O jardim das amizades. Um oásis entre pedras e desertos.

O jardim das amizades. Um oásis entre pedras e desertos.

Vasos, jardineiras, jardins e campos. Amizades plantadas e florescidas!

Amizades são plantas que oxigenam a vida! Enfeitam, nutrem, curam, dão sombra, oferecem frutos e flores!

Amigos são ervas medicinais. Dão por vezes os chás mais amargos e curadores que remédio algum surte efeito igual.

Amigos são flores de beleza rara. Os únicos que conseguem mostrar as verdadeiras cores da vida naquele momento difícil de continuar.

Amigos são temperos frescos que perfumam a vida.

Amigos são árvores frondosas que acolhem e convidam pra gente descansar na sombra.

Amigos são vegetais e hortaliças da melhor qualidade que nutrem e ajudam a manter nossa saúde.

Muitas amizades brotam cedo. E nos acompanham por toda a vida.
Outras, ganhamos de repente, como vasos de flores que nos trazem imensa alegria e nos esforçamos para manter as floradas.

Essa flora diversa de bons amigos exige pouco. Um pouco de água, outro pouco de luz, uma mexida na terra de vez em quando, atenção e carinho.

Se exigirem mais do isso, podem ser plantas daninhas. E cada um sabe o que lhe cabe cultivar.

É nossa responsabilidade manter o frescor e a vida plena das amizades que cultivamos pela vida afora. É trabalho sério, o retorno digno por tanto o que recebemos, que não é pouco.

Ser grato a um amigo é ser também a plantinha que de vez em quando perfuma o seu dia e o faz lembrar da importância dessa amizade.

A terra é boa, o sol é generoso, sementes e água estão disponíveis.
É nossa escolha plantar ou colecionar pedras.

Autocrítica em demasia pode fazer mal a saúde

Autocrítica em demasia pode fazer mal a saúde

Muitas pessoas confundem autoavaliação com autocrítica. A autoavaliação é fundamental para uma vida saudável, para o crescimento. É preciso fazer constantemente um balanço dos nossos erros e acertos para que possamos corrigir o que não vai bem. Mas a autocrítica em demasia pode ser altamente nociva para a autoestima e sempre resulta em paralisia, sentimento de menos valia e doenças como depressão e síndrome do pânico.

Na autoavaliação, um erro é apenas algo que deve ser corrigido e superado. Como quando fazemos um doce e erramos o ponto: aprendemos que da próxima vez devemos desligar o fogo alguns minutinhos antes e pronto.

Na autocrítica, um erro torna-se sinal de falha e fracasso e ao acreditarmos que falhamos somos tomados pelo sentimento de culpa. E a culpa, como sabemos, paralisa.

Somos deveras criticados por todos ao nosso redor: amigos de trabalho, chefes, pais, namorado, filhos, irmãos, cachorro e papagaio. Sempre haverá alguém com o dedo em riste apontando nossas falhas e/ou julgando nossos traços de personalidade como se fossem falhas.

Para quê, então, sermos mais um nessa roda insana de críticas diárias?

A literatura apresenta diversos tratados sobre a inexorável experiência de sermos julgados e criticados pelos outros (e por nós mesmos). O livro Crime e Castigo, de Dostoiévski, talvez seja o mais emblemático, mas Albert Camus, em A Queda, nos entrega de maneira mastigada a proposta de reflexão do escritor russo ao dizer, por exemplo: “Não é necessário existir Deus para criar a culpabilidade, nem para castigar. Para isso, bastam os nossos semelhantes, ajudados por nós mesmos”; “Não espere pelo Juízo Final. Ele se realiza todos os dias”; “Quando formos todos culpados, será a democracia”.

Pois bem, proponho um exercício. Imagine que você está num show de rock, no Rock in Rio, no meio daquela multidão de pessoas e estímulos visuais, e, de repente, avista uma criança de três anos de idade perdida e chorando muito. Qual a sua primeira reação ao se deparar com essa criança?

Pegá-la no colo, pedir para que ela se acalme, dizer que vai ajudá-la a encontrar a mamãe e o papai, certo? Provavelmente você tentará ofertar água, tentará distraí-la e acolhê-la.

Qual seria o segundo passo? Buscar ajuda. Procurar algum segurança, pedir para anunciarem no microfone, etc.

Quando cometemos um erro que provoca vergonha, um erro que gera consequências desagradáveis, sentimos tanto medo e terror quanto a criança de três anos perdida no Rock in Rio. E o que fazemos com a nossa criança medrosa?

Gritamos com ela. Xingamos ela de idiota, dizemos que ela tinha a obrigação de “não soltar a mão dos pais”, chacoalhamos ela e dizemos “a culpa é toda sua” e mais, dizemos a ela que por conta do seu erro “ela ficará sozinha para sempre e nunca mais vai encontrar os pais”.

Se fizéssemos isso com a criança hipotética do Rock in Rio, o que aconteceria? A criança apenas choraria ainda mais e poderia até morrer sufocada diante de tanto terror. No mínimo ficaria paralisada sem conseguir sair do lugar.

Pois é exatamente o que acontece conosco quando nos autocriticamos, nos julgamos, sentimos culpa e nos punimos: paralisamos.

E a paralisia vira mais culpa, que vira impotência, que vira medo, que vira pânico, que vira ansiedade, que vira tristeza e distorção da autoimagem (autoestima baixa), que vira doença, que vira depressão.

Que tal da próxima vez que cometer um erro, seja ele qual for, acolher sua criança interna? Ouvir o que ela tem a dizer, acalmá-la e depois buscar uma solução?
Você não tentaria ajudar uma criança perdida e aterrorizada de medo no Rock in Rio? Não tentaria uma solução para ajudá-la, como pedir para anunciarem no microfone?

Que tal fazer o mesmo com você? Acalmar, acolher e depois buscar ajuda e solução, buscar um “anúncio no microfone”?

A culpa embota os sentidos. Cega. Distorce as coisas. Imbuído de culpa, ninguém consegue corrigir um erro, e sem corrigir nossos erros jamais vamos crescer.
Parafraseando Drummond, digo que a autoavaliação é inevitável (fundamental!), mas a autocrítica é opcional.

Lembrando que: é errando que se aprende.

Não seja opção, seja prioridade

Não seja opção, seja prioridade

Em tempos de relacionamentos fugazes, interesses líquidos e amores fracos, fica difícil mantermos nossa autoestima em um nível minimamente coerente. Fica difícil conseguir encontrar pessoas que conseguem se aproximar da gente de forma transparente e incondicional, saindo de si, do próprio mundinho, doando-se com generosidade sincera, mostrando-se disposta a fazer concessões, a parar bem de pertinho.

As pessoas, entre outras coisas, também são movidas por interesses, no entanto, ultimamente, parece que somente o que temos a oferecer em termos de materialidade e o que mais pesa na aproximação de quem nos procura. As necessidades atrelam-se majoritariamente ao que traz conforto material, popularidade, visibilidade social e status; ou seja, aquilo de mais precioso que temos dentro de nós não chega a valer nada.

Por isso é que algumas pessoas deixam de nos procurar, simplesmente porque o que temos é tão somente o que somos e podemos oferecer de humano, de sentimento, de afetividade. Isso é pouco, isso não tem etiqueta, o dinheiro não compra, isso não revela nosso salário mensal. E, assim, vamos deixando de ser prioridade na vida dos outros, enquanto assistimos aos amigos, parceiros, colegas de trabalho saindo à procura de alguém com quem possam desfrutar de conforto e pretenso sucesso.

Cabe-nos, nesse contexto, manter por perto somente quem vem com verdade e despretensão, quem vem somar, quem vem porque sim, sem interesses, sem cobrar por mais, quem nos enxerga além do que aparentamos. Os demais, que nos procurarão quando em vez, nos momentos em que não encontrarão ninguém e então se lembrarão de nossa existência, deixemos que o tempo e a vida se encarreguem de ensinar-lhes a ser mais gente – se é que pessoas assim são capazes de aprender com os tombos.

Somos humanos, somos sentimentos, não podemos achar que conseguiremos ficar tranquilos sendo opções últimas das pessoas, aceitando o desprezo que convém aos interesses alheios, o descaso de quem só nos enxerga quando quiser, quando estiver sozinho. Sempre seremos prioridade para a pessoa certa, para quem nos ama por inteiro e se entrega sem nem pensar em porquês. Já quem vier com menos, que se apequene para lá, bem longe de nossa felicidade.

Quem quer ser mais feliz do que o outro não sabe nada de felicidade. Sabe da vida do outro.

Quem quer ser mais feliz do que o outro não sabe nada de felicidade. Sabe da vida do outro.

Felicidade quando vem com tudo é bom. Vem enorme, generosa, imensa que não cabe nem na gente. Felicidade boa de dividir. E a gente divide com gosto, reparte com o vizinho, feito jabuticaba rolando pela boca da bacia. Felicidade grande faz bem a todo mundo.

Mas se ela for pequenininha, mirrada, humilde, a gente também aceita. Feliz da vida, a gente recebe a felicidade do tamanho que for. Porque não tem régua feita pra medir sentimento, né? Não há balança que revele o peso do que a gente sente. Só a gente sabe. De qualquer tamanho, felicidade é sempre leve, não pesa na alma, não dói na consciência. Mesmo quando se esparrama por tudo que há, como um cano que estoura e alaga a casa toda. Ser feliz é bom de qualquer jeito, em qualquer tempo.

Feito ave migratória, vem e vai quando quer. De nós só espera uma boa acolhida. Felicidade é uma visita envergonhada. Só volta para quem for bom anfitrião. É um passageiro clandestino. E recebê-la é um gesto generoso. A gente agradece e toca o barco adiante, sorrindo de orelha a orelha, a cara no vento, o coração feliz.

Se a tristeza vem e toma a nave de assalto, assume o comando e muda o rumo, tudo bem. Fazer o quê? A gente vive, vive com gosto, com a Graça de Deus e uma saudadinha boa de ser feliz, sentimento que alimenta o espírito, encoraja, motiva, dá sentido ao movimento das pernas, fortalece os braços, estufa as velas do barco e nos empurra para frente com uma esperança irrecusável, porque a vida só dá pé pra quem tem fé!

Eu não sei como acontece com você, mas comigo se passa assim. Eu não quero ser mais feliz do que ninguém. Quero ser feliz e pronto. Do jeito que puder. Da sorte que vier. Aceito felicidade de qualquer tamanho. Nem quero saber o jeito dela. Eu abro os braços e abraço.

Agorinha mesmo, minha felicidade clandestina não transbordou como querem as receitas prontas, absolutas, segundo as quais não existe felicidade que não transborde. A minha passou bem longe disso. Ficou ali quietinha, satisfeita, no fundo do copo. Felicidade modesta mas grandiosa, enorme em sua humildade, sintética e poderosa como bebida forte que se consome num só trago ou aos golinhos, de acordo com a vontade e o temperamento de cada um. Felicidade é visitante educada. Respeita os modos do anfitrião.

A minha é assim. Quando vem, não sei até quando fica. Eu só agradeço e cuido para que ela esteja em casa. Ela chega e eu me lembro de que, apesar de tudo, eu sou feliz. Desde sempre, até quando estou triste, eu tenho sido feliz. Sou feliz com ela assim, sinhá moça generosa, que vai mas sempre volta. Vai ver, quem sabe, ela também goste de mim.

O mundo faz sentido quando deixamos de invejar o outro

O mundo faz sentido quando deixamos de invejar o outro

Não sei vocês, mas tenho aceitado a ideia de não exigir demais do outro e, com isso, de perceber que o mais importante nessa vida é despir-se da inveja. O mundo não faz sentido com ela. Porque machuca, entristece e impede de ver, lá na frente, que cada um carrega a sua própria visão de universo.

Entendo vivermos em tempos velozes e com uma diversidade de informações impressionantes, mas, quando ao permitimos esse mar de rostos e comportamentos, acabamos nos esquecendo da nossa importância individual para fazer do convívio com outros, melhor. Invejar status, posses e tantas trivialidades, enfraquece o coração. Num primeiro momento, você pode até pensar ser algo produtivo. Afinal, defende a ideia da inveja sendo uma espécie de movimento. Mas não é isso. No fundo, o que existe é uma tristeza preocupante sobre a própria vida. E eis que surgem conversas acerca do merecimento. Como pôde, o ser em questão, conseguir algo que eu deveria ter? Mensuramos qualidades, analisamos defeitos. Todo e qualquer argumento a ser utilizado entra em pauta no momento de interrogar a vida. Os porquês criam raízes profundas e, a inveja, cresce.

Chegamos num ponto do qual desejar o bem do próximo flerta com a inveja. Melhor, disfarça-a. Em vez de buscarmos evoluir e abraçar o que nos é proposto, tanto por orgulho quanto afeição, escolhemos o caminho mais fácil e medíocre. Colocamos essa máscara emocional da subtração. De energia e carinho para com àqueles que dizemos nos importar. Desculpa, mas assim não quero mais. Não posso mais.

Porque quando falamos de soma, é justamente na ausência da inveja o seu surgimento. E para quem desconhece o significado de mundo, o amor esteve lá desde o início. Sem inveja, mas repleto de querer bem. Genuinamente, o mundo. Agora tudo faz sentido.

Amor é amor. Posse é posse. Favor não confundir!

Amor é amor. Posse é posse. Favor não confundir!

Era uma mulher adulta, ali ao meu lado na manicure. Jovem. Bem mais jovem do que eu. Mas, uma mulher adulta. Tanto quanto eu, estava ali para dar a si mesma o gostinho dessas delícias femininas. Essas gostosuras cotidianas que constituem os prazerosos ritos de vaidade. É bom cuidar de si. É bom achar-se bonita, com as unhas coloridas em tons inesperados. Já pararam para ver a infinidade de cores que inventam para os esmaltes? Eu me divirto!

Outro dia mesmo colori minhas unhas dos pés e das mãos com “Livros inesquecíveis”. Este tinha um tom lindo de azul, entre o marinho e o oceânico. Na outra semana, escolhi “Bagagens & Viagens”, dessa vez era um tom que oscilava entre o vinho e o chocolate. Mas naquele dia, tinha já escolhido a cor mesmo antes de sair de casa; levei na bolsa o “Aguenta coração”! Tem dias que o esmalte, assim como o batom, tem que ser vermelho. Um vermelho desses que não deixa dúvida, sabe? É vermelho MESMO!

Enquanto eu dividia minhas mãos com Mariana (Mariana é minha talentosa manicure), a moça ali ao meu lado deu um suspiro meio de aflição, ou júbilo, não sei ao certo… e disse “Linda essa cor na sua mão! Bem vermelho, né?”. Nossos olhos se encontraram por alguns instantes. E eu vi ali, naqueles olhos da moça, tão mais moça do que eu, algo que me inquietou.

Eu tenho um faro enorme para pescar no ar os sentimentos ao redor. Sobretudo aqueles que doem. No entanto, costumo “ficar na minha”, como se diz por aí. Se a pessoa quiser dar um passo adiante, eu sou ótima ouvinte. Mas sou melhor ainda em respeitar os silêncios alheios.

Bem… A moça ao meu lado na manicure, quis dar um passo além. “Acho lindo esmalte vermelho. Mas, meu marido não gosta!”. Confesso que por alguns instantes me aconteceu algo que é bastante raro: fiquei sem saber o que fazer. Depois de uma confissão tão singela dessas, um sorriso seria pouco, um comentário aleatório, seria menos ainda, um comentário sincero, talvez fosse invasivo.

Mas, alguma coisa dentro de mim fez brotar um desejo incontido de jogar uma faísca naquela alma feminina tão jovem, ali sentada ao meu lado na manicure. Abri um sorriso de mãe. Sabe o que é um sorriso de mãe? É aquele que inclui ouvidos generosos, braços que acolhem e um colo oferecido. Pois eu abri um sorriso de mãe e disse “Ah… seu marido também pinta as unhas?”. Diante da pergunta inusitada, duas coisas inusitadas aconteceram: ao nosso redor fez-se um silêncio, a moça ao meu lado caiu na gargalhada.

Riu gostoso. Até interrompeu o trabalho da outra moça que se ocupava em esmaltar-lhe as unhas com um esmalte sem cor certa, meio branco, meio bege, meio transparente. Findo o riso que fez com ela desse mais um passo adiante, a jovem moça tocou meu braço “Sabe, essa sua pergunta bem-humorada me fez lembrar de uma coisa… Meu marido usa há anos um perfume que me faz espirrar. Por delicadeza, ou por amor mesmo… Nunca mencionei! Como ele só usa o perfume aos fins de semana, eu prefiro tomar um antialérgico a magoá-lo com uma crítica.”

E não é que eu vi ali, no feminino universo do salão de manicure, uma alma de menina ser liberta? Os mesmos olhos que antes tinham cruzado com os meus, e nos quais algo havia me inquietado; vi algo agora que me fez ganhar o dia! A faísca que eu lancei naquela alma obediente, ateou fogo e iluminou, fez nascer um desejo travesso de subverter a ordem estabelecida pelo silêncio das regras de posse.

A mulher adulta, sentada ao meu lado na manicure devolveu-me o sorriso de mãe com um sorriso de filha. Sabe o que é um sorriso de filha? É aquele que inclui beijos estalados na bochecha, gratidão e colo retribuído. Pois ela abriu um sorriso de filha para mim e disse “Hoje eu vou fazer duas coisas: dar um perfume novo ao meu marido e apresentar a ele uma nova mulher. Hoje eu vou de vermelho!”.

Desculpem-me os céticos e desesperançados. Desculpem-me também os azedos. Mas eu insisto em teimar que não há comodismo que resista a um pensamento de alegria. Eu ainda ouso acreditar que o bem se faz ao outro assim, com sorrisos que acolhem e fagulhas de vida que se doam sem nenhuma expectativa. Eu acredito que amor é amor, posse é posse. E um anula o outro, completamente.

Imagem de capa: Eliseu Fiuza

Tenho medo dos românticos

Tenho medo dos românticos

Tenho medo dos românticos! E os temo justamente porque já fui (sou?) muito romântica.

Tendemos a confundir romantismo com gentileza, delicadeza, ternura, cavalheirismo, demonstração de afeto, bem cuidar, bem querer; acreditamos que o romantismo é um efeito colateral do amor, mas isso nem sempre é verdade.

Certamente gentileza, delicadeza, bem querer e bem cuidar são efeitos colaterais do amor –  assim como a admiração e o respeito. No entanto, existem pessoas que amam profundamente sem serem românticas.

Românticos são aqueles que acreditam na ilusão de que o outro tem o que nos falta. Que supõem o objeto do seu amor tão imenso, tão dotado de qualidades mil que acabam se sentindo grandiosos, também, quando são retribuídos em seus apelos. Em outras palavras: idealizam o ser amado.

São aqueles que só encontram conforto na própria pele quando estão amando e/ou sendo amados. Que só conseguem deixar de se sentir ninguém quando estão amando alguém. Que morrem a cada separação por não encontrarem sentido para suas vidas sem a presença do ser idealizado.

Supõem-se sonhadores, mas no fundo são idealizadores. Criam um mundo paralelo para se refugiar quando o mar não está para peixe: o amor e/ou a impossibilidade de desfrutá-lo.

E decepcionam-se! Ah, como se decepcionam os românticos! Cedo ou tarde os objetos de suas paixões ganham contornos de inadequação. Até mesmo uma pinta no tornozelo esquerdo, antes ignorada, torna-se um transtorno. Qualquer passo em falso dos parceiros, qualquer nota destoante da sinfonia criada/idealizada pelos românticos e pronto: eles se frustram e se desapaixonam. Tão logo se desapaixonam, apaixonam-se (supostamente) por outrem. Vivem em eterna ciranda à procura do ser ideal.

Muitos, aliás, escolhem alguém para colocar num pedestal inatingível, somente para ter por quem suspirar. Outros tantos se maltratam. E há os que se autodestroem mas deixam obras primas pelo caminho, caso de Amy Winehouse em seu disco Back to black.

Românticos amam a ideia do amor, não o amor consumado. Alguns temem consumar o amor com receio de empobrecê-lo tremendamente e perder o completo controle de si. Além disso, não toleram a possibilidade do engano, da frustração. O melhor que podem fazer por si é se refugiarem na imaginação! Afinal, na imaginação cabe tudo! Tudo é possível! Não há frustração! Tudo pode ser perfeito.

Assim foi com Frederico, protagonista do livro “Educação Sentimental”, de Gustave Flaubert (Editora Martin Claret). Amou, até as últimas das mais de 400 páginas, Mme. Arnox, uma mulher mais velha e casada, por quem fez diversas loucuras; enrolou-se com outras tantas na tentativa de esquecê-la, mas, quando teve finalmente a chance de fundir seu corpo ao dela – e quem sabe iniciar uma vida em comunhão – recuou:

“Frederico suspeitou Mme. Arnoux de ter vindo oferecer-se-lhe; e recaíra num desejo mais forte que nunca, furioso, desesperado. Mas sentia o que quer que fosse de inexprimível, uma repulsão e como que o horror de um incesto. Outro receio o deteve, o de vir a sentir desgosto mais tarde. E depois, que embaraço! – E não só por prudência mas para não degradar o seu ideal, rodou sobre os calcanhares e pôs-se a fazer um cigarro”. (página 416)

O personagem de Flaubert flanava na Paris do século XIX, mas são tantos os Fredericos e as Fredericas que suspiram no século XXI acreditando-se apaixonados incuráveis sem, talvez, nunca terem se permitido a um amor verdadeiro…

Flores? Sim, obrigada! Poemas, cartas de amor, presentinhos inesperados, jantar à luz de velas, declarações de amor, lua de mel em ilhas paradisíacas, massagem nos pés, socorro no meio da estrada quando fura o pneu do carro, ajuda pra resolver um problema, sex0 bom no chuveiro ou no tapete da sala, comidinhas de depois, vinho com risoto de cogumelos feito em casa? Sempre, sempre e sempre! Por favor! Obrigada! Amém!

Mas confesso que prefiro dançar esse balé na companhia de quem me ame como eu sou, não de quem se diz romântico, faz todo o passo a passo ensaiado, porém no fundo idealiza o amor e o objeto de sua paixão. Prefiro quem me ame mesmo quando eu acordo descabelada e mal humorada. Será que um romântico à moda antiga conseguiria?

Você é meu réveillon

Você é meu réveillon

Eu nunca quis que você entrasse na minha vida.

Nunca sonhei com você aqui ao meu lado todos os dias.

Não quero conhecer o seu mau humor matinal, as suas neuroses, o seu lado cotidiano.

Não quero saber qual é o nome da sua mãe, não quero ver as suas fotos da infância.

Não quero provar sua comida – não todos os dias.

Não imagino a cara dos nossos filhos, não quero segurar sua mão nas ruas, não te quero de corpo tão presente, fazendo papel de marido, opinando na fatura do cartão de crédito, e comendo o último iogurte da geladeira. Não me quero lavando sua meia junto com as minhas calcinhas. Não quero conhecer todos os seus lados.

Porque você é o que eu preciso para romper o comodismo.

Você é a minha agulha, é a ponta afiada que estoura a minha bolha chata e inflamada e ao mesmo tempo você é a minha pena de fazer cócegas na sola dos pés.

Com você eu gosto de ser a outra mulher, não essa chata, centrada, multitarefa, repetitiva. Eu gosto de ser a mulher que não dorme à noite, que se lembra como dar gargalhada, que sabe falar sobre todos os assuntos, que olha pela janela e contempla a doce paisagem urbana e esquece os ciclos de pensamentos viciosos.

Que esvai. Gosto de ser a mulher que se dissolve no tempo e no espaço.

Porque você é meu reveillon. E eu não me importo de fazer 30 aniversários por ano, desde que não sejam 365. Você é a minha ruptura, as minhas férias numa ilha deserta.

Eu gosto que a gente seja a explosão, a catarse – um do outro. A salvação.

Você é fogos de artifício que fazem essa mulher chata sorrir por dias.

Não vou te associar a stress, família, contrato de união instável…

Você é sazonal, é estouro de champagne,
é as sete ondas que pulei depois da meia noite.

Acho que eu não sou desse mundo !

Acho que eu não sou desse mundo !

O mundo anda doente, as pessoas estão cada vez mais estressadas e sem tempo para ninguém, as postagens virtuais destilam preconceito e agressividade, quanto amargor. Não sobra tempo mais para a gentileza, para a conversa, para os encontros; o trabalho nos rouba todo o tempo, tempo de vida, de lazer, de amor. Encontro-me perdido em meio a tudo isso, muitas vezes deslocado da maré que varre feito turbilhão os resquícios de humanidade que deveriam ser prioridade na vida de qualquer pessoa.

Eu ainda acredito no ser humano, na natureza humanamente gregária do homem, que nos torna necessitados de convivência, de companheirismo, de toque e de trocas. Recuso-me a crer numa sociedade majoritariamente preconceituosa e excludente, disposta a obter vantagens e bens materiais, mesmo que às custas da infelicidade alheia.

Acredito no poder do amor, na força do bem, na capacidade de a verdade sobrepor-se a toda e qualquer mentira, a toda e qualquer infelicidade solitária. O bem tem que vencer o mal, em todos os setores dessa vida – ou isso ou se perdem os objetivos de vida baseados na ética e no respeito ao outro. Recuso-me a pisar alguém para me sobressair, a mentir para conseguir o que quero, a odiar simplesmente porque sou contrariado.

Creio em sentimentos sinceros, em acolhimento verdadeiro, em guarida afetiva. Ainda existe quem ama sem medo, quem se entrega sem censura, quem acolhe o diferente, o dissonante, o que anda na contramão de todos. Não posso conceber a ideia de que todo mundo age com segundas intenções, que ninguém seja capaz de se doar sem querer nada em troca, que a aceitação de todas as raças, credos e gêneros seja uma utopia, um sonho impossível.

Costumo confiar nas pessoas, nas palavras, nas atitudes que vejo, sem ficar com o pé atrás, sem hesitar, desconfiando de que aquilo possa se tratar de encenação premeditada, de riso forçado, de ardil encoberto. Não posso crer que gente do bem é espécie em extinção, que curtida no Face valha mais do que um aperto de mão caloroso, que se julguem as pessoas pelas aparências, pela procedência, por tudo menos pela essência que as define.

Acho que não sou daqui, acho que nasci no tempo e no lugar errados, pelo tanto de decepções que se amontoam em meu caminhar, em relação a quem, principalmente, recebeu o meu melhor. Ainda assim, mesmo sob olhares de censura, palavras de desânimo, tombos e dores, persistamos no propósito de alcançar a felicidade da forma mais limpa e ética que pudermos, pois o que é nosso então se resguardará, para que desfrutemos do bom e do melhor junto aos poucos verdadeiros que se juntaram a nós. Assim seja.

Violência Psicológica: agressão além da pele

Violência Psicológica: agressão além da pele

Um inimigo silencioso, que se instaura sem ser percebido. Não faz alarde e não deixa marcas visíveis. A violência psicológica, ou velada,  existe e, mesmo que ainda seja ignorada por agressores e também por parte significativa de suas vítimas, a exposição a ela pode deixar marcas profundas.

“A maior parte das vítimas da violência velada é composta por pessoas que por desconhecimento não se sentem vitimizadas até que seja tarde demais”, informou à CONTI o especialista em segurança pública e coordenador do OBVIOObservatório da Violência Letal no Rio Grande do RN/UFERSA, Ivenio Hermes.

“Nesse leque encontramos menores suscetíveis e vulneráveis, que sofrem a violência causada pela ausência dos pais e das autoridades, e também, mulheres e crianças que sofrem esse tipo de agressão também dentro de seus próprios lares, onde o causador pode ser um parente ou pessoa de confiança”.

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SINAIS

“Abusadores são pessoas conhecedoras de métodos sofisticados de manipulação. Culpabilizam, punem com silêncio passivo-agressivo, projetam e invertem culpas com uma maestria que somente um expert seria capaz de captar à primeira vista”, disse à CONTI a advogada e personal coach Lucy Rocha.

contioutra.com - Violência Psicológica: agressão além da peleLucy foi uma dessas vítimas mas, depois de tentar se livrar por quatro anos de uma relação abusiva, conseguiu dar um ponto final na situação e decidiu criar uma página no Facebook para ajudar homens e mulheres que vivenciam os mesmos problemas pelos quais ela passou. Assim, em 2013, surgiu a Relações Tóxicas.

“Desde a primeira linha eu tinha noção de que seria um trabalho árduo, com um custo
emocional e financeiro importantes. Desde então, lido com pessoas incríveis e histórias inspiradoras que indicam que fiz uma escolha acertada”, escreveu em nota publicada na própria página.

Lucy afirma que é difícil a vítima se dar conta de que está em uma relação abusiva. “Normalmente essas pessoas passam anos e anos de suas vidas na mira de um abusador sem exatamente compreender que estão sofrendo abuso”, comenta.

Para ela, a dificuldade em reconhecer-se em tal posição está ligada ao fato de que os responsáveis pelos abusos sabem manipular bem os envolvidos, deixando-os sempre em posição de vulnerabilidade.

Dentre os diversos sinais que podem dar indícios de uma relação afetiva abusiva, onde a prática de violência psicológica é comum, Lucy aponta: 1 – a atenção excessiva logo no início da relação, ultrapassando o afeto comum e beirando o sufocamento; 2 – as “brincadeiras” aparentemente inofensivas que denigrem e minam a autoestima; 3 – a indução para o afastamento de amigos, familiares e hobbies – isso facilita a dependência e dificulta o pedido de socorro.

“A coisificação de outro ser humano por meio de tratamentos humilhantes, desrespeitosos e/ou degradantes, é um dos melhores meios de se identificar os relacionamentos abusivos”, completa Ivenio.

Ivenio ainda diz que “é necessário dar a devida atenção para os sinais aparentes da violência velada, que podem ser pequenas marcas corporais/físicas”, alerta para os “sintomas externos das reações psicológicas, que podem ser introversão e timidez excessiva, pouco contato com pessoas da mesma idade no caso de crianças e adolescentes, além do receio de conversar”.

“Não existe uma forma de mensurar quantitativamente ou qualitativamente essa violência, pois as delegacias que labutam nesse campo não possuem instrumentos de qualitativos nem de medir a violência aparente”, explica Ivenio, que é um dos autores do Observatório Potiguar 2016. “Se os meios de aferição são tão escassos em crimes visíveis, imagine em crimes que não são facilmente perceptíveis?”.

COMBATE E PREVENÇÃO

“Infelizmente, apesar do fato de que a violência psicológica esteja prevista como crime no contioutra.com - Violência Psicológica: agressão além da peleart. 7 da Lei Maria da Penha, ainda é algo muito difícil de se comprovar. As sessões de tortura psicológica, as dinâmicas instauradas, as agressões veladas são tão sutis e surreais, que quando a vitima tenta denunciar ou ao menos contar a alguém, normalmente é tida como louca, excessivamente sensível ou como alguém que não esta lidando bem com o termino da relação”, lamenta Lucy.

Os profissionais aqui entrevistados concordam que o combate a esse tipo de violência está vinculado ao grau de autoconhecimento e discernimento das vítimas. A isso deve estar aliado o acesso à justiça por meio de mecanismos de denúncia que não as exponham.

“Nesse contexto é necessário buscar ajuda de pessoas idôneas, é claro, buscando uma delegacia de proteção à criança e adolescentes, idosos, mulheres, enfim, delegacias que estejam pelo menos habituadas ao trato com pessoas suscetíveis a essa forma de agressão”, indica Ivenio. “De uma forma muito carinhosa e pessoal, aconselho que todas as mulheres, aliás, todo o ser humano, se perceba como de equivalente e igualitária importância dentro de uma relação, devendo se amar em primeiro lugar, se valorizar intimamente, para não se suscetibilizar a nenhum tipo de relacionamento abusivo”, conclui.

“Se há ameaça ou agressão física, o caminho é lavrar boletim de ocorrência, fazer exame de corpo de delito, representar para que se torne uma ação penal e, se necessário, requerer na própria delegacia medida protetiva para manter o agressor à distância. Se a ordem for desobedecida, minha sugestão é que registrem, busquem testemunhas e chamem imediatamente as autoridades”, aconselha Lucy, antes de arrematar: “Jamais aceite ter uma conversa, um encontro final ou conflito com alguém que já atentou contra sua vida. Costumo dizer que dar-lhes uma segunda chance, é como dar uma segunda bala para alguém que só tinha uma, atirou em você e não acertou”.

Todas as imagens são do fotógrafo Richard Johnson, criador da campanha “Weapons of Choice”, e destacam a dor causada por insultos verbais. 

Grandes mulheres artistas em 14 filmes fantásticos: a arte pelo olhar feminino

Grandes mulheres artistas em 14 filmes fantásticos: a arte pelo olhar feminino

Mulheres artistas são fantásticas, pois expressam com maestria, através da arte, todo o furor que há no âmago feminino, não privam suas vidas de grandes emoções e vivem intensamente.

Nessa lista vocês encontrarão 14 ótimos filmes biográficos de grandes mulheres que mudaram o mundo das artes através da pintura, escultura e fotografia.

A vida de cada uma dessas artistas foi em grande parte movida por paixões e tragédias e inegavelmente, fala de pessoas que não se contentaram com uma existência comedida.

1. Frida, Natureza Viva – 1986

contioutra.com - Grandes mulheres artistas em 14 filmes fantásticos: a arte pelo olhar femininoNesse filme em seu leito de morte, a pintora Frida Kahlo (Ofelia Medina) relembra sua vida. O filme expõe de forma aleatória e não-cronológica, uma série de passagens da vida da artista, relacionadas aos seus casos amorosos, à militância política, à infância com o pai Guillermo e, claro, a sua produção artística. Em suma, o filme nos proporciona a sensação de entrarmos na mente de Frida Kahlo para captar, a partir de suas memórias, os seus sofrimentos, anseios e paixões.

2. Camille Claudel – 1989

contioutra.com - Grandes mulheres artistas em 14 filmes fantásticos: a arte pelo olhar femininoCamille Claudel (Isabelle Adjani) é uma jovem escultora que entra em conflito com sua família ao tornar-se aprendiz, e mais tarde, assistente do famoso escultor Auguste Rodin (Gérard Depardieu). Quando ela e o escultor viram amantes, Camille passa a ser mal vista pela sociedade francesa da época. Apenas após viver quinze anos de um relacionamento conturbado, ela põe fim na relação com Rodin, para cair então em uma profunda depressão. Diante das circunstâncias, seu irmão mais novo acaba internando-a em um hospital psiquiátrico. Baseado na biografia escrita por Raine-Marie, sobrinha-neta de Camille, esse filme foi o responsável pelo “renascimento” das obras da escultora.

3. Carrington – Dias de Paixão – 1995

contioutra.com - Grandes mulheres artistas em 14 filmes fantásticos: a arte pelo olhar femininoEm 1915, na Inglaterra, começa a nascer o amor entre Dora Carrington (Emma Thompson), uma pintora conceituada, por Lytton Strachey (Jonathan Pryce), e um escritor assumidamente gay e 15 anos mais velho. Uma das melhores cinebiografias já feitas, esse é um grande filme. Ao contar a história não de um, mas de dois artistas, na Inglaterra vitoriana, o diretor e roteirista britânico Christopher Hampton conseguiu fazer uma sofisticada obra que discute amor, arte, paixão e solidão, mas em especial a atração, não apenas sexual, mas física, intelectual e afetiva entre duas pessoas. Nem Dora Carrington nem Strachey foram famosos em sua época, contudo a delicadeza de Hampton os tirou do anonimato através de uma história muito bem contada. Um filme provocante e com atuações maravilhosas.

4. Artemisia – 1997

contioutra.com - Grandes mulheres artistas em 14 filmes fantásticos: a arte pelo olhar femininoArtemisia Gentileschi (1593-1653) foi uma das primeiras pintoras conhecidas. O filme conta a história de sua juventude, enquanto ela era guiada e protegida por seu pai, o pintor Orazio Gentileschi. Sua curiosidade profissional sobre a anatomia masculina, proibida para seus olhos, levam-na ao conhecimento do prazer sexual. Mas ela também foi bem conhecida porque, em 1612, ela teve que se apresentar à corte, devido à suspeita de estupro cometida por Agostino Tassi, seu professor.

5. Frida – 2002

contioutra.com - Grandes mulheres artistas em 14 filmes fantásticos: a arte pelo olhar femininoFrida Kahlo (Salma Hayek) foi um dos principais nomes da história artística do México. Conceituada e aclamada como pintora, ele teve um agitado casamento aberto com Diego Rivera (Alfred Molina), seu companheiro também nas artes, e ainda um controverso caso com o político Leon Trostky (Geoffrey Rush). Esse filme biográfico, baseado no livro de Hayden Herrera, conta a vida de Kahlo desde a sua adolescência até o ano de sua morte. Com uma ótima atuação de Salma Hayek, o filme mostra também o momento em que a pintora foi acometida por um trágico acidente; suas viagens pelo mundo; seu amor natural pelos animais; seus momentos boêmios; suas opções políticas e sua relação com Trotsky. Película obrigatória para os amantes da arte.

6. A pele – 2006

contioutra.com - Grandes mulheres artistas em 14 filmes fantásticos: a arte pelo olhar femininoDiane Arbus (Nicole Kidman) é considerada por muitos como uma das melhores fotógrafas do século XX. Ao longo de sua carreira Diane voltou sua atenção para o bizarro, o inusitado e o diferente em suas fotos e esse filme pode ser considerado como uma espécie de biografia da fotógrafa. No filme Diane sente-se atraída por Lionel Sweeney (Robert Downey Jr.), um portador de tricotomia, disfunção caracterizada pelo excesso de pelos e o enredo gira entorno dessa atração dela por ele e por tudo que é inusitado. Nesse filme o diretor inventa personagens e situações que vão além da realidade para expressar a provável visão interior de Diane. Contando com atuações corajosas de Nicole e Robert, o filme, baseado no livro de Patricia Bosworth, tem ótima fotografia e figurino e exige boa vontade do expectador.

7. Momentos Eternos de Maria Larssons – 2008

contioutra.com - Grandes mulheres artistas em 14 filmes fantásticos: a arte pelo olhar femininoEsse filme biográfico acontece na Suécia do início do século 20, numa era de mudança social e pobreza, onde a jovem operária Maria Larssons ganha uma câmera fotográfica na loteria. A lente da câmera permite que Maria veja um mundo diferente, sob uma nova perspectiva. É como se ela tivesse ganhado novos olhos. Mas o objeto também se torna uma verdadeira ameaça para ela, uma vez que o marido alcoólatra e abusivo se sente enciumado. Tudo fica ainda mais complicado quando ele descobre que um jovem e atraente fotógrafo chamado Pedersen está se aproximando de sua esposa. Um filme lindo, cuja história cativante é muito bem retratada pelo diretor Jan Troell. Com fotografia belíssima, o filme conquista e envolve, nos fazendo chorar e vibrar ao lado da protagonista.

8. Séraphine – 2008

contioutra.com - Grandes mulheres artistas em 14 filmes fantásticos: a arte pelo olhar femininoCinebiografia de Séraphine Louis (1864-1942) – também conhecida como Séraphine de Senlis, que foi descoberta pelo marchand e crítico de arte Wilhelm Uhde. Colecionador dos quadros de cubistas como Picasso e Braque, Uhde refugia-se, em um momento de crise, em uma casa de campo, onde Séraphine trabalha fazendo faxina e por acaso vem a conhecer uma pintura que ela havia feito e deixado com sua patroa. Considerada louca em seu vilarejo por ser dona de uma personalidade por vezes servil e por vezes absolutamente indomável, Séraphine passou a ser reconhecida como uma das expoentes francesas do grupo de artistas “primitivos modernos”. A história de Séraphine é comovente e apaixonante e traça uma linha tênue entre a genialidade e a loucura. Belo filme com atuação, fotografia e trilha sonora impecáveis.

9. Vida e obra de Georgia O’Keeffe – 2010

contioutra.com - Grandes mulheres artistas em 14 filmes fantásticos: a arte pelo olhar femininoUma das pintoras mais importantes da história da arte americana, Georgia Totto O’Keeffe (Joan Allen) pintou flores e paisagens como ninguém e conheceu o amor e a fama com fotógrafo Alfred Stieglitz (Jeremy Irons), com quem manteve um intenso relacionamento amoroso e profissional. Um filme imperdível, um drama cativante tanto para os fãs do trabalho da artista quanto para quem ainda não a conhece.

10. Violeta foi para o Céu – 2012

contioutra.com - Grandes mulheres artistas em 14 filmes fantásticos: a arte pelo olhar femininoIntratável, terna, boêmia, áspera, contundente, frágil e indomável. Violeta Parra foi uma das artistas mais emblemáticas do Chile – e ainda assim, profundamente ignorada por décadas. Andrés Wood realizou um trabalho muito bonito ao trazer para as telas, a partir do livro escrito pelo filho de Violeta, Ángel Parra, a vida, a obra, a memória, os amores e as esperanças dessa cantora, compositora, poeta e pintora que é um dos maiores ícones da arte popular latino-americana. Um filme muito bem dirigido e cheio de intensidade.

11. Marie Krøyer – 2012

contioutra.com - Grandes mulheres artistas em 14 filmes fantásticos: a arte pelo olhar femininoA pintora Marie Kroyer vive um casamento infeliz com o famoso pintor dinamarquês P.S. Kroyer, no final do século XIX. Ele divide-se entre as funções de artista, mãe e esposa, e ainda é obrigada a conviver com uma doença mental do marido. Com o tempo, ela se sente cada vez mais sozinha e angustiada. Decide, então, fugir da rotina e sair de férias. Nesse período, conhece o compositor sueco Hugo Alfvén, por quem se apaixona loucamente. Um filme lindo, dirigido com maestria, que certamente levará muitos expectadores às lágrimas.

12. Grandes Olhos – 2014

contioutra.com - Grandes mulheres artistas em 14 filmes fantásticos: a arte pelo olhar femininoNo final dos anos 1950, Walter Keane (Christoph Waltz) fez muito sucesso revolucionando a comercialização de arte popular com suas pinturas enigmáticas de crianças com grandes olhos tristes. O filme retrata a verdade chocante por trás disso: as pinturas vendidas por Walter não eram dele, mas de sua mulher, Margaret (Amy Adams). O filme é centrado no despertar de Margaret como artista, no sucesso fenomenal de suas pinturas e em sua relação tumultuada com o marido, Walter, que a obrigou a pintar de forma exaustiva por anos sem que ninguém soubesse disso. Uma ótima cinebiografia dirigida por Tim Burton com Lana del Rey na trilha sonora. Vale a pena!

13. Camille Claudel, 1915 – 2013

contioutra.com - Grandes mulheres artistas em 14 filmes fantásticos: a arte pelo olhar femininoInverno, 1915. Contra a sua vontade, a escultora Camille Claudel (Juliette Binoche) é internada pelos familiares em um asilo psiquiátrico mantido por religiosas, e permanece durante anos na instituição, sem poder sair. Ela afirma várias vezes que está perfeitamente sã, mas desenvolve uma mania de perseguição, acreditando que Auguste Rodin conspira contra ela, e que todos no asilo tentam envenená-la. Camille passa os dias cercada por internos com deficiências mentais e surtos psicóticos graves, não tendo ninguém com quem conversar. Sua única esperança é uma carta enviada clandestinamente ao irmão Paul (Jean-Luc Vincent), implorando por sua liberação. Esse é um filme bastante denso que tem como intuito retratar a vida da escultora quando internada, sem fazer menção ao período anterior da vida de Camille. Um enredo desafiador que exige bastante paciência do expectador.

14. A Garota Dinamarquesa – 2015

contioutra.com - Grandes mulheres artistas em 14 filmes fantásticos: a arte pelo olhar femininoEsse é um filme baseado no livro homônimo de David Ebershoff e mostra a história biográfica de Lili Elbe (Eddie Redmayne), que nasceu Einar Mogens Wegener e foi a primeira pessoa a se submeter a uma cirurgia de mudança de gênero. Em foco no filme está o relacionamento amoroso de Lili com a pintora, desenhista e ilustradora dinamarquesa Gerda Wegener (Alicia Vikander), assim como sua descoberta como mulher. Um filme interessante, bastante comentado e com direção sólida, sem grandes sobressaltos.

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Ele nunca achou que a perderia…

Ele nunca achou que a perderia…

Ele tinha certeza: ela o amava. E foi usando desse álibi que ele pisava, magoava e depois pedia perdão, pois sabia: ela o perdoaria. O coração dela, sempre muito solícito, perdoava e recompunha-se por diversas vezes. Tentou fazer dar certo, engoliu os sapos e acabou se engasgando, muitas vezes, com aquelas palavras não ditas, por medo de começar ou prolongar uma briga.

Então, depois dos erros, ele apaziguava a tempestade que havia criado e, de alguma forma, tentava consertar as suas falhas. Mas, depois de um tempo, falhava novamente. Lá estava ele machucando o seu coração com palavras que não deveriam ter saído do seu pensamento. Lá estava ele dizendo o que não queria ter dito ou feito, mas pela força do momento, pelo impulso, acabou dizendo. Seu orgulho o cegara. Não conseguia pedir desculpas e deixava o tempo passar. Ela orava e pedia a Deus para acalmar a tempestade do seu coração. Por diversas vezes, chorou baixinho no colo de Deus pedindo respostas. Ela não queria desistir, ela o amava tanto, que só queria que as coisas melhorassem e que o amor voltasse a ser leve.

Naquele momento, ela entendia perfeitamente o poder das palavras e como aquelas frases ditas por ele feriam o seu coração. Como dói ouvir certas coisas de quem amamos, como ferem as desculpas dadas, a indiferença e até o que não é dito, afinal, o silêncio também machuca e nos deixa impotentes diante do outro. Ele não regava o jardim dela, não plantava flores e não semeava.

Ela, por muito tempo, tentou fazer dar certo. Insistiu e tentou recomeçar, usando do diálogo como ferramenta e deixando o orgulho de lado. Exercendo paciência, abriu o seu coração e mergulhou naquela história de amor sem medo. Por diversas vezes, disse o quanto estava disposta a lutar por essa história e, embora ele concordasse com a cabeça, não fazia por onde. Eram apenas palavras e não passavam de teorias.

Ele achou que nunca iria perdê-la. Por mais que ela o avisasse de que um dia iria cansar, ele não dava bola. Achava ser uma fase, um momento, ou mesmo bobagem. Enquanto ela não o deixava partir, ele partia o seu coração. Os recomeços mais pareciam um fim. Mas um coração cansado, por mais que pulse, decide ir, porque não aguenta mais sofrer. A gente cansa de chorar baixinho e de encharcar o travesseiro com lágrimas durante a madrugada. De parecer bem no outro dia, para não ter que explicar tudo o que aconteceu. Ela cansou de tentar consertar os erros e de ter as suas feridas sempre cutucadas. O amor de forma alguma dá as costas para a dor do outro. Quem ama cuida. Protege. Acolhe. Quem ama semeia o jardim do outro e, por mais que traga alguns espinhos, sabe fazer daquele terreno seara fértil. Não insiste naquilo que machuca, arranca risos e deixa saudade, como quem volta depois com uma rosa.

O amor é uma via de mão dupla. Não dá para apenas um tentar construir, se o outro deseja se acomodar. Ele, pela força do hábito, achava que o que ela fazia era suficiente. Ah, como ele gostava de se sentir amado e importante. Como ele gostava dos agrados, dos sorrisos, das surpresas. Ele gostava mesmo de se sentir lembrado no meio da semana, na ida ao supermercado, e de ganhar o seu chocolate preferido numa quarta-feira qualquer. Entretanto, ele não se lembrava dela, não demonstrava saudade e esquecia-se do interesse. Ele achou que isso não iria se esgotar. Não regou e deixou morrer o sentimento mais puro que alguém poderia lhe oferecer. Deixou partir quem fez de tudo pra ficar.

E então, depois de tantos tombos, falas que feriram o seu coração e até avisos, ela cansou. Pegou as suas coisas e foi, mesmo que a partida doesse mais do que os espinhos que havia ganhado. Ela, no deserto, quis florescer e sabia que ali as flores murchariam. Com a sua partida, ele percebeu o seu valor, notou que deixou ir quem queria fazer morada, deixou ir quem fazia de todo o possível para vê-lo feliz. Quem sonhava junto e não tinha medo dos vendavais. Afinal, ela sempre segurava a sua mão. Mas agora era tarde demais.

Ela prosseguiu como quem sabe que tomou a decisão certa e ele, que sempre achou que nunca a perderia, acabou a perdendo por não regar o seu jardim e por se esquecer de que o amor é uma flor que precisa ser regada diariamente. Ele se esqueceu de contemplar a sua beleza e, depois de tanto partir o seu coração, ela partiu como quem não quer mais um amor cansado, como quem não quer mais migalhas. A saudade e o arrependimento já não eram suficientes para tê-la novamente. Aquele seu coração bondoso e disposto a recomeçar hoje se tornou um coração decidido a não retroceder ao mesmo lugar que lhe roubou o seu riso fácil.

Não adianta espernear! Em apenas meia hora a vida pode mudar e muito!

Não adianta espernear! Em apenas meia hora a vida pode mudar e muito!

Certeza é uma coisa que não nos acompanha. A gente pensa que ela anda de mãos dadas conosco, que gosta de estar por perto, mas não. Certeza é um bicho arisco que não tolera arreios nem coleiras. Anda livre e faz o que bem entende. Volta de vez em quando para beber uma água, comer um pouco e aliviar nossa eterna preocupação.

A certeza é parceira da vida nas questões de futuro. Nenhuma das duas dará pistas sobre o minuto seguinte. Podem, no máximo, concordar com alguns de nossos planos e incentivar as decisões. Mas, se tiverem que virar tudo de cabeça para baixo, não vacilam.

A ausência da certeza, dá lugar a convidados nem tão bem-vindos: E vão chegando pouco a pouco e se instalando sem cerimônias, a insegurança, o medo, as gêmeas: paranoia e neurose, por vezes, a depressão.

Lidar com a falta de certezas pode ser tarefa dolorosa. Queremos respostas definitivas! Precisamos mapear possibilidades e rotas de fuga!

E nos frustramos vez após vez, pois que em meia hora a vida vem e bagunça tudo. E só nos resta reagir ao novo, ao improvável, à situação do momento.

É preciso fibra, coragem, espírito de luta e resistência. A corda bamba da vida balança ainda mais quando nos vê medrosos, vacilantes, inseguros.

Em meia hora a gente recebe uma notícia linda ou um diagnóstico desolador. Em meia hora vem aquela ideia que resolve um super problema ou o banco quebra e leva nossas economias.

Em meia hora a gente decide fazer as pazes ou romper para sempre. Em meia hora o rosto se ilumina com uma presença nova na vida, ou a gente até morre.

A meia hora pode durar um instante ou grande parte da vida e aí vai o mistério que não deixa as certezas fazerem ninho.

Conviver com as meias horas da vida é se abrir para os movimentos que não temos autonomia para fazer sozinhos. Podemos contribuir, devemos lutar, resistir, não entregar o jogo, mas precisamos mais do que tudo, entender que não sabemos onde nem quando vamos chegar.

O foco é o minuto vivenciado, a respiração completa, o coração pulsante e o desejo de mais meia hora, sempre!

Livre é quem não se prende às opiniões alheias

Livre é quem não se prende às opiniões alheias

O conceito de liberdade sempre esteve ligado à ideia do poder de mudar o próprio destino, mais conhecido como o livre arbítrio. Porém, com o passar do tempo esse conceito sofreu modificações e a tal liberdade parece, atualmente, mais uma utopia do que algo a ser conquistado.

Temos a liberdade de ir e vir, mas não temos o dinheiro da passagem. Temos liberdade de morar sozinhos, mas não temos o dinheiro do aluguel. Temos liberdade religiosa, mas sofremos preconceitos quando expomos nosso ponto de vista. Temos liberdade em votar em quem quisermos, mas somos obrigados a votar. Então até que ponto somos verdadeiramente livres?

Para Sartre, a liberdade consistia na condição de vida do ser humano: o homem é livre por si mesmo, independente dos fatores do mundo e das coisas que ocorrem. Porém, a questão de liberdade ainda dá muita discussão, já que as pessoas sentem dificuldade em aceitar o que foge do padrão delas. O cabelo que não pode ser natural, o peso não pode passar dos 70 kgs, a roupa que não deve ser da coleção passada (até criarem um esteriótipo inalcançável de beleza). Somos livres por Constituição e presos pela opinião alheia.

Em uma discussão racional, se todos fossem iguais e tivessem o mesmo padrão de vida, muita coisa não faria sentido: o campeonato brasileiro de futebol não existiria, as bandas de rock se limitariam a uma e a São Paulo Fashion Week seria extinta imediatamente.

É preciso entender que o padrão de beleza não é o imposto. Bonito é ter caráter, ser honesto e ser feliz. Pronto. Alguns gostam de cor, outros não. Alguns se encontram do silêncio, outros no grito. Alguns gostam do verão, outros do inverno e tudo bem! São nas diferenças que crescemos e fazemos a vida seguir. Por que então ser diferente soa tão agressivo?

Se admitirmos que somos diferentes e que estamos no mesmo patamar de igualdade, teríamos motivos suficientes para nos envergonhar de atitudes discriminatórias. Liberdade é você defender seu ponto de vista, respeitando o próximo e entendendo que a sua opinião é apenas uma opinião, sempre existirão outras. Como dizia Simone de Beauvior: “que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância.”

A conquista pela liberdade exige muito mais que o desejo em possuí-la. Ser livre é não ser escravo dos erros do passado, é não se culpar pelas coisas que não deram certo, é ser capaz de, verdadeiramente, se perdoar. Ser livre é ser honesto e entender que isso é uma obrigação, não uma qualidade. É encontrar os sonhos fora dos padrões impostos, é querer viver a própria essência, é entender que a razão sempre prevalecerá sobre o grito.

Liberdade tem mais a ver com dominar as próprias vontades do que viver todas elas. É ter coerência entre o sim e o não, é ter as ações condizentes com a moral, com o bom senso e com o respeito e usar isso em prol da boa convivência. Liberdade é um estado íntimo de paz e não um objetivo a ser alcançado.

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