Desde que você foi embora eu não penso em outra coisa que não seja sua ausência

Desde que você foi embora eu não penso em outra coisa que não seja sua ausência

Imagem de capa Kseniia Perminova/ Shutterstock

Desde o dia em que você foi embora, as coisas não são mais as mesmas. Eu tiro do lugar as coisas, com um movimento pincelo a cor da parede, mudo a posição dos quadros. Eu tiro o lugar das coisas, mas elas não mudam. Essa coisa do território é algo que marca, e parece que, elas sabem disso porque me olham com aquele olhar parado de coisa, enquanto eu transfiro do lugar mais um objeto pra ver se a sua ausência fica menos pesada. Há dias, que não é o mesmo café, filtrado naquele coador de pano, com aquelas bordas espichadas. Coloco a dose certa, mas não é o mesmo gosto de quando tomava com você, olhando seus olhos através da xícara e vendo as imagens distorcidas do outro lado. Eu gosto das imagens distorcidas, da estranheza que elas causam, mas você nunca foi estranho pra mim… até aquele dia. Você sempre foi tão quieto, mas o seu silêncio nunca me incomodou… até aquele dia. Eu tento apagar aquele dia, mas eu não sei me desfazer de uma memória tão recente. Ainda tenho na minha pele o seu cheiro e o desenho dos seus lábios margeando os meus poros. Desde o dia em que você foi embora eu não sei pensar em outra coisa que não seja essa que me partiu e espalhou por todo canto. E me junto às coisas pra ver se me importo menos, pra ver se pego essa imparcialidade calada que as coisas têm, mas é só um jeito de sentir mais fundo, de tocar a superfície das coisas que você tocava, com um jeito meu, que é só mais uma forma de lembrar você. Junto as coisas pra sentir que ainda podem ser íntegras e ter alguma serventia, mas estão com uma fissura enorme do lado de dentro. E eu fico nessa de fingir que não vejo que as coisas ocas reverberam um som triste que se liquefaz no vazio da tarde, mas eu sinto tudo gritando, o que é bem pior. Penso em te ligar pra dizer que eu sinto muito, mas você deixou bem claro que foi tudo que era pra ser, como se já soubesse que o futuro omitia o nosso nome de todas as coisas.

Se for amar, não cobre e nem espere recompensas. Voe!

Se for amar, não cobre e nem espere recompensas. Voe!

Imagem de capa:  Alena Ozerova/Shutterstock

Se for amar, ame na presença, derrame-se no instante, não espere recompensas, não projete planos em outra alma, não cobre na mesma moeda, não ostente mais do que o momento.

Se quiser, faça um belo café da manhã e ofereça para o seu bem. Se quiser, ouça o que ele tem a contar. Se quiser, cuide, beije, presenteie, passeie, curta, aproxime-se. Se quiser, receba o choro, o silêncio, os desencontros, a tristeza.

Se quiser fique perto, fique dentro de um amor, fique na sintonia bonita que tocou seu coração. Fique o tempo que quiser, à vontade, sem pressa, intensamente sentindo.

Se quiser se entregue. Entre de cabeça nisso que lhe invade a alma, deixe que afete seus sentidos, deixe que se quebre o controle. Se quiser se jogue no precipício. Ame. Caia. Voe.

Se for amar, faça o que quiser, dê o que quiser, ofereça-se o quanto quiser. Mas não cobre nada! Não espere nada, não calcule as dívidas, não equilibre os sentimentos dados e não recebidos. Não se sinta em prejuízo. Não dê nem um simples sorriso buscando amarrar uma alma, buscando aprisionar uma realidade.

Não faça o café da manhã para outra pessoa, se amanhã você sentir que investiu e não recebeu, que cuidou e não conquistou, que ofereceu o mundo e viu no outro ser os olhos inflados de liberdade.

Não faça o café da manhã, se amanhã você for a vítima do seu próprio sentimento. Se a atitude não foi gratuita, se não foi apenas para celebrar o momento. Se foi pensando em merecer atenção, se foi querendo chantagear e criar culpa.

Não faça nada se por trás do ato houver um jogo de poder querendo controlar e fazer do outro propriedade da sua insegurança. Não faça promessas e não as espere serem feitas.

Você pode se compartilhar, você pode compartilhar seu amor, sua felicidade. Você pode fazer o café da manhã com gratuidade e desprendimento. Você pode entregar-se inteiramente àquele momento. Você pode receber um sorriso e ficar feliz com isso, e nutrir-se do que dois corpos e almas sem segundas ou terceiras intenções são capazes de produzir juntos.

Você pode fazer a eternidade durar alguns minutos. Você pode aprender a amar o passageiro, aprender a desapegar do medo de não ter, de não viver mais, de não possuir. Curtir as visitas que surgem como beija-flores pousando na floreira de sua janela. Deixar as delicadas surpresas colorirem a sua rotina sem aventuras.

Você pode amar, enfim, sozinho ou acompanhado, gratuitamente, livremente, sem medos e sem cuidados. Amar sem escravizar e querer ser escravizado. Perder o medo da chuva e aprender o segredo da vida.

Vem, segura a sua xícara de café fresco enquanto eu seguro a minha. Senta ao meu lado na varanda, respira sem pensar em nada. Somos apenas duas crianças brincando sem culpa.

Talvez a gente deva ficar junto

Talvez a gente deva ficar junto

Não porque precisamos, mas porque sentimos. Não somos a maioria líquida que fica por conveniência. Temos a paciência e a cumplicidade que faltam aos desesperados. Nem mesmo medimos carinhos para saber quem ama mais. Passamos longe no quesito “estou com saudade, mas não posso dizer”. Nada disso funciona para nós. Talvez sejamos inteiros demais, amantes demais.

Não estamos juntos para escancararmos afetos para multidões. Escolhemos, no nosso tempo, onde e como dedicaremos tantas carícias, conversas e afinidades. Somos maduros o suficiente para sabermos que, na maioria das vezes, amar nada mais é do que um encontro de dispostos. Para saber ouvir, falar, receber e doar. Pulamos fora do barco chamado ego. Admiramos silêncios, sorrimos sons. Temos essa habilidade incomum de contemplar momentos ao acaso. Não brincamos com o destino, mas o entrelaçamos em nossas mãos.

Não queremos um relacionamento perfeito. Daqueles que fazem vista para o mundo com muitas fotos, declarações e presentes grandiosos. Para nós, uma relação é pautada na simplicidade. Nos instantes compartilhados em sinceridades, tudo torna-se verdade e inesquecível. É fazer o possível sem uma balança que meça certo e errado. Quando estamos, apenas estamos. Não importa o dia, a hora e o lugar. Nós dois é gosto de quero mais sem querer a toda urgência.

Não brigamos por ausências. Enquanto alguns discutem os simbolismos do amor cabível, dedicamos beijos e transas para o nosso amar visível. Permitimos, durante vários abraços, a vontade de existirmos. Nosso querer é desses capítulos literários nos quais versos riscam pele, coração e alma. Caímos de cabeça. Sem medos. Sem traumas. Com calma. Talvez a gente deva ficar junto, não?

Fotografia por Phil Chester

Não me peça pra ser forte quando eu estiver chorando

Não me peça pra ser forte quando eu estiver chorando

Imagem de capa:  eldar nurkovic/Shutterstock

Não me peça pra ser forte quando eu estiver chorando. Não peça pra que eu segure a lágrima e mantenha a pose quando eu estiver triste. Se não é capaz de aguentar um minuto ao meu lado, em silêncio, enquanto desabo, já não pode me acompanhar. Se for assim, o seu abraço não me cabe. A sua companhia será apenas um vulto breve que não aquece. No mínimo, espero que sinta tanto quanto eu.

Que demonstre a sua loucura quando eu estiver séria demais. Que seja fraco, se for considerado fraco chorar no meu ombro e me abraçar longamente, assim com os cílios sobrepostos, as mãos coladas, como quem faz uma prece dentro do meu coração.

Não me peça postura, quando o que mais quero é me descabelar e me pôr nua, como louca ao pé da cama a reclamar dos seus defeitos. O que espero, é que faça graça e solte o riso debochado de quem tem a louca mais louca e feroz. Não me peça pra ter cuidado quando o que quero é avançar, saltar e correr riscos. O mínimo que você pode fazer, é se aventurar também e desafiar o perigo. E dizer que eu vou chegar lá, e que se por acaso, não der certo, terá uma outra vez. E terá sempre uma próxima vez porque você nunca vai me abandonar.

Não me peça pra ficar quando o que mais quero é ir, desbravar, conhecer o mundo, viajar… o que espero é que me encoraje, e fale que eu vá mesmo pro lugar que eu quiser, e que vai comigo, que topa, que vá fundo, que já é.

Não me peça pra acordar do sonho de ser feliz, mesmo sabendo, que muitas vezes, ser feliz é longe e cansa. Porque ser feliz é perder a hora pra ganhar o instante. Ser feliz, é alcançar o sonho que está lá adiante, na outra estrada. Ser feliz custa, esfola, e às vezes, é preciso andar a pé no deserto. O que espero é que, você não faça tantas perguntas. Apenas fique ao lado, me olhando como quem me admira e confia no que penso. O que espero é que, ao olhar de volta, eu saiba exatamente o motivo pelo qual o seu olho brilha e a próxima palavra que vai dizer, me fará sorrir. Que vai me dizer que o tempo ao meu lado é o melhor vivido. E vai me beijar os olhos e a boca, demoradamente.

Não me peça pra mudar coisa alguma em mim, porque não quero ser de ninguém o espelho, a face de reflexo, molde, ou qualquer outra coisa que o valha, e que pretenda alterar a essência, as coisas de dentro. O que mais espero, é que, me receba sempre como sou, sabendo que posso mudar a qualquer instante, e que a cada mudança, será capaz de me amar pelas diferenças, pelo que descobrir de novo. E que sempre tenha o desejo de descobrir-me pelos detalhes, pelas bordas, pelos flancos, por dentro e por fora, pelo que não falo e mesmo me sabendo pelo avesso, reconheças que tens em mim várias outras que não conhecias, e que, sou àquela, a que você sempre quis.

Brigar com quem a gente gosta é necessário; brigar com quem a gente não gosta é perda de tempo

Brigar com quem a gente gosta é necessário; brigar com quem a gente não gosta é perda de tempo

Muita gente confunde aquilo que sentimos em relação a elas, baseando-se tão somente no que esperam receber dos outros, sem refletir sobre o que vem a ser a causa da forma como estamos nos comportando. Não gostar de alguém não significa que o trataremos mal, da mesma forma que não sorriremos o tempo todo às pessoas que nos são queridas.

Quando gostamos realmente de uma pessoa, estaremos querendo sempre o seu bem, torcendo para que ela alcance sucesso na vida, desejando o seu melhor em tudo. Por isso mesmo, então nos sentiremos na obrigação de alertar-lhe quando estiver caminhando por trilhas perigosas, por trajetos errados. Muitas vezes, inclusive, teremos que ser antipáticos, dizendo-lhe as verdades de uma maneira nada agradável, para que caia em si e se recomponha.

No entanto, essa pessoa poderá nos entender de forma errada, assimilando nossas advertências como se fossem implicâncias, como se não gostássemos dela. Muito pelo contrário, quanto mais amamos alguém, mais estaremos torcendo pela sua felicidade, o que requer que tenhamos que chamar a sua atenção, quando percebermos que seu comportamento a desviará da serenidade que desejaremos a ele.

Normalmente, tendemos a tentar ignorar as pessoas de quem não gostamos, de quem queremos distância. Como se nos preservássemos da maldade alheia, como um instinto de sobrevivência, somos levados a nos afastar daqueles que nos fazem mal, daqueles que nos ferem, não trazem nada de bom, não sabem o que é sorrir e não admitem ver ninguém sorrindo. Gastar energia e tempo com quem não merece equivale a masoquismo, além de ser inútil.

Sim, nós brigamos com as pessoas de quem gostamos, pois é assim que aparamos as arestas, é assim que o relacionamento se torna cada vez mais transparente e verdadeiro. Lutarmos para manter as pessoas queridas por perto requer discutir o que incomoda, o que atrapalha, pois é dessa forma que demoramos perto de quem a gente ama. Por isso é inútil brigar com os desafetos, simplesmente porque com eles não queremos ficar nem melhorar nada, e dificilmente conseguiremos, por mais que tentemos.

Não dá para explicar muito bem as razões de gostarmos ou não das pessoas, ou seja, cabe-nos sorrir sempre junto a quem traz verdade e, na medida do possível, bem longe de quem é atraso de vida.

Imagem:  klublu/Shutterstock

Guardar mágoas equivale a armazenar lixo dentro de casa

Guardar mágoas equivale a armazenar lixo dentro de casa

Se o mega superior diretor da companhia que recolhe o lixo resolver ficar “de boa” na casa dele por três dias, isso não vai fazer nenhuma diferença na minha vida, na sua vida, na vida de ninguém.

Mas imagine se os valorosos garotos e garotas que fazem o importantíssimo trabalho de recolher o que jogamos fora, para fora de nossa casa, resolvessem fazer o mesmo… Três dias de acumulação de coisas que entraram na categoria de descartáveis…

O lixo acumulado não ocupa apenas espaço. Ocupa o ar que respiramos. Torna-o pesado, desagradável e mau cheiroso. Ninguém guarda lixo dentro de casa – a menos que seja um acumulador patológico, é claro!

Então… Por que cargas d’água nos permitimos guardar mágoas. Originada do latim “macula”, mágoa retém o antigo significado de “mancha”, “nódoa”. Um coração magoado deixa a gente maculado por dentro; ficamos marcados pelo mal que nos fizeram.

O pior de tudo é que isso pode vir a ser um vício. Há gente que coleciona mágoas. Guarda-as com todo desvelo em caixinhas bem forradas e protegidas. Oferecem a elas um lugar de honra no próprio peito. Concedem a elas audiências regulares. Visitam-nas. Revivem-nas.

Viver magoado é dispor-se a carregar dentro de si, as consequências de situações que geraram sofrimento. É como viver num vale entre montanhas, prisioneiros de um eterno ecoar de uma dor que já devia ter parado de doer.

É preciso aprender urgentemente um jeito de liberar espaço na alma. Ninguém pode experimentar a alegria, quando vive a ruminar tristeza. Ninguém pode ver graça na vida, enquanto ficar perpetuando as inevitáveis desgraças.

Por outro lado, ninguém pode ser tão tolo a ponto de não perceber que se uma coisa lhe pesa demasiado nos braços, depende de sua própria escolha continuar a carregá-la ou simplesmente livrar-se dela.

Façamos escolhas mais amorosas sobre o que vamos levar conosco na bagagem dos dias. O que nos fez sofrer fará parte da nossa história, não há como escapar disso. As maldades alheias nos transformam mesmo.

O que está feito, está feito. No entanto, depende apenas de nós o lugar que vamos destinar ao reflexo dessa dor. Guardar mágoas no peito, equivale a armazenar lixo dentro de casa. Isso vai apodrecer, contaminar todo o resto. O resto que inclui as coisas lindas que a gente deixa de viver porque ficou apegado demais naquilo que nos fez doer.

Feche os olhos por um instante. Uns minutinhos apenas. Escolha uma mágoa ou duas e dê a elas a alforria. Coloque-as com todo seu amor dentro de balões coloridos de gás e deixe-as ganhar o céu. E faça um esforço para nunca mais chamá-las de volta. Mágoas são bichinhos domesticados. Se você lembrar delas, elas são bem capazes de achar o caminho de volta.

O amor é um risco. Quem quer garantia faz um seguro.

O amor é um risco. Quem quer garantia faz um seguro.

Imagem  AS Inc/Shutterstock

A gente sabe. Sentir amor é trabalho de alto risco. Sempre foi. Feito chuva de vento, molha quem estiver debaixo. Você se encapota, usa galochas, tecidos isolantes, cobre os pés com sacos plásticos, veste capas e gorros tentando evitar o menor pingo, escolhe um guarda-chuva enorme, de cabo reforçado, mas não tem jeito: sempre sai com alguma parte do corpo encharcada. É do jogo. Quem não quer se molhar que se esconda em lugar fechado e espere abrir o tempo.

Eu ando pensando no amor assim, sabe? Como a chuva e os incidentes de toda sorte. Um risco. No fundo, tudo tem um risco. Todo trabalho é arriscado, todo esporte é temeroso, toda aventura é perigosa. E esse negócio de fugir de toda ameaça, sei não, vira doença feia, abrevia nosso tempo, elimina possibilidades. Enfia a gente num pavoroso estado de morte em vida. Deus nos livre desse mal!

Quem pula de um avião num pára-quedas sabe bem o que está fazendo. Na hora certa, puxa a cordinha e pronto. Espera chegar o chão, curte a paisagem, pensa na vida, no mundo lá embaixo, no próximo salto. Menos na possibilidade do pára-quedas não abrir, o que, cá entre nós, de vez em quando acontece. Mas a gente salta assim mesmo. Toma precauções, segue as regras de segurança e vai. Mesmo sem garantia absoluta de que tudo vai dar certo, a gente vai. Porque a vida é um risco e só vive quem se dispõe a arriscar.

Tem gente que arrisca muito, tem gente que arrisca menos. Mas todo mundo arrisca. E quem disse que no amor ia ser diferente?

Sentir amor é arriscado mesmo. Sempre foi. Quem abre o coração não tem garantia de nada. Mesmo fazendo tudo direitinho. Você obedece os procedimentos, segue as regras de segurança e continua na mesma: nunca sabe o que vai acontecer. Se vai “dar certo” ou se vai se arrebentar lá embaixo, é um mistério. Logo, qualquer preocupação nesse caso é falta de ocupação. E quem não se ocupa é desocupado, não trabalha pelo amor, acomoda-se, recosta-se, folga, vacila, contribui para o pior sempre.

O amor é um risco. Não dá garantia de nada. Quem quer garantia faz um seguro. Amantes são seres dotados de coragem para aceitar o incerto, viver seu sentimento honestamente, querer e fazer o melhor pelo outro e por si mesmo. Enfrentar e vencer seus medos, inclusive o medo de se ferrar de novo.

Sim, porque com o tempo a gente aprende que o amor não é o contrário do medo coisa nenhuma, como querem os papagaios repetidores de clichês. O amor e o medo são irmãos inseparáveis. Quem tem amor tem medo, sim. Tem a humildade de assumir que sente medo como toda gente sensível. Mas também tem uma coragem imensa de enfrentá-lo e de seguir em frente apesar de seus pavores.

Daqui a pouco aparece um ser perfeito tagarelando: “quem tem amor não tem medo, você está confundindo amor com apego”. Será mesmo? Eu acho que não. “Apego” é justamente coisa de quem exige garantia pra tudo, os amantes não têm garantia de nada. E nós seguimos discordando.

Sei lá. Eu só ando pensando. Mas pensar no amor não leva a gente a lugar nenhum, né? Quem pensa demais também corre um risco enorme, pior do que aquele outro. Risco de não amar nem ser amado. Eu prefiro me arriscar do outro jeito. Vou amando como posso, como quero. E depois a gente vê o que faz.

Eu não consigo odiar ninguém

Eu não consigo odiar ninguém

Fotografia por Phil Chester

Ainda que os cansados julguem, que os maldosos apontem e que os desafetos sintam inveja, eu não consigo odiar ninguém. Não é porque sou melhor do que eles ou porque não me permito ficar chateado e incomodado com as suas atitudes, mas é que, para mim, nada de bom acontece quando deixo o ódio tomar conta.

Algumas pessoas confundem ódio com raiva e talvez não exista nenhuma diferença clara entre eles. Contudo, tanto um quanto outro são nocivos ao bem-estar de quem quer levar a vida na simplicidade, na gentileza na ponta dos lábios. Vivemos em tempos calorosos demais para afetos de menos. Nada pode ser bom quando damos voz para gestos e sentimentos tão desastrosos e diminutos. Raiva não é justiça, ódio não é equilíbrio. Não me permito nutrir nenhum dos dois porque é exaustivo carregá-los, mantê-los. O ódio é entrave para qualquer amor. Perda alguma justifica tantas doses expressivas de querer o mal do outro.

Mágoas não podem, em momento algum, serem pontos de partida para um estado maldito de covardia. Existe uma grande diferença no que diz respeito ao estar descontente e estar com ódio. Tristezas não podem ser previstas e manipuladas, mas o ódio pode tudo isso. E a troco de quê? Ser melhor, fazer melhor? Não, sem chances.

Enquanto uns procuram adentrar nessa trilha entorpecente e desagregadora por questões políticas, opiniões racistas e outros assuntos que nos cabem mais uma falta de maturidade do que de vontade, escolho o respeito como o primeiro sentimento. Não deixo, digam o que quiserem, que o meu sorriso dê cambalhota em lágrimas.

Ainda que tirem-me de louco, ingênuo e tolo, eu não consigo odiar ninguém. Não consigo. É direito de todos escolherem os próprios descaminhos, mas isso não significa que deva ser arrastado por eles. Ódio não é escolha, raiva não é moral. Nada disso merece entrada para os que querem somar.

Certas pessoas não merecem nem ser um problema em nossa vida

Certas pessoas não merecem nem ser um problema em nossa vida

Quanto mais vivermos, mais nos decepcionaremos com as pessoas com quem encontramos pelo caminho, mais nos conscientizaremos de que serão bem poucos aqueles com quem poderemos realmente contar. Portanto, sabermos em quem depositarmos nossa confiança e quais serão os encontros em que deveremos nos demorar nos ajudará a não gastar tempo e energia com gente ruim e de coração vazio.

Da mesma forma, sermos alguém em quem poderão confiar, alguém cujo coração não se escureça com carga negativa de ódio, rancor e inveja, acabará por nos aproximar de pessoas melhores. Atraímos energias afins, ou seja, não poderemos nos deixar contaminar pelas negatividades que nos rodeiam, ou seremos nós quem decepcionará, quem machucará, quem não será digno de consideração.

Existem pessoas que vivem para criticar o outro, no ambiente de trabalho, à procura de supostas falhas e defeitos de quem os rodeia, tentando sempre diminuir quem estiver por perto. Nunca elogiam ninguém, embora tenham severas críticas ao trabalho dos demais, não se furtando de expor as fragilidades que encontra no serviço dos companheiros, às vezes de forma sutil. Parece que se alimentam de ferrar a vida dos outros, tendo prazer em apontar erros – muitos deles imaginários, diga-se de passagem.

Há indivíduos que vivem metidos em confusão, em fofocas, sempre enrolados em meio a algum mal entendido. Onde quer que estejam, seja qual for o círculo de amizades, eles conseguem espalhar algum boato, alguma notícia desagradável, não poupando ninguém de seus enredos venenosos. As personagens de suas fofocas variam, mas eles serão sempre os roteiristas narradores das maledicências que estragam qualquer amizade.

Encontraremos, também, aqueles que tornam todo e qualquer ambiente pesado e carregado, como se as energias estivessem sendo drenadas inexplicavelmente. Mesmo que eles sorriam, tenham a voz doce e aparentem tranquilidade, carregam somente negatividade dentro de si, invejando qualquer um, infelizes que são por culparem a todos, menos a si mesmos, pela vida desprezível que acham que possuem. E quando não estão presentes, a gente sente um alívio imensurável.

O perigo de viver em meio a tanta falsidade é nos impregnarmos com a maldade alheia, tornando-nos tão desprezíveis quanto essas pessoas que nos desagradam no dia-a-dia. Mantermos as nossas verdades e nosso coração limpo e leve então será essencial para que não deixemos nunca de acreditar na força do bem e do amor. É dessa forma que poderemos descansar em paz ao fim de cada dia, na certeza de que fomos o melhor que poderíamos.

Imagem de capa:  ZoneCreative/Shutterstock

Antes de qualquer coisa, seja livre

Antes de qualquer coisa, seja livre

Fotografia de Thomas Lodin

Não adianta esperar que o mundo traga – de braços abertos, possibilidades e esperanças para dias melhores. Assim como também não serve ficar imaginando os porquês de certos sorrisos não terem sido concretizados. Momentos únicos chegam para quem não sente medo de arriscar, para quem não sente medo de viver. Antes de qualquer coisa, seja livre. Faça-se livre.

Nada de estipular sabores e encarar caminhos, como quem julga ter a certeza imutável das escolhas. Um dia você erra, noutro acerta. A vida é esse pêndulo de quedas e saltos, onde sempre nos é permitida a escolha. Sobre o que sentimos e sobre como lidamos com o que sentimos. Vitimismos pesam, cansam. Quanto mais você restringe o seu potencial e o seu querer, mais aprisionado e suscetível aos agouros você se encontra. Felicidade é muito mais do que isso. É aceitar, conhecer e reconhecer que, antes de estar pronto para depositar bondades, gentilezas e amores ao léu, você necessita despir-se de receios e outras amarras emocionais que te impedem de residir em qualquer inteiro. Porque sem coragem para viver inteiro, tudo o que resta são metades. Suas e de outro alguém.

Abrace instantes. Receba o agora. Não fuja da maior responsabilidade que é ser você para você. Autoconhecimento não é conversa de autoajuda, mas o princípio do amor em sua quintessência. É quando janelas e portas se fecham e você consegue encontrar fôlego para desconstruir-se e elevar-se frente novos desafios. É não esmorecer quando a reciprocidade tornar-se ausente. É amor de um tudo mesmo sendo pouco.

Antes de qualquer coisa, seja livre. Porque a liberdade acompanha os despretensiosos e sonhadores. Não estagna, desestimula ou inveja o ganhar alheio. Empatia é liberdade. Amor é liberdade. Amizade é liberdade. Livres são os indivíduos que não buscam respostas a todo tempo. Felizes são os que caminham, em seus próprios passos, para novos e acolhedores horizontes de serem e estarem. Por infinitos instantes, por presentes fragmentos.

Relações baseadas na propaganda! A gente compra o apelo, não o produto.

Relações baseadas na propaganda! A gente compra o apelo, não o produto.

Imagem de capa Dean Drobot/Shutterstock

Aquele velho bordão do comercial de margarina. A cena perfeita, os sorrisos impecáveis, a felicidade que sequer cabe na tela por onde a gente assiste, comenta, crítica, procura defeitos, enfim, inveja.

Desconfie das relações baseadas na propaganda, na exposição maciça de virtudes e vitórias, são geralmente tão frágeis e ilusórias, que desaparecem de uma hora para outra, sem deixar vestígios, lembranças, saudades nem história.

Não existe vida dentro de um comercial de margarina! Não existe um cartão de crédito que compre a estabilidade de um sentimento, nem uma câmera que consiga registrar as angústias represadas por detrás de uma fotografia perfeita. Nem em Paris!

A exposição em si não é ruim se não se dá importância à privacidade. Tem gente que não gosta mesmo, e tudo bem. Ruim para mim é o marketing pesado, agressivo, vendedor, que não sossega enquanto não convencer a plateia de sua posse e direito sobre a felicidade do mundo.

São as relações tolas que a gente tem que aturar, bater palminha e repetir que o amor é lindo, ainda em nada pareçam com a realidade.

E, com isso, o perigo de nos iludirmos, de nos tornarmos consumidores do modelo perfeito, de olharmos para o nosso modelo e concluirmos que temos pouco, que merecemos mais, que a vida que construímos vale menos, não tem projeção, não é modelo de admiração de ninguém… Aí é que mora o grande perigo.

O apelo é tanto que a gente se confunde.
– Quer a parceria perfeita;
– Sofre para alcançar o padrão imposto;
– Persegue a ideia de ser modelo de admiração…

E, por fim,

– Esquece de quem está junto, na luta, na batalha, na vida fora da tela;
– Desvaloriza o que já alcançou;
– Ignora a maior das lições…

Quanto maior o apelo, menos vale o que está em oferta.
O que tem valor, dispensa propaganda.

Desculpe-me, mas simpatia forçada nunca foi meu forte

Desculpe-me, mas simpatia forçada nunca foi meu forte

Sim, é necessário mantermos uma relação minimamente cordial com as pessoas com quem temos de conviver, uma vez que não poderemos estar acompanhados de quem gostaríamos em todos os lugares e em qualquer ambiente em que estivermos. Não raro, no local de trabalho, em reuniões familiares, na roda de amigos, não conseguiremos fugir à convivência com pessoas desagradáveis. Isso não significa, no entanto, que precisaremos forçar uma amabilidade exagerada com elas.

Algumas antipatias que possuímos em relação a certos indivíduos realmente não têm explicação, são casos em que, como dizem, o nosso santo não bate de jeito nenhum, mesmo sem ter acontecido nenhuma desavença entre nós e eles. Porém, existem aquelas pessoas que simplesmente pedem para ser alvo de raiva, desconfiança e desprezo, pois exalam falsidade, espalham maldade e vivem para perturbar a tranquilidade de quem puderem.

Por mais que queiramos ignorar, por mais que tentemos não nos importar, apesar de todos os nossos esforços em aturar aqueles que insistem em ser a discórdia onde estiverem, é impossível sorrir o tempo todo ao seu lado, fingindo o oposto do que sentimos. Uma ou outra hora, perderemos a paciência, soltando tudo o que ficou guardado sob o peso de uma cordialidade forçada e teatral. Quanto mais fugirmos, mais chances teremos de explodir na hora errada, com quem não merece.

Não poderemos falar tudo o que pensamos a quem bem entendermos, nem conseguiremos ser sinceros o tempo todo, pois as relações implicam também concessões e tolerância, sendo a paciência uma de nossas melhores aliadas nesse processo. No entanto, somente manter presos, dentro de nós, nossos incômodos, acabará por minar nossa saúde física e mental, bem como fará com que nos apaguemos enquanto pessoa frente aos mandos e desmandos alheios.

Prefira sempre a cordialidade comedida, quando estiver junto a pessoas com quem você não simpatizar, sem usar de falsidade, forçando demonstrar o oposto do que sente, pois isso o colocará no mesmo nível que elas. Mantenha a sintonia da verdade dentro de seu coração, para que sua essência então se afine com aqueles que devolvem sinceridade e inteireza, sem afetação.

Não é preciso ser simpático com quem não se tem afinidade, afinal, o que temos de melhor deve ser compartilhado com gente do bem, gente de verdade. Aos demais, uma cara de paisagem bastará.

Imagem Tiko Aramyan/Shutterstock

Não há motivo para agradar a todos: há quem não mereça ser agradado

Não há motivo para agradar a todos: há quem não mereça ser agradado

Na escala mais alta de sofrimento desnecessário está sem dúvida a nossa preocupação por agradar a todos.

É muito possível que neste momento você diga a si mesmo que isso não o caracteriza, que não acontece com você e que você não se preocupa em ter que se ajustar aos gostos e preferências de todos para tentar se encaixar.

No entanto, de certa forma, todos já fizemos isso alguma vez e continuamos a fazê-lo em pequena escala.

A necessidade angustiante de agradar a todos

Muitas vezes, para fazer parte de nossos ambientes sociais e afetivos, somos obrigados a nos harmonizar e sintonizar com os outros, e isso nos obriga muitas vezes a ter que agradar, a ser educado e até mesmo dizer “sim” quando queremos dizer “não”.

A chave de tudo isto está no equilíbrio, assertividade  e inteligência emocional. Todos nós gostamos de agradar aos outros, que nos vejam como pessoas acessíveis, mas isto não nos deve fazer cair na escravidão de agradarmos a todos de uma mesma maneira.

Sugerimos que você reflita sobre isso com este artigo.

As pessoas precisam “amar”, e se alguém pensa o contrário, está errado. Amar significa, por exemplo, afinar nossas habilidades de sedução para atrair aquele possível parceiro que nos chama a atenção.

Gostar é como transmitir uma boa imagem em uma entrevista de emprego na qual você deseja obter um trabalho e uma projeção futura.

Queremos gostar das pessoas que se relacionam conosco para tê-los como amigos, e não podemos negar que às vezes temos que ceder um pouco com a nossa família para que haja harmonia.

No entanto, dar um pouco não significa perder muito. Trata-se de restabelecer o equilíbrio para que todos possam coexistir. Porque se cada um de nós agir apenas em interesse próprio, marcando limites e levantando muros, perderemos o sentido de sociedade.

Mas a pergunta que agora vem à cabeça deve ser a seguinte: onde está o limite? Onde se situa a fronteira entre a minha identidade e o que a sociedade me exige para sentir-me integrado?

contioutra.com - Não há motivo para agradar a todos: há quem não mereça ser agradado
O processo íntimo de autoconhecimento

Todos nós temos nossa própria essência, e essa essência nada mais é do que uma bagagem pessoal onde estão os nossos valores, nossas emoções, autoestima e o autoconceito.

Esta jornada pessoal na qual vamos descobrindo a nós mesmos é um processo que dura uma vida inteira.

Durante a adolescência é comum desenvolver essa necessidade de agradar a todos. Nós acabamos de desembarcar em um mundo como seres sociais em busca das primeiras experiências e queremos, acima de tudo, nos sentirmos integrados.
Isso faz com que o adolescente sinta às vezes uma séria dissonância entre o que ele é, o que sente, e o que as outras pessoas querem dele.
A sociedade lhes pede que sejam atraentes, perfeitos e independentes. A moda os homogeneíza de tal forma que suas peculiaridades e suas essências são excluídas. Isso não é a coisa certa.

Todos passaram por estas fases para despertar, finalmente, neste equilíbrio interior onde descobrimos que nós gostamos de ser únicos, especiais e, ao mesmo tempo, diferentes do resto.

contioutra.com - Não há motivo para agradar a todos: há quem não mereça ser agradado

A aventura de ser você mesmo

Diferentemente do que muitas pessoas pensam, ser você mesmo não é fácil. De um lado estão as expectativas do nosso ambiente, nossa família, sociedade e do nosso trabalho.

Somos convidados a ser bons filhos, bons parceiros e trabalhadores eficazes.
Às vezes acabamos experimentando na própria pele a chantagem e aquelas situações onde nos exigem certas coisas que vão contra nossos valores.
A aventura de ser você mesmo exige, quer goste ou não, ter que experimentar pequenos confrontos. No entanto, você não deve ver isso como uma coisa ruim.

Definir limites para o que queremos e o que não estamos dispostos a fazer permite que outros se relacionem muito melhor conosco, porque eles entendem como nós somos.
Nem todo mundo tem “bom gosto” para apreciá-lo
O mundo não termina com um “não, não gosto de você”. Na verdade, isso nos abre outros caminhos mais adequados.

Porque quem se esforça dia a dia para agradar a todos se afasta de si mesmo e do caminho pessoal no qual estão a autoestima, o equilíbrio e a identidade.
Se alguém não tem o “bom gosto” de apreciar seu caráter, sua risada escandalosa, seu senso de humor, seu sarcasmo e sua paixão pela vida, não se preocupe.

TEXTO ORIGINAL DE MELHOR COM SAÚDE

Uma conversa com meus botões

Uma conversa com meus botões
Imagem de capa:  Markevich Maria/Shutterstock

Conversando com os meus botões, a pauta foi sobre nossos comportamentos diários: a dificuldade em desenvolver e sustentar relacionamentos interpessoais em família, no trabalho e em todas as esferas que exigem o convívio com um outro ser humano.

A questão incômoda é a seguinte: Será que estamos compreendendo que, quanto mais inacessíveis e frios, maior é o nosso poder de respeitabilidade e maior é a proteção contra os perigos iminentes da vida?

Será que estamos valorizando o pensamento e a ação objetiva racional e, consequentemente, compreendendo que comportamentos como, impessoalidade, neutralidade e distanciamento é a melhor estratégia para vivermos no mundo atual?

Caso isso esteja realmente acontecendo, os modelos de referência para os nossos relacionamentos, talvez, tenham que ser outros e não mais os seres humanos. Quem sabe o Pico do Everest ou a Cordilheira dos Andes… Altos, belos, contudo inacessíveis.

As relvas verdes, os riachos, a goiabeira na beira da estrada, as primaveras debruçando-se nos muros de nossas casas, oferecendo-se generosas e gratuitamente, não ganharão mais nossa atenção e interesse , da mesma forma como a generosidade, a compaixão, a veracidade deixarão de ser atitudes acalentadas.

Mais difícil, ainda, seriam nossos olhos e nosso coração reportarem-se para a vida dos santos e de líderes comunitários, como Madre Teresa de Calcutá ou Martin Luther King Junior.
Seriam apenas belas histórias a serem lembradas, mas não condizentes com um momento histórico onde impera a segregação de grupos, abuso de poder, ganâncias e todo tipo de violência, física, moral, sexual e tantas outras mazelas que estamos vivendo.

José Saramago, foi coerente ao descrever a alienação do homem em relação a si mesmo e em relação ao outro, em seu livro, Ensaio sobre a cegueira, ao afirmar: “Cegos que, vendo, não veem”.
Desenvolveremos cada vez mais esse tipo de cegueira? Será que valerá a pena seguirmos nessa direção?

Somente lembrando de que lugares altos podem ser magníficos para serem apreciados, mas não são aconchegantes, nem permitem a nossa sobrevivência.

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