O conto do açaí é uma história de amores

O conto do açaí é uma história de amores

Um povo na cidade de Belém do Pará, antes de Belém ou o Brasil existirem, vivia da pesca, da música e do Açaí. As canções eram entoadas sempre antes da chuva da tarde. As crianças escolhiam se seriam músicas alegres ou tristes de acordo com sentimento que despertava a história do Contador.

O Contador era alguém na tribo sabedor das origens das coisas. Era sempre um mistério sua identidade. Usava uma pintura no rosto, folhas cobrindo todas as formas do corpo, apenas seus pés apareciam.

Num fim de tarde, as crianças pediram para o Contador falar como surgiu o Açaí, ele ficou trêmulo. Trêmulo mesmo. Mas por baixo das folhas ninguém percebeu. Respirou e começou a contar:

-Por causa da falta de comida, o Pajé disse “Toda criança que nascer antes da comida voltar, deverá ser sacrificada antes de sofrer a desgraça da fome.” Assim foi, sempre que uma criança nascia era levada ao Pajé e ele a sacrificava. Um dia, uma mulher do nosso povo amou muito alguém e com esse alguém teve uma filha. Essa mulher era Iaçã, filha do Pajé. Quando a criança nasceu, foi levada para o Pajé, seu avô, para ser sacrificada. Chorando e ouvindo Iaçã chorar, o Pajé sacrificou sua neta.

O Contador parou por um tempo e voltar a contar a história com os olhos fechados.

-Iaçã entrou numa tristeza terrível, era só choro, pedia sem parar pra Tupã acabar com a fome e não precisarem mais perder as crianças do seu povo. Adormeceu. Foi acordada por um cântico que parecia triste, mas também parecia alegre. Andou na mata procurando quem estava cantando, era sua filha. Correu, abraçou a menina e dormiu sorrindo. Noutro dia, todos saíram procurando Iaçã pela mata, encontraram apenas seu corpo abraçado numa palmeira com cachos de frutos pretos. Desse fruto extraíram um líquido grosso que salvou todo o povo da fome e fez com que nenhuma outra criança fosse sacrificada. O Pajé chamou o fruto de Açaí que é Iaçã ao contrário.

Quando o Contador terminou a história, as crianças não sabiam se cantavam uma música triste, por causa da morte de Iaçã e sua filha, ou uma alegre pela salvação do povo. Neste dia, decidiram que cada um cantasse seu próprio sentimento e a canção foi uma mistura de sensações, lágrimas e danças.

E o Contador dançou e chorou tanto que as folhas do seu corpo caíram e todos descobriram que ele era o alguém, aquele que amou Iaçã e teve com ela uma filha.

Desde este dia, lembra-se que no açaí está o amor do Contador e Iaçã, amor deles pela filha sacrificada, o amor angustiado do Pajé, o amor que pode surgir por conta do milagre da súplica de uma mãe em luto.

Açaí, para este povo, significa “lembrar que o amor é mais forte quando alimenta muita gente.”

Beleza Americana: Vivendo a bela aparência das nossas vidas idiotas

Beleza Americana: Vivendo a bela aparência das nossas vidas idiotas

A sociedade contemporânea é construída sob o pilar da liberdade, contudo, um certo pensador chamado Aldous Huxley descreveu que vivemos em uma prisão de grades invisíveis, na qual nós mesmos insistimos em permanecer. Essa consideração estava no seu magnífico “Admirável Mundo Novo” e, assim, a liberdade tanto no mundo novo de Huxley quanto no nosso é apenas superficial e enganosa, visto que estamos submetidos a ditaduras que aceitamos voluntariamente. Uma dessas ditaduras é a das aparências, a qual pode ser bem observada no filme Beleza Americana (American Beauty), de Sam Mendes.

O filme retrata a vida da classe média americana através dos olhos de Lester Burnham (Kevin Spacey), um quarentão, que vive uma vida totalmente vazia e sem sentido, baseada apenas nas aparências. Derrotado e sem ânimo para viver, Lester já inicia a trama demonstrada essa sua pseudo-vida:

“Meu nome é Lester. Essa é minha vizinhança. Essa é minha rua. Essa é minha vida. Eu tenho 42 anos e, em menos de um ano, estarei morto. É claro, eu ainda não sei disso. E, de certa forma, eu estou já morto.”

Com uma vida profissional sem sucesso e entusiasmo, um casamento de fachada e uma relação insossa com sua filha, o protagonista demonstra a sua inexpressividade e o seu vazio interior, bem como, a sua morte ainda em vida, uma vez que as aparências que ostenta não conseguem lhe proporcionar a potência necessária para que se sinta verdadeiramente vivo. Isso é reforçado quando ao se masturbar no chuveiro pela manhã diz:

“O melhor momento do meu dia. Depois só piora.”

Lester se sente como fracassado, é um fracassado e não está mais disposto a esconder isso, ou seja, a partir do momento em que toma consciência plena de que a sua vida não o satisfaz de modo algum, o protagonista busca fugir da vida de aparências que vive. Ele pede demissão, dizendo tudo que sempre quis dizer, mas não tinha coragem; compra o carro que sempre quis; começa a se exercitar; arruma um emprego que exerceu na juventude e que não exige muita responsabilidade; e muda seu posicionamento perante sua mulher e filha.

Ao passo que Lester entra em “transformação”, sua mulher, Carolyn Burnham (Annette Bening), uma corretora imobiliária, mergulha ainda mais no universo de aparências em que vive. Carolyn vive num mundo em que o principal objetivo é ter sucesso. Mas não apenas isso, esse sucesso deve ser conquistado e demonstrado, seja por intermédio de bens materiais, como um sofá de tecido italiano, seja pela demonstração para os outros de que tem uma ótima relação com seu marido e, sobretudo, por meio da imagem de felicidade que aparenta o tempo inteiro.

Dessa forma, a imagem de felicidade vale muito mais do que a felicidade em si e, portanto, as aparências exercem muito mais valor do que a essência das coisas, das relações, da vida. Não importa como as coisas são e sim o que elas aparentam ser, isto é, o seu valor sígnico perante o olhar social. A realidade se afasta e dá lugar a um mundo de aparências, em que o valor das coisas é determinado pelo olhar que o coletivo oferece, de modo que as próprias ideias de felicidade e sucesso acabam, nesse prisma, sendo determinadas pelo mundo de aparências construído pela sociedade burguesa americana.

Esse olhar que busca tão somente o valor que as coisas aparentam fica claro, por exemplo, na relação que Carolyn estabelece com Buddy Kane (Peter Gallagher), o “rei dos imóveis”. Carolyn endeusa o indivíduo sem conhecê-lo enquanto pessoa apenas pelo fato dele representar a imagem de sucesso que ela idealiza, chegando a manter uma relação extraconjugal com ele, já que Buddy é poderoso, feliz e bem sucedido aos olhos dela, e o seu marido é um fracassado e culpado pela não realização dos seus “ideais”. Aliás, é através de Buddy que escutamos um resumo perfeito do filme.

“Podem me chamar de louco, mas minha filosofia é que para ter sucesso deve-se projetar uma imagem de sucesso o tempo todo.”

As aparências, o valor sígnico das coisas, a imagem, o status, o valor no mercado da personalidade, valem muito mais que o real naquela sociedade. Vidas enfadonhas e infelizes são escondidas com máscaras de felicidade, que devem ser demonstradas para todos os outros atores sociais. A própria “libertação” de Lester se dá em função de uma imagem e, assim, continua tão preso quanto antes, uma vez que ao se “libertar”, Lester buscou construir a imagem de um cara jovem, sarado, que fuma maconha e faz o que der na telha, sem se importar com qualquer conseqüência. E, pior, teve como estopim dessa “libertação” o desejo desenvolvido por Angela Hayes (Mena Suvari), a melhor amiga de sua filha.

Sendo assim, Lester ao fugir do seu mundo de aparências, mergulhou em outro mundo de aparências, no qual buscava construir uma imagem que pudesse seduzir e conquistar Angela, que era vista por ele como a coisa mais bonita que já viu. Angela representava a personificação da “Beleza Americana”. Uma garota bonita com uma imagem de sucesso, segurança e felicidade, a qual todos ficam “babando”. Ela é como a rosa vermelha estadunidense, tem uma bela aparência, é de fácil cultivo, não possui espinhos, mas não possui perfume, isto é, não possui uma essência que a torne única.

Se todos os personagens supracitados representam a artificialidade da vida, a mentira podre escondida por uma capa colorida, o que não dizer do Coronel Fitts (Chris Cooper), que esconde a sua homossexualidade atrás de uma imagem de militar durão cheio de regras e disciplina? Um indivíduo que passa a imagem de seriedade e autocontrole, mas vive uma luta interna contra os seus verdadeiros desejos.

Beleza Americana é um filme que demonstra de forma bem estruturada e clara a decadência de uma sociedade (e não apenas a americana) que vive de aparências e esconde as suas misérias e infelicidade atrás dos slogans e estereótipos de sucesso determinado pela sociedade. O filme traz uma reflexão profunda sobre a rede de mentiras que nos cercam e a forma como nos voluntariamente buscamos nos enquadrar em ditaduras que ditam o modo como os indivíduos devem ser e viver.

Na busca pelo ideal de sucesso determinado pelo status quo, os personagens buscam imagens que escondam as suas vidas pobres e sem qualquer poder de questionamento que se agarram aos padrões de maneira acrítica. Como diz Lester em dado momento do filme – “Vendemos a alma ao diabo porque é conveniente” – e, assim, vivemos vidas vazias e secas, como se fôssemos felizes e livres. Mas, não somos. Somos apenas representações fúteis de uma sociedade fútil. Somos somente aparências de sanidade e normalidade de uma sociedade doente. Estamos apenas padronizados, vivendo as nossas belas e cultuadas vidas idiotas.

Quem me dera ter ido embora muito antes

Quem me dera ter ido embora muito antes

Por um tempo pensei que não conseguiria abrir a porta e ir rumo ao desconhecido. Fiquei tão presa a você que tinha a absoluta certeza que não sairia do seu lado nunca mais. Mesmo quando você mesmo me mandou ir embora, fiz questão de bater o pé e dizer que não ia a lugar algum. E quem dera tivesse sido só uma vez – aliás, quem dera tivesse sido nenhuma – eu ainda teria menos pena de mim por me colocar entre tanto sufoco assim.

Você abriu a porta me perguntando o que eu ainda estava fazendo lá e dizendo que estava mais que na hora de sair. E eu quis ir. Ah, como eu quis te deixar. Eu desejei tanto abandonar você que mal pensava em outra coisa. O único outro pensamento que eu tinha era sobre como eu queria ficar. E esse permaneceu. E ficou. E ficou. Cansei de te dizer que não ia embora e que era melhor entender isso, mas tudo o que eu sinto hoje é vontade de voltar no tempo e não só sair por aquela porta pela qual você me expulsava, mas aproveitar e me bater com ela; pra ensinar a mim mesma que amor não se pede e muito menos se implora.

Ah, como eu queria ter aprendido isso antes. Muito antes de te ligar às 4h da manhã te pedindo em meio às lágrimas que não se esquecesse de mim. E você ao mesmo tempo que vivia me abandonando, continuava me atendendo e chorando junto comigo no telefone. Isso nunca fez sentido, mas hoje entendo. Você era independente demais para estar com alguém, mas também muito apegado para ir embora. E esse seu egoísmo me consumiu por muito tempo. Você gritava pra eu ir embora, repetia tantas vezes que já não me queria como antes, mas ao mesmo tempo me puxava de volta toda vez que eu começava a caminhar em direção à saída. Eu também preferiria que tivesse me abandonado uma vez só, mas que sumisse e de você eu só tivesse lembranças, pois teria aprendido muito antes o quanto fica piedoso sair por aí implorando permanência.

Você só soube que não queria de fato que eu fosse embora quando eu atravessei a porta e a tranquei pra nunca mais voltar. Foi o maior alívio que já senti até hoje e quando você me ligou às 4h da manhã e me pediu pra eu não te esquecer, eu não tive o que responder. Não daria pra te prometer lembrança porque já tinha te esquecido.

Eu desejei por meses que você viesse atrás de mim e dissesse que permaneceria. Só isso. Meu estado de decadência era tão grande que nem queria ouvir sobre amor. Se você tivesse apenas dito que ficaria, eu já me daria por satisfeita. Mas você veio me falar de amor, veio me dizer sobre sentimentos e que queria fazer morada ao meu lado, só que disse quando eu já não tinha qualquer afeto por você, a não ser inconformidade por tudo que tinha me feito passar.

Tudo o que eu senti quando você me prometeu a eternidade, é que eu já tinha dado tempo demais. Não adiantava mais me falar sobre o amor, quando me fez perder todo o afeto que eu tinha por mim mesma enquanto esperava pelo seu. Atravessar a porta foi o melhor que já fiz por mim e não ter vontade de olhar pra trás foi o que a vida me deu de recompensa

É…te guardei por tanto tempo na minha caixinha de eternidade. Hoje você só pertence àquela gaveta -trancada a sete chaves- chamada passado.

Como se libertar de pessoas (e lugares) que te fazem mal?

Como se libertar de pessoas (e lugares) que te fazem mal?

As relações são construídas por meio de trocas. Trocamos afetos e até mesmo interesses o tempo todo.

O psiquiatra e psicoterapeuta Flávio Gikovate é categórico ao afirmar em vários dos seus livros que a diferença e a complementaridade de características pessoais pode atrair, mas o que perpetua uma relação saudável e de amor verdadeiro são as afinidades.

Todos sabemos que cada pessoa possui características de personalidade e atitudes genuínas que as faz ser exatamente o que são. Sendo assim, obrigar um outro ser a pensar como você é algo completamente disfuncional e improdutivo.

Por que você acha que o outro precisa concordar com você?

Os conflitos existirão em todas as relações: pais e filhos, namorados, casais, amigos, parceiros de trabalho, entre tantas outras possíveis.

Nos momentos mais difíceis, é necessário que as pessoas desenvolvam caminhos para coexistir. Isso acontecerá pelo viés do exercício da tolerância: quem é seguro de seus valores pessoais e escolhas, por exemplo, não precisa obrigar ninguém a pensar igual a si mesmo.

Hoje em dia, frente às demonstrações de intolerância que vivenciamos, o que mais fica evidente é a fragilidade de quem berra.

Quando não for possível um consenso as pessoas têm que concordar em discordar entre si.

A maturidade das relações passa por essa capacidade adaptativa de lidar com as diferenças, dando a elas o espaço necessário para criar uma relação de troca, mas sem permitir que elas constituam o centro da relação. Afinal, não são as diferenças que aproximam as pessoas e sim os assuntos, interesses, objetivos e projetos que venham a ter em comum.

Ou seja, as diferenças fazem o importante papel de trampolim para o amadurecimento da relação, uma vez que não existe conflito nas afinidades.

Tolerância e aceitação, entretanto, não justificam a permanência em relações abusivas. Sempre que nos sentirmos abusados em nossa essência devemos ter a percepção de que algo precisa ser revisto e, se for o caso, mudanças mais práticas devem acontecer. Situações de abuso, aliás, pedem mesmo medidas práticas e muitas vezes radicais, como o definitivo afastamento do abusador e limites inquestionáveis para evitar que o abuso se repita – por vezes, esses limites são de natureza jurídica, inclusive.

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O que prende alguém a um local ou pessoa que lhe faz mal?

Hábito, necessidade financeira, falta de estima. Qualquer que seja a resposta atual não justifica uma posição permanente. As perguntas são:

É assim que eu quero ficar?

O que precisa ser feito para que aconteça a mudança? 

Qual o primeiro passo que devo dar?

Como a vida melhora quando nos afastamos de quem nos faz mal.

Se tivermos clareza de investir realmente nas pessoas com que queremos permanecer  a médio e longo prazo,  poderemos direcionar o nosso melhor ao local certo.

Se conseguimos  fazer escolhas e trabalhar nas mudanças necessárias para nos afastarmos do que (e de quem) nos puxa para baixo, criaremos oportunidades de nos dedicarmos às relações verdadeiras, aquelas que de fato merecem todo o nosso investimento pessoal.

Se não for alguém que você não considere, não gaste seu tempo com explicações

Só quem realmente amamos ou a quem devemos alguma obrigação merece ouvir nossas explicações. Os demais, cabem perfeitamente no nosso silêncio.

Se for alguém que te destrata, afaste-se emocionalmente e, se possível, fisicamente também

Talvez a mudança necessária não seja possível hoje, mas você está fazendo algo concreto para mudar sua situação? Já pensou em pegar um papel e escrever um plano de vida a curto, médio e longo prazo e, junto a ele, anotar as mudanças e atitudes necessárias para que as coisas aconteçam de verdade?

Os conflitos  acontecem o tempo todo, mas a escolha de quais são necessários para a sua vida e em quais “batalhas” você quer entrar é o que fará toda a diferença em sua vida.

Não se desgaste ou entregue a sua intimidade para qualquer um. Suas lutas devem acontecer com e por quem também luta com e por você.

Você NÃO é você quando se apaixona?

Você NÃO é você quando se apaixona?

Imagine a seguinte situação: você está com muita fome. Deixou passar a hora certa de comer e agora sente seu estômago revirar, reivindicando algum alimento. Paralelamente, é provável que você sinta seu humor também começar a mudar. É seu corpo pedindo. Ou melhor, já praticamente implorando.

E você sai em busca de algo para se satisfazer. Qual a escolha mais provável: que você procure calma e conscientemente uma comida de qualidade ou que opte pela primeira coisa comestível e minimamente apetitosa que aparecer em sua frente?

E mais: que você mastigue tranquilamente cada bocada desse alimento e coma em quantidade moderada ou que engula após algumas rápidas e insuficientes mastigadas e termine comendo mais do que realmente seu corpo precisa?

Se essa situação acontece raramente em sua vida, tudo bem. Mas se você é do tipo que mantém uma rotina desorganizada e vive adiando a satisfação de suas necessidades básicas, é muito provável que você viva com fome e escolha, na maioria das vezes, comidas do tipo “fast” e “trash”.

Resultado: especialmente a longo prazo, nutrientes inadequados, falta de vitaminas, talvez gastrite, talvez sobrepeso, mau hálito, irritabilidade, pele suja, colesterol alto, entre outras várias possibilidades de consequências ruins.

Certo, não sou nutricionista e não é da sua fome física que quero realmente falar. É que outro dia, durante um atendimento, minha cliente soltou a seguinte frase:

Rosana, você já viu aquela propaganda do chocolate que diz que você não é você quando está com fome? Então, eu não sou eu quando estou envolvida, quando me apaixono!

E eu simplesmente a-do-rei a comparação! E para explicar a ela o quanto fazia sentido o paralelo da fome emocional com a fome física, falei coisas do tipo que escrevi acima, no início deste artigo.

Claro! Como humanos que somos, sentimos fome emocional também. Temos necessidade de alimentar nosso coração. Temos, inclusive, um profundo e genuíno desejo de sermos aceitos e amados.

E caso isso não aconteça, ficamos carentes, famintos de atenção. Nosso humor começa a mudar e saímos, rapidamente, em busca de algo para nos satisfazer. Mas, quanto mais demoramos a fazer isso, mais nossas escolhas serão parecidas com aquelas que fazemos quando estamos famintos de comida: “fast” e “trash”.

Ou seja, sem pensar, sem consciência, de forma impulsiva e, pior de tudo, optando pelo que nos faz mal em última instância. Engolindo encontros e relacionamentos que satisfazem momentaneamente, mas que, a longo prazo, nos desequilibram e até nos fazem adoecer, desta vez emocionalmente.

Agora, vem a pergunta que não quer calar! Quando somos bebês e sentimos fome, o que fazemos? Choramos! E o que acontece? O “tetê” chega saudável, rápido e quentinho, pelo menos na maioria dos casos, embora infelizmente nem todos os bebês tenham o privilégio dessa necessidade básica satisfeita.

E quando crescemos? Adianta chorar? Talvez sim, algumas vezes. Mas se você chorar toda vez que estiver com fome, seja de comida ou de atenção e carinho, rapidamente será descartada da roda de amigos e vai se tornar uma chata de galocha. Porque, convenhamos, você não é mais bebê e não deveria se comportar como um.

E o que seria crescer e se comportar como adulto? Bem, pode até chorar de vez em quando, mas em geral, ser gente grande é se tornar responsável pela própria alimentação. É você quem tem de saber, agora, a que horas deve se alimentar e com que tipo de comida, com que qualidade e quais são suas preferências saudáveis.

E, sobretudo, precisa ter o mínimo de disciplina e conhecimento para saber o que te faz bem e o que te faz mal. Não pode esperar para sair em busca do que nutre seu corpo e seu coração somente quando já estiver faminta, implorando, aceitando qualquer coisa, lambendo migalhas e se desnutrindo e destruindo aos poucos…

Por fim, se estamos falando de alimento emocional, é bom que você saiba: é você que se alimenta. E o alimento não é o outro. O outro pode ser uma deliciosa companhia. Pode ser uma agradável parte do ritual de se nutrir. Mas não é o alimento. Não pode ser.

Porém, se você insiste em ver no outro uma apetitosa coxa de galinha ou seu pedaço de pizza preferido ou ainda o chocolate no qual você é viciada, vai ter problemas! Não vai ser você! Vai ser uma pessoa desequilibrada, com certa aparência insana, que assusta o outro ao se aproximar feito bicho faminto.

Comece as e alimentar no ritmo certo. De 3 em 3 horas. Com conteúdos saudáveis, nutritivos e que te fazem bem. Descubra do que gosta. O cardápio é extenso: amigos, caminhar, teatro, ler, cursos,dolce far niente, meditação, música, dança, trabalho, organizar as gavetas, cozinhar, brincar, filhos, sobrinhos, viagem, família, oração, observar, olhar para si mesma, fazer tricô, consertar o carro, desenhar, criar, cortar a grama, conversar, visitar um asilo… E a lista iria bem longe!

Mas, pelo amor de Deus, você precisa parar de acreditar que o outro vai matar sua fome. Não vai. Não existem pessoas mastigáveis no cardápio. Não somos canibais. Não comemos carne humana e nem as emoções alheias para satisfazer nossa carência.

E pode apostar que, ao se alimentar, você será você mesma quando se envolver e se apaixonar. Forte, nutrida, vitaminada e gostosa! Você bem apetitosa para encontros e relacionamentos que vai escolher conscientemente, feito gente grande, pronta para dar e receber – e não para sugar o outro de canudinho e ainda passar mal depois…

A solidão é o meu momento de recarrego

A solidão é o meu momento de recarrego

Às vezes tudo o que eu preciso é de mim mesma.

Dou muito valor aos momentos que eu consigo estar sozinha, no meu canto, no meu ritmo, quieta, desconectada. Acompanhada de um livro, um café fresco, um chinelo velho…

Depois de uma semana corrida, de tanta gente falando, de tantas impressões de mundo, de tanto barulho dos carros, das ruas, dos bares, das notícias nas televisões e das mensagens no celular, é tão importante parar, acordar devagar, sem olhar a hora, os e-mails, a agenda.

Tão renovador deixar o meu corpo comandar o dia quando os pensamentos finalmente me dão um pouco de sossego e eu me permito respirar, comer devagar, dormir muito se precisar, cuidar do gato, tomar um banho longo, sentar na varanda com uma xícara de chá.

Eu gosto de ouvir o silêncio, de não estar em nenhum outro lugar a não ser neste momento, de não fazer nada e não pensar em nada, de não me afobar por querer da vida mais do que apenas isso mesmo.

Eu gosto de colocar as roupas pra lavar, de podar as plantas e colher amoras, de fazer um almoço criativo com as sobras da geladeira, de entrar no mundo da imaginação e escrever uma estória. Eu gosto de esquecer das horas e quando vejo, o dia foi embora, o dia passou como uma nuvem leve e levou com ele todo o sobrecarrego, todos os entendimentos de mundo, o que os outros pensam e ficou aqui dentro apenas eu mesma.

Sozinha eu me curo, eu me desintoxico, eu me recarrego, eu me esqueço do resto, eu ganho meu tempo com linhas de livros e não conversas sem sentido, eu me resgato, encontro o melhor de mim e aí então, volto a sentir prazer em me compartilhar com o mundo.

Ninguém vale a pena se você tem que insistir

Ninguém vale a pena se você tem que insistir

Estamos perdidos em imensidão. É tão grande o mundo e há tanto para se conhecer. Diante de tantas possibilidades, do quão infinitas são as nossas opções, é um desperdício – e uma afronta às oportunidades da vida – gastar tanta energia para tentar ficar ao lado de alguém que já mostrou que não te quer.

Por mais que a gente queira se enganar, hora ou outra a verdade vem feito furacão. Faz bagunça no peito, leva muito embora; mas fugir que não foi nada não é a solução. Em algum momento vai ter que olhar em volta, ver o tamanho do estrago e começar a colocar tudo no lugar.

Amor não correspondido é via de mão única. As tentativas só vêm de um lado e o outro é sempre o primeiro a querer descer do carro. E do que adianta trancar as portas e fazer a outra pessoa ficar lá dentro, uma vez que ela já tomou sua decisão? Você pode tentar ligar o rádio, colocar aquela música que a pessoa gosta, contar uma história para prender a atenção, mas é passageiro. É só um alívio momentâneo olhar para o lado e ver que a pessoa continua ali. Porém, os dois sabem que a viagem tem que terminar, vão acabar chegando no final do caminho e não há distração o suficiente para manter alguém que já fez as malas.

Deixe ir. Tem tanta gente na guia querendo uma carona.

Não importa o quanto você acha que alguém é incrível, porque no final do dia, o mais incrível vai ser fechar os olhos e se sentir em paz. É revigorante se livrar da sensação de batalha diária. Ninguém vale a pena se tira o seu sossego. É difícil aceitar que não conseguiu fazer morada no peito de alguém, mas não é à força que vai entrar lá. Se não foi, não foi. Olhe pra frente, siga o próprio caminho antes que esteja preso em tentativas falhas de cativar alguém.

Por mais que você queira muito que dê certo, não é o bastante. O outro também tem que querer. Pois o amor é essa constante renovação, todo dia se reinventa e está pronto para aguentar o que vier. Mas isso? Isso não é amor, é tortura. E essa insistência em fazer acontecer é pulo do abismo. Não compensa o esforço, deixe ir.

Não se torne aquilo que te feriu

Não se torne aquilo que te feriu

A vida nos dá rasteiras memoráveis, as pessoas nos decepcionam dolorosamente, enquanto nos deparamos com os inumeráveis nãos ao longo de nossa jornada. A dor fortalece e a tristeza nos serve como lição de como se levantar, seguindo sempre em frente. É preciso, pois, tornar-se mais gente a cada queda, a cada lágrima, caminhando na direção contrária de tudo o que nos feriu.

Infelizmente, porém, há quem se mantenha impassível, incapaz de mudar, teimando em manter-se imutável, lutando contra as lições que devemos colher diariamente, por conta da semeadura equivocada que operamos lá atrás. E resistir à mudança, a novos rumos, ao oxigenar de idéias, ao repensar o que acumulamos, de forma reflexiva, acaba por nos endurecer, tornando-nos insensíveis, tornando-nos o espelho de tudo e de todos que nos machucaram.

Tudo o que dá errado e todos que nos roubam devem sempre nos servir como exemplos do que devemos evitar, repudiar, distanciar, fugindo àquilo tudo, na direção oposta. Quanto mais teimarmos em seguir adiante com as causas de nossos desencontros, mais nos vamos assemelhando a elas. A força esmagadora das tempestades que enfrentamos jamais deverá ser mais forte do que a doçura da sensibilidade que guia e alimenta a nossa essência.

Se nos dão as costas, continuemos olhando nos olhos. Se nos oferecem o vazio, continuemos distribuindo imensidão. Se nos ferirem com palavras, continuemos elogiando quem merece. Se nos apresentarem máscaras, continuemos sendo quem somos, pois ninguém destrói e retira aqui de dentro os nossos sonhos mais verdadeiros, a nossa capacidade de amar com sinceridade e transparência.

É preciso coragem absurda para nos mantermos convictos quanto a tudo o que podemos fazer, doar, alcançar, pois a todo momento iremos ser testados, questionados, feridos e derrubados pela pequenez das misérias alheias. Entretanto, caso consigamos nos reerguer com força e dignidade após os embates das noites demoradas de nosso caminhar, estaremos cada vez mais prontos para desfrutar do amor que tivermos semeado, porque não deixamos de acreditar em nós mesmos.

A fofoca morre quando chega aos ouvidos da pessoa inteligente

A fofoca morre quando chega aos ouvidos da pessoa inteligente

Por Valéria Amado

O mecanismo sempre costuma funcionar da mesma forma: há um hipócrita que cria uma fofoca para que o fofoqueiro a espalhe e o ingênuo acredite sem resistência. A epidemia dos rumores só termina quando finalmente chega aos ouvidos da pessoa inteligente, que tem esse coração vacinado que não atende nem responde ao que não tem sentido.

No livro publicado pelo psicólogo social Gordon Allport, “A psicologia dos rumores”, ele explica algo realmente curioso: as fofocas servem para diversos grupos de pessoas criarem coesão entre si e para se posicionarem perante alguém. Por sua vez, essas atitudes lhes são prazerosas, liberam endorfinas e ajudam a combater o estresse.

A língua não tem ossos, no entanto, é forte o suficiente para machucar e envenenar através de fofocas e rumores. Um vírus letal que só desaparece quando chega aos ouvidos da pessoa inteligente.

Em muitos casos, a fofoca se transforma em um mecanismo de controle social que dá uma espécie de poder a quem a pratica. A pessoa se posiciona no centro das atenções desse grupo sempre receptivo a qualquer fofoca, a qualquer informação tendenciosa como forma de sair de suas rotinas e aproveitar esse estímulo novo como uma distração.

Assim como se costuma dizer, os fofoqueiros não sabem ser felizes. Eles estão muito ocupados camuflando suas amarguras em tarefas inúteis e supérfluas com as quais validam inutilmente sua autoestima.

A psicologia da fofoca implacável

A psicologia da fofoca e dos rumores é perfeitamente relevante hoje. Considere, por exemplo, o quão rápido um rumor bem fundado ou infundado chega a “contagiar” o mundo das redes sociais. A internet já é como um autêntico cérebro, onde os dados funcionam como neurônios interconectados para nos alimentar com informações que nem sempre são verdadeiras, nem respeitosas com os demais.

Enquanto isso, os especialistas em marketing e publicidade sempre costumam citar o caso do refresco “Tropical Fantasy” como exemplo da “fofoca fatal e implacável”. Colocado no mercado em 1990, o refresco obteve sucesso quase imediato nos Estados Unidos, até que de repente surgiu um rumor assustador e absurdo.

Dizia-se que estes refrescos baratos haviam sido criados pelo Ku Klux Klan para uma finalidade muito concreta. Seu baixo custo permitia que grande parte da população afro-americana de baixos recursos tivesse acesso a eles. Por sua vez, sua fórmula escondia um propósito obscuro: prejudicar a qualidade do sêmen dos afro-americanos para que não pudessem mais ter filhos.

Ninguém sabe por que ou quem incendiou a chama deste rumor, mas o impacto foi desastroso. A marca “Tropical Fantasy” levou anos para se recuperar, até o ponto de que ainda nos dias de hoje, não deixam de incluir pessoas negras desfrutando da bebida em suas propagandas.

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Não importa o quão delirante, infundada ou maliciosa foi a fofoca em si, pois conseguiu atacar a sensibilidade de um coletivo que desde então desenvolveu uma resistência ao consumo deste produto, apenas com base em um rumor infundado. Mesmo sabendo que não era verdade, a impressão emocional perdura. Este é o exemplo claro de uma das fofocas que foram mais difundidas.

Como se defender de fofocas e rumores

Queiramos ou não, a nossa sociedade está construída à base de relações de poder onde as fofocas e rumores são verdadeiras armas. As verdades manipuladas são úteis para muitas pessoas, pois conseguem se posicionar com elas e obtêm benefícios muito concretos.

Assim, é necessário que sejamos sempre os ouvidos inteligentes que agem como barreira, que freiam a maldade, o que não faz sentido, a informação falsa e a centelha deste incêndio que sempre almeja levar alguém com ela.

Por isso, e para compreender um pouco melhor estes processos psicológicos tão comuns nos nossos contextos sociais, propomos que você leve em conta estes pilares que sustentam a complexa psicologia da fofoca, do fofoqueiro e do ingênuo que acredita.

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A sabedoria popular sempre nos disse que para quebrar uma sequência, basta remover um elo. Se o rumor e a fofoca agem como autênticos vírus no nosso ambiente laboral, familiar ou no nosso círculo de conhecidos, é necessário se cercar de pessoas de confiança para que elas ajam como diques de contenção. Que usem seus ouvidos inteligentes para desarmar o que não faz sentido.

  • As fofocas são difundidas quando há alguém que deseja adquirir notoriedade às nossas custas. Diante dessas atitudes, podemos agir de duas formas: ou fazendo de ouvidos surdos diante do absurdo ou agindo com assertividade, colocando limites e deixando as coisas claras.
  • Temos que ter consciência de que em toda organização, comunidade de vizinhos ou em grupos de companheiros ou amigos, vai haver um “rumorólogo” oficial. Um amante das fofocas.
  • Temos que ser sempre íntegros, transparentes e não alimentar este tipo de atitude de espalhar o vírus do rumor ou da fofoca. Mas é importante saber que não é nada fácil desmascarar um rumor, as palavras nem sempre são suficientes, são necessários fatos contundentes para desmascarar e demonstrar a mentira desta fofoca.

As más línguas vão sempre nos acompanhar de uma forma ou de outra, então o melhor a fazer é sempre evitar ser uma delas e recordar que as fofocas são para as pessoas inferiores, e a informação para os ouvidos sábios.

Saudade é a alma vestida de doce melancolia

Saudade é a alma vestida de doce melancolia

Acabo de ler o delicado “Vermelho Amargo”, de Bartolomeu Campos de Queirós. Lá pelas tantas, cheio de poesia, o autor diz: “Fui, desde pequeno, contra matar a saudade. Saudade é sentimento que a gente cultiva com o regador para preservar o cheiro de terra encharcada.” E parei para pensar na saudade, esse sentimento que de vez em quando dá as caras e tem tanto a dizer sobre nós.

Saudade é suspiro distraído do pensamento, quebra poética da rotina e lugar de recolhimento onde alinhavamos nossas memórias.

Saudade acorda num dia e nos diz que alguém faz falta. Ela desperta sorrateira e avisa que um tempo, há muito deixado pra trás, ainda não saiu de nós.

Saudade é tristeza disfarçada, falta escancarada, impermanência declarada. É paladar reconhecendo gosto de café da infância, bolo com essência de antigamente, fotografia desbotada pelo tempo, caligrafia declarando um amor que não existe mais.

Saudade é sentimento silencioso, de poucas palavras e gestos contidos. É a alma embaralhando o passado com o presente e a gente tentando desatar os nós pra vida seguir em frente.

Saudade é parceira da solidão, do querer sem poder, do desejar vapores de um tempo que já se extinguiu. É presença na ausência, barulho no silêncio, eternidade consentida e bem vinda mesmo que tenha se antecipado o fim.

Não acho a saudade um sentimento dolorido. Ao contrário, ao dar boas vindas à saudade, uma parte de mim desperta e vem à tona. E é me encontrando nesta esquina que sinto meu mundo se ampliar. Porque sei que não caminho sozinha. A saudade _ e todas as lembranças que andam de mãos dadas com ela _ me faz companhia.

Saudade é sentimento para ser conjugado no presente, mas denuncia o encontro da alma com aquilo que no passado soube fazer sentido. É o coração sussurrando: “a vida é feita de ciclos necessários…” e a gente acreditando que está exatamente no lugar que deveria estar, mesmo que carregue o peito cheio de recordações.

Saudade é a alma vestida de doce melancolia, receita da avó em caderno antigo, pausa para sorriso contido no meio da monotonia.

Saudade é falta, mas também presença. Presença de quem está longe mas vive dentro da gente, presença de uma história finda que se eternizou linda, presença de quem fomos na pessoa que nos tornamos.

Bartolomeu Campos de Queirós tem razão. Saudade a gente não mata. Ao contrário, a gente rega para ela não morrer. Pois o que seriam de nossos dias sem a saudade? O que seriam de nossas pausas num café ao meio dia sem a companhia da nostalgia? O que seria do ar de mistério que envolve o sorriso de todas as pessoas que tiveram um passado? O que seriam das músicas cheias de sentimento e dos enredos cheios de poesia?

Saudade é o coração dizendo que tem a capacidade de se restaurar, de continuar, de prosseguir mesmo que fiquem algumas lembranças pelo caminho. É a alma falando que houve outros tempos, outras histórias, mas a vida soube seguir seu curso e cumprir seu papel restaurador.

Que haja coragem e abandono. Coragem para seguir em frente e abandono de saudades desnecessárias. Mas que saibamos respeitar o coração cheio de lembranças, entendendo que é preciso resgatá-las de vez em quando como parte do que somos também, perdoando os momentos em que somos pegos de surpresa, seja no cair da noite ou depois de um sonho bom.

Que saibamos quão bonita é a nossa história, e que sejamos gratos a ponto de aceitar as conquistas, recomeços e aprendizados do mesmo modo que abraçamos os cansaços, as dúvidas e a companhia da doce melancolia, nossa eterna SAUDADE…

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Quem nunca entrou num relacionamento ioiô?

Quem nunca entrou num relacionamento ioiô?

O que será que acontece com esses casais que parecem ter um relacionamento sazonal?

Que enfrentam invernos juntos, se amam, se adaptam, se ajudam, e também discordam, discutem, olham de forma tão diferente para o mundo e então, cheios de dúvidas (mesmo com tanto amor envolvido), se afastam.

Aí caminham solitários, desenvolvem novos projetos, se interessam por outras pessoas, pensam em mudar a vida toda e recomeçar do zero, já que tentaram tanto e assim, nesse outro caminho, racionalmente analisando, parece que a vida faz mais sentido.

Mas aí vem um ímpeto interno, um sentimento bem lá no fundo, uma força de reação àquela saída com tudo, e uma vontade imensa de voltar com o ser amado.

Seria covardia? Apego? Retrocesso? Arrependimento? Medo? Dor de cotovelo?

Só sei que aí começa a fase da reconquista, eles esquecem dos dramas, das dores, dos medos, perdoam, acham que tudo o que aconteceu foi muito pequeno. Voltam os bons momentos, as boas lembranças, a vontade do cheiro, a crença de que não tentaram profundamente e de que agora são diferentes, mais fortes, mais felizes, mais verdadeiros. Tudo vai dar certo, tudo floresceu, como é bom voltar para um porto-seguro, para um amor maduro… Como é bom matar as saudades e esquecer do luto.

E vão, até que em alguns meses, ou semanas, ou dias… volta a apatia, a distância, a dúvida, a fraqueza e a vontade de afastamento.

Serão eles almas inquietas? Apaixonados pela vida? Com medo da monotonia? Humanos e corajosos a ponto de deixarem o ser mais amado experimentar outras viagens? A ponto de arriscarem uma zona de conforto, uma beleza, por um crescimento próprio, por uma vontade intrínseca, por um autodescobrimento?

Por não quererem se limitar, se adaptar demais, se podar e carregar um ao outro, se afastam.
E por nunca deixarem de se amar e compartilhar, de aprender e trocar experiências, de se desejarem, se reencontram.

E o que eles podem fazer a não ser se deixarem ser?
Talvez o que parece instável é o mais verdadeiro.
Ou não. 

Desabafar não é falar mal

Desabafar não é falar mal

Falar, esbravejar, chorar, reclamar. Por mais equilibrada que seja a pessoa, um dia ou outro, ela terá que desabafar. O desabafo tira de nós o peso que nos consome, ajuda a organizar nossos sentimentos e participa do processo de alinhamento e construção de novos pensamentos.

Durante o desabafo reduzimos as censuras, procuramos culpados, canalizamos nossa agressividade. As barreiras têm que ser removidas, as comportas abertas. Assim, livres de convenções sociais, novos caminhos são desbravados para que o assunto indigesto possa fluir.

O segredo do desabafo, porém, reside na escolha do ouvinte: é preciso ter muito cuidado com o que e para quem algo tão nosso- e nem sempre muito bonito- é dito. A escolha de uma pessoa que podemos confiar é o que diferenciará o desabafo da fofoca. Um amigo acolhe, ouve mais do que fala e, quando muito, aconselha. Um amigo saberá diferenciar a necessidade da escuta sem juízo de valor e entenderá que palavras duras podem fluir de um momento em que os sentimentos estão confusos. Um amigo, acima de tudo, não repassará para outro o que foi dito em confidência e num momento de tamanha fragilidade.

Temos que ter clareza de quem são nossos amigos. Temos, também, que saber a quem devemos acolher e ouvir. Não é justo que escutemos alguém por obrigação se nossa escuta não puder ser afetuosa. Não é honesto que escutemos apenas para levar adiante.

Presenciar um desabafo é um ato de responsabilidade: se você não tem maturidade para ouvir, não dê abertura.

Se todos tivéssemos a consciência do valor e do significado de nossas palavras, seríamos mais justos com elas, seríamos mais justos com nós mesmos, seríamos mais justos com o outro que habita a nossa convivência diária.

Na próxima vez em que precisar desabafar, lembre-se que o desabafo, para ser legítimo, é via de mão dupla. Se assim não o for, você estará apenas emanando agressividade e criando espaço para fofocas.

Nota: Esse texto é uma homenagem para minha prima Cláudia, que me disse a frase do título e que me fez pensar profundamente sobre ela.

Imagem de capa: Gregory Colbert

Nunca se esqueçam do quanto vocês já lutaram para ficarem juntos

Nunca se esqueçam do quanto vocês já lutaram para ficarem juntos

Quantos casais em crise, amantes em dúvidas, namorados afastados, não sofrem diante do dilema se vale a pena ou não permanecer, voltar ou retomar a relação, se tentar é o mais acertado ou se desistir é a única saída. Trata-se de um impasse terrível, uma vez que a tomada de decisão implicará ou alimentar um sonho, ou abrir mão dele. E, qualquer que seja a escolha, muita luta ainda haverá a ser travada.

Um conselho a que não se foge é evitarmos agir enquanto estivermos tomados por uma carga muito intensa de emoções, como a raiva ou o ódio, pois muito provavelmente falaremos o que não deveríamos e faremos o que não condiz com nossa índole. Embora devamos usar esses momentos para aparar as arestas e jogar limpo, tudo o que falarmos e fizermos de forma puramente emocional poderá ultrapassar os limites da decência e da ponderação necessárias.

Um de nossos maiores desafios será sempre tentar evitar do arrependimento e do remorso, pois já acumulamos culpas desnecessárias demais para somar mais estas ao rol de contrariedades que emperram nosso respirar tranquilo. Para tanto, esperar a tempestade abrandar, para que consigamos enxergar a situação com clareza, será o mais sábio e prudente, em qualquer situação adversa que atravessarmos.

Será, sim, necessário, muitas vezes, darmos um tempo para ficarmos com nada mais do que nossa companhia, analisando tudo o que vimos ou não fazendo de nossas vidas, no sentido de refletirmos olhando o contexto de longe, a uma distância segura e que nos proteja do outro e de nós mesmos. Será preciso perceber o quanto de nossa dignidade ainda resta e as reais chances de resgatarmos com vida e com afetividade sincera o que se perdeu.

Trata-se de uma viagem de volta, dolorosamente necessária, aos lugares por onde os parceiros já estiveram juntos, felizes, acreditando no sentimento que nutriam, de verdade, um pelo outro. As noites insones ao lado dos filhos, as juras de amor no banco do carro, os bilhetes, beijos roubados, a força do sol se abrindo após os vendavais de suas vidas, a força no aperto de mãos enquanto liam juntos exames médicos. Toda história de amor é formada também por grandes histórias de dor, lágrimas, escuridão e embates, desgastes, rupturas e cicatrizações muitas vezes solitárias.

Não podemos fugir às lembranças das dores e das delícias, das ausências e das presenças, da água e do vinho, da terra e do mar, enfim, de tudo aquilo que já abalou a certeza amorosa, mas foi superado, vencido e digerido em favor do amor que sentimos. Caso reste dignidade, caso haja amor – mesmo ali escondidinho -, sempre valerá a pena tentar e tentar, porque amor recíproco é um sentimento mágico, capaz de trazer luz às escuridões mais dolorosas que existem.

Amor não morre de uma hora para outra, não se for de verdade. E bem sabemos quando é esse amor que nos une ao parceiro – esse pelo qual devemos incansavelmente lutar.

Pessoas azedas não merecem a nossa doçura

Pessoas azedas não merecem a nossa doçura

De repente parece que um furacão invadiu o quarto. A pessoa mal-humorada, já acorda a fim de causar, com a determinação de um missionário em peregrinação. Resmunga em voz alta; reclama; xinga; bate porta; arremessa gaveta. A intenção é claramente perturbar o companheiro (ou companheira, no meu caso), de quarto. Ou, pior! Sequer se lembra que há um companheiro de quarto!

Quem é que pode ser feliz quando é despertado, antes do dia clarear por um trator humano que esqueceu de usar o bom senso e já não faz a menor ideia do que seja gentileza, ou delicadeza há algum tempo?

Quem não funciona assim, na base do azedume, e ainda por cima tem uma paciência que beira o infinito, corre o risco de cair com enorme facilidade nas malhas ácidas da manipulação de um ser humano azedo. A fórmula é tão simples quanto incoerente, de um lado alguém que luta para estabelecer um ambiente de harmonia, leveza e companheirismo; de outro, um ogro (ou ogra) que já estabeleceu um comportamento isolado e construiu em volta de si mesmo uma casca impenetrável.

É claro que uma hora aquele que passou tempo demais tentando adoçar o azedume do parceiro, cansa. Cansa de buscar uma conexão. Cansa de insistir na relação. Cansa de lutar por um espaço afetivo onde haja um encontro que justifique a convivência. Cansa de ficar cansado. E, por fim, corre o risco de ver despertar em sua própria maneira de funcionar, um comportamento que destoa de tudo em que acredita.

Quando vai perceber, aquele que costumava ser doce, alegre, amoroso e brincalhão, transformou-se numa caricatura de si mesmo, alguém que perdeu o prazer de estar junto; alguém que anda irritado por qualquer coisa; alguém que está exausto de persistir sozinho numa missão que deveria ser cumprida a dois.

É muito difícil conviver com pessoas azedas. Elas se metem todos os dias em togas invisíveis, prontas para julgar o mundo, para determinar segundo sua lógica distorcida, o que é certo e errado. Têm ares de sabedoria, mas são emocionalmente ignorantes.

Estão sempre com o dedo em riste, prontas para apontar defeitos. Não aceitam ninguém que seja diferente delas, que pense algo diferente ou que faça o que quer que seja, de um outro jeito que não seja o jeito delas. Escolhem com quem e quando é conveniente ser “legal”.

Em geral, são muito metódicas e perfeccionistas. Não toleram nenhum erro alheio. Estão sempre atentas a qualquer deslize do outro. Pensam que nunca erram. Acham que todos os seus defeitos devem ser perdoados. Só escutam o que lhes convém. Humilham pessoas à sua volta por motivos banais. E, quando confrontados, negam seu comportamento, acham graça na sua exasperação e, não raras vezes, deixam você falando sozinho.

Nas raras vezes em que estão de bom humor, acham que todo mundo tem obrigação de festejar a sua alegria. Gente assim é um verdadeiro teste de paciência diário. Sou capaz de amá-las. Afinal, o desafio está justamente em amar aqueles que te fazem duvidar do amor.
Mas não me peça para reverenciá-las ou desperdiçar com elas a minha biológica habilidade de ser doce e generosa. Hipocrisia não faz parte do meu vocabulário!

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