Solidão a dois segundo Simone de Beauvoir

Solidão a dois segundo Simone de Beauvoir

 

O que você banca? Será mesmo que banca ou apenas gostaria de bancar?

Essa é a pergunta secreta que Simone de Beauvoir não faz ao longo das 254 páginas do livro “A Mulher desiludida” (Editora Nova Fronteira), mas acaba nos incitando a respondê-la.

Os três contos (A idade da discrição, Monólogo e A mulher desiludida) apresentados no livro são narrados por mulheres que passam por crises em seus relacionamentos e que mergulham no sentimento de solidão e fracasso na tentativa de entender e resgatar suas identidades perdidas. Mulheres que experimentam a famosa “solidão a dois”.

A história que leva o título do livro, em si, não tem nenhuma originalidade: um homem de meia idade, uma mulher de meia idade e uma jovem atraente de trinta e poucos anos. Um triângulo amoroso.

Ele sente culpa por não conseguir deixar a mãe dos filhos, ela sente medo de perdê-lo porque já não sabe quem é sem ele – passou a vida se dedicando aos filhos e ao marido – e a amante cobra atenção e posicionamento.

Historinha batida que qualquer folhetim da TV Record apresenta ou que corremos o risco de viver na vida real quando nos deixamos levar por um sorriso de canto e um terno bem cortado.

Só que folhetim algum esfrega em nossa cara a pergunta: “você banca”?

Monique, a mulher traída, quis bancar. Fingir indiferença, acreditar que o marido precisava apenas de uma aventura. Maurice, o homem culpado, quis bancar a ideia de dois relacionamentos ao mesmo tempo, onde uma mulher tem consciência da existência da outra.

Nas palavras de Monique:

“Terminei cedendo. Já que adotei uma atitude conciliadora, compreensiva, devo restringir-me a ela. Não fazer-lhe frente. Se estrago sua aventura, ele a embelezará a distância, terá saudades. Se lhe permito vivê-la, como quer, até o fim, “corretamente”, sei que se cansará depressa”.

Em outro trecho:

“Todas as noites eu o chamo: não ele, o outro, aquele que me amava. E pergunto-me se não preferiria que estivesse morto. Eu me dizia: a morte é o único mal irreparável. Se ele me deixasse, eu ficaria curada. A morte era horrível por ser possível, a ruptura suportável, porque eu não a imaginava. Mas realmente, eu digo, se ele estivesse morto, eu saberia ao menos quem perdi e quem sou. Não sei mais nada. Minha vida, atrás de mim, desmoronou”.

Monique e Maurice tentaram viver “o ideal” e aos poucos se perderam de si. Porque o ideal não existe. Em certos casos o ideal só existe para nos fazer companhia, não para ser real. Porque o ideal, de verdade, não é o que imaginamos ser o melhor, mas o que aguentamos.

Para quem anda ultrapassando os próprios limites, tentando levar uma vida da qual não dá conta, tentando viver um personagem que não cai bem na própria pele – inclusive num casamento ou namoro fracassado – a leitura de “A mulher desiludida” é de grande valia.

Assim falou Beauvoir em “A mulher desiludida”:

 “Em Maurice, como na maioria dos homens, dorme um adolescente não muito seguro de si”.

 “Quando se viveu de tal maneira para os outros, é um pouco difícil começar a viver para si”.

 “As mulheres que não fazem nada não suportam as que trabalham”.

 “Os homens escolhem sempre o mais fácil”.

 “Para conhecer suas limitações, seria necessário poder ultrapassá-las: é como saltar por cima da sua sombra”.

 “Maurice não é um calhorda. É um homem acuado entre duas mulheres: ninguém é brilhante num caso assim”.

 “Quando me entrego às obsessões minha inteligência não está mais disponível”.

 “Quando se bate em uma pedra, sente-se primeiro o choque, a dor vem depois”.

 “O telefone não reaproxima, confirma distâncias”.

 “É tão exaustivo detestar alguém que se ama”.

Livrai-me de perder tempo tentando impressionar

Livrai-me de perder tempo tentando impressionar

Eu começaria uma oração assim e faria as promessas necessárias para garantir êxito. A missão de impressionar me parece, além de um castigo interminável, uma extenuante e infrutífera perda de tempo.

Impressionar é causar alguma impressão, mas não necessariamente a impressão desejada. Ainda menos garantido é o retorno esperado. Nós, pessoas, somos extremamente exigentes com os outros, implacáveis, imperdoáveis. Ainda que impressionados, arrumamos um jeito de criticar e desvalorizar.

Tentar impressionar é tirar o foco de si mesmo e projetá-lo no outro, é fazê-lo protagonista da sua história. É implorar a provação desnecessária, abrir mão da satisfação pessoal e se submeter aos critérios alheios, muitas vezes duros e injustos, motivados por desprezo, malícia, leviandade, indiferença e até mesmo, inveja.

Uma vez aberta essa porta, por ela passam todas as opções possíveis, desde votos encorajadores e incentivadores, até a famosa torcida contra, determinada a estragar qualquer chance de vitória.

Quando você se esforça para impressionar, se coloca numa posição delicada, fazendo saltar fragilidades e traços vulneráveis. Não tente impressionar, não se esforce para chamar a atenção, não se troque por uma crítica displicente.

A tentativa de impressionar revela insegurança. É mira equivocada num alvo imaginário.

Dica boa para deixar o tempo trabalhar a nosso favor: Nenhum esforço justifica o julgamento alheio, nenhuma iniciativa é recompensada se não for em proveito próprio. A quem dermos o poder de julgar, também terá o controle de nossas opções.

Não impressione, viva! Discreta e indiretamente esse movimento impressionará muita gente. E mais do que isso, inspirará!

Se quiser mesmo ter visibilidade e reconhecimento públicos, realize algo notório, admirável, inesquecível. Se não for possível, use a discrição como aliada, o livre arbítrio como ferramenta e seu próprio julgamento como moderador.

E então, sem mais nenhum esforço para impressionar, haverá tempo e disposição de sobra para desfrutar a vida de forma IMPRESSIONANTE!

Adoro quem fala olhando no olho e olha bem o que fala.

Adoro quem fala olhando no olho e olha bem o que fala.

Elas estão em falta. São raras, cada vez mais valiosas. Quem tem uma, duas, três por perto, cuida. Mas cuida bem. Merecem o maior cuidado as pessoas que escolhem o que vão dizer, não por terem o que omitir, não porque querem agradar ou por falsidade, não por falsa inibição ou ausência de franqueza. Elas são assim porque respeitam as outras. Porque pensam antes de falar, porque prezam quem vai ouvir. Essa gente deve ser preservada, sim.

Bom senso mesmo, bom senso que não se anuncia mas se pratica anda escasso, bissexto como a honestidade que anda junto à gentileza. É que pouca coisa no mundo é mais doce e mais terna que a franqueza, a expressão generosa de uma alma boa, a sinceridade, essa coisa preciosa que os imbecis deram de confundir com grosseria e má educação. Imagina! Só mesmo uma mula há de afirmar que ser sincero é o mesmo que distribuir coices por aí.

Gente gentil de verdade fala olhando no olho e olha bem o que fala. Não sai espalhando palpite. Não enfia o bedelho onde não é chamada. Valoriza as próprias opiniões a ponto de pensar antes de panfletá-las aqui e ali. Tem respeito pelo ouvido e a paciência do outro. Gente gentil vai rareando faz tempo.

Essa gente que pede licença antes de entrar, que prefere ouvir a falar, que diz o que pensa mas o faz com apreço e delicadeza merece ser cuidada como flor sensível, sob o risco de ser pisoteada pelos gênios competitivos que transformaram a vida numa corrida de cavalos.

E a vida não é isso, não. Não precisa ser. De violento e incontornável basta o tempo. A vida há de ser mais leve e mais feliz quanto mais surgirem pessoas que falem olhando no olho e olhem bem o que falam. Gente que toma o cuidado de tratar o outro com respeito e com carinho. Que gosta de bicho e gosta de gente. E que não tem medo de dizer o que pensa mas tem a decência de pensar no que diz.

Carta para um estranho

Carta para um estranho

Eu te vi dia desses, distante, fingindo concentração nos papéis enquanto se perdia na extensão da mesa. Parecia pedir licença, como se soubesse ser observado. Eu cedi. Desviei o olhar com a sua presença colada na minha perplexidade. Permaneci. E por vezes me desviada discretamente para o seu mundo.

Desconhecido, isolado. Eu te assistia rodeado de bajulações. A vaidade e o orgulho saltando pelas pupilas prezas a uma moldura desgastada, sombria, profunda, disfarçada com um verniz fino feito de sorrisos forçados. Seus gestos exageros e palavras treinadas como os de um ator de teatro. As frases prontas. O discurso lacônico. O que tinha que ser feito.

Por trás dos seus olhos eu imaginava declarações de amor queimadas. Cinzas. Sonhos rasgados. Contas em dia. Um álbum de retratos em linha do tempo para comprovar a maturidade adquirida. Um baú de segredos bem guardados, adornado em ouro e coberto de pó. Uma resistência intensa em viver apesar dos trejeitos de maquete. Uma resistência intensa de viver para manter a forma.

Uma paixão pelo caos contida pelo medo da autodestruição. Inseguranças monstruosas que povoavam seus pesadelos pacíficos. Um tanto de homem escondido no bolso interno do terno. Eu não sabia quem era você, mas os que te abraçavam, te beijavam e compartilhavam mais dos seus dias, também não sabiam. Não sabem.

Eu te vi outro dia, exibindo o brilho falso de uma vitória fácil. Frágil por trás do olhar apaixonado esculpido em pedra sabão. Eu não sabia bem se você percebia o quando se perdia nas palavras, que se esvaziavam, minavam, minguavam quanto mais os sons saiam dos seus lábios.

Vendo-o inteiro me contive tentando compreender a contradição. Com todos os dons que tem, por que age tão fraco, vestindo-se de armaduras tão pesadas que lhe privam o movimento? Nunca soube bem se é a ilusão do ápice ou o medo de alcançá-lo que impede tantos de ir além. Se assemelhava a figura de um baile nobre do século passado perdido entre as paisagens urbanas e suburbanas.

Mas, outra vez antes eu te vi de calça jeans e óculos escuros e você também não parecia daqui. Não parecia de lugar nenhum. E esse estranho eu amava.

Sem nunca ter perdido a certeza da minha própria naturalidade, com provas se fizesse questão, eu pairei sem graça ante a ironia de te ver tão falso. Parece que se pintou de ouro, todas suas cores indiferenciadas então, uma escultura em movimento. Lento. Perdeu muito dos seus traços, alisados pelo material polido.

Foi vencido pelos estereótipos quando podia ter vencido apesar deles. Um mal de muitos. Mais valia a carne em toda a sua decomposição, calor e tempo formando sulcos no rosto – linhas tímidas que se revelavam no sorriso torto. Era proposital, mas verdadeiro como não é o sereno e comedido esticar de lábios atual.

Eu assisto à peça sem esperar pelo final, quando o ator deixa o personagem. Seriam agora um só? Casca de improviso ou fusão irreversível? Te entrego as interrogações para viver minha vida de reticencias. Foram-se as resistências. Algumas vitórias são amargas.

Deixei as armas no arsenal das ilusões para te assistir de longe. Aos poucos vou substituindo as esperanças do por vir pela lembrança do que foi. Eu vi. Quando sua luz era inteira você e não um artefato. Eu vi como quem está perto demais não pode ver.

Tantos pensam que se conhecem pela proximidade, mas é apenas de uma certa distância que podemos ver mesmo – quando o observado não pode se esconder por trás das expectativas que acredita precisar corresponder. Eu vi, porque eu não era importante, então, você podia apenas ser. E era tão bem. Era. E talvez volte a ser algum dia, quando a maturidade realmente chegar e você não precisar mais encená-la.

Quando finalmente perceber tudo de precioso que tinha e tudo de precioso que tem, tão lá dentro guardado, se não for antes molestado pela amnésia da amargura. Quando você se permitir parecer o que quiser, porque sabendo quem é, não tem medo que te julguem. Quando tiver noção de que a sua força não está no olhar dos outros, mas na sua capacidade de fazer.

Até lá eu te olho de longe, endosso a tristeza com distrações fúteis para que ela não me leve tão distante que eu não possa mais voltar, nem ver. Te observo como quando passo por um estranho na rua; e se ao meu lado, como um passageiro, mantenho o olhar perdido no vazio; enquanto fala eu escuto um palestrante, assisto uma peça, com sorte, escuto um canto, respondo como a um RH. Me canso e escolho sempre que posso o silêncio, uma presença quase imperceptível.

Me perco em entender o que me mantém por perto – talvez um resquício vivo ainda emita alguma vibração, algum poder invisível de atração. Luto? Fico como quem fixa o olhar no céu escuro esperando pela luz da lua quando é lua nova. Fase? Às vezes eu vejo estranhos na rua eu te imagino como se fosse o que é qualquer um outro, naquele lugar, naquele uniforme, fazendo aquela atividade, com aquele carro ou aquela roupa outra. Chego a rir de te transfigurar para as situações mais absurdas e me dar conta de que ainda seria o mesmo. Mas você não sabe disso.

A desagradável tarefa de fazer-se odiar- Martha Medeiros

A desagradável tarefa de fazer-se odiar- Martha Medeiros

Por Martha Medeiros

Pais de família estão cada vez mais participativos, atuantes, necessários, afetivos, fundamentais na criação dos filhos, ao contrário do que acontecia nas gerações anteriores, quando o pai era uma figura cerimoniosa, o provedor que detinha a última palavra nas questões graves e terceirizava o resto. Hoje não. Hoje os pais deitam, rolam, se embolam, se envolvem nas pequenezas cotidianas, são quase mães.

Quase. Porque tem uma coisa que a maioria deles ainda não consegue assumir: a desagradável tarefa de fazer-se odiar.

Li essa frase num livro (em outro contexto) e achei que fechava perfeitamente com a maternidade. O que é ser mãe, senão tomar para si o papel de chata da família?

As cobranças do dia a dia são especialidade nossa: o que comeu, o que vestiu, se tomou banho, a toalha no chão, os garranchos, o blusão amarfanhado, a luz que ficou acesa, liga pra tua vó, o estado deplorável do tênis, a hora em que foi dormir, segura direito esse talher, deixa de preguiça, cuidado ao atravessar, não durma de cabelo molhado, largue esse computador, menos palavrão, hora de acordar, a consulta no dentista, e esse amigo mal encarado, e esse decote provocante, convida os teus primos, não tranca a porta à chave, fecha a janela, abre a janela, não corre pela casa, me avisa assim que chegar, tu anda bebendo?

Não que o pai seja relapso, mas se ele ainda vive com a mãe das crianças, a patrulha cotidiana possivelmente ficará a cargo do sargento de saias. Nós, tão femininas, tão doces, tão sensíveis, tão amorosas, não pensamos duas vezes em abrir mão desses nossos suaves atributos caricaturais a fim de manter a casa de pé, a roda girando, a vida funcionando, todo mundo no eixo. Se tivermos que ser antipáticas, seremos. Se tivermos que ser repetitivas, que jeito. Controladoras? Pois é. Alguém tem que se encarregar do trabalho sujo.

É uma generalização, eu sei, mas amparada no senso comum. Os pais mandam, ralham, brigam, mas raramente perdem a cabeça, quase nunca gritam e se estressam. Eles têm essa irritante capacidade de manter a boa reputação com os filhos. Se forem obrigados a escolher um lado durante o barraco, dirão que estão do lado da mãe, que estão de acordo com tudo o que ela disse, mas irão piscar para o filho quando ela não estiver olhando.

Ao fim e ao cabo, mães dão conta de todas as crianças da casa. Todas.

É o nosso papel: reger a orquestra familiar ofertando nosso melhor, mesmo que ele seja confundido com nosso pior. É o risco que corremos, mas não há outra maneira de educar. O excesso de zelo pode ser estafante, mas é preciso segurar o tranco de ser odiada um pouquinho a cada dia a fim de garantir um amor pra sempre.

São tempos difíceis para os sonhadores

São tempos difíceis para os sonhadores

No filme “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”, um dos meus filmes preferidos, em determinado momento é dito para Amélie, uma jovem sonhadora, a seguinte frase: “São tempos difíceis para os sonhadores”. Curiosamente o filme é francês, a mesma França em que gritaram por liberdade há muito tempo. O fato é que essa liberdade não foi alcançada e, assim, o mundo cheio de estatísticas e variáveis, números e contas, não é um lugar aconchegante para aqueles que são acostumados a sonhar.

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Vinicius certa feita escreveu sobre a esperança que os poetas carregam e que essa luz é o que lhes permite incansavelmente tentar dobrar a realidade. Ser sonhador, antes de qualquer coisa, é ter essa luz dentro de si, é não conseguir se acomodar diante da indiferença, é não se adequar aos padrões impostos, é ter a loucura de acreditar ser possível mesmo quando todos dizem não ser, é ter a capacidade de enxergar além do óbvio e perceber nas pequenas coisas a verdadeira felicidade.

Nosso mundo cheio de regras e condicionamentos é um lugar em que os sonhos não encontram terra arada para que possam florescer e, assim, temos percebido uma geração cada vez mais triste, frustrada com suas escolhas profissionais, vivendo de maneira mecânica e robotizada. Desse modo, temos levado vidas melodicamente tristes porque somos incapazes de diferenciar uma jibóia engolindo um elefante de um chapéu, tampouco, possuímos a sensibilidade para entender que somos formados pela “soma de pequenos e belos detalhes” e que são esses detalhes que nos tornam a pessoa que somos e nos confere beleza.

Podar os sonhos das pessoas, a fim de transformá-las em massa de manobra de uma sociedade sufocante, um decalque de um modelo-padrão, nem de longe é saudável, muito menos torna a vida um lugar melhor e mais bonito. Todos nós nascemos livres e, portanto, por mais que existam grades tentando nos prender, ainda possuímos o direito de sacudi-las e proporcionar um dos mais belos sons da vida – o som de almas querendo exercer o direito de voar.

Talvez seja difícil compreender indivíduos que carregam tanta paixão dentro de si, pessoas que não se contentem em ser apenas mais uma etapa de uma produção em série. Os sonhadores não se contentam com o mundo como ele é, porque isso é sempre a decisão mais cômoda. Sonhadores não se satisfazem apenas copiando o mundo, pois eles possuem magia e esta lhes permite a audácia de construir novos mundos.

A bem da verdade, não é fácil ser um sonhador em um mundo tão pragmático, onde as emoções são apresentadas no plano cartesiano, como se tudo que sentíssemos pudesse ser mensurado através de fórmulas matemáticas. Não é fácil porque toda vez que decidimos alçar vôos mais altos, tratam de cortar as nossas asas, já que quem caminha uma vez pelo céu, jamais vai se contentar com o interior de uma gaiola.

Lembrando Shakespeare:

“Enquanto houver um louco, um poeta e um amante haverá sonho, amor e fantasia. E enquanto houver sonho, amor e fantasia, haverá esperança”.

Sendo assim, a vida precisa dos sonhadores, já que sem eles, a luz a que os poetas dão o nome de esperança desaparece e a vida torna-se um lugar muito escuro, cheio de neblina e gelado.

A vida fica sem graça e nós… Ah, nós paramos de sentir e tudo se torna mecânico e desprezível, pois, como disse, quem um dia conhece o céu, jamais se acostuma com gaiolas. Nós tão somente fingimos que nos acostumamos, porque não temos coragem para ser o sonhador que habita o quarto dos fundos do nosso peito e, assim, esses tempos tornam-se difíceis para os sonhadores, que não querem nada além da liberdade de poder enxergar nas pequenas coisas as maiores felicidades da vida.

Inadimplências

Inadimplências

Hoje recebi uma cartinha carinhosa. Tão carinhosa que custei a perceber que se tratava de uma cobrança. Esqueci de pagar o boleto de um curso e então me enviaram o lembrete afetuoso, mas firme. As entrelinhas diziam claramente: – Apesar de gostarmos muito de você, há um compromisso não cumprido na nossa relação.

Me envergonhei pela displicência e gastei um bom tempo pensando nas inadimplências da vida.

Não cumprir um compromisso por falta de recursos exige, sem dúvida nem hesitação, que se dê uma satisfação. É o mínimo que merece o credor, já que não vai receber o acordado.

Deixar de realizar um prometido é igualmente uma dívida não justificada, uma inadimplência. E como nos tornamos devedores pela vida afora.

Ficamos devendo aquela ligação de aniversário, a receita da sobremesa tão elogiada, uma ligação para o medico para avisar que não iremos comparecer, a doação que prometemos para uma causa que nos tocou, um tempo para gastar com aqueles planos de qualidade de vida e muito mais.

Dívidas são inconvenientes, aborrecidas, magoáveis, difíceis de esquecer. Muitas vezes são a razão de uma bruta insônia. Ficar devendo não é o mais grave. Pode acontecer. As circunstâncias são diversas.

Ruim é fingir esquecimento, se esforçar mais por desculpas do que pelo cumprimento, desviar toda a vida para não topar com o credor. Já aí a inadimplência faz casa e dita que veio para ficar. E as dívidas só tendem a se acumular.

Prometer é um ato banal. A responsabilidade sobre a promessa é outra coisa!

Se crédito já é um perigo para as finanças, imaginemos no campo pessoal, que envolve confiança, esperanças, sentimentos, emoções. Para esse tipo de inadimplência, não tem dinheiro que pague.

Por tudo o que a expectativa de um acordo não cumprido pode gerar, eu fico com a citação de um autor desconhecido que diz muito sobre usufruir, cumprir e se despedir:

“Beba moderadamente, pague honradamente e saia amigavelmente.”

Às vezes, fica difícil …

Às vezes, fica difícil …

A vida não é de se brincar porque em pleno dia se morre.
Clarice Lispector

Às vezes, fica muito difícil respirar profundamente a vida; a alma parece querer esvair-se, fugir. Sente-se oprimida, e os motivos talvez só ela conheça. Quando a alma pede um tempo, a gente perde o rumo, a alegria e a esperança. Nossos gestos, movimentos e tudo o mais parecem tão lentos, tão vazios, e a vontade é de ir junto com ela, mesmo não sabendo para onde.

Essa sensação desarruma tudo, faz a maior bagunça, e nunca estamos preparados, mesmo sabendo que isto pode acontecer. É assim como o Sol que, de repente, desaparece no meio das nuvens, como o vento que sopra com força e derruba árvores, como uma onda do mar que nos pega desprevenidos e quase nos afoga.

Às vezes, fica muito difícil viver neste mundo do jeito que está. São tantos melindres, tantas vaidades, contrariedades, competições, desamor, voracidade, que a vontade é abandonar o barco. São tantas indiferenças, maus tratos, obrigações, deveres, contrariedades, que a vontade é gritar bem alto: “Pare, quero descer”!

Mas descer e fazer o quê, abandonar o barco e ir para onde, dar um tempo e fazer o quê?

Sempre soubemos que viver dá trabalho, mas até aí tudo bem. O que não dá para aceitar, é ver o viver vivendo tão mal assim. O que não dá para aceitar é ver tanta crueldade, tanta indiferença e ignorância, tanta coisa feia e podre.

Às vezes, fica muito difícil ficar mudo, cego e surdo, permanecer em nosso lugar, não meter o nariz onde não fomos chamado, não colocar a colher em briga de marido e mulher, fazer-se de “mané”, ser paciente e esperar pela nossa vez.

Frente a tantas irregularidades, excesso de mau caráter, falta de vergonha, de abuso de poder ou tantas outras mazelas, o desânimo acaba por falar mais alto.

Desculpem-me, mas…
Às vezes, fica muito difícil viver…

Tô sem tempo de ser infeliz

Tô sem tempo de ser infeliz

Tô sem tempo de ser infeliz. Não dou vazão para esses descabidos de sentimentos. Pessoas enrustidas dos desinteresses por gestos simples e abraços acolhedores. Não dá mais, sabe? Conviver com essa falsidade e ambição constante pela felicidade do próximo e seus respectivos destinos. Discursos ausentes da reciprocidade que anda tão em falta. Coração seco desconhece inteiros.

Patinamos nessa procura de um tempo em paz, mas o que fazemos para alcançá-la? Esbarramos na efemeridade dos dias e, pouco sentimos, pouco somamos. A disputa isenta de carinho, versos soltos e outros afagos torna tudo opaco dentro do peito. Atitudes menos desejosas que essas, corrompem até a mais equilibrada das almas. Por isso escolho prezar pela proximidade dos otimistas. Daqueles seres coletivos que não se perdem por amores a mais. Ficar debruçado na vida, esperando o momento certo de ser feliz, é jogar com cartas marcadas de comodismo.

É muito bonito sentir a vida desabrochando conforme os nossos anseios, mas faz-se necessário buscar algo que tire os pés do chão. Lançar-se na coragem eufórica da própria vontade em ter novos sóis, experiências e relações. Medir espaços aqui e acolá, na vil esperança do encontro para o seu conforto, cria lacunas difíceis de serem preenchidas.

Bota mais energia nesse copo chamado viver. Deixa derramar e, se for o caso, compartilhe. Porque insuperável é indivíduo coberto da falta de empatia. Ele perde muito mais do que pode ganhar. Egoísta, maltrata e não percebe a diferença entre gentileza e repulsa.

Tô sem tempo de ser infeliz. Não procuro mais meios sorrisos. Cheguei num certo ponto do caminho, onde mudar me interessa. Renovar a si, absorver novos conhecimentos e, sempre que possível, colher cada sentimento recebido e retribuí-lo novamente ao mundo.

Nada de asperezas. Nada de desencontros. Tudo adiante e mais um pouco, felicidade.

Pelo direito de postar fotos felizes no Facebook

Pelo direito de postar fotos felizes no Facebook

Não é possível mensurar o BOM SENSO, entretanto a sua definição na Wikipedia diz:

“Bom senso é um conceito usado na argumentação que está estritamente ligado às noções de sabedoria e de razoabilidade, e que define a capacidade média que uma pessoa possui, ou deveria possuir, de adequar regras e costumes a determinadas realidades considerando as consequências, e, assim, poder fazer bons julgamentos e escolhas. Podendo, assim, ser definido como a forma de “filosofar” espontânea do homem comum, também chamada de “filosofia de vida”, que supõe certa capacidade de organização, auto-controle e independência de quem analisa a experiência de vida cotidiana.”

Tendo em vista o conceito acima, fica claro que nenhuma decisão que tomamos pode ser considerada certa ou errada, sem que uma análise do que é razoável seja pensada (até mesmo no Direito isso é avaliado). Assim são as fotos que aparecem no Facebook e que dizem respeito àquele que as postou.

Embora entendamos que algumas pessoas cometam excessos: o perfil é pessoal e nele o usuário, desde que siga as regras da plataforma,  decide quanto de si quer mostrar – ainda que o que opte por exibir seja julgado como um exagero pela maioria das pessoas.

Eu já bloqueei um “colega” de Facebook, simplesmente porque estava cansada de ver suas fotos de viagem. Eram centenas e centenas. E ele não não parava de postá-las. Aquilo me cansava pelo excesso. Entretanto, mesmo que tenha ferido os meus critérios pessoais de bom senso, ele tem, tinha à época, e continuará tendo, todo o direito de postá-las, mesmo que eu opte por não vê-las mais.

Não é diferente com pessoas que exageram nas postagens de animais doentes, assuntos de política ou mesmo opiniões religiosas. A cada um reserva-se o direito de escolha.

O que me chama a atenção, entretanto, é que o descompasso de alguns acaba por gerar críticas coletivas. Qualquer um que esteja em uma rede social deveria se sentir à vontade para postar imagens, mesmo que seja apenas de fotos felizes. Vivemos inúmeras situações sociais, aniversários, casamentos, viagens, encontros com os amigos e a visibilidade da plataforma torna a interação e a exposição muito mais caracterizada.

Lembro-me que na minha cidade, quando menina, após o carnaval, nós íamos à loja do fotógrafo para ver as fotos que tinham sido tiradas na noite anterior. E queríamos ver as fotos de todo mundo, não apenas as nossas. Essa curiosidade pelo que é do outro é algo comum, mas que foi exacerbado pela praticidade das ferramentas atuais.

Só as pessoas que estão dentro das relações têm o poder de decidir se querem ou não ver o que e quanto o outro decidiu mostrar.  Se estamos vendo carências, exibicionismo, fuga da realidade ou o que quer que seja, na exposição alheia, é a interação entre nós e e o resto do mundo que dirá se devemos ou não continuar a olhar. Afinal, se o filme é ruim para você, que força misteriosa é essa que o faz continuar assistindo?

Estudo que levou 13 anos mostra se seu relacionamento pode durar ou não

Estudo que levou 13 anos mostra se seu relacionamento pode durar ou não

Por Luiz Higino Polito

Após estudar mais de 160 casamentos por 13 anos, um professor e psicólogo afirma que consegue prever se um casamento será duradouro ou não.

Ted Huston, professor de psicologia e ecologia humana da Universidade do Texas, após seu projeto de pesquisa de 13 anos, analisando 168 casais desde o início dos seus casamentos, chegou a algumas conclusões muito importantes.

O resultado desse estudo podemos ver na matéria escrita por Aviva Pats, na Revista Seleções de Janeiro de 2001, no artigo “O Seu Casamento Vai Durar?” Neste artigo, lemos que o pesquisador Huston afirmou que “Os primeiros dois anos são fundamentais (num relacionamento). As mudanças que ocorrem nesse período revelam muito sobre o destino do casamento.”

Quais mudanças num relacionamento permitem prever seu destino?

O pesquisador citado na reportagem diz que o que mais o surpreendeu foi descobrir que perda do amor e do carinho são os maiores prenúncios de possíveis naufrágios dos casamentos, e não o aumento dos conflitos nos relacionamentos.

Ted Huston também observou que muitas abordagens terapêuticas para ajudar casais que enfrentam problemas estão equivocadas: elas se concentram mais em tentar “resolver os conflitos”, quando deveriam se “concentrar em preservar os sentimentos positivos”.

Podemos concluir então, de acordo com o estudo citado, que não são os desafios que um casal enfrenta, tais como dificuldades financeiras, por exemplo, que costumam colocar um fim a tantos relacionamentos, mesmo porque todos nós conhecemos inúmeros casais que enfrentaram terríveis desafios e continuaram juntos e felizes. Tais casais que não se separaram mesmo passando por dificuldades, em muitos casos, provavelmente conseguiram manter acesa a chama do amor e do carinho.

A “cola” do amor

      • Se fôssemos simplificar bastante as coisas, poderíamos dizer então que o amor entre um casal seria uma cola que os mantém unidos? Quanto mais forte tal “cola”, portanto, mais firme e duradouro será o relacionamento. “Cola” fraca, ao contrário, pode não conseguir manter unido o casal, quando surgirem os vendavais da vida.

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Como aumentar ou fortalecer o amor?

É possível fortalecer o amor, desde que os cônjuges estejam realmente interessados no sucesso do relacionamento e se esforcem para fazer o parceiro (ou parceira) feliz. Fazer o parceiro feliz, aliás, é uma das melhores maneiras de aumentar o amor num relacionamento. Pode ser que existam pessoas tão insensíveis que mesmo recebendo torrentes de amor e de carinho, não se tornem também mais amorosas. A probabilidade de quem demonstra amor ser mais amado, porém, é muito maior.

Vale repetir aqui o que já escrevi outras vezes: vi e ouvi um padre dizer muitas vezes que, “se você quer casar para ser feliz, não case; mas se você quer se casar para fazer a outra pessoa feliz, então case!”. Eu ouvi isso em tantas ocasiões em que trabalhava como músico nas cerimônias de casamento, que tais palavras ficaram gravadas indelevelmente em minha alma. Esse conselho tem sido útil em minha vida muitas vezes, pois quando lembro dele, eu procuro fazer alguma coisa (mesmo que seja uma coisa bem simples) para alegrar a minha esposa. E funciona mesmo!

Um tesouro perdido

Quando demonstramos amor para uma mulher, recebemos em troca uma tonelada de carinho. Muitos homens, por não saberem disso, desperdiçam um tesouro, que para eles está perdido, que é o tesouro de se ter uma mulher bem-amada.

Título original: Estudo que levou 13 anos mostra se seu casamento pode durar ou não

Fonte: Família

Quem nunca sonhou em ter um amor assim?

Quem nunca sonhou em ter um amor assim?

Acordo, ainda um sonho morno brinca nos meus olhos. Fico quieta, esperando que não esteja ainda tão desperta a ponto de ter de acordar. A gente devia ter mais sonhos assim, soltos, leves, coloridos como lindas bolhas de sabão.

A vida por demais corrida vai roubando da gente, aos pouquinhos, a vontade de se demorar além da conta nas horinhas à toa, nos sorrisos de graça, nos encontros sem querer, que a própria vida – ignorando nossa determinação em racionalizar tudo – nos concede de presente.

E ainda que andemos desenhando, rabiscando e erguendo bandeiras de uma liberdade estranha e errante, tão errante que depende do nosso isolamento emocional para garanti-la – ainda assim, mesmo assim – não há um só de nós que não seja visitado uma ou algumas vezes por dia, por um desejo bonito e doce de ter um colo onde se possa caber direitinho. Um apetite deliberado pelas coisas lindas, um carinho, um abraço onde a gente tenha vontade de morar.

E aquele sentimento cálido e indolente que há algumas horinhas atrás experimentei, quando ainda teimava em guardar em meus olhos serrados o sonho inesperado que sonhei, parece não querer largar-me mais. Andei o dia todo sorrindo por nada. Andei o dia todo sem achar nenhum motivo que me convença que a seriedade é necessária para alinhavar ou costurar uma vida com sentido.

Terá sido o sonho, ou terei eu finalmente despertado para uma vida liberta de amarras e repleta de viagens para dentro de mim, com destino a qualquer parte? Haverá nesse mundo algo que valha perder a capacidade de se encantar?

O que eu apenas sei. E sei, mesmo sem saber porque sei… é que a plenitude das nossas almas incompletas depende da nossa coragem em dar um passinho adiante, apenas o suficiente para que sejamos capazes de romper a casca que nos protege e ousarmos nos despir do temor de sermos ridículos ou tolos, porque não há absolutamente nada de tolice na paixão por estar vivo.

E se for ridículo acreditar no amor, eu quero mesmo é ser a criatura mais ridícula sobre a terra. Assumo aqui a minha falta de siso, o desejo confesso de perder o juízo e a minha exagerada sede por tudo quanto faça meu coração batucar no peito.

Porque o sonho que eu tive, agora me lembrei, incluía nos espaços e tempos da vida, os loucos, os apaixonados, aqueles que já perderam há muito tempo o medo de sonhar com a possibilidade de uma existência menos seca e engessada.

O sonho era uma lembrança, qual uma fitinha que se amarra no dedo. O sonho era um recado de mim para mim mesma, um jeito de me resgatar e me fazer submergir. E ao abrir finalmente os olhos, pude então compreender que quem não é capaz de sonhar depois de estar desperto, esqueceu-se do que é estar vivo, contentou-se em sobreviver.

A saudade é uma benção. Só sente quem tem o que vale a pena lembrar.

A saudade é uma benção. Só sente quem tem o que vale a pena lembrar.

Não tem jeito. Tudo aquilo e todo aquele que por acaso nos fizerem sentir amor estão abençoados a durar para sempre. Por mais que acabe, ainda que passe, todo bom sentimento há de viver em franca eternidade dentro de cada um.

Saudade é benção. Só a merece quem leva consigo o que é bonito, o que é bom. O que foi, o que é e o que ainda há de ser. Saudade do que já foi é benção duas vezes: primeiro a gente vive, depois a gente lembra. Já a saudade do que virá é promessa boa, motivação, esperança na vida. Saudade é um carinho de Deus a Seus filhos que têm coragem de sentir amor.

Quem sente saudade tem um sol se pondo no peito para sempre. Guarda na alma o calor bom da tardinha, a lembrança quente do que passou agorinha, a consciência limpa e leve de todo bem que veio e permaneceu em nós.

Tem saudade que dói, dói até mostrar que ela é só o que nos resta do que já foi, de quem passou. Só o que fica de quem a gente amou. Saudade é um jeito bonito do amor ficar em nós para sempre. Quando para de doer vira cicatriz, companhia, marca, herança. Lembrança boa.

Tem saudade leve. Quando a moça se pega rindo sozinha, lembrando uma cena engraçada. Tem saudade que chora baixinho com a beleza, no moço que assiste ao parto do filho. Tem cada coisa bonita por aí! Bonita de fazer a gente chorar quando encontra e quando recorda. É que saudade também é um jeito que o coração encontra de encontrar de novo. É a alegria do reencontro. A surpresa boa. Descobrir o amor crescendo que nem pão de ló. Saudade é o amor nos lembrando que continua vivo, firme e forte.

Você já viu o sol se pondo de tarde. Já viu risada de nenê, Já viu os olhos de alguém sorrindo. É bonito que só. Até um momento duro deixa saudade. Saudade do que você teve de ser para sobreviver àquilo. Vai entender…

Mas saudade a gente não entende mesmo. Não explica. Saudade é feita de amor. A gente sente aqui dentro do que já ganhou o mundo aí fora. Prova de que tudo o que a gente ama há de durar para sempre.

Você não é o seu dia que deu errado

Você não é o seu dia que deu errado

Viver é perigoso, já dizia Guimarães Rosa, não é fácil, nunca foi nem nunca será. A gente leva muita surra, cai de grandes alturas, decepciona-se com quem jamais imaginaria, a gente perde muita coisa e muitas pessoas pelo caminho. E não acaba, não; quando a calmaria parece durar, lá vem mais granizo. Em meio a tantos redemoinhos, cabe-nos o fortalecimento de nossas convicções, de nossos sonhos e dos relacionamentos que acalentam e curam.

Não se transforme em tudo aquilo que provoca distância entre os seus desejos e a realização deles. Cada decepção deve servir como exemplo do que não podemos trazer para junto de nós, cada ferida nos lembra da importância de não hesitarmos quanto ao valor das mãos seguras que sempre deverão nos reerguer. Dias ruins vêm e vão, mas a gente fica e pode manter aqui dentro o que de bom ainda resta.

Não acredite, nem por um minuto, no que disserem em seu desfavor, quando duvidarem de sua capacidade de ser, de se tornar, de vir a conseguir. Os maiores obstáculos que teremos são justamente aqueles que nós próprios nos impusermos. Somente você sabe bem o que tem aí dentro, do pior e do melhor. Não deixe que ninguém abale essas suas certezas.

Entenda que não é preciso ter um relacionamento amoroso para se sentir feliz e completo. Ninguém poderá fazer aquilo que lhe cabe: a sua parte. É muito bom ter um companheiro, mas sem confundir companhia com solidão a dois. Sem se bastar a si mesmo, nada que venha de fora bastará também. Bastar-se implica amar-se e realizar-se enquanto pessoa.

Não se rotule, deixe que os outros façam isso por você. Não podemos nos permitir que determinem o nosso futuro a partir de afirmações de que somos quietos demais, somos muito sensíveis, ou de que jamais nos daremos bem fazendo isso ou aquilo. Existe muito mais do que pensamos em nossa força interior. Ninguém tem o direito de nos dizer o que devemos ou não, tampouco nós mesmos poderemos atravancar as nossas potencialidades, achando que somos menos.

Lembre-se de que quem te ferra, te rotula, te decepciona, tudo de ruim que te acontece, nada disso te define, apenas te ensina e te mostra as verdades. Você é muito melhor do que todo mal que te rodeia. Não podemos aceitar e nos acomodar à nossa pior versão, como se a felicidade fosse algo longe e inalcançável.

É nos dias de brisa suave e respirar tranquilo que devemos nos apoiar, olhando em volta e percebendo que ali estará quem devemos de fato valorizar e o que pode realmente trazer paz ao nosso caminhar. Porque desistir de ser feliz não pode, em hipótese alguma, estar em nossos planos. Vivamos!

*O título deste artigo é uma citação de autoria de Mariana Fiore.

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