O importante não é viver para sempre, é criar algo que não morra

O importante não é viver para sempre, é criar algo que não morra

Como aceitar a força inexorável do tempo? Como aceitar o trágico fim da morte? Acho que nunca a aceitaremos, porque por mais que esta terra seja dura, há tantas belezas nela. Sentir-se vivo é tão gostoso que é impossível não penar com a dor do fim.

É como diz um versinho da Cecília: “Com que tristeza o horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a vida ser só isto…”. É que a vida passa tão depressa e nós temos tantas multidões dentro de nós, que uma vida é pouco mesmo. Entretanto, é a finitude que confere valor à vida e a torna tão rica, de modo que vivê-la de qualquer maneira é tolice e é dessa tolice que tenho ainda mais medo que da morte.

Estamos vivendo de um modo degradante. Sempre correndo, sempre com pressa, sem tempo para o outro, sem tempo para nós mesmos. Presos em trivialidades, em algazarras silenciosas, temos deixado de lado as pequenas belezas, os “eu te amos” entalados na garganta sufocando o coração, os abraços no pensamento e a ligação para amanhã.

Mas, o amanhã chega e continuamos presos nas nossas burocracias individualistas, continuamos sem tempo e deixamos tudo para um novo amanhã. Esquecemos, apenas, que a vida é breve como escreveu Quintana, que o amanhã um dia acaba e os sinos também param de tocar. Chegada essa hora, já não adianta pensar na tragicidade da morte, porque as nossas próprias vidas já estavam mortas.

A grande questão, assim, mais do que a morte é o caminho que se faz até ela, porque, parafraseando Chuck Palahniuk, se – “Todos nós morremos. O objetivo não é viver para sempre, o objetivo é criar algo que não morra”. Esse algo que não morre, essa eternidade finita, todavia, só pode ser criada através do divino que há no mundo e que se manifesta por meio do pequeno espaço que se estabelece na conexão entre as pessoas.

Essas pontes criadas por nossas almas permitem que memórias sejam criadas e compartilhadas, que sejam importadas e, portanto, que pedaços de nós continuem existindo dentro de outros corações mesmo quando aqui já não estivermos.

No entanto, na medida em que decidimos construir muros ao invés de pontes, escolhemos deixar de viver, para apenas existir e ser somente um rascunho que jamais será passado a limpo, que jamais será lido por outra pessoa.

Como lembra o velho Bukowski: “Todos nós vamos morrer, que circo! Só isso deveria fazer com que amássemos uns aos outros, mas não faz. Somos aterrorizados e esmagados pelas trivialidades, somos devorados pelo nada”. E é esse nada que tem se instalado. O nada da indiferença, da acomodação, da prepotência, da autossuficiência, do não to nem aí, do foda-se.

E, assim, o divino que se estabelece no encontro de almas, vai esvaindo-se do mundo e este se torna um inferno, aqui e agora, para que soframos com a nossa própria ruindade que nos esmaga e nos faz estranhos. Estranhos uns dos outros e, acima de tudo, estranhos de nós mesmos.

Estranhos do horizonte que chega e não encontra terra boa para repousar. Terra sem sombra, sem aconchego e sem histórias, porque enquanto se preocupava tão somente em construir fortes, deixou de lado quem ali habitava, o seu povo, a sua gente, a sua humanidade. Estranhos sem importância que partem sem deixar saudade, porque nunca abandonaram a sua condição estranha para tornarem-se conhecidos, palpáveis e amáveis.

Enquanto estivermos presos em nossas trivialidades, sendo esmagados pelo nada, continuaremos a ser estranhos que não conseguem se comunicar. E, desse modo, a vida mais do que curta, torna-se pequena, porque esquecemos que o que a torna grande e a faz mais forte que o tempo está dentro do “nós”, o qual esquecemos no instante em que decidimos viver de qualquer maneira e ser devorados pelo nada. Assim, a morte se converteu na própria vida e a tolice que temia se tornou a ordem nesse mundo de estranhos.

Me dê todo o seu amor

Me dê todo o seu amor

Por que esperar? Se o carinho foi mútuo, a saudade fez morada e o respeito entrelaçou mãos, o certo é nos entregarmos nessa narrativa escrita de coração. Me dê todo o seu amor. Cuido, abraço e transformo cada instante vivido naquele verdadeiro relacionamento que dizem não passar de mera ficção.

Chega de perdemos tempo analisando prós e contras desse sentir intenso do qual fomos arrebatados. Fazer dos beijos um jogo de xadrez é para iniciantes. Quando você aparece, é esse sorriso largo que transparece. Não há o porquê de negar. Quem nos vê, no lugar que seja, sabe que ali residem dois amantes poeticamente recitados por sinceridade. É literatura romântica das mais insurgentes. Contra os padrões, conselhos baratos e manuais proféticos de relacionamentos, navegamos para o nosso lado. Nem mesmo os mais céticos souberam lidar com essa chama entusiasta que sobrepôs-se em nós.

Mas perguntaram, era dia ou noite? Respondemos em aceno. Não havia necessidade de descrever o início dos novos inícios das nossas vidas. Ainda assim, estava tudo escrito. Os olhos ressonantes, apaixonados e entregues falavam por si. Amor não pede cronologia. Amor acontece, em tempos. Segundos, semanas ou uma vida inteira, muitas vezes, amar é sermos capazes de carregar essa fogueira incontrolável, sem dono e altar. É vagar, por você e pelo outro, num caminho inexplorado naquela fresta concebida.

Por que esperar? Estamos aqui, ofegantes, famintos e desejosos por esse querer que não é contemplado todos os dias. Me dê todo o seu amor. Desbravo, permito e protejo-o. Das injúrias malcriadas até os obstáculos vindos de fora, não importa. Me dê, me dê e me dê, todo o nosso amor. Meu. Seu. Nosso. O que importa? Nossas pernas já são homogêneas.

Se conselho fosse bom…

Se conselho fosse bom…
Overcoming a difficult problem

Há em cada um de nós uma espécie de vocação inata para a crítica. Diante dos feitos alheios, temos quase sempre na ponta da língua, um parecer ou opinião. Tão mais fácil analisar, julgar, ponderar e resolver problemas que não são nossos, não é?

Da borda do abismo, o buraco tem uma perspectiva muito diferente daquela observada por quem está pendurado em seu interior. Uma coisa é ter a areia prestes a deslizar a alguns centímetros de distância do bico do sapato. Outra coisa é estar coberto por ela.

Conselhos são bichinhos muito interessantes. Do ponto de vista de quem os oferece, ganham ares de superioridade analítica, revelam-se como presentes valiosos, uma gentileza de quem está protegido em sua caminha seca e quente a quem acaba de ser atingido por um raio no meio de uma tempestade.

Do ponto de vista de quem pediu o conselho, ele pode vir a ser aquele momento em que, depois de se fazer uma pergunta em voz alta, ela parece ganhar clareza. Então somos surpreendidos com uma inesperada capacidade de resolver a tal capciosa situação por conta própria. Sendo assim, enquanto o outro desfia seu rosário de ideias maduras e superiores, internamente já tomamos a nossa decisão.

É claro que algumas vezes pensar em voz alta não adianta de nada. Neste caso, aquele que pediu o conselho, faz a gentileza de prestar atenção no discurso do nobre consultado. Ouve, pondera, acolhe, descarta. Mas, o fato é que no fim das contas, o conselho oferecido raramente será posto em prática em sua íntegra.

Mar tem lá a sua utilidade. Ainda que seja para fazer brotar uma completa rejeição. Quando se pede um conselho, é porque já nasceu no íntimo da pessoa o desejo de resolver o nó da situação. Neste caso, com conselho ou sem ele, meio caminho já foi andado.

Mas, o que dizer daqueles conselheiros crônicos? Aqueles com diplomas imaginários de donos do saber, que saem por aí distribuindo sua tão rara sabedoria. Tudo para eles tem resposta. Aquele dilema que anda corroendo seus miolos há meses, para o sabe-tudo tem uma solução óbvia, e prática, e rápida. Só você, que é tolo, que não viu.

Conselhos dados sem solicitação são, no mínimo, um “pitaco” inútil e, no máximo, um arroto de arrogância. Conselhos espontâneos só servem para lustrar o ego de quem os oferece. O problema maior é que essa oferta não é de graça. Não, não, não!

Quem tem tempo sobrando para cuidar dos problemas, desafios e até conquistas alheias, não pode ser uma pessoa confiável. Em geral, só o que buscam é aplacar a sua incômoda insegurança coma envergadura de uma pose de conselheiro real. No entanto, a maior ameaça que pode vir daí, nem é o conselho inútil. O perigo mesmo é a consequência que pode advir da recusa ao valioso conselho.

Almas rasas e maldosas costumam ter apetites emocionais vorazes. Aqueles que tiveram a audácia de recusar sua magnânima contribuição, entram para uma espécie de “lista negra dos ingratos”. Agora, não são mais inocentes palpites a serem ofertados. Instalado o rancor da recusa, inicia-se a temporada de lançamento de impropérios.

Já que os conselhos não serviram, que se preparem para as violentas críticas. O ego que azedou, não tem como ser adoçado. E não importa o que se faça, sempre será pouco ou equivocado. E, sim, reafirmo que conselhos são inúteis. Portanto o que vai aqui não se trata de conselho. É apenas a humilde mão que estendo àqueles que já tiveram, como eu, a sua cota de gente “com o rei na barriga” suficiente para agraciar as três próximas gerações.

Se uma pessoa rasa ou maldosa se desfizer de você, encare isso como um enorme elogio. Pode ser que você não esteja certo. Pode ser que suas escolhas não o levem nem perto de onde pretende chegar. Mas de uma coisa, pode ter certeza: pensar com a própria cabeça é uma das maiores e mais prazerosas conquistas que se pode alcançar! Seja caridoso com o falso soberano. Ignore-o solenemente!

A melhor declaração de amor entre duas pessoas é a intimidade

A melhor declaração de amor entre duas pessoas é a intimidade

Você já deu todos os sinais de que está morrendo de amores por alguém, mas esse alguém não percebe. Você já ligou para perguntar qualquer bobagem. Arranjou as desculpas mais esfarrapadas para estar ao lado dele, mas ele parece que não percebe o quanto você o ama.

Então você resolve que é chegada a hora de se declarar. Que vai dizer tudo que sente. Que não aguenta mais essa situação angustiante. Que vai resolver toda essa história.

Sem demora você marca de encontrar esse alguém e resolve colocar o pingo em todos os “is”. Resolve dizer que está louca de amores por ele. Que pensa nele em todos os momentos do seu dia.

E ele te olha com um olhar angustiado, um olhar pesaroso de alguém que já sabia disso, mas que não queria saber.

Ele te olha com um olhar cheio de tristeza e inquietação, pois não a ama como você gostaria e você o obriga a dizer com todas as letras que você é muito especial, mas que é para ele apenas uma colega.

Talvez vocês não tenham tido tempo suficiente juntos para que ele pudesse te pensar de outra forma.

Então você volta para casa desolada. Se tranca no quarto, chora litros e fica se perguntando onde errou. O que fez para não ter o amor daquele que esteve em seus pensamentos nos últimos tempos. Fica procurando quais defeitos seus são tão sérios para que no amor as coisas nunca saiam como você sonha.

Ouso dizer aqui que a razão para esses amores não darem em nada, quase sempre, está na falta de intimidade.

Vivemos dias corridos. Dias cheios de pessoas indiferentes, cheios de planos e afazeres. Vivemos tempos nos quais nossa vida particular é escancarada nas redes sociais, mas bem pouco sabemos sobre intimidade.

Pensamos, erroneamente, que intimidade tem a ver com estar nu com um outro entre quatro paredes. Mas apenas isso não indica haver intimidade entre duas pessoas.

A intimidade existe quando podemos ser exatamente quem somos junto do outro, sem ensaios ou expectativas. Quando passamos tempo suficiente ao lado de alguém para poder falar pelos cotovelos ou calar sem que isso mude o que essa pessoa sente por nós. Pelo contrário. Quando temos intimidade com alguém conversamos de forma desprendida e animada por horas. Tecemos com esse alguém, no tempo comum que nos cabe, uma empatia e admiração sobre-humana. Sentimos a necessidade de partilhar tudo que somos.

Se o outro te ama ela vai saber ler no teu olhar tudo o que você sente por ele. Se o outro te ama, tanto quanto você o ama, ele dará um jeito de estar junto. Ele encontrará soluções para diminuir as distâncias. Ele terá entendido na forma como você age o que você sente por ele. Ele terá lido na forma como você vive, o carinho e respeito que você tem por ele.

Se você ama alguém, não se declare achando que suas palavras irão preencher o espaço que apenas a intimidade sincera entre duas pessoas pode ocupar.

Se você o ama e ele também, fique sossegada, as coisas vão acontecer naturalmente e ele vai te amar do jeitinho que você é.

Se não for assim, não era para ser. Siga em frente e ame mais através de olhares demorados e sorrisos abafados e menos através de palavras.

Fale de amor não para convencer ou justificar, mas para reafirmar o que é inegável para quem um dia parou e te observou demorado.

Acompanhe a autora no Facebook pela sua comunidade Vanelli Doratioto – Alcova Moderna.

Atribuição da imagem: pexels.com – CC0 Public Domain

Não tem que perder pra dar valor. Tem que dar valor pra não perder!

Não tem que perder pra dar valor. Tem que dar valor pra não perder!

Diz pra mim: por que deixar partir para só então perceber que aquele sorriso era mesmo encantador?

Penso que, antes de deixar partir aquele abraço acolhedor, deveríamos valorizar quem está ao nosso lado, buscando sempre, de alguma forma, desconsertada talvez, demonstrar o quanto faz questão da nossa companhia.

É fácil querer ficar quando tudo vai bem, pois muitos veem apenas aquilo que os olhos permitem ver. Ah, como é raro alguém que enxergue o nosso melhor e que consiga ver a nossa alma bonita.

Como é difícil encontrar alguém que nos incentive a sermos melhores e que nos motivem a irmos atrás dos nossos sonhos, que saibam florescer em meio a tantos espinhos. Às vezes, reparamos demais na grama do vizinho e nos esquecemos de regar a nossa. Andamos tão distraídos, olhando para o que os outros possuem, que acabamos nos esquecendo de reparar naquele alguém que sempre está ali, nos piores momentos de nossas vidas. Um alguém que sorri com a alma e não apenas com os lábios, aquela pessoa que nos causa um riso fácil e que vê graça no nosso jeito desastrado de ser.

Esquecemo-nos, por um descuido qualquer, de dar valor ao bom dia em forma de “eu te amo” e àquele “se cuida”, como quem, na verdade, quer cuidar da gente. Deixamos o abraço com cheiro de saudade se perder e, como consequência, não valorizamos quem realmente se importa.

Não valorizamos quem não mede esforços para nos ajudar, deixando as desculpas de lado e desmarcando aquele compromisso, só pra poder nos encontrar novamente. Esquecemos quem segura a nossa mão nas tempestades, quem ora pela nossa vida e realmente se importa com ela. Não valorizamos o “boa noite” cansado, ao final do dia, e os esforços diários.

Por isso eu reafirmo: não tem que perder para dar valor, não precisa deixar partir aquilo que nos faz bem para só então percebermos o erro em não valorizar o que é bonito e sincero.

Não tem que perder um sorriso para, então, perceber o quanto ele trazia paz ao seu coração, deixando ir quem nos estende a mão, para notar o quanto aquilo nos sustentava nas tempestades.

Repara em quem sempre faz questão de estar perto, em quem não arruma desculpas e não usa o clichê “falta de tempo”. Tem sempre alguém disposto a ser companhia leve e querendo fazer morada. Sempre há alguém querendo nos levar para viajar em seu mundo, como quem deseja mostrar que o novo é bonito e não assustador como parece.

Não espere perder para perceber o quanto você poderia ter feito dar certo, no quanto aquele “bom dia” fazia a diferença no seu dia e aquele “boa noite” lhe arrancava um riso tímido, como quem faz cócegas em seu coração ao se lembrar de você antes de dormir. A grama do vizinho sempre vai parecer mais verde, se você continuar a não regar a sua. Não alimente a certeza de que o outro sempre estará ali, suportando os nossos erros e tolerando as nossas palavras duras.

Não tenha tanta convicção de que o outro irá suportar a nossa indiferença e o desprezo pelas coisas pequenas por tanto tempo. Um coração cansado não volta mais atrás; pode ainda pulsar, mas, por amor a si, decide não retroceder aos mesmos erros, pois não quer reviver as mesmas feridas, ainda que tudo pareça, na teoria, ser diferente.

Então, não espere perder para perceber o quanto aquele alguém coloria os seus dias e segurava a sua mão nos vendavais dessa vida.

Descobrir-se um ansioso

Descobrir-se um ansioso

“Mas onde se deve procurar a liberdade é nos sentimentos.
Esses é que são a essência viva da alma.”
Johann Goethe

Geralmente pensamos que ansiosas, de fato, são aquelas pessoas que vivem roendo as unhas com os olhos arregalados e uma cara de expectativa não se sabe do quê. Ou aquela que tem palpitações ou mal-estares que a fazem verificar a pressão arterial ou, até mesmo, ir parar no pronto-socorro. Mas não é bem assim.

De repente você, que se achava “minimamente ansioso e em questões muito pontuais e esporádicas”, para e presta atenção. Vê que não consegue fazer apenas uma coisa por vez. Que mil ideias, tarefas, desgostos e necessidades vivem passeando pela sua mente, não lhe dão sossego.

Tenta, enfim, meditar – dizem fazer muito bem! – e percebe que não consegue ficar um minuto sequer tentando “esvaziar a mente”, que já lhe dá uma agonia. Constata que passa o tempo todo planejando, mentalmente, o que vai fazer (no resto do dia, da semana, do mês, da vida), assim como o que vão fazer os que estão ao seu redor (especialmente o filho, o marido e a empregada), procurando manter o controle integral de tudo.

Verifica que a sua respiração costuma ser curta e um tanto acelerada. Que os seus ombros e pescoço endurecidos entregam a constante tensão. Que não aguenta ficar esperando uma pessoa que se atrasa 5 minutos, logo tem que ligar para ver se está tudo bem (se é que não liga 5 minutos antes!). Que se surpreende tremendo quando está fazendo uma tarefa com várias outras por fazer. Que, sob o pretexto de ser “prático”, acaba atropelando as escolhas e atividades que possui, mas, no fundo, age assim só para se livrar logo de algo que, de alguma forma, o angustia. Que acorda pela manhã cansado demais, que volta das férias sem ter descansado e que vive exausto. É, meu caro, provavelmente você seja um ansioso! E crônico!

O diagnóstico, certamente, lhe foi um choque. Imagina, logo você, uma pessoa esclarecida, equilibrada e, de um modo geral, sem grandes problemas que pudessem ensejar tamanha apreensão. Não há razão ou justificativa, eu sei. É assim mesmo. Mas, ao mesmo tempo, certamente lhe é esclarecedor. Tantas coisas agora fazem sentido, não é?! Parece que um quebra-cabeça começa a ser encaixado.

E então, o que fazer? Correr a um psiquiatra, uma igreja, um terapeuta holístico, um centro espírita? Certamente todo apoio é bem vindo. Mas é só um apoio. Sinto lhe informar, mas você vai ter que AGIR se quiser melhorar. E é um trabalho constante, em turno integral, e que só o próprio ansioso pode fazer.

Começar se descobrindo e se compreendendo é uma boa pedida. O autoconhecimento é, realmente, libertador. Leia a respeito, tente reconhecer suas posturas, prestar atenção no seu comportamento. Irá, certamente, se dar conta de muitas coisas que jamais imaginou.
Entender-se (ao menos em parte, já que o ser humano é um oceano de emoções) irá ajudar a se controlar. Perceberá, por exemplo, quais atitudes o desviam da magnética rota da ansiedade, como respirar fundo, ouvir uma música, admirar a natureza, ler determinado texto… Você achará o que funciona melhor para si. Só precisa se dispor a, efetivamente, livrar-se dela que, em altas doses, é bem mais prejudicial do que pode parecer.

Você precisa dominar a ansiedade, e não ser dominado por ela. Certamente não é um caminho fácil e rápido de se percorrer, do tipo 7 passos, alguns dias e pronto, livrou-se da danada. Quem dera! Necessita se conscientizar de que viver assim não é legal. Não vale a pena. E que se gasta menos energia tentando mudar, melhorar e superar a ansiedade, do que vivê-la, de fato. Pode acreditar!

É, sem dúvida, um vigiar contínuo. É tomar conhecimento dos gatilhos que a acionam e tentar desviá-los. É procurar desacelerar quando se der conta de que a respiração (e a mente) está a mil. É buscar, continuamente, novas formas de encontrar a paz interior. É não parar de se informar a respeito. É adotar uma nova postura perante a vida. E, evidentemente, procurar ajuda quando sentir necessário.

Contribui, também, se convencer de que você não tem o controle de tudo (e que nem seria bom que tivesse, afinal, é legal de vez em quando receber uma surpresinha do destino!). Que não vai conseguir fazer tudo o que planeja para um dia (considerando que ele só tem 24 horas!), algumas coisas eventualmente ficarão pendentes, e isso não é o fim do mundo, portanto, escolha as prioritárias.

Que, quando as coisas saírem diferente do que planejou, pode ser que elas sejam até melhores. Que os outros têm vontades próprias e, de um modo geral, não precisam que você seja sua bússola (eles sobrevivem – e crescem – sozinhos). Que, independentemente de qualquer fato, o mundo segue girando e tudo, ora ou outra, de alguma forma, se acerta. Que de vez em quando é necessário dar uma parada para processar os acontecimentos (ficar em silêncio, nesse aspecto, ajuda demais). E que faz um bem danado estar com a cabeça mais vazia e o coração mais leve.

É uma liberdade imensurável sentir-se em paz, ainda que, volta e meia, ela – a ansiedade – vá aparecer para te importunar. Mas, já a conhecendo profundamente e sabendo o que funciona consigo, será mais fácil expulsá-la da sua vida de novo. E quantas vezes forem necessárias.

Definitivamente, ninguém deve se acostumar – ou se acomodar – com um viver angustiante.

Pisaram no meu castelo de areia. E agora?

Pisaram no meu castelo de areia. E agora?

Sabe aquele sonho que a gente alimenta e acalenta, muitas vezes durante toda a vida, acrescentando elementos, alterando personagens, dando vida e emoções a todos os detalhes cuidadosamente pensados? A nossa novela pessoal onde tudo acontece como achamos que deve ser? Esse sonho é o nosso castelo de areia que onda nenhuma desmancha e chuva alguma leva, porque é muito bem protegido e escondido dos perigos que a realidade oferece.

Isso é o que a gente pensa e quer, a imunidade que também completa o sonho perfeito. Mas de verdade, essa praia é muito mais perigosa e habitada por todos os tipos de intenções e sentimentos. Alguns são cuidadosos, carinhosos, amáveis. Desviam com delicadeza do nosso castelo para não derrubar um grão de areia sequer. Outros, de tão amistosos e parceiros, trazem enfeites e cores para a nossa construção. Chegam a adivinhar o que estamos querendo ou necessitando.

Outros contudo, pouco se importam, ou, de propósito mesmo, passam arrastando os chinelos e derrubando o que estiver na frente. Esses são os insensíveis, os endurecidos, orgulhosos, durões para destruir, covardes só para aparecer.

E o castelinho, embora frágil e temporário, fruto do nosso esforço e capricho, é alvo fácil para quem não tem intenção alguma de construir junto. É presa indefesa para aquela intenção predadora que sente fome de destruição.

E um dia, de fato pisam nele, não só desmontam uma torre, uma ala, mas sim a estrutura toda. Como faz para recomeçar um sonho, um projeto, uma ideologia tão pessoal? Como conviver com duras e magoadas lembranças dessa destruição? Melhor que a onda tivesse levado, que o vento tivesse derrubado, porque assim seria um acidente, a gente pensa. Ruim é saber que há uma culpa, uma intenção oculta.

O bom senso aconselha que a vida sempre segue e a praia é grande e areia não falta. Bora começar novamente, talvez com a lição de que um castelo é coisa demais para vigiar por toda uma vida, com detalhes e tesouros demais para proteger.

Bora buscar um sonho mais simples, mais espontâneo, que inclusive possa ir mudando de forma, de lugar e de importância, à medida que as conquistas forem chegando!

E dessa forma, não haverá pé que chute ou pise o que não consegue alcançar!

Relacionamentos hipócritas e onde habitam

Relacionamentos hipócritas e onde habitam

É muito fácil falar de amor. É muito fácil opinar e descrever suas nuances e resultados desejados. Mas, quando o encontramos, quando o recebemos de mãos beijadas em nossa porta, não sabemos lidar com. Numa comparação estapafúrdia, mas realista, é como um cão que persegue por quilômetros um automóvel e, ao conquistar a difícil tarefa de alcançá-lo, simplesmente abana o rabo e não sabe a reposta e pensa – o que faço agora?

Os relacionamentos atuais são hipócritas demais, esse é o problema. É o chamado mimimi tão repetido em conversas de bar adentro. E isso não é um problema entregue somente aos homens, mas também para as mulheres. Existe pouco autoconhecimento de ambas as partes. As pessoas não sabem o que querem, mas querem. É possível dar vazão para algo assim? Pede-se mais amor, uma atenção do crush que visualiza e não responde e tudo mais de reconhecível nessas relações líquidas e triviais dos tempos atuais. Covardes, excluímos qualquer aceno de afeição em caso de desinteresse. Logo, por que não assumir encontrar-se num período casual? Entenda, não é cafajestice – seja do gênero que for, entregar-se por um sexo único naquela noite ou, ainda, distribuir beijos no melhor estilo saldão. A problemática nos relacionamentos reside quando, fingindo ser quem não somos, almejamos colher algo que sequer oferecemos. Também não é questão de reciprocidade, mas de um alto grau de honestidade e humildade para reconhecer e confessar para quem quer que seja, o seu momento de vida no instante vivido.

Ninguém é obrigado a estar com alguém. A conversa fictícia do amor resiliente, do amor superlativo e aconchegante, não importando o dia e hora, cá pra nós, nem precisaria existir. Porque o amor é algo a ser construído beijo por vez, diálogo por dia. Mas ficamos excitados diante da oportunidade de viver um romance extraordinário e ornamentado por carícias incontáveis e fofuras provenientes dessas narrativas à lá Disney. Talvez, o significado da palavra trouxa venha disso. Inconsequentes e imaturos, depositamos cada carência no primeiro peito quente que aparece. O que está acontecendo? Inventaram alguma bebida anestesiante que ignora o nosso benquerer?

O amor é, quase sempre, um estudo de caso. Obviamente, existe regra para toda exceção. Infelizmente, em tempos de memes e piadas prontas, o amor termina sendo banalizado pela nossa cegueira em compreendê-lo e sê-lo. Porque o amor é a cada instante. Agir com sinceridade é um indício de amor, sim. Por você e pela companhia partilhada. Ou, você imagina a empatia sendo meramente um conceito criado para vender camisetas? Empatia é gota de amor.

E prevendo os ditosos de injúrias sobre o texto acima, propunham-se ouvir, dentro dos pequenos universos paralelos das suas couraças emocionais, onde habitam os relacionamentos hipócritas. Às vezes, eles residem nos encontros e partidas dessa corrida sem sentido que insistimos dizer não nos importarmos, mas que estamos sempre pleiteando. É do amor que refiro-me, em caso de dúvidas. O amor por você.

O que é bonito faz da vida mais leve

O que é bonito faz da vida mais leve

Vamos nos ater aos fatos, o mundo anda cansado demais. Cansado de admirar, reconhecer e nutrir, pelas pequenas belezas, algo além dos elogios clichês e das homenagens encomendadas. É justamente por isso que cabe-nos, sonhadores e sentimentais, darmos as mãos em prol dessa caminhada. Mais poesias e coragens para dizermos, sem meias palavras, o que é bonito. A vida certamente será mais leve se deixarmos o coração tomar conta.

O jogo de estica e puxa sobre o que podemos contemplar como belo, sinceramente, já não passa a mínima graça. Sequer teve, algum dia. Medir sentimentos e importâncias sempre pareceu-me sem sentido, tornando o viver um jogo de tabuleiro ausente das principais peças: nós. As coisas que levamos aqui dentro, como vivências e características ímpares das nossas personalidades, fracionadas nos corações. Não é meramente uma questão acerca de qualidades e defeitos, mas da sinceridade com a qual somos lançados nesses instantes diários onde, encarando preocupações demais, abandonamos os versos que elevaram todo e qualquer relacionamento a um patamar grandioso e sereno. Precisamos nos perder mais. Troquemos vocabulários e sentenças por um novo linguajar, o da transparência. Chega disso de ficarmos postergando confessarmos o que é bonito. Qual o problema de assumirmos uma postura ativa? Por que esperar descuido se podemos escolher cuidar?

Às vezes, ressonamos no automático. Estamos tão acostumados ao olhar de uma única direção que, na melhor das intenções, controlamos gestos e gostos da nossa própria jornada. Não dizemos o que nos incomoda, deixamos de lado o que nos aquece e, quando questionados, até mentimos num movimento estúpido e sem valor.

Entenda, não precisamos de absolutamente nada disso. Tomemos o amanhã na ponta dos dedos e façamos o bonito ser encantador, mais uma vez. Criemos laços a serem facilmente reconhecidos, admirados e que despertem, em cada um de nós, um desejo ardente pela vida. Por relações mais honestas e por belezas que, de pequenas, sejam apenas na configuração do nosso olhar naquele dia, naquela hora. O que é bonito faz da vida mais leve.

Nós somos imperfeitos um pro outro!

Nós somos imperfeitos um pro outro!

Casais improváveis me encantam. Não é que eu seja romântica. Ou melhor, não é apenas porque eu sou romântica. O fato é que essa gente que destoa do óbvio e descabe dos modelos têm o poder de tirar sorrisos de mim. A mais bonita verdade sobre o amor, me arrisco a dizer, é que ele não pode ser mensurável, controlável ou razoável.

Quando a gente começa a achar muita explicação para amar alguém… Ai, ai, ai… temo que não seja amor o que nos vai por dentro. Explicam-se teorias, fórmulas, fatos históricos. Amor não tem explicação. E se tiver, perde a graça. Amor é para dar formigamento, por fora e por dentro. Amor desorganiza, descabela, descortina.

E não há nenhuma dúvida de que são as situações e experiências desafiadoras que fazem a gente ficar mais sabido, mais maduro, mais flexível. Mas o amor… Ahhhh, o amor desencrava lá do fundo da gente a melhor coisa que formos capazes de ser. O amor desencarde as ranhuras causadas pelas perdas, frustrações e solidões.

Amor bom é aquele que vaza da gente para o outro, não em gotas, mas em enxurradas de vontade de acreditar nas bonitezas que envolvem a aventura de estar vivo. Amor bom é quando faz florir o peito da gente em cores desconhecidas. Amor bom é amor que liberta que empresta asas para quem a gente ama voar por aí, sem que tenhamos que conhecer seus planos de voo.

Foi esse amor que eu vi ali. Numa tarde de garoa miudinha fazendo desenhos na janela. Os gatos dormiam preguiçosos. O silêncio era um conforto doce. Um bolo de maçã com canela crescia no forno e esparramava seus sabores feitos em ares perfumados. Alguém dedilhava um piano sem compromisso, dedos indolentes deslizando nas teclas de marfim.

Nenhum cenário seria capaz de competir com a cena. Cenas de amor, enfim, não carecem de cenários. Naquele instante, eram apenas dois corações a procurar o caminho um do outro. Naquele instante, a felicidade era desenhada numa lista de desejos para um futuro que se sonha junto.

Ele queria demais se perder nos olhos dela. Ela queria demais encontrar-se nos olhos dele. Ele desamarrou, um a um, os nós de temor que as histórias malfadadas de romance haviam instalado em suas ilusões. Ela, transformou seus nós em laços, soltos, frouxos, lindos.

Eles ousaram subverter a lógica do impossível e marcaram um encontro sem data certa, iam ver as luzes de mil cores no céu gelado de um lugar de sonhos. Ele não podia acreditar na sorte que tivera de, entre bilhões de pessoas perdidas ter encontrado justo ela!

Eles não eram perfeitos. Nunca sonharam em sê-lo. Mas foram corajosos para acreditar que podiam ser imperfeitos um para o outro. Ela aprendeu a ler os silêncios dele. Ele aprendeu a interpretar os sorrisos dela. Seu amor não cabia em nenhum buquê. Então… ele deu a ela todo o jardim!

Para que serve a culpa?

Para que serve a culpa?

A culpa só tem alguma serventia nos momentos iniciais pós-desastre. Nesse espaço de tempo, no momento em que o seu malfeito é flagrado, ou assumido, a culpa tem uma função excepcionalmente importante. Ela precisa ser a mola no fundo do poço. A força capaz de tirar você desse lugar miserável onde vão parar aqueles que erram.

Uma vez arremessado lá dos cafundós do fim do mundo – porque às vezes a gente se sente como se o mundo fosse acabar mesmo -, uma vez de volta à superfície, a culpa não fará mais nenhum sentido. Nessas alturas, sentir-se culpado só vai trazer à boca aquele gosto azedo de ressaca, aquele efeito paralisante da crença de que as coisas são definitivas.

Nada é definitivo. Nem seus maiores, nem seus medíocres, nem os seus piores feitos. Sendo assim, rasgue a culpa em milhares de pedacinhos. Rasgue com vontade, igual a gente fazia na época em que era obrigado a mandar revelar TODAS as benditas 389 fotos que tirávamos com nossas câmeras. Câmeras cujo interior abrigava um rolinho de negativo, que caso aberto acidentalmente, apagava tudo definitivamente.

Na época dos negativos revelados, não havia esse poder mágico de DELETAR as fotos nas quais a gente sai horrorosa, mais gorda do que é, junto com um “ex-my-love”, ou com cara de quem comeu e não gostou.

Agora, na era digital, que maravilha! Parece que a gente ganhou o poder de escolher só os bons momentos. Ninguém precisa ver as nossas imperfeições. A menos, é claro, que você tenha feito a besteira de salvar TODAS AS SUAS IMAGENS na nuvem. Aí, meu amigo, não tem muito jeito, não. Alguém, em algum momento vai descobrir seus segredos visuais.

Acontece, que ainda não inventaram um jeito de deletar de dentro da gente o que machuca, dói ou incomoda. A Ciência afirma que a coceira é o tipo mais brando de dor. Eu discordo! Há dias que a coceira é insuportável! Coçam-me tantas ideias, e vontades, e desejos, e arrependimentos, que não há meios de achar alívio.

A culpa é uma coceira nas costas, bem naquele lugarzinho que a gente não alcança. Há que se pedir ajuda. Baixar a bola. Entregar as armas. Reconhecer a própria fragilidade diante das reviravoltas da vida. Para expurgar a culpa, é preciso revelar ao outro o que se fez, ou revelar a si mesmo, o que é ainda mais difícil.

A culpa tem cura! E a sua cura passa por reconhecer que o erro é o processo: escorregar, cair, levantar e começar tudo outra vez.  Errar nos ajuda a lembrar que de vez em quando – bem de vez em quando mesmo-, a gente gabarita os testes a que a vida vive a nos submeter.

Não espere que outro diga a ela o que ela quer ouvir de você

Não espere que outro diga a ela o que ela quer ouvir de você

Perder tempo é algo que todos fazemos, seja com pessoas, com coisas, com esperanças, sonhos, seja com nada. É inevitável investirmos parte da gente em quem não nos merece, em lugares que nunca nos recebem, em sonhos impossíveis. O futuro é incerto, só temos o hoje com que lidar e essa sempre será a nossa tarefa mais difícil: agir corretamente, para que o amanhã não nos traga colheitas desagradáveis.

Talvez esse terreno incerto e arenoso em que vivemos, em que nada parece ser controlado por nós, em que tudo pode mudar de uma hora para outra, acabe nos tornando inseguros quanto às tomadas de decisão que encaramos a todo momento. Nesse ritmo de dúvidas e temores, infelizmente acabamos nos afastando de muita coisa que nos faz bem, de muita gente que nos ama de verdade, de muitos sonhos que estavam prestes a acontecer.

E como dói vermos escorrer por entre nossos dedos aquilo que poderia ter permanecido junto, quem era a pessoa certa para nos amar com verdade, quem viria ao nosso encontro com vontade, mas que cansou de esperar nossa demora insegura, nosso egoísmo silencioso, nossa relutância em avançar, em olhar, em dar as mãos, em mergulhar nas águas do amor que seria recíproco. Como dói remoer as consequências de nossa própria covardia.

Infelizmente, muitas vezes relutamos em enxergar o óbvio, presos entre as grades de nossas próprias inseguranças, paralisados e atados aos temores insustentáveis, por medos tolos, enquanto nos mantemos frios justamente perto de quem traz calor e intensidade. Mostramo-nos incompletos justamente junto de quem se mostra inteiro, desnudado, pronto para nos acolher com verdade.

Resta, então, somente arrependimento e remorso, enquanto assistimos ao que podia ser parte da nossa vida partindo junto a outras vidas que tiveram a coragem e a decência de estenderem as mãos, ainda que trêmulas, mas estendidas. Não podemos, portanto, deixar de viver o que nos cabe, perdendo pessoas e amores por conta das dúvidas que fazem parte de qualquer ser humano. Felizes os que se lançam, os que tentam, os que se entregam, porque, caso a investida não dê certo, ao menos atitudes foram tomadas. Porque sofrer por algo que nem foi demonstrado ou tentado é peso que se leva para a vida toda.

Perdoar da boca para fora é muito fácil. Difícil é perdoar do peito para dentro

Perdoar da boca para fora é muito fácil. Difícil é perdoar do peito para dentro

Não há como escapar. Em determinado momento da vida, alguém vai dizer coisas que você não queria/deveria ouvir ou fazer algo que você jamais esperava. Palavras duras, pesadas, que magoarão e farão sangrar. Atitudes marcantes, que atormentarão o sono e desencadearão noites de insônia. Mais do que isso. Essas palavras serão ditas por pessoas queridas por você e das quais você jamais imaginava. Sendo assim, como proceder?

Falando a verdade, a maioria de nós sente enorme dificuldade em lidar com situações desse tipo. Guardamos mágoa, ficamos ressentidos, deixamos o coração penar. Perdoar da boca para fora é muito fácil. Difícil é perdoar do peito para dentro. Entretanto, que tipo de benefício guardar rancor traz?

Ficamos pesados, tristes, perturbados com um pesadelo que sempre se repete. Escutando, sempre que o silêncio se instala, o eco do sofrimento percorrendo a mente e o coração. Passamos a alimentar um monstro dentro de nós, o qual nos sufoca, porque se nutre do ódio que carregamos. Um fardo incômodo que nos impede de seguir em frente.

Dessa forma, o ódio acaba se tornando uma espécie de grilhão que nos prende ao passado, retirando de nós a capacidade de viver o presente e perceber o que acontece de positivo na nossa vida. Há, inclusive, a criação de uma visão totalmente negativa do ser humano, em que se realçam tão somente os aspectos negativos presentes nas pessoas, impedindo, por conseguinte, a capacidade de ver as belezas que também permeiam estas.

Em outras palavras, o ódio nos torna cegos e, ainda que este tenha se desencadeado por um mal causado por outrem, não devemos alimentá-lo, porque, no fim das contas, nós nos tornamos os principais prejudicados, já que ele rouba completamente a nossa energia e como é dito no filme “A Outra História Americana” – “A vida é muito curta para se estar o tempo todo com raiva”.

Sei que muitas coisas que nos acontecem são difíceis de serem perdoadas, porque a verdade é que toda vez que confiamos em alguém, nunca esperamos que aquela pessoa quebre o sentimento que depositamos nela. Não importa se você nunca quebrou a cara ou já se arrebentou mil vezes. Toda relação que se cria, toda conexão que se estabelece, é uma nova comunicação de almas, bem como, é a renovação da humanidade que havíamos desacreditado.

Por isso, dói tanto quando uma pessoa nos machuca, porque esperávamos que dessa vez fosse diferente. Entretanto, isso sempre vai acontecer. Seja com pessoas novas em nossas vidas, seja, como disse, com as pessoas que mais amamos, de maneira que o ódio sempre estará à espreita, pronto para retornar, como a seca que atormenta o sertanejo.

No entanto, guardar mágoa, rancor, ódio, nunca será a melhor opção, uma vez que depois que o alimentamos, torna-se difícil fugir das suas amarras e, assim, tudo se torna inferno e nós queremos apenas que ele queime e queime, sem expurgar a nossa dor, uma autoflagelação ininterrupta, a qual renova o sangue das marcas deixadas.

Eu acho que por mais que as pessoas nos machuquem, se soubermos olhar, sempre haverá alguém nos abraçando, procurando curar cada ferida no nosso corpo. Às vezes, as coisas dependem de um olhar em perspectiva, para que possamos perceber que o perdão não é uma forma de ser trouxa ou de livrar a barra de quem nos fez mal, e sim, de que perdoar é dizer que mesmo estando machucado, ainda somos capazes de ser luz no meio da escuridão e que não vamos desperdiçar a nossa energia com ódio, até porque de ódio o mundo já está cheio, o que ele anda precisando mesmo é de amor.

Não tenho medo de ficar sozinho

Não tenho medo de ficar sozinho

Não tenho medo de ficar sozinho. Não me vejo mais acompanhado simplesmente para ter uma mudança no status de relacionamento, para ir naquela reunião dos amigos, fazer viagens em famílias e expor fotos românticas em lugares paradisíacos. Não, isso não me interessa. Porque quando as portas se fecham, muitos amores acabam resumidos em desafetos, egos e solidões.

Normalmente, quando você conhece alguém é natural que, dadas algumas afinidades, do desejo transformar-se em euforia. A pessoa certa que chegou, o amor que estava à espera. O coração bate acelerado, os planos vão tomando forma e, mais adiante, juntam-se escovas de dente, pernas debaixo das cobertas e todo um aparato necessário para que nos sintamos naquilo conhecido como um relacionamento sério. Mas existe toda uma legitimidade esquecida ou ignorada por muitos. No caso, o diálogo. Deixar de adentrar no universo do outro, conhecendo suas nuances, qualidades e defeitos, implica, meses depois, naquelas inúmeras discussões e cobranças sem sentido. Você não era assim no início – você diz no primeiro ruído. É o começo do fim. Do respeito, carinho e qualquer outro sentimento complacente.

Infelizmente, esses resultados pertencem aos corações preguiçosos. Daqueles que preferem nublar a própria personalidade na esperança da conquista. Os motivos podem ser variados, indo da carência até alguma necessidade manipuladora. Mas em comum, praticamente o mesmo destino; o medo da solidão. Então estar com alguém sempre significa vislumbrar a possibilidade de escapar desse abismo solitário? Não. Acredite, nem todos os amantes caminham através de um querer tão simplório. Alguns definitivamente ocorrem pela soma, bom senso e por uma admiração mútua da companhia. Talvez, a escolha mais urgente, seja a de reconhecer que nem sempre estar acompanhado é garantia de êxito no amor. Você pode passar uma vida inteira sem adentrar nos abraços cálidos de um amar e, ainda assim, permitir-se nada menos que o seu próprio cuidado.

Não tenho medo de ficar sozinho, sinceramente. A solidão não me incomoda. O que entristece são os que escolhem uma companhia para permanecerem solitários. Reféns de si, algemam o outro. Recordemos por um segundo que, amar, é ir de encontro ao avesso.

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