Entendendo o filme: A Origem

Entendendo o filme: A Origem

Christopher Nolan já é um dos melhores cineastas da sua geração, o que lhe garante uma legião de fãs. Em seus filmes, Nolan sempre gosta de brincar com a psique humana, criando jogos ilusórios e uma série de metáforas. Corroborando com isso, temos o filme “A Origem” (Inception) de 2010, estrelado por Leonardo Di Caprio. O filme foi um grande sucesso, se tornando um dos clássicos do século XXI. Brincando entre realidade e fantasia, imergimos na história de Dom Cobb (Di Caprio) e ao final, por mais que tenhamos prestado atenção durante todo o tempo, ficamos com a famosa dúvida: o pião caiu ou não? A fim de ajudar a elucidar o problema, mas longe de resolvê-lo, afinal, a interpretação do filme depende muito da subjetividade de quem o assiste, apresentarei algumas possibilidades de resolução para o filme. Sem mais delongas, vamos lá.

Realidade

A primeira teoria (talvez a com mais adeptos) é a de que Cobb cumpre o seu arco e retorna verdadeiramente para os seus filhos, ou seja, segundo essa teoria a parte final realmente corresponde à realidade, portanto, Cobb retorna de fato para a sua família. Sendo assim, não há nenhum tipo de inserção em Cobb, já que, ao acordar no avião, ele olha de modo expressivo para a sua equipe e esta o corresponde, com um ar de satisfação, missão cumprida, uma vez que o plano de inserção em Fischer (Cillian Murphy) funcionou. Desse modo, Cobb lembra-se de onde está e como chegou até ali, fato que contraria a ideia de que ele estaria sonhando, posto que como o próprio explica, no sonho o indivíduo nunca se lembra de como chegou lá e ele sabia onde estava e como tinha chegado. O que gera a dúvida sobre o retorno ser ou não realidade é o fato dele retornar diretamente para o avião, pulando etapas, mas isso é facilmente explicado, dado que como ele já estava no 4º nível do sonho, teria apenas como retornar para trás, isto é, para os sonhos anteriores ou acordar, no entanto, como ele havia entrado nos sonhos dos outros, os quais já tinham acordado, só restava a ele também acordar e é isso que exatamente acontece. Outro ponto que pode ser levantado para afirmar a teoria em tela consiste nos seus filhos, que ao final do filme não estão com roupas iguais, apenas parecidas e estão um pouco mais velhos que em seus sonhos.

contioutra.com - Entendendo o filme: A Origem

A teoria possui validade, porém, o questionamento desta está na série de conveniências que existem a favor de Cobb, como o aparecimento de Saito providencialmente em Mombaça, além é claro dos questionamentos que Cobb sofre constantemente acerca do seu conceito de realidade e das perseguições que sofre, como no caso de Mombaça. No entanto, mesmo essas situações poderiam ser compreendidas dentro desse prisma, já que Mombaça é uma área da Cobol Engenharia (empresa para a qual Cobb presta serviços no início do filme), bem como, ele está com a cabeça a prêmio, justificando a perseguição que sofre. Saito, por sua vez, poderia com o interesse que possui, verdadeiramente o estar protegendo, como diz no filme. Outros pontos que também chamam a atenção consistem no seguinte: como Mal conseguiu ir parar na janela do outro lado do prédio na cena em que se “mata”? Bom, não seria impossível imaginar que ela tenha alugado a suíte em que estava sem que Cobb soubesse. Ademais, temos o curioso fato de Saito esperar tanto tempo por Cobb no limbo, uma vez que sabia que estava lá e bastava se matar para retornar à realidade. Analisando essa situação, segundo a teoria em voga, Saito pode ter esperado Cobb como uma forma de realmente confirmar que o serviço foi realizado. Enfim, como disse a teoria é válida, mas os pontos supracitados a tornam extremamente questionável, de tal maneira que somos levados a segunda teoria, na qual todo o filme se passa no mundo dos sonhos.

Sonho

Segundo essa teoria, todo o filme é um sonho que se passa na cabeça de Cobb. Ele e sua mulher, Mal (Marion Cottilard), exploravam profundamente outros níveis de sonho, entretanto, ele começa a perder a capacidade de distinguir o que é real do que é sonho. Sendo assim, impossibilitado de diferenciar realidade de sonho e, portanto, perceber a verdade, Cobb cria a ideia de que é Mal que não consegue diferenciar sonho de realidade. Percebendo a situação em que o marido se encontrava, Mal tenta tirá-lo daquela situação e fazê-lo retomar a lucidez. Para tanto, ela decide retornar à realidade e o convence de que precisam se matar para retornar. O seu plano possui êxito em várias camadas, todavia, ao chegar ao 1º nível do sonho, Cobb acredita que já retornara à realidade. Desse modo, na cena em que Cobb chega à suíte de um hotel, onde comemorariam o aniversário de casamento, e depara-se com Mal do outro lado do prédio, preparando-se para pular da janela, ainda faz parte de um sonho, tanto que ela insistentemente tenta convencê-lo a também pular, a fim de que retornem ao mundo real. O que corrobora isso é o fato dela não estar na janela da sua suíte, e sim na janela do outro lado do prédio, ou seja, se não fosse um sonho como ela conseguiria chegar até o outro lado do prédio? O plano dela, contudo, não obtém êxito e, contrariamente a sua ideia de fazê-lo retornar à realidade, planta nele a ideia de culpa pela sua morte. A culpa o leva a um estágio muito maior de perturbação e angústia, no qual passa a confundir ainda mais o mundo real do mundo dos sonhos, levando-o a ideias de perseguição e de que precisa se refugiar em vários lugares do mundo, distante, portanto, dos filhos.

contioutra.com - Entendendo o filme: A Origem

Ao fracassar, Mal decide contratar um especialista em sonhos, assim como Cobb. Ela, então, contrata Saito, que não é diretor de nenhuma megacorporação, mas um especialista no mundo dos sonhos. Saito junto com a equipe formada pelos amigos de Cobb criam a complexa história de que estão em uma missão para inserir a ideia na cabeça do Fischer e de que se tudo ocorrer devidamente, Cobb será inocentando através do grande poder de Saito. O objetivo, assim, ao tornar Cobb inocente do ponto de vista legal é na verdade livrá-lo da culpa que ele carrega pela morte de Mal e que o aprisiona no mundo dos sonhos. Um fato interessante e que acaba corroborando com essa teoria está em Ariadne (Ellen Page) que percorre todos os níveis de sonho junto com Cobb e é a única que o questiona sobre Mal e o que ocorrera entre eles. Ariadne, segundo a mitologia grega, não é criadora de labirintos, mas a mulher que ajuda o herói Teseu a escapar do labirinto, o que ela faz de forma bem parecida na trama, demonstrando a sua individualidade, como na cena em que dobra a cidade de forma espelhada e em seguida fecha um vão da ponte formando um espelho para que Cobb possa enxerga-se enquanto sujeito desvinculado de Mal, isto é, da culpa que carrega. É Ariadne, assim, que guia Cobb até o limbo, além de matar Mal na ocasião. No limbo também se encontra Saito, que já havia morrido anteriormente, mas que prometera a Cobb o seguir para fora do limbo, isto é, para a realidade, caso este fosse buscá-lo. Nesse ponto reside o fato mais curioso e que melhor sustenta essa teoria, já que se Saito sabia que estava no limbo não necessitava de Cobb para retornar, poderia tranquilamente retornar sozinho. Porém, como o objetivo de Saito era implantar a ideia de libertação na cabeça de Cobb, precisava esperá-lo para que o plano fosse executado de forma plena, o que no caso de Cobb era acreditar que o plano de inserir a ideia na cabeça de Fischer foi um sucesso e, portanto, teria a sua recompensa: a liberdade para retornar a sua casa e seus filhos. A verdadeira catarse (do grego “kátharsis” que designa o estado de libertação psíquica) de Cobb, no entanto, vai muito além, sendo na verdade a libertação da culpa que sentia pela morte da sua mulher e que o aprisionava e o impedia de prosseguir. Após isso, Cobb, então, “reencontra” seus filhos e consegue o mais importante, a superação da ideia de culpa que carregava e o fazia prisioneiro. Ou seja, ele ainda encontra-se no mundo dos sonhos, mas livre da culpa, consegue dar o primeiro passo para que consiga retornar à realidade. Além desses pontos mais fortes, outros elementos reforçam essa teoria, como a extrema conveniência a favor de Cobb que acontece constantemente, como o fato de Saito aparecer magicamente em Mombaça para salvá-lo, Miles estar o esperando no aeroporto, Ariadne aceitar facilmente um trabalho ilegal e perigoso, em várias situações ter alguém questionando a sua realidade e ser perseguido enquanto estava contratando Eames (o que pode ser explicado pelo fato das projeções procurarem os sonhadores).

É uma teoria bem mais complexa que a primeira, mas possui bastantes elementos que a validam, além de trabalhar a ideia de inserção e ilusão em um nível mais profundo que a primeira, embora ainda deixe pontos em aberto, como, por exemplo, em que momento Saito e os amigos de Cobb penetraram em sua cabeça? Percebam que se o filme se passa completamente no mundo dos sonhos, o momento em que Saito e a equipe preparam-se para iniciar o plano, isto é, a parte em que estão no mundo real, está oculta no filme, o que abre uma série de possibilidades, tornando a teoria tão questionável quanto a primeira.

Realidade e Sonho

Segundo essa teoria, o filme possui partes de realidade e partes de sonho. Este começaria a partir da conversa que Cobb tem com Miles, no qual diz que precisa de um bom arquiteto. Miles aproveita a ocasião para inserir da cabeça de Cobb a libertação da culpa pela morte da mulher, a fim de que livre da culpa possa retornar para os seus filhos. Desse modo, teríamos um momento inicial de realidade até o encontro entre Cobb e Miles, este se aproveita da situação e inicia o seu plano de inserir a ideia de libertação da culpa pela morte de Mal em Cobb. Essa inserção começaria em Mombaça a partir do momento em que Cobb visita Yussulf e testa um sedativo. A partir desse momento tudo que acontece se passa na cabeça de Cobb, onde o plano de Miles é executado, de forma similar ao da segunda teoria. Até aqui essa teoria é a mais plausível, entretanto, ela tem como ponto falho, o retorno de Cobb, uma vez que se ele começa a sonhar ao visitar Yussulf, ao acordar e retornar ao mundo real, ele deveria retornar para o mesmo local e vemos que ele acorda no avião. Sendo assim, caso o início do filme se passe no mundo real e Miles esteja por trás de um inserção em Cobb, está apenas poderia acontecer a partir do avião e por meio de Ariadne, em uma subtrama que acontece paralelamente a de Fischer. Nesse caso, Saito seria de fato um executivo poderoso que contrata Cobb e sua equipe e estes verdadeiramente buscam realizar a inserção em Fischer, todavia, Ariadne (pupila de Miles) está incumbida de fazer a inserção em Cobb de forma paralela e se analisarmos realmente ela é a grande responsável pelo autoperdão de Cobb. Com isso, essa teoria se desenvolve de maneira muito melhor e mais firme, até que chegamos a Saito e a sua “infinita” espera no limbo e, assim, tudo se reinicia.

contioutra.com - Entendendo o filme: A Origem

Conclusão

Como uma grande obra de arte, A Origem é um filme belo e complexo e, portanto, uma peça que se ressignifica a cada novo olhar, de modo que é impossível chegar a uma conclusão definitiva sobre a trama. Todas as teorias supracitadas possuem pontos que as convalidam e pontas abertas que as tornam questionáveis, assim como outras teorias e abordagens. O mais interessante do filme, dessa forma, é perceber as suas infinitas possibilidades que mudam de acordo com o observador, já que sumariamente a trama do filme é sobre a mente humana, os sentimentos que a forma e a sua extrema complexidade, de tal modo que chegar a uma conclusão absoluta e irrefutável sobre o filme seria no mínimo desconsiderar a complexidade do mote central da história e tirar o encanto de uma bela discussão. Sendo assim, não tenho uma resposta definitiva, apenas possibilidades, uma vez que, como dito, estas dependem da subjetividade de cada um. Mas como a inquietação e a curiosidade são sempre grandes, o que vocês acham: o pião caiu ou não?

contioutra.com - Entendendo o filme: A Origem

Titia tem razão?

Titia tem razão?

por Fernanda Pompeu

Ilustra: Régine Ferrandis

Eu tinha sete anos quando decidi que nunca seria mãe. Foi num 25 de dezembro, dia em que as crianças se refastelam com os presentes do papai-noel. Eu estava penteando o cabelo loiro e sintético da minha boneca. Pensei com firmeza: No futuro, não quero isso para mim.

A partir desse insight toda vez que um adulto perguntava O que você quer ser quando crescer, eu respondia: Tia. E assim foi. Não tive filhos, mas uma penca de sobrinhos. Igor, Camila, Gabriel, Caio, Jerônimo, Ludmila, Diogo, Thalia, Davi, Maisa. Os sete primeiros crescidos e encaminhados.

Adorei e sigo adorando ser tia. Pois não precisei me responsabilizar pela educação e pelo bem-estar de suas almas. Quando crianças, sempre apareciam na minha frente de banho tomado e sorriso no rosto.

Naturalmente tentei em várias ocasiões influenciá-los. Para todos dei livros nos aniversários. Secretamente, desejei que algum deles seguisse minhas escolhas, melhor, meu amor pela escrita. Quem sabe um jornalista, uma escritora, um editor, uma dramaturga?

Mas, é claro, cada um correu atrás de seu sonho e circunstância. Eis algo que tias talvez aceitem melhor que mães: Garotas e garotos serão e farão o que bem entenderem. Do mesmo jeitinho que eu decidi que a maternidade não era papo para mim.

Tudo bem se um homem não quiser ser pai. Mas para uma mulher, a pressão da cultura é máxima. A maternidade é tida como  uma consequência natural do feminino. Bobagem.

Mas não quero fugir do tema titia. Vou falar das vantagens. Por exemplo, a gente pode dizer na cara do sobrinho algumas verdades que a mãe sabe, porém omite. Porque o coração materno é mais mole e sua preocupação infinita.

Para os sobrinhos sempre disse: Lavem a louça que usam e arrumem seus quartos. Já para as sobrinhas: Arranjem uma profissão e ganhem seu próprio dinheiro. Conselhos de titia.

6 motivos para NUNCA fazer psicoterapia- Fernanda Alcantara

6 motivos para NUNCA fazer psicoterapia- Fernanda Alcantara

Por Fernanda Alcantara

Se você veio ler, vou presumir que você já sabe que a psicologia é uma ciência que estuda o comportamento humano e que dispõe de ferramentas para levar saúde, bem-estar e autoconhecimento às pessoas, seja de forma individual ou em grupos, através da psicoterapia. Tendo isto claro, vamos aos seis motivos para você “não” procurar uma psicóloga. Quando chegar ao final deixe sua opinião lá nos comentários, ok?

1 – A terapia vai lhe fazer olhar para a pessoa mais importante da sua vida: você!

Se você é uma daquelas pessoas que ficam tentando ser legais com todo mundo, que sempre fazem o possível para agradar às outras pessoas, que não sabem dizer não e abrem mão de suas coisas para ajudar os outros, fuja da terapia!
É muito possível que em um processo psicoterapêutico você mude esta conduta e comece a se colocar em primeiro lugar. Então você deve estar se perguntando: “Mas eu vou me tornar egoísta?” Eu respondo: não! Você apenas vai se priorizar, vai descobrir que não precisa buscar aprovação dos outros e que a aprovação mais importante é a que vem de você mesmo! Daí, então, a sua convivência com os outros se torna mais real e harmoniosa, já que você deixa de aceitar que lhe tratem de qualquer jeito.

2 – Você vai aprender a dizer NÃO!

Ao aprender a lição anterior, automaticamente você aprenderá a pronunciar esta pequena e milagrosa palavra. “Não” é uma palavra mágica com o poder de devolver a você a gestão da sua vida, do seu tempo, dos seus pertences e da sua identidade. Aprendendo a dizer não, você deixará de ser vítima das circunstâncias e assumirá o papel de autora da sua vida. Então, se não quiser aprender isto, melhor não procurar uma psicóloga.

3 – Você vai descobrir onde e como tem se sabotado

Se você é uma daquelas pessoas que percebe que tem algo de estranho, que algumas áreas da sua vida nunca decolam e que você sempre acaba se relacionando com pessoas que têm os mesmos padrões de comportamento, a terapia pode ter um efeito transformador! Durante o processo, você pode acabar percebendo qual é a relação entre o que você permite e o que o outro faz. Então, tornando consciente estas causas, os efeitos poderão mudar e você poderá se relacionar de modo diferente com o mundo interno e externo.

4 – Você aprende o que é projeção e como perceber se está fazendo isto

Inevitável, se você já foi para a terapia, certamente já aprendeu palavras técnicas, sim porque nós, humanos, precisamos nomear as coisas que conhecemos para, então, reconhecê-las. Estas podem até ser palavras que você não usa com frequência no seu vocabulário, mas não tenha dúvidas de que na sua vida você as pratica, por exemplo: sabe aquela pessoa que você mal conhece e já odeia? O que dizer Dela? Este pobre “serumaninho” está recebendo projeção da sua parte e isto pode ter muito mais a ver com aspectos da sua personalidade do que com a pessoa que você mal enxerga. Carl Gustav Jung disse que “o que nos incomoda nos outros pode nos levar a uma melhor compreensão de nós mesmos”. Pois é! Na terapia olhamos para estas “irritações” e descobrimos coisas que nem imaginávamos sobre nós, como as projeções e as nossas sombras, partes da nossa personalidade que tentamos deixar escondidas de nós, mas que saltam aos olhos alheios. Descobrimos que nos irrita quando o outro age de forma parecida com aspectos que temos e, muitas vezes, nem percebemos (nossa sombra).

5 – Falando em palavras técnicas, você descobre o que é IDEALIZAÇÃO, assim como o que
ela pode causar em sua vida

Quem nunca imaginou como seria namorar, ter alguém, casar, ter filhos, trabalho e tantas outras relações que, quando ainda estavam no campo dos sonhos, pareciam perfeitas, felizes e prontas. Então, quando chegou alguém de verdade para assumir este lugar (namorado, esposa, filhos, colegas de trabalho) não foi como o planejado, na verdade virou um inferno!
E o que isto significa? Assim como com as projeções, as idealizações falam muito mais sobre nós do que sobre o outro. Passamos tanto tempo imaginando como seria viver estas experiências e, quando chega a hora de acontecer, o outro não entra nas nossas idealizações, ou seja, imaginamos uma pessoa sendo de tal maneira e, quando ela chega da forma imaginada, não é bem o que esperávamos. Aí, vêm brigas, desgastes, tentativas de enquadrar esta pessoa naquele perfil planejado e, para isso, usamos o argumento de estar ajudando esta tal pessoa. Mas, na verdade, somos nós mesmos agindo para que
nossos desejos mais profundos sejam atendidos por aquela pessoa que queremos tanto mudar para que ela atenda às nossas expectativas. O fato é que a terapia vai lhe fazer ficar de frente com isto e, como já falamos, quando nos deparamos com estas coisas, entendemos melhor nossas relações conosco e com o outro, e consequentemente nos tornamos conscientes e agimos para mudar nossas condutas.

6 – Você assume as rédeas da sua vida

Quando você aprende estas coisas acima, começa a assumir o controle da sua vida e das suas emoções. Torna-se mais consciente de quem é, do que gosta e do que faz. Sabe quando está projetando e idealizando e já busca logo ir se corrigindo. Deixa de tentar agradar os outros, deixa de ser totalmente controlado pelos medos e imaginações e assume o papel de protagonista da sua vida. Não consegue mais culpar os outros pelo que acontece com você.

Existem muitos outros motivos, mas por hoje vou manter apenas estes.
Quando você entra em contato com o que é profundo e até sagrado dentro da sua psique começa a perceber a si e aos outros como pessoas mais humanizadas, saindo da idealização inatingível de esperar a perfeição, deixando de lado os juízos de valor, ou seja, de achar que é fraqueza, burrice ou coisas do tipo. Você vai aceitando que a experiência humana é assim, não se trata de força ou fraqueza, mas apenas pessoas buscando a felicidade e a satisfação de seus desejos. É aí que alguns comentam coisas que podem machucar muito as outras pessoas. Então você vai aprendendo a lidar com isto de um jeito
mais real, mais humanizado, menos romântico e fantasioso e ressignificando as suas experiências.
Se você não quer transformar a sua vida, amadurecer emocionalmente e melhorar suas relações então, por favor, não procure uma psicóloga! Agora, se você quer se transformar, sinta – se convidado a entrar nesta jornada de autoconhecimento, transformação e descoberta desta pessoa incrivelmente complexa que existe aí dentro.

Acompanhe a autora em sua página no FacebooK e blog.

Se alguém não deu valor a você, não mendigue nem atenção nem amor

Se alguém não deu valor a você, não mendigue nem atenção nem amor

Nunca perca o seu valor por uma pessoa que não sabe o que tem. Se alguém não der importância a você, se o ignorar, o abandonar ou desprezar você, não mendigue a sua atenção ou o seu amor, pois este nunca terá nada de real ou sincero.

Não morda mais a maçã envenenada do amor diferente, pois ela somente fará você sofrer. Se você “pede demais” é porque sabe que o que deseja tem um peso importante em sua vida e que é você quem deve outorgar primeiros seus pensamentos, opiniões, desejos e comportamentos.,

Devemos nos esforçar para tomar distância emocional daquelas pessoas que colocam em xeque o equilíbrio da balança afetiva de que todos precisamos, ao mesmo tempo em que cimentam na desigualdade emocional as relações que compartilhamos com eles.
Compartilhe com você seus desejos mais íntimos, escute-se com a vontade de amar-se e de aceitar-se, pois apenas isso lhe ajudará a se libertar de falsos amores.

O amor não se mendiga e a indiferença mata o carinho

Mendigar amor significa pedir algo que não existe, que somente está nos desejos de nossa mente. A única coisa que conseguiremos “mendigando” é faltar ao respeito com nós mesmos, entorpecer nosso crescimento emocional e machucar o nosso eu interior com a dor que a falta de dignidade fomenta.

Quando amamos alguém queremos cuidar desta pessoa e evitar que ela sofra. Nosso reflexo emocional nos leva a criar circunstâncias que façam com que o outro se sinta merecedor de carinho, que fomentem emoções e sentimentos de harmonia, autenticidade e carinho.

Se não nos cuidarmos dos falsos amores, acabaremos acreditando no que eles nos fazem sentir. Acabaremos pensando que não merecemos afeto ou atenção, e terminaremos convencidos de que as relações emocionais não precisam ser equilibradas.
Ao final, é simples: a pessoa que o merece é aquela que, tendo a liberdade de escolher, se aproxima de você, o aprecia e dedica a você seu tempo e seus pensamentos.

Ninguém pode fazê-lo infeliz sem o seu consentimento

A ferramenta mais poderosa para lutar contra a injustiça emocional e a indiferença é a determinação pessoal. Ela deve ser acompanhada de amor próprio, de autoconhecimento e de reflexões sobre os sentimentos, desejos e comportamentos próprios e alheios.

No entanto, o processo no qual nos vemos imersos nestas circunstâncias reflete a falta de dignidade. Essa que nos faz falta para não perseguirmos aqueles que não nos merecem.

Neste sentido, devemos saber que costumamos usar estratégias erradas para lidar com o luto pelo “não amor”. Vejamos algumas situações comuns:

  • O luto pelo “não amor” é um processo muito duro que se alimenta de uma dolorosa fase de pré-contemplação. Geralmente sabemos que “algo não está bem”, mas não nos atrevemos a descrever com palavras ou a tirar a venda de nossos olhos.
  • Deixamos que o mal-estar passe, mantendo a crença de que não pensar nele e o fato de nos distrairmos irá permitir que o problema se resolva de uma maneira natural.
  • Quando nos resignamos ao mal-estar, chega um momento em que este aumenta a níveis insuportáveis e temos que enfrentá-lo quando o mesmo já transbordou. No entanto, o que acontece quando lutamos contra nossos próprios sentimentos? A luta se transforma em uma batalha sem fim, cheia de desespero, o qual irá fomentar o sofrimento.
  • Também é comum ouvir aquilo de “abraçar a dor”, mas não é positivo nem ignorá-la e nem abraçá-la.

O que é realmente adequado para lidar com o luto pelo “não amor” é atendê-lo e compreender que isso dói porque alguém que queríamos que nos amasse não o faz.

Assim, para reverter a dor, o passo seguinte é dar uma solução a ela.

Qual é a solução adequada? Convencer a nós mesmos de que, se não obtivemos um afeto de maneira natural, dificilmente iremos consegui-lo de outras formas. Com isso, o correto para nós será nos afastarmos desta pessoa, pois somente assim teremos a garantia de que a dor será superável.

Para acabar com o sofrimento do “não amor” temos primeiro que entendê-lo e depois aceitá-lo, pois é uma consequência natural do luto pela perda daquilo que desejávamos ter e não temos.
contioutra.com - Se alguém não deu valor a você, não mendigue nem atenção nem amor

Ame-se e valorize-se: alimente as suas relações com o amor próprio

Ainda que controlar cada história emocional seja algo complexo, todo sofrimento tem solução. A verdadeira mudança é possível quando trabalhamos aquilo que nos prende à situação dolorosa, e àquela pessoa a quem estamos mendigando atenção e amor.

Assim, deve ficar claro para nós quea primeira pessoa a quem devemos dedicar tempo somos nós mesmos. Depois estaremos em condições de avaliar com quem nos sentimos bem e com quem não.

Não mendigue a atenção de ninguém, e muito menos o amor, porque quem o ama, irá demonstrar isso de uma ou outra maneira, sem que existam interesses ou egoísmos.

Lembre-se de que uma situação de injustiça emocional requer um papel destacado do nosso amor próprio, o qual nos ajuda a examinar nossos desejos, valores e necessidades.

Não continue ligando para esta pessoa que não atende às suas chamadas. Deixe de buscar e comece a deixar que o encontrem. Deixe de sentir falta daqueles que somente estão presentes na sua vida de forma superficial, daqueles para os quais só importam as aparências, e que apenas fazem com que você se sinta bem quando há mais gente junto com vocês.
Não se esqueça de examinar as razões que fomentam o seu apego em relação a estas pessoas a quem você costuma “mendigar carinho e atenção”. Avalie a origem, seja consciente e inicie a sua transformação interna.
É necessário nutrir a sua autoestima e deixar de mendigar amor, pois o amor deve ser demonstrado e sentido, e nunca implorado. O seu carinho e a sua atenção são valiosos demais para serem desperdiçados com aqueles que não os merecem.

Dedique-se a quem o ama e o compreende, sem julgamentos nem condições.

Toda grande mudança é difícil

Toda grande mudança é difícil

Toda grande mudança é difícil. Já nem contos nos dedos por quantas vezes não me reconheci ao ver meu reflexo, falei coisas que me arrependi instantaneamente, chorei por outras que jurei que não me machucavam mais. Já sentei no chão atrás da porta e desisti. Já sentei numa calçada no meio da rua e desisti. Já sentei no estacionamento do shopping e desisti.

Porque a vida é difícil. Porque algumas pessoas são ruins de verdade. Porque sentir dói, gostar dói e superar também dói. Eu falhei. Várias vezes. E nada ao meu redor mudou. Nada. Nem o vento soprou mais forte. O universo não teve pena de mim. Não tive nenhum sinal divino. Então, eu cansei, inclusive, de desistir. E como se nada tivesse acontecido, tive que continuar.

Porque essa bagunça que trago no peito é minha, ninguém sente como eu. Tem dias em que ainda acredito que não vai passar, mesmo contradizendo tudo que já vivi, a malícia do tempo e a veracidade da minha memória. O amor não é como a maioria dos outros sentimentos. Tem o lado ruim, aquele que doí, e você nunca mais vai ser o mesmo. Eu não sabia disso, mas agora eu sei. A vida não te dá escolha: você tem que ir. Tem que levantar. Tem que tentar. Tem que superar. Tem que esquecer. E não pode deixar de trabalhar, estudar, pagar contas, ajudar o próximo, ouvir problemas que considera menores e dar a devida importância que eles têm pra quem os fala. Faz parte. E dá medo. Mas é isso. É disso que somos feitos.

Você vai chegar ao teu limite e aguentar. Então, vai perceber que pode aguentar um pouco mais, e seu limite vai ficando cada vez maior. Já me senti angustiada por não saber o que fiz de errado. Já me senti pequena e incapaz, porque, por mais que eu me esforçasse, não era o bastante pra fazer alguém ficar. Até que percebi que todas as tentativas seriam em vão se não houvesse reciprocidade. A gente só pode morar em um coração que nos aceita. Desistir não é uma opção real. É só um pedido de socorro. E por incrível que pareça, você não está sozinho(a) nessa.

Fonte:  Bendita Cuca

A vida é muito curta para entrar em fila longa.

A vida é muito curta para entrar em fila longa.

Tem gente que para de comer carne vermelha. Faz muito bem. Gente que deixa de fumar. Ótima ideia. Há pessoas que param de beber, cortam as frituras da dieta, abandonam o vício de roer as unhas, evitam lavar o cabelo à noite e essas coisas que previnem doenças, fazem bem à saúde e aumentam a qualidade de vida. Apoio todas elas. Mas eu encontrei minha própria receita de sanidade: decidi não perder mais tempo em fila.

Não perco mesmo. Tomei essa decisão há tempos e atesto: ela mudou a minha vida. Salvo em casos de absoluta necessidade – os ligados a atendimento médico, por exemplo – em nenhuma outra situação eu tolero perder um só segundo num alinhamento sequencial de pessoas à espera de seja lá o que for.

Fila de uma hora para entrar em um restaurante? Nunca! Duas horas aguardando para ver de perto um palestrante a quem eu posso assistir na Internet? Jamais! Quatro horas para entrar em uma exposição de arte que a crítica diz que é boa? Nem pensar! Fila no cinema? Não, obrigado. Eu dou um jeito de ir a uma sessão mais vazia ou não vou.

Acredite. Não é que eu me ache melhor do que aqueles que não veem problema em perder longos instantes olhando as costas de um desconhecido, não. Eu só me dei conta de que posso muito bem viver sem isso. Se o que está ao fim da fila não for fundamental para a minha sobrevivência, eu passo longe. Só pego fila em último caso, por obrigação.

Minha resolução tem inúmeros benefícios. Nunca mais me irritei ao ver gente furando fila em total descaramento. Não sou obrigado. E com o tempo que não perco em filas enormes eu faço o que bem entender. Inclusive não fazer nada.

Sabe aquela sensação de alívio dos que passam com tranquilidade no pedágio automático enquanto uma multidão de carros se enfileira nos guichês de cobrança manual? É o que eu sinto quando passo por qualquer fila em que não quero e não preciso entrar.

Juro. Agradeço a Deus quando isso acontece e faço comigo uma pequena oração pelas pessoas que ali estão, por qualquer motivo, gastando seu tempo já tão curto em uma longa e aborrecida espera em pé. Lastimo sua necessidade e respeito sua decisão, mas sinto uma leveza enorme ao olhar uma fila quilométrica, passar ao largo e repetir a mim mesmo: “nem pagando!”.

A bruxa e a sedução

A bruxa e a sedução

Nessa nova safra de produções de filmes e séries com a temática de contos de fadas, uma questão interessante se apresenta na forma de uma figura: A figura da bruxa!

Em todas as produções recentes, a bruxa, ou madrasta é sempre mais sedutora, mais interessante ou até mesmo mais bonita que a princesa.

E se observarmos os contos de fadas mais famosos, como Cinderela, Branca de Neve, Bela Adormecida, Rapunzel, a figura da bruxa está sempre presente. É uma figura que aparece repetidamente apenas mudando a roupagem.

Mas porque as bruxas seduzem tanto? Porque elas atraem tanto o nosso imaginário?

Para entendermos essa questão é importante atentarmos que se trata de um arquétipo. A bruxa/madrasta representa uma faceta do arquétipo da Grande Mãe.

No arquétipo da Grande Mãe estão inseridas a bruxa ou madrasta (a mãe diabólica, terrível), a velha sábia e a deusa que representa a fertilidade (aspectos da mãe boa).

A imagem da boa mãe representa tudo o que é belo e puro, já a mãe terrível representa aquilo que é ligado à destrutividade, à bruxaria e à animalidade.

Segundo Newman, em A Criança, o aspecto da Mãe Terrível liga-se à morte, ruína, aridez, penúria e esterilidade.

Infelizmente, com a cristianização de nossa sociedade, o aspecto diabólico da bruxa foi reprimido da imagem da Grande Mãe. Sua imagem se tornou unilateral, sendo a maior representante dessa imagem a Virgem Maria.

De acordo com Marie Louise Von-Franz, em A sombra e o mal nos contos de fadas, a bruxa é a Deusa-Mãe negligenciada, a Deusa da terra, a Deusa-Mãe em seu aspecto destrutivo.

Nisso percebe-se que todo o aspecto ctônico, toda sedução e sexualidade femininas foram suprimidas e associadas à imagem da bruxa, da feiticeira.

Entretanto, é um aspecto extremamente necessário para o desenvolvimento psicológico e para o processo de individuação.

Nos contos de fada citados, geralmente o pai (elemento masculino) é fraco ou inexistente, sendo somente redimido, após o enfrentamento da heroína com a bruxa, possibilitando a chegada do príncipe. E a mãe boa morre, dando lugar a bruxa ou madrasta, que passa a persegui-la e humilhá-la.

Entretanto, a bruxa é extremamente importante para o desenvolvimento da princesa. Sem ela não há narrativa, não há estória. Sem ela a princesa não sairia do lugar. Ela é uma força motriz que força a individuação.

Portanto, é a sombra da boa mãe negligenciada, que torna a heroína ou princesa tridimensional.

Em termos individuais a mãe terrível nos força a sair da zona de conforto. O ser humano sempre busca o prazer e o aconchego doa braços da boa mãe, e ele sempre tende a se tornar inerte nesse estado paradisíaco. Entretanto nele, não há desenvolvimento. Sem a mãe terrível para nos expulsar do paraíso não progrediríamos.

Ao aceitar o desconforto, o sofrimento e as limitações impostas pela bruxa, podemos nos desenvolver em direção a uma totalidade, capaz de integrar o bom e o ruim, o agradável e o desagradável.
Portanto, sem ela não podemos conhecer os opostos.

Além disso, a bruxa possui um caráter numinoso e por isso ela é fascinante. Ela á aterradora, pois pode manter a consciência em cativeiro, mas extremamente atraente.

Não é a toa que as produções de contos de fada hoje dão ênfase a esse personagem. Sua força enquanto mobilizadora do desenvolvimento é tremenda. Nossa consciência coletiva clama pela totalidade para que possamos dar um avanço em nosso processo de individuação e em nosso desenvolvimento coletivo.

O mundo na visão de um ilusionista

O mundo na visão de um ilusionista

Ceslovas Cesnakevicius é um fotógrafo que mora e trabalha em Vilnius, capital da Lituânia. Ele usa sua imaginação florida para criar fotografias que parecem conjurações mágicas de tão surreais.

Seu estilo de arte é baseado no ilusionismo, técnica que ele pratica através de manipulação fotográfica. Cada foto retrata uma visão de mundo de acordo com suas crenças alternativas.

Ao observar essas fotografias, tem-se a impressão de estar sendo transportado para um universo sem regras e convenções.

As fotos de Ceslovas distorcem a realidade. Antes de criá-las, Ceslovas se pergunta que tipo de cenários poderiam se tornar reais se um ilusionista as tivesse criado por livre e espontânea vontade. Muita coisa pode sair da mente de uma pessoa, ainda mais de um ilusionista que não respeita a ordem da natureza.

O fotógrafo lituano cria imagens fantásticas que desafiam as leis da física e desnorteiam os observadores.

O processo criativo de Ceslovas é muito simples. Em entrevista para o site The Creator Project, o artista afirmou: “Eu sempre começo com uma ideia. Eu mantenho a fotografia original como um pano de fundo, e vou trabalhando sobre os detalhes em particular, que criam realidades ligeiramente distorcidas”.

Como Ceslovas se inspira para criar? Segundo ele: “A inspiração vem de tudo: natureza, pessoas, as disciplinas da arte, sol, vento e assim por diante. Em minhas imagens, eu sempre parto do objetivo de ter um equilíbrio adequado entre sombra e luz. Eu não me limito à lógica da percepção das coisas como as conhecemos”.

Ele diz também que as fotos são estritamente pessoais; produtos de seu desejo de viver em outras dimensões. Ele é o tipo de pessoa entediada e curiosa que não se contenta em viver na Terra.

Quando se olha para esse tipo de arte, um pouco de desorientação mental é comum, mas também divertido. As fotos mexem com as sensações dos observadores.

Veja algumas delas:

contioutra.com - O mundo na visão de um ilusionista

contioutra.com - O mundo na visão de um ilusionista

contioutra.com - O mundo na visão de um ilusionista contioutra.com - O mundo na visão de um ilusionista contioutra.com - O mundo na visão de um ilusionista contioutra.com - O mundo na visão de um ilusionista contioutra.com - O mundo na visão de um ilusionista contioutra.com - O mundo na visão de um ilusionista contioutra.com - O mundo na visão de um ilusionista contioutra.com - O mundo na visão de um ilusionista contioutra.com - O mundo na visão de um ilusionista contioutra.com - O mundo na visão de um ilusionista contioutra.com - O mundo na visão de um ilusionista contioutra.com - O mundo na visão de um ilusionista contioutra.com - O mundo na visão de um ilusionista

Como responder às provocações

Como responder às provocações

Não, eu não estou deixando as linhas tortas do devanear para seguir a linha reta das fórmulas prontas. Esse texto não é um conselho, tampouco um manual. É mais como aquela reflexão que você joga no ar, que fica maquinando na sua cabeça e você tem que contar para os amigos no bar.

Tipo quando você descobre uma nova fórmula para matar baratas ou espantar pernilongos, e sabe que nem todos vão fazer, ou que não daria certo para todo lugar, mas, ainda assim, na sua empolgação juvenil, resolve soltar seus espasmos de percepção por aí. É, como quase tudo, um tanto quanto singular, mas nem por isso deixa de ter um pouco de comum.

É que, como tudo e muito de muito bom, as provocações se espalharam por aí, e os provocadores, agora com a ferramenta fantástica de manter o anonimato para reforçar sua natureza covarde, estão disseminando seus veneninhos indolentes com uma amplitude cada vez maior.

Mas, que não nos confundamos, provocadores não são críticos. Há quilômetros, para não dizer anos luz – porque eu até gosto de exageros para variar – de diferença entre um crítico e um provocador, ou entre uma crítica e uma provocação.

Uma crítica se direciona a algo, porque o crítico foi capaz de adentrar neste algo, geralmente um trabalho, uma ideia, uma produção qualquer planejada ou materializada, e diante da sua visão, constrói um ponto de vista, que pode ser positivo ou não, embora hoje tanto associemos a crítica à depreciação. Não é bem por aí…

Já a provocação, ela tenta tomar uma coisa como desculpa, seja um comportamento, um trabalho, uma forma de pensamento, enfim, uma produção de qualquer natureza, mas direciona uma ofensa à pessoa que realizou ou manifestou esse “algo”.

Então, a crítica parte de algo, fala de algo e se direciona a algo, apenas indiretamente referindo-se ao alguém que produziu ou manifestou esse “algo”. A provocação atropela o “algo” e o usa como desculpa para se direcionar a alguém de forma ofensiva.

Estou sendo didática a contragosto, tão somente porque, honestamente, eu adoro a crítica e não quero ser mal interpretada. Mas a provocação, infelizmente para ela e seus adeptos, não conta com meu precioso afeto (#sarcasmo). Nem os bons, nem os maus. E está justamente aí essa iluminação que me passou hoje pela cabeça – quando eu sentia um pequeníssimo incômodo, como um infeliz que tivesse pisado descalço em uma barata -, diante de uma provocação anônima e incoerente, daquele tipo que qualquer um de nós, quando magoados, podemos ter o infortúnio de fazer depois de uma noite de bebedeira. Bom, faz parte… a autocrítica.

Assim como pisar em uma barata, fica o nojinho, fica o asco, por algum tempo, talvez, no caso da barata, até por alguns dias, mas logo se esquece disso. Não muda muito nossa vida, pode até nos ajudara aprender a pisar com mais cuidado, ou prestar bastante atenção em onde é “seguro” pisar descalço ou não. Lidar com a provocação é mais ou menos por aí.

A provocação nada diz respeito a quem foi provocado, mas sim ao provocador. Ela é uma espécie de pedido carente e desesperado por atenção e afeto, vindo de alguém que não dá conta de manifestar seu afeto ou conquistar a atenção alheia. Quer por decreto e imposição ser visto e amado, ainda que seja pela via do ódio. O que o provocador demanda ao provocado é um pedido de relação, de intimidade agressiva, de um lugar especial e de destaque na cabeça daquele a quem ofende.

Assim como os tímidos apaixonados loucamente, esses românticos e eloquentes, que fazem disso beleza e poesia, mas não tem coragem de se declarar ao seu amor, o provocador anônimo também tem esse receio. Ele quer muito inocular seu veneno no interlocutor, mas tem medo de mostrar a cara, tem medo de assumir essa emoção forte e dilacerante que ele sente, que no caso, não é bem amor, talvez lá no fundo seja, mas diferente do apaixonado eloquente, esse amor que ele mesmo não aceita se manifesta na forma de frustração.

Por uma identificação nada assertiva com o provocado, ele vê nele um espelho distorcido, aonde reflete seus próprios defeitos, dolorosos demais para serem assumidos na lata,e tanto mais arrepios sente diante da responsabilidade em lidar com isso. Um “Deus me livre!” ou algo dessa natureza passa rasteiramente pela cabeça do pobre coitado, só de pensar em ter que encarar a si próprio, com todas as suas cicatrizes, inseguranças e incertezas para lidar. O provocador é um preguiçoso.Ele não quer ser melhor do que ele mesmo: prefere tentar rebaixar os outros para que eles cheguem ao mesmo nível que ele.

E é aí que me veio à mente aquele conselho de mãe, tipicamente ouvido na adolescência: ignore. Sim, ignorar. Dar ao provocador um silêncio profundo, um esquecimento desafetado, no máximo um sorriso sarcástico, ou daqueles que pedem desculpa sem culpa, no caso de ele se mostrar e não poder ser, como acontece virtualmente, integralmente ignorado.

Quando respondemos a um provocador, estamos aceitando a sua proposta de casamento. Ele goza com isso como um apaixonado diante da reciprocidade. Ele conseguiu! “Agora você é meu!”, até que a sorte nos separe. Por outro lado, quando obrigado a lidar com um silêncio infinito, não resta a ele nada além de sua própria persona, de se sufocar com o próprio veneno, de degustar da própria vileza, que não encontrando outra direção retorna a ele mesmo.

A vida é curta demais para ter tempo de responder às provocações. Há afetos muito mais belos e frutíferos para disseminar por aí. A provocação é como uma erva daninha que toma conta até de quem não tem nada a ver com a história amorosa do ofensor e seu potencial ofendido. Não nos ofendamos com a provocação. Ela é só uma forma de afeto desacertado, mal resolvido, desprovido de qualquer nobreza: no máximo é da ordem da covardia.

Aos provocadores, deixemos o nosso silêncio para não ocupar o espaço de respondermos aos nossos amores.E apenas quando for o caso, quando for possível e até inevitável, carreguemos desse tropeção um aprendizado para a vida, sobre aquele cuidado em não pisar descalço nas baratas, que pior para elas mortinhas da Silva, em nossos pés deixam apenas um nojo passageiro.

Não acorde a inveja adormecida!

Não acorde a inveja adormecida!

Ela existe, ela é real, ela perambula e bate em todas as portas, passa por brechas estreitas, se camufla, se mascara. Ela só espera por uma oportunidade, uma mínima chance para se manifestar. Ela é bicho predador, não age por razão e sim por instinto voraz.

A inveja faz parte da coleção de sentimentos humanos. Não é a figurinha mais popular, nem mais cotada, mas tem seu lugar marcado nos álbuns de todos os viventes.

A inveja tem superpoderes e consegue fazer com que a identifiquemos rapidamente no outro, mas quase nunca em nós mesmos, muito embora ela esteja lá e também esteja cá.

Da mesma forma que se luta contra o egoísmo, a avareza e outras sensações non gratas, também é preciso enfrentar a inveja.

Pessoalmente acredito que é uma das mais ferozes lutas internas, mas muito gratificantes quando conseguimos desmaiar essa demônia que nos hipnotiza e desfoca.

Uma vez desmaiada, bela fosse, seria como a heroína do conto de fadas. Mas ela não é bela e muito menos heroína. Que permaneça desacordada.

E, ao contrário da bela que só aguardava um beijo para despertar, esta vilã adormecida acorda com mínimos movimentos, até mesmo com um suspiro descuidado.

É preciso cuidado ao observar o outro, ao digerir notícias, ao receber informações, ao olhar em volta.

Se queremos que nossa inveja permaneça adormecida, é essencial entender que o cenário particular não pode ser comparado a nenhum outro cenário. É imperioso que a observação dos feitos alheios não seja contaminada com comparações e julgamentos. Cada um tem o que tem, na porção exata de êxito e dor. E ai de quem ainda consegue invejar até mesmo uma dor.

O rebuliço interno de uma alma faz ruído que acorda a inveja. Em compensação, a paz de uma vida que não deseja ser espelho nem rival de outra, faz com que o sono da inveja seja cada vez mais profundo. E então não haverá beijo traidor que acorde essa vilã adormecida.

Viver irritado pode esconder algo mais grave do que apenas “mau-humor”

Viver irritado pode esconder algo mais grave do que apenas “mau-humor”

Sem perceber, você foi se afastando aos poucos dos amigos, de todos os amigos. Sem perceber, os hábitos diários foram ficando cada vez mais rígidos e configurados a serviço de uma rotina invariável, cuja função é mantê-lo aparentemente dentro de uma situação segura e protegida. Sem perceber, os sorrisos foram ficando mais raros, as ruguinhas no centro dos olhos foram ficando mais fundas, a tensão nos ombros passou a ser uma companhia constante. Sem perceber, você foi se adaptando a dias solitários que viraram semanas, que viraram meses. Sem perceber, o que você vem aceitando como sendo características pessoais de “personalidade forte” ou “gênio difícil” podem ser sinais de uma disfunção afetiva.

A Distimia é facilmente confundida com mau-humor, uma vez que portadores desse transtorno de conduta apresentam comportamentos pouco sociáveis, irritam-se com extrema facilidade e perdem a razão por causa de seu “pavio curto”. Essas pessoas acabam se afastando do convívio com colegas, amigos e familiares, na tentativa de parar de sofrer, por não sentir prazer na convivência com o outro.

Os distímicos não chegam a ter crises avassaladoras como as têm aqueles que sofrem de Depressão Clássica. No entanto, a amargura torna-se uma companheira fiel, que acorda e vai para a cama com a pessoa todo santo dia. O que difere a Distimia do “mau-humor” é que o portador não é apenas pouco dado a sorrisos e gentilezas e toca sua vida numa boa. Os ditímicos sofrem por não conseguirem estabelecer e manter relacionamentos de amizade, profissionais ou amorosos; eles não sentem nenhum prazer em destratar as pessoas; passam a ter sentimentos de menos valia, pouca ou nenhuma confiança em si mesmos e buscam o isolamento, pois estar entre outras pessoas, coloca-os numa situação de enorme desgaste emocional, já que têm dificuldades para controlar e evitar comentários ácidos, impaciência e agressividade.

O fato é que ninguém se sente confortável carregando para lá e para cá uma cabeça que murmura reclamações o dia todo, não consegue achar graça nem nas grandes, nem nas pequenas coisas, vive criticando tudo ao seu redor e não relaxa nunca, porque sente-se inadequado em relação ao mundo e sente que o mundo é inadequado para si. De acordo com a ABRATA (Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos), existem mais de 11 milhões de brasileiros sofrendo desse mal.

Não há estudos conclusivos acerca das causas da Distimia; médicos e psicólogos apontam para a possibilidade de fatores bioquímicos (alterações cerebrais), genéticos (parentes de primeiro grau diagnosticados), ambientais (rotinas desgastantes ou exposição a situações críticas de estress), ou comportamentais (depender excessivamente da aceitação e atenção do outro). É, também, comum, aparecer sintomas distímicos em pacientes portadores de outros transtornos mentais, como síndrome do pânico ou fobias graves.

Quanto antes for feito o diagnóstico preciso, quanto mais chances o paciente terá de aprender a reconhecer, conviver e administrar os sintomas da doença. É absolutamente normal sentir-se triste diante de uma perda, ficar aborrecido quando algo sai errado, perder a paciência com gente sem noção ou querer ficar sozinho às vezes, para aproveitar a própria companhia. No entanto, se a tristeza, a exasperação, a irritabilidade e a necessidade de isolamento tornarem-se uma constante, a ponto de interferir negativamente em sua vida pessoal, laboral e afetiva, é bom investigar. Dividir a aflição com alguém próximo, um amigo ou familiar, a princípio já é um primeiro passo. Mas, é indispensável buscar ajuda de psicólogos e psiquiatras; só um profissional capacitado poderá analisar e confirmar a ocorrência de uma patologia ou determinar se aquele quadro comportamental refere-se apenas a uma fase ou traço de personalidade.

Uma vez feito o diagnóstico correto e assertivo, é necessário aderir ao tratamento psicoterápico e medicamentoso (se for o caso). E, como em qualquer outro tipo de transtorno afetivo, faz-se absolutamente necessário o envolvimento e apoio das pessoas mais próximas. Nenhum de nós nasceu com escudo de proteção que nos impeça de sermos atingidos pela dolorosa experiência de ter de conviver com um transtorno de humor. Por isso, sejamos capazes de entender que a dor do outro não pode ser sentida por nós, mas que ele a sentirá menos pesada e cruel se tiver a nossa mão para segurar. Afinal, generosidade, amorosidade e empatia são remédios altamente potentes contra a dor de qualquer natureza.

O amor é jazz, assim bem juntinho

O amor é jazz, assim bem juntinho

Ela disse “oi” e ele, assim sem jeito, respondeu “olá “. Quando a música terminou, ambos continuaram dançando. Era um jazz. Era um amor desses pra ficar bem juntinho.

Dizemos não nos importar com a ausência do romantismo, mas gostamos de sermos lembrados, com carinho e carícias, dos possíveis motivos e indícios de ali estarmos. As mãos dadas sugerem uma comunhão de corações. Corações bem vindos para amor. Não fosse a admiração mútua, o gesto seria apenas um cumprimento automático de quem não quer estar sozinho, e ninguém merece ser apego do outro. O amor é sentir e também escolha. Escolha no sentido de estabelecermos sua extensão e permissão para seguir adiante. Negar essa liberdade é maltratar o próprio amor.

Mas o ser romântico ganha vida em ir ao encontro de sua essência, a qual depois dos dedos entrelaçados, os sorrisos são bem vistos e acolhidos. Porque sorrir para si é bom, mas escancarar a alma nos dentes para o outro, incomparável. Não é sair porta afora demonstrando felicidades sem fim, não. Contudo, colocar-se disponível e em direção a novos prazeres faz palpitar até o mais frio dos corações. E como precisamos experimentar. Conceder-nos a oportunidade de vivenciarmos momentos que não sejam resumidos por noites de porres e choros na frente da tevê.

O romantismo é construído, despretensiosamente, com abraços. Após os abraços, muitos beijos. Intimidades compartilhadas por quem não sente vergonha de sentir. São formas do mais amor, ainda que não haja necessidade de palavras para descrevê-lo. Pra quê? Caminhar a dois rumo ao misterioso. Descobrir, dia após dia, o significado do relacionamento. Mas juntos. Sem deixar num canto qualquer todas as expectativas, pois elas fazem parte da melodia. Saber do ritmo um do outro é fundamental para não pisar nos pés do amor.

O amor é jazz, assim bem juntinho. Mas não há problema no caso de você não saber como se dança. Desde que tenha a composição em mãos, abraços e lábios, eu fico bem mais perto. Juntos e nos nossos passos.

Se precisa forçar, é porque não é o seu tamanho (anéis, sapatos, relacionamentos…)

Se precisa forçar, é porque não é o seu tamanho (anéis, sapatos, relacionamentos…)

Por Raquel Brito

Se precisa forçar, é porque não é o seu tamanho. Esta afirmação é válida para qualquer elemento que de alguma forma tenha que encaixar com você, sejam peças de vestimenta ou relacionamentos, amizades, etc. Imagino que a grande maioria dos leitores se identificarão com essa situação na qual você vê uma peça de roupa que gosta, entra para perguntar e respondem que o seu tamanho está esgotado. Então você pede um tamanho maior ou menor, para ver se dá sorte.

Muitas vezes nos empenhamos para que uma determinada coisa se encaixe a nós e não percebemos que, na verdade, está nos machucando. A inércia, as mensagens prejudiciais que a sociedade nos envia, as expectativas, as oportunidades… Tudo isso, traduzido em um relacionamento disfuncional, só pode ter um resultado: a dor.

O que origina isto é a falta de amor. Mas não qualquer tipo de amor, e sim o amor próprio especificamente. É um verdadeiro triunfo abrir os olhos para perceber que os bons sentimentos nunca se acompanham de submissão.

contioutra.com - Se precisa forçar, é porque não é o seu tamanho (anéis, sapatos, relacionamentos…)

O amor não deve ser mendigado

O amor não deve ser mendigado, nem implorado. Se a pessoa não gostar de você, se empenhar para que goste é um suicídio emocional garantido. Não se pode esperar que aconteça um milagre e que o amor apareça. Muito menos podemos manter essas expectativas às custas da nossa saúde emocional e da nossa liberdade.

Nisto, a educação que recebemos tem muita culpa. Por exemplo, estamos cansados de filmes que fomentam a dependência e que atribuem a qualquer relacionamento a capacidade de superar qualquer tipo de obstáculo.

Isto não funciona assim. Um relacionamento que aperta e dói está impedindo você de crescer e está oprimindo a sua capacidade de respirar livremente. É quase tão simples como se estivermos nos afogando, é preciso sair da água. Agora, sair de um relacionamento tortuoso normalmente não é fácil e dá muito medo…

Cicatrizar as feridas que foram geradas tentando forçar o relacionamento

Existe uma realidade muito bonita com relação as pérolas que nos ajuda a ilustrar como podemos curar as feridas que surgiram de um relacionamento amoroso ou de uma amizade forçada. Vejamos como é isto…

A primeira coisa a saber é que uma ostra que não foi ferida de alguma forma não produz pérolas, pois a pérola é uma ferida cicatrizada. As pérolas são produto da dor, resultado da entrada de uma substância estranha ou indesejada no interior da ostra, como um parasita ou um grão de areia.

Na parte interna da ostra encontra-se uma substâncias lustrosa chamada de nácar. Quando um grão de areia penetra nela, as células de nácar começam a trabalhar e o cobrem com camadas e mais camadas, para proteger o corpo indefeso da ostra. Como resultado, forma-se uma linda pérola.

Sabendo disto, podemos nos apropriar deste processo em forma de metáfora. Cicatrizar as feridas não é nada fácil, mas é o único caminho que ajuda a fechar uma dolorosa etapa de nossas vidas. 

Que o mundo vem abaixo, que estamos tocando fundo, que não vamos conseguir estabilizar a própria vida sem a presença dessa pessoa ou desse grupo de relacionamentos que tanto importava… Todas estas sensações são normais em situações de adversidade emocional.

Contudo, esta mesma “fraqueza” que tanto nos assusta pode ser usada para nos fortalecer. Para ilustrar isto vamos lançar mão da técnica chamada de Kintsugi que os japoneses usam para reparar peças quebradas. Esta consiste em recompor os pedaços das peças de cerâmica quebradas com ouro, de tal forma que o que estava quebrado agora se transforma na parte mais bela e forte do objeto em questão.

Se lançarmos mão da sabedoria oriental para compreender isto, entendemos que aquilo que nos fez sofrer também nos proporciona valor. E mais, a beleza das nossas feridas dependerá do que produzirmos em nosso interior e de como trabalharmos as nossas dores.

Atendendo a isto, é bom colocarmos empenho em bordar com ouro as lágrimas nas nossas vestimentas, aceitar a necessidade de fechar círculos, dizer adeus e não se complicar demais tentando vez após vez fazer caber um vestido que não serve.

Tentar reescrever um livro com uma história que já se mostrou sem futuro em outras ocasiões é enganar a si mesmo. Por isso precisamos ser conscientes de que uma ferida não consegue se curar se estamos emaranhados nela de forma constante.

Talvez fiquem as cicatrizes, sim, mas sempre poderemos exibi-las com orgulho e, acima de tudo, com total liberdade sem que nada nos aperte.

TEXTO ORIGINAL DE A MENTE É MARAVILHOSA

Nossa estranha e dolorida dificuldade para o perdão

Nossa estranha e dolorida dificuldade para o perdão

É noite alta e eu ainda não preguei os olhos. Não vai. O sono não engata. Amanhã cedo tem trabalho que segue até tarde, como todos os outros dias da vida. Eu preciso dormir, mas é impossível e eu sei por quê. É que o meu coração está pesado e barulhento.

Agora há pouco, meu filho de sete anos me fez algo que eu entendi como incabível. Ele me disse “cale a boca” num instante de irritação infantil, egoísta e imaturo como geralmente são as crianças. Eu dei-lhe uma bronca daquelas, gritada, irrefletida, e ele me pediu desculpas, como em geral fazem os adultos de boa vontade. Mas eu não consegui perdoá-lo ali, na hora. Nem ao meu filho, a quem eu disse “não”, nem a mim mesmo eu fui capaz de oferecer um simples e providencial perdão. Estava encerrado o nosso fim de semana feliz. No tempo combinado, levei-o de volta à casa da mãe dele sem olhar-lhe nos olhos, sem beijo e nem abraço. Sem o “eu te amo”, o “tchau, até amanhã, meu filho”, de sempre. Do jeito mais infantil, egoísta e imaturo possível para um homem de quarenta anos.

Agora estou aqui, insone, doente, sofrendo a falta dele. Consumido de medo e culpa, efeitos terríveis da minha incapacidade para o perdão. E se eu morrer agora, antes de vê-lo de novo? E se me faltar a oportunidade de dizer a ele de perto, olhando-o nos olhos, que eu o perdoo, sim? E se amanhã eu não puder explicar-lhe com calma e amor e cuidado que fiquei chateado porque não se manda o papai calar a boca, mas que o papai ainda é o mesmo que o pega de segunda a sexta na escola, o espera comer a salada em nosso almoço de todo dia e o ama mais que tudo na vida?

E se eu disser e ele não acreditar em nada disso?

Se qualquer dessas coisas acontecer, a culpa será minha. Obra da minha própria e indiscutível incapacidade de perdoar, esquecer e tocar em frente.

De todas as durezas da vida, é certo que entre as maiores e mais dolorosas vive a nossa pouca habilidade para o perdão. Meu Deus! Como é duro perdoar! Aos outros e a nós mesmos, o perdão é nosso mais caro e raro trabalho.

Você e eu e todos nós somos enormes depósitos de mágoas. Nossas casas internas estão abarrotadas delas. Em gavetas superlotadas, nos porões, nos sótãos, debaixo das camas, esquecidas em caixas de papelão fechadas desde uma velha mudança, entupindo passagens em quartos mal usados, dificultando o fluxo do ar e da luz e da vida, lá estão velhos rancores e culpas, chateações e ressentimentos endurecidos com o tempo, como portas emperradas trancando a vida do lado de dentro. Esperando nosso simples e tão difícil perdão.

Explodi numa bronca desmedida em meu filho de sete anos, fui incapaz de desculpá-lo e explicar-lhe os motivos da minha ira porque tenho o coração tumultuado por passagens mal resolvidas, dores passadas, preocupações recorrentes, irritações corriqueiras e outros entulhos. Lixo puro e simples, mato, erva daninha se arraigando no quintal, firme no propósito de sabotar nossas plantas. Ódio empurrando o amor barranco abaixo.

Tudo isso porque dar e receber perdão honestamente, com a verdade das crianças, é tão difícil quanto as decisões mais complexas da vida. Aquelas que você e eu julgamos definitivas e que depois o tempo nos joga na cara o quanto são banais e corriqueiras e ridículas como roupas, móveis, objetos, arquivos e recibos sem uso que relutamos em passar adiante, mas que quando se vão deixam os bolsos, as malas, os computadores e a vida tanto mais leves. Perdoar deve ser isso mesmo, né? Decidir seguir em frente com a bagagem reduzida.

Hoje eu não consegui. Não perdoei a má-criação de meu filho na hora certa e não perdoo a mim mesmo por isso. Minha bagagem segue pesada como meu coração. Acho que não vou morrer antes de ver meu menino de novo. Não desta vez. Mas é certo que morri um pouquinho agora, insone, triste, lembrando seus olhinhos de perdão à espera da minha compreensão que não veio.

Então amanheceu. É outro dia. Tempo de tentar de novo. Perdão, meu pequenino herói. Uma hora, com todo o amor que nos cabe, este seu velho pai há de aprender.

INDICADOS