A iniciação feminina em Branca de Neve e Rosa-Vermelha

A iniciação feminina em Branca de Neve e Rosa-Vermelha

Uma pobre viúva vivia isolada numa pequena cabana. Em seu jardim havia duas roseiras: em uma florescia rosas brancas, e, na outra, rosas vermelhas. A mulher tinha duas filhas que se pareciam com as roseiras: uma chamava-se Branca de Neve; a outra Rosa Vermelha. As crianças eram obedientes e trabalhadeiras. Branca de Neve era mais séria e mais meiga que a irmã. Rosa Vermelha gostava de correr pelos campos; Branca de Neve preferia ficar em casa ajudando a mãe. As duas crianças amavam-se muito e quando saíam juntas, andavam de mãos dadas…

Elas passeavam sozinhas na floresta, colhendo amoras. Os animais não lhes faziam mal nenhum e se aproximavam delas sem temor. Nunca lhes acontecia mal algum. Se a noite as surpreendia na floresta elas se deitavam na relva e dormiam.

Uma vez, passaram a noite na floresta e, quando a aurora as despertou, viram uma linda criança, toda vestida de branco sentada ao seu lado. A criança levantou-se, olhou com carinho para elas e desapareceu na floresta. Então viram que tinham estado deitadas à beira de um precipício e teriam caído nele se houvessem avançado mais dois passos na escuridão. Contaram o fato à mãe que lhes disse ser provavelmente o anjo da guarda que vigia as crianças.

As meninas mantinham a choupana da mãe bem limpa. Durante o verão, era Rosa Vermelha que tratava dos arranjos da casa e no inverno, era Branca de Neve. Á noite, quando a neve caía branquinha e macia, Branca de Neve fechava os ferrolhos da porta.

À noite sentavam perto da lareira e enquanto a mãe lia em voz alta num grande livro as mãozinhas das meninas fiavam; aos pés delas, deitava-se um cordeirinho, e atrás, em cima do poleiro, uma pomba muito branca dormia com a cabeça entre as asas.

Uma noite, quando estavam assim tranquilamente, ouviram bater à porta e a mãe mandou Rosa Vermelha abrir a porta, pois devia ser alguém procurando abrigo.

Ao abrir a porta Rosa Vermelha viu um enorme urso que meteu a grande cabeça através da abertura da porta. Ela soltou um grito e correu para o quarto; o cordeirinho pôs-se a balir, a pomba a voar, e Branca de Neve se escondeu atrás da cama da mãe.

-Não tenham medo, – falou o urso – Estou gelado me deixem aquecer perto da lareira.

-Pobre animal, disse a mãe, – chega perto do fogo, mas cuidado para não se queimar.

Então a mãe chamou as meninas. Elas voltaram e, pouco a pouco, aproximaram-se o cordeirinho e a pomba, sem medo.

-Meninas, disse o urso, por favor, tirem a neve que tenho nas costas!

As meninas pegaram a vassoura e limparam o seu pelo; em seguida, o urso estendeu-se diante do fogo, grunhindo satisfeito. Não demorou muito, ela puseram-se a brincar com ele. Puxavam o pelo com as mãos, trepavam nas suas costas ou batiam nele com uma varinha de nogueira. Ele só reclamou quando elas se excederam.

– Rosa Vermelha e Branca de Neve, ele disse – tratem o pretendente como se deve!

Quando chegou a hora de dormir e as meninas foram deitar-se, a mãe disse ao urso:

-Fique perto do fogo e você estará ao abrigo do frio e do mau tempo.

Logo que amanheceu, as meninas abriram a porta ao urso e ele se foi para a floresta, trotando sobre a neve. A partir desse dia, ele voltou todas as noites, à mesma hora. Estendia-se diante do fogo e elas brincavam com ele.

Chega a primavera e tudo se cobre de verde, então o urso disse a Branca de Neve que tinha que ir embora e não voltaria durante o verão, pois tinha que proteger seus tesouros dos maus anões. No inverno eles permaneciam nas tocas; mas quando o sol derrete a neve eles saem e roubam tudo o que podem; escondendo em suas cavernas. Ela ficou muito triste e quando abriu a porta para o urso passar, ele esfolou a pele na lingüeta da fechadura, e Branca de Neve viu o brilho de ouro, mas não teve certeza.

Algum tempo depois, a mãe mandou as meninas apanharem gravetos na floresta. Lá chegando, viram uma árvore caída ao solo, e no tronco, entre a relva, qualquer coisa se agitava, pulando de um lado para o outro. Ao se aproximaram, viram um anão de rosto acinzentado, envelhecido e enrugado, com uma barba branca muito comprida. A ponta da barba estava presa numa fenda da árvore. Ao vê-lo Rosa Vermelha perguntou como sua barba ficara presa na árvore.

-Sua estúpida!- respondeu o anão; – eu quis partir esta árvore para ter lenha miúda na cozinha, porque, com pedaços grandes, o pouco que pomos nas panelas queima logo; nós não precisamos de tanta comida como vocês, gente estúpida e glutona! Tinha introduzido a minha cunha no tronco, mas a maldita madeira é muito lisa, a cunha saltou e a árvore fechou-se tão depressa prendendo minha linda barba. Riem suas bobonas!

As meninas fizeram muita força para livrar o homenzinho, mas não conseguiram desprender a barba, então Rosa Vermelha disse que precisariam de ajuda.

-Suas burras, – estrilou o anão, – Chamar mais gente? Não podem ter uma idéia melhor?

-Não fique nervoso, – disse Branca de Neve. – Vou resolver isto.

Tirou do bolso uma tesourinha e cortou a ponta da barba. Ao se ver livre, o anão agarrou um saco cheio de ouro oculto nas raízes da árvore e, pôs às costas, sem agradecer, saiu resmungando:

-Suas brutas! Cortaram-me a ponta de minha barba! O diabo que vos recompense!

Passado algum tempo, Branca de Neve e Rosa Vermelha foram pescar peixes para o jantar. Quando chegaram perto do rio, viram uma espécie de gafanhoto grande saltitando à beira d’água. Correram até lá e reconheceram o anão.

Rosa Vermelha perguntou; – você não quer se jogar na água?

-Não sou tão burro! – gritou o anão. – É esse maldito peixe que me arrasta para a água.

Para pescar o anão lançou a linha, mas o vento enroscou sua barba na linha e, nesse momento, um grande peixe mordeu a isca do anzol e suas forças não eram suficientes para mantê-lo fora da água, mesmo agarrando-se aos ramos.

As meninas seguraram o anão para desembaraçar sua barba, mas foi necessário usar mais uma vez à tesourinha e cortar outro pedaço da barba. Ele gritou, zangado:

-Isso é modo, suas patas chocas, de desfigurar a cara de uma pessoa? Já não bastava cortarem minha barba da outra vez, agora cortaram a parte mais bonita!

Pegando um saco de pérolas, escondido numa touceira ele sumiu atrás de uma pedra.

Pouco tempo depois, a mãe mandou as meninas à cidade comprar linha, agulhas, cordões e fitas. O caminho serpeava por uma planície de rochedos. Lá viram um grande pássaro pairando no ar, que depois de descrever um círculo cada vez menor, foi descendo, até cair sobre um rochedo não muito distante. No mesmo instante ouviram um grito. Correram e viram com horror que a águia segurava nas garras o seu velho conhecido, o anão, e se dispunha a carregá-lo pelos ares. As meninas seguraram o anão com todas as forças, e puxa de cá e puxa de lá, por fim a águia teve de largar a presa. Quando o anão voltou a si do susto, gritou-lhes com voz esganiçada:

-Não podem me tratar com mais cuidado? Estragaram o meu casaco! Suas, palermas!

Depois pegou um saco cheio de pedras preciosas e deslizou para dentro da toca, entre os rochedos. Sem se incomodar com sua ingratidão, elas foram pra cidade.

Ao regressarem pela floresta, elas surpreenderam o anão, que tinha despejado o saco de pedras preciosas num lugar limpinho. Os raios do sol caiam sobre as pedras, fazendo-as brilhar tanto, que as meninas, deslumbradas, pararam para as admirar.

-Que fazem aí de boca aberta? – berrou o anão; seu rosto acinzentado estava vermelho de raiva. Ia continuar xingando, quando se ouviu um grunhido surdo e, um enorme urso negro saiu da floresta.

O anão deu um pulo de medo, mas não teve tempo de alcançar um esconderijo: o urso cortou-lhe o caminho. Então ele implorou:

-Querido urso eu lhe darei todos os meus tesouros! Deixe eu viver! Você nem me sentirá entre seus dentes. Pegue essas duas meninas gordinhas para o seu estômago!

O urso não ouviu suas palavras; deu-lhe uma forte patada que o estendeu no chão.

As meninas fugiram, mas o urso chamou os seus nomes e elas reconheceram a sua voz e pararam. Quando o urso as alcançou, caiu a sua pele e, surgiu um formoso rapaz, todo vestido de trajes dourados.

-Sou filho de poderoso rei, – disse ele – este anão mau me condenou a vagar pela floresta sob a forma um urso depois de ter roubado os meus tesouros e só com sua morte eu poderia me libertar.

Branca de Neve, pouco tempo depois, casou com o príncipe e Rosa Vermelha com seu irmão. Partilharam, entre todos, os tesouros que o anão tinha acumulado na caverna e a velha mãe viveu ainda muitos anos tranqüila e feliz junto de suas queridas filhas e as duas roseiras que foram plantadas diante da janela dos seus aposentos. E todos os anos elas continuaram a dar as mais lindas rosas brancas e vermelhas.

O conto se inicia com uma mãe e suas duas filhas. Há uma falta de energia masculina naquele sistema familiar. São 3 personagens apenas, sendo que o número da completude e totalidade é o 4.

O quarto elemento compensatório virá com a figura do urso primeiramente. Depois passamos a ter as duas meninas, o urso e o anão e por fim as duas moças e os dois príncipes.

Elas vivem em estado de fusão, onde o estado paradisíaco impera na relação entre elas, característico da infância. Algo irreal e perfeito demais e que não é possível ser sustentado.

É bastante comum entre as mulheres de uma família (até como forma de defesa), se unirem em uma causa comum e excluírem os homens. Pai e irmãos podem ser deixados de lado, fazendo pouco deles e os tratando como bebês e imbecis.

Isso acontece entre as meninas em uma determinada idade antes da adolescência, onde elas se unem ao redor de seus interesses mútuos, excluindo os meninos que também se reúnem em grupos de forma a proteger sua masculinidade nascente.

Essas associações servem para reforçar o amor próprio e o senso de identidade. Até certa idade é extremamente saudável para poderem afirmar sua feminilidade perante si mesmas.
Em alguns povos tidos como primitivos os jovens eram iniciados nas sociedades secretas dos homens e as garotas nas de mulheres.

Na Grécia havia um culto a deusa Artemis em Brauron, que possuía a forma de uma ursa. Meninas entre 12 e 16 anos eram consagradas em seu serviço. Durante esse período não tomavam banho, não se cuidavam e se expressavam de forma grosseira; eram chamadas de “ursinhas” (Von Franz, 2010).

Artemis é conhecida por ser uma deusa virgem, ou seja, é aquela que é inteira em si mesma e não se deixa levar por relacionamentos. Diferentemente de outras deusas como Demeter e Hera, por exemplo, Artemis nunca foi subjugada ou perseguida por um homem. Sua inteireza então beneficiava as meninas na busca de sua verdadeira personalidade e amor próprio.

Atualmente em nossa sociedade, com a perda dessa iniciação feminina, temos muitas mulheres com senso de valor próprio muito baixo. Esses movimentos de empoderamento feminino vêm justamente compensar essa perda de rito de iniciação, de forma a resgatar essa falta de ritos de iniciação femininos. Esse movimento pode ser, por vezes, bastante exagerado; no entanto, todo movimento compensatório é exagerado e desajeitado. Isso assim ocorre para compensar o exagero da atitude anterior, mas com o tempo o equilíbrio pode vir a ser restaurado.

Essas sociedades secretas antigas, tinham como função proteger a personalidade em desenvolvimento das meninas, para que elas não se lançassem na sexualidade e maternidade cedo demais.
Os contos de fadas trazem muito material do inconsciente coletivo. Por essa razão, não é a toa que encontramos muitos simbolismos pagãos em contos de fadas de origem ocidental. Esse conto, por exemplo, é dos Grimm e de origem Alemã.

Na superfície podemos nos mostrar cristãos, mas nosso substrato inconsciente é pagão e está lá a espera de ser notado e novamente ouvido.

Com a repressão desse paganismo, perdemos muitos ritos iniciáticos trouxemos grandes dificuldades para a expressão feminina, pois no paganismo o feminino tem a possibilidade de se expressar de forma mais exuberante, do que no cristianismo atual.

Por meio do estudo dos contos de fadas podemos resgatar essa sabedoria perdida e esquecida para uma ampliação de consciência coletiva.

Pois bem, barrar o princípio masculino nem sempre é negativo, pois assim é possível desenvolver melhor a personalidade. Contudo, isso não pode durar tempo demais e o conto mostra como essa transição e a aceitação do masculino. Apesar da oposição autêntica entre os sexos, são essas diferenças que causam atração e levam a alteridade e ampliação de consciência.
Como cita Von Franz (2010), o principio masculino e o princípio feminino estão destinados a se completar e fecundar reciprocamente.

Voltando ao conto, vemos que ele ilustra a história de duas irmãs que são opostas uma a outra. Uma é claramente extrovertida, a Rosa Vermelha que gostava de correr pelos campos, já Branca de Neve que preferia ficar em casa ajudando a mãe, mostra aspectos de introversão.

Portanto, vemos os dois aspectos de manifestação do feminino em harmonia.

As meninas representadas por cores trazem um aspecto da Alquimia.

O Branco está associado à Albedo, que representa um estado de brancura, de paz e beatitude. Após os tormentos da alma (Nigredo) se alcança a paz. Nesses estado tudo flui com mais facilidade e a dor é menor. É o símbolo do Éden, o paraíso eterno e da regressão da libido. Mas neste estado de “brancura”, não se vive, pois se trata de uma espécie de estado ideal, abstrato.

O Vermelho está associado à Rubedo, que simboliza a união do masculino e feminino. É o casamento do Sol com a Lua, do céu com a terra, espírito e realidade. Observem que é Rosa Vermelha quem abre a porta deixando o urso entrar.

O estado anterior de brancura é um estado ideal e abstrato longe da realidade; é por isso, é necessário insuflar vida. O sangue da vida deve entrar com a Rubedo. Só o sangue pode trazer vida e assim o complexo autônomo possa ter expressão humana.

Além disso, o conto ilustra como uma personalidade extremamente feminina pode ser positiva, mas também trazer problemas. As meninas são extremamente identificadas com a mãe. Isso é benéfico em termos de autoestima, mas é prejudicial ao processo de individuação, uma vez que a filha projeta o Self em sua mãe, se tornando uma cópia dela e imitando tudo o que ela faz, sem questionar.

O masculino quando se apresenta vem fazer esse corte (como o corte do cabelo em Rapunzel) e encaminhar a mulher para sua individuação e para quem ela tem que se tornar.
Como esse masculino ainda não é integrado, ele se apresenta contaminado e em forma animal. É um complexo que ainda se encontra não integrado na vida humana e o sangue, ou seja, a Rosa Vermelha lhe permite a entrada na família para que possa encontrar a redenção.

A Deusa Artemis às vezes pode ser representada como ursa. Entre os adeptos de Wotan existiam os berseks. Um bersek podia cair em sono profundo, como que morto, durante uma batalha e nesse tempo um urso aparecia e massacrava os inimigos e quando desaparecia o bersek acordava. Isso significa que a alma desse homem se encarnava em um urso.

Simbolicamente simboliza a fúria. A Deusa Artemis – assim como Wotan – era conhecida por sua fúria proverbial e não hesitava em massacrar quem ousasse lhe enfrentar.

A fúria e a ira estão ligadas a cor vermelha da paixão, que andam juntas.

O urso do conto simboliza, então uma fúria que precisa ser integrada e transformada. É o masculino que falta naquela família. O urso com sua força representa uma agressividade necessária.
O feminino possui a tendência oposta a ser benevolente demais. É o aspecto Virgem Maria abnegada. No conto é o aspecto puro de Branca de Neve.

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Rosa Vermelha e Branca de Neve representam então o feminino em sua expressão mais completa. As duas são pólos opostos do arquétipo feminino, mas que juntas trazem a completude feminina. Esse aspecto mais completo se manifesta ainda, apenas no inconsciente e o vemos nos contos e mitos bem retratados.

No entanto, uma mulher sem o masculino, sem o animus, e que é feminina demais, mais a vida tende a passar por cima dela. A bondade extrema faz com que ela se deixe massacrar, matar e é despojada de sua existência.

Esse tipo de mulher socorre a todos e nunca a ela mesma. Ela pode ser a “tia solteirona” a quem todos correm pedindo ajuda.

Portanto, se copiar o homem é nocivo, é igualmente ruim ser feminina demais. Pois assim a mulher não consegue enfrentar a vida e ela passa por ela.

O conto então nos mostra o caminho para a integração do masculino sem cair no clichê do lado oposto e assim assumir suas qualidades negativas.

Mas como quase ninguém consegue acertar o alvo da primeira vez, uma mulher muito passiva pode se tornar bastante agressiva por compensação.

Esse aspecto encolerizado e mal humorado do masculino é visto na figura do anão, que, ao contrário do urso, vive encolerizado.

O urso possui uma atitude equilibrada com sua raiva; ele mata somente quando necessário. Já o anão barbudo é inconveniente, irritado, irritante e ladrão; ele é um aspecto do animus que precisa ser superado.

Ele espelha o caráter irritante de um animus que pode tomar uma mulher inteligente em muitos aspectos, e torná-la tola e briguenta. Ela perde o senso de humor, se torna ingrata e sedenta de poder. Uma verdadeira caricatura como o anão.

Conforme afirma Von Franz (2010), para a mulher chegar ao animus positivo e ter uma boa relação com um homem ela deve passar por essa fase intermediária.

Isso significa que ao passar a expressar esse animus no exterior, a mulher que nunca o expressou, começa a fazer isso de forma nada simpática. Isso ocorreu de forma coletiva com as primeiras mulheres que lutaram pelo direito ao voto, por exemplo. O mesmo ocorre nos dias de hoje, onde séculos de dominação do feminino não são mais tolerados. Vemos atitudes hipermasculinas e agressivas em várias dessas reivindicações.

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Os anões nos contos de fadas, em geral, são bastante agradáveis, solícitos e positivos. Eles têm uma relação profunda com o mundo feminino. Em Branca de Neve, um dos contos mais famosos do mundo, eles a auxiliam em seu desenvolvimento.

Eles, em geral representam as intuições criadoras e criativas, mas quando se apresentam negativos e irritadiços como nesse conto, isso significa que se trata de uma parte não vivida da mulher e que precisa de expressão. Sua vida criadora e criativa faz reivindicações para ter seu espaço na vida humana.

Ela até pode ter um emprego onde ganhe razoavelmente bem e até tenha status, mas isso não significa que seu potencial criativo esteja em ação. E mesmo assim ela pode ser tomada por essa estranha figura.

Há um excesso de energia criadora e criativa no inconsciente e a mulher precisa buscar algo que seja uma atividade criativa provinda de sua alma e não de fatores externos. Ela precisa reconhecer e integrar as demandas do seu inconsciente.

Outro aspecto interessante desse conto é a compaixão excessiva das meninas pelo anão insuportável.

É um dos aspectos do feminino esse excesso de compaixão e instinto maternal. A piedade diante do ser abandonado, condenado ou em desamparo quando em excesso pode levar a mulher à autodestruição psíquica. Por essa razão, principalmente as mulheres precisam desenvolver a objetividade e certo desprendimento e controlar esses instintos de piedade.

Isso pode se refletir em relacionamentos onde a mulher tem um marido do tipo anão. E, por incrível que pareça, são relações muito comuns. O home é um tipo sádico, neurótico e quando a mulher quer romper é invadida pela sensação de piedade e não consegue abandonar alguém tão desamparado. Ela projeta esse animus negativo no homem. Isso pode acontecer no caso de uma mulher querer ser a mártir de um alcoólatra. Ela passa a vida desculpando seus excessos, irritações e mau humor.

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Essa piedade pode acometer os homens também, mas os casos são em menor número.

Há um momento crucial do processo de individuação da mulher em que ela deve libertar-se dessa piedade sem discernimento (Von Franz, 2010).

Lembrando que no conto, o anão é um ladrão, significando que ele se apossa dos tesouros de possibilidades criativas dessa mulher e do lado positivo do animus. Nesse estado, ela pode ser uma vítima literal de seu amante, que vai lhe roubar seu dinheiro, talento, energia vitalidade e amor próprio.

Roubar é uma atitude que mostra que vai em busca do que quer, mas de uma forma infantil, preguiçosa e imatura. A mulher pode então, nesse caso, querer sair da solidão pelo caminho mais fácil e preguiçoso, aceitando qualquer migalha de amor.

Ao negar sua piedade e dedicação a um homem desse tipo, ela tem de enfrentar o seu problema e se esforçar para encontrar o que realmente procura, o que exige um tremendo esforço; basta ver a narração do mito de Eros e Psique, onde a heroína passa por provas desgastantes para encontrar seu masculino positivo.

Um processo de iniciação feminino então é narrado no conto. Na iniciação elas mergulham e encaram o problema e assim prendem a barba do anão.

O tema da barba é comum nos contos de fadas. Os Grimm nos deixaram contos como o Barba Azul, que representa o animus assassino; além do conto O Rei Barba de Tordo, que mostra a transformação do animus; em O Velho Rinkrank, onde a heroína prende a barba do demônio da montanha e escapa dele.

A barba é o pelo que cresce ao redor da boca. Algo bem típico do masculino. Elas simbolizam algo que cresce espontaneamente ao redor da boca, simbolizando um verbalismo automático e nervoso que se apossa da mulher e um sintoma bem neurótico de nossa sociedade atual hiperintelectualizada. É uma torrente de pensamentos e palavras indiferenciados e inconscientes.
A barba desse animus representa então o aspecto verborrágico dele. Uma verborragia autônoma, sem sentido e arrogante.

Ao prender a barba do anão, a mulher se questiona e não deixam que essa energia flua sem direcionamento. Ela usa, então, a razão para questionar o que está dizendo e pensando. A questão central é se perguntar: “Eu estou realmente pensando isso?”.

Assim, se questionando a mulher consegue aos poucos para de sustentar raciocínios absurdos e começa a questionar o que realmente quer exprimir.

Mas nos contos elas soltam o anão. E assim ele continua prejudicando os outros até que o urso o mate. Algumas mulheres ao invés de enfrentar esse animus negativo preferem se livrar dele.

No entanto, quando isso ocorre, elas precisam usar de agressividade para a transformação. Uma energia extra teve de ser usada.

No final o anão é substituído pelo irmão do urso, que resulta em um casamento quaternário, ou seja, em mais um símbolo da totalidade. A energia masculina foi transformada e alcançou um nível mais elevado.

Os contos de fadas de origem européia e que são tão famosos no Ocidente, culminam em um casamento. Parece que ainda necessitamos e ansiamos pelo equilíbrio da energia masculina e feminina.

O conto de fadas Branca de Neve e Rosa Vermelha ilustra então, espíritos insuficientes desenvolvidos que caem em uma armadilha intelectual falsa. Seja a mulher por meio de um animus não desenvolvido, ou de um homem que não tem consciência de sua anima e caiu nas garras do animus dela (vários contos como A Princesa Enfeitiçada relatam isso).

E assim, por meio desse conto, vemos como a mulher pode desenvolver seu espírito criador e assim deixar de estar em um papel secundário ao lado de homens criadores que roubam suas ideias.

Referência Bibliográfica:
VON FRANZ, M. L. A interpretação dos contos de fada. 5 ed. Paulus. São Paulo: 2005.
_________________ O feminino nos contos de fada. Vozes. São Paulo: 2010.

Imagens de mulheres passando pela transformação da gravidez

Imagens de mulheres passando pela transformação da gravidez

A gravidez é uma coisa linda, mas também tortuosa. Seja por um chamado da natureza ou pela necessidade de formar uma família, muitas mulheres, seguindo seu instinto, lutam para ter seus filhos e deixar uma marca na história.

A gravidez é a transformação mais significativa na vida de grande parte das mulheres. Elas são as rainhas no reino da vida. Precisam suportar modificações gravídicas e assumir uma responsabilidade, a maior delas, para sempre.

Essas mulheres dividem sua vida em duas metades: antes e depois de se tornar mães. O papel da maternidade é, de longe, o mais difícil de interpretar.

Em dedicação a todas as mães do mundo, o site Bored Panda compilou uma lista de fotos que mostram a maternidade antes e depois do parto.

Cada uma dessas mães sentiu na pele o que é ser dona de si mesma. Elas contribuíram para o mundo com seu grande poder: oferecer o privilégio da vida.

As imagens a seguir retratam a progressão das mudanças femininas desde o início do parto até o nascimento do bebê. Confira:

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10 Coisas que não deve adiar

10 Coisas que não deve adiar

Max Lukominskyi, que colabora com o medium.com, escreve sobre o que não se deve adiar na vida – para evitar arrependimentos no futuro.

O que definitivamente não quer fazer no futuro é arrepender-se do passado. Especialmente se esses arrependimentos estiverem relacionados com oportunidades perdidas e tempo perdido.

O que não faltam são histórias de pessoas já nos seus 30 e 40 anos a falar sobre coisas que desejavam ter sabido ou feito antes.

Tendo lido essas histórias, tirei algumas conclusões para mim mesmo e gostaria de partilhá-las consigo. O objetivo deste artigo é desafiar a sua mentalidade e ansiedades atuais e ajudá-lo a compreender que coisas não deve adiar e que valores deve considerar prioritários agora mesmo.

Quando se tem 20 anos vive-se o período mais maravilhoso das nossas vidas, em que, por um lado, temos de enfrentar questões importantes pela primeira vez na nossa vida e por outro ainda temos bastante liberdade e muitas oportunidades para aproveitar.

Contudo, o principal desafio deste período de vida é fazer o menor número de erros graves possível enquanto se aproveita todas as oportunidades ao máximo. Até se pode ter falta de meios e dinheiro durante os 20 anos, mas isso deve ser compensado com coragem, curiosidade e por último mas não menos importante, o recurso mais importante.

O recurso que pode ser transformado em experiência. O recurso que pode ser transformado em competências. O recurso que pode ser transformado em conhecimento. O recurso que pode ser transformado em memórias inesquecíveis. O recurso que não se pode desperdiçar.

Este recurso é o tempo. Embora possa estar por vezes ocupado, certifique-se que o tem em excesso. Use este recurso sabiamente.

Tome uma atitude agora para não se vir a arrepender de oportunidades perdidas no futuro.

1. Expresse os seus sentimentos

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Aproveite todas as oportunidades para dizer coisas importantes às pessoas que ama. Não hesite em expressar os seus sentimentos e pensamentos. Não considere as pessoas na sua vida como garantidas. Vá ter com o seu/sua companheiro(a) e diga-lhe o quanto o valoriza.

2. Não deixe de aprender

A aquisição de novas competências é extremamente necessária no mundo contemporâneo – se não queremos ficar para trás. Continue a estudar especialmente depois de completar a universidade. Inscreva-se em cursos online, leia livros e artigos inteligentes, melhore as suas competências.

3. Passe tempo com a sua família

Certifique-se de que dedica tempo suficiente para estar com os seus entes mais próximos. Os membros da sua família são as pessoas mais valiosas da sua vida. Aproveite todas as oportunidades que tiver para conversar com os mesmos ou até para passar um fim-de-semana na sua companhia.

4. Viva experiências

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A idade jovem é também uma ótima altura para se viver experiências. Viva experiências na sua vida num sentido amplo. Mude de penteado, faça experiências com tecidos e sapatos, faça uma tatuagem. Experimente desportos ou profissões diferentes.

5. Faça exercício regularmente

Torne o fitness parte integrante da sua rotina. Mantenha-se em forma e cuide do seu corpo. Fazer exercício regularmente irá deixá-lo mais fresco, vigoroso e aberto a novos inícios. A vida começa num corpo saudável.

6. Passe tempo com quem mais gosta

Antes de mais nada: não mantenha relações quebradas durante anos. Não vale a pena. Seja audaz o suficiente para acabar com as mesmas. Deve dedicar o seu tempo a uma pessoa que ame genuinamente e com a qual se sinta bem.

7. Abra um negócio

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Se já se imaginou no papel de empreendedor ou se simplesmente sonhou com a concretização das suas ideias, deve começar a agir agora! Ou daqui a um ano vai desejar ter começado hoje. Não caia na ideia errada de que a altura certa há-de chegar. Porque não vai. A altura certa é agora. Por isso, aja já!

8. Viaje explore o mundo.

Desvende novos países e culturas para si mesmo. Viaje o máximo que puder. Até mesmo pequenas viagens locais contam. Não adie viagens para uma melhor altura – provavelmente essa altura nunca irá chegar.

9. Arrisque mais

Quando se é jovem ainda não se tem muito a perder. Seja um “tomador de riscos”. Não tenha medo de remar contra a maré e de correr riscos. Especialmente quando os riscos não são assim tão elevados.

10. Tome uma atitude

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Pensar apenas não o vai levar muito longe do sítio onde está. Mas as atitudes sim.

Sem atitude não há resultados. Não adie a realização dos seus sonhos e objetivos.

Quanto mais velho ficar menos motivação e energia terá para novos começos.

As suas ideias não servem para nada. Só as atitudes.

Não interessa o que pensa ou quantas ideias maravilhosas tem. A atitude é que interessa.

Quando perguntei a Jon Westenberg se alguma vez teve uma citação presa na cabeça, respondeu imediatamente que sim, que definitivamente teve uma. Essa mesma citação deixou-me também a pensar:

“Quando se é jovem, sente-se que a vida ainda não começou – essa “vida” está sempre agendada para começar na próxima semana, no próximo mês, no próximo ano, depois das férias – seja quando for. Mas de repente é-se velho e a vida agendada nunca chegou a acontecer. Então dá-se por si a perguntar “Que coisa era aquela que eu estava a ter – aquele interlúdio – durante todo aquele tempo que tive?” — Douglas Coupland

Certifique-se de que usa o seu tempo sabiamente. Uma vez passado, fica perdido para sempre.

O tempo voa. Se quer evitar a horrível sensação de arrependimento no futuro, viva agora! Desfrute do tempo da sua vida. Siga os seus sonhos. Não se preocupe em crescer. Não crie motivos para arrependimentos. Viva!

Imagem de capa:  Kryvenok Anastasiia/shutterstock

As pessoas mais caras são aquelas com quem a gente pode tomar o vinho mais barato.

As pessoas mais caras são aquelas com quem a gente pode tomar o vinho mais barato.

São elas, sim. Aquelas que não vão nos julgar pelo dinheiro que temos no bolso, na conta, na herança da família. As pessoas que nos são mais caras não dão a mínima se tudo o que temos é barato e comprado a prestação. Não ligam se o nosso carro não tem ar condicionado e faz barulho quando abre o vidro. Não reclamam se o vidro emperra. Não ficam tristes de ganhar no aniversário nada mais que uma mensagem de texto, um telefonema ou uma bobagem da loja de um e noventa e nove. Basta que seja sincero.

De todas as pessoas que encontramos na vida, as mais valiosas são as que chegam antes do dinheiro e as que ficam depois que ele acaba.

Não, isto não é um elogio à pobreza, não. É só uma celebração de toda gente leal que resta no planeta. Porque amigo é amigo com dinheiro ou na miséria. Pode até desistir de uma amizade. Acontece. Quase todo mundo vai embora quando é traído, enganado, maltratado, preterido. Afinal, ser amigo não é igual a ser trouxa ou aceitar tudo. Agora, nenhuma pessoa decente abandona seu amigo só porque a grana acabou.

Não, eu não estou dizendo que todo “pobre” é legal e todo “rico” é canalha. Estou afirmando que gente boa de verdade vive para além das limitações de orçamento. Não se aproxima e nem foge de alguém tão somente pela mera semelhança ou diferença financeira. Gente boa de verdade não expulsa de seu clube um companheiro na falência nem se achega a um desconhecido apenas por lhe saber endinheirado.

Não, não é mau frequentar lugares caros, pagar mais por seus gostos, viajar o mundo, viver em um bom bairro. Se o dinheiro é seu e foi ganho honestamente, o que há de errado? Nada! Assim como nada há de impróprio em viver com poucos recursos por necessidade, pagar menos para morar, comer, vestir. O sujeito que vende o almoço para comprar a janta não é melhor nem pior que o esbanjador e vice-versa. São só pessoas em posições diferentes, vivendo realidades diversas.

Pessoas não têm preço. Porque preço é próprio de coisas e objetos. Pessoas têm valor. Umas mais, outras menos. E eu tenho a impressão de que o valor da gente não se mede pelo preço que a gente paga nas coisas.

Não é por nada, não. Mas para mim as pessoas mais caras do mundo são aquelas que não reclamariam de tomar champanhe francês ao meu lado, de frente para a Torre Eiffel, como também não rejeitariam um vinho barato em minha companhia. Nem gostariam menos de mim por isso.

A imagem de capa é de Inge Löök, artista gráfica finlandesa

10 lições que eu aprendi com o filme “A vida secreta das abelhas”

10 lições que eu aprendi com o filme “A vida secreta das abelhas”

Vida Secreta das Abelhas é um filme que deve ser visto. Deve ser visto porque é um filme sobre mulheres fortes.

É um filme sobre mulheres sensíveis.

É um filme sobre mulheres que desafiaram a ordem vigente, se apoiaram umas nas outras e escreveram seus próprios caminhos.

Resumindo: é um filme extremamente feminino e inspirador. Nele, é contada a história de uma adolescente, Lily, que se sente culpada pela morte da mãe. Lily mora com o seu pai e com Rosaleen, uma empregada negra, no interior dos Estados Unidos, na década de 60, em um contexto extremamente racista. Lily não tem o carinho do pai, que é frio e lhe maltrata.

Quem lhe cuida e dá amor é Rosaleen.

Um dia, Rosaleen é agredida por homens racistas, e Lily, cansada de ser maltratada pelo pai, foge de casa com ela. As duas acabam parando na propriedade de August, uma mulher negra que tem duas irmãs: May e June. Elas possuem um bom negócio, onde produzem mel, e são donas de uma boa propriedade. Aos poucos, essas mulheres vão conquistando o seu lugar ao sol em uma sociedade onde, até então, o negro só possuía direitos no papel. Eu não vou contar todo o enredo do filme porque ele realmente deve ser visto. Mas algumas frases e situações muito me ensinaram e aqui em compartilho com vocês:

Lição 1 – Sobre querer e perder

“Ela era tudo que eu queria e eu a tirei de mim”. Nesta frase, Lily se refere à perda da mãe. Uma perda da qual não teve culpa, visto que quando tudo ocorreu ela era apenas uma criança. Mas trazendo estas palavras para o nosso contexto, essa frase representa um comportamento emocional recorrente: às vezes, nos relacionamentos. Gostamos tanto de alguém que nos auto sabotamos. Adquirimos um comportamento que nos faz atrair justamente algo que queremos evitar: o fim. Queremos estar com aquela pessoa, mas pedir desculpas ou tentar uma aproximação é difícil demais. Acabamos achando mais fácil abrir mão daquilo que se ama do que superar as nossas próprias limitações… Como me disse uma certa amiga uma vez: “É mais fácil expor a raiva do que expor o amor”.

Lição 2 – Lutar por justiça pode nos trazer dor, mas ainda sim é algo que deve ser feito

Rosaleen, a empregada, é agredida verbalmente por homens racistas. Ela, por sua vez, não se deixa intimidar. Eles ordenam que ela os peça desculpa ou seria agredida fisicamente. Ela não pede e por isso apanha. Posteriormente, Lily disse a Rosaleen que ela deveria ter pedido desculpas àqueles homens, pois ela correu o risco de ser assassinada por eles. Rosaleen responde: “Pedir desculpas àqueles homens teria sido apenas outro modo de morrer. Só que eu teria que viver com isso.”. O mundo está cheio de injustiças e a gente infelizmente aprendeu assistí-las e ficar caladas. Rosaleen nos mostra que se a gente simplesmente abaixa a cabeça, uma dor maior adentra o nosso ser. Se queremos justiça, devemos lutar por ela.

Lição 3 – A Verdade não é tudo

“A verdade é só metade do caminho. O que importa é o que você vai fazer com ela”. Quantas vezes a gente descobre algo sobre uma situação ou sobre alguém e se decepciona, entristece ou enraivece? Encarar a verdade, como diz um personagem do filme, é só metade do caminho. Descobrir a verdade não liberta ninguém de um relacionamento fajuto, por exemplo. O que faz a diferença é o nosso comportamento após isso.

Lição 4 – Abrir mão das nossas vontades pode valer a pena

“Algumas coisas não são tão importantes, como a cor de uma casa. Mas deixar alguém feliz, isso é importante.” – August diz essa frase a Lily para justificar o porquê de ter pintado as paredes da sua casa de uma cor duvidosa. A escolha se deveu ao fato de que a cor trouxe bons sentimentos a sua irmã May, que era uma moça muito sensível, tocada por uma grande perda. August decidiu pintar sua casa de uma cor que não gostava porque ela considerava que a felicidade da sua irmã May era muito mais importante do que a simples cor de uma parede. E na prática, quantas vezes nós abrimos mão de algo não tão importante só para fazer alguém feliz? Com certeza é algo que deveríamos praticar mais!

Lição 5 – Às vezes a liberdade é mais importante ou necessária do que estar em um relacionamento

“-Você já se apaixonou? – pergunta Lily.

-Claro que sim. – responde August.

-Não o bastante para se casar?

-Eu o amava bastante. Só que amava mais a minha liberdade. – finaliza August.”

Algumas vezes, nós gostamos muito de alguém mas ainda não estamos prontos ou talvez a nossa liberdade de ser solteira combine mais com as escolhas que fizemos. August sabia disso. Ela era uma mulher, uma mulher negra, que escolheu estar à frente dos seus negócios. Ela representou o que as mulheres, sobretudo as mulheres negras, poderiam conquistar. Ela foi portanto uma inspiração de liberdade, possibilidades e conquista. A sua liberdade permitiu que ela chegasse até onde chegou e talvez por isso foi tão importante ela abrir mão do amor.

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Lição 6 – Ser sensível é melhor do que não sentir nada

“-Srta. May, sei que às vezes você fica muito triste. Meu pai nunca sente nada. Nunca sentiu nada. Eu prefiro ser como você. – diz Lily.

-Às vezes, não sentir nada é a única maneira de sobreviver. – responde May”

May não conhecia o pai de Lily mas ela sabia que algumas pessoas se tornam frias porque aquela era a forma que elas encontravam para sobreviver. Sei que parece horrível ser alguém sem sentimentos, mas antes de julgarmos, devemos saber que cada um passa ou passou por batalhas que não conhecemos. E talvez aquela pessoa tão gelada seja apenas alguém que não sabe externar ou lidar com o que sente.

Lição 7 – Há muito amor nesse mundo

Há duas frases ditas por Lily que chamaram muito a atenção e tenho certeza de que muitas de nós já se encontraram em situação semelhante:

“Não há nada que eu queira mais que alguém que me ame” e “Eu não mereço ser amada”.

Lily se sentia abandonada pelos pais e queria muito ser amada, mas ao mesmo tempo ela acreditava não merecer receber amor. Ela carregava em suas costas uma culpa que não era sua. Quantas vezes nos achamos indignas de ser amadas? Seja por nossos defeitos, pelo que passamos na infância ou por algum trauma. August responde: “Há muito amor nesse mundo”. O que nós precisamos é nos abrir para ele, não deixar que nossas perdas nos tornem pessoas fechadas. Às vezes, o amor vem de uma forma que não esperamos. A história de Lily é prova disso. Uma menina branca que encontrou todo amor do mundo ao lado de quatro mulheres negras.

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Lição 8 – Nem tudo que as pessoas nos dizem é realmente o que elas querem dizer. Às vezes, elas simplesmente não têm força ou coragem de dizer o que realmente sentem

“Ainda digo a mim mesma que, quando meu pai partiu naquele dia ele não quis dizer: ‘Que seja. Ele quis dizer: ‘Lily, você ficará melhor aqui, com todas essas mães’.”

O pai de Lily não fez questão de ficar com ela. Mas Lily captou que no fundo ele sabia que ela estaria melhor com as suas “mães”. Só que ele era amargurado demais para saber dizer isso à Lily… O que ouvimos nem sempre corresponde à verdade. É preciso nos atentarmos também às entrelinhas e relevar certas coisas…

Lição 9 – Dizer “Adeus” pode ser dolorido mas pode também ser a melhor opção

O pai de Lily saiu da sua vida, foi embora sem dar ao menos um beijo de despedida. Quantas vezes a gente sofre porque alguém saiu das nossas vidas, não é mesmo? Seja aquela pessoa um amigo, um amor ou um parente. Mas às vezes, aquela partida foi a melhor opção para o desfecho da situação. Muitas vezes, os caminhos vão para direção opostas e é melhor assim. Pode não fazer sentido no momento em que ocorre mas certamente fará sentido em um outro momento.

Lição 10 – O laço sanguíneo não é tudo

A Vida Secreta das Abelhas mostra que o sangue nem sempre representa afeto, segurança ou afinidade. Muitas vezes, o sentido das palavras “Amor” e “Família” a gente encontra onde a gente menos espera. Se você tem relações familiares difíceis ou até mesmo não tem uma família, não se abata. Você tem toda possibilidade de encontrar amor em outros lugares. Pois como disse August: há muito amor nesse mundo!

Trate os seus filhos com cuidado porque são feitos de sonhos

Trate os seus filhos com cuidado porque são feitos de sonhos

A infância tem o seu próprio ritmo, a sua própria maneira de sentir, ver e pensar. Poucas pretensões podem ser tão erradas como tentar substituí-la pela forma como nos sentimos, vemos ou pensamos, porque as crianças nunca serão cópias dos seus pais. As crianças são filhas do mundo e são feitas de sonhos, esperanças e ilusões que se acumulam nas suas mentes livres e privilegiadas.

Há alguns meses saiu uma notícia que nos desconcerta e nos convida a refletir. No Reino Unido, muitas famílias preparam as suas crianças de 5 anos para que aos 6 possam fazer um teste, que lhes permite ter acesso às melhores escolas. Um suposto “futuro promissor” pode causar a perda da infância.

De que adianta uma criança saber os nomes das luas de Saturno, se não sabe como lidar com a sua tristeza ou raiva? Eduquemos crianças sábias nas emoções, crianças cheias de sonhos, e não de medos.

Hoje em dia, muitos pais continuam com a ideia de “acelerar” as habilidades de seus filhos, de estimulá-los cognitivamente, colocá-los para dormir ao som de Mozart enquanto ainda estão no útero. Pode ser que essa necessidade de criar filhos aptos para o mundo esteja a educar filhos aptos apenas para si mesmos. Criaturas que com apenas 5 ou 6 anos sofrem o estresse de um adulto.

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Os nossos filhos e a competitividade do ambiente

Todos sabemos que nas sociedades em mudança e competitivas são necessárias pessoas capazes de se adaptarem a todas as exigências. Também não temos dúvidas de que crianças britânicas que conseguem entrar nas melhores escolas, conseguirão amanhã um bom trabalho. No entanto, também é necessário perguntar … Terá valido a pena todo o custo emocional? O perder a infância? O seguir as orientações de seus pais desde os 5 anos?

As crianças são feitas de sonhos e devem ser tratadas com cuidado. Se lhes dermos obrigações de adultos enquanto ainda são apenas crianças, arrancamos-lhes as asas, fazendo-as perderem a sua infância.

Respeitar o tempo, o afeto e os sonhos

A nossa obrigação mais importante é dar às crianças um “raio de luz”, para depois seguirmos o nosso caminho. – Maria Montessori

A curiosidade é a maior motivação do cérebro de uma criança, por conseguinte, é conveniente que os pais e educadores sejam facilitadores de aprendizagem, e não agentes de pressão. Vejamos agora abordagens interessantes sobre a parentalidade que respeita os ciclos naturais da criança e suas necessidades.

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Pais sem pressa – Slow Parenting

O “Slow Parenting” (pais sem pressa) é um verdadeiro reflexo dessa corrente social e filosófica que nos convida a desacelerar, a sermos mais conscientes do que nos rodeia. Portanto, no que se refere à criança, promovemos um modelo mais simplificado, de paciência, com respeito aos ritmos da criança em cada fase de desenvolvimento.

Os eixos básicos que definem o Slow Parenting serão:

  • A necessidade básica de uma criança é brincar e descobrir o mundo;
  • Nós não somos “amigos” de nossos filhos, somos suas mães e pais. Nosso dever é amá-los, orientá-los, ser seu exemplo e facilitar a maturidade sem pressão;
  • Lembre-se sempre de que “menos é mais”. Que a criatividade é a arma dos filhos, um lápis, papel e um campo têm mais poder do que um telefone ou um computador;
  • Compartilhe tempo com seus filhos em espaços tranquilos.

Parentalidade respeitadora / consciente

Embora o mais conhecido desta abordagem seja o uso de reforço positivo sobre a punição, este estilo educativo inclui muitas outras dimensões que valem a pena conhecer.

  • Devemos educar sem gritar.
  • O uso de recompensas nem sempre é apropriado: corremos o risco de nossos filhos se acostumarem a esperar sempre recompensas, sem entenderem os benefícios intrínsecos do esforço, realização pessoal.
  • Dizer “não” e estabelecer limites não vai gerar nenhum trauma, é necessário. O forte uso da comunicação, escuta e paciência. Uma criança que se sente cuidada e valorizada é alguém que se sente livre para manter os sonhos da infância e moldá-los até a idade adulta.
  • Respeitemos a sua infância, respeitemos essa etapa que oferece raízes às suas esperanças e asas às suas expectativas.

Fonte: La mente es maravillosa

Não se mate de trabalhar — literalmente

Não se mate de trabalhar — literalmente

Sábado, 19h30, um sujeito bem vestido e acompanhado da esposa e do filho se dirige à fila de um caixa no supermercado. O casal deve ter na faixa dos 30 anos e o menino, no máximo, uns 7 anos de idade.

O diálogo abaixo me cortou o coração.

Eu queria que o pai não trabalhasse sexta, sábado e domingo. — diz o menino, cabisbaixo.

Silêncio.

Sábado e domingo já estava bom, né? — a mãe responde ao filho.

Mais silêncio.

É o sonho. — responde o sujeito com a voz embargada.

Eu havia passado o dia em companhia da minha esposa passeando por cidades vizinhas. Estava naquele supermercado comprando suprimentos para recebermos um casal de amigos mais tarde. Algo, a meu ver, normal para um final de semana. Ou, pelo menos, deveria ser assim.

Fiz um exercício de empatia e me coloquei no lugar do sujeito. Lembrei que, quando criança, eu dizia as mesmas coisas para o meu pai. Ele foi caminhoneiro por um bom tempo e chegava a ficar mais de uma semana fora de casa. Também foi gerente do supermercado da família e tinha horários parecidos com o do cara da fila do caixa. E, assim como aquele menino, eu não entendia os motivos de ele não poder estar sempre presente.

O motivo, em ambos os casos, é simples: precisamos pagar contas. Mas, precisa ser assim? Tem sido cada vez mais comum ler notícias de empresários na faixa dos 40 anos que faleceram devido à um infarto fulminante. Estresse, má alimentação e falta de exercícios. A tríade responsável por grande parte dessas mortes precoces.

A morte por excesso de trabalho

Altos níveis de estresse podem arruinar sua saúde. Você vai armazenar mais gordura, terá dificuldades em ganhar músculos, terá menos energia, terá maior risco de ter um ataque cardíaco ou um acidente vascular cerebral e dormir não será mais suficiente para diminuir o cansaço.

No Japão há uma palavra para isso. Na verdade, eles vão além: é um diagnóstico. O karoshi é a tradução literal para morte por excesso de trabalho. Refere-se à morte súbita de um empregado, geralmente a partir de um ataque cardíaco ou acidente vascular cerebral devido ao estresse no trabalho.

O karoshi tornou-se diagnóstico nos anos 1980 e, desde então, o número de mortes que se enquadram nessa categoria aumentou. Além disso, o aumento de doenças graves, como a depressão, e tentativas de suicídio também tem ligação com o karoshi.

O governo japonês tem pressionado as empresas do país a mudarem. A Toyota limitou o número de horas que um funcionário pode trabalhar num mês. A Mitsubishi permite que seus colaboradores saiam até três horas mais cedo do serviço para cuidarem de crianças ou parentes idosos. E o mais interessante nisso tudo é que o Japão é o único país no mundo que contabiliza mortes relacionadas ao trabalho em uma categoria diferente.

No Brasil, temos um grande número de mortes e infartos fulminantes relacionados ao trabalho, mas pouco se fala sobre isso, já que não há um acompanhamento estatístico. Em outras palavras, os brasileiros estão, literalmente, trabalhando até a morte e ninguém está fazendo nada a respeito porque não temos números para provar isso.

Como superar o excesso de trabalho

A resposta típica e cômoda seria apontar o dedo para algum culpado. A cultura organizacional do país, o governo, o chefe ou a empresa. Mas, não adianta em nada você ter um ambiente de trabalho saudável se você não é saudável. A sua saúde é sua e de mais ninguém, portanto, você é o único responsável por ela.

Em tempos de crise é comum a cobrança excessiva de resultados por parte das empresas, porém, por vezes o excesso de trabalho deve-se ao acúmulo de tarefas inacabadas que tornam-se uma bola de neve. E aí, amigo, o negócio é com você. Se uma tarefa exige 60 segundos do tempo, não deixe-a pra depois. Execute-a. Esse é um pequeno exemplo de como pequenas mudanças de hábito podem evitar que você antecipe incêndios ao invés de apagá-los diariamente.

No início do ano eu estava sofrendo muito com o excesso de trabalho. Aí descobri que a culpa era dos meus maus hábitos. Dei um basta e mudei minha rotina, como contei aqui. Me tornei mais produtivo, mais feliz e, de quebra, o cansaço foi embora.

Ou seja, mesmo que você esteja em um ambiente de trabalho terrível, que sua empresa não tenha adotado medidas como a Toyota ou a Mitsubishi, é possível virar o jogo através de pequenas atitudes. O progresso é lento e difícil, mas saiba que você tem opções. Não pense que é o fim da linha.

Trabalhar duro vale a pena?

Todo esse papo sobre trabalhar demais e estresse pode lhe induzir ao pensamento de que o trabalho duro #HardWorkPapai não vale a pena.

Discordo.

Trabalhar duro vale cada pedaço do seu esforço. A pergunta a ser feita é: Você está trabalhando duro nas coisas certas?

“De longe, o maior prêmio que a vida oferece é a chance de trabalhar muito e se dedicar a algo que valha a pena”. (Theodore Roosevelt)

A partir da pergunta acima, outros questionamentos internos podem te ajudar nessa reflexão.

  • Você tem dado a sua saúde o mesmo foco que dá ao seu trabalho?
  • Você dá aos seus relacionamentos tanta ênfase como dá ao seus prazos no trabalho?
  • Você tem tempo para passear e viajar com seus entes queridos assim como tem para reuniões?

Ou… Você está simplesmente gastando todo o seu tempo no trabalho?

Pense nisso quando estiver estressado e, se perceber esses indícios em sua vida, mude. Mude enquanto é tempo. Ou, infelizmente, você provavelmente morrerá mais cedo. E sem ter aproveitado a vida.

Amor de Doriana

Amor de Doriana

Família reunida de manhã cedinho, sorrisos pra todo lado, “bom dia” pra lá, “me passa o suco” pra cá, uma anedota nada suja sobre algum evento cotidiano, cachorro deitado na cama do gato, gato deitado em cima do cachorro, um sol bonito de dar dó entrando pela imensa porta de vidro da cozinha e iluminando pão, manteiga, queijo. Quem é que não se lembra de ter visto pelo menos uma vez essa cena na televisão em um comercial de margarina?

Tudo muito perfeito, muito limpo, muito certinho. Cadê a remela nos olhos, o bafinho matinal que faz a pessoa do lado virar o rosto quase desmaiando e aquela cavucadinha marota nas cavidades nasais? Cadê as pessoas de verdade dessa casa, minha gente? É isso que me pergunto toda vez que me deparo com essas cenas.

Não gosto das coisas certinhas, delicadinhas, bonitinhas e outras coisas mais inhas. Na verdade, seria melhor dizer que eu não gostava dessas coisas (isso, no pretérito mesmo). Acontece que bastou ela me mostrar essas coisas do jeito dela e tudo fez sentido, ou se não fez, de algum jeito ela me convenceu pra caralho de que fazia.

A mulher amada é aquela que tem o dom de te convencer que urubu é loro.

Ela faz água com folhinhas hortelã pra tomar em dias de calor. Sim, é sério. Água com hortelã. E acho tudo isso um charme, bonito de encher os olhos d’água.

É fácil falar que fazer amor é broxante quando seu conhecimento sexual é tão limitado a ponto de você não conseguir reparar em todo o tesão que existe nisso. Vai por mim, fazer amor é foda! Uma mistura explosiva de ternura e perversão. Salomão sabia mesmo das coisas, constato.

Não tem a ver com marasmo, com monotonia. Não me venha colocar palavras na minha boca (se quiser colocar algo nela, que seja cerveja, ok?). Trata-se de empatia, de poder ver o mundo através dos olhos de quem não pensa igual a você e de embarcar nessa. Alguma vez já experimentou tentar usar um óculos que não fosse o seu? Então, é quase isso.

Fica tudo tão fácil quando vejo ela sorrir, quando me conta do seu dia e pergunta sobre o meu. Às vezes me pego pensando se estou ficando velho e por isso ando querendo sossegar o facho, ser um daqueles caras lendo jornal na mesa em um comercial de margarina, mas basta cinco minutos de conversa entre nós dois e fica claro que não, que na verdade é só o começo de uma aventura em dupla, só o primeiro dia do restante dos nossos dias.

Toda vez que acordo ao lado dela eu me sinto num comercial de Doriana e, pela primeira vez na vida, não sinto vontade alguma de correr.

Demonstrar o amor não exige força, mas sim querer

Demonstrar o amor não exige força, mas sim querer

O que faz de um homem apaixonado? Como reconhecer o amor nos olhos daquele que se diz másculo? Dizer “eu te amo” não é suficiente, porque vivemos em tempos de banalização da expressão. O garoto educado para ser alguém forte e decidido pode sofrer muitas vezes quando necessita expressar o seu carinho para com o outro. Sem generalizar todos os homens, claro, mas é perceptível essa cultura ainda hoje do homem ter o momento certo para amar. Cumprimentar o amigo com afeto vira motivo de piada. Dar beijo no rosto de outros familiares masculinos é motivo para opressão. E então, sortido pelo amor, o homem declina. Persegue a segurança sem fragilidade. Acaba sendo bruto com a mulher amada e outros do seu círculo. Mas todos sabem que o ser humano é capaz de amar. Então para que camuflar todo e qualquer tipo de manifestação dele?

O homem ama no cinema, na literatura e na música. Mas e na vida? Na vida ele apenas suspira esperando que o seu afeto seja compreendido sem nada ser dito. O silêncio até dá voz para o amor, mas quando acompanhado de gentilezas, bondades e carícias é tão real quanto. Esqueçamos de mensurar caminhos para o bem-dizer. E antes do pensamento preencher o coração com achismos, consideremos a oportunidade de transbordar certezas. Certezas ditas e gesticuladas pelo quê se ama e por quem se ama. A vida não é um jogo de espera, onde quem confessa os sentimentos por último vence. Levar o amor na ponta dos lábios, a partir disso, é abrir mão da escolha de ser feliz.

Então vá e ame. Não importa o dia, a hora ou o lugar. Expresse amor para o amor. Seja mulher, homem, amigo (a) e família. Essa masculinidade cobrada nem serve mais para preencher uma ficha burocrática. Sentir no amor não deve ter distinção. Os olhos brilharam e os sorrisos foram recíprocos? Então ame. Começar com um “Oi” pode representar tanto quanto um “Eu te amo”.

“Como eu era antes de você” e a nossa capacidade de levar aqueles que amamos em nós

“Como eu era antes de você” e a nossa capacidade de levar aqueles que amamos em nós

Um dia a vida chega e muda todos os móveis de lugar. Abre as cortinas e pede que as vistas caminhem por outros cantos. Um dia qualquer, sem pretensões, podemos ser tocados pelo amor e por todos seus desdobramentos. E o amor é tão imenso e apinhado de significados que mesmo quando aquele que amamos não está fisicamente ao nosso lado, podemos levá-lo conosco naquele avesso particular e infinito que nos habita.

Assim acontece no filme inspirado no romance da escritora Jojo Moyes “Como eu era antes de você”. Louisa é dona de uma espontaneidade marcante e tem um coração que não cabe nela. Precisando de dinheiro, depois de ser despedida de um café, ela acaba aceitando alguns trabalhos nos quais não permanece por muito tempo. Um deles em uma fábrica de processamento de miúdos de frango e o outro em uma clínica de estética como depiladora. Nesse ponto podemos notar que a personagem é incapaz de aceitar ofícios contrários à sua natureza e inclinação, mesmo diante de uma imensa necessidade financeira. Louisa é movida quase que unicamente pela emoção. Sua natureza doce anseia por uma interação mais livre, algo impossível nos dois ofícios citados.

Ao aceitar o trabalho de cuidadora de um jovem tetraplégico, Will, Louise tem sua alegria confrontada com o mau humor do rapaz. Algo que ela tenta contornar fazendo chás ou bolos, pois para ela com amor tudo se resolve e o amor aí é expressado através da comida. Hipoteticamente Will, antes bastante ativo e praticante de inúmeras atividades físicas, se encontra no mesmo ponto em que Louisa. Ela está paralisada, usando muito pouco de sua vasta capacidade, se portando de forma otimista, contudo, conformada com a situação em que vive.

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Louisa diz não gostar de coisas as quais nunca experimentou. Diz não precisar daquilo que nunca ousou ter. Louisa vive sem se desafiar. No filme percebemos que ela se esforça em alguns momentos, à contragosto, para alcançar o namorado que é maratonista e vive correndo e falando de competições esportivas. No entanto, na cena na qual ele vai ao jantar na casa de Lou, Patrick se atrasa por quase meia hora. Nesse momento fica claro que a prioridade do namorado não está em Louisa, mas em vencer competições e mostrar ao mundo o quanto ele é “bom”. Algo que provavelmente serve para balancear um complexo de inferioridade particularmente seu.

Na cena na qual Lou recebe seus presentes de aniversário fica evidente que o namorado quer que Lou o adore e quer que ela exiba ao mundo sua estima por ele. Seu presente é um pingente de coração com seu nome gravado nele.

Por outro lado, Will dá a Lou uma meia similar à que ela usava quando criança. Nesse ponto vê-se a estima arranjada, entre Lou e Patrick, em contraponto à estima real e não simulada que existe entre Lou e Will.

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Fica bastante claro que Lou encontra em Will alguém que a ouve e compreende. Alguém capaz de olhar para ela de forma carinhosa amando-a como é, mas mostrando a ela que existem outras possibilidades que podem ser experimentadas, sem represálias, sem demonstrações de grandeza ou algo que certamente macularia qualquer relação. Patrick não olhava para Lou, olhava para ele e suas limitações.

Will e Lou ao se amarem passam então a viver um no outro.

Isso é possível, pois ao amarmos emprestamos ao outro nosso melhor. E no amor não somos mais só nós, tão pouco só o outro, nos tornamos uma mescla do que há de melhor nos dois.

No filme Will cogita a eutanásia, algo que deixa Louisa transtornada, contudo ela crê que o amor que sente por ele o fará mudar de ideia. Will, é a materialização da razão e como tal não tem a intenção de voltar atrás em sua decisão.

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Esse foi para mim o ponto principal do filme, no qual o amor de Louisa é testado. Ela seria capaz de amá-lo, mesmo tendo ele tomado uma decisão contrária a tudo que ela achava ser o mais certo?

O filme nos passa a mensagem de que não podemos mudar aquilo que as pessoas são em essência, por mais que desejemos isso e que no amor somos capazes de amar e de orientar, sem, no entanto, forçar uma mudança. O amor não impõe, o amor aceita, abraça e indica o melhor, de forma respeitosa.

E quando somos respeitosos com o amor do outro ele perdura na gente até nosso último suspiro. Levamos o outro junto de nós pelo resto de nossos dias. As cenas finais do filme tecem em letras delicadas a palavra “liberdade”: liberdade de amar o outro e suas decisões, independente delas serem contrárias às nossas e liberdade de deixar-se transformar pela vida e pelo amor que há nela, independentemente de qualquer coisa.

Na cena de Paris, não era apenas Lou sentada em um café, mas Lou e Will juntos seguindo rumo a uma nova vida.

Acompanhe a autora no Facebook pela sua comunidade Vanelli Doratioto – Alcova Moderna.

Ilustrações de um mundo onde pessoas são tratadas como animais

Ilustrações de um mundo onde pessoas são tratadas como animais

Todos os dias, animais são sacrificados para consumo humano. Alguns dizem que essa matança generalizada é inevitável para a sobrevivência humana, enquanto outros consideram a barbárie contra animais algo inaceitável.

Vegetarianos argumentam que as pessoas podem viver bem sem proteína animal. Essa luta, que se reveste de uma moral puritana, é muito antiga, e seus efeitos nunca serão tão efetivos a ponto de alterar as dinâmicas da cadeia alimentar.

As pessoas precisam comer, e a grande maioria delas não está disposta a deixar de incluir carne em sua alimentação. Elas não perdem o sono sabendo que o filé mal passado que comeram no almoço um dia foi um animal indefeso.

A causa dos ativistas ambientais é tão inviável quanto impedir um predador faminto de ir atrás de sua caça. É a lógica da selva: matar ou ser morto.

Nas ilustrações chocantes a seguir, os animais trocam de lugar com as pessoas: tomam para si a crueldade contra aqueles que se rejubilam com sua morte. Nessa troca de papéis, o resultado é igualmente desolador, com pessoas sendo tratadas como animais em uma rede de carnificina que, pelo visto, não tem fim. Veja:

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Um minuto de suspiro.

Um minuto de suspiro.

Às vezes, um suspiro para voltar a respirar. Sair do sufoco das emoções engarrafadas. Afinal, não podemos sentir em tempo integral, mesmo que o sentimento esteja lá. É imperativo das morais que os deixemos abafados, aprisionados no fundo do quarto, embaixo do colchão, nos fungos da infiltração do teto do banheiro, nas gostas geladas que entremeiam o chuveiro quente, na mala mofada esquecida no porão, nas roupas fedendo a naftalina pelo desuso, nos vinhos envelhecendo na adega esperando pelo dia especial, nas covas abertas esperando pelo corpo. É preciso sentir no momento certo, como se fosse uma prescrição de tóxico para aliviar a tensão.

Não há pausa no tempo de ninguém a não ser pela licença médica ou legal. Nossas emoções condenadas ao quadrado. Até o luto é regulamentado. Dois dias para sofrer a perda – somente a prevista em legislação; 4 meses para ser mãe – nunca sem riscos; 20 dias para ser pai, 5 pelo casamento, algum tempo pela depressão atestada, com sorte um acordo pelo desastre imprevisto em lei a ser pago com juros e correção infinita, também conhecida pelo apelido de “gratidão”. Tudo aceito com um sorriso de compensação. Para sentir, é preciso pedir licença. Mas só nestes extremos, quando é legitimado pela convenção. A todas as outras emoções, temos as horas de sono para perder, os suspiros apertados quando ninguém ouve, um momento de reflexão na privada coletiva. O silêncio. Acidentes de humanidade, do seu ódio, da sua angústia, do seu amor escapolem em letras engarranchadas nas portas dos banheiros juvenis, tão logo, em alguns anos, reprimidas por pílulas no intervalo de almoço. A todos o direito de manifestação contida em sua irônica linha do tempo.

As paixões suprimidas dão lugar à amargura e formam opiniões – todas as frustrações do não vivido tomam forma e força nas opiniões públicas. É preciso lidar com todas as angústias pessoais, é preciso lidar com todas as angústias mundiais, subindo e descendo escadas, atravessando a rua ou esperando o sinal, nos elevadores, nas filas, na mesa de escritório, operando máquinas, fazendo ligações. Alguém consegue, realmente, ignorar? Um espaço na agenda em branco para viver é uma utopia que precisa ser negada. Alguns se refugiam em lazeres ritualísticos, se anulam, se consomem, uma distração qualquer, qualquer coisa que faça esquecer de si mesmo. Os que não conseguem se abandonar tão a esmo podem preferir o sono (induzido), outros recorrem em desespero à busca pelo nirvana ou pela salvação (ou a evolução soberba, ou salve-se quem puder). Qualquer coisa que tire da contramão de ser humano. Ou sucumbir a contramão. A dor anestesiada de ser levado, a dor inevitável de ir de encontro. Dizem os boatos que é apenas uma questão de percepção…

Muitas resistências morrem, frequentemente destrambelhadas, querem se afirmar em violações, contradizem suas próprias convicções, aprisionados pela consciência ou pela falta dela, quando são obrigadas a se encarar percebem que na ânsia de se preservar se perderam – engolidos por grades ou paranoia. Outras se debatem para progredir, quem sabe a sorte de ser apenas um “esquisito” suportável (com mais sorte ainda: necessário), apesar dos sorrisos sarcásticos e das repreensões. Nadar é preciso, não temos mais barcos solitários – navegar é impossível na contramão. Apreendem compreensão, sabem a perturbação que pode despertar esse ser suspiro ou grito – Uivo. Lembram aos outros, confortavelmente esquecidos, dos suspiros e brados que em coma ainda sobrevivem em algum lugar da existência pálida.

Aceitar as próprias cores não é sem dor – elas vêm dos cortes, dos choque e empurrões, dos esfolamentos, das rasteiras, quedas e golpes, tanto quanto vêm dos banhos de chuva, das visões e paisagens, dos abraços apertados, dos diálogos, dos sorrisos, gargalhadas e toques. Não há que se julgar quem as negue, e os que preferem negar, não deveriam também julgar quem se colore. Alguns tecidos foram feitos para cor, enquanto outros são impermeáveis e inaderentes. Somos tecido, de pele e acontecimentos, e cada qual carrega a tessitura das linhas que lhe comporam – e lhe compõem. Alguns são acordes, outros silêncio. Mas não somos assim, tão passado. Não fomos nascidos, somos criados. Um pouco de tolerância.

Para não se aniquilar – dar espaço a um suspiro, para voltar a respirar. Porque o tempo não espera, porque a vida não para, porque ninguém se importa, porque o mundo gira, a lua continua a viver suas fazes, os desastres naturais continuam a acontecer, os humanos nunca cessam – gente nasce, gente vive, gente morre. Um espaço para suspirar, porque respirar é ambicioso de mais, exige tempo, exige ar – o oxigênio está em extinção. Para respirar é preciso pedir licença, mas nem todos têm plano de saúde ou dinheiro para consulta – os diagnósticos são suspeitos, mas quem se importa? Desde que ateste. Licença… Suspirar discretamente, quase em silêncio, até que possa pagar as contas ou pedir conta… porque a vida não espera, ninguém para, o mundo não se importa, o tempo gira, a lua não cessa de acontecer, os humanos continuam a viver suas fazes, os desastres: naturais – gente nasce, gente vive, gente morre. Por cada um, um suspiro.

A escolha é sempre nossa

A escolha é sempre nossa

Não é nada fácil gostar, amar alguém sozinho, em silêncio, esperando sempre o momento propício pra dizer como se sente. Quando nos sentimos atraídos, ligados à outra pessoa que pode não se sentir da mesma forma ou às vezes, nem sabe que a gente existe. Quem nunca se encantou, quem nunca se deixou envolver por alguém que não pudesse ter?
De uma forma ou de outra, em diferentes proporções, mas todos em algum momento desejamos alguém tanto que não conseguíamos pensar em outra coisa, não conseguíamos tirar essa pessoa da cabeça.

Às vezes, nós fantasiamos e nos sentimos atraídos por alguém distante do nosso convívio, como aquele professor da faculdade ou o amigo mais velho do irmão. Nesses casos, deixamos só a imaginação tomar conta e nos divertimos cada vez que encontramos o objeto do nosso desejo e gostaríamos de ser algo mais. Diria que se sentir assim, é quase um rito saudável de passagem para a vida adulta, em algum momento já nos sentimos assim por alguém.

Mas e quando esse lance platônico vai mais além do uma simples atração, do que uma fantasia de criança e nos vemos amando, desejando alguém para ter do nosso lado? Aí, sem dúvida, é mais doído e mais complicado de administrar quando nos apaixonamos por pessoas do nosso convívio, como um amigo de muitos anos, um colega de trabalho, aquele amigo da faculdade que tem namorada.

Não importa porque você ainda não tomou coragem de dar o próximo passo e chamar essa pessoa pra sair ou conversar com ela como você se sente, o motivo é sempre o mesmo, porque é complicado, porque tem muito mais coisa envolvida. Pode ser porque você acha que ele não se sente da mesma forma, porque é comprometido, porque não quer estragar uma amizade de muitos anos.

Entendo completamente a hesitação, afinal se fosse fácil de resolver, não seria platônico, ninguém fica tanto tempo assim no limbo só por insegurança ou medo, existem outras razões também.

Não é nada divertido ser aquele que espera, aquele que aceita, aquele que se conforma com tudo. Quem ama sozinho é como se ficasse de um lado da porta aguardando uma chance, um momento certo, enquanto o outro permanece no escuro, sem saber como realmente nos sentimos, sem ter ideia do que está acontecendo.

E cada momento, cada instante que você tem sozinho com aquela pessoa que você ama é suficiente para transformar seu dia, perfumar tudo ao seu redor. Mas isso é uma faca de dois gumes, quando não conseguimos ter nem por um momento o nosso objeto de desejo, é o suficiente para nos deixar com um humor duvidável e sem paciência. Querer alguém pra si é como uma droga que pode nos levantar, pode nos derrubar e pode sim nos intoxicar mais vezes do que gostaríamos, pois o amor é em si é a nossa kriptonita, nosso calcanhar de Aquiles.

Apesar de nos convencermos que temos vários motivos válidos para o nosso silêncio, a verdade que importa é uma só. Por algum motivo real ou não, achamos que não temos chance, que seremos dispensados e perderemos essa relação, essa aproximação que lutamos tanto pra construir.

Porque ainda não estamos prontos pra abrir mão, pra não termos quem desejamos no nosso universo e pra isso preferimos tê-los de qualquer forma nas nossas vidas, mesmo que seja como amigos. Acabamos então presos em uma situação que parece sem solução, aprendemos a nos contentar com tão pouco, com migalhas, com qualquer coisa que recebemos.

Nos contentamos com uma conversa mesmo que rápida no corredor do trabalho, com uma ligação de poucos minutos no telefone no meio do dia ou com um encontro na hora do almoço com pressa. Eu sei que tudo é melhor quando estamos ao lado de quem à gente quer, mas chega uma hora, por mais que demore, que essa situação cansa.

Chega uma hora que temos que nos libertar da prisão que nós próprios construímos, nos colocamos e jogamos a chave fora. O momento chega de finalmente tomarmos uma decisão definitiva e dar um fim nessa espera sem prazo determinado.

Ou decidirmos arriscar e contar como nos sentimos ou optamos por nos afastar de algo que não vai dar em nada e só nos faz mal alimentar essa esperança, essa expectativa à toa.
De uma forma ou de outra, escolher é necessário, é preciso tomar uma decisão e deixar de ser refém da situação. Porque às vezes na vida, chega o momento de escolhermos quem a gente mais ama, nós mesmos.

Às vezes, o amanhã não traz esperança

Às vezes, o amanhã não traz esperança

O amanhã, na maioria das vezes, pode ser tido como um depósito de sonhos e de esperanças, em que novas possibilidades e oportunidades nos aguardam, para que avancemos em direção à realização de nossos objetivos. No entanto, em determinadas situações, o dia seguinte é um dia que gostaríamos de pular, de protelar, de afastar, um dia em que nem gostaríamos de acordar.

Levamos muitos tombos ao longo da vida, mas algumas rasteiras parecem nos tirar o que tínhamos de mais precioso e, nesses momentos, temos a sensação de que continuar a viver será impossível. Quanta dor sentimos que nos aguarda no dia seguinte a uma tempestade avassaladora, quando teremos que enfrentar, no amanhã, o primeiro dia sem a presença de um ente querido, sem ter um emprego para voltar, sem o amado, sem o amigo, sem a casa, sem uma parte insubstituível de nossos corações. Dói fundo.

A noite sem fim de um dia traiçoeiro escurece lá fora e nos escurece por dentro, retirando-nos qualquer traço de luz, de esperança, de tranquilidade. Deitar-se para dormir, tendo que acordar num dia assustadoramente novo é uma das piores sensações que sentimos, pois ali, naquele instante, nada mais parece ter sentido nem solução, nada mais tem importância, pois estamos imersos na dor lancinante de uma perda que nos assola.

Muito pouco adiantarão quaisquer tentativas alheias de motivação, pois as palavras de consolo então não trarão conforto à dor imensurável que se instalou dentro de quem sofreu um sofrimento irreparável. Dependendo da dor que nos aniquila, será inútil tentar nos convencer de que a vida voltará ao normal, pois o tempo não trará esquecimento, não reparará o que se perdeu, não trará aquela pessoa de volta.

Teremos que continuar, teremos que tentar sobreviver às perdas e viver sem aquilo que tínhamos como certo, com a consciência de que nada voltará a ser como antes, de que renascer é preciso, apesar de tudo. Será necessário reconstruirmos nossa vida, conscientes de que será demorado e doloroso, mas que voltaremos a ter forças, a sorrir, a cantar, a sentir. Seremos outros, às vezes um pouco menos do que outrora, faltando um pedaço que seja, mas respiraremos.

Porque somos feitos de alegria e de dor. Porque só por isso é que somos humanos, imperfeitos, sobreviventes dessa vida incontrolável, que nos testa a fé e a resistência, para que nos reinventemos e acreditemos numa força maior que nos compensará, algum dia, em algum momento, com a imortalidade do amor verdadeiro.

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Acompanhe também a página do autor em Prof Marcel Camargo

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