, entregue e lúcido.

Então, por relações mais sinceras e mais sadias, por mais poesia nesse mundo cheio de prosa, por mais sorrisos e lágrimas desavergonhados, e pelo meu desejo de povoar o mundo com gente que sente, eu peço: Pais, não reprimam a sensibilidade seus filhos homens! Porque sentir e se deixar conduzir pelas emoções é para os fortes.

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Felipe Souza é escritor, jornalista, editor de conteúdo para a internet e agora também podcaster. E, além disso, um leitor voraz e um curioso sobre os mais diversos assuntos.