Sobre casas e corpos

Sobre casas e corpos

A melhor morada de alguém é seu próprio corpo. Cuidar-se bem é, antes de tudo, cuidar de seu lar. Esse conjunto de carne, ossos, pele e músculos é o que abriga nossa alma, nosso ser. A casa mais linda do mundo para se viver é dentro de si mesmo.

Um bebê em formação é uma casa em construção. Quando surge o desejo dos pais, a casa está na planta. Quando já existe no ventre da mãe, erguem-se as paredes. Na infância, a casa é mobiliada e decorada. Vida adulta, casa pronta! Mas não para sempre. Há que se reformar e redecorar de tempos em tempos para manter a qualidade do aconchego.

Como toda boa casa, o corpo necessita de cuidados. Faxina externa: tomar banho, manter cuidados com pele, cabelos, unhas e dentes, praticar exercícios. Essas ações garantem boa apresentação da estrutura do seu “prédio”.

Faxina interna: aprender a perdoar, fazer terapia, manter a autoestima em alta, meditar, refletir, conhecer-se e amar-se são ações que garantem a beleza na decoração do seu “ambiente interno”.

Em qualquer casa que se preze, amigos são muito bem-vindos, enquanto estranhos ou desafetos sequer são convidados. O corpo segue a mesma lógica: sentimentos bons devem ser sempre atraídos. Quanto aos inimigos de nossa alma, melhor deixá-los do lado de fora. O dono da casa escolhe quem entra. Visitas indesejadas a gente dá um jeito de despistar no portão.

Guardar-se para os íntimos é uma das atitudes mais sábias. Não expor o interior do lar para estranhos é vital. É preciso, antes, dar-lhes a chance de conquistarem a confiança necessária para que a porta seja aberta.

A casa da alma é algo precioso demais. Por isso mesmo, precisa de proteção. Agora, quando houver convidados dignos de acessarem sua morada, receba-os bem. Mostre às visitas o que seu lar tem para oferecer. O coração é um ótimo lugar para recepcionar pessoas queridas. Perfeita sala de estar e de permanecer.

Cuidar, com extremo carinho, da própria casa é muito importante. Igualmente importante é cuidar da casa dos outros como se fosse sua. Você também precisa ser digno de confiança para entrar no lar alheio. Quando for sua vez de visitar, procure não invadir. Colocar-se no lugar do outro é a cura para muitas mazelas do mundo. Seja você a visita que espera receber.

Sobre casas e corpos, percebo que ambos não fazem sentido sem um morador. Os dois não passam de carcaça. É o que está dentro deles que faz a diferença. E, em ambos os casos, o que está dentro é a vida. E a alegria dessas vidas é o que transforma qualquer casa em um lar.

Fotógrafo retrata moradores de rua tornando-se um deles

Fotógrafo retrata moradores de rua tornando-se um deles

Em 2008, o contador e fotógrafo inglês Lee Jeffries esteve em Londres para correr uma maratona. No dia anterior à corrida, ele passeou pelas ruas do centro da cidade a fim de tirar algumas fotografias.

Perto de uma viela escura, ele se deparou com uma moradora de rua com semblante desgastado, embora fosse jovem. Ela estava estirada em meio a um cobertor surrado e recipientes vazios de comida chinesa. Quando viu Jeffries passando, a mulher começou a gritar desesperadamente, chamando a atenção de todos os transeuntes.

Jeffries poderia ter ignorado a mulher e seguido seu caminho, mas resolveu ir até o local onde a moça estava. Sentou-se ao lado dela, e ambos começaram a conversar. O fotógrafo descobriu que ela tinha 18 anos de idade e era viciada em drogas desde que seus pais morreram. Órfã e sem ninguém disponível para ampará-la, não lhe restou alternativas senão ir para as ruas.

Essa experiência teve um profundo impacto em Jeffries. A partir dela, ele definiu qual seria sua abordagem fotográfica: criação de retratos autênticos de moradores de rua.

Ele não estava disposto a explorar essas pessoas e tirar fotografias delas como se fossem alvos indefesos, mas iria tentar se conectar com elas individualmente pela primeira vez, superando tantas barreiras de separação quantas pudesse.

Em um esforço consciente para estabelecer contato íntimo com cada um dos moradores de rua, Jeffries tenta se aproximar e conversar com eles da forma mais informal possível. Ele raramente toma notas ou registra seus encontros; não quer levantar suspeitas. O inglês deseja capturar emoções espontâneas nessas pessoas.

Em entrevista à revista Time, ele afirmou: “Eu preciso ver algum tipo de emoção em meus trabalhos. Especificamente, eu olho para os rostos dessas pessoas e, quando os vejo, reconheço-os e sinto-os, e então eu repito o processo outra vez”.

Jeffries não fotografa todo morador de rua que vê. Ele precisa perceber algo relacionado à emotividade que suas fotos demandam. Antes de tirar as fotos, ele procura estabelecer uma conexão com essas pessoas. A dor e o sofrimento delas se tornam seus; o brilho das emoções nos olhos delas é projetado em sua própria alma. Jeffries é aceito pelos mendigos, porque demonstrou que pôde genuinamente compreendê-los. Ele diz: “Eu vivo com essas pessoas por dias, às vezes semanas e, somente quando o respeito mútuo é desenvolvido, eu uso a câmera”.

É notável o grau de empatia praticado por esse fotógrafo. Ele sente curiosidade, carinho e amor por todos os moradores de rua, talvez pelo fato de que eles dão forma à sua arte, assim como sua arte lhes promove um raro senso de autoestima.

Jeffries ama fotografia. Para ele, capacidade técnica é fundamental para qualquer vocação, mas isso não significa nada sem paixão. Em suas fotos, ele dá aos moradores de rua um status privilegiado, e isso é um diferencial, já que a maioria das pessoas ignora ou desrespeita mendigos: “Eu sinto que estou pisando no mundo deles. Todo mundo passa por moradores de rua como se fossem invisíveis. Eu estou percorrendo o medo, na esperança de que as pessoas percebam que estas pessoas são como eu ou você”.

Jeffries captura mais do que fotografias; sua percepção sobre os moradores de rua é transformacional. Em suas fotos, ele oferece experiências de alegria e significado para pessoas que, invariavelmente, estão fora dos holofotes. Ele faz dos sujeitos das fotos protagonistas, condição à qual não estão habituados.

A maneira como ele processa suas imagens – contrastando o uso de luz e sombra – é uma referência direta às implicações religiosas que ele sentiu enquanto fotografava mendigos em Roma. Suas fotos, embora feitas em ambiente digital, relacionam-se mais com as impressões de tradição analógica. A iluminação nas fotografias serve para realçar os olhos e avivar as microexpressões dos moradores de rua.

As fotos emblemáticas de Jeffries são livros abertos nos quais é possível explorar, com muita imaginação, histórias de pessoas que precisam suportar a rejeição, o desprezo e o preconceito por viver refugiadas nas camadas mais periféricas da sociedade. Sim, esse projeto de Jeffries é de cunho social, e suas raízes estão na reportagem tradicional: “Minhas imagens são destinadas a entrar em ressonância com o espectador em um nível espiritual, humano e metafísico, atributos que contam sua própria história. Eu tento provocar uma resposta criativa e inteligente com referências puramente visuais”.

Esses retratos poderosos têm sido notados em todo o mundo devido à preocupação com grupos excluídos. As imagens estão espalhadas por toda a internet. O fotógrafo diz: “Eu não posso mudar a vida dessas pessoas. Não posso usar uma varinha mágica, mas isso não significa que eu não possa tirar fotografias delas, sensibilizar e tentar chamar a atenção para sua situação”.

Autodidata e autofinanciado, Jeffries tem viajado três vezes por ano para Los Angeles, Las Vegas, Nova York, Paris, Roma e Londres, para trabalhar no projeto.

Jeffries já ganhou várias competições fotográficas. Todo o dinheiro ganho em premiações é doado para organizações de desabrigados e pessoas com deficiência. Como relatou à revista Time, o fotógrafo também se comprometeu a comprar o almoço de um homem que tinha perdido os dedos das mãos e dos pés por causa de uma infecção. Jeffries estima que já doou milhares de dólares para essas pessoas carentes, mas o que ele lhes ofereceu em termos de humanidade é imensurável.

Todos os traços característicos nos rostos desses moradores de rua foram acentuados por Jeffries nas fotos, o que ajuda a identificar as diferentes silhuetas. Alguns desses desabrigados parecem rudes, selvagens e hostis; outros, gentis, serenos e amáveis. Os olhares intensos de todos eles mostram as dificuldades da vida nas ruas. Veja:

contioutra.com - Fotógrafo retrata moradores de rua tornando-se um deles

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O Bojador de cada um

O Bojador de cada um

por Fernanda Pompeu

No belo poema Mar Português, Fernando Pessoa acerta na mosca com os versos: Quem quer passar além do Bojador / Tem que passar além da dor. Que empreitada, meu xará, ultrapassar a dor! Pra quem matou a aula: localizado na costa do Saara Ocidental, hoje sob olho gordo do Marrocos, o Bojador funcionou como dramático obstáculo para os navegadores portugueses avançarem rumo às delícias açucaradas e douradas do Oriente.

O imaginário coletivo da época enxergava no atual Atlântico o Mar Tenebroso, onde para além do Cabo do Bojador viveriam criaturas fantásticas e assassinas, ondas tão altas que encostavam no céu, buracos dentro do mar que sugavam non-stop para o inferno.

Daí o Bojador também ser conhecido como o Cabo do Medo. Lendas, temores, fantasias só se desfizeram em 1434, quando o navegador português Gil Eanes e tripulação dobraram a paúra, o imponderável, o obstáculo. Veio o espanto: o que havia além do Bojador eram águas razoavelmente tranquilas e navegáveis.

A partir do feito de Eanes, Portugal disparou na corrida pelos mares. Desenvolveu incríveis tecnologias de navegação que engordaram sua ganância imperialista. Os marujos entenderam que os monstros não moravam no oceano, se hospedavam na imaginação. Graças à desmistificação dos monstros do Bojador, 66 anos depois, para azar dos nativos e sorte dos europeus, Pedro Álvares Cabral e tripulação avistariam o Monte Pascoal, no sul da Bahia.

Admiro essa história pelo o que ela tem de replicável. Afinal todos temos nosso Bojador. O entrave real ou imaginário que nos impede de avançar. O cabo que nos dá rasteira. Situação em que a gente diz Cheguei até aqui, mas não vou em frente. No meu caso, o Cabo do Bojador é a comercialização dos meus escritos. Produzo bastante, me exponho o suficiente nos blogs e redes sociais, mas não consigo fechar bons negócios. A grana que ganho é anoréxica.

É certo que nem sempre o Cabo do Bojador se refere a estorvos materiais. Muitas vezes ele está em área mais subjetiva das nossas dificuldades. Pode ser timidez que corta oportunidades, ego inflado que cega para realidades, poço de preconceitos que paralisa os passos, autocensura anestesiante. Ou quem sabe as incapacitantes modéstia e vaidade.

Mas, como na história de 1434, talvez o obstáculo que nos atrasa esteja superdimensionado pelo medo. Ou pela dor a que se refere Fernando Pessoa. Pode ser que águas calmas e bons negócios nos aguardem bem ali dobrando a esquina. Se uma hora eu ultrapassar meu Bojador, escreverei para vocês.

Consciência leve e pouca bagagem. Vida, agora é para valer!

Consciência leve e pouca bagagem. Vida, agora é para valer!

Charlie Chaplin um dia disse que a vida não permite ensaios. A minha, entretanto, teve incontáveis e ainda não posso garantir que eles já tenham acabado. Foram ensaios sérios e compenetrados, ensaios debochados, insolentes ou até desorientados. Não discordo de Chaplin. Justamente admiro sua determinação, mas não a carrego comigo como condição essencial.

Permiti-me cair no erro repetidas vezes, e, ainda depois de consciente, errar mais uma vez, ou mais.

Confundi irresponsabilidade com autonomia, desleixo com desânimo, procrastinação com sossego. Manipulei os argumentos, me especializei em desculpas, deixei o tempo deitar e rolar enquanto ensaiava uns passinhos vacilantes.

Mirei no objetivo de ter: ter conforto, ter segurança, ter a mais, ter demais. E quem disse que é possível se sentir confortável, ainda que o sofá seja um escândalo de gostoso, quando a alma está inquieta, dura, alerta! Foi munição demais para pouca batalha.

E a busca continuou, entre uma comprinha para aplacar a sede eterna e um dia inteiro na roda do hamster, sem produção, sem direção, sem satisfação.

Não é demais dizer que o cansaço de quem não sabe para onde está indo é infinito. Mesmo que a estrada vire logo ali, vagar na vida é estafa certa.

Então, depois de muitos arranhões e cabelos presos nas farpas das cercas que eu mesma construí, chegou a hora de botar tudo abaixo e conferir o que é a vida além das minhas próprias certezas.

Sem transformações aparentes, no entanto, com gigantescas mudanças internas, deixo presas na cerca apenas as culpas que já purguei, os balangandãs que não me enfeitam mais, todo adeus e boa sorte que já disse e também já ouvi, e, por fim, a ganância de ter de sobra, de reserva, de segurança para o dia em que o mundo for acabar.

Agora o caminho é o do papo reto, consciência leve e pouca bagagem!

E vida, aí vou eu!

Aprenda a fazer falta. Principalmente para quem sabe onde lhe encontrar

Aprenda a fazer falta. Principalmente para quem sabe onde lhe encontrar

Ontem, conversando com uma amiga pelo WhatsApp, ela me contando sobre o fim de um relacionamento, me disse: “Vou sumir. Fazer ele sentir falta”. E concordei, pois embora essa seja uma artimanha arriscada, é uma das únicas que pode dar certo.

De vez em quando o único remédio é sair de cena para o show continuar. Aprender a ser ausência quando tudo já foi dito, cobrado, explicado. Deixar de ser insistência para ser abstinência.

Controlar os próprios impulsos pode parecer simples, mas é uma das coisas mais difíceis de se conseguir. Tanta alegria dando sopa lá fora e a gente teimando em se fixar na pessoa que foi embora.

É preciso entender que enquanto você insiste em checar os horários em que o outro “visualizou por último” no WhatsApp, muita vida está acontecendo e sendo deixada pra trás.

É claro que no início vai ser mais difícil _ não é de uma hora pra outra que o coração entende as mudanças de planos e estações _ mas aos poucos, bem aos poucos, a gente aprende a fazer falta.

Suma do mapa de quem sabe onde lhe encontrar e até o momento não se importou; pra quem teve todos os seus sorrisos e nunca valorizou.

Saia de cena de quem você ouviu inúmeros “nãos” e nunca acreditou; de quem pouco se relacionou e muito se cansou. Do afeto pequeno que tanto lhe recusou e você sempre aceitou.

Suma do mapa de quem vive com dúvidas e nunca lhe teve como certeza; de quem não aprendeu a remar junto e agir com gentileza.

Aprenda a fazer falta para quem já se habituou à sua presença e desaprendeu a sorrir quando você aproxima. Pra quem se esqueceu como é boa a sua companhia e prefere se refugiar numa vida fria.

Fazer falta é segurar o impulso de procurar, vasculhar, perguntar. É frear a vontade de entender o que não dá mais para explicar ou de justificar o que não merece absolvição.

Fazer falta é não ligar, não mandar mensagens, não digitar o tal endereço na barra de contatos do email. É sair para se distrair com os amigos, dar uma corrida no parque, respirar fundo e encontrar sentido na solidão. É orar para o pensamento acalmar, não bisbilhotar o perfil da pessoa no Facebook, deixar de postar as próprias fotos com a intenção de ser visto à distância. É desistir de parecer bem quando não está bem, é cortar o cabelo para renovar o espírito, é ficar bem longe do celular enquanto toma um copo de cerveja ou uma taça de vinho. É, acima de tudo, agir com esquecimento para quem sempre pareceu esquecer você.

Torço para que minha amiga consiga sumir. Para que, sumindo, ela descubra se realmente faz falta. Para que, sumindo, ela descubra o quanto sua presença é importante ou não. Sumir é uma estratégia arriscada, eu sei. Mas também define muita coisa mal resolvida. Também traz as respostas que buscamos e nem sempre encontramos.

Nem sempre as respostas serão aquelas desejadas, mas no fim nos libertam a prosseguir com mais certeza, clareza… e amor próprio.

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Os conteúdos de nosso inconsciente no conto “O rei sapo”

Os conteúdos de nosso inconsciente no conto “O rei sapo”

O rei sapo, ou o príncipe sapo, é um conto de fadas famoso pela sua versão dos irmãos Grimm.

No conto uma princesa brincava com uma bola dourada que caiu dentro de um poço de onde ela não conseguia retirá-la. Eis que um sapo aparece e diz que para devolver a bola ela deveria cumprir três desejos dele: sentar-se à mesa com a princesa, comer de seu prato e dormir em sua cama. Ela então prometeu tudo porque estava muito triste com a perda da sua bola. Assim, que o sapo a trouxe de volta, a princesa esqueceu suas condições e ele teve que lembrá-la de sua promessa.

A cada vez ela obedecia com relutância porque o sapo é tão repulsivo que cada exigência era pior que a anterior. A última condição, então, de que o sapo dormisse na sua cama, a princesa nem queria ouvir falar, mesmo assim, o sapo entrou na sua cama, de onde ela o tirou e o jogou contra a parede. Nesse instante o sapo desapareceu e em seu lugar surgiu um Príncipe.

No conto temos os seguintes personagens: O rei e suas filhas, sendo a caçula sua favorita. Não há menção da rainha, portanto podemos supor que a atitude consciente, simbolizada pelo rei precisa de renovação, pois não há o casamento entre feminino e masculino, há uma ausência de Eros.

Nesse caso, a consciência se apresenta muito rígida, presa a regras, leis e normas. Falta flexibilidade, acolhimento e sensualidade.

A princesa é a heroína do conto, ou seja, ela é quem realizará o processo de transformação e renovação da consciência coletiva. Ela irá restabelecer o funcionamento normal e sadio da situação vigente, onde todos os egos estão desviando-se do padrão básico e instintivo da totalidade.

A princesa brinca com sua bola favorita e essa rola em direção ao poço. A bola simboliza aquilo que possui movimento involuntário e que se move e continua rolando mesmo com todas as vicissitudes, obstáculos e dificuldades do mundo material. Isso significa que uma parte do nosso inconsciente nos impele ao processo de individuação sem que precisemos forçar o processo. É algo espontâneo, como um desejo repentino, ou algo que “surge do nada” e altera o curso de nossas vidas.

A bola rola em direção a um poço com água. A água é símbolo das emoções e também do inconsciente pessoal. Nesse caso, algo provindo do inconsciente da princesa salta a consciência, trazendo um conteúdo emocional que deverá ser assimilado.

O poço é um local onde as pessoas costumam retirar água para matar a sede, ou seja, ele simboliza um caminho ao inconsciente que traz um conteúdo numinoso capaz de renovar a vida. O poço também tem uma simbologia feminina é a mãe terra que fornece a água da vida. Portanto é desse local que o feminino poderá ser renovado.

Mas desse local sai algo repugnante, um sapo. Na mitologia, o sapo é geralmente tido como um elemento masculino, que pode tanto envenenar como dar vida a alguém.

O sapo lhe devolve o brinquedo querido, em troca de comer e dormir com ela. Ou seja, ele quer ser plenamente aceito na vida privada como se fosse um ser humano.

Vários conteúdos de nosso inconsciente clamam por serem aceitos em nossa vida cotidiana, principalmente os arquétipos.

O sapo aqui representa o lado masculino da princesa que está reprimido e subdesenvolvido. Ele precisa participar da vida dela para que possa começar a ter uma expressão mais humana. Ele é o homem superior da psique feminina que ainda está por vir.

Uma mulher extremamente feminina costuma ter uma compaixão em excesso por tudo o que é desamparado, o que pode ser muito nocivo. Ela precisa desenvolver a objetividade de seu lado masculino e alguma vez terá de colocar para fora qualidades “viris”, mesmo que a principio seja de forma desajeitada. Pois quanto mais uma mulher é feminina, menos seu animus é agressivo e mais a vida tende a passar por cima dela.

Algumas versões do conto dizem que a princesa beijou o sapo. Mas se ela tivesse feto isso, não teria entrado em contato com sua agressividade e ele não teria se humanizado. Ao não ter compaixão por um ser que lhe aparece repugnante ela o transforma e o deixa se expressar. Ela não foi inutilmente agressiva!

O problema agora é encontrar um meio termo na expressão desse masculino em seu mundo feminino. Mas agora ela pode ser uma mulher mais completa e ser fecundada por seu masculino interior se tornando um ser criativo e com uma expressão mais objetiva no mundo.

10 filmes para ver na Netflix (indicações dos leitores)

10 filmes para ver na Netflix (indicações dos leitores)

Toda vez que publicamos alguma lista de filmes, os leitores enriquecem as dicas com inúmeras outras sugestões.

Abaixo, seguem 10 dicas de filmes para ver no Netflix. Todas foram feitas por leitores da CONTI outra que, não podemos negar, trouxeram ótimas dicas.

As dicas são ótimas. É só escolher um que combine com o seu gosto.

Aproveitem e bons filmes!

1- Procura-se um amigo para o fim do mundo (2012)

Um meteoro está em rota de colisão com a Terra, e a última missão humana enviada para desviá-lo falha em sua tentativa. Não há mais saída: em três semanas, o mundo vai acabar. Algumas pessoas aproveitam os últimos dias de vida para beberem e fazerem sexo sem compromisso; outras se rebelam pelas ruas e começam a destruir os carros e os comércios. Além delas, existe Dodge (Steve Carell), corretor solitário que acaba de ser abandonado pela esposa, e Penny (Keira Knightley), sua vizinha triste, que nunca teve um namoro satisfatório. Juntos, eles decidem percorrer o país para reencontrarem suas famílias e seus amores de juventude antes que seja tarde demais.

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2- Wall-E (2008)

Após entulhar a Terra de lixo e poluir a atmosfera com gases tóxicos, a humanidade deixou o planeta e passou a viver em uma gigantesca nave. O plano era que o retiro durasse alguns poucos anos, com robôs sendo deixados para limpar o planeta. Wall-E é o último destes robôs, que se mantém em funcionamento graças ao auto-conserto de suas peças. Sua vida consiste em compactar o lixo existente no planeta, que forma torres maiores que arranha-céus, e colecionar objetos curiosos que encontra ao realizar seu trabalho. Até que um dia surge repentinamente uma nave, que traz um novo e moderno robô: Eva. A princípio curioso, Wall-E logo se apaixona pela recém-chegada.

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3- Johnny & June (2006)

A história do cantor Johnny Cash (Joaquin Phoenix), desde sua juventude em uma fazenda de algodão até o início do sucesso em Memphis, onde gravou com Elvis Presley, Johnny Lee Lewis e Carl Perkins. Sua personalidade marginal e a infância tumultuada fazem com que Johnny entre em um caminho de auto-destruição, do qual apenas June Carter (Reese Whiterspoon), o grande amor de sua vida, pode salvar.

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4- Os outros (2001)

Durante a 2ª Guerra Mundial, Grace (Nicole Kidman) decide por se mudar, juntamente com seus dois filhos, para uma mansão isolada na ilha de Jersey, a fim de esperar que seu marido retorne da guerra. Como seus filhos possuem uma estranha doença que os impedem de receber diretamente a luz do sol, a casa onde vivem está sempre em total escuridão. Eles vivem sozinhos seguindo religiosamente certas regras, como nunca abrir uma porta sem fechar a anterior, mas quando eles contratam empregados para a casa eles terminam quebrando estas regras, fazendo com que imprevisíveis consequências ocorram.

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5- Mesmo se nada der certo (2014)

Uma cantora (Keira Knightley) se muda para Nova Iorque, mas logo após chegar no local, seu namorado americano decide terminar o relacionamento. Em plena crise, ela começa a cantar em bares, até ser descoberta por um produtor de discos (Mark Ruffalo), certo de que ela pode se tornar uma estrela.

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6- Mãos talentosas

Ben Carson (Cuba Gooding Jr.), menino pobre de Detroit, sempre levou uma vida desmotivada, já que tirava notas baixas e não tinha perspectivas de um grande futuro. O que ele e os que estavam ao redor não esperavam era que ele se tornaria um neurocirurgião de fama mundial.

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7- Preciosa (2010)

1987, Nova York, bairro do Harlem. Claireece “Preciosa” Jones (Gabourey Sidibe) é uma adolescente de 16 anos que sofre uma série de privações durante sua juventude. Violentada pelo pai (Rodney Jackson) e abusada pela mãe (Mo’Nique), ela cresce irritada e sem qualquer tipo de amor. O fato de ser pobre e gorda também não a ajuda nem um pouco. Além disto, Preciosa tem um filho apelidado de “Mongo”, por ser portador de síndrome de Down, que está sob os cuidados da avó. Quando engravida pela segunda vez, Preciosa é suspensa da escola. A sra. Lichtenstein (Nealla Gordon) consegue para ela uma escola alternativa, que possa ajudá-la a melhor lidar com sua vida. Lá Preciosa encontra um meio de fugir de sua existência traumática, se refugiando em sua imaginação.

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8- El Cuerpo (2012)

O detetive Jaime Peña (José Coronado) esta investigando o caso de um corpo desaparecido do necrotério, após um guarda-noturno do local ser atropelado. O corpo é de uma poderosa mulher, Mayka Villaverde (Belén Rueda). Há muitas questões sem resposta e ninguém parece ser quem diz, ao mesmo tempo que escondem algo sobre o passado de Mayka. Ele conta com a ajuda do marido dela, mas uma intrincada rede de interesses surge no meio da investigação.

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9- Shelter (Viver sem endereço) (2015)

Dois moradores de rua, Tahir (Anthony Mackie) e Hannah (Jennifer Connelly) de Nova York vivem rodeados por desespero, perigos e incertezas. Eles acabam se conhecendo e se apaixonando. Tahir e Hannah encontram consolo e força e, aos poucos,  contam um ao outro como foram parar nesta situação de dificuldade, e percebem que juntos podem tentar construir uma vida melhor.

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10- Beasts of no Nation (2015)

Em uma cidade africana, Agu (Abraham Attah) é uma criança, que atingida pela guerra, é transformada em soldado. Após a morte de seu pai por militantes, ele é obrigado a abandonar sua família para lutar na guerra civil da África do Sul, instruído por um grande comandante (Idris Elba) que o ensinará os caminhos de um conflito.

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As sinopses são do site Adoro Cinema.

Pare de abraçar o mundo. Abrace quem está ao seu lado.

Pare de abraçar o mundo. Abrace quem está ao seu lado.

Parei, sabe? Parei com essa história de abraçar o mundo. Cansei de fazer tudo, de querer tudo, de correr contra o tempo. Para quê? Tentar abraçar o mundo não é boa coisa, não. Para mim, não foi.

O mundo é muito grande. Não cabe em um só abraço. Deixei de coisa. Não quero mais abraçá-lo de uma vez. Vou aos pouquinhos. Descobri que melhor do que abraçar o mundo é dar a mão a quem está por aqui, fazendo meu mundo seguir em frente.

Não troco um segundo que seja ao lado do meu filho por um trabalho extra. Não jogo fora uma só chance de estar com quem eu amo. Não dou nem um minuto a mais aos meus patrões. Não quero mais dinheiro do que eu já tenho. Não vou ficar rico, não pretendo agradar toda gente. Desisti de abraçar o mundo.

Abraço meu trabalho diário, minha labuta honesta, meus dois empregos. Porque o trabalho é sagrado e sem ele não há todo o resto. Abraço minhas obrigações e minhas responsabilidades. Mas não me peça mais do que isso. Eu abraço o rumo de casa e lhe dou as costas.

Hoje abraço mais do que ontem. Amanhã vou abraçar mais do que agora. Abraço minha gente, minha coisas, minha vida. E acho que você devia fazer assim também. Abraçar.

Abrace, abrace que o tempo vai passando tão rápido! Abrace quem está ao seu lado, em forma física ou não. Na sua presença ou na sua saudade. Abrace quem está com você. Em você. Por você. Para você.

Abrace o que está ao seu alcance. Seus planos, seus sonhos. Seu caminho. Não o mundo. Porque o mundo não precisa que o prendam entre os braços. Precisa é de mais gente que se abrace e o leve em frente.

Às vezes precisamos de colo, não de palpite

Às vezes precisamos de colo, não de palpite

Quase todo mundo sabe pedir colo, mas poucas pessoas sabem dar colo.

Dar colo é muito mais difícil do que parece e não implica em apenas estender a mão para quem está em sofrimento.

Dar colo, entre outras coisas, quer dizer saber ouvir. E saber ouvir é bem diferente de oferecer conselhos.

Para ouvir o que o outro está dizendo é preciso um bocado de desprendimento, especialmente se esse outro for uma pessoa próxima e íntima, porque tendemos a contaminar o que ouvimos com nossos preconceitos, ou seja, nossos conceitos pré-estabelecidos por sobre a pessoa que está discursando.

Acredito que tendemos a dar palpite sobre a conduta alheia quando nos pedem colo por dois motivos: 1) sentimento de impotência frente à dor do outro; 2) ressonância de emoções permeada pela nossa incapacidade de lidarmos com nossos próprios conflitos.

Acreditamos que temos que fazer alguma coisa para ajudar aquele que nos pede colo (pois se está nos contando um problema é porque espera uma solução), mas nem sempre isso é verdade – às vezes ouvir com atenção e carinho é o suficiente.

Quem nunca se sentiu irritado num momento de desabafo por ter sido interrompido por um namorado, pai, mãe, irmão, amigo, com perguntas como: Por que não tenta isso? Já tentou aquilo? E se fizer assim e assado?

Na realidade nos sentimos completamente impotentes, incomodados e despreparados ante a dor de quem amamos e em alguns casos nos sentimos na obrigação de arranjar uma solução, resolver o problema. Porém, esse sentimento de obrigação pode ter muito mais a ver com a nossa incapacidade de lidar com nossas impotências do que com o problema do outro.

Ninguém gosta de ver um amigo sofrendo, seja lá porque motivo for. Mas acolher a dor dos que amamos, muitas vezes, é mais eficaz que dar conselhos ou tentar resolver seus problemas.

O escritor Rubem Alves escreveu brilhantemente sobre a importância de saber ouvir em sua crônica Escutatória. Segue um trecho:

“Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular”.

E segue: “Escutar é complicado e sutil. (…) Parafraseio o Alberto Caeiro: ‘Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma.’ Daí a dificuldade: a gente não aguenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.”

É por essas e por outras que sempre digo: dar colo é saber ouvir em silêncio e com atenção, amparar a pessoa em sua angústia para que ela não se sinta tão sozinha, ouvir sem julgar seus motivos, suas dores. É estar apenas ali.

Você já se sentiu tendo que passar no vestibular do amor?

Você já se sentiu tendo que passar no vestibular do amor?

Você já se sentiu tento que passar no vestibular do amor?
Já se sentiu sendo avaliada para ver se cabia nos critérios amorosos de alguém, antes mesmo de olharem-se nos olhos, antes mesmo de chegarem mais perto?

Já sentiu tendo que mudar, tendo que se adequar ao que esperam de uma namorada (pessoa idealizada) ou ao que a sociedade considera como uma pessoa apaixonável ou, digamos assim, relacionável?

Já sentiu tendo que ser boa o suficiente em tantas coisas, da beleza física à carreira bem sucedida, para finalmente poder ser aceita no currículo amoroso de um ser humano que te interessou?

Você já sentiu se preparando para um envolvimento muito antes de ele realmente acontecer, mostrando suas ótimas qualidades em conversas de whatsapp, cuidando para não descontrolar na fala, escolhendo a melhor foto para estampar os ‘currículos’ espalhados nas redes sociais?

Já sentiu na pele a competição do mercado, a sorte de ter tido a chance de uma noite de ‘entrevistas’, se sentiu tentando equilibrar a vontade apaixonada de mergulhar com o cuidado para não assustar e perder a oportunidade daquela posição desejada?

Já se sentiu depressiva por não ter sido escolhida, ou culpada por não ter tido esperteza e jogo de cintura para agarrar com unhas e dentes uma pessoa que chegou tão perto mas partiu antes de te conhecer bem?

Afinal ninguém quer perder tempo com quem de cara não passa no vestibular do amor. Com tantas possibilidades no mundo, uma característica fora do lugar é previsão de desilusão, melhor nem tentar…

E a gente parece que vai vivendo esses pré-vestibulares, esses pré-relacionamentos por tanto tempo, nessa busca de querer entrar por inteiro e não ser escolhida. A gente se adapta, corre atrás ou a gente desencana?

Acho que essa coisa de ter que ser bom o suficiente mata a gente.

Pode ser que a gente consiga passar no vestibular do amor, mas e a necessidade de expandir a alma, e a vontade íntima de espalhar-se por inteiro, de trazer defeitos e encantos, dores e alegrias desde o começo?

E a beleza de um ser humano encontrando o outro profundamente, com todos os riscos, cheios de coragem, pelo olhar, pelo sentir, pelo abraçar antes de analisar o currículo?

Ultimamente eu só quero deixar o meu currículo amoroso o mais honesto possível, sem medo do que eu vou (ou não) encontrar. Está tudo lá: as minhas manchas de traumas, as minhas demissões e desajustes, as minhas experiências curtas e intensas, os meus cursos de idiomas estranhos, o meu coração mole e a minha vontade intacta de amar e ser amada.

Sobre Alices e o abuso do qual somos todos culpados

Sobre Alices e o abuso do qual somos todos culpados

Conversávamos quando o som de notificação de seu celular nos interrompeu, e eu senti Alice estremecer. Era a sincronicidade trazendo a má notícia… Um inesperado desfecho para aquela mesma história que ela me contava. Após um longo silêncio, vi uma lágrima cair encontrando as palavras que brilhavam na tela.

A história triste de Alice era sobre seu envolvimento com uma colega do trabalho. O fato da colega ter um namorado de longa data, não impediu que as duas ficassem um dia em uma festa… E mais outra vez algumas semanas depois. Finalmente, no terceiro encontro, a colega foi clara e disse que não tinha nenhuma intenção de terminar seu relacionamento e propôs a Alice que continuassem se encontrando… “Quando eu puder”, disse ela. Apesar da ênfase na condição apresentada, Alice estava tão distraída pela ideia romantizada daquela mulher que desejava que nem se atentou para as implicações da proposta. (Até porque Alice é daquelas que cresceu ouvindo que homem não presta… Mas mulher, não, mulher é diferente…). E, assim, durante alguns meses, se fez refém nessa história onde seu querer nada ditava, e só se via a esperar. Refém de um desejo que já não sabia se era dela ou da outra. Refém nessa situação onde todas as saídas levavam a frustração. Até que, enfim, como aquele que atira no animal ferido agonizante, a colega com meia dúzia de palavras colocou um ponto final no caso; e sem direito a recurso! Pois o “não” ali quem falava era o desejo soberano, aquele que sempre esteve em questão, e o que sempre foi o eixo da relação.

Alice é uma personagem… Alice é real… Alice é toda aquela ou aquele que um dia teve sua identidade subjugada pelo desejo perverso de um outro que de tão cego em seu caminho para a satisfação não vê que naquela mesma reta segue um querer que não é o dele. Alice é aquela que procuramos quando estamos entediados, a escolha conveniente de quem prefere se sentir mal acompanhado a se sentir sozinho. Alice é aquela que liga demais, que se importa demais… E que, às vezes, evitamos. Alice é aquela que dispensamos tão logo aparece a “pessoa certa”. Alice é o alvo do abuso de que todos somos culpados, fomos ou seremos um dia.

Mas Alice também somos nós. Os que investem em relacionamentos fracassados, os que insistem em oferecer o seu amor a quem diz “Não, obrigado”, os que só conseguem se ver através do olhar indiferente do outro e encontram nesse reflexo nada além da menos valia. Os que andam pela vida procurando o amor, mas que dão menos valor a mensagem respondida do que a não lida. Os que esperam conquistar afeição demonstrando não se importar.

Alice somos todos nós, vítimas e algozes de nós mesmos… Alice são todos que padecem na tragédia do desencontro.

A rejeição, suas marcas indeléveis e a absoluta necessidade de superá-las

A rejeição, suas marcas indeléveis e a absoluta necessidade de superá-las

Conexões afetivas são tão raras e belas, quanto inesquecíveis. Aquela sensação de pertencimento e liberdade ao mesmo tempo; aquela certeza de ter um colo para dar e receber no final do dia; aquele conforto de saber que haverá quem nos ouça, por mais silenciosos que estejamos; aquela situação mágica na qual se conversa por meio de olhares, sem emitir uma única palavra… isso é tão extraordinariamente perfeito que eu me arriscaria a dizer que quase não passa de um sonho bom.

Os amores e as relações da vida real são indiscutivelmente imperfeitos, cheios de desafios e reviravoltas. Some-se a essa instabilidade a nossa teimosia em projetar no outro nossas mais íntimas e secretas necessidades, acrescente-se a isso a nossa falta de repertório afetivo que nos faz facilmente reféns de armadilhas sedutoras, tecidas de fantasias de amor ideal, romântico e cinematográfico.

O resultado desse descompasso entre realidade possível e idealização maravilhosa é o desencontro. Vivemos nos desencontrando… de nós mesmos, de nossas missões, de nossas possibilidades e formas bonitas de nos conectar com o outro. Vivemos nos esbarrando em expectativas que nos levam ao chão com a facilidade de um piso liso e ensaboado. Vivemos andando em ruas paralelas aos caminhos necessários às nossas vivências com potencial para serem transformadas em bem querer, intimidade e entrega consciente.

Mergulhados em tolas ilusões, entregamos nas mãos alheias o nosso destino. E ficamos assim, quietinhos, silenciosos e omissos, esperando que o outro nos desembrulhe e nos apresente a uma vida cheia de felicidade. Fechamos os olhos, apaziguados numa permissividade infantil e ingênua, crentes de que a nossa realização afetiva depende de sermos aceitos, afagados, incluídos e protegidos por outros braços, espaços e abraços que não os nossos próprios.

Encharcados de uma chuvinha intermitente de gotas de alienação emocional, abrimos mão de nos responsabilizarmos por nossa entrada, estada e retirada dos espaços afetivos daqueles que nos cercam. E, se não tomarmos consciência disso, em pouco tempo estaremos diluídos e aguados, incapazes de entender que a rejeição partiu de nós, em primeira instância. Em muitas situações, somos nós que determinamos se outro terá poder e permissão para nos rejeitar ou não.

A rejeição provoca marcas indeléveis na alma da gente. Por isso, precisamos emergir desse lugar de vitimização, para tomarmos posse de nossos corpos, mentes e sentimentos a fim de superar a dor de não termos sido escolhidos. Precisamos nos reencontrar com urgência, antes que sejamos tragados pela tentadora escolha de culpar os outros pela bagunça que nós mesmos causamos em nossas próprias vidas. Amar-se não é uma tarefa fácil, requer de nós coragem para nos concedermos os indispensáveis perdões e a leveza de alma que nos permita tirar das mãos alheias o direito de se desfazer de nós.

E eu morri…

E eu morri…

Estranho? Nem tanto. Se depois de ler esse texto você achar que ainda está vivo, ótimo!

Caso contrário, é bom repensar se ainda existe algum sopro de vida aí dentro. Vou contar como tudo aconteceu.

A minha primeira parcela de morte aconteceu quando acreditei que existiam vidas mais importantes e preciosas do que a minha. O mais estranho é que eu chamava isso de humildade. Nunca pensei na possibilidade do auto abandono.

Morri mais um pouquinho no dia em que acreditei em vida ideal, estável, segura e confortável.

Passei a não saber lidar com as mudanças. Elas me aterrorizavam.

Depois vieram outras mortes. Recordo-me que comecei a perder gotículas de vida diária, desde que passei a consultar os meus medos ao invés do meu coração. Daí em diante comecei a agonizar mais rápido e a ser possuída por uma sucessão de pequenas mortes.

Morri no dia em que meus lábios disseram, não. Enquanto o meu coração gritava, sim! Morri no dia em que abandonei um projeto pela metade por pura falta de disciplina. Morri no dia em que me entreguei à preguiça. No dia em que decidir ser ignorante, bulímica, cruel, egoísta e desumana comigo mesma. Você pensa que não decide essas coisas? Lamento. Decide sim! Sempre que você troca uma vida saudável por vícios, gulodice, sedentarismo, drogas e alienação intelectual, emocional, espiritual, cultural ou financeira, você está fazendo uma escolha entre viver e morrer.

Morri no dia em que decidi ficar em um relacionamento ruim, apenas para não ficar só. Mais tarde percebi que troquei afeto por comodismo e amor por amargura. Morri outra vez, no dia em que abri mão dos meus sonhos por um suposto amor. Confundi relacionamento com posse e ciúme com zelo.

Morri no dia em que acreditei na crítica de pessoas cruéis. A pior delas? Eu mesma. Morri no dia em que me tornei escrava das minhas indecisões. No dia em que prestei mais atenção às minhas rugas do que aos meus sorrisos. Morri no dia que invejei , fofoquei e difamei. Sequer percebi o quanto havia me tornado uma vampira da felicidade alheia. Morri no dia que acreditei que preço era mais importante do que valor. Morri no dia em que me tornei competitiva e fiquei cega para a beleza da singularidade humana.

Morri no dia em que troquei o hoje pelo amanhã. Quer saber o mais estranho? O amanhã não chegou. Ficou vazio… Sem história, música ou cor. Não morri de causas naturais. Fui assassinada todos os dias. As razões desses abandonos foram uma sucessão de desculpas e equívocos. Mas ainda assim foram decisões.

O mais irônico de tudo isso?
As pessoas que vivem bem não tem medo da morte real.
As que vivem mal é que padecem desse sofrimento, embora já estejam mortas. É dessas que me despeço.

Assinado,

A Coragem

Escrito por Lígia Guerra, conheça mais do seu trabalho na sua Fan Page

O pior tipo de estranhos: aqueles que já se amaram- Fellipo Rocha

O pior tipo de estranhos: aqueles que já se amaram-  Fellipo Rocha

Por Fellipo Rocha

Nós, que dividimos durante anos as eternidades de uma vida inteira, hoje, mal nos cumprimentamos na fila do supermercado. Temos sido, portanto, o pior tipo de estranhos: aqueles que já se amaram.

Nos tornamos recém desconhecidos há pouco mais de um ano e, até a presente data, ainda costumam aparecer novos desconectados para me questionarem sobre nós. No começo eu costumava levar na esportiva, explicava com riqueza de detalhes cada um dos motivos da nossa separação. Depois, passado um certo tempo, já um pouco fatigado do assunto, passei a responder somente que não estávamos mais juntos e que não tínhamos mais contato. Hoje, respiro fundo e me silencio, não sou obrigado.

Não posso dizer que não valeu, nem tampouco posso te agradecer por tudo. Talvez acreditamos ter feito uma boa escolha ao resolvermos ficar juntos, todavia, certamente tomamos uma decisão ainda melhor ao decidirmos nos separar. Se tivemos bons momentos? É claro que sim! Mas estes não foram suficientemente bons para compensar cada uma das dores de cabeça.

Espero que tenha encontrado alguém que não deixe a toalha molhada sobre a cama, que não arrote após um copo de Coca-cola (o que acho difícil) e que dê valor para as músicas indecifráveis que você tanto aprecia. Pois eu ainda procuro alguém que goste de Los Hermanos, que não suporte sequer a ideia de frequentar uma academia, e que tenha como esporte favorito uma saudável e infinita maratona de seriados.

No mais, até o próximo aperto de mão na fila do pão.

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