Paramos na idade em que nos falta amor

Paramos na idade em que nos falta amor

Com muita frequência, me encontro com pessoas que, por fora, parecem ter 20, 30 ou 40 anos, mas, lá no fundo, ficaram na infância e ainda precisam do amor que lhes faltou quando eram pequenas. Elas ficam assim até o momento em que aprendem a encontrar a satisfação nelas mesmas.

Paramos na idade em que falta amor.

Cada etapa se caracteriza por uma necessidade, ou seja, a maneira como precisamos de cuidado e de amor dos pais muda ano após ano.

No começo da infância se forma a confiança, por isso, nesse momento da vida o amor é expresso por meio dos cuidados da mãe e de sua atenção às necessidade do filho. Se, durante essa fase, o carinho da mãe é pouco constante, ou ela rejeita o seu filho, nele podem aparecer a desconfiança e o medo excessivo.

Na vida adulta, é difícil estabelecer contato com esse tipo de pessoa. Quando elas começam uma relação, é comum sentirem a necessidade de provar alguma coisa para a outra pessoa, colocando no outro a necessidade de mostrar fidelidade. Quando se tratam de relações interpessoais mais próximas, podem se sentir vulneráveis e indefesas.

Alguns anos depois, aos 2 ou 3 anos de idade, a criança aprende a ser independente e desenvolve o autocontrole. Se os pais dificultam o desenvolvimento destes aspectos, por exemplo fazendo sempre eles o que a criança poderia fazer sozinha e sem dificuldade, ou, pelo contrário, esperam que a criança faça coisas impossíveis, podem gerar a sensação de vergonha. Por outro lado, se os pais não param de corrigir os filhos, sem entender as necessidades naturais da idade, é provável que a criança tenha problemas para controlar o mundo à sua volta e, portanto, controlar a si mesma.

Quando são adultos, ao invés de se sentirem seguros de si mesmos, sentem que os outros sempre os estão analisando em detalhes e os tratam com desconfiança ou desaprovação. Também é possível que apresentem sintomas de transtornos obsessivos compulsivos e delírio de perseguição.

Entre 3 e 6 anos o amor se demonstra pelo incentivo à independência, apoiando a iniciativa, a curiosidade e a criatividade. Se os pais não permitem que o filho se comporte de maneira autônoma nesta fase, e respondem sempre com castigos, eles vão criar uma enorme sensação de culpa na criança.

A vida adulta de uma pessoa com este tipo de carência se caracteriza pela falta de foco para resolver problemas, colocar objetivos e metas e alcançá-los. Além disso, o constante sentimento de culpa pode ser a causa de passividade, impotência ou frigidez, além de comportamento psicótico.

Na idade escolar se desenvolvem a diligência e o amor ao trabalho. Se, nesta etapa, existem dúvidas sobre as capacidades da criança, o desejo de continuar estudando será ameaçado, dando lugar ao sentimento de inferioridade que, no futuro, acabará com a sua própria capacidade de ser uma pessoa ativa e produtiva dentro da sociedade.

Se as crianças percebem as vitórias escolares e o trabalho como os únicos critérios que determinam o sucesso, na vida adulta elas provavelmente se transformarão na chamada ‘massa trabalhadora’, caracterizada pela hierarquia preestabelecida.

Proponho, portanto, dar a mão à sua criança interior e ajudá-la a crescer. Para isso, procure uma foto sua de quando era criança, ou apenas pense na criança que vive dentro de você. Quantos anos ela tem? Como ela é? Em que pensa? Quem está ao lado dela? O que a preocupa?

Fale com ela.

Peque uma folha de papel e duas canetas de cores diferentes, uma com a mão esquerda e a outra com a direita. Se você é destro, a mão direita será o seu ‘eu’ adulto e a esquerda o ‘eu’ criança. Se você é canhoto, será ao contrário.

Agora, a conversa é apenas entre você e a sua criança interior. Quem fala primeiro? Como começa a conversa? As respostas podem ser inesperadas e surpreendentes.

Neste momento em que você encontrou a sua criança interior e está falando com ela, chegou a hora de começar uma relação. Converse o tempo que quiser, pergunte se ela precisa de alguma coisa e dê a ela o que ela pedir. Chame-a pelo nome (o seu), fale palavras doces e amorosas, expresse o seu amor e dê sugestões. Seja para ela o pai ou a mãe que você gostaria de ter com essa mesma idade.

Autor: Irina Parfénova — Psicóloga

Foto: Evgeniy Azarenok
Tradução e Adaptação: Incrível.club

Tom Jobim estava errado: é possível ser feliz sozinho, diz estudo

Tom Jobim estava errado: é possível ser feliz sozinho, diz estudo

Ao contrário do que cantou Tom Jobim, aparentemente é possível, sim, ser feliz sozinho — e isso quem diz é um estudo da Universidade de Auck­land, não algum sucesso qualquer de funk ou pagode. Feita com neozelandeses de 18 a 94 anos, a pesquisa revelou que, diferentemente das pessoas que buscam intimidade, aquelas que preferem evitar conflitos são mais felizes solteiras, independentemente do gênero ou do período da vida em que se encontram.

Até agora, estudos sobre relacionamentos costumavam indicar que os comprometidos são ligeiramente mais felizes e saudáveis que os solteiros. A lógica parece simples: o apoio de um parceiro ajudaria a lidar com o estresse cotidiano, o que provocaria maior sensação de bem-estar. “Mas mesmo as melhores relações podem ser difíceis e expor o indivíduo a mágoas e decepções”, explica a autora do estudo, a psicóloga Yuthika Girme. Em alguns casos, são motivo inclusive de ansiedade e depressão. E, para certas pessoas, passar por isso simplesmente não vale a pena.

Segundo a psicóloga, existem duas maneiras de construir relacionamentos: buscando intimidade ou evitando conflitos. Enquanto pessoas do primeiro grupo buscam oportunidades de tornar os vínculos mais intensos e se sentem mais satisfeitas quando estão comprometidas, aquelas que preferem evitar desentendimentos ou brigas costumam ser mais felizes solteiras.

Em contrapartida, explica a autora, estar solteiro aumenta a possibilidade de melhorar a relação com parentes e amigos e de dedicar-se a hobbies, à carreira e a outras atividades que podem proporcionar bem-estar. “Embora ainda exista pressão para você namorar ou casar, a solteirice está se tornando cada vez mais comum e nem sempre é sinônimo de insatisfação ou tristeza”, diz Girme.

Você não colherá nada de novo enquanto continuar plantando as mesmas sementes

Você não colherá nada de novo enquanto continuar plantando as mesmas sementes

Necessitamos de certas rotinas em nossas vidas, para que consigamos nos equilibrar emocionalmente, em meio ao caos que nos rodeia nesse dia-a-dia célere e competitivo do cotidiano em geral. Quando nossas ações nos trazem benefícios, é preciso mantê-las, porém, ao percebermos que estamos desgostosos com algum aspecto de nossas vidas, é chegada certamente a hora de mudar de atitude.

Muitos vivem incomodados com o rumo que os acontecimentos vêm tomando, acordando e dormindo com a sensação de que se afastam cada vez mais dos objetivos que haviam caracterizado como prioritários em suas vidas. Parecem sempre estar desajustados, como se nada daquilo que têm fosse o que queriam, como se tudo o que planejaram tivesse se perdido por água abaixo.

Essas pessoas moram em lugares onde não se sentem bem, trabalham em ambiente onde veem suas capacidades desperdiçadas, convivem com indivíduos com quem não simpatizam, frequentando espaços que nada têm a ver com seu estilo de vida. E assim passam os dias deslocados de si mesmas, em uma fuga diária ao que realmente possuem dentro de si, conformando-se com o que incomoda.

Por isso, precisamos estar sempre atentos aos caminhos e descaminhos que compõem a nossa jornada, pois fomos nós mesmos que optamos por trilhá-los, por meio de nossas atitudes e escolhas. Analisar o que em nós contribuiu para estarmos onde nos encontramos hoje será essencial para que possamos mudar os rumos de nossas vidas, agindo de forma diferente, para que colhamos resultados outros.

Mudanças são necessárias e bem vindas, pois trazem novos desafios, e incertezas que nos motivam a pensar e repensar sobre o mundo, sobre nossas ações, sobre nossas vidas. Mantermos junto de nós o que e quem nos fazem bem é preciso, da mesma forma que é vital nos desvencilharmos de tudo e de todos que emperram a serenidade de nosso viver.

E isso só conseguiremos caso reflitamos continuamente sobre a forma como estamos agindo, direcionando nossos atos sempre em direção à felicidade, junto a quem nos provoca sorrisos sinceros

De que adianta falar quatro idiomas e não dizer “bom dia” no elevador?

De que adianta falar quatro idiomas e não dizer “bom dia” no elevador?

Em algum momento da vida, o mundo resolveu entender “competitividade” como alguma coisa parecida com o ditado antigo que diz “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Que pena.

Eu tenho a impressão de que esse engano é um dos grandes causadores da miséria em que nos enfiamos.

No meio desse equívoco, ser competitivo significa viver contra o outro, querer tudo e querer antes de todo mundo. Por aí, um batalhão competitivo espera sedento sua vez de partir para cima, de agarrar a chance com unhas e dentes, de provar seu valor, de fazer e acontecer. E tudo isso significa “passar por cima” de quem estiver na frente.

Em treinamentos e palestras, gurus de auto-ajuda repetem “você é especial porque foi o único espermatozoide a atingir o óvulo de sua mãe” e outras bobagens. Mas quase ninguém diz o essencial: “educação, respeito, ética e honestidade deixam o mundo melhor.”

Sem esses valores, ser competitivo é uma desgraça! O sujeito competitivo e mal-educado, desrespeitoso, antiético e desonesto é um monstro. Ponto! Não tem escrúpulos nem limites. Faz qualquer coisa em nome de suas metas.

Verdade é que competitividade sem educação está nos transformando em perigosas bestas. “Sai da frente ou eu atropelo” é o recado.

Nessa disputa estrábica, a gente aprende a falar inglês, alemão, espanhol, mandarim mas esquece como dizer “bom dia” no elevador!

“Fulano é poliglota!”, sabe pressionar, mentir, ofender e chantagear em quatro ou cinco idiomas! De que adianta?

Empatia, simpatia, fraternidade e outras joias são consideradas lixo entre os mal competitivos. Porque “abrem a guarda”. Ser gentil é mostrar fragilidade. O competidor matador fecha a cara e atropela. Aqui entre nós, tão ruim quanto os maus perdedores é o péssimo ganhador!

Dia desses, na festinha de aniversário do meu filho num bufê infantil, as moças que organizam a recreação fizeram lá pelas tantas a velha brincadeira da “dança das cadeiras” com as crianças. Na rodada final, disputando o último assento, restaram um menino e uma menina. Tal como um gladiador, para ganhar a peleja o garoto de nove anos empurrou a menina com tanta força que a machucou. A menina saiu chorando, os joelhos esfolados, e o menino foi festejado pelos amigos.

É triste mas é a verdade. A sanha de vencer a qualquer preço nos transforma, em qualquer idade, em perfeitos panacas. Cheios de motivação e energia, talhados em regras e chavões neurolinguísticos batidos mas tão esquecidos do óbvio: mais importante que ser melhor do que o outro é tratar o outro melhor.

O assovio na rua tem relação com a violência sexual, sim senhor!

O assovio na rua tem relação com a violência sexual, sim senhor!

Você acorda numa manhã qualquer com uma deliciosa disposição na alma. Quer sair por aí, ver gente, ouvir música, comer ou beber alguma coisa diferente, dançar, celebrar a vida. Toma um banho gostoso, passa aquele perfume que ama, escolhe uma roupa que a faça sentir-se bonita, passa um batom, ilumina os olhos, olha no espelho e gosta do que vê. Isso tudo quer dizer que você está a fim de conquistar alguém? Pode ser que sim, pode ser que não, pode ser que talvez. E isso, minha querida é você quem escolhe!

Grande parte da sociedade, infelizmente, ainda pensa que se a mulher escolheu usar uma roupa que revele seus atributos físicos, ou alguma parte menos evidente do seu corpo, é porque essa mulher está a fim de “pegar” alguém. Essa mesma ignorante parcela da sociedade acredita que se a mulher sentar sozinha em um bar para tomar um drink ou uma prosaica cerveja, é porque está a fim de que alguém a “pegue”. Se a mulher for ousada o suficiente para entrar sozinha numa balada e dançar à vontade com seu próprio corpo na pista de dança… Ahhhhhh… essa só pode estar a fim de “dar” mesmo!

O pior de tudo, nem é que ainda existam pessoas que pensem assim. O pior de tudo é que nem todo mundo que pensa assim, admite que pensa assim. A hipocrisia é um veneno viscoso e invisível. Vai penetrando e invadindo as pessoas, inundando-as de ideias pré-concebidas e aparentemente inocentes, que rotulam, marginalizam e nos colocam (as mulheres) em risco, sério risco.

Quando um cara assovia pra gente na rua, é porque acha e sente que tem direito a isso. Esses babacas que nos chamam de “gostosa”, de “ai que delícia” ou de qualquer outra dessas ridículas expressões de mau gosto e falta de criatividade, têm em seu íntimo a certeza de que toda mulher gosta ou precisa desse tipo de elogio. Elogio? Não, meus queridos, isso não é elogio! De jeito nenhum! Isso não passa de uma invasão de espaço, falta de respeito e, pior, de uma crença antiga e enraizada de que as mulheres são como pedaços de carne expostos numa vitrine de açougue, disponíveis.

Uma pesquisa feita pelo IPEA em 2014, com pessoas entre 16 e 40 anos (veja, é uma boa margem), informa que 78% considera que mulheres usando saia curta, roupa justa, decotes reveladores ou que façam uso de bebidas alcoólicas em bares, festas ou baladas, estão agindo de forma incorreta; e estão, com certeza, provocando algum tipo de assédio. Dentre os homens pesquisados, 30% acredita que não é violência sexual, abusar de uma mulher que tenha bebido além da conta; afinal, foi ela que escolheu colocar-se em tal situação. Sim, é assustador! E se você não acha que é, é melhor procurar algum tipo de ajuda psicológica, ou tentar evoluir um pouquinho por conta própria mesmo.

A mesma pesquisa revela que 85% das mulheres entrevistadas já teve o seu corpo tocado, sem permissão. A verdade é que a diferença entre um assovio na rua, uma cantada barata, uma passada de mão, um beijo dado a força ou uma relação sexual sem consentimento, reside apenas no grau de gravidade. Qualquer tipo de invasão ao nosso espaço, de assédio ao nosso corpo e à nossa dignidade ou qulquer tipo de desconsideração à nossa vontade ou permissão é crime. E como tal deve ser denunciado, punido e coibido com muita severidade. Isso não pode continuar, de jeito nenhum!

Todos os dias há mulheres que são molestadas em transportes públicos, assediadas enquanto caminham pela rua, atacadas nas mais diversas situações, inclusive no ambiente de trabalho e dentro de suas próprias casas. O comportamento de violência sexual contra a mulher culmina na admissão de dados alarmantes: num intervalo de três anos mais de 17 mil mulheres foram assasinadas; a cada uma hora e meia, morre uma mulher vítima de violência no Brasil. Existe uma nociva tolerância social em relalção à violência contra a mulher. E o mais assustador é que há homens e também mulheres que acreditam que “em alguns casos a vítima de estupro teve culpa”.

Infelizmente, existe em nossa cultura uma crença ridícula, porém bastante comum, de que toda mulher gosta de ser assediada, de que toda mulher sente-se envaidecida por provocar desejos sexuais nos homens. Isso não só é uma mentira, como é uma mentira perigosa, uma vez que configura uma espécie de aval para que os idiotas de plantão sintam-se imensamente à vontade e confortáveis para nos assediar.

A sociedade alimenta uma espécie de desejo sem controle pelo corpo da mulher. Basta assistir algumas propagandas de cerveja para se dar conta do tipo de apelo que se expõe nas mídias de forma tão banalizada. A mulher é retratada como um ser consumível, frágil, descartável. As relações afetivas, retratadas na maioria das novelas televisivas, são baseadas num modelo “romântico” segundo o qual, a mulher (delicada e indefesa), precisa ser possuída para sentir-se importante, amada e protegida.

É preciso refutar todo argumento que venha a justificar qualquer tipo de agressão contra nós, seja ela física ou psicológica. Esses comportamentos machistas e abusivos são, todos eles, componentes que alimentam o desprezo por nossos direitos a determinar quem pode e quem não pode interagir conosco, seja por meio de um ridículo assovio na rua ou por meio de contatos físicos não consensuais.

É necessário que sejamos implacáveis em relação a qualquer tipo de violência contra a nossa liberdade de existir, sentir e nos relacionarmos com quem quer que seja, desde o estranho na rua, até o parceiro com quem dividimos a mesma cama. Temos o absoluto direito de não estarmos a fim de sexo; e não é porque estamos com dor de cabeça ou porque estamos “naqueles dias”; simplesmente não estamos a fim. Sendo assim, em caso de violência, devemos procurar a polícia, denunciar e fazer valer os nossos direitos. A denúncia pode ser feita por meio de uma simples ligação telefônica para o número 180 (Central de Atendimento à Mulher, do Governo Federal). Aqueles que nos molestam são criminosos e, como tal devem ser tratados.

E, mais do que tudo, é preciso que nos posicionemos de forma intolerante contra qualquer tipo de desrespeito. O nosso corpo é nossa propriedade. A roupa que escolhemos usar, a cor do batom que passamos nos lábios, nosso jeito de falar, como nos comportamos, sorrimos ou dançamos… Nenhuma de nossas escolhas inferioriza esse direito soberano. E os homens que ainda se comportam como se fossem donos de nós, como se fossem bestas descontroladas que não mandam em seus desejos, que fiquem espertos. Para nós, esses babacas não passam de meninos mimados que gostam de quebrar seus brinquedos. Não somos brinquedos e não estamos para brincadeira!

Não fique bravo comigo, eu sofro de excessos.

Não fique bravo comigo, eu sofro de excessos.

Eu falo muito tentando esquentar o frio dos meus pés, nem sei explicar o mundo, muito menos meu coração, mas por vezes quero um pouco de atenção.

Eu me afogo em silêncios para não esparramar por aí a minha falta de energia.

Eu me desarmonizo por dentro quando tem mais coisas em jogo, quando não posso ser apenas eu, quando não posso ir direto ao ponto.

Fico assim desse jeito por não saber lidar com expectativas, nem as minhas, nem as suas.

Mas não fique bravo comigo, eu quero e preciso de um amigo.

Vamos parar de deixar tudo isso estranho, vamos exercitar a espontaneidade, a gente pode aprender a ouvir, a falar o que quiser, a dizer não, ‘agora não’.

A gente não precisa dessa boa educação inglesa, dessa frieza, dessa esterilidade nos atos.

A gente pode se abrir, mesmo que seja pra se conter, um ao outro, se for o caso.

A gente pode sumir um pouco, mas a gente não precisa sumir pra sempre, como quem cumpre regradamente a missão de limpar esses corações machucados.

A gente não precisa discutir, tentar se convencer. A gente não tem que estar certo de nada. Vamos humanizar o que sobrou disso tudo. Vamos banalizar um pouco as nossas verdades e o nosso orgulho e também a nossa dor, que nem são assim tão embasados. Estamos apenas inflexíveis, nessa nossa vontade boba de nos prevenir. Nos prevenimos de nós mesmo!

Vamos aprender a pensar diferente, a querer diferente, sem que isso signifique o fim do mundo. A gente pode falar que esta de mal humor, que esta sozinho, que esta carente, sem que isso imediatamente signifique que estamos construindo planos e entrando em territórios perigosos. Sem que isso signifique que o sonho desabou. Vamos chutar esses sonhos falsos, essas imaginações que nos fazem vítimas, réus, com um futuro corrompido.

Venha aqui esquentar meus pés, eu te conto uma piada. Não estou pensando em mais nada, não pense também!

Talvez eu não estarei morando ali na esquina, entrando no seu quadradinho de mundo, nos seus ideais de vida. Mas vou adorar se você me ligar para contar como foi o seu dia. Vou ser leal como uma amiga e não fiel como uma esposa.

Então, perto de mim você pode se derramar sem tomar cuidado.

Eu não faço as malas, mas meu coração já está aí.

Por que a gente tem que engolir as nossas histórias todas? Tomar um antiácido pra digerir, colocar uma interpretação barata nos nossos momentos bons, só por que não seguimos em frente numa trilha pré-concebida?

Por que a gente tem que fingir que não existimos um para o outro? Para poupar a dor? A dor das benditas expectativas, e enquanto isso, eu não sou o seu futuro, mas eu estou aqui. E você aí…

E eu aqui escrevendo… e você aí assistindo uma série babaca… E a gente não se fala porque senão a gente vai sempre falar daquilo, porque a gente vai virar pessoas chatas de novo, então a gente evita.

Por que a gente desaprendeu a conversar sobre o clima, a lembrar daquelas cenas engraçadas, a dar dicas de cinema e culinária?

Por que a gente se proibiu de tudo só porque nossos mundos desconhecidiram de andar juntos?

Por que eu virei tarja preta, cheia de contraindicações, e você me guarda na gaveta mais funda, longe dos seus olhos e pensamentos?

Não fique mais bravo comigo, eu não sou bruxa não, e muito menos fada, eu não tenho a chave da sua felicidade e também não amaldiçoei sua vida. Sou assim uma ser humanA querendo apenas amar e ser amada e mais nada.

O amor é quem encontra você

O amor é quem encontra você

Somos levados a acreditar que o amor é uma busca. Um querer tão palpável que é possível encontrá-lo assim, dobrando a esquina. Mas tudo isso não passa de uma idealização, porque algo tão pleno quanto o amor desconhece mapas. As mãos suam, o coração transborda e a fala fica diferente e você nem percebe. É a partir da distração que o amor acena na sua direção, e não quando se mantém o olhar fixo num norte.

Mas antes de notar a sua desenvoltura, antes de reconhecer os abraços e, até antes mesmo de receber o amor de outros lábios, não se esqueça de encontrar o amor que reside em si. Essa sim uma jornada viável. Só então, depois do âmago galopante fizer morada que estaremos aptos para cruzar com esse amor vindo dos lugares mais improváveis. No princípio você não verá um rosto, mas pequenos vislumbres. Há dias em que prevalecerão sorrisos, noutros gentilezas gratuitas e, mais à frente, a paz diluída nos olhares. E retirando a armadura emocional de quem vai lutar na guerra, mas que não quer se machucar, você finalmente encontra-se com a alma receptiva. Já não há necessidade de alcançar outra mão a todo custo, porque ela veio até você, no tempo dela.

Parece absurdo colocar tamanho sentimento nas linhas da vida justamente quando o que mais se quer é ter o vazio preenchido. Mas não tenha pressa. Não atribua o sentir como quem está diante de uma cruzada amorosa. O amor é quem encontra você.

Sempre existirá quem queira o que você despreza

Sempre existirá quem queira o que você despreza

“Se você não cuidar, outro vai. Se você não valorizar, outro vai. Entenda, sempre vai ter uma pessoa disposta a fazer o que você não faz.” (Caio Fernando Abreu)

As opções que se descortinam à nossa frente, todos os dias, são muitas, o que nos leva a nem sempre escolhermos o mais acertado no momento e, consequentemente, a nos arrependermos mais tarde. Outras vezes, não nos damos conta de que o que possuímos já nos basta e nos enriquece, ao ponto de mantermos os olhos lá longe, ignorando o que está aqui bem juntinho, bem ao lado.

Os apelos midiáticos nos mostram uma gama de estilos de vida tamanha, que muitas vezes nos deixam confusos quanto ao que realmente queremos e, principalmente, ao que efetivamente necessitamos em nossas vidas. Tornamo-nos, por isso, inquietos, impossibilitados de nos contentarmos com o que já é nosso, seduzidos que somos pelo glamour e pelas tentações mundanas que nos cercam.

Nesse ritmo, mesmo que não deixemos as pessoas para trás, vamos perdendo cada uma delas a pouco e pouco, uma vez que estamos por perto, mas, na verdade, nunca estamos com elas de fato. Ninguém suporta por muito tempo ficar perto de quem não se volta, não se acomoda, não permanece inteiro, em nenhum momento dos dias, como se tudo fosse mais importante do que as pessoas ao lado.

Cabe, portanto, à outra ponta dessa relação perceber que nada mais ali faz sentido, que permanecer junto de quem não se esforça a reconhecer um nada do que foi dedicado e feito por ele é suicídio lento e gradual da própria essência. Amar alguém sem ter amor-próprio nunca dá certo, pois assim sempre haverá alguém dando sem receber, sendo menos, sentindo-se pouco, esvaziando-se enfim.

É preciso ter a certeza de que sempre poderemos recomeçar, inclusive longe de quem tanto nos parecia vital, longe daquele ambiente sufocante que achávamos insubstituível, longe da solidão afetiva a que nos acostumáramos. Não se trata de ser bobo nem ingênuo, trata-se de sobrevivência.

Acreditar que seremos o bastante para alguém, que merecemos retorno emocional na mesma medida, que existe felicidade possível, que amar e ser amado é algo a que temos direito, tudo isso nos acordará por dentro, para que possamos trazer para junto de nossas vidas coisas e pessoas que acrescentarão sonhos e verdades ao que temos de mais especial dentro de nós.

Por favor, não confunda estupidez com “personalidade forte”.

Por favor, não confunda estupidez com “personalidade forte”.

Já viu como esse mundo anda cheio de gente orgulhosa por ser do tipo que “estoura fácil”? É gente que anuncia em todo canto não levar desaforo para casa, que se gaba de não ter papas na língua e de falar na cara de qualquer um as piores grosserias exibindo uma credencial de pessoa sincera. Tem gente capaz de estragar um jantar, um almoço ou qualquer evento social cuspindo para todo lado coisas que bem podiam esperar outra hora. Gente que mantém uma incontrolável disposição para sair no tapa, ganhar no grito, vencer na marra. Gente insistindo em confundir sinceridade com grosseria e se recusando a aceitar que é bem possível, sim, dizer a verdade e ser honesto sem ser tosco.

Tem gente que até argumenta com a desculpa esfarrapada do “ah, eu conheço quem se ofende de qualquer jeito quando ouve o que não quer, mesmo que você diga com toda a delicadeza do mundo”. Verdade, mas isso não autoriza ninguém a ser estúpido na hora de dizer o que pensa. A menos que a intenção seja de fato ofender e agredir.

A gente pode, sim, dizer o que quiser com cuidado e delicadeza. É que ser gentil dá mais trabalho, né? Mais fácil é ser escroto, fechar a cara, bater a porta.

Tem gente com todo tipo de mau gosto por aí. Mas se você dispõe especialmente da infeliz característica de se orgulhar do seu “pavio curto”, eu preciso lhe dizer uma coisa: diferente do que costumam tagarelar aqui e ali, você não tem uma “personalidade forte”, não. Você só tem o “pavio curto”. E isso é nada senão sinal de um caráter fraco, raquítico, comezinho. Além de uma enorme vontade de chamar atenção e de uma flagrante e desavisada falta de educação.

Em algum momento, o cordão dos grosseirões, covardes e afins decidiu chamar de “força” os seus próprios desvios de personalidade que não passam de fraqueza pura e simples.

Não, um homem que grita, xinga ou espanca a sua esposa durante uma discussão não tem a “personalidade forte”. É só mais um canalha cometendo um crime, um fracote moral deixando o mundo pior.

Um chefe que demite a equipe inteira sumariamente, depois de ser contrariado durante uma reunião importante, sem nem cogitar se os seus funcionários estão certos ou errados, mas tão somente porque não admite ser contrariado, não tem uma “personalidade forte”. É só um cretino medonho, uma besta quadrada redondamente enganada.

Uma criança ou um adolescente que quebra a casa toda em arroubos de raiva por não ter um capricho atendido pelos pais não tem “personalidade forte”. Tem uma imensa dificuldade de aceitar “não” como resposta e outras questões que os especialistas sabem muito bem como tratar.

Os valentões que andam por aí caçando briga, sedentos para demonstrar o quanto são fortes e habilidosos com os punhos, não, não têm, de jeito nenhum, a “personalidade forte”. Têm a autoestima fraca, a inteligência desnutrida, o caráter alquebrado e uma desregulada produção de testosterona.

Pessoas corajosas de verdade não precisam provar valentia a ninguém. Elas também se revoltam, se pegam indignadas, tomam atitudes, também amam e também odeiam. Elas são o que são, não têm medo de dizer o que pensam e, quando precisam, correm de uma briga. Porque é preciso ter coragem para fugir também! Elas têm tudo isso mas, sobretudo, não lhes faltam controle, modos de gente, limites, dignidade, inteligência e educação. Essas pessoas é que têm a personalidade forte o suficiente para não ter de provar nada a ninguém a não ser a elas mesmas.

Neste mundo afeito a inverter valores, gente que pondera, que pensa e que evita o confronto é chamada “covarde”. Santo equívoco! Todos sabemos que “covarde” mesmo não é quem foge de uma briga. É quem só escolhe os “adversários” mais fracos!

Já notou como ninguém, exceto os muito estourados, os suicidas e os policiais, perde a paciência na frente de um ladrão armado?

Já viu como os donos de uma pretensa “personalidade forte” quase sempre só exibem a sua potência e o seu vigor físico e emocional diante dos mais frágeis? São grupos inteiros surrando um só! Fortões esculhambando fraquinhos! Monstros disfarçados de babás castigando crianças e velhinhos. Machos alfa irritados batendo em suas esposas porque “perderam a cabeça”!

E tudo isso é sempre culpa de sua “personalidade forte”. Ora, façam-me o favor! A única força que há nesses casos é a força bruta. A covardia, a maldade pura e simples. Marcas de uma debilidade absoluta e de um descontrole atroz!

Então, por favor, “personalidade forte” é o escambau! Gente estúpida padece de fraqueza na cabeça, no caráter, no espírito e na alma. Não merece nenhum tipo de admiração. Precisa urgente é de tratamento ou de cadeia!

Pessoas não passam!

Pessoas não passam!

Hoje parei pra pensar em como somos a soma das pessoas que um dia amamos e que nos amaram e como, mesmo indo embora, despertam o melhor em nos a cada vez que lembramos.

Porque infelizmente ou felizmente as pessoas não deixam de ser quem são pra nos ou de representar o que representam em nossas vidas pelas escolhas que elas fizeram.

Elas continuarão sendo o que sempre foram, porque aquilo que as pessoas despertam em nos nada apaga.

Hoje podem ter nos decepcionado, e isso as vezes fique e nos marque. Mas os momentos bons existiram e eles sempre serão imbatíveis.

Não adianta querer expulsar de você alguém que fez morada ai dentro. Alguém que veio e trouxe tanta coisa e que quando foi deixou mais coisa ainda. Alguém que fez sua vida bonita um dia. Porque é isso que fica, por mais que a pessoa não tenha ficado.

Por isso eu digo e repito sempre: as pessoas não passam nunca. Momentos passam, o tempo passa, mas as pessoas ficam, por mais que elas tenham ido embora.

Todos aqueles que de alguma forma despertaram o melhor em mim moram aqui. E morarão pra sempre.

Impossível dizer que não haja quem ocupe posições especiais. E estão lá por algum motivo.

São aquelas que conseguiram despertar o melhor que há em mim e me ensinaram coisas que hoje são essenciais pra seguir o caminho. Essas me tiram sorrisos grandes cada vez que me lembro delas e me da uma vontade imensa de tê-las comigo de volta. Vontade sentar com elas e contar dos meus caminhos, das minhas escolhas e das minhas alegrias. Contar como me fazem falta e como são importantes pra mim, mas eu não digo. Acho que jamais direi, porque a vida segue e nos também seguimos e, alem do mais, as pessoas que moram em mim só existem aqui.

A vida seguiu pra elas também e assim, se tornaram outras pessoas, frequentam outros lugares e gostam de outras coisas. A maioria eu nem sei onde estão, nem com quem estão e nem as escolhas que fazem. Não cabe mais a mim saber.

A parte delas que me cabe vive bem guardada aqui. Elas existem cada vez que eu quero que isso aconteça. E isso basta.

Porque mais vale uma doce lembrança do que uma amarga realidade. E pode ser que, voltando, seja só isso que elas tragam.

O importante não é o que você junta, mas o que você espalha

O importante não é o que você junta, mas o que você espalha

O mundo anda meio egoísta, muito provavelmente por conta dessa avidez descontrolada por consumir, pela supervalorização das aparências, tornando-nos afoitos por conseguir ter mais dinheiro, ser mais belo, comprar mais produtos, conhecer gente mais popular. Muitos acabam, por isso, perdendo-se de si mesmos, de sua essência humana e gregária, que necessita da troca afetiva para sobreviver com mais tranquilidade e paz de espírito.

Infelizmente, quanto mais tentamos preencher nossas vidas com posses e bens materiais, mais vazios nos tornamos por dentro, uma vez que, assim, estamos negligenciando nosso sentir, nosso pulsar íntimo. Aquilo que verdadeiramente somos, por ser imaterial, não se contenta com o que fica lá fora, ou seja, nossos traços de humanidade independem de tudo aquilo que compramos.

Os sonhos de vida que alimentam a nossa jornada rumo à felicidade, caso se pautem tão somente por conquistas materiais, irão se tornar cada vez mais voláteis, incapazes de corresponder aos nossos anseios, incapazes de nos preencher afetivamente. Precisamos compartilhar sentimentos, pois é assim que eles se multiplicam dentro de nós e na vida daqueles que estão na lida conosco.

Na verdade, o que importa é o amor que damos e recebemos dos pais, dos filhos, dos irmãos, do parceiro, dos amigos, enfim, das pessoas que nos dão as mãos com verdade e reciprocidade. Aquilo que fazemos é que alimentará as necessidades de nossa alma, tornando-nos alguém que se vale da ética e da partilha para dignificar a jornada de vida, de si e de quem faz parte desse caminhar.

Ninguém se lembrará das roupas que usávamos ou do carro que dirigíamos, mas todos carregarão dentro de si tudo o que fizemos em seu favor. É preciso, pois, criar lembranças especiais do que fomos junto a quem amamos, pois é isso que nos eternizará, é isso que nos manterá vivos dentro de cada coração que pudemos tocar com nossa bondade e compreensão. A vida carrega tudo para o esquecimento, menos aquilo que foi feito com amor.

Entenda como funciona o ciclo do abuso em um relacionamento tóxico

Entenda como funciona o ciclo do abuso em um relacionamento tóxico

VOCÊ ESTÁ NUM RELACIONAMENTO TÓXICO?

Muito tem se falado sobre relacionamento abusivo. Dedico uma página inteira ao tema, pois, por trás dessas relações, há assunto para uma coleção de livros e muito estudo. Para quem está fora de uma relação tóxica, parece bastante fácil identificá-las. Mas quem está dentro, vive mesmo é num estado constante de confusão mental e dúvida, onde nada parece tão óbvio.

Meu relacionamento é abusivo ou não?

As relações tóxicas/abusivas/destrutivas/doentias são, não raro, formadas por indivíduos com características do transtorno de personalidade narcisista ou antissocial de um lado e pessoas exacerbadamente empáticas ou emocionalmente dependentes do outro. Dificilmente cria-se uma situação destrutiva por um longo período entre pessoas emocionalmente saudáveis, pois não toleram e rompem rapidamente. Já entre narcisistas e dependentes emocionais cria-se uma simbióse.

Trata-se daquelas relações em que, não importa o que aconteça, a parte que se submete não consegue sair dela, como se estivesse quimicamente viciada e emocionalmente cega, e a parte que submete, parece alimentar-se daquele estado de coisas.

Se você não tem certeza se está vivendo uma relação tóxica, um método bastante simples é verificar se está presente a ocorrência de um ciclo repetitivo de abuso dividido em 4 fases principais que formam, resumidamente, a rotina do casal por toda a duração da relação.

Nesse cenário, passados os primeiros momentos da fase de conto-de-fadas, característico das relações tóxicas, a dinâmica relacional passa a ser marcada por esse ciclo ininterrupto de abuso, até que se dê a ruptura pelo alvo de abuso ou pelo descarte do abusador (mais comum).

Entenda o que forma esse ciclo. Você se identifica?

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CICLO DE ABUSO NAS RELAÇÕES TÓXICAS

  1. TENSÃO

Surgem momentos de tensão, a maioria das vezes, imotivados ou causados por algo sem significância. Há interrupção brusca de comunicação com o alvo e uso silêncio passivo-agressivo. O alvo sente medo e confusão mental, passando a tentar apaziguar, compensar, reverter o comportamento tenso da pessoa abusiva

  1. INCIDENTES

Ocorrem “incidentes” de abuso verbal, emocional ou físico. Há brigas, gritos, xingamentos, cara feia, ameaças, vitimização, intimidação e culpabilização. Inicialmente o alvo diz para si mesmo que não vai tolerar, mas…

  1. RECONCILIAÇÃO

A pessoa abusiva se desculpa ou dá desculpas para o seu comportamento. Culpa o alvo por ter-lhe feito “perder a cabeça” e ou por ter criado aquela situação que resultou no incidente. Algumas vezes nega que o abuso tenho ocorrido ou que tenha sido tão grave quando o alvo afirma. Minimiza e estipula “novas regras”. O alvo se esforça para não ter novos incidentes.

  1. CALMARIA

O “incidente” é esquecido. Há uma pausa nos comportamentos abusivos, dando início a uma fase de “lua-de-mel”. O alvo crê que exagerou. Sua crença na relação se fortalece novamente.

Volta-se à fase 1.

Se você se identificou e crê que seu relacionamento esteja permeado desse ciclo abusivo, talvez seja a hora de criar coragem e romper.  Em que pese o fato da ruptura em relacionamentos tóxicos ser dolorosa e por a parte submissa numa espécie de crise de abstinência duríssima, ela é necessária e urgente para garantir sua saúde mental, emocional e física. Se você não põe um fim nesse ciclo, ele põe um fim em você. Não adie.

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PRECISA DE AJUDA?

Você chegou até o final do texto e se identificou com alguma dessas situações?

Um processo psicoterápico pode fazer a diferença na sua vida nesse momento.

Indicamos: Josie Conti- psicóloga. Saiba mais aqui.

 

A Outra História Americana: quando o ódio nos torna cegos

A Outra História Americana: quando o ódio nos torna cegos

Saramago afirmou que o homem está cego da razão, que não consegue enxergar nada ao seu redor e só vê alguma coisa ao olhar para si mesmo. A individualidade e a mesquinharia do homem são tamanhas, que o português chega a dizer no seu “Ensaio sobre a Cegueira” que: “Ainda está por nascer o primeiro ser humano desprovido daquela segunda pele a que chamamos de egoísmo, bem mais dura que a outra, que por qualquer coisa sangra”.

Esse egoísmo é demonstrado em atos como o racismo, a homofobia e o xenofobismo. Enganam-se aqueles que acham que as coisas hoje estão muito diferentes. Na verdade, há um véu de hipocrisia que passa a falsa sensação de que esses comportamentos inescrupulosos não são praticados diariamente. Mas basta a situação ficar mais complicada e emergir uma crise, para que o preconceito velado venha à tona.

O atual momento político brasileiro fala por si só, em que o ódio deu lugar a qualquer pensamento racional e empático, de modo que, salvo raras exceções, são disparadas ofensas em direção aos indivíduos com posições ideológicas contrárias, além da exaltação de indivíduos altamente racistas e sexistas, que desconhecem o significado das palavras igualdade e inclusão.

Essas questões aparecem de forma brilhante no filme “A Outra História Americana” (American History X), do diretor Tony Kaye. A trama gira em torno da vida dos irmãos Danny (Edward Furlong) e Derek (Edward Norton) que, envoltos pelos pensamentos preconceituosos do pai, passam a se envolver com uma gangue de skinheads após a morte deste. Através de flashbacks não lineares, a história vai sendo contada, demonstrando, por meio desse anacronismo, a relação de causa e consequência das ações.

Em um desses flashbacks, vemos o garoto Derek, ainda desprovido de preconceitos, falando acerca de seu novo professor, de como este é fantástico e das leituras que estão fazendo. O pai, aparentemente um homem de bem e honesto, um bombeiro que trabalha para a comunidade, indaga o filho sobre o referido professor e constata que este é negro e que está incentivando a leitura de livros que abordam as questões étnicas da sociedade americana. Indignado, desconstrói a imagem que seu filho possui em relação ao professor e lhe ensina uma “grande lição”: a de que a culpa por todos os problemas se devem aos negros e imigrantes que vêm para a “América” roubar seus empregos e destruir suas vidas, como verdadeiras pragas. Derek observa atentamente e internaliza cada palavra. Estava plantada a semente do ódio.

Assim como Derek, muitas vezes damos vazão a discursos cheios de ódio e permitimos nos infectar por um mal que nos corrompe. Passamos, então, a analisar a realidade de modo superficial e com o recorte que nos é conveniente. Daí a se tornar um homicida como o personagem de Norton é um passo tão curto, que sequer imaginamos. No entanto, não precisamos ir tão longe, quer dizer, menos longe, já que a tortura psicológica e a exclusão causadas pelo ódio são tão desprezíveis e duras quanto um ato de violência física cometido.

Como disse, em momentos de crise, esse ódio vem à tona e é assim que acontece no filme e, curiosamente, na vida. No mesmo flashback em que se planta o ódio em Derek e, consequentemente, em seu irmão, Danny, o pai afirma que, nos Estados Unidos, os melhores devem vencer e que ações afirmativas são uma besteira para desqualificar quem de fato merece ser vencedor. Dessa maneira, Derek e seu irmão são impulsionados a convergirem para a ideia de que qualquer problema que acontece é culpa exclusivamente dos negros e estrangeiros que saqueiam a sua nação.

Esse mesmo pensamento é transmitido por Cameron (Stacy Keach), líder da gangue dos skinheads, levando-os a invadir e destruir lojas pertencentes a negros e estrangeiros, espancá-los, saqueá-los e até mesmo matá-los. Essas ações acontecem em função de um ódio que os torna cegos e lhes permite enxergar apenas a verdade racista que carregam no peito, literalmente.

No Brasil, também há manifestações como essas, seja com negros, com pessoas de outras regiões ou pobres – pior é quando há uma combinação. Também escutamos discursos inflados contra ações afirmativas, muito embora a própria Carta Magna seja trabalhada segundo a perspectiva da igualdade material, de modo que os desiguais devem ser tratados como desiguais, a fim de equilibrar as discrepâncias sociais. Além disso, temos os nossos líderes, endeusados com seus discursos marcadamente odiosos. Ou seja, reiterando o que já foi dito, não estamos muito distantes da realidade do filme e por isso ele é imprescindível.

Derek e Danny, bem como os outros jovens da gangue, não são apenas racistas e cheios de ódio porque alguém mais velho lhes disse que eles são superiores, mas, sobretudo, porque permitiram se contaminar e, em meio a momentos difíceis, preferiram sucumbir ao caminho mais fácil, desconsiderando outras possibilidades e abordagens. Não é porque seu pai morreu em um bairro negro (apartheid?) que Derek tornou-se uma máquina racista de destruição e sim porque não se permitiu observar o que acontecia de fato ao seu redor e ser tocado por palavras de respeito e tolerância.

É somente na prisão que, paradoxalmente, Derek se liberta, mais que isso, pelas mãos de homens negros, os quais até ali odiava. Ao permitir ser tocado por outra perspectiva, por outro olhar, Derek percebeu que aquilo que tinha feito da sua vida não fazia sentido algum e somente trouxera destruição para ele e para aqueles que estavam ao seu redor, como a péssima influência que foi para o irmão. Enquanto se fazia as perguntas erradas, Derek jamais conseguia as respostas certas. Foi somente quando pensou e fez a pergunta certa, que obteve a resposta que precisava.

“Bob Sweeney – Houve um tempo em que eu culpava a tudo e a todos por toda dor, sofrimento e as coisas desprezíveis que aconteciam comigo e que eu via acontecer com o meu povo. Eu culpava todo mundo. Culpava os brancos, culpava a sociedade, culpava Deus. E eu não tinha resposta porque fazia as perguntas erradas. Você deve fazer a pergunta certa.

Derek – E qual é?

Bob Sweeney – Alguma coisa do que fez tornou sua vida melhor?”

Infelizmente, para Derek, tudo que fizera e transmitira gerou frutos e as consequências foram inevitáveis, o que nos leva à cena final. Mas, para nós, talvez esse ponto ainda não tenha chegado e, assim, ainda é tempo para fazermos a pergunta certa, destruir toda semente de ódio e reavaliar o que vivemos, como fez Derek e também Danny, através da história do seu irmão, afinal, “Nós não somos inimigos, mas amigos” e, como disse Danny:

“O ódio é um ônus, a vida é muito curta para se estar sempre com raiva. Não vale a pena.”

5 coisas que aprendi vivendo na roça

5 coisas que aprendi vivendo na roça

Faz uns meses que arranjei morada numa casinha em cima da montanha, área rural de uma cidadezinha do interior. Cheguei em busca de um canto, querendo abandonar as bagagens pesadas da alma e descansar o coração e a mente do ritmo tão artificial das grandes cidades.

Não é uma aposentadoria precoce, é vontade de ver a vida por outros ângulos, sentir o tempo em outro ritmo e interagir de uma forma nova (ou antiga) com a realidade.
Então, neste texto quero contar um pouco alguns aprendizados ou desaprendizados que tive nessa minha curta vida de roça.
Lá vão eles:

1. A gente precisa de muito menos do que pensa para viver.

Eu nunca fui do tipo super consumista, mas a vida aqui na roça me faz comprar ainda menos coisas do que antes. Não preciso de muitos cremes, shampoos, maquiagem, compro apenas o necessário e uso até o fim da embalagem. Produtos de beleza também são frutas colhidas no quintal, água de mina e argila natural. Remédio para gripe é chá de erva cidreira com gengibre e temperos para o almoço ficam nos canteiros. A felicidade brota nas árvores e não nos produtos em promoção. E aí no fim do mês até sobra tempo e, quem sabe, dinheiro.

2. Tecnologia é coisa muito boa, mas não substitui interações orgânicas.

Essa é uma questão que daria um texto inteiro sozinha, e eu nem vou aprofundar muito, amo, uso e valorizo tecnologia. Mas aqui na roça percebi que nada substitui uma boa conversa ao vivo e em cores com alguns amigos, um cafezinho passado na hora, um bolo de fubá quentinho. Uma prosa boa no fim do dia. E como são terapêuticos e bonitos os trabalhos manuais, uma semente que você planta e vê crescer, uma mesa rústica feita com madeira descartada, uma cortina de retalhos para a sala. As mãos tocando outras superfícies além do teclado do computador.

3. Escambo é uma moeda válida.

Aqui na roça percebi como é bom trocar um livro de poesia por um pão caseiro. Dar uma muda de manjericão em troca de queijo fresco. Tomar conta do gato do vizinho em troca de amizade mesmo. Trocar um saco de laranja que quase se perdiam de maduras por um pote de goiabada cascão.

4. A sabedoria dos bichos.

Esse tema também daria um artigo científico, mas viver no mato também nos abre para isso. Observar os bichos e perceber a sabedoria de seus universos. Ver os gatos brincando, caçando, lidando de um jeito natural com a morte. Ver os pássaros chegando e partindo, cada qual em seu pé de fruta preferido. Ver as formigas carregando pedaço de grama e insetos. Ver as aranhas fechando seus ciclos. Ver um sapo calmo, estirado no sol depois de tantos dias de chuva.

5. Uma bela paisagem é bem melhor do que Netflix.

Gosto aqui no mato das belezas a olho nu, do por do sol da varanda, da amplitude que o olhar alcança, fazendo meu coração achar que a vida ainda vale muito a pena. Gosto dos diferentes tons de verde, e dos formatos das folhas, gosto do silêncio, e da orquestra dos grilos, gosto dos manacás florindo e dos voos livres das borboletas. Gosto de assistir as pequenas histórias que acontecem em cada olhar. Gosto de ver a vida passar.

E a lista poderia seguir, mas hoje eu paro por aqui e fico desejando que onde quer que a gente esteja que nossos corações sejam orgânicos e nossas interações humanas.

Até a próxima!

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