Por uma vida com mais motivos para achar graça e perder o fôlego

Por uma vida com mais motivos para achar graça e perder o fôlego

A rotina em excesso pode configurar uma droga lícita com altos poderes viciantes e até letais. Tudo em nome de uma tal de “excelência”. Mas que porcaria é essa, afinal?
Vivemos sendo assediados por “métodos para melhorar a performance”; “coaching para turbinar a vida financeira”; “bônus para bater as metas no final do mês”; “treino de crossfit para derreter todas as gorduras do corpo”; sem falar naqueles “métodos infalíveis para ser popular, desejável e exercer seu magnetismo pessoal”.

Ufa! Não há quem aguente um bombardeio desses, sem sair com alguns pedaços – físicos, mentais, e espirituais – perdidos por aí, enquanto se tenta infrutiferamente ganhar o prêmio de: o maior, o mais rápido, o mais bem-sucedido, o mais forte, o mais bonito, o mais foda.

Tem, por exemplo, o caso daquele cara que se matou de trabalhar para ter uma casa chique com piscina naquele bairro super classe alta da cidade, onde o metro quadrado é mais caro que uma viagem à praia (ah, sim essa comparação procede). Acontece que o cara comprou a tal casa. Mora lá há dez anos, e nunca, NUNCA deu um único mergulho na maldita piscina. Por quê? Porque não tem tempo nem de se coçar, imagine de nadar.

Se o cara obcecado pela casa com piscina tivesse dado a si mesmo o direito a alguns fins de semana na praia, numa pousadinha despretensiosa mesmo, muito provavelmente não teria conseguido adquirir a citada propriedade, mas também, muito provavelmente, seria mais feliz.

Sim, é claro que algum tipo de rotina é indispensável, ou inevitável. A maior parte de nós, responde pelo próprio sustento. Alguns de nós, responde, além do próprio, pelo sustento de outros. E, é bem verdade, que quase tudo nessa vida custa dinheiro. E também é bem verdade que dinheiro ainda não dá em árvore. Logo, temos hora para acordar, horas a trabalhar, temos que comer, dormir, tomar banho, atender necessidades físicas inadiáveis. Só aí, já se vai quase o nosso dia inteiro, percebe?

Portanto, seria no mínimo algo a se considerar, trabalhar em algo que nos trouxesse alguma coisa além de apenas dinheiro; que a gente pudesse acordar tendo o prazer de um “bom dia” amoroso e gentil; que a gente tivesse a delicadeza de levar à boca algo que seja mais do que alguma “gororoba pronta e processada”; que ao dormir, tivéssemos a leveza psíquica necessária para sonhar e deixar vir à tona, nossas inúmeras vontades reprimidas; que o banho fosse um momento de lavar o corpo e o peso invisível das cobranças e obrigações; e que as nossas necessidades físicas fossem atendidas, porque tem gente que – PASME! –, segura o cocô e o xixi, porque não teve tempo de ir ao banheiro! Como assim?!

Mas, de verdade, tudo isso pode ser revisto, revisitado e transformado. Se no meio de toda essa pressão, a gente achar um jeito de viver, apenas viver. Isso já é alguma coisa. E viver, passa por permitir-se aquelas coisas lindas que fazem a gente achar graça em estar vivo.

Sim! Rir ainda é um dos remédios mais milagrosos deste mundo. E além de um sorriso no rosto, quem sabe a gente não arranje coragem para uma extravagância, algo que nos tire o fôlego… tipo um beijo dado na curva da orelha, sem nenhuma pressa, sabe?

Ahhhh… você sabe! Você sabe. E eu também sei. Que a vida que a gente leva, é a vida que a gente acredita merecer. E, sim haverá momentos difíceis. E crises. E alguma doença que nos tire o sono. Não há como evitar as dificuldades e as más surpresas. Mas, é nosso dever e direito, cuidar para que nossa vida não se resuma a isso. Viver é maior! É mais bonito, quando esperamos da vida o presente que mais secretamente desejamos, e acreditamos que somos merecedores de recebê-lo!

As diferenças entre ser solitário e estar sozinho

As diferenças entre ser solitário e estar sozinho

Não importa com quantas pessoas nos relacionamos, diariamente ou sazonalmente, todos nós nos sentimos sozinhos, em várias circunstâncias da vida, por períodos curtos ou prolongados, com menor ou maior intensidade.

Mudanças de residência, alterações no estilo de vida, novos hábitos, trocas de emprego, rupturas de relacionamento, transferências de escolas ou universidades. Por algum tempo, nós caminhamos com determinadas pessoas no curso da vida. Porém, quando fazemos desvios de rota durante o caminho, muitas delas não nos acompanham, ou delas nos afastamos, por incontáveis motivos: longa distância, desinteresse, perda de afeto, falta de comprometimento, indiferença, ódio, ressentimento, inveja. Que seja.

Parece que, quando passamos por certas transformações, para o bem ou para o mal, para benefício ou prejuízo, somente em seguida conseguimos identificar as pessoas que realmente sentem nossa falta e, dentre essas, aquelas especiais que, naturalmente, permanecem em nossas vidas de forma incondicional.

Cedo ou tarde, bem resolvidos ou não, descobrimos que somos indignos da lembrança da maioria de quem já nos relacionamos, mas honrados pela minoria que nos é preponderante.

O grupo de pessoas que se mantêm próximo a nós – apesar dos ocasos da vida – será maior ou menor dependendo da nossa capacidade de diferenciá-lo dos grupos restantes.

No curso da existência, e para seguir em frente, muitos devem ser deixados para trás, quando não prosseguem por própria deliberação. O problema é que alguns acabam acometidos pela solidão, ao invés de compreender que as suas melhores companhias são só reconhecidas, de fato, após diferidas das piores. É como um processo de eliminação, ao final do qual se sente sozinho quem julga que quantidade vale mais do que qualidade.

Não que devamos ser prepotentes ao selecionar apenas aqueles que pensamos ser menos ruins do que nós, mas sim abraçar quem aceita integralmente as nossas diferenças e não nos crucifica apesar de todas as piores considerações possíveis.

É fácil gostar de alguém quando os interesses são iguais, os costumes e valores são parecidos e os objetivos são os mesmos. Difícil é gostar de alguém apesar das escolhas e ações confrontantes. Em geral, as pessoas agem por próprio interesse. Engraçado como uma grande massa da população evita a solidão, mas age como se a superestimasse.

Há pessoas que se sentem solitárias apenas quando estão sozinhas, e aquelas que se sentem solitárias o tempo todo. Algumas personalidades são inclinadas à introversão extrema, enquanto outras vertem à extroversão aguda, mas a grande maioria delas não é propensa a uma coisa nem outra, e sim à ambiguidade da ambiversão, em que ora desejamos estar sozinhos, ora ansiamos por contato com outros, estando isolados ou acompanhados (para mais informações).

Nós compramos a ideia de que estar sozinho é um mal a ser evitado a todo custo. No entanto, não existe uma alma viva que não precise solicitar ao menos alguns instantes de solidão. A socialização também sufoca se não for aliviada.

Uma vez disse o excelentíssimo escritor Charles Bukowski:

“A solidão é algo que nunca me incomodou, eu sempre tive essa coceira terrível por ela […] Solidão real não está necessariamente limitada a quando você está sozinho.”

Há obstáculos demais ao reconhecimento do valor da solidão. Em 1654, o cientista e filósofo francês Blaise Pascal escreveu:

“Todos os problemas da humanidade resultam da incapacidade do homem de sentar-se calmamente em uma sala sozinho.”

Ora, o desejo de estar sozinho acompanha a si mesmo. Mas, como o prazer decorre da falta, a satisfação da própria companhia nunca é duradoura – na verdade, é sempre menor do que se pensava –, e por isso deve ser constantemente renovada.

Estar sozinho é, antes de qualquer coisa, uma escolha, e essa deve ser feita tendo-se a consciência de que a solidão é uma provável consequência.

É ridícula a atribuição popular de que uma pessoa que escolheu estar sozinha deve ser solitária, ou, então, deve ter algo de errado: essa estupidez do senso comum é infestada em uma sociedade que enfatiza casais como símbolos de satisfação final.

Muitos não se sentem sozinhos quando estão sozinhos, pois estão repletos de uma vida suficientemente enérgica, a sua própria, na qual permanecem conectados de várias formas. Para esses, há um forte senso interno de autoestima, vitalidade e esperança. É claro que é necessário e prudente se reforçar na coletividade, mas a verdadeira força motivacional advém de si, uma vez que não pode ser ajudado ou inspirado aquele que não quer ser ajudado ou inspirado.

Passar o tempo sozinho é mais divertido se for por opção. Quando se está realmente ligado a si mesmo, percebe-se uma potência internalizada tão forte que repercute para muito além da interioridade.

 

Em suma, há pessoas que se sentem solitárias quando estão sozinhas, e há aquelas que optam por estar sozinhas, mas não são necessariamente solitárias.

Atualmente, em um mundo digital globalizado onde, diariamente, há 24 horas de conectividade, é surpreendente saber que muitas pessoas sofrem de solidão? Não. Essa solidão se torna cada vez mais evidente com a influência da tecnologia. Há desculpas suficientes para se evitar contato presencial, e motivos o bastante para se buscar mais conexões líquidas.

O advento tecnológico possibilita inúmeras oportunidades de relacionamento em vários espectros – social, romântico, profissional – mas elas não são mais aproveitadas hoje do que em outrora, salvo exceções. A interação online menos aproxima semelhantes do que os divide.

Hoje em dia, a ânsia por interatividade social esbarra na necessidade de autocentrismo. Para algumas pessoas, experimentar a solidão é como assistir a um filme de terror: procura-se o medo como método de prazer e entretenimento.

Enquanto a solidão pode estimular a criatividade, imaginação e promover maior capacidade de foco e concentração, também pode gerar consequências mortais. Uma pesquisa de 2013, publicada na revista Psychological Science, revelou que pessoas que preferem isolamento social a interatividade presencial têm probabilidade de morte 26% maior do que aqueles que preferem estar cercados de outras pessoas. Isolamento social e viver sozinho foram dois fatores considerados como mais devastadores para a saúde do que ser solitário. Isso é óbvio. A mortalidade é solitária. Mas e se a vida também for, qual o problema?

Sozinhos, não temos ajuda em situações de necessidade emergencial, não compartilhamos experiências, não maximizamos oportunidades, não procriamos, não desenvolvemos. Somos passíveis de definhar. Tudo bem que, independente de nosso grau de convívio social, morremos sozinhos. Entretanto, essa sina pode ser esquecida, se em vida tivermos a sabedoria para aceitá-la, o que requer desprendimento do ego. Isso faz com que a solidão deva ser justificada socialmente, do contrário é vista como sinal de anormalidade.

A solidão é tão demonizada que a escolha de estar sozinho é percebida como uma apologia à decadência.

A escritora Olivia Laing, em sua obra The Lonely City: Adventures In The Art Of Being Alone, diz o seguinte:

“A solidão é difícil de confessar, difícil demais para categorizar. Assim como a depressão, um estado com o qual muitas vezes se cruza, a solidão pode ser encontrada no fundo do tecido de uma pessoa, constituindo uma grande parte de nosso ser, como rir com facilidade ou ter o cabelo vermelho. Então, novamente, pode ser transitória, cíclica e reacionária às circunstâncias externas, como a solidão que segue na esteira do luto ou na mudança de círculos sociais. Da mesma forma que a depressão, tristeza ou inquietação, a solidão também está sujeita à patologização, de ser considerada como uma doença.”

Na espécie humana, depende-se de outros para sobreviver, desde muito antes do nascimento. Somos criaturas sociais que necessitam de outras para prosperar, inevitavelmente, por mais que existam relacionamentos degradantes.

Além das diferenças entre ser solitário e estar sozinho, muitas pessoas também alegam interesse em saber as distinções entre solidão e solitude, se por um erro de cálculo acharem que são a mesma coisa.

Paul Tillich, um filósofo da religião, afirmou em seu livro The Eternal Now:

“A linguagem criou a palavra ‘solidão’ para expressar a dor de estar sozinho. E criou a palavra ‘solitude’ para expressar a glória de estar sozinho.”

Solidão é o afastamento que vem de uma expectativa não atendida. Solitude é encontrar um senso particular de autonomia e liberdade a partir de um sentimento não correspondido. Solidão é uma forma de abandono emocional. Solitude é estar física e emocionalmente livre. Solidão é querer buscar distrações para suportar o vazio das horas. Solitude é esquecer as distrações. Solidão causa culpa e arrependimento. Solitude cultiva amor próprio e deleitamento. Solidão provoca uma sensação de desconexão. Solitude é um efeito da autoconexão. Solidão é chorar sem ninguém ouvir. Solitude é sorrir em silêncio. Solidão depende de alguém para felicidade. Solitude encontra felicidade em si. Solidão é desejar o inexistente. Solitude é aproveitar o que existe. Solidão gera medo e pavor. Solitude promove paz e tranquilidade. Solidão é desencontro. Solitude é encontro. Solidão é corrosiva. Solitude é reparadora. Solidão é tédio. Solitude é entretenimento. Solidão é angústia. Solitude é serenidade. Na solidão, acuamo-nos. Na solitude, exaltamo-nos.

Em seu livro Alegria: A Felicidade Que Vem de Dentro, o orador e escritor indiano Osho afirma que, quando estamos sozinhos, insistentemente costumamos procurar alguém ou alguma atividade para preencher o vazio do tempo. Ansiamos por algo que não existe mais ou, em alguns casos, nem mesmo existiu. Esperamos que uma pessoa, uma empresa, um lugar fará silenciar os gritos de viver apartados. Essa solidão configura um estado de espírito negativo, em que buscamos mais do que precisamos, e queremos nos sentir mais significativos do que achamos ser. Agimos, assim, como eternos insatisfeitos.

A solitude, por outro lado, é um estado de espírito positivo, uma condição muito gratificante de estar. Há uma regularidade de prazer, mesmo que não seja intenso. Basicamente, é não saber explicar por que se está feliz.

Digamos que, para uns solitários, o preço de investir em si mesmo é maior do que suportam. Se os riscos não compensam os benefícios, a solitude passa a ser solidão.

Segundo a editora do site Psychology Today, Hara Estroff Marano:

“Como o mundo gira cada vez mais rápido – ou talvez ele só pareça assim quando um e-mail pode viajar ao redor do mundo em frações de segundos – nós, mortais, precisamos de uma variedade de maneiras para lidar com as pressões resultantes. Precisamos manter uma aparência de equilíbrio e algum sentido de que estamos a governar o navio de nossas vidas. Caso contrário, nos sentimos sobrecarregados, reagimos de forma exagerada a pequenos aborrecimentos e pensamos que nunca podemos alcançar nada. Uma das melhores maneiras de lidar com tudo isso é procurar, e aproveitar, a solitude.”

Muitos se sentem envergonhados por sentir-se sozinhos, especialmente quando esse sofrimento é comparativo com o dos outros. Essa vergonha nasce no reconhecimento de que isolamento social é prejudicial à saúde física e psicológica, mas também de uma compreensão errada sobre solidão, a de que é uma ameaça iminente. Também é comum (e precipitado) associar que uma pessoa solitária seja mais distante, estranha, egoísta, frívola ou insensível do que aquela que mantém vínculos afetivos altruísticos.

Sentimentos de solidão costumam emergir principalmente após término de relacionamentos: amizade, trabalho, romance. Não mais existe o contato que se tinha, e queremos que retorne. Queremos tanto que isso nos afeta catastroficamente. É uma falha de desapego. Assim, solitários, esperamos que o próximo passo seja superar essa triste sensação insuportável de isolamento.

Todavia, antes de iniciar um novo relacionamento, seja qual for, devemos estrategicamente reconhecer a felicidade em nós mesmos. Se não a identificamos, é porque faltaram três coisas: autoconhecimento, gratidão e desejo de vontade.

Se, solitários, procuramos alguém só e somente só para suprir um vazio existencial da perda ou da falta, estamos investindo numa relação fadada à derrocada final: solidão.

Não há nada que possa fazer evitar o vazio da existência, a não ser que se conviva com isso sem se enganar. Ninguém deveria começar um relacionamento enquanto está solitário: essa é uma receita para o desastre.

Uma vez que estamos sozinhos e sinceramente felizes em estar sozinhos, sem sentirmo-nos solitários, curtindo a solitude, somos capazes de construir (e manter) relacionamentos com irmãos e amados.

Por estarmos sozinhos, às vezes sentimos carência, e então pensamos que outro alguém poderá suprir a falta. Essa possibilidade é tão atrativa que as pessoas se agarram a ela com unhas e dentes. Mas não deixa de ser um perigo. Ao buscarmos suprir um vazio interno em outra pessoa, através de uma relação amorosa, por exemplo, talvez tornemo-nos dependentes dela a um nível que, passada essa relação de dependência, ampliamos o vazio. Dessa maneira, é mais sensato que dois inteiros se aliem do que duas metades se complementem.

A cura para a solidão não está em encontrar alguém, não necessariamente. Muitas das coisas que nos afligem, como ser solitários, são, na verdade, resultados de forças maiores do que estigma, carência e exclusão, que podem (e devem) ser resistidos. A solidão é pessoal e filosófica.

Em seu livro Loneliness: Human Nature And The Need For Social Connection, William Patrick e John Cacioppo discutem suas descobertas a partir de pesquisas sobre pessoas que se subvertem à solidão. Um achado é que as pessoas solitárias não discriminam direito enquanto estão fazendo comparações sobre o que é verdade entre elas e o resto do mundo. Suas lentes são subjetivas como a de qualquer um, mas também distorcidas. Não reconhecem beleza, valor e competência em si próprias da mesma forma que percebem tais atributos nos outros.

Outro achado dos autores é que uma pessoa acometida pela solidão por extensões consideráveis de tempo tem sua capacidade de empatia e autocompaixão prejudicada; a dor da solidão as priva disso ao consumirem-nas silenciosamente. A solidão dirigida se transforma em entendimento humano precário. Necessitamos de conexões sociais, do contrário, cedemos à selvageria. Segundo Patrick e Cacioppo:

“Qualquer que seja a sensibilidade individual, o bem-estar sofre quando a nossa necessidade particular de conexão não é cumprida.”

Bom, não é preciso estar sozinho para se sentir assim. Alguém sozinho num deserto há 200 dias obviamente perderá a noção de que é preciso se isolar. A necessidade de solitude aparece em meio à multidão, mas é suprida fora dela.

A dor de ser solitário ressoa no peito de forma consistente. São sensações que perduram por mais tempo do que se espera. Normalmente, esses sentimentos são mais proeminentes quando perdemos alguém ou algo que nos oferecia uma razão de viver. É excepcionalmente importante lembrar o seguinte: o fato de uma pessoa ser solitária não quer dizer que ela vá deixar de o ser quando reencontrar essa razão de viver. A solidão é pessoal e filosófica.

A escolha de estar sozinho acompanha uma responsabilidade deletéria por sustentar essa condição, do que se percebe que independência pode ser ilegítima. Na realidade, o indivíduo que se considera (ou é considerado) independente nunca poderá negar que dependeu da ajuda de outros, poucos ou muitos, para construir seu império. Ele até pode se convencer com a ideia de pertencimento total, contudo, essa ilusão pesará na sua consciência, até que deixe um legado significativo o bastante para se julgar merecedor do que lhe foi legado.

Evidentemente, existem aqueles momentos em que estar sozinho cruza o caminho de ser solitário. Esse caminho se divide em vários trechos, nos quais precisamos decidir para onde seguir. E nos confundimos, muitas vezes, ao fazer essas escolhas.

Há múltiplas pessoas que absolutamente adoram a ideia de permanecer sozinhas, valorizando seu silêncio e admirando suas introspecções criativas. Uma autora britânica chamada Sara Maitland escreveu um livro, How To Be Alone, no qual relatou:

“Eu me tornei fascinada pelo silêncio; pelo que acontece ao espírito humano, a identidade e personalidade quando a conversa para, quando você pressiona o botão de desligar, quando você se aventura nesse enorme vazio. Eu estava interessada no silêncio como um fenômeno cultural perdido, como uma coisa de beleza e como um espaço que havia sido explorado e usado uma vez ou outra por diferentes indivíduos, por razões diferentes e com resultados radicalmente diferentes. Comecei a usar minha própria vida como uma espécie de laboratório para testar algumas ideias e ver o que senti. Quase para minha surpresa, descobri que amava o silêncio. Ele me convinha. Eu estava ávida por mais dele. Na minha busca por mais silêncio, eu encontrei este vale e construí uma casa nele.”

Maitland ressalta que, em geral, a palavra “solitário” implica em infelicidade. É como se o contrário – ser sociável implicar em felicidade – fosse verdadeiro, e sabemos que nem sempre é. De acordo com a autora, “vivemos em uma sociedade que diz que quem está sozinho é, de alguma forma, uma pessoa que falhou como humano”. Mas é preciso falhar para ser humano, não uma, duas, mas infinitas vezes.

A grande maioria talvez discorde, mas estar sozinho pode ser uma das experiências mais poderosas de uma vida inteira. Só que, se deixarmos a solidão nos consumir, perderemos a chance de experimentar desse poder. E, ao perder essa chance, nos tornamos mal acostumados à singularidade.

Apesar de a solidão nos forçar a encontrar um sentido existencial em outras pessoas, sempre seremos capazes de encontrar tal sentido em nós mesmos, se estivermos dispostos a encontrar-nos, o que envolve sofrer e aprender.

Ter tempo para estar sozinho não significa que se estará sozinho para sempre. Quanto mais tempo trabalhamos a confiança na solitude, menos dependente estaremos de fontes externas.

Em seu livro Em Busca de Sentido: Um Psicólogo no Campo de Concentração, o médico, psicólogo e psiquiatra austríaco Viktor Frankl relata suas tocantes experiências de trabalho como escravo nos campos de concentração nazistas, compreendidas por três longos anos. No ínterim desse tempo, ele conta que nunca se sentiu tão sozinho na vida. Para sobreviver, no entanto, Frankl reuniu uma força motivacional tão extraordinária que foi capaz de encontrar significado a partir de um sofrimento inimaginável (saiba mais).

Nietzsche, por exemplo, acreditava que abraçar a dificuldade é indispensável a uma vida cheia de sentido, e pensava que a solitude, se bem aproveitada, nos permite galgar a existência até o fim. Segundo o filósofo:

“Ninguém pode construir uma ponte sobre a qual você, e somente você, tem que atravessar o rio da vida. Pode haver inúmeras trilhas, pontes e semideuses que de bom grado o ajudam a atravessá-lo, mas apenas ao preço de penhora e renúncia a si mesmo. Não há um caminho no mundo que alguém pode andar além de você. Aonde isso vai levar? Não pergunte, ande!”

Imagem de capa: Warpboyz/shutterstock

Não consegue superar um problema? Parar de falar sobre ele pode ajudar

Não consegue superar um problema? Parar de falar sobre ele pode ajudar

“Eu devia fazer isso”. “Eu devia fazer aquilo”. “Preciso parar de pensar nisso”. “Preciso parar de lembrar daquilo”. “Não quero mais pensar nisso”. “Durmo e acordo pensando nisso”. “Preciso encontrar uma forma de resolver isso e quanto mais eu penso menos encontro a solução”.

“Por que, simplesmente por que, não consigo parar de pensar nisso”?

Simples: porque sua mente está tentando proteger você.

Toda neurose, toda ideia obsessiva, é um mecanismo de proteção.

Nos apegamos a dramas, dores e problemas corriqueiros para não fazermos contato com o que mais tememos, com emoções e situações que nos parecem ameaçadoras.

É natural ficarmos tristes após o rompimento de uma relação. É natural nos preocuparmos com a nossa saúde. É natural temermos perder o emprego em tempos de crise, assim como é natural temer a perda de um ente querido.

No entanto, quando permitimos que esses receios tomem conta do nosso dia e se repitam a cada pausa que fazemos para o café, durante o banho, durante as refeições, no trânsito – fazendo com que nossas noites sejam mal dormidas – nos tornamos reféns de nossas ideias obsessivas.

Existe um ditado popular que diz: “Se não consegue superar um problema, ao menos deixe de falar sobre ele”.

O psicanalista Contardo Calligaris escreveu sobre este assunto no artigo “Palavras de amor”:

“Os sentimentos funcionam como picadas de mosquito, que coçamos e recoçamos até que se tornem feridas infectadas e, às vezes, septicemias generalizadas (quem sabe fatais). Salvo um exercício difícil de autocontrole, qualquer picada pode adquirir uma relevância desmedida: a gente tende a se coçar muito além da conta porque descobre que se coçar não é um alívio, mas um prazer autônomo em si. (…)  Basta se calar um pouco, assim como é suficiente não se coçar para que as picadas de mosquito parem de incomodar”.

Lembrando que sentimentos podem se tornar pensamentos e pensamentos podem se tornar palavras ou ações como, por exemplo, escolher ouvir todos os dias aquela maldita música de cortar os pulsos somente para coçar a ferida de algum abandono.

Mas nós não procuramos sarnas para nos coçar porque queremos e sim porque ao nos distrair com a coceira, deixamos de pensar no que realmente nos angustia.

É muito melhor sofrer por um amor perdido, por exemplo, do que pela sensação incômoda de não estar conseguindo atingir os próprios objetivos e sonhos traçados. A dor de amor é conhecida, todos nós já a experimentamos e, por mais que estejamos no fundo do poço, sabemos que ela passa. Já encarar o medo do fracasso nos olhos e ser obrigado a assumir a responsabilidade pelo caos que está a nossa vida, aí são outros quinhentos.

Quanto mais uma ideia se torna repetitiva, obsessiva, quanto mais você pensa sobre um determinado assunto, mais isso quer dizer que você está fugindo de algo maior e que teme não ter estrutura para lidar com determinada realidade.

Os pensamentos obsessivos tendem a nos paralisar, pois em geral são filhos do medo –  de ser abandonado, de fracassar, de ser rejeitado, de não dar conta, de não ser aceito, de não merecer, de perder – e não existe nada mais paralisante nessa vida do que o medo.

Tais pensamentos podem até nos proteger num primeiro momento, mas depois se tornam um transtorno, um estorvo, nos impedindo de progredir, crescer, evoluir, conquistar, realizar.

Que tal parar para pensar nas sarnas que você anda coçando? O que você perderia, de fato, se abrisse mão dessa coceira?

Que dívida é essa que a gente insiste em cobrar da vida?

Que dívida é essa que a gente insiste em cobrar da vida?

Gratidão é palavra do momento, especialmente quando as coisas dão certo e estão perfeitas aos nossos olhos, julgamentos e anseios. Então divulgamos a dádiva a plenos pulmões, compartilhamos o êxito e vibramos com o merecimento.

O que era para ser um um gesto natural, obrigatório para as consciências conectadas com o fluxo da vida, anda um tanto exacerbado. De todas as formas, melhor a gratidão ruidosa do que a sua gêmea má que nada agradece.

Mas, como nem tudo são flores e gratidões, nem vitórias, nem conquistas, difícil mesmo é ser grato às frustrações pelas oportunidades de enxergar um outro caminho, uma nova perspectiva.

Nessa hora a gente pega a fatura vencida e apresenta para a vida, como o filho mimado que corre chorando para dentro de casa com o brinquedo quebrado, exigindo a compra de outro, como se não fosse sua escolha levá-lo para brincar na rua.

A maioria de nós ainda age assim. Cobra da vida uma dívida que ela não tem conosco. Ataca a sorte, responsabiliza as circunstâncias, amaldiçoa o acaso, exige garantia infinita contra perdas, danos, terceiros e eventualmente, si próprio.

A gratidão se recolhe no meio da fatura tão grande e impagável emitida contra a vida dos que julgam possuir o passe exclusivo, a chave da sala vip onde nenhuma contrariedade é permitida.

Mas, assim como o tempo, a vida não dá bola para nossas tolas lamentações, e, frustrados e mimados que somos, como não conseguimos atingir a verdadeira culpada, vamos para outras direções, e então distribuímos sem economia o nosso mal humor, pessimismo, irritação, impaciência, raiva e todos os derivados e agregados que engrossam o time das frustrações.

Quando a gente aprende que a vida não nos deve nada e as escolhas são passíveis de fracasso, as contas são perdoadas, as dívidas caducam, as culpas se eximem e se transformam em gratidão consciente e libertadora.

Não há nada mais erótico do que uma boa conversa

Não há nada mais erótico do que uma boa conversa

“Não há nada mais erótico do que uma boa conversa.” E isso pode soar estranho, porque estamos saturados de conversas rasas, com pessoas rasas, falando sempre as mesmas coisas, sem o menor interesse e chegando a lugar nenhum.

Mas, uma boa conversa, uma diálogo de verdade, é o que há de mais erótico em uma relação, porque são as palavras que mostram os poros do rosto da vida e isso é muito mais belo e excitante do que enxergar o tempo inteiro maquiagens em rostos que transpiram falsidade.

Uma boa conversa é aquela em que não temos medo de dizer nada. Tudo pode ser dito, colocado na mesa, debatido, rebatido, formulado, reformulado. As palavras são lançadas como o fluxo do nosso pensamento, mostrando o que realmente pensamos sobre as coisas, sem hipocrisia ou fingimento; a nossa bagunça interior representada por palavras que sempre querem dizer alguma coisa, mas nem sempre encontram a organização semântica necessária; mostrando a alma despida e escancarada, pronta para ser tocada.

E porque a alma está escancarada, fala-se sobre tudo, desde os assuntos mais triviais aos mais existencialistas. Conversa-se sobre a preguiça que sentimos ao acordar cedo, a quantidade de açúcar que gostamos no café, sobre música, cinema e política, sobre o pé na bunda mais engraçado que já levamos, o momento de maior constrangimento, o primeiro amor, discute-se a existência de deus, a felicidade, o amor, para que lugar se vai após a morte, sobre o que queremos da vida e o que já estamos de saco cheio.

As frustrações, os medos, as angústias, as imperfeições, os pecados silenciosos, deixados em oculto. Ou seja, uma boa conversa é aquela em que as almas encostam-se e beijam-se, procurando não separar-se e encontrar pontos que as tornem mais conectadas e apaixonadas.

Por estarmos imersos em relacionamentos tão superficiais, talvez seja difícil acreditar que existam relacionamentos humanos em que a conversa exerce o enlace erótico entre as pessoas, de modo a torná-las insistentemente desejosas por mais do outro. Entretanto, é justamente pela falta de comunicação que estamos carentes de pessoas interessantes, capazes de nos “prender” por horas, como se fossem minutos, tão somente pela troca de palavras que imergem em todos os cantos do nosso ser.

Na maior parte dos relacionamentos, sejam entre amantes, amigos, familiares, etc., o que vai afastando as pessoas e, consequentemente, permitindo desabar a ponte que as une e no seu lugar fazendo emergir barreiras, reside na maneira como lidamos com o mundo que forma o outro. Ou seja, é preciso viajar no mundo deste, comprar a sua loucura, a sua dor, os seus sonhos, para que deixemos de pensar apenas em nós mesmos, para que possamos sair do nosso mundo e interagir com o mundo do outro, e, assim, compreendê-lo.

Sendo assim, a comunicação é imprescindível para que duas almas se mantenham juntas e apaixonadas, já que, quando deixamos de ter interesse no universo que compreende uma alma distinta da nossa, tornamo-la pequena e, então, o outro se fecha para nós, bem como, a paixão se esvai, porque já não existe eroticidade nas palavras, as quais, não raras vezes, deixam, inclusive, de ser ditas.

Se há algo de divino no mundo, sem dúvida alguma se manifesta no espaço colocado entre duas almas que anseiam para se tocar e isso só é possível quando permitimos que estas dialoguem com verdade e beleza, pois somente, dessa forma, tem-se a eroticidade necessária para transformar duas almas distintas vagando pelo nada em duas almas conectadas, compartilhando a vida em suas grandiosas imperfeições e nos seus pequenos milagres, já que mesmo depois do gozo do corpo, as palavras sempre permitem a continuidade do gozo na alma.

O amor é abrigo em uma feroz tempestade. O amor é paz no meio de uma guerra

O amor é abrigo em uma feroz tempestade. O amor é paz no meio de uma guerra

Hoje é aquele dia típico em que eu gostaria de olhar em teus olhos e dizer que vai ficar tudo bem. Segurar em tuas mãos e dizer que a tempestade vai passar e que eu estarei aqui com você. Hoje seria o dia em que eu desejaria te surpreender com uma passagem para um lugar qualquer desse mundão, como quem arranca um sorriso teu com a calmaria de um lugar tranquilo.

Hoje é o dia em que eu desejaria o teu abraço forte como quem sufoca e quebra todos os meus medos. Aquele calor de duas almas que se encontram num abraço de saudade.

Hoje eu queria poder te dizer que as coisas vão dar certo e, por mais complicado que seja, tudo se ajeita aos poucos e volta ao seu devido lugar. E cá estou eu, no melhor lugar que eu poderia estar depois de tantas voltas. Estacionei ao seu lado como quem quer avançar nessa caminhada com você.

Hoje eu queria encostar no teu peito e sentir a melodia das batidas do teu coração sem precisar de palavra alguma para preencher esse momento. Hoje eu queria poder te contar uma notícia boa, alegrar o teu coração com a minha alegria. Mas hoje, eu decido acalentar as tuas dores, acolher o teu choro e deixar o riso para depois.

Hoje eu quero ser teu abrigo, te abraçar e fazer você sentir todo o meu amor. Por hoje eu dispenso as palavras e fico com o carinho, eu dispenso um jantar a dois e fico com a gente aqui, sentados no sofá, tentando escolher a qual filme assistir.

No final eu sei que vamos pegar no sono e deixar o filme para depois, porque hoje, tudo o que você precisava era de uma companhia leve, forte o suficiente para não dar as costas para as suas angústias. Por hoje prometo não ligar para o seu humor, eu prometo não implicar com coisas bobas.

Eu sei que hoje você não irá rir das minhas piadas mesmo eu tentando fazer graça às vezes, mas eu sei que o seu coração sorri quando te abraço e aquele teu suspiro fundo como quem não aguenta mais as pancadas da vida mostram a mulher forte que você é.

Hoje eu queria poder resolver todos os seus problemas, te surpreender com algo material e sei lá me virar do avesso para te ver bem. Mas eu sei que hoje isso não é possível, e então te ofereço o meu riso leve, o meu carinho e um café quentinho. Hoje eu te faço um bolo de cenoura com chocolate e deixo você raspar a panela.

Hoje eu deixo você escolher o filme e prometo não dizer que ele é chato. Hoje eu te ofereço companhia sem tentar entender os teus porquês e prometo não tentar te convencer que cebola na comida é muito bom.

Hoje a massagem nos pés é por minha conta e o cafuné a gente negocia, pode ser? Hoje eu vou aí não como quem espera que as coisas mudem de repente, mas como quem deseja ser companhia quando o tempo fecha e o sol decide não aparecer.

Como quem ama demais para ser orgulhoso, como quem ama demais para ser egoísta e se fechar no seu mundo e aparecer apenas quando o outro estiver com todos os seus problemas resolvidos. Eu quero estar com você nos vendavais, eu quero estar com você quando a música parar de tocar e eu quero continuar dançando, criando a nossa própria melodia e nos reinventando.

Eu quero estar com você mesmo quando o riso estiver camuflado pela dor, mesmo quando o colorido da vida passa a ser preto e branco e a gente não vê saída para os nossos problemas. Eu quero ser companhia, quero ser calmaria. Eu quero ser o teu amor leve, aquele amor que faça o teu coração sorrir sem medo.

Hoje eu quero ouvir a tua voz, mesmo ela estando em tom de choro, hoje eu preciso te encontrar mesmo você estando com o seu pijama velho, aliás, você fica linda com ele. Como eu amo a tua simplicidade. Hoje eu preciso te desejar boa noite como quem pensou em você o dia inteiro, como quem sente saudade do teu cheiro e que sorri ao lembrar-se do teu sorriso.

Precisamos cuidar do nosso amor

Precisamos cuidar do nosso amor

Desde já, e para sempre
Antes que seja tarde
Enquanto ainda vale a pena
Enquanto ele ainda está aqui.

Precisamos voltar a nos olhar como sempre nos olhamos
Com ternura, com admiração, com sentimento
Como no tempo em que, mesmo que achássemos, não tínhamos grandes preocupações
O tempo em que não éramos responsáveis pelo nosso sustento, nossa estabilidade, por “dar certo na vida”
Em que não nos era exigida uma postura de “gente grande”…

Precisamos voltar a nos tratar como namorados em êxtase
Como naquela época em que éramos dois descobridores, explorando um ao outro
Desvendando anseios, modos de ser, trejeitos, manias, defeitos
Como quando buscávamos nos agradar o tempo inteiro
Com as mais singelas ou as mais elaboradas atitudes.

Precisamos voltar a sentir a necessidade de investir na relação
Como naquele tempo em que ainda não nos considerávamos conquistados,
Em que precisávamos mostrar o melhor de nós
Conter nossas imperfeições, nossos desgostos com a vida
E separar os problemas que possuíamos, para não “misturar as coisas”.

Precisamos parar de deixar para amanhã nos dedicarmos com mais afinco à nossa relação
Deixar de adiar a atenção que o relacionamento sempre merece
De fazer de conta que o amor supera tudo, e sempre se mantém intacto
E que alguns momentos de “lua de mel”, uma ou duas vezes por ano, tudo resolve
Pois sabemos, no fundo, que não é bem assim…

Precisamos, e antes que o sentimento atrofie, antes que fique em segundo plano
Antes que a rotina definitivamente camufle o que é realmente importante
E o cansaço termine de consumir a pouca energia que nos resta

Precisamos não deixar o nosso amor, de fato, adoecer…
E necessitamos de atitudes concretas, não apenas do reconhecimento do problema

Precisamos ser diligentes um com o outro, prestar atenção, agir
Como no tempo em que o aniversário das coisas mais simples (como o do primeiro beijo) era comemorado como um grande acontecimento
Como no tempo em que nos surpreendíamos com declarações sem motivo específico
E em que fazíamos questão de demonstrar o amor que sentíamos das mais diversas formas.

Precisamos voltar a apoiar as maluquices um do outro
A encorajar os sonhos e os desejos mais impossíveis ou improváveis
A incentivar nosso crescimento e nossa realização
A não levar a vida tão a sério
Precisamos, acima de tudo, resgatar a leveza, sempre tão essencial.
Precisamos

Para que não aconteça o que já vimos acontecer com tantos casais bacanas que possuíam um relacionamento promissor
Para vermos que os nossos sonhos adolescentes não estavam errados
Para congratular todos os momentos lindos que já vivemos
E todos ainda mais maravilhosos que, se assim quisermos, virão.

Depressão é a dor de apenas existir, é quando perdemos de vista o sentido de viver.

Depressão é a dor de apenas existir, é quando perdemos de vista o sentido de viver.

É a dor de acordar e não ter forças para enfrentar o dia, de sentir o peso das horas que parecem não passar nunca, de sentir que toda a sua disposição e energia ficaram na cama e que, de alguma forma, você terá que arrumar meios para enfrentar o dia.

É a dor de querer que a semana passe rápido e de tentar passar as horas do final de semana dormindo, de querer um remédio que te faça dormir e acordar só quando tudo estiver bem.

Vemos tudo à nossa volta de uma forma bonita e parece que o preto e branco pertence apenas a nós, que a luz só brilha lá fora e que a escuridão insiste em residir dentro da gente.

A dor de não ver graça nas coisas simples e fantásticas da vida. Aquela tarde chuvosa que te leva a assistir um bom filme, enrolada no cobertor comendo o seu brigadeiro de panela foi substituída por ficar deitada olhando para o nada, pensando em tudo e chorando. Uma tristeza tão grande que chega a nos sufocar. O peito aperta, as lágrimas caem e você se questiona de onde vem tanta dor e quando essa tempestade irá cessar aqui dentro.

Você prefere dar um sorriso forçado e dizer que está tudo bem, porque cansa de ser bombardeado com frases do tipo: ”Você tem de tudo, olhe para fulano, coitado, esse sim tem motivos para estar triste, passou por tanta coisa e está ai vivendo e sorrindo.” “Isso é frescura, é preguiça.” Ou,” Hum, você está querendo chamar a atenção.”.

Como alguém pode pensar que o outro escolhe sofrer para chamar a atenção? Como o outro pode pensar que é preguiça, que é frescur,a sendo que o meu maior desejo é justamente sair disso? É uma luta todos os dias comigo mesma para não ficar na cama e me esconder do mundo, de não tirar o meu pijama e de não ter que encarar a vida lá fora. É uma luta de tentar não desmoronar, mesmo quando o seu mundo interior está um caos. De se manter inteiro para os outros, mesmo estando em pedaços.

As pessoas falam isso como se a gente gostasse de se sentir assim, como se fosse imediata a melhora. Como se fosse uma gripe que melhora com aquelas receitas da vovó. Quem me dera fosse tão rápido assim.

Talvez o alívio momentâneo encontrado, em meio a tanta dor, é naquele tempo que alguém oferece para nos ouvir, sem tecer nenhum julgamento; naquele abraço quando você está em prantos e naquela mensagem inesperada que te arranca um sorriso leve. Por mais que as coisas tenham perdido a graça, os afetos continuam sendo a nossa graça, o nosso remédio, o nosso alívio imediato.

No mar da depressão, o meu barco – a vida – quase quis naufragar, perdi muitas coisas nessa tempestade toda, a autoestima afundou e com ela o meu riso fácil. Mas, depois da tempestade, vem a calmaria e, aos poucos, a gente se recompõe e vai tentando reconquistar tudo novamente. E eu sei, a gente consegue. Leva tempo, mas consegue.

Depressão é a dor de apenas existir e não viver. Quando eu digo viver, é porque tudo perde o sentido e a gente não vê graça nas coisas incríveis da vida. Não é fácil não ver graça em coisas que antes te deixavam feliz.

Não é fácil não ter mais perspectivas quanto ao futuro, não alimentar sonhos e não querer planejar. Não é fácil olhar à sua volta e ver felicidade tão perto e ao mesmo tempo tão longe. É doloroso perceber tudo isso.

Quando eu escutei a frase: “Tem gente sofrendo, desejando viver, e você aí reclamando e sofrendo por qualquer coisa”, eu me senti pior do que já estava, como se eu estivesse sendo ingrata com a vida, como se eu estivesse sendo egoísta, como se sofrimento precisasse de justificativas. Esses julgamentos nos matam e nos empurram ainda mais para o buraco. As palavras têm poder para nos ajudar, é uma pena que elas sempre chegam de forma agressiva até nós.

Hoje, estou certa de que posso escolher ver as coisas de um jeito diferente, é uma escolha que reafirmo todos os dias. Tem dias em que os ventos sopram forte demais e eu temo cair, temo não ter forças para enfrentar.

Eu luto todos os dias pela alegria, entendi que ela não reside nas coisas, entendi que a felicidade não está nas pessoas, ela está em nós. Aprendi que nem todo mundo consegue ser abrigo quando a tempestade vem e que, sim, nós iremos nos decepcionar. Iremos nos magoar e isso vai doer muito. Vamos levar rasteiras de pessoas que amávamos e em quem confiávamos, mas também vamos receber aquele abraço caloroso de quem menos esperávamos.

Isso se chama vida, isso é viver. E, então, eu luto todos os dias para não sentir mais essa dor de apenas existir. Mas eu sei que haverá dias em que tudo irá parecer desmoronar, sei que terá dias que o choro será presente e a angústia irá insistir em apertar o peito. Mas isso, nem de longe, significa que estou recaindo e que, sei lá, eu sou fraca demais para as coisas.

Talvez seja só mais um dia ruim mesmo, uma semana conturbada e a gente, de alguma forma, chateia-se com algumas coisas, é normal. Mas, depois de um tempo, a gente consegue enxergar para além do que está posto à nossa frente, a gente consegue ver as inúmeras possibilidades que temos de nos reinventar e recomeçar. E então eu prefiro escolher estar perto de quem me incentiva a ser melhor a cada dia, em quem não julga as minhas dores.

Eu acordo e posso até sentir vontade de ficar na cama, mas logo penso que o dia lá fora está lindo e que eu posso florescer as coisas aqui dentro. Jogo fora os espinhos que ganhei da vida e sei que as dores e os machucados não definem quem eu sou. Eu sou metamorfose, não sou rótulos, nem feridas, nem dores. Eu sou forte e, mesmo tendo que matar um leão por dia, aqui dentro eu continuo prosseguindo.

Notas: há muitos anos, sofri com esse mal da depressão e, como todos, eu também sofri julgamentos e as coisas perderam a graça. A psicoterapia é fundamental nesse processo; caso você não possa arcar com os custos de uma terapia, procure os atendimentos públicos de estudantes e até profissionais de saúde que atendam pelo SUS. A terapia é fundamental para nos auxiliar nesse processo doloroso de perda de sentido da vida e da nossa essência.

Permite-nos o reencontro e nos ajuda a ver o mundo de outra forma. É um processo, requer tempo, mas é um benefício e tanto para a nossa vida. E, se você conhece alguém depressivo, deixe de lado os seus julgamentos e o oriente a recorrer a uma ajuda profissional. Troque as palavras que ferem por um abraço e, ao invés de jogar o outro ainda mais no buraco, estenda a mão e o ajude a sair de lá.

Ele falava da boca pra fora, ela entendia do coração pra dentro

Ele falava da boca pra fora, ela entendia do coração pra dentro

Talvez nunca consigamos nos conter nos momentos de raiva, calando-nos para não magoar com ofensas agressivas que machucam no fundo da alma. Por mais que tentemos, jamais conseguiremos verbalizar racionalmente o que sentimos nos momentos em que temos tudo dentro de nós, menos alguma coisa boa. Porque raiva verbalizada muitas vezes fere mais do que a violência física.

Talvez porque engulamos demais e por muito tempo o que sentimos, porque não temos coragem de expor nossos pensamentos na hora adequada, ou porque temos dificuldade de dizer não, por medo de desagradar, acabamos acumulando um monte de contrariedade aqui dentro. Então, quando somos dominados pela raiva, isso tudo acaba saindo de forma distorcida, visto que carregada de rancor demorado.

Muitos dizem que é nessas horas que conseguimos ser verdadeiros e dizer o que temos e o que somos realmente. No entanto, mesmo que exista alguma sinceridade nas ofensas, é de se duvidar que possamos ser tão frios a ponto de magoar quem quer que seja, de forma agressiva, só para desabafar. Todo mundo tem o direito de falar o que pensa, mas o respeito não poderá se afastar disso tudo, ou se quebram laços afetivos, muitas vezes de forma imperdoável.

Geralmente, quem esbraveja e vocifera violência verbal nos momentos de destempero acaba até nem se lembrando direito do que disse, embaralhado que estava sob o calor do momento. Porém, quem ouve, quem é atingido, quem é agredido jamais se esquecerá do que veio ao seu encontro, machucando fundo seus sentimentos. Sempre ficará no ar aquela dúvida quanto à veracidade das palavras ouvidas.

É preciso exercitar a fuga aos momentos de raiva, tentando ficar sozinho, calado e distante nesses momentos, para não ferir ou ferir-se. Caso já se tenha falado mais do que deveria, de forma violenta e dolorida, nunca será demais o pedido de desculpas, se sincero, verdadeiro. Vale muito, também, tentarmos nos colocar no lugar do outro, entendendo o que ele sentiu ouvindo o que dissemos.

Sim, a sinceridade é uma característica positiva, que pode nos salvar e nos libertar, desde que não tenhamos que ferir ninguém com ela, desde que ela seja parte integrante de nossa vida e não uma válvula de escape que é acionada somente quando estamos de saco cheio. Porque ninguém permanece igual após o confronto com o pior de si e do outro – e todos podemos perder, e muito, por isso.

Gostar de gente nunca esteve tão fora de moda

Gostar de gente nunca esteve tão fora de moda

Não é de hoje que o passado interessa mais do que o presente. Faz tempo que recordar é um jeito útil e eficiente de tocar a vida. Por algum motivo, a gente ignora o aqui e agora pra olhar de frente um canto lá atrás, um instante bonito, um velho sucesso, uma saudade boa. E vai seguindo assim, avançando de costas para o amanhã e o depois.

Claro que a gente não faz por mal. É que na falta de uma paixão novinha no presente, um motivo incomum, uma razão original que nos mantenha de pé, a gente procura e encontra no passado aquilo de que precisa para já. Está tudo lá. Todos ali, olhando em nossos olhos, à espera.

Na música, no cinema, no teatro, na moda, na TV, na poesia e em tudo quanto há, retomamos o que foi bom um dia e o fazemos funcionar de novo como velhos rádios, brinquedos antigos, fotografias em preto e branco reconstruídas em cores. No passado, reencontramos o presente perdido e seguimos adiante.

Mas em meio a tantos velhos modos revisitados, alguém bem podia inventar de novo aquele negócio antigo de uma pessoa gostar da outra. Já pensou? Do nada alguém se pega pensando: “puxa, vida… como o fulano é legal! Vou ligar pra ele!”. Num outro canto uma moça triste abre o e-mail, encontra mensagem de pessoa querida e responde animada. Ela está alegre de novo. Pais, filhos, amigos, irmãos, vizinhos, amantes ou completos desconhecidos, toda gente inventa de se tratar com ternura.

Aqui e ali, querer bem a alguém ganha ares de novidade boa. Em questão de horas, uma febre se espalha feito moda pelo planeta e de repente estamos todos, em todas as línguas, declarando amor e amizade uns aos outros.

Em vez de insultos, injúrias, maus modos e caras feias de hoje, elogios honestos, palavras de afeto e gestos gentis de ontem, reencontrados em algum lugar lá atrás e trazidos de volta para o nosso agora, retomados como modernos, clássicos obrigatórios, motivos para seguir em frente melhores, revigorados, atuais.

Aos poucos, essa coisa antiga de uma pessoa gostar da outra fará de nós uma gente nova em um mundo novo, habitado pela compreensão e a tolerância. Um mundo de gente que se ajuda, se respeita e se quer bem, avançando de frente para o amanhã e o depois.

10 filmes franceses atuais que você precisa assistir

10 filmes franceses atuais que você precisa assistir

Saiba quais são as produções recentes do país que você não pode perder!

Fora do circuito hollywoodiano, o cinema francês é o que mais se destaca, seja pela oferta de produções ou pelo alcance de público. E não é para menos – a cada ano, novidades do país invadem as telas mundo afora.

E para quem já é fã, ou àqueles que pouco conhecem, o Guia da Semana selecionou 10 filmes franceses atuais que você precisa assistir. Confira!

Agnus Dei (2016)

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Nem todos os dramas de guerra precisam falar de soldados e “Agnus Dei” mostra uma perspectiva totalmente inusitada sobre a Segunda Guerra Mundial. Uma médica francesa da Cruz Vermelha atende ao chamado de uma freira para resolver uma situação espinhosa: num convento polonês, a maioria das freiras está grávida ou já morreu dando à luz, após sucessivas invasões de soldados de ambos os lados do conflito.

Marguerite (2015)

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A comédia dramática de Xavier Gianolli foi lançada no mesmo período que a versão americana “Florence – Quem É Esta Mulher?” e ambos se inspiram na mesma história real: a de uma mulher muito rica que amava cantar, mas não tinha talento nenhum. Na versão francesa, Catherine Frot interpreta a protagonista.

Chocolate (2015)

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O Pequeno Príncipe ‬ (2015)

Baseado numa história real, o filme mostra a trajetória do primeiro artista circense negro a conseguir construir uma carreira na França. Omar Sy interpreta Chocolate, que começa a trabalhar no circo como uma “besta africana”, mas encontra a oportunidade de mudar quando um palhaço (James Thierrée) o convida para ser seu parceiro no palco.

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O livro de Saint-Exupéry, um dos mais famosos na literatura infantil, ganha uma adaptação expressiva por Mark Osborne. A animação conta a história de uma menininha que se prepara para entrar numa escola muito rígida, quando conhece seu excêntrico vizinho: um aviador que diz ter conhecido um garoto de outro mundo.

Também temos: 10 filmes com finais inesperados que te surpreenderão na Netflix

Gemma Bovery – A Vida Imita a Arte (2014)

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Para amantes de literatura, “Gemma Bovery” é um presente. Fabrice Luchini interpreta um homem fascinado por Gustave Flaubert que fica obcecado por seus novos vizinhos quando descobre que o nome da moça é Gemma Bovery (Gemma Arterton) e que sua história tem semelhanças com a da personagem literária.

A Família Bélier ‬ (2014)

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Paula Bélier é uma adolescente que divide seu tempo entre ajudar os pais na fazenda e ter uma vida social na escola. Como toda a família é surda, exceto ela, sua presença é ainda mais essencial. Quando Paula é descoberta por um professor de canto e é convidada a participar de um concurso para estudar música em Paris, sua relação com os pais entra em choque.

Saint Laurent (2014)

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A vida de Yves Saint Laurent entre os anos de 1967 e 1976, quando o estilista estava no auge da carreira, retratando ainda algumas paixões da sua vida, como Jacques de Bascher, que mais tarde tornou-se parceiro de Karl Lagerfeld.

A Datilógrafa (2012)

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Para quem gosta de romances adocicados, “A Datilógrafa” é a pedida perfeita. Ambientado nos anos 50 em tons pastéis, o filme conta a história de uma secretária que se candidata a um trabalho numa grande empresa. Seu chefe percebe que ela não é uma boa funcionária, mas tem um talento inato para datilografia e decide inscrevê-la num concurso nacional.

Dentro da Casa‬ (2012)

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Voyeurismo é o tema central da comédia dramática (com um toque de suspense) de François Ozon. Germain (Fabrice Luchini) é um professor de francês entediado com a falta de talento de seus alunos, até que conhece Claude. Habilidoso com as palavras, Claude começa a escrever uma mistura de ficção e realidade sobre a família de um amigo, mas, para continuar produzindo, ele precisa se infiltrar cada vez mais na vida da família.

Fonte: Guia Da Semana

Despedida de um amor

Despedida de um amor

Vou-me embora da sua vida. Vou hoje, sem demora. Uma decisão calculada, conclusiva, bem pensada. Vou-me embora da sua vida, aliviar o peso que você carrega, liberara sombra que te roubo, devolver o espaço que ocupo.

Vou-me embora para me preservar, para te poupar, para nos afastar, para poder pensar, sentir saudades ou alívio, solidão ou euforia, liberdade ou arrependimento. Vou para ouvir o meu silêncio, entender meus desejos, separá-los da confortável rotina, deixar que sintam frio e medo, que digam o que realmente querem de mim e para mim.

Se você não puder esperar, prossiga. Eu vou porque por perto não entendo o que preciso. Vou para saber de que lado sofro e de que lado me aconchego.

Vou-me embora da sua vida para viver um pouco só. Vou testar as inseguranças e desproteções que tanto se teme. Ou descobrir minha fortaleza e independência, que viviam trancafiadas nas crenças da fragilidade.

Posso me arrepender, e se isso acontecer, não terei medo de lhe dizer. O maior medo que passo é hoje, a decisão de romper com o que já conheço e acabei por me acostumar.

Mas não quero somente me acostumar. Nem que se acostume comigo. Quero outra dimensão de vida, de surpresas, emoções e descobertas. Quero isso para mim e também para você.

Não sei se é pedir demais. Na verdade, o único pedido que tenho é que você não me queira por perto enquanto eu precisar ficar longe.

Vou-me embora da sua vida porque a confundi com a minha própria e isso não é jeito de se viver. Não te culpo, não me culpo. Só estou indo porque não saberia como ficar sem me entender.

União pirata

União pirata

Nós. Todos os outros. Todos

Cada um em seu barquinho
Um oceano infinito cheio de troços
Nos vemos de longe
Não vemos direito

Cada um em seu barquinho
Não escutamos com efeito
Remamos

Cada um em seu barquinho
Temos cordas e âncoras
Guardamos rancor

Cada um em seu barquinho
Enviamos cumprimentos longínquos
O oceano é infinito
Quando se cansam do remo
Descem corda. Ancoram
Antes

Cada um em seu barquinho
Sonhavam com o fim do oceano infinito
Quando no oceano infinito encontrariam outro

E cada um não sabia bem o que queria
Só o desejo do remador
De tanto trombar nos troços
Fazer destroços em vão

Do remo cansado
Os braços partidos
Resta a corda
Resta a ancora
Param. Restos.

O rancor guardado na caixinha dos primeiros socorros
No balé das tormentas se enlaçam as cordas
Atrito
Parte fraca
Afunda

O oceano ganha um barquinho
Um barquinho ganha mais um
“Um barquinho pequeno demais pra nós dois”
Parte fraca

Se acomoda em carona
Cada um em seu mundinho
Cada bússola um rumo à parte

Que fere pedaços no arranque
Guardada no cantinho do fundo
Protegida com encantos vencidos
Com o tempo

Do caminho distante
Deixando-se ir na direção do vizinho
Deixando-se à parte dos horizontes
Morrem aos poucos os sorrisos

Artifícios explodem à força
Fogo demais sujando o céu
Pólvora morta afoga no fundo
No fundo
No fundo
Do mar

O vizinho continua a remar
Como fosse só em seu barquinho
Olhando só de relance quem se deixa levar
Até que a enfermidade liberte rancores

Da caixinha dos primeiros socorros
Os primeiros remorsos
Tarde demais?
E quem foi que aprendeu a nadar?

Enquanto cada um em seu barquinho
Quem poderia imaginar?
Um dia saltar em outro
Permanecer por lá
Esquecer-se de si

Quando as bússolas gritam
“Abandonar o barco!”
Quem será o primeiro a saltar?
Sem remo, sem âncora, sem barco no mar

Seria preciso coragem feita de loucura
Dessas impermeáveis de se encharcar
Voam boiam nadam
Dessas que nascem nuas
E seguem sem vento

Bússolas de instinto
Bússolas de razão
“Você já conheceu a ilha?”
“Mas, o oceano é infinito…”
Param de remar.

Se afundam em dois
Naufrago ao quadrado
Quando já não há mais atrito
Há pesar

Pudera antes encontrar
Quem quisesse seguir lado a lado
E não frente a frente
Frente a frente
Não chegaram a nenhum lugar

 

George Orwell: a linguagem como construção de poder

George Orwell: a linguagem como construção de poder

O que são verdades? Nietzsche dizia que as verdades são construídas por meio da linguagem e do esquecimento. Sendo assim, a linguagem e, por conseguinte, as informações proferidas pela linguagem, configuram enorme importância no erigimento das bases que estruturam o convívio social.

Essa problemática é trabalhada com perfeição por George Orwell nas suas obras “A Revolução dos Bichos” e “1984”.

Em “A Revolução dos Bichos”, os animais de uma determinada fazenda – “Granja Solar” – através de uma revolução conseguem se livrar do domínio humano, personalizado na figura do Senhor Jones. Após o processo revolucionário e a tomada do poder, os porcos passam a liderar o movimento, uma vez que se consideram os animais mais inteligentes e, portanto, mais capazes de liderar a revolução e o controle da fazenda, ainda que eles coloquem, perante o resto dos animais, a liderança como uma atividade muito dispendiosa, a qual, eles humildemente estão dispostos a executar, em uma espécie de sacrifício para com os demais animais.

Ou seja, desde logo, o uso da linguagem e da informação são utilizadas como um forte instrumento político-social, já que é sabido que os porcos preocupavam-se tão somente em possuir o poder e tirar proveito deste para a sua “classe”. Desse modo, o controle da linguagem e da informação por um determinado grupo, faz com que este distorça estas de acordo com o seu interesse.

Ao longo da história isso é perceptível claramente na manipulação dos mandamentos, que mudam sistematicamente conforme os desígnios dos porcos se modificam e estes vão se “humanizando”.

“Porém, alguns dias mais tarde, Maricota, lendo os Sete Mandamentos, notou que havia outro mandamento mal recordado pelos animais. Todos pensavam que o Quinto Mandamento era “Nenhum animal beberá álcool”, mas haviam esquecido duas palavras. Na realidade, o Mandamento dizia: ‘Nenhum animal beberá álcool em excesso’.”.

Outro elemento utilizado na construção das bases que mantêm a ordem estabelecida é o uso das estatísticas. Por mais que a situação aparente estar tão dura ou pior que na época do Senhor Jones, os porcos sempre tratam de apresentar estatísticas que “comprovam” que as condições são melhores, haja vista o “aumento” constante na ração e a “diminuição” das horas de trabalho.

Esse elemento, o qual também é utilizado em “1984”, tem o seu sucesso estruturado em função da ideia de Nietzsche, posto que submetidos a uma realidade imposta e manipulada, perde-se até mesmo a noção de tempo, em que o esquecimento age como determinante na construção das novas verdades. Não à toa, um dos lemas do Partido em “1984” é:

“Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado.”

No entanto, os absurdos produzidos pelos detentores do poder podem algumas vezes tornar-se alvos de questionamento pelos dominados. Quando isso acontece, faz-se necessário alterar a percepção interna para a externa, criando-se a figura do inimigo que quer destruir a ordem posta. Em “A Revolução dos Bichos” esse inimigo é inicialmente colocado na figura do Senhor Jones, o humano, de modo que a cada questionamento acerca do sistema, liga-se o alarme do medo dos tempos sombrios da submissão aos homens.

“Sabeis o que sucederia se os porcos falhassem em sua missão? Jones Voltaria! […] não há dentre vós quem queira a volta de Jones. Ora, se algo havia sobre o que todos os animais estavam de acordo, era o fato de nenhuma desejar a volta de Jones. […] Foi, portanto, resolvido sem mais discussões que o leite e as maçãs caídas (bem como toda colheita de maçãs, quando amadurecessem) seriam reservadas para os porcos.”

Posteriormente, o inimigo externo tornou-se um animal, antes integrante da revolução, “Bola de Neve”, o qual deveria ser combatido por todos de forma ininterrupta. Em “1984” esse inimigo aparece na figura de “Goldstein”, antigo membro do Partido, e agora líder das guerrilhas que pretendem destruí-lo e, consequentemente, o povo da Oceania. A fim de sempre reavivar a persona do inimigo, instauram-se os “Dois minutos de ódio” destinados ao ataque de todos à imagem de Goldstein que aparecia nas tele-telas.

Dessa maneira, a construção do inimigo externo e, conseguintemente, do ódio destinado a este, exerce fator determinante na manutenção do establishment, uma vez que se quebra a possibilidade de subversão e a classe dominada é mantida sob forte alienação e ignorância.

A despeito disso, o fator primordial que possibilita a execução das vontades dos Porcos e do Partido consiste na ignorância a que os indivíduos/bichos são mantidos. Nos dois mundos, poucos possuem um nível intelectual mais avançado, sendo que a maioria, no caso de “A Revolução dos Bichos”, sequer sabe ler, o que, diga-se de passagem, é determinante na manipulação que é exercida nas informações.

“Nenhum dos outros animais da granja chegou além da letra A. Notou-se também que os mais estúpidos, tais como as ovelhas, as galinhas e os patos, eram incapazes de aprender de cor os Sete Mandamentos. Depois de muito pensar, Bola de Neve declarou que, na verdade, os Sete Mandamentos podiam ser condensador numa uma única máxima, que era: ‘Quatro pernas bom, duas pernas ruim’.”.

Sendo assim, a ignorância, o ódio, o medo e a alienação, tornam-se faces de uma mesma moeda, de modo que os detentores de maiores recursos, não só financeiros, mas intelectuais e técnicos, conseguem facilmente manipular a linguagem, as informações, a história e o próprio povo. Tudo é ressignificado constantemente para que a “Ordem e o Progresso” sejam mantidos, e, assim, Mandamentos sejam reescritos, a novilíngua seja instaurada e o pensamento mantenha-se confuso e restrito. Isto é, para que a massa por meio da linguagem, instrumento indispensável à liberdade, tenha a sua própria linguagem e, consequentemente, liberdade, controladas.

Em um mundo em que as realidades apresentadas estão cada vez mais presentes, torna-se indispensável fazer do instrumento de cerceamento, a chave da libertação, sendo um verdadeiro inimigo do Partido e dos Porcos (pleonasmo?), sendo um verdadeiro libertário, sendo corajoso para quebrar as regras da polícia do pensamento ou para lutar contra os cães de Napoleão e, acima de tudo, sendo “louco” o bastante para ser um “criminoso” de ideias, porque se há algo que pode quebrar a estrutura, esse algo está dentro de nós.

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