Nas palavras do bardo ex-Los Hermanos, “é só teu coração que não te deixa amar / você precisa reagir / não se entregar assim como quem nada quer…”.
Certa vez, o norte se perdeu. Você, letárgico pelas experiências amargas dos desamores, não acredita na redenção. Quer porque quer atribuir culpa ao fracasso, no descaso incondicional e emocional que o levaram para mais um triste fim. Indo além, não se acha merecedor do mais amor e, relutante, credita que o sofrimento concebido significa ter feito o possível. Mas não é bem assim. Insistentemente, refaz os passos, delineia os fatos e vocabulários. Procura no dicionário explicação para o peito doído, dilacerado pelas mazelas do viver a dois. Acontece que, o direcionamento das frustrações não trará respostas. Seguir através dos caminhos finitos não o fará encontrar os meios. Ambos erraram. Ambos optaram por dizer adeus, ainda que, de alguma forma, um tenha acenado para a saída antes do outro.
Para o amor não há condições, mas situações. Desbravar os nuances dos relacionamentos é como adentrar numa jornada épica e misteriosa rumo ao nada. Mas por que nada? Porque não existe tudo. Corações não podem ser completados, apenas somados. E esta soma apartidária, necessita de sintonia e quereres transcendentes às nossas próprias necessidades. Você procura abrigo quando deveria almejar por alguém que busque partir com você. Quer esticar as pernas no sofá e deixar o tempo passar, mas a estrada sorri através das janelas, e com elas, a oportunidade estupenda de entrelaçar mãos com alguém que quer desbravar o novo junto.
O passado sempre será presente. E neste paradoxo funcional, a cura é tentar sorrir de novo. Aportar em si para reergue-se diferente, para estar receptivo a uma nova tentativa. Mesmo sendo penoso com a desconfiança no limiar da desesperança, aspirando nada menos que a conformidade da suposta maldição para relacionamentos, de repente, numa esquina social, a empolgação rejuvenescedora esteja passando exatamente no mesmo horário, e aí o cinza pode vir a deixar de ser tão cinza.
Esculpir o “se” é irregular, prejudicial e deixa cicatrizes que nem o tempo ou lágrimas podem fazer desaparecer. Ninguém aprecia um coração sofredor, repleto de traumas e descompassado pelas estórias de um outrora. Não há tempo hábil para reestruturar os sentimentos do outro. Você não teve culpa na partida, mas quem chega não possui obrigação de sair entrando de qualquer jeito. Manter isto, torna o ciclo líquido, sem sentido e desencorajador para ambas as partes.
Para reencontrar o norte, dispa-se das expectativas, descubra serenidade e afago nos próprios pés, assim, quem sabe, o teu coração lhe conceda o alvará para amar de novo.
“Que Deus me perdoe e minha mãe me entenda” digo às vezes, assim, pra mim mesma, quando ando cansada de “grandes aglomerações”.
Nunca entediada dos meus afetos, da turminha que me acompanha, mas desejando fechar-me em minha casca, meu casulinho particular, onde teço meus pensamentos, amadureço meus sentimentos, jogo fora o que não merece ser reciclado.
Sou de natureza introspectiva e de vez em quando peço perdão por isso. Perdão porque muita gente não entende essa minha mania de ser só eu, eu e minhas caraminholas tão particulares.
Criamos o hábito de nos ferir. Acostumamos com aquilo que faz mal e perdemos tempo com o que não acrescenta.
Vivemos de aparências para que ninguém perceba o quão incomodados estamos. E por que não revelar que preferimos de outro jeito? Por que não dizer “sim” para nossas necessidades de paz, solidão, escolhas? Por que essa mania de se desagradar para agradar?
Como diz o dr. Drauzio Varella: “Se não quiser adoecer, não viva de aparências. Quem esconde a realidade, finge, faz pose, quer sempre dar a impressão de estar bem, quer mostrar-se perfeito, bonzinho, etc, está acumulando toneladas de peso… uma estátua de bronze, mas com pés de barro. Nada pior para a saúde que viver de aparências e fachadas. São pessoas com muito verniz e pouca raiz. Seu destino é a farmácia, o hospital, a dor”
Então francamente, cá entre nós, vamos tirar esse peso dos ombros, da vida.
Você só deve satisfações a quem realmente importa. Aprenda a não expôr suas dores e delícias de graça nem espere entendimento ou retribuição de onde não há.
Seja leve, diminua as poses e agrade sua alma. Selecione seus afetos e não acumule dívidas com seu interior.
Esqueça algumas pessoas. Nem todo mundo merece destaque na sua vida e manter todos por perto despende energia demais.
Não perca tempo tentando entender. Algumas coisas simplesmente não têm explicação.
Ore por aqueles que ama, entregue seus caminhos a Deus e espere que Ele tome conta. Você não tem controle sobre tudo.
E acima de tudo, se vale algum conselho, cuide do que é seu.
Em momentos de crise, é sempre bom retornar ao passado e tentar aprender com os erros que cometemos. Essa pequena lista de filmes ajuda a entender um pouco mais o momento negro que vivemos durante a ditadura civil-militar.
Os filmes listados vão além do óbvio e mostram a importância fundamental do apoio do empresariado brasileiro para a sustentação do Golpe, bem como a alienação da maior parte da população da época, a qual, inclusive, durante os tempos áureos do regime – leia-se milagre econômico -, avaliava o “governo” militar como maravilhoso. Pena que aqueles que lutaram pela democracia, como o Frei Tito de Alencar, não puderam dizer o mesmo.
O ano em que meus pais saíram de férias (2006) –“Mesmo sem querer nem entender direito, acabei virando uma coisa chamada exilado. Acho que exilado quer dizer: ter um pai atrasado, mas tão atrasado, que nunca mais volta pra casa!”
Dirigido por Cao Hamburger, criador do Castelo Rá-Tim-Bum, o filme se passa no ano de 1970 e conta a história de Mauro (Michel Joelsas), um garoto mineiro de 12 anos que adora futebol. O garoto se vê obrigado a mudar para São Paulo e morar com seu avô paterno, quando seus pais, perseguidos pela ditadura, precisam fugir. No entanto, Mauro pensa que eles estão saindo de férias e, por isso, vai ficar durante esse tempo com seu avô. Acostumado a trabalhar para o público infantil, Cao consegue trazer um olhar lúdico à obra, demonstrando, sob o olhar infantil, o momento turbulento por que passava o Brasil. Aproveitando-se, ainda, da Copa de 1970 e da euforia com a seleção brasileira, ele demonstra as ambiguidades da época, em que alegria se mistura com violência, tristeza e dor, o que se torna ainda mais complexo e mais triste quando observado por uma criança que não entende muito do que acontece ao seu redor.
Cidadão Boilesen (2009) – “Só existe uma democracia no Brasil, que é a democracia da tortura.”
Documentário produzido e dirigido por Chaim Litewski, narra a história de Henning Albert Boilesen, um empresário dinamarquês naturalizado brasileiro, que dirigiu o grupo Ultra, da Ultragaz. O documentário demonstra a ligação do empresariado brasileiro com a ditadura civil-militar, financiando esta pelo “medo” da implantação de um sistema socialista no Brasil. A obra deixa claro que a ditadura não se realizaria sem a participação do empresariado, demonstrando a importância e a participação das grandes empresas nos anos de chumbo, no Brasil, quando, além de financiarem a implantação do golpe militar de 1964, também financiaram a formação da Operação Bandeirante (OBAN), que iniciou a fase mais perversa da ditadura, em que as práticas de tortura ganharam contornos inimagináveis, originando o que viria a ser o DOI-CODI. A produção de Litewski é uma obra-prima do cinema nacional, muito bem construída e estruturada, sendo imprescindível para quem quer entender um pouco mais sobre a ditadura e descobrir a própria participação da sociedade civil na implantação desta.
Memórias do Chumbo – O Futebol nos Tempos do Condor (2012) – “O Médici também era uma pessoa muito popular, é preciso lembrar isso. Ele presidiu o Brasil num momento de grande repressão pra memória da esquerda. mas para memórias das pessoas comuns, que estavam vivendo o milagre econômico, com crédito para comprar geladeiras, fogões e carros, o governo do Médici era ótimo.”
Documentário dirigido pelo historiador e jornalista Lúcio de Castro, a obra revela a ligação do futebol com a ditadura civil-militar no Brasil e em outros países sul-americanos. O filme demonstra a influência da mídia e do jogo mercadológico para a manutenção da ditadura militar através, sobretudo, da euforia criada ao redor do futebol e do milagre econômico, demonstrando, desde aquela época, o poder da economia e do jogo ilusório da mídia sobre as pessoas, para a manutenção da ordem estabelecida, que era, no caso, o regime militar. Lúcio de Castro constrói uma ótima análise, que evidencia as barbáries da ditadura, perseguições, como a de João Saldanha, e a influência das marcas globais, dos EUA e da mídia na construção e manutenção dos regimes ditatoriais sul-americanos, estruturados na Operação Condor. Essencial, o documentário é mais um que demonstra os elementos utilizados para a manutenção da ditadura, que iam muito além da força física. Além disso, ainda conta com a participação do grande Eduardo Galeano.
Batismo de Sangue (2007) – “Nos dias primaveris, colherei flores para meu jardim da saudade. Assim, externarei a lembrança de um passado sombrio.”
O filme é baseado no livro homônimo do Frei Betto, vencedor do prêmio Jabuti. O filme do diretor Helvécio Ratton conta a história dos freis Tito (Caio Blat), Betto (Daniel de Oliveira), Oswaldo (Ângelo Antônio), Fernando (Léo Quintão) e Ivo (Odilon Esteves) que, movidos pelos ideais cristãos, passam a apoiar o grupo guerrilheiro Ação Libertadora Nacional, comandado por Carlos Marighella (Marku Ribas). Com o apoio, eles passam a ser vigiados pelos ditadores e acabam sendo presos e torturados.
A obra demonstra, de forma bem realista, a crueldade que cercava as sessões de torturas e a injustiça que pairava sob o estado de exceção no Brasil. O longa ainda conta com a figura de Cássio Gabus Mendes, interpretando o assassino Sérgio Fleury, delegado do DOPS, além de mostrar a intensificação da violência com a formação do DOI-CODI. Muito bem construído e com ótimas atuações, sobretudo, de Caio Blat, o filme expõe as feridas da Ditadura e como a violência levava a transtornos psicológicos terríveis naqueles que sofriam por lutarem pelo país.
Zuzu Angel (2006) – “Se eu aparecer morta, por acidente ou outro meio, terá sido obra dos assassinos do meu amado filho”.
O filme conta a história de Zuzu Angel, uma famosa estilista brasileira reconhecida internacionalmente e totalmente alheia aos horrores da ditadura e seu filho Stuart (Daniel de Oliveira), que se envolve com as forças contrárias à ditadura. Com o envolvimento, Stuart é preso, torturado e morto pelos militares, o que leva sua mãe a iniciar uma difícil batalha, que consiste em enterrar o corpo do próprio filho. Ao mesmo tempo, vai tomando consciência das atrocidades cometidas e politizando-se contra o regime militar. O longa de Sergio Rezende transmite a dualidade que existia entre aqueles que lutavam contra a ditadura e os que viviam sem se importar com a barbárie do governo militar, demonstrando que, durante algum tempo, a ditadura gozou do apoio popular. Além disso, a obra mostra outro ponto importante da ditadura: o sofrimento das famílias que tinham seus entes queridos torturados e mortos, sem que pudessem nem mesmo ter o direito de enterrá-los e de chorar a sua dor.
“Que qualidade primeira a gente deve esperar de alguém com quem pretende um relacionamento? Perguntou-me o jovem jornalista, e lhe respondi: aquelas que se esperaria do melhor amigo. O resto, é claro, seriam os ingredientes da paixão, que vão além da amizade. Mas a base estaria ali: na confiança, na alegria de estar junto, no respeito, na admiração. Na tranqüilidade. Em não poder imaginar a vida sem aquela pessoa. Em algo além de todos os nossos limites e desastres.
Talvez seja um bom critério. Não digo de escolha, pois amor é instinto e intuição, mas uma dessas opções mais profundas, arcaicas, que a gente faz até sem saber, para ser feliz ou para se destruir. Eu não quereria como parceiro de vida quem não pudesse querer como amigo. E amigos fazem parte de meus alicerces emocionais: são um dos ganhos que a passagem do tempo me concedeu. Falo daquela pessoa para quem posso telefonar, não importa onde ela esteja nem a hora do dia ou da madrugada, e dizer: ‘Estou mal, preciso de você’. E ele ou ela estará comigo pegando um carro, um avião, correndo alguns quarteirões a pé, ou simplesmente ficando ao telefone o tempo necessário para que eu me recupere, me reencontre, me reaprume, não me mate, seja lá o que for.
Mais reservada do que expansiva num primeiro momento, mais para tímida, tive sempre muitos conhecidos e poucas, mas reais, amizades de verdade, dessas que formam, com a família, o chão sobre o qual a gente sabe que pode caminhar. Sem elas, eu provavelmente nem estaria aqui. Falo daquelas amizades para as quais eu sou apenas eu, uma pessoa com manias e brincadeiras, eventuais tristezas, erros e acertos, os anos de chumbo e uma generosa parte de ganhos nesta vida. Para eles não sou escritora, muito menos conhecida de público algum: sou gente.
A amizade é um meio-amor, sem algumas das vantagens dele mas sem o ônus do ciúme – o que é, cá entre nós, uma bela vantagem. Ser amigo é rir junto, é dar o ombro para chorar, é poder criticar (com carinho, por favor), é poder apresentar namorado ou namorada, é poder aparecer de chinelo de dedo ou roupão, é poder até brigar e voltar um minuto depois, sem ter de dar explicação nenhuma. Amiga é aquela a quem se pode ligar quando a gente está com febre e não quer sair para pegar as crianças na chuva: a amiga vai, e pega junto com as dela ou até mesmo se nem tem criança naquele colégio.
Amigo é aquele a quem a gente recorre quando se angustia demais, e ele chega confortando, chamando de “minha gatona” mesmo que a gente esteja um trapo. Amigo, amiga, é um dom incrível, isso eu soube desde cedo, e não viveria sem eles. Conheci uma senhora que se vangloriava de não precisar de amigos: ‘Tenho meu marido e meus filhos, e isso me basta’. O marido morreu, os filhos seguiram sua vida, e ela ficou num deserto sem oásis, injuriada como se o destino tivesse lhe pregado uma peça. Mais de uma vez se queixou, e nunca tive coragem de lhe dizer, àquela altura, que a vida é uma construção, também a vida afetiva. E que amigos não nascem do nada como frutos do acaso: são cultivados com… amizade. Sem esforço, sem adubos especiais, sem método nem aflição: crescendo como crescem as árvores e as crianças quando não lhes faltam nem luz nem espaço nem afeto.
Quando em certo período o destino havia aparentemente tirado de baixo de mim todos os tapetes e perdi o prumo, o rumo, o sentido de tudo, foram amigos, amigas, e meus filhos, jovens adultos já revelados amigos, que seguraram as pontas. E eram pontas ásperas aquelas. Agüentei, persisti, e continuei amando a vida, as pessoas e a mim mesma (como meu amado amigo Erico Verissimo, ‘eu me amo mas não me admiro’) o suficiente para não ficar amarga. Pois, além de acreditar no mistério de tudo o que nos acontece, eu tinha aqueles amigos. Com eles, sem grandes conversas nem palavras explícitas, aprendi solidariedade, simplicidade, honestidade, e carinho.
Nesta página, hoje, sem razão especial nem data marcada, estou homenageando aqueles, aquelas, que têm estado comigo seja como for, para o que der e vier, mesmo quando estou cansada, estou burra, estou irritada ou desatinada, pois às vezes eu sou tudo isso, ah!, sim. E o bom mesmo é que na amizade, se verdadeira, a gente não precisa se sacrificar nem compreender nem perdoar nem fazer malabarismos sexuais nem inventar desculpas nem esconder rugas ou tristezas. A gente pode simplesmente ser: que alívio, neste mundo complicado e desanimador, deslumbrante e terrível, fantástico e cansativo. Pois o verdadeiro amigo é confiável e estimulante, engraçado e grave, às vezes irritante; pode se afastar, mas sabemos que retorna; ele nos aguenta e nos chama, nos dá impulso e abrigo, e nos faz ser melhores: como o verdadeiro amor.”
A idade traz rugas para todos, aprendizado para alguns e humildade para os bons, mas ela também nos leva embora a saúde, boa parte da beleza, do vigor e da disposição. Contudo, penso que o melhor da velhice é que a gente se sente finalmente livre.
A partir de uma certa idade, imagino que nossas preocupações diminuem pela metade, especialmente para nós, mulheres. Se livrar da tirania do salão, não se cobrar de ter que pintar o cabelo a cada 15 dias pra tentar esconder os fios brancos que insistem em aparecer na velocidade da luz, colocar a roupa que bem entender, levando em conta apenas o critério do conforto, não importando se há uma barriguinha saliente, se a flacidez fica evidente, se o colo enrugado está exposto.
Não que se perca a vaidade com a chegada da idade. Conheço muitas pessoas que com o passar dos anos se mantém bem cuidadas e bonitas. O que eu falo é de uma total desobrigação. Desobrigação com aquilo que não tem importância. Acho que a tomada de consciência do tempo que nos resta, indubitavelmente menor do que o que já se foi, faz a gente dar valor àquilo que realmente tem valor. Além disso, depois de tanto tempo convivendo com a gente mesmo, acabamos por nos aceitar mais, apesar de qualquer imperfeição, que, por tanto tempo foi motivo de angústia e desconforto.
Há um certo quê de relaxamento na velhice. Não relaxamento sinônimo de descuido, descaso consigo próprio. Relaxamento no sentido de deixar correr frouxo, de soltar-se e entregar-se à vida. Afinal, depois de certa idade, percebemos que podemos ter conseguido tudo nessa vida, menos a capacidade de controlar as coisas. E essa certeza , além de libertadora, tem um enorme efeito relaxante. É como tirar um grande peso dos ombros… o peso da tintura, da maquiagem, da futilidade, do supérfluo, do sem importância e ficar somente com o próprio peso, que , em geral , é muito mais leve do que se pensa.
Ganha-se outras preocupações, é bem verdade. O medo da morte (antes a gente vivia como se ela não fosse chegar nunca), da solidão, especialmente depois de presenciar a ida de alguns bons amigos e parentes e preocupações relacionadas à saúde parecem ocupar boa parte dos pensamentos nesta fase da vida e dividem espaço com a imensa vastidão da memória das coisas vividas, que de tão extensa, acaba por deletar algumas lembranças. Um esquecimento providencial, típico daqueles para os quais ainda existe a esperança de viver outras histórias e , por isso mesmo, há que se guardar um lugarzinho para esses novos registros.
Há ainda uma alegria despretensiosa na velhice, um sorriso aberto e franco, do qual só são capazes as pessoas que já sobreviveram à algumas dores, pois através delas, aprenderam verdadeiramente a sorrir.
Penso mesmo que há algo libertador na velhice…
E que tem a ver com uma maior consciência de que não estaremos pra sempre aqui. O futuro que, antes, não chegava nunca, está cada vez mais perto e ao mesmo tempo, mostra-se tão incerto que há que se aproveitar o hoje. E o hoje é agora, é já, não há que se arrumar a bagagem como quando vamos fazer uma viagem. Há que se sair sem peso, levando-se o mínimo que puder para poder estar mais leve e aproveitar o máximo do que vier.
Há que se olhar o passado com a clareza de que ele não volta mais e o futuro com a consciência de que ele talvez não venha. Há que se encarar que o muito , o tudo que nos resta é o agora, sem ontem ou amanhã, e que de nada adianta correr, pois é a cada minuto que se dá o viver e apesar de todo arrependimento ou rancor, saber disso é libertador.
Como fazer para dar um tempo nos nossos pensamentos aleatórios? Como diminuir aqueles pensamentos que nos perturbam? Como reduzir o nosso nível de estresse em segundos? Como estar mais consciente do que está acontecendo?
O momento presente é inevitável. Ele está acontecendo nesse exato momento e qualquer forma de analisá-lo é trabalhar com o seu passado.
Existe, hoje, um boom de livros e explicações sobre o agora e o presente (o poder do agora, praticando o poder do agora, aprendendo a viver no momento presente, o presente, Mindfulness, o poder do silêncio). Muitos trabalham com a perspectiva que o agora acontece, só que não estamos nele, pois estamos sempre vagando no passado ou no futuro.
Entretanto, estar no agora é perfeitamente possível, uma vez que não se tem escolha sobre isso. E melhor: você vive no agora! Isso mesmo: é no agora que você respira.
Você não diz para si mesmo: “Peraí que eu vou respirar daqui a uns minutinhos, que, no momento, tenho algo mais importante para fazer”, ou “Meu coração pode parar um pouco, que eu quero ver se, nesse meio tempo, faço outras atividades”. Isso tudo é irreal e incabível, não?
Você está acontecendo no agora, todo o seu corpo está funcionando no agora e tudo ao seu redor também está sendo agora. Como, então, eu posso dizer que o agora está perdido em algum lugar e que a minha vida depende de achar esse bendito presente?
É por isso que peço, nesse momento, que deixe de lado alguns conceitos que você já tem sobre o momento presente. Não há nada que possa levá-lo ao momento presente; você já está nele. Partindo desse princípio: então, o que me falta?
A consciência sobre ele!
É olhá-lo, é saber que ele existe e que é, na verdade, o que de mais real se pode existir.
Uma forma de perceber o agora é tomar ciência sobre o seu corpo: o seu peso sobre o chão, sobre a cadeira, os dedos dos pés, o seu pé, joelhos, pernas, abdome, peitos, ombros, braços, mãos, pescoço, rosto, couro cabeludo.
Outra forma é perceber a sua respiração. Como ela está nesse momento?
Outros exemplos: apreciar a natureza sem interpretações ou julgamentos, questionar-se (Quem eu sou? Onde estou? O que está acontecendo agora?), estar em silêncio, perceber os seus sentidos (o cheiro ambiente, as sensações, o sabor do que come, a temperatura) e tudo o mais que levá-lo ao que é essencial.
Uma super técnica:
Uma técnica que concilia respiração com consciência é a ensinada pelo monge Thich Nhat Hanh:
Não é necessário dizer nada, apenas pense nas palavras inspiro e expiro. A consciência no “traz” ao momento presente. Essas palavras no relembram do momento presente.
• Ao inspirar, pense “inspiro”, com consciência do ar que penetra nas suas narinas;
• Ao expirar, pense “expiro”, consciente do ar que sai pelas suas narinas.
Estamos conscientes da nossa respiração simplesmente ao focá-la. Podemos praticar esse exercício na hora, dia e local que quisermos. Não tem contraindicações e nem constrangimento.
Outras variações sugeridas também são:
Profundamente, lentamente.
Pense “profundamente” durante a inspiração e “lentamente” durante a expiração.
Calma, bem-estar; sorrir, apaziguamento.
Pense “calma, bem-estar” durante a inspiração e “sorrir, apaziguamento“ durante a expiração.
Instante presente; instante maravilhoso
Pense “instante presente” durante a inspiração e “instante maravilhoso” durante a expiração.
Leve isso como um presente para você e boa prática!
Seguindo respirando…
Em março de 2011, aos 34 anos, a produtora Lotje Sodderland sofreu um grave acidente vascular cerebral em Londres que quase a matou. Quando acordou no hospital, dois dias depois, o mundo havia se transformado em algo totalmente novo para ela e, mesmo as mais simples tarefas, como falar ou entender o significado das palavras, exigiam grande esforço.
Passado o susto, Lotje percebeu que algo no seu cérebro tinha mudado. Seu estado normal de consciência agora incluía a visão de cores pulsantes e imagens distorcidas. No intuito de registrar e mostrar para outras pessoas o novo universo onde ela se encontrava, convidou a documentarista Sophie Robinson, e juntas construíram “My Beautiful Broken Brain” – uma narrativa não linear sobre alguém tentando reaprender a entender uma nova realidade e a contar histórias, incluindo a própria. Ao esforço das duas juntou-se o diretor David Lynch, que acabou por se tornar produtor executivo do filme, que estreou em março no Netflix.
Longe de ser apenas mais um documentário motivacional, “My Beautiful Broken Brain” usa de elementos poéticos, como luzes e sons para envolver e transportar o espectador para um universo singular e convida a pensar sobre a fragilidade da vida.
foto divulgação
Confira agora a entrevista exclusiva com a diretora Sophie Robinson.
Gostaria que você começasse falando um pouco sobre a sua carreira antes de My Beautiful Broken Brain.
Eu faço documentários há 16 anos. Minha carreira começou na BBC, no Reino Unido, onde eu iniciei como pesquisadora e fiz carreira como diretora de documentários. Fiquei lá por volta de 11 anos trabalhando em documentários que eram sempre centrados em personagens poderosos e emotivos. Alguns dos meus filmes mais reconhecidos foram para a Horizon, o carro-chefe da BBC em séries sobre Ciências, com filmes como “Your Life in their Hands”, ‘Edge of Life’ and ‘What’s Killing our Bees?’. Depois, como freelancer, continuei a fazer filmes para a BBC e para o Discovery, também trabalhei com marcas e empresas como Skype, The V&A e Universal Music. Há cerca de um ano eu comecei minha própria produtora, a Sunshine Pictures, onde continuo a fazer documentários e curtas-metragens.
Como foi o primeiro contato entre vocês e o que fez você decidir entrar nessa?
Sophie Robinson e Lotje- Fotografia de Eric Charbonneau
Conheci Lotje dois meses antes do derrame, quando ela trabalhava como produtora em uma agência de publicidade em Londres. Eu tinha ido falar com eles sobre um projeto que estavam fazendo e que tinha um “estilo documental”. Falamos muito sobre os filmes que eu havia feito, que quase sempre eram sobre vida e morte ou investigações acerca do cérebro humano. Toda esta informação deve ter ficado na mente de Lotje, porque ela entrou em contato comigo apenas alguns dias depois que ela acordou do coma induzido. Naquele estágio, a linguagem e a memória dela estavam ainda muito confusas, mas através de desenhos que ela fazia em pedaços de papel, a família acabou por se dar conta de que ela queria entrar em contato comigo. Me encontrei com ela duas semanas após o derrame, um dia depois dela ter recebido alta do hospital. Ela já tinha começado a se filmar pelo iPhone e perguntou se eu poderia ajudá-la a continuar documentando o que estava acontecendo com ela. Para ser honesta, nenhuma de nós sabia onde isso ia dar. Para Lotje, era um jeito de não esquecer o que estava acontecendo; para mim, já primeira entrevista que fizemos, a primeira que aparece no filme, foi tudo tão poderoso que eu resolvi seguir meus instintos. E estou muito feliz por ter feito isso.
É visível no filme o humor e a simpatia de Lotje ao enfrentar todo o processo de recuperação. Você acredita que isso influenciou de alguma maneira nos resultados?
Lotje é uma pessoa extraordinária – a meu ver, todos os seres humanos são. Quando enfrentamos situações que incluem vida e morte somos capazes de encontrar uma força interior que nenhum de nós imagina ser capaz de ter até que algo semelhante aconteça conosco. No caso de Lotje, ela se apoiou em tal força para ajudá-la a superar. Eu acho que ela é alguém que tem um caráter forte, bastante focada, determinada e persistente e todas essas qualidades foram de grande ajuda – e ela tem um senso de humor que eu acho vital para qualquer coisa na vida. Ela também tem uma boa família e amigos ao redor e tal rede de apoio é vital. Então, eu acredito que foi uma combinação de todas estas coisas.
foto divulgação
De certa forma, ela precisou reaprender a contar histórias, começando com a própria tragédia. Reconstruir a si mesma dentro de uma perspectiva de recuperação não deve ter sido fácil e você teve um papel fundamental nisso. Como foi participar da montagem desse quebra-cabeça?
Ser informada por médicos que você não será mais capaz de contar sua própria história só pode ser algo devastador. Especialmente para alguém como Lotje, cuja vida era baseada em criar e contar histórias. Voltar a ser capaz de fazer isso era vital para a recuperação dela e por isso eu acho que fazer um filme contando ao mundo a história dela foi parte importante para reconstruir sua vida. A ideia inicial para este filme foi de Lotje. Eu não estava procurando por isto – foi Lotje que acordou no hospital em um mundo totalmente novo e decidiu começar a filmar. Em algum ponto, naqueles primeiros dias, ela sabia que poderia precisar de ajuda e então pediu à família para me contatar. Foi Lotje quem me convidou. Então, este filme é muito mais dela. É a história dela. Desde o início foi uma colaboração. Nunca foi eu fazendo um filme sobre ela, éramos nós duas contando a história dela, juntas. E nunca teve um plano real. Acho que o que planejamos foi que iríamos filmar por 1 ano; que eu iria até ela e filmar quando pudesse, mas que ela poderia continuar registrando seu dia-a-dia pelo iPhone e que sempre poderíamos falar sobre como seria o filme. Mas a coisa toda foi tão orgânica que cresceu e mudou, da mesma forma que Lotje também cresceu e mudou naquele ano. Nós fizemos tudo ao estilo Lynch: sem regras ou fronteiras.
Lotje sempre foi uma pessoa muito independente e imagino como foi para ela perder a individualidade e ter de lidar com a situação de ficar internada por 3 meses, ficando assim limitada a uma rotina muito diferente da anterior. Perder a independência parece ter sido um dos golpes mais duros para ela, que levava uma vida tão agitada. Como foi esse processo?
Essa é uma pergunta que somente Lotje pode responder. Mas eu sei que perder sua identidade, sua independência, perder todos os traços que te fazem ser você deve ser aterrorizante. E sim, este período foi sem dúvida muito muito difícil para Lotje, foi quando ela precisou viver com sua mãe novamente e quando ela esteve em reabilitação no hospital. Mas Lotje voltou a morar sozinha pouco tempo depois – ela estava determinada a mostrar que ela podia fazer e tem se virado muito bem desde então.
foto divulgação
De quem foi a ideia de gravar um vídeo para David Lynch? Vocês esperavam que tivesse o resultado que teve?
Como Lotje filmava seu cotidiano no iPhone, eu sempre tirava algumas semanas para ir à casa dela para baixar as filmagens em um drive e depois juntava cada parte. Depois de alguns meses eu comecei a encontrar mensagens que ela gravava para David Lynch. Ela fazia isso porque sempre descrevia a experiência da sua hemorragia cerebral como algo “Lynchiano” e começou a falar com ele em sua mente, um pouco como Christian Slater falava com Elvis em “Amor à Queima-Roupa”. Falamos sobre ele e acho que fui eu quem sugeriu a ideia de talvez mandarmos para ele uma das mensagens. Para ser honesta, naquela altura eu não tive nem por um minuto o pensamento de que ele poderia retornar. Achava que no máximo receberíamos uma mensagem do assistente dele dizendo “obrigado” ou algo parecido. E não sabíamos para onde enviar! Depois de várias tentativas de contato nós tentamos por outras rotas – e eis que um dia ele respondeu. Recebemos um email diretamente dele. Eu estava no meu escritório quando chegou. Eu estava em choque! A mensagem que Lotje havia enviado realmente mexeu com ele e daquele dia em diante Lotje continuou o contato com ele por vídeo. Ele realmente gostou dela.
Depois nós enviamos um excerto do filme e ele aprovou – ter a aprovação dele foi com certeza uma honra. Lotje foi visitá-lo em Los Angeles e ele concordou em colocar seu nome no filme. Nada disso foi planejado, mas claro que ficamos muito agradecidas. Como você pode imaginar, nome dele definitivamente fez toda diferença em termos de marketing.
Lotje e David Lynch em cena do documentário- Foto divulgação.
Ainda que no filme o bom humor e a persistência deixem o clima mais leve, a iminência da morte, a impressão de que a qualquer momento isso pode acontecer com você surge vez ou outra. Você chegou a pensar muito nisso enquanto filmava?
O tempo todo! Eu tenho certa obsessão pela morte. Mas quando você faz um filme como este, você fica ainda mais alerta sobre sua própria mortalidade e as palavras “there but for the Grace of God go I” [em tradução literal: não fosse pela graça de Deus, seria eu] não saem da sua mente. Mas também me ensinou como aproveitar o momento, como viver no presente e como ser grata por tudo o que tenho.
Quais foram as maiores dificuldades que você encontrou durante a feitura do filme?
Levantar fundos para realizar o filme foi um trabalho difícil. Como nós decidimos fazê-lo de modo independente, foi algo que eu tive que fazer pela primeira vez na minha carreira. Antes disso eu fazia filmes com investidores que subiam a bordo logo no início do processo. Desta vez, nós tivemos que ir atrás do dinheiro e acabamos fazendo uma campanha de crowdfunding que teve sucesso, mas que deu trabalho.
As técnicas usadas para representar essa outra realidade que apenas Lotje vivenciava depois do derrame mostram como ela podia ser magnífica ou aterrorizante. Como surgiu a ideia de levar o espectador para dentro mundo tão particular?
Desde o início queríamos fazer um filme que não fosse sobre a recuperação de alguém. O jeito que ela descrevia aquele novo mundo era tão extraordinário que nós decidimos tentar recriá-lo. Lotje trabalhou junto com o pessoal da Outpost VFX, responsáveis pelos efeitos visuais. A diretora criativa, Elena Estevez Santos, imediatamente entendeu o que Lotje queria criar e então nós fomos capazes de explorar a ideia de ver o mundo do mesmo jeito que uma pessoa com percepção alterada vê. Claro que nós não íamos conseguir fazer exatamente igual, mas quisemos criar uma metáfora para que as pessoas entendessem como era. Desde que o filme foi lançado no Netflix recebemos muitos emails de pessoas que experimentaram a mesma sensação por conta de derrames ou epilepsia e que estavam muito gratas à Lotje por ela mostrar como é. Elas agora podiam mostrar às próprias famílias e amigos o que não conseguiam explicar com palavras. Estamos muito satisfeitas e felizes porque os efeitos proporcionaram algum benefício nesse sentido.
foto divulgação
No decorrer do filme, vemos que a Lotje buscou na meditação novas maneiras de entender e experimentar esse novo universo e aí entra a importância de David Lynch no processo. A transcendência sempre foi um tema presente durante o processo de produção do filme? A partir de que momento ela passou a ter um peso maior dentro da narrativa.
A meditação que Lotje faz no filme não é do tipo transcendental. O que aconteceu foi que ela não estava mais conseguindo lidar com o barulho de Londres. Por causa do dano no cérebro, tudo soa muito mais alto. Então, quando um amigo contou a ela que o centro de meditação em Bethnal Green era o lugar mais silencioso de Londres, Lotje começou a ir lá apenas para experimentar o silêncio. Depois começou a participar de algumas sessões de meditação e ouvir algumas das palestras, lá passou a ser o refúgio dela da loucura do mundo externo. Nós procuramos mostrar no filme como aquilo havia se tornado importante para ela.
Você costuma meditar?
Eu nunca havia meditado antes de fazer o filme, mas enquanto o fazia e, depois de ver o quando estava beneficiando Lotje, eu tentei e achei muito útil. Tenho que admitir que já não medito faz um bom tempo – mas eu deveria!
Qual o maior aprendizado que você, enquanto diretora, teve durante a jornada de Lotje Sodderland?
Poder testemunhar e compartilhar de uma parte da recuperação de Lotje nos últimos anos, especialmente aquele após o derrame, tem sido um privilégio e um grande aprendizado – não apenas como diretora, mas como pessoa. Observar como ela aprendeu a recomeçar em um mundo completamente novo só pode ser descrito como inspirador. Sua busca por entendimento não apenas pelo que aconteceu ao cérebro dela, mas também à sua mente, é algo que todos nós deveríamos fazer, independentemente de ter sofrido um dano cerebral ou não. Aprender o que importante para nós, aprender como fazer cada dia ter significado e valer a pena, aprender a parar por um minuto e olhar para o mundo ao redor e entender seu significado, saber quando descansar, aprender a ter foco, usar o tempo para entender nosso próprio comportamento e ações – todas estas coisas são fundamentais para viver. Ela me ensinou todas estas coisas. Eu não posso dizer que cumpro com elas todos os dias, mas Lotje certamente me ensinou a parar e pensar sobre elas muito mais do que era de costume.
Lotje e o marido a quem conheceu e com quem se casou após o Avc. Foto divulgação.
Diz que este ano vai fazer frio. Todo ano faz. Mas parece que este ano vai ser mais. Frio daqueles, sabe? Aqueles de ventos congelantes e horas gélidas. Frio em que os dias são mais curtos mas as tardes são eternas. As noites são mais longas mas o sono é breve. Frio de ruas úmidas e céu cor de gelo. Vai fazer frio de dar inveja nos pinguins, ursos polares, esquimós, alpinistas e outros bichos afeitos às baixas temperaturas. Este ano vai fazer frio.
Vira e mexe uma fantasia me assalta. Quando eu tenho por qualquer pessoa um sentimento de apreço, admiração, carinho e essas coisas, acende em mim lá no fundo um desejo vago e simples como a chama de uma vela: eu tenho vontade de sentir frio ao lado dela.
Sou uma criatura do calor, nasci numa cidade quente, gosto da praia e de gente nua. Mas o frio me encanta e emociona. Porque provoca em mim uma lógica impetuosa em relação às pessoas: quanto mais frio, mais perto.
Enquanto no verão tiramos as roupas, no frio nos despimos de velhos orgulhos bobos. Chega pra cá e me dá um abraço! Mas aperta que hoje tá geando lá fora.
O frio é a estação de resfriados e ternuras. Hora de se achegar, encontrar um canto quente e fazer calor. Está aberta a temporada dos abraços. Longos e apertados encontros de braços e peitos e rostos. Tempo de ouvir a respiração do outro e sentir seu coração batendo caloroso até derreter o gelo de tanta distância e tanta dor.
E ainda que estejamos sós, o frio há de nos abraçar, escancarar pesadas portas internas e nos permitir longas caminhadas dentro de nós mesmos. Assim, pisando folhas secas em nossas ruinhas desertas, varridas de vento gelado, chegaremos mais perto de compreender e aceitar quem somos para então compreender e aceitar o outro.
Quando o frio apertar, que você e eu encontremos novas chances de fazer bondade para os outros e a nós mesmos, como quem acha dinheiro amassado no bolso da calça que não usava havia tempo.
Que em todo lugar estourem campanhas do agasalho e as caixas de arrecadação transbordem roupas quentes, distribuídas com franqueza a quem precisar possa. E que nenhum ser vivo, seja gente, bicho ou planta, passe um frio maior que o necessário para incentivá-lo a se aproximar de quem estiver a seu lado. Não por desespero, mas por puro gosto.
Preparem-se, senhores casacos! Aprontem-se, senhoritas meias! A postos, amigas calças, blusas, mantas, luvas, gorros, polainas, cachecóis e toda gente que dormia nos armários. É tempo de ficarmos mais perto uns dos outros. Diz que este ano vai fazer muito frio.
“Caminhado sob o sol até o amor se reinventar” (Moska; Mú Carvalho)
Se pudéssemos, de alguma forma, elevar a nossa consciência para um novo tipo de despertar? Abandonar a zona de conforto emocional que há tanto seguimos e, despidos das moralidades comuns, sermos capazes de externar, com honestidade e legitimidade, nossos sonhos e desejos. Estabelecendo um tipo de confiança mútua sobre qualquer assunto, sem represálias e mecanismos próprios incumbidos de medos, carências e mera sobrevivência.
A grande jornada, ou, o grande abrir dos olhos do ser humano, pode estar intimamente ligado ao fato de permitirem-se reações únicas frente ao outro. Um aperto de mãos, um sorriso, um abraço, um beijo. Oferecer o ombro para ouvir, oferecer palavras para dizer. Não se trata de escutar e falar. É diferente. É algo mais. Talvez seja furar a bolha que nos prende diariamente, onde interpretamos inúmeros personagens, e através de inteiros, reagirmos para nós, para alguém.
Experimentar o amor sem corroborar com o já conhecido. No caminho inexplorado se dar conta da efervescência magnífica que é partilhar sem razão e algum resultado aparente. Fazer por querer fazer. Estar por querer estar. E nessa harmonia delicada que transcende beber do conhecimento à disposição.
Em muitos níveis, a liberdade acompanha o coração que quer ser. Mas ser para crescer, evoluir e somar. Ainda que muitos definam como quantificar, na verdade, trata-se das experiências mais loucas e absurdas de todos os tempos – contar a verdade para si. Chorar sorrindo carregando esperanças, desfrutando do mais simples de tudo. Ah, sim.
Há dias em que sair da cama já se configura como um ato de coragem. Noites mal dormidas podem aparecer para uma visita indesejada sob os mais variados pretextos: desajustes financeiros, tristezas amorosas, pressões no trabalho, ou mesmo, uma insolente insônia que insiste em nos roubar o sono, sem a menor cerimônia. Em dias que começam assim, meio sem fôlego, morosos, pesados, temos a impressão de que a vida está a nos dizer “não”! Neste caso, devemos tratá-la com a deferência valorosa que dedicamos ao mais respeitoso adversário. Ofereçamos a ela a possibilidade de uma boa conversa; e, ouçamos com atenção o que ela tem a nos dizer.
A roda viva dos dias nos leva à perigosa possibilidade de acostumar com o atropelo das horas. Consumidos por tarefas mais ou menos automáticas, vamos dando conta das questões de rotina, qual operários numa linha de produção. Vamos agregando obrigações, sentimentos, necessidades e desejos, todos numa mesma engrenagem, como se fossem todos da mesma natureza. E, não são! Ao alinharmos tantas facetas diversas de nossa forma de funcionar, pasteurizando-as, perdemos a capacidade de mensurá-las e dar a cada uma delas o seu devido peso e valor.
Nenhum de nós acorda pela manhã e dá de cara com uma pitonisa, pronta a nos revelar previsões para o novo dia. “Evite a todo custo encontrar seu chefe!”; “Ligue para aquela pessoa interessante que conheceu no supermercado… Hoje vai rolar!”; “Em hipótese alguma, corte o cabelo!”; “Adie a viagem!”; “Aposte todas as fichas naquele projeto maluco!”. Nada disso! Cada dia guarda em si, uma caixa de Pandora! E o único jeito de descobrirmos o que nos reserva o destino é beber algumas doses de ousadia e encarar o imprevisível.
Abra a caixa desse dia novo em folha com a mesma ansiedade que uma criança abria antigamente um embrulho no dia de Natal (hoje em dia todo mundo já sabe o que vai ganhar, uma chatice tremenda!), e tudo bem se saírem seres alados endiabrados e cheios de ideias mirabolantes pra testar a sua paciência, força ou coragem. Aceite o desafio, dobre a aposta, pague pra ver! Inúmeras vezes as coisas realmente boas da vida começam numa enorme confusão.
Confusões são cheias de possibilidades. E possibilidades são como órgão vitais, sem elas não há vida, nem dentro, nem fora de nós. Quem fecha a porta às confusões da vida, abre mão de se sentir vivo de verdade. Quem se apega demais à segurança da previsibilidade dos dias, escolhe uma vida em câmera lenta, cuja trilha sonora é uma réplica daquelas canções repetitivas de uma caixinha de música.
Rotina em exagero, deixa tudo meio embaçado; nada de riscos, nada de imprevistos e o tesão da vida reduzido a zero. É bem isso! A excitação depende organicamente do imprevisto, da surpresa, da novidade. O tempero de viver é baseado na variação das escolhas, dos percursos e dos resultados. É bem verdade que há dias em que ficamos sem entender o que é que a vida quer da gente.
Há dias em que temos a nítida sensação de que os roteiristas da nossa vida vararam a noite, reunidos em mirabolantes teorias conspiratórias a planejar artimanhas para testar-nos a paciência. Há dias em que parecemos protagonistas de algum jogo de sobrevivência numa selva de desafios impossíveis. Há dias em que a vida olha bem na nossa cara e diz com a maior tranquilidade um sonoro, redondo e indiscutível “NÃO!”.
É bem nessa hora que precisamos tomar posse da palavra; encarar a vida de volta e mostrar a ela que somos dignos de seus desafios. Que somos capazes de transformar essa negação em lanças contra o comodismo e escudos contra a vitimização. Porque o que o mundo espera de nós é que não nos submetamos resignadamente às suas provocações; mas, sim, que tenhamos o que responder quando a vida nos afrontar com suas surpreendentes, perturbadoras e imprevisíveis perguntas.
A vida, com seus “NÃOS”, caprichosamente nos coloca diante de perguntas para as quais não temos respostas. Ponto pra nós! A falta de respostas nos leva à maravilha inaugural do início do caminho. É preciso refazer o percurso. Procurar os desvios. E, na confusa sensação de ter sido confundido com outra coisa que não somos nós, nos reinventamos; descobrimos talentos absurdos. Vamos além! Abençoadas sejam as perguntas que nos desestabilizam, nos tiram do sério, da rota, do prumo. Graças a elas acordaremos de um sono profundo de mesmice e mediocridade e faremos por merecer a honra de estarmos vivos!
Quando percebermos que investimos o nosso tempo e esforço em alguém que não tenha feito nada para nos merecer, devemos levar em consideração que é melhor ficar longe.
Os ciclos da vida são feitos de etapas que se iniciam em portas que se fecham, sempre com o mesmo fim, o de avançar. Portanto, como podemos encontrar essa força e coragem para poder terminar certas coisas?
Ainda que doa, às vezes é melhor saber dizer adeus para um amor que já não enriquece mais, ou dar por encerrada uma amizade que se baseia mais no egoísmo que no altruísmo.
A vida é um fluxo contínuo onde somente os mais valentes conseguem caminhar ao lado da merecida felicidade. Sempre com plenitude e satisfação, ainda que devamos fazer algum sacrifício para o nosso próprio bem.
Junte-se a nós nessa reflexão de hoje. Falaremos sobre as duas faces do “saber dizer adeus”.
É o momento de fazer um balanço
Existem pessoas que não estão acostumadas a pensar em si mesmas, ou até parar para se fazer uma simples pergunta que todos deveríamos pensar ao começar o dia: Como me sinto hoje?
Não é preciso que todos os dias gozemos de uma felicidade absoluta. Não se trata disso, o verdadeiro sentido da vida está em encontrar uma tranquilidade diária com a qual nos sentiremos bem com nós mesmos. Com o que somos e o que temos.
Acostume-se a falar consigo mesmo. Não centre seu mundo nas outras pessoas. Você também é importante e deve se preocupar em saber como está, o que sente, o que o machuca e o que falta.
Fazer um balanço é tão saudável quanto útil. Para isso, faça uma comparação entre tudo o que o fizer sorrir diariamente com tudo aquilo que preocupa você, que faz mal.
No que você pensa mais? Nas alegrias ou nas tristezas? Reflita sobre isso.
Dizer adeus não é uma despedida, é um início
Ao fazer um balanço, percebeu que há coisas que deveria deixar de lado? Não estamos falando somente de pessoas. Às vezes, existem outras coisas que também pesam em nossas vidas:
Deixe de lado pensamentos negativos. Devemos nos desfazer das preocupações constantes e aprender a sermos mais otimistas.
Diga adeus para os pensamentos exclusivos em outras pessoas. Temos de manter o equilíbrio e abrir as portas para momentos de lazer, assim como trabalhar em algo que nos agrada, melhorando também o ambiente de trabalho.
Diga adeus para as cargas emocionais. Você se preocupa com o que as pessoas pensam de você? Deixe cair esse peso, ele não serve de nada. As críticas também preocupam você? Seja livre em suas ações, em seus desejos, e dê asas ao seu crescimento pessoal.
Como dizer adeus para quem ainda amamos
Às vezes, temos que atravessar esses momentos difíceis em que, apesar de ainda amar certas pessoas, devemos ser conscientes de que elas nos causam mais dor do que crescimento, mais lágrimas do que felicidade.
Como lidar com essa situação?
Se você amar alguém, primeiro deverá fazer o possível para resolver o problema. Entretanto, caso tenha percebido que investiu tempo, sonhos e esforços, em alguém que tem feito muito pouco ou nada para merecê-lo, esse é o momento de dizer adeus.
Para dizer adeus, deve ter em mente que não deseja mais sofrer, que não merece mais sofrer. Você é uma pessoa corajosa, que pode seguir com sua vida de forma integra, assim que deve enfrentar essa situação.
Diga a verdade, abra o seu coração e argumente a necessidade desse adeus. Portanto, seja firme, pois diante dessas ocasiões podemos cair no erro de “voltar a tentar”, e isso pode acabar em mais meses de sofrimento.
O adeus deve acontecer com sinceridade, firmeza emocional e decisão. Podemos comparar isso com um procedimento “sem anestesia”, pois a dor será intensa. No entanto, é necessário, pois já precisamos ter em mente que um adeus necessário é, na verdade, um novo início para sua vida uma nova oportunidade de ser feliz.
“Descubra também quais são predadores emocionais e como identificá-los.”
Retome o vínculo consigo mesma depois de dizer adeus
Quando dizemos adeus, automaticamente, uma parte de nós mesmos se desprende dessa pessoa. É como cortar o cordão umbilical das emoções, dos projetos, dos sonhos e das ilusões que alimentávamos.
Após essa ruptura, é fundamental retomar o vínculo com nós mesmos, com a nossa autoestima, com o nosso ser, para poder seguir avançando em plenitude e felicidade.
Tome nota de alguns conselhos muito importantes:
Lembre-se que esse adeus é necessário. É o fim de uma etapa e é hora de apertar o botão “levantar”, ou até mesmo o do “renascer”. É o momento de nos reencontrar de novo com nós mesmos, porém, de uma forma mais poderosa.
Agora que retomamos nossa coragem e aprendemos uma sábia lição, finalmente sabemos o que queremos: Encontrar a nossa felicidade.
Dizer adeus é abrir uma nova porta e, sem dúvida alguma, pode ser tudo o que deseja.
Não guarde rancor de nada que aconteceu. Se o adeus acontecer acompanhado de raiva ou ressentimento, não poderemos seguir em frente. O ódio nos torna prisioneiros e, portanto, não há liberdade melhor do que aquela que avança sem bagagens negativas por parte de quem soube perdoar.
Ainda que doa, ainda que seja difícil, lembre-se… Às vezes é melhor dizer adeus.
“Foi só o tempo que errou” (Dado Villa-Lobos; R. Russo)
Sonhei e foi com você. Não foi planejado. Aconteceu. Na fábula onírica, apenas sorríamos. Quando despertei, tive a impressão de que o ontem era o hoje e levei alguns segundos para me dar conta da realidade. Alguns chamariam essa experiência de saudade, mas penso que o saudosismo da sua figura é lembrança. E recordar não é ruim, ou, tampouco, deva ser objeto de medo e teorias romancistas acerca de relacionamentos. Foi apenas um sonho. Um dos bons. Como quando você é convidado para vivenciar o legítimo da sensibilidade, sem barreiras e amarras.
Vivemos o melhor que podíamos no tempo que nos fora concedido. Dentre inúmeros corações andarilhos mundo afora, escolhemos sorrir um ao outro por versos memoráveis. Mas mesmo assim, a concordância fez-se ausente em algum momento. Perdemos a sintaxe dos diálogos, maltratamos a pontuação dos nossos sentimentos. Em desespero, muitos gostariam de esquecer essa implicante redação amorosa, menos eu. Afinal, sonhei e foi com você.
“São tempos difíceis para os sonhadores”. (O Fabuloso Destino de Amélie Poulain)
O mundo não anda estranho, não. Ele está de volta ao primitivo, sabe? E o mais irônico, todos nós reparamos. Nos cantos, gritos. Já nas janelas, silêncios. Não adianta dizer que é culpa de algum ismo. Aliás, paremos de distribuir culpas. Que prazer compulsivo é esse de apontar o dedo? Olha, não há força divina que explique tamanha vertigem.
Desesperos, carências e ilusões. A luta diária por um ganha-pão, por algo que não seja um efeito paliativo para uma sobrevida, mas se tratando da atual, sobram uns poucos trocados de risos. No quesito amarguras, os bolsos estão cheios. Somos ditos loucos no caso de discordarmos das necessidades triviais que alimentam o ego.
Ah, assim não dá. É tanta hipocrisia, tanta falta de empatia. A sociedade em desigual, caminhando em marcha lenta a cada nova notícia. Porrada dali, porrada de cá. Reviram os olhos, tapam os ouvidos, cruzam os braços. Altas patentes de conformismos e reclamações. Mas quando convêm, felicidades compartilhadas.
São tempos difíceis para os sonhadores. E é exatamente por isso que os sonhadores devem permanecer juntos. Façamos os devidos reparos. Propúnhamos soluções. Poesias desmedidas para a cura da nossa loucura.
Guarda compartilhada, alienação parental, abandono afetivo. All we need is love
Grande parte das separações deixa cicatrizes, por mais elaboradas que sejam as partes envolvidas há sempre um sentimento de rejeição, de falha, ainda que não seja verdade.
É preciso distinguir a verdade do real. Real é tudo o que acontece, e distingue-se da verdade. A verdade talvez não possa durar, mas pode permanecer. Por exemplo, o fato de ter recebido flores, de viver, de amar alguém, é real. Quando as flores murcharem, quando eu morrer, quando eu deixar de amar, já não será real. Mas continuará sendo verdade que tudo isto existiu. Portanto há que se compreender que uma separação não se aproxima de um sentimento menor, mas sim da constatação da real condição da vida e de sua impermanência, bem como da constatação da verdade de um amor vivido.
Quando o luto pelo fim do relacionamento não é vivenciado de forma adequada e respeitosa, tem início um processo amargo de descrédito do ex-companheiro e, infelizmente, muitas vezes o filho torna-se o projétil da arma.Tornam-se instrumentos de um agressividade direcionada. O filho é levado a afastar-se de quem o ama, em uma destruição lenta e perniciosa do vínculo afetivo.
A dissolução dos vínculos afetivos e o rompimento da vida conjugal dos pais não deve comprometer a continuidade dos vínculos parentais. É imprescindível manter os laços de afetividade, diminuindo os efeitos que a separação acarreta nos filhos.
A guarda compartilhada, que não deve ser confundida com a convivência alternada, pode demonstrar aos filhos, na prática, a máxima: “seu pai/mãe separou-se de mim não de você.” A guarda compartilhada elimina a figura da visitação. Pai ou mãe não é e não pode ser visita. E mais, o direito de visita não encontra limites entre pais e filhos.
A criança e o adolescente merecem conviver com todos os que fazem parte de sua história. O menor precisa ser enriquecido de referências e experiências. Padrinhos, tios, irmãos, avós não podem desaparecer quando um casamento acaba. Uma relação afetiva verdadeira não termina porque foi modificada. Laços afetivos não podem e não devem ser desatados apenas porque algumas coisas mudaram. Separação não é sinônimo de abandono afetivo; abandono afetivo é desprezo e desprezo é sempre injusto.
” Nossa vida é tão vã, que não é senão um reflexo de nossa memória”, dizia Chateaubriand.
Que nossa vaidade seja menor que nosso amor. Que nosso julgamento seja menor que nossa compreensão. Que nosso amor seja maior que nossas mágoas. Que nossos filhos possam ter todas as memórias que lhes são de direito.