Porque eu leio

Porque eu leio

por Fernanda Pompeu

imagem: Régine Ferrandis

Vou pular a discussão de quem é o melhor: livro de papel ou eletrônico? É claro que essa questão é interessante. Até inteligente. Mas prefiro falar da leitura independentemente do seu suporte. Então narro algumas graças que a leitura me deu por toda a vida. Também já escrevi em postagens anteriores, e não me furto a escrever novamente, que o prazer de ler nada tem a ver com se preparar para o vestibular, ou prestar concurso para  emprego. Ler literatura não garante ascensão para ninguém. Fosse verdade que a leitura ajudasse, escritores, redatores, jornalistas, revisores, editores, professores estariam magnificamente valorizados no mercado de trabalho.

Nunca li literatura acreditando que ela seria um caminho para o dinheiro. Li por desfrute. Li para conhecer novas paisagens, culturas diferentes, modos de vida do passado, fantasias de futuro. Também para sonhar e me emocionar. Leio porque aprendo com a amizade entre um esquimó e seu cachorro cego. Aprendo com uma personagem da remota Moscou do século XIX, do mesmo jeito que aprendo com a trama de um romance ambientado na Los Angeles de 2014. A leitura literária ensina com profundidade e – muito importante – de forma lúdica. Quer abrir a cabeça? Procure pela literatura.

A memória da leitura me socorreu em momentos duríssimos da vida. Logo que perdi meu pai, passei dias mastigando algumas linhas do Carlos Drummond: Do lado esquerdo carrego meus mortos. / Por isso caminho um pouco de banda. Em outra ocasião quando senti ter sido injustiçada em uma situação de trabalho, foi Mario Quintana quem veio correndo: Todos estes que aí estão / Atravancando o meu caminho, / Eles passarão. / Eu passarinho! A literatura também consola. E como!

Mas o melhor da leitura literária é nos sensibilizar para o outro. Personagens de papel ou de e-book capturam nossa atenção para suas particularidades e diferenças. Você entra na pele de um prisioneiro em Alcatraz, no destino de uma heroína, no coração de um perdedor.

É fato que sempre haverá quem diga: “Ler me dá sono. Só faço obrigado”. É um direito! Mas que pena! Para mim, e talvez para você, a leitura é companheira perfeita. Ela nunca se nega a afagar nossos sentidos. Faz mais ainda: desperta o sexto sentido. Aquele que não cabe na lógica dura, nos cálculos pragmáticos. Ler é a cadeira de balanço da alma.

Zero açúcar e felicidade

Zero açúcar e felicidade

Paraíso, segundo longa-metragem da diretora mexicana, Mariana Chenillo, produzido por Gael Garcia Bernal, aborda a questão da obesidade para falar de relacionamentos, da cruel exigência de belezas padronizas e da perda de nossos códigos de felicidade. Um filme delicado. Na tela o que se pode observar é a angústia dos nossos dias.

O filme conta a história do casal Alfredo (Andrés Almeida) e Carmen (Daniela Rincón), um casal feliz que saboreia a relação: beijam-se, transam, comem sem culpa; são felizes. Após o surgimento de uma proposta de trabalho para Alfredo, o casal se muda para o barulhento Distrito Federal, na Cidade do México. Em uma festa da empresa do marido, Carmen, sente-se humilhada por causa de seu sobrepeso e decide começar uma severa dieta. Fica obcecada por seu peso e mergulha na ansiedade e na culpa. O filme é delicioso e leve, mas o mais importante: aborda a questão da padronização estética.

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Outro dia assisti em um seriado de TV uma personagem perguntar para outra: Você vai para praia? Com este corpo? E os apelidos tidos como engraçados deram sequência a piadas desnecessárias.

Em uma época onde adolescentes desaproveitam dos prazeres da juventude em nome de corpos perfeitos, o que dizer aos que simplesmente jamais serão galgazes? O que significa estar fora dos padrões de beleza idealizados? Para muitos significa sentir-se deslocado, castrado, limitado. Muitos jovens têm vergonha do corpo, deixam de ir a praia, deixam de ser livres. E assim é, porque fiscais da beleza apontam por todos os cantos.

O cuidado com a saúde é bem diferente da padronização estética e da função de agradar olhares críticos e, por vezes, cruéis.

Há pessoas de músculos perfeitos e fígado nem tanto; outras de músculos e fígado perfeitos; outras que nem sabem mais o que é sentar-se a mesa com prazer. Em nome dessa padronização e de um peso dito ideal, arrogante e muitas vezes inalcançável, muitos praticam um exercício cruel de autoflagelação.

contioutra.com - Zero açúcar e felicidade

Não suporto mais ouvir e ler sobre glúten, lactose, como perder a barriga em três dias ou como trazer o músculo amado e perfeito em três dias. Tenho pavor de piadas sobre gordos e seus respectivos apelidos; pavor dos egoístas padrões de beleza da sociedade moderna que nem tão moderna é, contrário fosse já teria aprendido a respeitar todas as formas de amor, de corpos e de prazer.

Nise da Silveira e as imagens do inconsciente

Nise da Silveira e as imagens do inconsciente

O filme Nise- O Coração da Loucura dirigido por  Roberto Berliner e interpretado com beleza por Gloria Pires nos remete à história da psiquiatra alagoana, Nise da Silveira que depois de sair da prisão por motivos políticos, assume a direção da Seção de Terapêutica Ocupacional e Reabilitação em meados de 1946, no Centro Psiquiátrico Nacional.

Nise da Silveira é a pioneira do estudo da psicologia analítica no Brasil. Desde o período de formação na Faculdade de Medicina da Bahia, a psiquiatra alagoana procurou a psicanálise freudiana e finalmente a psicologia analítica de Carl Gustav Jung sua base teórica. Ela começa seu trabalho à frente da Seção de Terapêutica Ocupacional no Hospital de Engenho de Dentro em 1946. As noções de catarse e sublimação vieram ajudar a compreender e curar os internos esquizofrênicos dando um basta aos choques elétricos anteriores. Em poucos meses de trabalho, os doentes se expressaram através da pintura para construírem uma ponte para dentro, uma vez que estavam afásicos, sem nenhuma conexão com sua realidade psíquica. A esquizofrenia faz com que o indivíduo se desligue do mundo exterior e viva sem mais um elo de comunicação, o que o torna demente e alienado de si próprio..

As pinturas começaram a ser expostas e se destacaram tanto pela qualidade artística quanto pelos problemas científicos levantados nos trabalhos. Havia um material muito rico a ser pesquisado e analisado pela doutora Nise. Críticos de arte e terapeutas passaram a debater acerca da importância do trabalho de Nise pois as imagens rompiam com dogmas estabelecidos tanto no campo da arte quanto nos cânones psiquiátricos.

Na exposição 9 Artistas de Engenho de Dentro, Nise fala sobre três noções psicanalíticas: o sonho como meio de realização de um desejo, sublimação e estranheza inquietante.  As explicações são dadas com embasamento na teoria de Carl G Jung principalmente no que concerne as mandalas em forma circular, como símbolos que mostram uma tentativa de reordenação psíquica. As mandalas com suas estruturas concêntricas remetem às imagens primordiais da totalidade psíquica e Nise viu neste método uma psicoterapia não verbal em pacientes esquizofrênicos, como se estivessem estabelecendo uma ponte para o inconsciente coletivo tão explorado por Jung.

Nise da Silveira em seu experimento, conseguiu  explicar que as imagens plasmadas tinham um efeito catártico e a sublimação dos desejos inconscientes que anteriormente apareciam deformados como sintomas. Nise da Silveira entrou em contato com Jung através de cartas e lhe enviou mandalas dos pacientes. Na resposta, Jung aprova e admira o trabalho de cura da psiquiatra brasileira e a psicologia junguiana foi um instrumento produtivo para seu trabalho terapêutico.

Nise da Silveira consolidou uma das mais fecundas obras no campo de saúde mental e as concepções de Jung foram divulgadas pelas mãos firmes de uma das maiores pesquisadoras do Brasil, criadora de uma obra viva que ainda dará muito frutos.

Amor a dois não é para corações pessimistas

Amor a dois não é para corações pessimistas

“Amar não é aceitar tudo. Aliás: onde tudo é aceito, desconfio que há falta de amor.”  Vladmir Maiakóvski

Amor a dois não é para corações pessimistas. Amor a dois é para dispostos a construir um elo que fica. Amor a dois não fica em cima do muro. Amor a dois desconstrói qualquer possibilidade de impedimento do encontro. Amor a dois é confiança. Amor a dois não sente medo. Amor a dois não vai embora. Amor a dois fica.

Que vá para bem longe no caso do amor ser só um, porque não existe situação mais desleal que permitir alguém que não quer ficar, entrar assim, espalhando afeto entre tantos beijos e depois partindo como quem não se preocupa em cuidar por estar cicatrizando de feridas anteriores. Não é responsabilidade de quem chega fazer o peito arder para o novo. Tivesse escolhido recomeçar, agora nenhum sorriso viraria lágrima.

Mas engraçada essa coisa de amor a dois. Você nunca sabe quando ele surgirá até que acontece. E aí, sem tomar conhecimento da sua influência, você quer amar como se não houvesse amanhã. Esquece que para o amor a dois acontecer, ele realmente precisa ser a dois. Quando o outro coração segue numa velocidade diferente, o amor rompe, machuca e deixa outra pegada difícil de diferenciar entre tantas outras já marcadas pelo caminho. A nós, figura o desejo de prosseguir quando atingidos por essas tristezas do tempo passado. Basta coragem em olhar o presente e reconhecer que o futuro acolhe os ativos.

Amor a dois é para corações otimistas. Amor a dois é causa. Amor a dois não acontece em consequência. Amor a dois é para os indivíduos que se negam a acreditar na passividade do outro. Amor a dois é para quem, de fato, quer amor. Amor a dois não é desculpa. Amor a dois vive. Sem lamentos.

A coragem de estar à deriva

A coragem de estar à deriva

Sentir-se à deriva na vida exige coragem, fé e desapego ao medo. Não espere não sentir medo para soltar as cordinhas que te prendem ao cais. Aceite que o medo está ali como um mecanismo de defesa muito antigo e enraizado. Entenda de onde vem seu medo. Respire e sinta-o agindo sobre você.

Normalmente, o medo vem da mente, que não é capaz de suportar o vazio da insegurança. A mente não suporta nem mesmo a falta de um plano B, quem dirá de um plano A. Mas, o que ela não sabe é que toda e qualquer segurança é pura ilusão. E não adianta tentar convencê-la do contrário.

A verdade é que, por mais seguro você pense estar, por mais bem amarradas que estejam suas cordas, quando se faz necessária a hora da mudança, com um simples sopro a vida te empurra e te muda completamente de direção. Não há corda e talvez não haja nem mesmo barco que possa impedi-la.

Seria a vida, então, cruel? Talvez, no primeiro susto, seja esta a sensação. Mas, cruel seria se ela nos poupasse de todo aprendizado inerente à mudança. A vida não nos surpreende para que soframos. Ela espera que possamos aprender algo com isso para sermos mais fortes, para liberarmos o que não nos serve mais, coisa que, às vezes, é tão difícil de ser percebida. Por mais seguro que o cais seja, nem sempre ele é abrigo da sua felicidade. A hora de partir chega quando a dor do vazio torna-se maior do que o medo do novo. 

E como saber se um desejo de mergulhar no desconhecido é puro impulso, fuga da realidade ou uma necessidade real da alma? Primeiro, é preciso garantir que, caso você decida ficar à deriva, poderá assumir e arcar com os riscos dessa mudança. Isto se chama maturidade. Claro que, se você tem o apoio voluntário daqueles que o ama, ótimo. Mas nunca solte suas cordinhas esperando ser salvo caso afogue-se. Se você estiver preparado conscientemente para lidar com qualquer consequência da sua escolha (o que não significa ausência de medo) e sentir que esse risco ainda vale mais a pena do que o vazio das suas cordinhas seguras, provavelmente trata-se de uma necessidade real.

E, finalmente, quando você se solta e vai, a dor que surge pela falta do concreto transforma-se, aos poucos, em liberdade e autodescoberta. Haverá momentos de escuridão, em que nem mesmo a lua se fará presente. Estes momentos poderão ser sombrios ou perfeitos para repousar a alma e se preparar para o dia que vem. Haverá tempestades e lindos pores-do-sol. E, então, você perceberá que tudo isso já existia antes, lá naquele cais, onde você tinha a ilusão de estar protegido. A diferença é que agora você não sabe onde e quando irá atracar seu barco outra vez. Talvez você nem queira mais deixar o mar. Enquanto isso, aproveite a viagem. Quem sabe nos cruzamos por ai.

“DOLCE FAR NIENTE”: a doçura de não fazer nada

“DOLCE FAR NIENTE”: a doçura de não fazer nada

É preciso, mesmo que por breves instantes ao longo do dia, parar, demorar-se, sentir o prazer de nada fazer, nada ter que fazer, nada a se cobrar, sem pressa, sem olhar o relógio a cada minuto, sem culpa por estender-se na cama. É preciso dar um tempo a nós mesmos, pois temos o direito, sim, de estar com preguiça vez ou outra.

Nossa sociedade vive cansada, estressada, de mau humor, correndo contra o relógio e com a impressão de que não vai dar tempo de fazer nada do que planejara. Desde crianças, somos levados a valorizar o trabalho, o movimento, o não ficar parado, pois, como diz o ditado, Deus ajuda quem cedo madruga – demorar-se na cama é sacrilégio!

Nesse contexto, acabamos por evitar a parada, a quietude, afinal, tempo é dinheiro e não deve ser jogado fora com nada que não seja produtivo. É preciso trabalhar até a exaustão, se possível pulando as refeições ou encurtando o horário de almoço, sem essa de ficar sentado conversando trivialidades à mesa, pois o serviço está urgindo à nossa espera.

E essa sistemática encontra terreno propício para que se fortaleça na atual cultura do status, em que as posses materiais é que determinam o quanto vencemos na vida. Não dá mais para trabalhar oito horas diárias, é necessário preencher os três períodos com trabalho, porque é assim – dizem – que ganhamos dinheiro, porque quem é rico trabalhou e trabalha muito.

No entanto, toda essa pressa atarefada acaba nos adoecendo, senão o físico, a alma, afastando-nos de nossa essência, da construção de sonhos e de ideais que só são possíveis na calmaria, na lentidão silenciosa de nosso respirar. Sem estacionarmos os nossos sentidos por veredas distantes da correria e do burburinho cotidiano, não conseguimos nos reequilibrar emocionalmente.

É preciso parar, demorar-se, sentir o prazer de nada fazer, nada ter que fazer, nada a se cobrar, mesmo que por breves instantes ao longo do dia, mergulhando os pensamentos no vazio das ideias aparentemente inúteis. É preciso não ter pressa, não olhar o relógio a cada minuto, não sentir culpa por se estender demoradamente na cama, após ter tocado o despertador. É preciso dar um tempo a nós mesmos, pois podemos, sim, estar com preguiça vez ou outra.

Ainda mais importante do que presentearmos a nós mesmos com esses instantes de ócio, é fazermos tudo isso sem nenhum sentimento de culpa, sem medo de sermos punidos pela vida por conta desses momentos de ócio. Teremos que estar cientes das benesses que o não fazer também nos traz, pois é desse modo que reconciliamos nossa energia mental ao restante de nosso corpo.

É assim que conseguiremos, mesmo cansados, ao fim do dia, todos os dias, abraçar quem caminha ali ao nosso lado, com ternura renovada e sincera, porque então ainda nos restarão forças para cultivar o amor que deverá sempre nos guiar a vida.

Felicidade é…

Felicidade é…

Quando o assunto é relacionamento amoroso, muitos desconfiam dos “felizes” que não são seguidos do “para sempre”, condicionam a felicidade a pré-requisitos e contratos e se esquecem de que ela é privilégio dos distraídos e não obedece à muitas regras: reside na singularidade ou na soma de momentos delicadamente arrebatadores.

Felicidade é o primeiro abrir de olhos num dia em que eles sabem que se fecharão refletidos nos teus.

Felicidade é sentir meu desejo se confirmar e renovar através da saudade que minha pele grita da tua no decorrer dos dias em que não a visita.

Felicidade é a coreografia de borboletas há muito tempo adormecidas em meu estômago que acontece a cada vez que, nos momentos mais inesperados, teus lábios se demoram nas minhas mãos.

Felicidade é a beleza acrescida aos meus dias pela simples certeza de que ainda há muito de você a ser descoberto.

Felicidade é sentir a intimidade lentamente descalçar os meus pés e desvestir a minha alma, fazendo com que o teu peito me seja descanso.

Felicidade é, enfim, o caminhar de mãos dadas no hoje em trajetos desenhados pela possibilidade de uma coleção bonita de amanhãs.

Um cafuné moral é o que precisamos

Um cafuné moral é o que precisamos

“O homem traz em si a santidade e o pecado / lutando no seu íntimo / sem que nenhum dos dois prevaleça…” (Bi Ribeirto e Herbert ViannaO Homem / Álbum Selvagem, 1986)

Já não reparamos no outro, ou melhor, até reparamos, mas quando o olhar resume-se aos julgamentos etéreos dos nossos sentimentos. O ser em busca de soluções, mas completamente indiferente ao sofrimento do próximo. Somos violados por mecanismos que nos preenchem de insensibilidade e avareza. É difícil enxergar quem está abaixo, quem está do lado. Ignoramos os gritos e sussurros sociais. Apenas reagimos quando alguma catástrofe ou ato inimaginável rouba a cena nos telejornais e outros meios de comunicação. Somos produtos enjaulados. Não criamos artes. Não fazemos caridade. E quando digo caridade, esta não quer dizer somente o gesto da doação material, mas discorro sobre a presença física, afetiva. Como dito por uma amiga; – Caridade moral é o que precisamos.

O acinzentado é evidente nas ruas. No lugar dos sorrisos, incontáveis motivos para o desespero e para o ódio. Cadê a poesia? Cadê o movimento do ser na sua busca recorrente à felicidade? Diariamente, o que parece é que mergulhamos cada vez mais nas sombras das nossas próprias escolhas e ambições, substituindo desejos por instantes momentâneos de egos inflados. Conceitos e doutrinas expostas como os mais belos e extravagantes anúncios promocionais. Somos engolidos. A satisfação aqui não reflete o ganho de acolá. Mas há algum ganho?

O perceptível acerca do atual cenário do mundo é o que o próprio não parece mais tão grande assim. Cada qual vive imerso nos seus finitos universos, imaginando ser assim a melhor forma de entrar em contato com a paz interior. Mas nessa resignação ignorante da qual só enxerga quem está de olhos vendados, a verdadeira troca, a mais pulsante caridade do ser para o ser, pode e deve residir na liberdade incondicional da simples benevolência. Os inocentes em instantes de sorrisos sublimes. Faz bem ao coração, sim. Um cafuné moral é o que precisamos.

 

Tem dias que a coisa mais importante a fazer é assistir um filme água com açúcar

Tem dias que a coisa mais importante a fazer é assistir um filme água com açúcar

Tem dias que a coisa mais importante a fazer é assistir um filme água com açúcar.

Entrar numa comédia romântica como se fosse overdose de chocolate, não exige filosofias, pensamentos, dilemas. Tem dias que a gente só precisa de um entretenimento bobo que nos tire a realidade, que nos tire de nós mesmos.

Tem dias que a gente agradece o friozinho só porque não precisa de mais desculpas para passar horas abraçada com o cobertor e quem sabe com um gato dormindo no pé da cama, nos aquecendo os pés.

Tem dias que a gente desliga a internet, pega 4 livros na estante e lê um pedaço de cada um. Nesses dias a gente esquece de tomar banho, de fazer comida, de terminar o relatório ou colocar a caixa de e-mails em dia.

A gente passa a chá, sopinha congelada, bolachas com manteiga. A gente fica de pijama e meias, não paga as contas, não abre a correspondência.

São dias que a gente diz: ‘hoje só amanhã!’.

Por isso a gente cochila à tarde e assiste 5 episódios da nova série à noite. A gente não tem horário, não atende o telefone, não arranja nenhum compromisso social.

Dias de solidão, sábado de papo pro ar, domingo de chuva, feriado no meio da semana, servem pra recuperar as energias, desligar da vida e curar o coração.

Tem dias que a coisa mais importante a fazer é fazer nada para que tudo volte a fazer sentido.

Black Mirror: um Thriller da evolução tecnológica desprovida de evolução cultural

Black Mirror: um Thriller da evolução tecnológica desprovida de evolução cultural

Em tempos de seriados eternos, de livros lançados em sagas intermináveis, de abordagens obvias ou repetitivas, Black Mirror surpreende pela sagacidade de ser uma série breve, limpa e perturbadora. Não é que estes outros estilos não sejam bons, não nos agradem e não tenham o seu mérito, mas existem diferenças entre a cultura do entretenimento meramente, as produções “cult” e propostas que consigam superar essas “divisões” de estilo e público. Há exemplos dessas produções em todas as formas de arte. Não precisa necessariamente existir uma dicotomia entre o que é para a “massa” por ser capaz de divertir, distrair e agradar e o que é para o público “culto” por engendrar reflexões, carregar referências, ter qualidade e originalidade técnica. Quanto mais uma produção cultural ou artística, de qualquer gênero, seja capaz de alcançar públicos distintos e plantar suas “sementinhas”, a meu ver, melhor é a produção. Colocaria Black Mirror entre essas produções que superam as dicotomias e, pelo formato e conteúdo, se abre ao acesso da diversidade de modos de ser que a nossa época compreende, oferecendo quase que democraticamente a todos o direito de serem perturbados em suas acomodações.

Black Mirror não é um “lançamento do momento”, foi estreada em 2012 na Inglaterra com a proposta de um formato pouco comum às séries atuais: apenas 2 temporadas com 3 episódios e um episódio extemporâneo (especial de natal), cada episódio uma história diferente, sendo que a única conexão que elas têm entre si é algo do estilo e da natureza temática. Isto significa que uma pessoa pode ver qualquer episódio da série, sem precisar ter visto os outros. Todavia, embora não necessariamente no Brasil, a série ganhou uma proporção considerável de fãs, e é possível que uma nova temporada seja exibida pela Netflix ainda em 2016. A mencionada proposta do formato dos episódios é inspirada em “The Twilight Zone” (Além da Imaginação), que ficou conhecido nos anos 50 e cujos episódios podem ser comparados a pequenos contos, que através da ficção abordam temáticas da realidade, recurso comum em épocas de censura, mas que encontra sua força para além dessa condição específica.

Assistindo a série também me lembrei dos contos de Borges e da consideração do autor de que a boa ficção não precisa de infinitas páginas para ser desenvolvida,  que o que há para ser dito pode o ser, e muito bem dito, em poucas páginas: “Desvario laborioso e empobrecedor o de compor extensos livros; o de espraiar em quinhentas páginas uma idéia cuja perfeita exposição oral cabe em poucos minutos. Melhor procedimento é simular que esses livros já existem e oferecer um resumo, um comentário.”. Embora também seja fã de longas sagas, percebo nesta declaração uma coerência com uma realidade “fast”, que desconfiada das novidades, só paga com o tempo o que tem como garantia um retorno satisfatório. Apropriando o que Borges diz sobre às narrativas literárias ao formato audiovisual de Black Mirror e afins, temos que o feito criativo em formato breve se concretiza, se imprime na realidade, sem acorrentar-se às continuações. Cumpre seu efeito no abrupto, abrindo possibilidades de desdobramentos criativos ao expectador pelo contato e não pela extensão.

Penso também na potência da ficção para refletir e tocar em questões atuais, em muitos casos, com mais impacto do que os discursos diretos. Assim, Black Mirror nos surpreende com uma proposta inusitada, atual, potente e capaz de alcançar qualquer público com a sua linguagem. A tecnologia pode ser equivocamente confundida como a protagonista dessa série. Mas não há em nenhuma de suas histórias, diferentemente de algumas ficções mais apelativas, nenhuma atuação de uma tecnologia que adquire existência própria e atua independentemente do ser humano. Há seres humanos fazendo uso das tecnologias e de outros seres humanos, de tal forma que alcançam proporções absurdas por um lado, e absolutamente familiares se considerarmos a realidade na qual vivemos por outro. É esse o principal trunfo da série no que diz respeito à sua recepção: o absurdo e a realidade se chocam num encontro diante do expectador. Não há escapatória para o desconforto deixado pelos episódios, não há como não refletir sobre a realidade, como não parar diante dela durante os minutos em que a narrativa audiovisual se desenvolve e ao menos alguns minutos depois, absorvidos pela perplexidade de estar sob efeito de um terror que não nos mete medo pela sua impossibilidade, por ser sobrenatural, mas por ser supernatural, possível e, de certa forma, apenas uma hipérbole daquilo que já vivemos. O terror em Black Mirror é um terror da realidade vivida, que não precisa de membros decepados, figuras hediondas ou espectros para causar pavor. O pavor está em constatar que tudo aquilo que nos angustia e atemoriza diante da tela, é a história radicalizada da nossa vida diante das telas.

Cada episódio da série renderia uma análise longa e aprofundada, pela quantidade de temas e complexidade com que são abordados no curto espaço de cerca de uma hora. O uso do humano pelo humano, o uso das tecnologias, a alienação política, os sistemas de punição, as relações íntimas, a dificuldade contemporânea em aceitar as limitações intrínsecas da existência humana tentando supri-las através avanços científicos, a subversão dos sonhos, queda de utopias, ausência de empatia, dentre outras questões, são abordadas pela série com um misto caótico de humor negro, suspense e absurdo compondo uma ficção de muita qualidade.

Fica em comum do gosto amargo e sagaz deixado pelas histórias a impressão de que o avanço da tecnologia desacompanhado do avanço cultural – que este se entenda como evolução no sentido humano, do próprio ser e das suas habilidades individuais e sociais enquanto ser (não enquanto “coisa social”) – nos imerge em uma perspectiva de futuro crítica, que já pode ser visualizada em diversos desdobramentos sociais em nível global que presenciamos (precisa de exemplos?). Alienados dentro de esferas das quais não conseguimos nos desvencilhar, podemos até mesmo pensar que nos encontramos tranquilos, protegidos da crueza dessa realidade, ou prestes a vencê-la através de alguma atitude subversiva ou mesmo seguindo suas regras, mas de uma forma ou de outra, acabamos por ser engolidos por essa mesma realidade que tentamos aceitar ou ignorar.

Homens sem cultura e cheios de artifícios tecnológicos são como crianças cheias de brinquedos, mas sem orientação ou educação. Acabam por destruir tudo em seu entorno, tiranizarem umas às outras, ecoando a lógica das civilizações sem civilização. Retornamos à lei do “mais forte”, sem que tenhamos um inimigo contra o qual lutar ou um salvador ao qual recorrer. O isolamento é contraposto e intensificado pela interferência constante e imponente do “todo”, que existe apenas enquanto júri impondo modos de ser, agir ou penalidades de forma confusa e arbitrária. Nos tornamos atores do maior espetáculo de todos os tempos, que embora se repita nas figuras e tragicomédias exibidas, supera em efeitos especiais. (“Peraí!”, estou falando de Black Mirror ou da realidade?)

Embora Black Mirror não seja a primeira produção fictícia que aborde a realidade humana e social revelando o absurdo por trás de questões cotidianas banalizadas e vivenciadas de forma naturalizada até o momento em que quebramos o nosso nariz nelas, possui o mérito de trazer esse discurso à contemporaneidade utilizando de todos os artifícios que esta compreende, tanto em termos técnicos quanto no que diz respeito ao conteúdo. Resta saber se em seus novos episódios, a série não acabará tomando o destino de algumas de suas narrativas e personagens, como “Fifteen Million Merits” ou “The Waldo Moment”. Entendedores entenderão…

Obrigada, mas não, obrigada!

Obrigada, mas não, obrigada!

Dizer não é um negócio muitas vezes complicado. Pelo menos para mim. Tem aquela coisa de decepcionar, frustrar alguma expectativa, fechar uma porta, um ouvido, uma relação.

Dizer não é romper com uma ideia, desistir de um plano, sequer considerar uma possibilidade. É apontar o sim para outra direção, virar os motores para apreciar outro horizonte. Dependendo de quem estiver na reta do não, eu sofro. Sofro mais de dizer um não do que levar um não para casa.

Coisas da vida, os nãos necessários e muitas vezes indispensáveis. Para criar um filho, se diz muito não; Para barrar uma criatura espaçosa, se repete mil vezes não; Para conter uma atitude anunciada de arrependimento, se diz a si mesmo: Não!

Mas o não, embora não pareça, tem um lado, sim, positivo e libertador!

O não fortalece e empodera quem se apropria dele com justiça.
O não autêntico machuca infinitamente menos do que um sim leviano ou um talvez indiferente.

O exercício de dizer e receber os nãos da vida é de puro fortalecimento. É uma conquista de extremo valor, e acaba de vez com as manhas e mimos que a gente insiste em trazer da infância, onde a birra e o choro resolviam a maioria das dificuldades. O adulto mimado e que não sabe ser contrariado é uma criança velha que ainda esperneia a cada não que lhe atinge.

Dizer não é fantástico! Opinar sobre o que não agrada, recusar o que não convém, declinar, desistir, mudar de ideia, ser tão espontâneo quanto a educação e o convívio social recomendam. Afinal, negar ou recusar algo não é motivo para trazer de carona uma grosseria.

Receber e acatar um não é respeitar a vontade alheia, entender que as vontades e ideias não se tocaram, não houve afinidade, sem se preocupar com intenção ou falta dela. Receber e digerir, essa é a parte que interessa. Ao outro, fica a responsabilidade que o motivou.

Por essas e por outras, se me perguntam se topo dizer um sim mentiroso a contrariar um afeto, respondo sem culpa alguma: Obrigada, mas não, obrigada!

O amor não é emprego

O amor não é emprego

O amor não é sacrifício. Se você está fazendo um esforço descomunal pra provar que ama alguém, você está exercendo uma função, não está amando.

O amor escapa aos conceitos rotineiros, às definições limitantes. Sabe-se dele pelo susto da descoberta. Pela espontaneidade da entrega. Pela surpresa. Pelo caráter inédito das ações.

O amor não cobra adicional noturno. Não faz conta das horas gastas durante uma longa conversa. Não vai reclamar da cara suja de sono dizendo que perdeu a noite enquanto poderia descansar.

O amor nunca é pontual nos regressos. Nunca acerta os ponteiros. Não sabe a hora de voltar pra casa. Fará jornada ininterrupta se for preciso. Caminhará de mãos dadas de madrugada como se fosse feriado.

O amor nunca perde a oportunidade de eternizar a companhia.

Funda o próprio tempo baseado na intensidade que distribui, no querer atento que compreende o outro pela mímica do olhar, pelo desespero das mãos que buscam o esconderijo quente dos abraços.

O amor não precisa de comprovação de renda. Vive da própria busca, da atualização de si mesmo, é a própria riqueza imanente.

O amor dispensa a necessidade do julgamento. Não vai cobrar do outro o sentimento que ele ainda não tem.

Não vai culpar o outro pelo que ainda não descobriu. Pelo que ainda não sabe dar. Pelo que ainda não aprendeu. Pelo que ainda não é.

Não vai rebaixar um sentimento que ainda engatinha, pra dizer que ele é pequeno, sem futuro. Não vai censurá-lo nem desmerecê-lo pela forma como se doa.

O amor não se sustenta na necessidade de fixar ações, de cumprir metas de encontros e prazos pra deliberação de beijos.

O amor não é uma obrigação. Não é um emprego. Não tem cláusula contratual.

O amor é um golpe na rotina. Uma sensibilidade espontânea. Não é sacrifício nem exercício de comiseração. Nasce do desejo de liberdade mútua. É uma afronta para qualquer planejamento. O amor é a predisposição de caminhar junto e se necessário for, construir a estrada.

Não tenha medo do que os outros vão pensar de você

Não tenha medo do que os outros vão pensar de você

Ninguém, a não ser que se torne um eremita, vive sozinho. Fazemos parte da sociedade e estamos ligados às pessoas que convivem conosco. Isso quer dizer que as consequências de nossas ações não se restringem apenas a nós mesmos, pois atingem também as pessoas que, de uma ou de outra forma, fazem parte de nosso caminhar.

Não poderemos, portanto, agir visando tão somente aos nossos propósitos pessoais, não nos importando com ninguém mais, como se o nosso bem estar fosse a única meta a ser atingida. Caso machuquemos quem está ao nosso lado, a fim de obtermos aquilo que queremos, estaremos agindo de forma inconsequente e egoísta, o que deve ser evitado.

No entanto, é necessário que achemos um jeito de realizar os nossos sonhos e de vivermos conforme aquilo em que acreditamos, de maneira ética e digna, sem nos desviarmos disso tudo, ou jamais seremos felizes. Ainda mais se sufocarmos os nossos anseios, por medo da reprovação de quem discorda do nosso modo de pensar e de agir.

Ouvirmos e ponderarmos frente aos conselhos de quem nos ama de verdade será sempre necessário, pois então estaremos lidando com palavras vindas de gente que se importa e quer o nosso bem. Entretanto, dar ouvidos a quem não divide nada conosco, a não ser momentos superficiais e irrelevantes, acabará nos afastando do que nos move os sentidos, do que é essencial aqui dentro de nós.

Caso estejamos agindo de acordo com as verdades que norteiam os nossos sonhos de vida, para buscar o que queremos, junto a quem amamos, sem machucar ninguém pelo caminho, é preciso continuar. Haverá sempre alguém tentando nos impedir, censurando-nos, discordando agressivamente de nossa jornada, porque ainda é difícil a muitos cuidar da própria vida e deixar a felicidade do outro em paz.

Será muito difícil errarmos a pontaria de nossos ideais, caso estejamos caminhando ao ritmo harmonioso dos sonhos que não conseguimos deixar lá no travesseiro. Jamais poderemos sufocar a nossa essência, por medo do que vão pensar, do que vão dizer. Quem vive a julgar o outro sempre vai pensar e dizer o pior, pois não sabe agir de outra forma, não importa o que o outro faça ou diga – é só isso que ele sabe fazer.

Não poderemos agir sem pensar em ninguém mais, obviamente, como se só nossa vida fosse importante, mas isso não quer dizer, de forma alguma, que deveremos temer quem possa vir a nos difamar por discordâncias baseadas em juízos de valor. O preço a se pagar pelo sufocamento dos sonhos é nada mais, nada menos, do que o arrependimento e a infelicidade. Não seja infeliz, seja quem você é de verdade.

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