“Ainda vamos rir disso tudo depois”.

“Ainda vamos rir disso tudo depois”.

Pode até ser, mas não é agora.

Consolar um amigo com frases feitas é aumentar os decibéis do choro. Quem foi não vai voltar com ajuda desses arranjos verbais mal feitos.

Um amigo costuma silenciar na hora do choro gritado do outro, pois compreende que a palavra nesse momento, pode equivaler a um “eu avisei” na hora da raiva. A tendência é piorar a situação. O jeito é ficar ao lado, quieto e evitar a cara de paisagem.

Demonstre que está pronto para fazer qualquer coisa, inclusive passar o café no coador de pano, que o seu amigo tanto gosta. Evite comentários idiotas sobre o lançamento da versão magnífica do coador com tecnologia de ponta disponível no mercado. Isso não é importante e ele não quer saber. Sirva o café. Seja generoso. Compre as bolachas que ele adora. Traga aquele bolo com recheio de calda de morango e não fale sobre as taxas de glicose no sangue. Não é da sua conta. Ele gosta assim.

Se tem uma coisa que a tristeza costuma fazer com louvor é abrir as comportas do apetite. Uma pessoa triste encontra ânimo no alimento de sua preferência. A palavra do amigo sobre a situação nem sempre ajuda. A companhia, sim. Esteja disposto a dividir a dor e o lanche. Responda apenas o que for perguntado e opine somente se ele pedir. Evite as frases: “vai passar”, “vamos rir disso tudo depois” e “a vida é assim mesmo”. O que pode passar é a vontade de ele manter um amigo inconveniente e falastrão.

Comporte-se com a destreza de quem já viveu situação semelhante, mas não faça comparações. Seja flexível se o seu amigo disparar a falar demais, como se quisesse rebobinar o passado e encontrar o erro. Lembre-se que ele está sofrendo e você é o melhor amigo dele. O responsável por manter o coração dele sóbrio. Seja um bom ouvinte. Ouça a ladainha do relacionamento falido sem demonstrar incômodo. Quem perde um amor precisa contar a história diversas vezes para convencer a si mesmo que não faz mais parte dela.

Ofereça o ombro, lenços e os ouvidos sem titubear. Saiba que você está numa importante missão de resgate, qualquer erro pode colocar tudo a perder.

Se o seu amigo lembrar de um acontecimento feliz da infância, embarque nessa viagem. Sempre dá certo. Fale sobre como ele era habilidoso com a bola nos pés, o herói do time. O aluno mais dedicado e inteligente da turma.

Daqui a pouco, você vai perceber que o choro se mistura ao riso e já é possível falar sobre outros assuntos sem resvalar na mágoa exposta.

Cuidar de um amigo que jura ter perdido um amor é saber devolvê-lo a ele mesmo, antes que ele se perca de vez.

Algumas considerações sobre o Divino, a espiritualidade e as suas derivações mundanas

Algumas considerações sobre o Divino, a espiritualidade e as suas derivações mundanas

Sobre o divino (I)

Sou perfeitamente capaz de sentir aquele quanto de felicidade que nos reserva, a nós homens comuns, a possibilidade do Nirvana, ainda que de modo fugaz, sem permanência. Aliás, trata-se de algo que já senti tantas vezes. Assim como sou perfeitamente capaz de sentir-imaginar aquela fusão com o todo, ou a permanência consumada num estado de infinita felicidade, que cabe apenas aos homens iluminados. Sou capaz de ser, portanto, um pouco iluminado; sou capaz de ter, portanto, um pouco do Divino em mim. Até porque eu não tenho, de todo, dificuldades em sentir e imaginar. Mas também sou perfeitamente capaz de identificar o lado fantasista dos meus sentimentos, condição que mais me afasta do primitivo que há em mim.

Sobre o divino (II)

Que um homem não adquira convicções inabaláveis sobre a sua perceção-entendimento do Universo Divino, pois deve sempre aperceber-se de que é demasiado pequeno para não estar muito enganado.

Sobre o Divino e a perfeição-felicidade

“O objetivo de fazer o ser humano feliz não estava nos planos para a criação do mundo.” – Sigmund Freud

A infinita felicidade do homem iluminado só cape na infinita dimensão da nossa capacidade para imaginar e, desse modo, satisfazer o desejo.

Sobre a mente e a mentira psíquica

Neste mundo de tantas mentiras e/ou ilusões o que mais nos mente é a nossa mente, que nos mente muito e sempre nos mente, não fora a dissimulação do que lá está (dentro de nós), a sua arte, ou seja, a condição necessária ao exercício dinâmico das suas funções essenciais, cujo fim último nos escapa. Perante todos estes rodeios inconscientes das mentiras que nos conta a nossa mente, podemos contudo manter-nos, ou não, avisados, tomando a nosso cuidado duas atitudes distintas: ouvir como verdades as mentiras que nos conta; ou então ouvi-las como mentiras que são. E isto fará para nós toda a diferença, entre aquilo que é mentira e aquilo que é verdade. Claro que sempre virão os que não excitarão em refugiar-se de novo naquele lugar-comum, lembrando então que no campo fértil da mente a verdade não existe, nem sequer é interessante. Mas na verdade procuram estes, nem mais, nem menos, do que salvar as mentiras que lhes interessa preservar, não estando nunca interessados na verdade, como algo que fazem questão considerar que não existe. A mentira é, efetivamente, uma disciplina bem mais fácil e conveniente que a verdade.

Sobre as aparências de carácter 

“Quanto mais perfeito parece por fora, mais demónios tem por dentro.” – Sigmund Freud

Feita esta citação permitam-me agora anotar que Freud, garantidamente, não se referia à roupinha vistosa e de boa marca, à maquilhagem, à mala Vuittom e ao Audi TT da senhora “não sei quê”, que auferem uma certa aparência externa socialmente valorizada (tanto quanto criticada; e vem desta critica um esclarecimento acrescentado, sobre o valor que realmente lhe damos); referia-se sim à aparência do carácter, à aparente nobreza do carácter, que quanto mais exibida, mais se destina à dissimulação. E também não nos devemos esquecer aqui que quando Freud fala, é sobre o inconsciente que fala. Nesta medida, as formações reativas são só um exemplo menos dramático desta aparência de carácter (pior será o falso self), mas que muito bem a elucidam. Portanto, de inconsciente se fala. A psicanálise não moraliza, nem sequer quando se trata do Divino, que é o reino do bom caracter.

Talentar

Talentar

por Fernanda Pompeu

Aliás o escritor argentino Jorge Luís Borges (1899-1986) – possuidor de talento em alto grau – cunhou a frase: Talento é uma larga paciência. Ele deixou explicadinha a conexão entre talento e tempo de maturação. Tem outra imagem: talento como diamante bruto, esperando pelo esforço da lapidação. Também há os que creem – me incluo entre eles – que todo ser nasce com algum talento, mesmo que não saiba. Até os cachorrinhos.

Apesar de muito requerido nas artes e na literatura, o talento – ao lado da criatividade – está presente em todos os ofícios. Aprendi isso observando meu irmão, Júlio, dirigir carros. Ele acelera, troca marchas, freia com suavidade de quem carrega, sem deixar cair, um bolo de noiva na cabeça. Além da admiração, incapaz de imitá-lo, morro de inveja.

Existem talentos condenados à invisibilidade: tirar café expresso, virar da forma o pudim no prato, aparar flores. Outros, devido à raridade, são valorizados nos casamentos, famílias, trabalhos e escolas. Por exemplo: o talento de se calar para ouvir.

Daí, vem a pergunta: Talento se aprende?  Mentes doutas e tolas tentam responder essa questão. Na minha modesta opinião: talento não se aprende. A gente sai do útero materno com ele. Ou com eles, pois há pessoas com vários talentos. No entanto, concordo que talento sem trabalho é pérola jogada no bueiro, água escorrendo pela pia.

O x da equação é descobrir qual o talento de cada um. Tem quem passa a vida inteira sem saber. Sem responder a pegadinha: O que eu faço de maneira fácil, quase natural? E faço muito bem?  Será que é empinar pipa, vender cosmético, namorar, pintar quadros? Hum, encontrar o talento vale 1 milhão de euros, não em dinheiro, mas em felicidade.

Sentir-se e saber-se de posse de um talento é bom demais. Até mesmo quando ele vive em segredo. Milhões de talentos não aparecem por falta de oportunidades. Mas o fato do mundo não saber do seu talento, não arranca ele de você. A estratégia é batalhar para que ele encontre terra para vicejar, janela para aparecer, espaço para crescer.

Sempre acreditei que nasci com talento para as palavras escritas. Talento para fazer frases, criar títulos. Pela razão de sentir facilidade ao escrever e, principalmente, felicidade. Experimento agora alegria e espontaneidade ao redigir esta crônica.

Certamente, eu achar que tenho talento para escrever não resolve tudo. Faz anos procuro páginas e telas para trabalhar e mostrar os meus textos. Numa larga e, penso, eterna paciência.

Assim devem ser os relacionamentos: calorosos e totalmente espontâneos

Assim devem ser os relacionamentos: calorosos e totalmente espontâneos

O amor é algo maravilhoso. Do momento do primeiro encontro até o último suspiro, este sentimento é mesmo mágico. E são as pequenas coisas que fazem da felicidade algo tangível. Tão tangível que é possível abraçá-la e dançar com ela. Assim como mostram as ilustrações de Pascal Campion.

Sentir um pouco de timidez ao ser apresentado àquela pessoa.

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Não conseguir controlar a paixão depois dos primeiros encontros.

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É pensar quando o primeiro beijo irá acontecer.

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Esquentar-se perto da lareira e embaixo do cobertor em um dia frio.

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Sorrir e brincar durante o café da manhã. E tomar cada vez mais café da manhã juntos.

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Não se importar com o frio e aguentar mais um pouco só para ficar mais tempo com aquela pessoa especial.

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E depois passar horas se despedindo.

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Surpreender-se todos os dias.

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Agir como bobos e brincar juntos.

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Chegar em casa e brincar um pouco mais.

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Tentar gostar dos pais dele(a).

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E, depois de alguns anos, se alegrar com os reencontros como se fosse a primeira vez.

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Jantar em família.

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Esquecer-se da rotina.

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E aproveitar o fato de que seus filhos crescem tão felizes quanto vocês permitiram.

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A felicidade é um beija-flor que pousa no ombro…

A felicidade é um beija-flor que pousa no ombro…

Que grande engano e que imensa bobagem quando falamos: “É preciso perseguir a felicidade”! Seria a felicidade uma bandida que é preciso perseguir, capturar e aprisionar?

Seria a felicidade o fogo subtraído dos deuses que se faz necessário roubá-lo para que os mortais possam viver melhor?

Não! A felicidade não é para ser capturada; não é possível prendê-la,  torná-la somente sua… Ela não é um feudo e, muito menos, admite um sistema monárquico, onde seria preciso ser súdita de um rei. A felicidade quer a liberdade, gosta de aproximar-se de quem a quer, de quem a procura… Destina-se às pessoas que não são afoitas, nem invejosas e, sim, as que buscam com ardor o sentido do seu viver.

A felicidade quer ser saboreada lentamente, exige atenção, entrega total,  não abre mão de sua fugacidade…

Faz grandes exigências, assim sendo, são poucos os que a encontram. Frequentemente , exige das pessoas árduos exercícios de alma para poder captá-la e, ás veze, surpreende nas coisas banais e simples do cotidiano.

A felicidade não tem um lugar fixo de moradia; os poetas alertam que é “uma pluma que voa pelo ar”. Gosta de estar junto das pessoas que gestam poesias, jardins, sonhos, devaneios e que conseguem ouvir estrelas. Não é de ninguém e é de todos que celebram os impossíveis .

Penso que a felicidade, seja um beija-flor que pousa no ombro!

Se o seu pior pesadelo virar realidade, acorde!

Se o seu pior pesadelo virar realidade, acorde!

Viver é muito perigoso. Sobretudo porque, em geral, somos criados e educados segundo códigos que tratam a vida como algo que possa ser completamente planejado e moldado de acordo com nossos desejos, necessidades ou anseios acalentados. Não é! Se tem uma coisa que a vida não respeita, essa coisa se chama “planejamento”.

Somos extremamente tendenciosos a comprar ideias que nos acenam com soluções mágicas para toda a sorte de obstáculos ou transtornos. Ora, quantos de nós já não sonhou com uma pílula mágica para organizar nosso metabolismo de tal forma que pudéssemos comer e beber tudo que nos desse na telha e ainda assim não engordar, não ser assombrado por taxas perigosas de mau colesterol ou glicemias alteradas? Quem de nós nunca fantasiou a possibilidade de ter um clone que nos representasse no trabalho ou na escola, enquanto ficamos em casa ou passeamos por aí? Quem de nós nunca imaginou a sorte de aprender, sem fazer nenhum esforço, todas as milhões de toneladas de conhecimentos inúteis a que somos apresentados na escola?

Não, não é proibido sonhar, fantasiar ou imaginar. Aliás, sem esses elementos mágicos e invisíveis, a realidade ficaria insuportável. Pobre daquele que faz de sua vida um deserto árido e inóspito, povoado de obrigações, expectativas e tarefas mecânicas. O sonho, o desejo e a fantasia nos colocam num outro patamar na aventura de existir. Sem essas motivações, somos pouco mais que um daqueles bonecos infláveis de posto de gasolina que ficam se debatendo graças a um sopro de ar artificial que os preenche por dentro de algo que não se pode ver, tocar ou guardar na memória.

Acontece que o imprevisível é exatamente igual a qualquer outra coisa nessa vida, tem muitas e inexplicáveis faces que vão se misturando e constituindo a nossa realidade, seja ela nosso sonho idealizado, algo tão medíocre que não nos assusta nem excita ou, o pior de nossos mais horrorosos pesadelos.

E, por incrível que pareça, até os mais temíveis pesadelos têm uma função importante em nossa vida. Pesadelos mexem com alguma coisa lá no fundinho de nossas emoções. Despertam a gente para enfrentar o perigo, esfriam ou fazem ferver a água morna que nos entorpece quando estamos muito acostumados às nossas “seguras rotinas”. Pesadelos fazem a gente buscar outra coisa, sair daquele lugar, sacudir certezas e arriscar saídas que antes pareciam imponderáveis.

Então, se o seu pior pesadelo virou realidade, acorde! Agradeça a oportunidade de enxergar na dor, na perda ou no furacão que devastou suas conquistas, verdades e certezas, algo que o leve a outra viagem, outro jeito de sentir e construir hipóteses para uma nova experiência. De repente, imagine uma nova história. A caneta que vai produzir o roteiro da sua vida está nas suas mãos. Quem sabe, dessa vez você não seja capaz de entender que roteiros são apenas uma parte de todo o resto, todo o resto que vem com a deliciosa liberdade de abraçar a sorte de se reinventar, todo santo dia!

Eu queria ter broxado mais

Eu queria ter broxado mais

Sabe de uma coisa: eu queria ter broxado mais. Isso mesmo. Broxado mais. Muito mais. Sem culpa. Sem remorso. Mas não posso. Homem tem que ser macho, ter que ser firme, homem não chora. Homem tem que ser poderoso, tem que ser admirado, cobiçado, tem que ter sucesso. Isso é demais para mim, é muita pressão. Eu quero ser livre para as minhas broxadas.

Eu queria ter broxado mais para mostrar que sou sensível, que também fico triste e preciso chorar. Não quero ficar o tempo inteiro sobrecarregado, como se tivesse que solucionar tudo. Não quero a obrigação de ser um super-herói; muito pelo contrário, quero poder ser frágil e ser carregado no colo sem julgamentos.

Macho que é macho também chora. Chora porque tem sentimentos e, como é macho, não precisa escondê-los. Chora porque é sensível e, assim, percebe o que o circunda, quando, muitas vezes, o mundo parece que vai acabar. Chora porque se decepciona, frustra-se, tem sonhos irrealizados. Chora porque está apaixonado e não sabe o que fazer.

Errar, todos erram. Então, por que também não posso dar minhas broxadas? Também sou humano e nem sempre consigo atingir altas performances. Erro porque, no meio do caminho, tinha uma pedra e porque tinha uma pedra no meio do caminho. Erro porque, toda vez que erro, aprendo alguma coisa. Erro porque não sou perfeito e faz parte do crescimento aprender com os erros.

Eu queria ter broxado mais para assim enxergar melhor a realidade. Enxergar quem de fato me ama. Enxergar quem está comigo e não abre. Enxergar quem me abraça e me diz o que preciso ouvir quando estou triste. Enxergar quem levanta minha cabeça quando me sinto fraco. Enxergar que, no meio do caminho, tinha uma pedra, mas há também o canto dos pássaros, o cheiro da terra e o barulho das árvores.

Eu queria ter broxado mais para aprender a rir. Rir de mim. Rir do outro. Rir, porque a vida sem o riso se torna chata e monótona. Rir, porque nem sempre conseguimos ser o melhor, apesar de ser o melhor que poderíamos ser. Rir, porque o riso aproxima os homens dos anjos. Rir, porque um sorriso é como um beijo na alma.

As dores continuarão existindo, pois não há resposta para tudo. Então, por que devo me desesperar? Sinto dor, porque as dores amansam o ego e permitem olhar para o lado. Sinto dor, porque queria ser mais do que sou. Sinto dor, porque sinto.

Eu queria ter broxado mais, para me livrar dessa obrigação de ser super-homem o tempo inteiro. Eu queria ter broxado mais, para ouvir mais eu te amos sinceros. Eu queria ter broxado mais, para saber que não estou sozinho. Eu queria ter broxado mais, para provar que, no fundo, no fundo, eu também falho.

Eu queria ter broxado mais, para provar que vou além das minhas fraquezas. Eu queria ter broxado mais, para saber que existe alguém que acredita em mim e que, apesar de tudo, sempre haverá um ombro amigo e um olhar que faz o mundo parar. Eu queria ter broxado mais para ser mais feliz, mesmo que isso custasse mais algumas broxadas.

 

“Diário de uma paixão”: quando o amor resiste, persiste e vence

“Diário de uma paixão”: quando o amor resiste, persiste e vence

O amor verdadeiro persiste, resiste, chama de volta, clama pela sobrevivência, fortalecendo-se, vencendo a dor, a mágoa, a doença, as incertezas. O amor é o que fica, quando tudo o mais se foi.

“Diário de uma paixão” é um filme lançado em 2004, baseado no best-seller de Nicholas Spark, que retrata o amor entre Allie e Noah, dois jovens que se apaixonam e morrem juntos. Mais do que um romance açucarado, o enredo nos leva a refletir sobre a força do amor em nossas vidas, o amor verdadeiro, que persiste e resiste aos temporais e às escuridões à nossa voLta.

O tema é um velho conhecido: jovem pobre se apaixona por jovem rica, encontram a oposição dos adultos, separam-se e reencontram-se, porque o amor é ímã, é demora, procura mútua e despojamento sincero. Envolta por uma bela fotografia e por uma trilha sonora harmoniosa, a história de amor entre pessoas tão diferentes deixa-nos uma mensagem de esperança boa, de que existem, sim, amores duráveis.

Hoje, nada parece feito para persistir, tanto no que diz respeito aos bens materiais, quanto ao que se relaciona aos sentimentos. É mais fácil jogar fora um aparelho do que mandar consertá-lo. É bem mais fácil desistir do amor, diante das primeiras dificuldades, do que tentar superá-las. Tememos enfrentar os obstáculos que atravancam o encontro amoroso, porque muito provavelmente veremos que somos em grande parte causadores dos mesmos.

Para que consigamos superar os obstáculos que se interpõem entre nós e a consumação do amor completo, precisaremos nos despojar de vaidades, de egoísmo, enxergando nossa parcela de responsabilidade naquilo tudo – casal são dois, ou seja, estamos incluídos nessa jornada. Caso não estivermos dispostos a mudar em nós o que prejudica a entrega recíproca, continuaremos delegando ao parceiro a culpa integral do que nos aflige. E então daremos adeus a qualquer chance de sobrevivência amorosa.

Allie e Noah não se relacionavam com harmonia perfeita, muito pelo contrário; porém, conseguiam ter consciência das próprias falhas, dos defeitos do outro, de maneira a lutarem juntos na superação dos entraves. Amor que sobrevive depende disso, de que ambos se reconheçam imperfeitos e reconheçam no outro aquilo que desagrada, pois amor é clareza, certeza, é um voltar, sempre, apesar da distância, apesar dos outros, mas, principalmente, em favor de nós mesmos.

Assistir a tantos casais que já se amaram com intensidade distanciando-se por conta dos tombos que a vida insiste em nos dar é triste. Quando ainda resta dignidade, vale a pena investir na retomada daquele sentimento que uniu dois corações, mesmo que hoje estejam calejados e machucados. O amor verdadeiro, como retratado no filme, persiste, resiste, chama de volta, clama pela sobrevivência, fortalecendo-se, vencendo a dor, a mágoa, a doença, as incertezas. O amor é o que fica, quando tudo o mais se foi, pois é o que nos torna eternos por onde tenhamos respirado o ar da verdade.

O amor não sobrevive de promessas

O amor não sobrevive de promessas

Diariamente, acabamos por fazer promessas de que mudaremos em algo, tanto para nós mesmos quanto para os outros. Prometemos não faltar à musculação, não dar ouvidos a gente chata, não exagerar nos doces ou na cerveja. Prometemos xingar menos, não fofocar, ajudar mais em casa, estudar bastante. E, como previsto, na maior parte das vezes não cumprimos nada daquilo.

Prometermos a nós mesmos alguma mudança de comportamento significa que estamos incomodados com a forma como vivemos, ou seja, temos consciência de que estamos agindo como não deveríamos em alguns aspectos de nossas vidas. Ter essa consciência daquilo que devemos mudar é bom, no entanto, apenas saber o que é preciso ser feito, sem fazê-lo, de nada adiantará.
Continuaremos caminhando aos tropeços.

No caso das promessas feitas ao outro, então temos a consciência, da mesma forma, de que a maneira como estamos compartilhando nossas vidas precisa ser mudada, pois percebemos que poderíamos ser muito melhores do que somos, no sentido de alimentar um relacionamento mais forte e acolhedor. Concordamos com as cobranças alheias, ainda que sob protestos, na certeza de que caminhamos com meias verdades e, mesmo assim, permanecemos emocionalmente estacionados no mesmo lugar. Continuaremos respirando com dificuldades.

É preciso, pois, que passemos a praticar e a viver aquilo que teorizamos no plano das ideias e dos discursos, de modo a que tornemos nossos relacionamentos mais harmônicos e sinceros. Isso porque, muitas vezes, sabemos muito bem quais são as ações necessárias ao enriquecimento de nossos encontros diários, ao passo que teimamos em incorrer – seja por falta de coragem, seja por comodismo – nos mesmos vícios que somente emperram a vivência completa de uma entrega verdadeira.

É injusto iludir as carências alheias com promessas que sabidamente não se cumprirão, bem como é inútil prometermos a nós mesmos mudanças que não teremos coragem de assumir. Embora o outro muitas vezes se deixe iludir, agarrando-se às nossas juras, na esperança de que o amor dê certo, jamais nos isentaremos de nossa parcela de culpa, por nutrir sonhos vãos de quem poderia estar feliz longe de nós, distante dos terrenos arenosos das incertezas a que nos apegamos.

Não prometa que irá mudar. Mude! Não prometa que será mais atencioso. Seja! Não prometa amar para sempre. Ame! Palavras e promessas dissolvem-se ao sabor dos ventos, atitudes fincam raízes naquilo que se sustenta como amor verdadeiro. Qualquer um pode discursar e escrever com propriedade sobre as bases com que se constrói um relacionamento, mas poucos se lançam corajosamente aos encontros da vida, fazendo o que for, na lida diária, para que o amor sobreviva e se renove a cada ventania, mais forte, mais calmo, mais vivo, mais amor.

Ousemos, enfim, cumprir nossas promessas, porque ser um desses poucos corajosos equivale nada menos do que a ser e fazer gente feliz de verdade.

Dicas para Maiores de 60 Anos (e para quem vai chegar lá)

Dicas para Maiores de 60 Anos (e para quem vai chegar lá)

Apresentamos a seguir uma seleção de dicas e sugestões para aqueles que passaram das suas bem-vividas 60 primaveras. Aplicam-se, também, àqueles quem ainda não chegaram lá e pensam no futuro, em querer vivê-lo o mais plenamente possível. Algumas você já sabe, outras podem lhe surpreender. Enfim, leia, reflita, coloque em prática o que lhe convém!

1. É hora de usar o dinheiro (pouco ou muito) que você conseguiu economizar. Use-o para você, não para guardá-lo. Não o desfrute com aqueles que não têm a menor noção do sacrifício que você fez para consegui-lo. Geralmente alguns parentes, mesmo que distantes, têm ótimas ideias sobre como aplicar o seu suado dinheiro. Lembre-se que não há nada mais perigoso do que ‘um parente com ideias’. Atenção: não é época de fazer investimentos grandiosos. Eles acabam trazendo problemas e agora é hora de focar na sua paz e tranquilidade.

2. Pare de se preocupar com a situação financeira dos seus filhos e netos. Não se sinta culpado por gastar o dinheiro consigo mesmo. Você provavelmente já ofereceu o que foi possível na infância e juventude, como uma boa educação. Agora a responsabilidade é deles.

3. Não é mais época de sustentar pessoas de sua família. Estamos nos referindo aos “folgados”, evidentemente. Seja um pouco egoísta, mas não avarento. Tenha uma vida saudável, sem grande esforço físico. Faça ginástica moderada (como caminhar ou nadar, regularmente) e se alimente bem e corretamente.

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4. Compre sempre o melhor e mais bonito. Lembre-se de que, neste momento, um objetivo fundamental é o de gastar dinheiro com você mesmo, com seus gostos e caprichos, bem como os do seu parceiro ou parceira. Após a morte, o dinheiro só gera ódio e ressentimento. Na verdade, traz à tona rivalidades e ressentimentos de muito tempo atrás, que não foram superados.

5. Nada de se angustiar com pouca coisa. Na vida tudo passa, sejam os bons momentos para serem lembrados, sejam os maus, que devem rapidamente ser esquecidos. Há momentos, sim, em que sentimos muita angústia, mas não a alimente. Fará mal para a sua saúde geral, física e mental.

6. Independente da idade, sempre mantenha vivo o amor. Ame o seu parceiro, sua parceira. Ame a vida. Ame seu pet. Ame o seu próximo… E lembre-se: “Um homem nunca é velho enquanto lhe resta a inteligência e o afeto”.

7. Cuide da sua aparência. Frequente o cabeleireiro ou o barbeiro, faça as unhas, vá ao dermatologista, dentista e use bons perfumes e cremes com moderação. Porque se agora você não é bonito, é, pelo menos, bem conservado.

8. Acompanhe as tendências da moda, adaptando-as ao seu físico e a sua idade. Há pouca coisa mais patética do que uma pessoa de meia-idade com penteados e roupas feitas para gente jovem e sarada.

9. Sempre se mantenha atualizado. Leia livros e jornais, ouça rádio, assista bons programas na TV, visite a internet com alguma frequência, envie e responda os seus e-mails e use as redes sociais, mas sem estresse e sem se viciar nelas. Visite os amigos e receba-os, também.

10. Respeite a opinião dos jovens. Muitos deles estão melhor preparados para a vida do que você imagina. Tal como nós, quando tínhamos a idade deles.

11. Nunca use o termo “no meu tempo”. Seu tempo é agora, não se confunda. Pode lembrar do passado, mas com saudade moderada e feliz por ter vivido. O passado é longo e distante. Já, o futuro, está mais perto do que você pensa.

12. Não caia na tentação de morar com seus filhos ou netos. Apesar de, ocasionalmente visitá-los por alguns dias como hóspede, respeite a privacidade deles, mas especialmente a sua. Se você perdeu o seu parceiro, sua parceira, consiga uma pessoa para ajudar com as tarefas domésticas e que possa dormir na sua casa. Tome esta decisão, porém, somente quando não mais puder cuidar de si por conta própria. Seja humilde para reconhecer isso.

13. Pode ser muito divertido conviver com pessoas de sua idade. E o mais importante, não vai funcionar com qualquer um e, sim, se você se reunir com pessoas positivas e alegres, nunca com “velhos amargos”.

14. Mantenha um hobby. Você pode viajar, caminhar, cozinhar, ler, dançar, cuidar de um gato, de um cachorro, cuidar de plantas, jogar cartas, damas, xadrez, dominó, golfe, navegar na internet, pintar, fazer trabalho voluntário em uma ONG ou colecionar alguma coisa. Faça o que você gosta e o que seus recursos permitem.

15. Aceite convites. Batizados, formaturas, aniversários, casamentos, conferências. Visite museus, vá para o campo. O importante é sair de casa por um tempo e sentir vontade de retornar para o seu cantinho. Não se chateie quando não lhe convidarem. Certamente, quando você era jovem também não convidava seus pais e tios para tudo.

16. Fale pouco e ouça mais. Sua vida e seu passado só importam para você mesmo. Se alguém lhe perguntar sobre esses assuntos, seja breve e tente falar sobre coisas boas e agradáveis. Jamais se lamente de nada. Fale em um tom baixo, cortês. Não critique ou se queixe de tudo. Aceite situações e pessoas assim como elas são. Tudo está aqui de passagem e por tempo limitado.

17. Dores e desconfortos sempre surgirão. Não os torne mais problemáticos do que são. Tente minimizá-los e, não transformá-los no principal assunto da sua conversa. Afinal, eles só afetam a você. São, portanto, problemas seus e do seu médico. Lamentações não agregam, nem servem. Para nada.

18. Se você sofreu alguma ofensa por alguém, perdoe. Se você ofendeu alguém, peça perdão. Não arraste ressentimentos pela vida. Eles só servem para encher seu coração de amargor e tristeza. Guardá-los é como tomar veneno esperando que faça efeito em outra pessoa. Não se deixe envenenar.

19. Se você tem uma crença ou pratica uma religião, conserve-a. Se você tem suas crenças, não as imponha a outros. Viva a sua fé intensamente, mas com discrição.

20. Ria-se muito, ria-se de tudo. Você tem muita sorte. Já se pode dizer que tem uma vida longa e a morte só será uma nova etapa. A morte é uma etapa desconhecida, assim como foi incerta toda a sua vida.

21. Não faça caso do que dizem a seu respeito e, menos ainda, do que pensam de você. Se alguém lhe diz que agora você não faz nada de importante, não se preocupe. A coisa mais importante já está feita: você e sua história, boa ou ruim. Sua história foi e ainda está sendo escrita. Agora, é o momento de descansar, ficar em paz e ser tão feliz quanto for possível.

Por último, mas não por fim, lembre: “A vida é muito curta para beber vinho ruim!”

Fonte: Desconhecida, Via Ana Fraiman

Escrever uma frase por dia pode te deixar mais feliz

Escrever uma frase por dia pode te deixar mais feliz

POR LUCIANA GALASTRI

Eu já tentei manter um diário. Algumas vezes. Mas o negócio nunca deu certo por mais de algumas semanas. Seja porque eu tinha familiares enxeridos que gostavam de inspecionar meus escritos ou por pura e simples falta de tempo: afinal, manter um diário normal demanda alguns bons minutos (ou horas) de contemplação e solidão.

Mas uma dica da autora Gretchen Rubin pode te ajudar a manter um diário mais simples, registrar suas lembranças mais poderosas e ainda te deixar mais feliz: escrever uma frase por dia. Afinal, estudos mostram que lembrar de pequenos momentos cotidianos podem nos deixar mais felizes. E, claro, dessa forma quem tem os mesmos problemas que eu com a regularidade de diários pode aproveitar a melhor coisa deles sem sacrificar um tempo que não tem.

E outra coisa bacana: pesquisas mostram que temos uma tendência de escrever em diários os momentos mais felizes. Então quando você reler as suas frases, ela provavelmente trará as melhores lembranças, aumentando seu otimismo – com um esforço mínimo.

Que tal tentar? Conte pra gente as suas experiências através dos comentários ou de nossas redes sociais.

Fonte: The Muse, via Galileu

Sobre ser a melhor versão de si

Sobre ser a melhor versão de si

Não é bem um conselho, ou, tampouco, um discurso daqueles encontrados ao acaso. Mas seja a melhor versão de si. Parece fácil dizer e até mesmo descomplicado para praticar, eu sei. Se fosse simples ignorar os medos, inseguranças e a ausência da coragem para abraçar tais autoconhecimentos, o viver poderia encaixar mais sublimemente. Ainda assim, precisamos tentar. E tentar é tudo o que nos é permitido. Não demandam pedidos, regras e aceitações de terceiros. Basta reconhecer a própria poesia, o abraço apertado, o gesto bendito. Experimente. Desconheça complexidades e incite trivialidades. O coração precisa. Você precisa.

A partir do sorriso, dê o primeiro passo. Entenda e estenda a espiritualidade presente nos sentimentos. Dance, cante, escreva e beije. Atire-se de cabeça nos momentos dos quais fizerem o corpo respirar vida. Sobreviver é uma escolha enquanto viver é imprescindível. Ame a si. Ame o outro. Pratique mais encontros ao invés de se conformar com partidas. A chuva no rosto, os pés descalços, as mãos em respeito e afeto. Transborde. Sinta. A oportunidade presenteia quem almeja seguir e não ficar parado. Mas se os dias estiverem dolorosos, desacelere e aporte. Não há nada de errado em deixar escorrer algumas lágrimas e se ver abatido por tristezas. O problema é quando isso acaba sendo tudo a ser enxergado mais à frente. Logo depois, levante. Peça desculpas. Perdoe e reconstrua caso seja necessário. Mentiras sinceras continuam sendo mentiras e você não quer isso guardado.

Sobre ser a melhor a versão de si, é nas mudanças que elas ocorrem. Sem um final predestinado, tudo depende do quanto estamos dispostos e receptivos, seja para nós ou outro alguém. De qualquer forma, apenas seja. Do seu jeito. Especial, único e memorável.

Fibromialgia: a doença da alma

Fibromialgia: a doença da alma

Por Luziane Soprani

Um corpo sempre será para o sujeito uma “coisa” sua. Assim, para viver cada ser depende habitar um corpo. Desse modo, as paixões, afetos, ideias, são consideradas pelo princípio da filosofia clássica, a localização das mazelas humanas – mencionadas a partir de um corpo – como função de suporte necessário. A análise do corpo constitui uma relação de pertinência entre o existir e sua materialidade. Esse é o âmago de grandes questões que ultrapassam o tempo, a cultura, à vida, o nascimento, à morte e, também, um tema intrínseco à psicanálise: a sexualidade.

Nesse artigo abordaremos a dor física e psíquica sem causa orgânica. Enunciaremos aqui, uma síndrome que não se encontra causa orgânica específica – chamaremos de doença da alma. A síndrome cujas dores crônicas sem causalidade orgânica constatável, são fonte de sofrimento para pacientes e um desafio para os profissionais da medicina. Essa síndrome está localizada na fronteira entre a reumatologia e a patologia psicossomática, com comorbidades de transtornos e uma degradação da qualidade de vida no plano profissional, social e familiar.

A fibromialgia é uma síndrome clínica que se manifesta com dor no corpo todo, principalmente, na musculatura. A síndrome cursa com sintomas de fadiga, intolerância ao exercício e sono não repousante – a pessoa acorda sempre cansada. Os médicos classificam a fibromialgia como uma síndrome, porque caracteriza um grupo de sintomas sem que seja identificada uma causa específica.

Não existe uma causa única conhecida para a fibromialgia, mas existem alguns sinais para identificá-la. Os estudos mais recentes mostram que pacientes com fibromialgia apresentam maior sensibilidade à dor do que outros que não têm a doença. Isso não está relacionado com o fato de se ser “forte” ou “fraco” com relação à dor. Na realidade, funciona como se o cérebro dos fibromiálgicos fosse uma bússola desregulada em que ativasse todo o sistema nervoso para fazer a pessoa sentir mais dor. Sendo assim, nervos, medula e cérebro estariam fazendo que qualquer estímulo doloroso seja aumentado de intensidade.

A dor da fibromialgia é real. Existem estudos experimentais avançados mostrando o cérebro funcionando e os pacientes com fibromialgia sentindo dor. Também foram feitos estudos com o líquido que banha a medula e o cérebro (líquor) e foi visto que as substâncias que levam a sensação de dor para o cérebro estão de três a quatro vezes aumentadas em pacientes fibromiálgicos em comparação com pessoas sem o problema.

Tanto pacientes quanto médicos parecem entender melhor as causas de dor quando existe uma inflamação, um machucado, um tumor, que estão ali, visíveis, causando a dor. Na fibromialgia é diferente; se tirarmos um pedaço do músculo que está doendo e olharmos no microscópio, não encontraremos nada – porque o problema está somente na percepção da dor.

Dados epidemiológicos apontam uma maior incidência dessa entidade clínica em mulheres jovens, mas, não podemos deixar de abordar os homens, com muita sensibilidade a dor. A sociedade e muitos estudiosos insistem em proclamar que às mulheres são mais sofríveis que os homens, no entanto, sob o olhar de uma psicanalista, o sexo masculino sofre tanto como apontam o sofrimento do sexo feminino. Não podemos generalizar e racionalizar que o sexo feminino é mais suscetível do que o sexo masculino. Os homens ainda hoje, precisam omitir os seus sentimentos para não se mostrarem fracos. Isso é uma condição precária da observação humana.

Independente do sexo, existe nessa síndrome uma ausência de evidências na materialidade do corpo e a presença de fatores psicopatológicos dificulta o diagnóstico e tratamento. Face à diversidade e dos fatores envolvidos em determinadas síndromes. Faz-se necessário a indicação de uma abordagem multidisciplinar para um tratamento com resultados mais eficazes.

Nesse contexto, ao mesmo tempo em que os profissionais buscam uma cura para suas dores, os pacientes clamam pelo reconhecimento dessa síndrome que causa muito sofrimento.

DA PSICANÁLISE:

A sugestão é considerar a eventual função da fibromialgia na estruturação psíquica como solução subjetiva. Para o referencial teórico-clínico da psicanálise. A psicanálise fornece elementos para reflexões sobre a dor no corpo e seu lugar na psique.

A partir do estado atual das pesquisas sobre o tema – considerando a escassez de estudos no campo da psicanálise, o ponto nevrálgico para nós psicanalistas é podermos contribuir para uma abordagem da fibromialgia que sustente o relato da experiência de dor. Não temos à pretensão de pôr a fibromialgia a qualquer quadro psicopatológico, como a histeria ou a depressão – o foco da psicanálise é sublinhar a posição subjetiva – daquele que sofre em seu corpo essa dor “insuportável” para então, termos um diagnóstico junto os profissionais médicos no tratamento da fibromialgia.

O que a fibromialgia pode ensinar ao psicanalista? Acreditamos que, para além da doença, há um sujeito em questão e que o diagnóstico em psicanálise se produz a partir da posição que este ocupa frente ao seu sintoma. O que, para além da dor, do que o analisando diz, comporta um falar singular. Se na medicina o diagnóstico se alicerça nos fenômenos comprovados e numa probabilidade estatística, a psicanálise avança, para além dos fenômenos, os modos de enfrentar a singularidade do sofrimento. Da forma como a dor psíquica, implicada na dor física, faz com que a psicanálise avance na subjetividade dos casos sob o olhar clínico. A fibromialgia não pode ser igual para todos, mesmo que haja uma tipologia, uma peculiaridade sintomatológica na doença, o traço único dirá mais sobre aquele que sofre e sobre o uso que faz de sua dor.

O umbral de estimulação requerido para transformar um estímulo sensorial em uma possível ameaça está significativamente rebaixado na Fibromialgia, sendo uma das características principais do processo neurobiológico, que afeta de forma extensa todo sistema e pode converter informações subclínicas em sensações desagradáveis em diferentes partes corporais.” (Collado, A., 2008, p. 517-518).

DA EXISTÊNCIA DE ESTADOS DOLOROSOS CRÔNICOS:

A existência de estados dolorosos crônicos sem substrato orgânico, doenças da dor, é assinalada desde o século XIX. Dentre elas, a fibromialgia (FM), conhecida como fibrosite desde 1904 (Gowers, 1904), tem denominação bastante recente (Smythe e Moldofsky, 1977). Reconhecida pela OMS em 1992, sob a identificação M 79.7 na classificação internacional das doenças (CID), essa síndrome é definida como composta de dores músculo-esquelético acompanhadas, frequentemente, de transtornos do sono e fadiga. A partir dessa classificação, que lhe confere um estatuto de doença, o aumento do interesse sobre a fibromialgia repercute em numerosos estudos (Kahn, 1989; Kochman, 2002; Heymann, 2006; Saltareli, Pedrosa, Hortense e Sousa, 2008). No entanto, sua etiologia permanece obscura e parece remeter a uma origem multifatorial, sem que nenhuma causalidade orgânica tenha sido detectada (Sordet-Guepet, 2004).
A maioria dos textos e estudos sobre o tema indica a possibilidade de uma comorbidades psiquiátrica no que concerne à presença de transtornos de ansiedade e depressão. Sendo assim, apontam a adequação do recurso a tratamentos medicamentosos conforme cada caso é suas comorbidades. Digno de nota, a indicação de tratamento psicoterápico é mencionada no recente estudo brasileiro sobre o tema ao mesmo tempo em que os exercícios de alongamento e assimilados (Heyman et al., Idem). De todo modo, a indicação de uma abordagem multidisciplinar para o tratamento dos casos de fibromialgia parece consenso na maioria dos trabalhos da área médica, figurando tanto no recente estudo Consenso brasileiro do tratamento da fibromialgia (Heyman et al., Ibid) quanto no relatório da Academie Française de Médecine (Menkès e Godeaul, 2007).

Numerosos autores reconhecem o importante e até mesmo preponderante papel dos fatores psíquicos no surgimento da fibromialgia. Ao mesmo tempo, a maior parte deles, rejeitam a assimilação desta a qualquer doença psiquiátrica e somente o componente psicossomático é, em certos casos, evocado. Uma vulnerabilidade psicológica marcada pelo stress (Boureau, 2000), a tendência ao “catastrofismo”, à “victimização”, por vezes uma hiperatividade prévia, um contexto de tensão emocional constante, ansiedade e afetos depressivos vêm esboçar um quadro psicológico do paciente fibromiálgico. Todavia, sublinha-se que as relações de causalidade entre os sintomas psiquiátricos e a fibromialgia são difíceis de confirmar. (Menkès, Godeaul, 2007).

É possível que os transtornos encontrados na fibromialgia (fadiga, transtornos do sono, dores de cabeça, diminuição da atividade cognitiva) fazem observar os sinais de depressão, somando a uma síndrome dolorosa. Porém, não se encontram nem as ideias suicidas nem os elementos de desvalorização e autoacusações. Do mesmo modo, se os autores sublinham as relações inegáveis entre a fibromialgia e uma extensa lista de transtornos psicológicos, entre os quais a hipocondria, transtornos funcionais e somatoformes, o critério principal das dores difusas parece, entretanto, separá-los (Kochman, Hatron, 2003). Unicamente a comorbidades entre os estados de stress pós-traumático (SPT) e a fibromialgia, tanto em termos da expressão sintomática como no da anamnese (eventos traumáticos, violência, abusos sexuais etc.) parece confirmada no plano clínico. Geralmente, a fibromialgia inicia-se após um traumatismo psíquico (eventos recentes ou passados, situação prolongada de stress etc.) ou físico, por vezes mínimo (traumatismo, cirurgia, acidente de trabalho, de transito etc.).

Em muitos casos, as evidencias da doença através do diagnóstico pode permitir ao sujeito certo alívio. Na realidade, o reconhecimento da dor, abre a possibilidade de se ter à mão, como um prêt-à-porter, uma causa que fornece certo sentido aos males somáticos, mas também aos psíquicos. Graças a essa identidade adotada e caracterizada com o selo da fibromialgia, existe o des- prazer de sentir dores corporais, mas, porém, não necessita ser escondida ou omitida.

Na contrapartida às tentativas sempre sem definições e/ou de um diagnóstico exato para descrever um perfil típico do paciente fibromiálgico – correto será obter referências a uma psicopatologia sustentada na consideração do sujeito. Assim, não podemos proclamar que existe a “cura a qualquer preço”, mas pode-se, considerar a eventual função da fibromialgia na estruturação psíquica como solução subjetiva. Nessa ação “esperançosa,” (o médico, o psiquiatra, o psicanalista e/ou psicólogo) podem manter o dizer do sujeito em sua tentativa de esboçar uma teoria pessoal de sua doença. É um primeiro passo, uma via para permitir ao sujeito mudar ou, pelo menos, compreender sua posição face ao sofrimento sem remédio. Em alguns casos, esse pode ser um caminho para uma verdadeira mudança subjetiva, uma abertura para a interrogação sobre à maneira de se colocar no mundo, a singularidade de sua relação ao saber da realidade e lidar com sua condição, buscando viver melhor, sem prostração para não se tornar uma vítima da doença.


REFERÊNCIAS:

Rev. Mal-Estar Subj. vol.10 no.4 Fortaleza dez. 2010.

Entrevista com Reumatologista Eduardo S. Paiva
Chefe do Ambulatório de Fibromialgia do HC-UFPR, Curitiba.

Bennett, R. (2005), The Fibromyalgia impact questionnaire (FIQ): A review of its development, current version, operating characteristics and uses. Clinical and Experimental Rheumatology., 23 (Suppl. 39), S154-S162.

Collado, A. (2008). Fibromialgia: Una enfermedad más visible. Revista de la Sociedad. Española del Dolor, 15 (8), 517-520. Recuperado em 1 agosto 2010, da http://revista.sedolor.es/articulo.php?ID=589

Fernandes, M. H. (2001). As formas corporais do sofrimento: A imagem da hipocondria. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, 4 (4), 61-80.

Freud, S. (1986). La perturbación psicógena de la visión según el psicoanálisis (Obras Completas Sigmund Freud, Vol. 9). Buenos Aires, Argentina: Amorrortu. (Originalmente publicado em 1910).

Gaspard, J.-L. (2009). Le corps du refus dans la modernité: l’exemple de la fibromyalgie. In J-L. Gaspard & C. Doucet (Orgs)., Pratiques et usages du corps dans notre modernité (pp. 129-139).Toulouse: ERES.

Heymann, R. E. (2006). O papel do reumatologista frente à fibromialgia e à dor crônica musculoesquelética. Revista Brasileira de Reumatologia, 46 (1). Recuperado em 1 agosto 2010, da http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0482-50042006000100001&lang=pt

Heymann, R. E., Paiva E. S., Helfenstein, M., Jr. Pollak D. F., Martinez, J. E., Provenza, J. R. et al. (2010). Consenso brasileiro do tratamento da fibromialgia. Revista Brasileirade Reumatologia 50 (1), 56-66. Recuperado em 3 agosto= 2010, da http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0482-50042010000100006Não

Houvenagel, E. (2001). Mécanismes de la douleur de la fibromyalgie. L’Observatoire de la Douleur, 11, 9-12.

 Fonte indicada: Luziani Soprani- Blog oficial

O problema não é ser conservador. É conservar porcaria.

O problema não é ser conservador. É conservar porcaria.

Não, nem todo conservador é um babaca, reacionário, antiliberal e essas coisas que só atrasam a vida. Acredite. Tem um monte de gente boa por aí conservando o que é preciso conservar.

Eu mesmo encontrei dois deles agorinha. Um casal. Estão juntos há uma década. Não se casaram no papel, mas têm uma relação estável e monogâmica. São dois belos conservadores! Os dois trabalham, guardam os dias santos, respeitam pai e mãe, almoçam em família, trocam presentes no Natal e nos aniversários. São felizes, se amam de verdade e agora estão na fila para adotar uma criança. Ah! Os dois são homens.

Sim, porque “conservar” e “renovar” não têm de ser ideais antagônicos e incompatíveis em lugar nenhum. Todos temos o direito de conservar o que quisermos, inclusive a nossa mais sagrada liberdade de sermos quem quisermos ser. Porque todos somos livres para ser quem somos de fato.

Confesso. Eu sou um sujeito conservador! Conservo mesmo, sem culpa e sem medo, um caminhão de coisas. Lembranças e amigos, figurinhas e gibis. O que há de mau nisso? Conservo medos, saudades, tristezas e esperanças. Eu conservo, sim!

Guardo comigo as lembranças da minha família como pequenas joias. Conservo minha bisavó no coração e não abro mão. Agora, isso não quer dizer que eu deseje viver como ela vivia na primeira metade do século passado. Nem que eu pense exatamente como ela pensava ou tome as mesmas decisões que ela tomava. São coisas diferentes, épocas diversas. E o fato de eu conservar o que bem entender do tempo da minha bisavó não faz de mim um retrógrado, não.

Francamente, conservadores somos todos. A questão é pensar bem no que estamos conservando. Há pessoas que conservam o que só é bom para elas mesmas e ruim para os outros: preconceitos, favorecimentos pessoais, tradições duvidosas, privilégios de classe, tabus medonhos e outras antiguidades no mau sentido. São espécies que param no tempo.

Por outro lado, tem gente que conserva seus valores e respeita os dos outros. Gente que mantém suas próprias preferências e deixa o outro preservar as dele. O que há de errado com isso?

Ruim é conservar coisa inútil e se recusar a seguir adiante. É não admitir que os costumes mudam, que o mundo evolui, que dois homens ou duas mulheres podem, sim, ter filhos e formar famílias lindas, felizes, admiráveis! Maus conservadores são horríveis, péssimos, intragáveis.

Mas ahh… quem conserva o que vale a pena merece uma medalha, um prêmio, um título honoris causa. Essa gente, ainda que vez ou outra pareça conservadora, é quem deixa a vida novinha todos os dias.

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