Quem te motiva a ser melhor é alguém que vale a pena ter por perto

Quem te motiva a ser melhor é alguém que vale a pena ter por perto

Passaremos por vários encontros ao longo de nossa jornada e conheceremos o mais variado tipo de pessoas. Algumas delas nos enriquecerão, outras nos diminuirão, bem como haverá tantas delas que passarão em branco. Saber quais companhias serão imprescindíveis ao nosso caminhar com ares tranquilos e quais pessoas deverão sair de nossas vidas o quanto antes nos poupará de consideráveis tempestades inúteis.

Mantenha por perto que tem sempre uma palavra de força e de motivação, quem não duvida de seus potenciais, quem acredita em você, no que você pode, em tudo de que você seja capaz. Escute as pessoas que realmente o amam, que realmente querem o seu bem, que sorriem com verdade, sem forçar nada, sem ser chamado, aquelas que nunca se sentem obrigadas a estar junto da gente.

Afaste-se de quem sempre parece duvidar de que algo bom possa vir a acontecer com você, quem pinta o seu futuro com cores tortas, quem lota de nuvens os seus sonhos de vida. Não dê ouvidos a desmotivações e negatividades de quem só chega perto para dar rasteiras, para desacreditar de qualquer coisa em você que implique ser feliz. Não deixe que seu sorriso se desmanche por conta de palavras vindas de gente chata e pessimista.

Aproxime-se das pessoas que brilham sem ofuscar ninguém, que alcançam sonhos sem precisar destruir o outro, sem falsidade, sem derrubar quem lhe atravesse o caminho. Ouça quem divide luz, compartilha sabedoria, multiplica conhecimento, espalha amor. Quem subiu por conta própria, pelos próprios méritos, quem nunca deixa de ser quem de fato é onde quer que esteja, seja com quem estiver.

Fique longe dos indivíduos que não conseguem obter nada sem derrubar o outro, sem maldizer quem faz sucesso, sem invejar quem possui competência e felicidade de sobra. Mas fique bem longe de quem só sabe falar mal de quem não está presente, de quem só critica, só se sente injustiçado, só sabe querer o que não tem. Esse tipo de gente não pensa duas vezes antes de passar por cima de quem sua mente doentia achar que é melhor, que é mais feliz, que não merecia tudo o que tem.

Inevitavelmente, iremos amargar muitas decepções com pessoas em quem depositávamos afeição sincera, seremos alvo da maldade de quem nem nos conhece direito, seremos desencorajados de nossos sonhos por quem não acredita na força do amor, porque nem todo mundo terá a decência de se colocar no nosso lugar ou de se calar quando o momento assim o pedir. No entanto, darmos as mãos aos verdadeiros amigos, às pessoas que realmente nos amam e acreditam em nós é o que nos manterá firmes no caminho que traçaremos rumo à felicidade de que somos merecedores. Porque todos somos merecedores.

Ser solteiro é opção e não falta dela

Ser solteiro é opção e não falta dela

A questão cultural sobre relacionamentos é muito séria. Enquanto para alguns a solteirice é uma opção de vida, para outros é uma tortura psicológica que quase leva à loucura. Estar solteiro, atualmente, parece ser tão constrangedor quanto dar gargalhadas em um velório. Por inconformidade da felicidade individual, as pessoas tentam pares para os solteiros como forma de serem completos (como se já não fossem). Sem entenderem que “estar” solteiro é diferente de “ser” solteiro e que, ambos, correspondem a uma opção. Só isso! (Opção aliás que todos deveriam passar. Intensamente inclusive).

Concordo com Tom ao escrever “fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho”. Amar é tão bom! Mas, é sempre bom lembrar que existem vários tipos de amores: família, amigos, trabalho,animais…amamos tanta coisa e tão intensamente que seria egoísmo limitar o sentimento apenas aos relacionamentos amorosos. Amamos nossa própria compainha, amamos telefonar na quinta a noite e combinar a saída do fim de semana, amamos conhecer gente nova, amamos não ter que dar satisfação, amamos ter nossa liberdade com bandeira branca… então, não estamos sozinhos, nem deixamos de amar. Só fizemos nossas escolhas, que podem ser mudadas assim que encontrarmos alguém legal. É só isso!

Não é uma questão de “antes só do que mal acompanhado” ou de “você é o grande amor da sua vida”. Estar solteiro é ser leve, não encontrar problemas em jantar ou ir ao cinema sozinho. É estar bem consigo e melhor se aparecer alguém. A diferença é que se acontecer, ótimo. Se não, tudo bem.

Esse negócio de cobrança sentimental é um saco. Sim, um saco! Acredito que não sejam poucas as vezes em que você ouviu “e os namoradinhos?”, acompanhado de uma cara de misericórdia e de mil conselhos de “como encontrar alguém”, quando respondeu que estava solteiro. E sabe por quê? Porque são raras as pessoas que usam a liberdade a favor dos próprios sonhos. As pessoas parecem não se conformarem com o estado de felicidade dos solteiros e procuram, de toda forma, juntar pares para serem “completos”.

As pessoas parecem não entender que estar solteiro não é não casar ou não ter um companheiro. É simplesmente curtir seu momento e aprender com ele. Estar solteiro não é ir pra balada e festar até amanhecer (é também, claro!), nem sair com todo mundo. É viajar, conhecer pessoas, permitir-se fazer coisas que, talvez, não faria se estivesse casado. Estar solteiro é como viver com o inesperado todos os dias e ter controle sobre a própria vida. É decidir se quer ou não alguém e não suportar um relacionamento tumultuado. “Os solteiros ricos deviam pagar o dobro de impostos. Não é justo que alguns homens sejam mais felizes do que os outros.” (Oscar Wilde)

A solteirice é uma fase necessária para acreditarmos mais em nós mesmos, desenvolver uma autocrítica e melhorar como pessoas. De dentro para fora. Então, respeite nossa solteirice, nosso tempo e nossa forma de ver o mundo. Ser solteiro é apenas uma opção e não falta dela.

Ahh… como é fácil apontar nos outros os defeitos que também são nossos.

Ahh… como é fácil apontar nos outros os defeitos que também são nossos.

Dia desses inventei de dizer por aí que conheço quem se orgulha de ter visto o mundo inteiro mas nunca olhou na cara de seu vizinho. Pronto. Os gênios afeitos a paus e pedras saíram em defesa de seu direito à antipatia pura e simples.

Basicamente, suprimidos aqui os palavrões e as ofensas a mim e ao site que publicou o texto, os argumentos brilhantes diziam o seguinte:

“Prefiro mesmo conhecer o mundo do que olhar na cara do meu vizinho! E daí?”

Daí que eu acho feio ter orgulho da falta de empatia que nos assola e piora a vida cada vez mais, feito um rolo compressor movido a burrice e ignorância que vai macetando tudo que há, incluindo velhinhas, crianças, bichos, plantas e tudo quanto tenha um único problema: estar no caminho de quem acha mesmo ter a única opinião que merece crédito no mundo.

Uma senhora muito certa do quanto é especial me disse alguma coisa assim: “vizinho é um castigo. Se eu pudesse escolher eu escolheria não ter nenhum.”

Pois é. Mas a tal senhora só esqueceu um detalhe óbvio: ela também é “o vizinho”. Ela, eu, você e todo mundo somos a vizinhança de alguém. Logo, alguém por aí também deve lamentar a nossa existência por um motivo que, em geral, desconhecemos ou fingimos não existir.

Verdade é que as mesmas queixas que temos dos outros quase sempre se aplicam a nós mesmos. Mas a nossa incapacidade de se colocar no lugar do outro é tão grande que preferimos acreditar na fantasia de que somos os únicos habitantes do prédio, do bairro, da cidade, do planeta. Os únicos corretos, bem intencionadas, sensatos e merecedores de respeito que resistem na face da Terra. E o resto podia simplesmente desaparecer.

Em tempos tão carentes de empatia, tão precisados de gente que se empenhe e se coloque no lugar do outro, que acredite na gentileza e trabalhe para amenizar a grosseria que nos transforma em javalis, uma multidão se orgulha de ser justamente o contrário: antipática, individualista e burra, descaradamente estúpida.

Assim, implacáveis em suas grosserias, apontam, julgam e condenam nos outros os defeitos que também são seus, enquanto apertam o passo em sua barulhenta caminhada para trás, arrastando em marcha a ré quem estiver na frente. Cuidado com eles.

Depressão infantil: quando não é só uma tristeza passageira

Depressão infantil: quando não é só uma tristeza passageira

A infância anda cada vez mais abreviada. Movidos pela crença de que o melhor que podem dar aos filhos é um futuro de sucesso, muitos pais acabam errando na dose, em relação aos compromissos que assumem em nome dos pequenos.

Escolas “fortes” que oferecem conteúdos excessivamente “puxados”; cursos de língua para crianças com menos de 7 anos; atividades esportivas muito competitivas e pouco lúdicas; vida social intensa, inclusive nos dias de semana; nenhum tempo para simplesmente brincar, criar, inventar; uso de Internet sem acompanhamento e supervisão de um adulto; horas de envolvimento em joguinhos eletrônicos; outras tantas de exposição a todo tipo de lixo midiático na TV ou no computador.

Esse encurtamento da etapa de vida que deveria representar o tempo de formar alicerces psicológicos, orgânicos e cognitivos para poder dar conta do processo de desenvolvimento, pode gerar nas crianças comportamentos de ansiedade, hiperatividade, irritação e depressão.

Criança pensa como criança e sente como gente grande. Em suas vivências relacionais ocorrem os mais diversos contatos com o universo das emoções. O fato é que os pequenos têm antenas apuradíssimas para captar as modulações afetivas ao seu redor; captam, mas não conseguem decifrar, compreender significar.

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É por isso que as crianças são tão interessadas e interessantes. Diferentes de nós, os adultos, elas expressam suas ideias, opiniões e sentimentos sem a utilização de filtros requintados de adequação. São mais espontâneas, receptivas e, por isso mesmo mais indefesas. Criança precisa da assistência amorosa de um adulto para poder transitar pelas experiências de ganho, perda e amadurecimento.

Por trás dos olhos dos meninos e meninas, existem lentes de microscópios interessadas no mundo minúsculo das coisas, existem imagens telescópicas curiosas sobre os mistérios além das estrelas, existem interesses genuínos sobre todas as coisas. É da natureza infantil a inquietude, a curiosidade, a transformação, a experimentação. E negar-lhes tempo para exercer esse espírito científico nato, é tirar-lhes a oportunidade de encontrarem prazer na aprendizagem.

Ao mesmo tempo em que são atraídas para o novo, o diferente e o inusitado, as crianças carecem de subsídios para lidar com as alterações em suas rotinas. Tanto as mudanças felizes, como ganhar um animalzinho de estimação, quanto as mudanças tristes, como a separação dos pais, exercem impactos em suas ainda frágeis estruturas para interagir no mundo e conviver com as complexas relações interpessoais.

O que se vê, tanto no ambiente familiar, quanto nas escolas, é um despreparo dos adultos para ajudar a criança a entender onde é que ela se encaixa, quais são suas atribuições justas e a que ela tem direito, afinal. Os comportamentos precoces são estimulados e comemorados por muitos pais e educadores. Isso é um absurdo!

Com alarmante frequência, a criança fica excessivamente exposta aos dramas familiares, sob o pretexto de que a família está adotando uma prática de inclusão desse ser em formação na dinâmica familiar, como se isso fosse democrático. Não é. É injusto e invasivo. A criança fica tensa, acreditando que pode resolver problemas que estão absolutamente fora da sua capacidade de ação.

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Não é raro ver crianças sofrendo o impacto de ter de tomar partido em disputas de poder entre o pai e mãe. Menos raro ainda, infelizmente, é ver crianças que chegam a passar mais de um dia sem ver o pai ou mãe, sem que tenha havido uma separação; “moram todos na mesma casa”, só que não se encontram.

Essa falta de cuidado com a constituição de um repertório afetivo é a principal causa para a manifestação de processos depressivos em crianças de 5 a 10 anos. Essa criança fica com as emoções à flor da pele, justamente por não ter tido a assistência necessária para lidar com o que sente, observa, pensa e vive.

Uma família negligente pode deixar passar sinais importantíssimos de que algo não vai bem. Não se trata daquela irritação momentânea, não é uma birra, não é “o jeito dela”, não é mau-humor de família. Mudanças de comportamento sempre encerram algum significado, por isso precisam ser observadas pelos adultos e analisadas com atenção e serenidade.

Padrões persistentes nas alterações de humor, começam com manifestações aparentemente simples: perda ou aumento significativos nas necessidades de sono ou apetite; choro fácil; medo de ficar sozinho; desinteresse pelas atividades de aprendizagem; falta de ânimo para brincar ou estar com outras crianças e manifestações agressivas ou excessivamente apáticas. Esses sinais, combinados ou não, podem indicar algum transtorno emocional, que pode ser facilmente confundido com “gênio forte”, preguiça ou rebeldia. Há ainda a questão da predisposição genética, crianças com pais ou avós diagnosticados com transtornos afetivos, têm naturalmente maior propensão para desenvolvê-los.

Da mesma forma que há elementos que podem contribuir para o aparecimento da depressão na infância, há formas de se criar ambientes protetores do desenvolvimento psicológico, social e afetivo. A família, os professores e todas as pessoas envolvidas na educação dos pequenos, precisam assumir seu papel fundamental que é o de oferecer bons modelos.

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Um ambiente respeitoso, que favorece a manifestação de afeto e de ideias, cerca a criança de referências positivas, a partir das quais ela irá constituir suas formas de se relacionar com as mais diversas situações. É preciso saber dosar o nível das informações que se entrega a essas crianças; há assuntos que são apenas de responsabilidade dos adultos, não tem por que envolvê-las. Equilíbrio é a palavra-chave, como sempre.

O melhor que se pode fazer, quando se detecta algum aspecto destoante no comportamento dos pequenos é, primeiro não criar um drama em torno da questão.

Dramatizar o problema é a forma mais eficiente de não o resolver. Olhar com atenção para o tipo de vida que se está oferecendo a essa pequena pessoa. Às vezes é preciso dar um, ou alguns passos atrás para se corrigir a rota. Indispensável buscar aconselhamento psicológico, a fim de reconfigurar as relações e a rotina da criança, reformular conceitos com o objetivo de oferecer condições para que a criança recupere o equilíbrio emocional. Só não vale fazer de conta que não está acontecendo nada. A depressão infantil é problema de gente grande e precisa ser acolhido e tratado com atitude de gente grande, ou seja, com maturidade, amorosidade e respeito.

Eu pedi sua opinião? Então não enche.

Eu pedi sua opinião? Então não enche.

Por que será que sempre existe alguém para nos dizer que devíamos tentar isso ou aquilo para resolvermos um problema?

Eu, pelo menos, costumo saber exatamente o que tenho que fazer para resolver os meus problemas e quando não sei – e de fato quero resolver! – busco ajuda.

Ninguém precisa me dizer “você devia exercitar mais a sua disciplina” quando estou procrastinando. Ora, se estou procrastinando é porque tenho motivos (talvez esteja com medo, por exemplo) e não porque me falte disciplina – sou super disciplinada quando quero!

“Você devia se exercitar mais”, “você devia parar de fumar”, “você devia comer menos besteiras”,  “você devia se separar”, “você devia falar menos”, “você devia ser mais discreto”, “você devia arranjar um emprego”, etc, etc, etc.

Quando foi que o verbo “dever”, conjugado no pretérito imperfeito, se tornou regra e/ou sinônimo de perfeição e adequação?

Que estranha mania esta de quererem nos ajudar quando não pedimos ajuda. Que chatice essa a de todo mundo ter uma opinião sobre como deveria ser a nossa vida.

Sempre que isso acontece comigo, pergunto-me: essa pessoa deseja ajudar por que gosta de mim e quer o meu melhor ou simplesmente não consegue lidar com minha fraqueza, minha imperfeição?

Seu intuito é ajudar ou afastar a possibilidade de se ver refletida num espelho de imperfeição? Sim, porque os meus possíveis deslizes podem acordar os dela, não?

E mais: querer ajudar é sinônimo de amor ou necessidade de controle?

Infelizmente todos nós, por este ou por aquele motivo, somos vítimas da necessidade de ajudar. Quando amamos muito uma pessoa e percebemos, por exemplo, que ela está se autossabotando, cavando buracos com as próprias mãos,  tendemos a sugerir “isso” ou “aquilo” imaginando que estamos incentivando-a a melhorar.

Mas a vida tem me ensinado, dia após dia, que a melhor ajuda que podemos oferecer a alguém é deixar com que este alguém seja ele mesmo – ou seguir o conselho atribuído a Goethe:

“Trate as pessoas como se elas fossem o que poderiam ser e você as ajudará a se tornarem aquilo que são capazes de ser”.

No fundo, no fundo, as únicas ajudas de que todos nós necessitamos se chamam aceitação, respeito, acolhimento e amor.

Vem que eu te conto porque donos de gatos são tudo de bom

Vem que eu te conto porque donos de gatos são tudo de bom

Pessoas que gostam de gatos ou de cachorros têm personalidades bastante distintas. Enquanto os amantes de cachorros são mais sociáveis, os donos de gato são quase sempre dotados de um sedutor ar de mistério.

Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Carroll, nos Estados Unidos, mostrou que donos de gato têm uma alma livre, ou seja, não se prendem tanto às regras. Também são pessoas dotadas de grande sensibilidade, com um ar de introspecção notório e bastante abertas a novas experiências.

Para Denise Guastello, professora de psicologia e principal autora desse estudo, as diferenças de personalidade entre donos de gato e de cachorro podem estar relacionadas ao tipo de ambiente que essas pessoas preferem. Donos de cachorro gostam mais de sair, levar seu animal para passear, ver outras pessoas enquanto que donos de gatos, por serem mais introspectivos e dotados de grande sensibilidade, quase sempre preferem ficar em casa lendo um livro.

Se observarmos bem, donos de gatos têm uma característica muito importante: eles sabem respeitar a forma de agir do seu animal de estimação, sem exigir que o felino se expresse desse ou daquele jeito. Não exercem com seu animal qualquer relação de posse. Não exigem uma atenção desmedida ou eufórica, tão própria dos cães, para se sentirem amados. Não têm dentro de casa um animal que os vê como mestres, mas um de índole livre que os vê como igual.

Donos de gato têm, através do convívio com o seu animal, a possibilidade diária de exercitar a aceitação, e consequentemente, tomam como natural que os outros sejam como são. Em geral são pessoas que dão mais espaço àqueles com os quais se relacionam e percebem mais através da observação e menos através das palavras. Também é assim a linguagem felina, pois quase sempre ela se faz silenciosa. O gato observa muito antes de chegar até onde quer chegar.

Quem tem gato sabe que um gato não dissimula afeto. Não conhece o que é ser obrigado. Não se rende às ordens humanas. Para o gato, seu dono é um companheiro pelo qual ele terá uma imensa admiração ou aversão. E a admiração dele nunca é gratuita. Ela é conquistada no dia a dia e exige que o dono seja uma pessoa confiante.

Ter um gato é no fundo um jogo de conquista. Um jogo de verdades sem medidas. De sorrisos velados ou dentes serrados, tudo isso sem alardes. Um dono de gato provavelmente não curtirá relacionamentos recheados de demonstrações gritantes de afeto. Não terá necessidade de controlar os passos do seu parceiro. Não mendigará afeto ou tentará comprá-lo com o que é efêmero. Nada se obriga numa relação verdadeira entre duas pessoas. Na relação com um gato também não.

Um gato não ama por piedade ou interesse, ama porque reconhece em seu dono uma alma livre e poderosa, dotada de firmeza e cheia de amor-próprio, assim como a dele.

Dessa forma, não é difícil perceber que no quesito relacionamento donos de gatos estão um passo à frente. Respeitar a forma de amar do outro é muito importante para garantir a saúde de qualquer relação. E isso, dentre outras coisas, é algo muito bem sabido por quem tem um bichano ao alcance da mão.

Acompanhe a autora no Facebook pela sua comunidade Vanelli Doratioto – Alcova Moderna.

Atribuição da imagem: pexels.com – CC0 Public Domain

A Chegada: filme dialoga sobre a importância de sermos mais humanos

A Chegada: filme dialoga sobre a importância de sermos mais humanos

Sem maiores explicações, doze naves surgem em pontos aleatórios do globo. Como de praxe na maioria dos filmes do gênero, caos, intolerância e medo alastram-se entre os cidadãos de diversos países. Na forma de um joguete político, algumas nações exacerbam os seus próprios limites culturais e sociais tentando compreender o motivo dessa força extraterrestre. Ingredientes mais do que suficientes para um clássico blockbuster, não fosse o comando ímpar de um dos maiores cineastas da atualidade, o canadense Denis Villeneuve.

Em A Chegada (Arrival), Villeneuve flerta de forma poética com o desconhecido e ainda presta homenagens claras para clássicos do nosso tempo, como Isaac Asimov e Arthur C. Clarke. A estética concebida do diretor é uma das mais completas hoje no cinema. Villeneuve consegue, sem muito esforço, fazer lembrar obras do passado – Contato, e ainda romancear paisagens e diálogos no melhor estilo Terrence Malick. Tudo isso para apresentar a dupla que viria a ser responsável por responder a pergunta principal feita aos invasores: “o que vocês querem?”. Vividos por Amy Adams e Jeremy Renner, as personagens precisam desvendar esse mistério ao mesmo tempo que criam uma ligação incomum em relação aos seres longínquos.

A discussão da produção derrama-se, em planos e nuances, sobre a comunicação. É um processo árduo de identificar e traduzir possíveis mensagens entregues pelos habitantes das naves. Mas adentrando nas relações internacionais, várias personagens acabam se vendo envolvidas numa espécie de ruído. Na verdade, o grande escopo de A Chegada é mostrar o quanto podemos ser distantes de nós, na maioria das vezes, quando não sabemos usar do diálogo e do afeto para encontrarmos um denominador comum. O filme expõe a falsa concepção de tempo que alimentamos. Ele tira o curativo daquelas angústias sentidas por escolhas que fazemos. Não é para qualquer coração encontrar-se diante tantos questionamentos afetivos e complexos. Ainda mais perante um longa que tinha tudo para ser uma simples experiência cinematográfica de entretenimento.

A Chegada é, em sua essência, uma jornada de autoconhecimento. Denis Villeneuve arrisca, mais uma vez, nas arestas sutis do que significa sermos humanos. A diferença é que aqui ele usa de uma narrativa ficcional e impensável (até quando?) para elucidar as nossas maiores indagações. Mas, acima de tudo, é uma tentativa legítima de sacudir o emocional e, quem sabe, despertar o nosso reconhecimento e atenção para laços menos hostis e mais afetuosos.

Desperte interesse, não ciúmes.

Desperte interesse, não ciúmes.

Em pequenas doses tudo é bom: o amor, a saudade, a liberdade e até o ciúmes. É bom sentir-se amado, cuidado, admirado. O problema está nos limites de bom senso e equilíbrio que, ao serem ultrapassados, deixam marcas profundas nos dois lados.

Quem sente ciúmes carrega em si um medo de rejeição atípico e, em nome disso cultiva um sentimento de apreensão, relacionado à possibilidade do abandono e da rejeição, que o faz acreditar que não ser mais amado é a pior das situações.

Cervantes afirmava que “os ciumentos sempre olham para tudo com óculos de aumento, os quais engrandecem as coisas pequenas, agigantam os anões, e fazem com que as suspeitas pareçam verdades.” O ciumento vira um detetive em potencial, vê coisas onde não existe e cria situações imaginárias para justificar seu estado de vulnerabilidade e insegurança.

As redes sociais são averiguadas a todo momento, as senhas decoradas na velocidade da luz e o carro vira uma veículo de fórmula 1, tudo para encontrar “pistas” que justifiquem o ato doentio.

Essa história de “por trás de todo ciúmes está o medo de perder” ou “quem ama cuida” consiste em uma forma sufocante de gostar, tornando refém quem ele julga amar. Na verdade o ciúmes pertence ao egoísmo e não ao amor.

Note que não são raras as histórias de crimes passionais e brigas constantes nos relacionamentos por causa do ciúmes excessivo. Justificativas como “ciúmes é o tempero do amor” e “namorado ciumento é namorado fiel”, demonstram uma profunda falta de autoestima e destroem a vida sentimental dos dois lados.

Roland Barthes afirmava que, “como ciumento sofro quatro vezes: porque sou ciumento, porque me reprovo de sê-lo, porque temo que meu ciúme machuque o outro, porque me deixo dominar por uma banalidade: sofro por ser excluído, por ser agressivo, por ser louco e principalmente por ser comum.”

É preciso reaprender a amar e entender que joguinhos de ciúmes não são legais, são doentios. Ciúmes é fofo até começarem a voar tijolos na cabeça de um dos dois e despertar ciúmes em quem você diz amar é, no mínimo, desrespeito.

Para Shakespeare “Os ciumentos não precisam de motivo para ter ciúme. São ciumentos porque são. O ciúme é um monstro que a si mesmo se gera e de si mesmo nasce.” Resumindo: pessoas neuróticas que acabam com o psicológico de qualquer um.

Entenda: amor não é prisão, é liberdade. Ninguém tem o termo de posse de ninguém (ainda bem) e respeitar a decisão de todos é um dever. Fique quem queira ficar e vá quem queira partir. Acredite, não tem nada mais puro do que alguém permanecer ao seu lado por vontade própria.

Aproveite as pessoas que estão com você, mas não se aproveite delas

Aproveite as pessoas que estão com você, mas não se aproveite delas

Ultimamente, em tempos de busca pelo sucesso a qualquer preço, de necessidade de fama, grana e popularidade, fica difícil encontrarmos quem não se aproxima da gente com segundas intenções. Isso porque muitos procuram, mais do que amizade, por algo que possamos lhes oferecer em troca, em termos materiais mesmo, ou porque temos amizade com alguém importante, quem sabe até por conta de frequentarmos ambientes onde circulam pessoas mais interessantes monetariamente.

A verdade é que estamos rodeados de pessoas que não conseguem simplesmente apreciar e aproveitar o que há ao seu redor, sem querer tirar algum proveito disso. Trata-se daqueles que vivem pendurados em favores políticos, que se filiam a sindicatos intencionando desfrutar de privilégios, que se aproximam de endinheirados para viver uma vida que não é sua, que sugam além do permitido a solicitude alheia. Desconhecem, portanto, o gostar porque sim.

O pior é quando a pessoa interesseira começa a querer ser o que o outro é, ter a vida do outro, roubar-lhe a existência toda. A inveja, quando intensificada, torna-se patológica e se vale de expedientes isentos de escrúpulos, o que pode trazer muitos dissabores ao alvo dessa negatividade. Saudável é admirarmos o outro, a ponto de nos sentirmos motivados a conseguir o que desejamos por nossos próprios esforços. Porém, quem se aproxima de alguém somente para obter vantagens para si não é digno de consideração.

Mesmo que, algumas vezes, sintamos inveja de alguém, precisamos nos conscientizar de que temos capacidade de obter muito do que sonhamos, sem precisar usar de meios antiéticos, pois a manutenção de nosso caráter é que nos ajudará a alcançar aquilo que nos cabe. Tudo o que vier até nós de forma ilegal, forçada, sem naturalidade, não valerá a pena, uma vez que sempre saberemos a procedência daquilo tudo. Caso tenhamos um mínimo de caráter, ficaremos intranquilos com essa situação.

Nada daquilo que começa errado tem muitas chances de dar certo. Casamento por conveniência, amizade por interesse, riqueza ilícita, muito difícil imaginar que essas pessoas possam viver com paz de espírito ou dormir com a consciência tranquila, caso elas possuam integridade e caráter ético. Conviver com o que se fez ou se deixou de fazer será sempre inevitável, ou seja, ter a certeza de que somos e temos aquilo que conseguimos de forma limpa e por nosso próprio mérito nos manterá mais felizes e completos. Porque, então, ainda que com pouco, teremos a sensação de muito, de satisfação plena e de realização pessoal.

Viver para agradar os outros é vender a própria alegria numa feira de liquidação.

Viver para agradar os outros é vender a própria alegria numa feira de liquidação.

Às vezes acontece depois de um banho morno. Outras vezes, no meio de um picolé numa tarde excessivamente quente. Ainda há outras vezes em que a mágica acontece no instante em que o corpo se entrega ao sono. Sem deixar de mencionar a delícia que é aquele momento em que nos damos de presente o silenciar da mente. Paramos de viver para agradar, para nos ajustar, para tentar caber em um modelo que não nos serve.

É quando conseguimos nos desapegar do controle, da obstinação em achar respostas plausíveis para todos os dilemas e da necessidade de atender às expectativas dos outros em relação ao que temos a oferecer, que temos a chance indescritível de nos libertarmos das correntes tão pesadas da cobrança, da culpa e da insatisfação.

Viver para agradar os outros é vender a própria alegria numa feira de liquidação. Abrir mão dos sonhos em troca de uma segurança cem por cento planejada, é esfarelar em milhões de migalhas a delicada e rara joia que nos ilumina o peito, chamada paixão pela vida. Negar-se o próprio colo, o próprio tempo e o próprio amor, é passar aos outros o poder de decidir sobre o próprio destino.

Somos a combinação – às vezes harmoniosa, às vezes caótica – das inúmeras experiências que fomos colecionando ao longo do processo. Somos as lágrimas que deixamos correr quando o prazer ou a dor atingiu o clímax. Somos os momentos em que fechamos os olhos, num piscar de olhos que descobriu o amor. Somos a falta de ar das descobertas. Somos o excesso de luz da generosidade. Somos a sombra dos medos que nos acompanham. Somos a intersecção entre que o que queremos, o que desistimos e o que damos conta de ser.

E quanto menos colocarmos em outras mãos a responsabilidade pela nossa alegria, mais oportunidades teremos de descobrir o que de fato nos encanta, nos move e mobiliza. Menos vulneráveis estaremos em relação às tempestades ou períodos de seca, que certamente nos encontrarão em algum ponto do caminho.

Descobrir-se para revelar, em si e para si, os caminhos simples ou complexos que se entrelaçam entre aquele que fomos, somos e viermos a ser. Aceitar-se, para deixar fluir de dentro para fora a nossa vocação para fazer, compartilhar e receber o bem. Abraçar-se, para encontrar as formas mais simples e bonitas de se conectar, consigo mesmo e com o outro. Encontrar a paz, enfim.

Deixe ir : prefira alguns meses de coração partido a uma vida inteira de decepções

Deixe ir : prefira alguns meses de coração partido a uma vida inteira de decepções

Talvez um dos maiores entraves que nos emperrem o seguimento de nossa jornada venha a ser o medo de sofrer. Tememos enfrentar muitas dores, porque achamos que não conseguiremos suportá-las e, por essa razão, muitas vezes acabamos trazendo um sofrimento ainda maior para nossas vidas, mantendo conosco o que não nos ajuda a sermos felizes; muito pelo contrário.

Dentre os sofrimentos que evitamos, encontra-se o medo de nos separarmos do parceiro, que nem mais parceiro é, que nem mais nos ama, nos pede, nos chama para si. Protelamos, assim, um rompimento que já se tornou urgente e necessário, evitando tomar a atitude certa, a única atitude, aliás, possível e coerente naquele momento, uma vez que a manutenção desse alguém conosco está acabando com nossa vitalidade, com nossa razão de sorrir, com nosso potencial em amar com reciprocidade.

Por mais que o outro nos ignore, nos esqueça, nos torne invisíveis, muitas vezes acabamos tolerando além da conta, ainda que se extenuem nossas forças, mesmo que avisemos e avisemos de novo. Porque a gente acreditou tanto, a gente investiu tudo o que tinha, a gente se doou e se entregou de forma transparente e por inteiro, a gente quer dar certo no amor, ou seja, aceitar a falência daquilo que tomou tanto da gente dói demais.

E, assim, vamos mantendo em nossas vidas exatamente quem deveria ficar bem longe, quem já teve a chance de fazer parte de nós e não fez a menor questão de se doar, de compartilhar, de ser junto, quem nos vê somente como provedores de algum conforto, de alguma coisa de que ele precise, de tudo o que não implique troca e sentimento humano. E, assim, vamos aumentando nossa dose diária de dor e de sofrimento, exatamente porque pensamos estar evitando a dor da separação.

É preciso deixar ir. Deixe que vá quem fica por comodismo, quem fica como peso, como bagagem inútil, quem só recebe e nada devolve, quem não nos percebe, não nos enxerga, não nos espera pra nada, por nada. Mande embora de sua vida quem encostou feito gelo, quem suga, quem mente, quem pratica o tanto faz. O sofrimento por quem vai embora é dolorido, mas libertador. Prefira a dor do rompimento que aos poucos acalma a um sofrer diário por medo de sofrer. Dor sem fim ninguém merece, muito menos você.
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Acompanhe o site do autor em Prof Marcel Camargo

Tem gente que se orgulha de ter visto o mundo inteiro mas nunca olhou na cara do vizinho.

Tem gente que se orgulha de ter visto o mundo inteiro mas nunca olhou na cara do vizinho.

Conheço gente que tem o maior orgulho de conhecer o mundo todo mas não tem a menor ideia de quem seja o seu vizinho. Gente que esteve em dezenas de países, visitou ilhas remotas, nadou em mares longínquos e nunca viu a cara do sujeito que habita o apartamento ao lado.

Nada contra o turista que coleciona carimbos em seu passaporte e os exibe como troféus. É um direito dele. Como também é seu direito esbanjar conhecimento sobre lugares insuspeitados, destinos curiosos e anotações de viajante. Adoro ouvir relatos do tipo, faço perguntas, demonstro interesse, agradeço as informações. Nada contra.

Viajar até a esquina ou para onde Judas perdeu as botas é sempre excitante, inspirador, educativo. Bem aproveitada, uma viagem transforma o viajante. Eu só acho que a gente devia voltar para casa melhores do que quando saímos. Transformados para melhor. Não piorados, indiferentes ou convencidos de uma pretensa importância atribuída somente a pessoas “viajadas”.

Tem gente por aí que retorna de uma viagem em estado de enfezamento franco, mergulhada em mau humor e irritação, culpando pelo fim de suas férias os colegas, a rotina, as obrigações diárias, as mazelas do terceiro mundo.

Até a hora de viajar de novo, alguns gênios fazem de seus dias “normais” um verdadeiro inferno. Maltratam pessoas, brigam, buzinam, reclamam, desviam o olhar quando cruzam os vizinhos.

Decerto imaginam que assim, piorando a própria vida e a dos outros, desprezando os dias infinitos que ficam entre uma viagem e outra, torcendo penosamente para que cheguem logo as próximas férias, potencializem o prazer do instante de largar tudo e embarcar de novo, reconciliados com o mundo, orgulhosos de sua condição de turistas e do limite de seu cartão de crédito. Com todo o respeito, essa gente não entendeu nada.

Eu prefiro os viajantes humildes, curiosos e simples. Almas sensíveis que absorvem a tudo feito esponjas, estrangeiros que apreendem o que os sentidos possam tocar. Inclusive quando não estão viajando. Seres que fazem as malas e pegam a estrada para viver mais e viver melhor, não apenas para mostrar as fotos do lugar onde estiveram. A quem queira ouvir suas aventuras e recomendações, falam porque são generosos e não porque precisam impor, exibidos, o tamanho de seu programa de milhagem.

Viajantes sublimes desembarcam em outros cantos com o olhar atento e o coração aberto. Chegam mudando as regras, arrebentam barreiras de timidez, medo, preconceito. Na partida, deixam uma saudade imensa e uma promessa certa. Um dia voltam.

E quando se veem de novo em casa, a bagagem carregada e o coração repleto, assimilam tudo aos poucos, no sono, no recomeço, no dia depois do outro. Melhores como pessoas, caminhantes honestos, fazendo da vida mesma uma viagem exuberante, encantadora. Vivendo em permanente estado de descoberta.

Em geral, esse tipo de viajante vê na figura exótica de um país distante ou no vizinho da casa ao lado a mesma mágica: os dois guardam em si mesmos um mundo inteiro, à espera de novas visitas. No canto oposto do planeta ou no lado de lá da rua, toda pessoa é um destino que vale a pena visitar.

Façamos as malas, as reservas, o check-in. Façamos fotos, anotações, roteiros. Façamos compras e até extravagâncias aqui e ali. Façamos tudo isso e muito mais. Mas façamos as pazes. Primeiro deixemos de coisa e façamos as pazes.

Questão de tempo: porque todos os detalhes da vida são maravilhosos

Questão de tempo: porque todos os detalhes da vida são maravilhosos

O que você faria se possuísse o poder de voltar no tempo? O que mudaria? Qual parte da sua vida gostaria de reviver? Qual momento jamais voltaria? Difícil responder.

Essa dificuldade acontece por não sabermos lidar satisfatoriamente com o tempo. Estamos sempre em uma relação conturbada com ele. Às vezes, estamos com pressa, querendo que o tempo passe voando, outras tantas, estamos correndo para que consigamos fazer algo que queremos muito. Algumas vezes, estamos tão perdidos que o tempo sequer faz diferença.

Imerso em toda essa problemática encontra-se o filme “Questão de Tempo” (About Time) do roteirista e diretor Richard Curtis. Como o próprio título original sugere, o filme fala “Sobre o Tempo” e todas as relações que possuímos com ele. Na obra, conhecemos Tim (Domhnall Gleeson), um jovem inglês, que descobre por meio do pai que os homens da sua família possuem uma “peculiaridade” – são capazes de viajar no tempo. Mesmo com esse ponto, de viajem no tempo, a história se desenvolve de forma totalmente apegada à realidade, uma vez que a proposta do filme se direciona a uma discussão acerca do tempo em nossas vidas cotidianas e, portanto, reais.

Sendo assim, o tempo torna-se o personagem principal do filme, pois a principal “questão” do tempo está na forma como lidamos com ele. Em tempos líquidos, como diz Zygmunt Bauman, a vida passa muito rápido, de forma efêmera, sem que possamos senti-la e aproveitá-la ou lembrando Woody Allen em “Meia-Noite em Paris” – “Tudo ocorre muito depressa. E a vida é barulhenta e complicada”. Além disso, ou pior que isso, não sabemos necessariamente apreciar a vida.

Acreditamos que a sua real beleza e felicidade consiste em momentos grandiosos. Na verdade, todavia, os momentos mais divinos presentes na vida estão nos “raros momentos de distração”, nas suas pequenezas, nas felicidades silenciosas.

Questão de Tempo nos faz refletir sobre a perda do olhar contemplativo em relação à vida, já que sendo o tempo algo tão precioso e fugaz, deveríamos aproveitar o dia em todos os momentos. Em todos instantes deveríamos colher o que há de mais saboroso na vida, sem deixar para amanhã ou depois, pois a vida é agora e mesmo podendo voltar no tempo, há certas coisas que jamais voltam, porque até mesmo o sempre, sempre acaba, como cantou Renato Russo.

Além do mais, ninguém é capaz de controlar o tempo inteiramente, sempre permanecem caminhos ocultos e inacessíveis aos homens, até mesmo para Tim e sua família de homens viajantes no tempo, pois “A vida é o interminável ensaio de uma peça que nunca se realizará”, ela possui acasos e incompreensões para nós, de tal maneira que temos que estar prontos para viver a plenitude finita de vidas singulares. Prontos para entrar em cena, mesmo que as cortinas nunca se abram, porque nunca se sabe em que momento deixaremos o palco, uma vez que: “A vida é uma caixa de surpresas não importa quem você é”.

Talvez a vida como temos a impressão hoje não passe tão depressa. Talvez nós é que estamos perdidos, tentando chegar ao topo da montanha custe o que custar, sem ao menos olhar a nossa volta e perceber as belezas que nos cercam, não na grandiosidade do topo da montanha, e sim, nas pequenas alegrias que a jornada nos proporciona se soubermos olhar, de modo que percebamos que não é necessário chegar ao topo ou como Tim que não é necessário voltar no tempo – “Porque todos os detalhes da vida são maravilhosos”.

Assim, ao correr demais e nos preocuparmos exclusivamente com grandiosidades vazias, acredito que temos deixado de sentir o verdadeiro âmago da vida, o qual não está em um momento determinado, em um grande acontecimento ou evento. Está na capacidade de ser um viajante no tempo que jamais usa o seu poder, porque está vivendo cada dia da sua “extraordinária e simples vida” com a certeza de que cada minuto, detalhe e pequeneza, valeram à pena, pois se a vida passa em um piscar de olhos é melhor aproveitar essa abertura e guardar na janela da alma um quadro que faça sentir saudade dela.

Mesmo sabendo que nem tudo é maravilhoso, que “Alguns dias a gente só quer passar uma vez”, que “Ninguém pode te preparar para o amor e para o medo”, que “Nenhuma viagem no tempo pode fazer alguém amar você” e que muitas vezes dizer sim para o futuro é dizer não para quem amamos. A vida é breve e passa em “Questão de Tempo”, por isso ela requer coragem para que possamos enxergar o óbvio, porque como diz Tim:

“Todos estamos viajando no tempo juntos, todos os dias de nossa vida. Tudo o que podemos fazer é nosso melhor: é aproveitar esse passeio maravilhoso.”

É possível que eu volte atrás…

É possível que eu volte atrás…

É possível que todas as minhas certezas e determinações sejam frágeis e gasosas, embora tenha eu afirmado e confirmado que é o certo, o necessário, o melhor para a vida.

É possível também que eu não tenha resolvido as coisas com você ou comigo como deveria, deixando pensamentos magoados aparecerem vez por outra, permitindo uma série de divagações e senões, se tudo tivesse sido diferente.

É possível ainda que eu esteja aguardando que algo novo aconteça, que me surpreenda e me arrebate, que não demande meu único esforço e já chegue pronto para transformar minha vida.

Tem dias que a gente acorda com coragem transbordando, que a gente toma as famosas decisões do “para sempre” e “nunca mais” com potência nuclear, repetindo seguidamente todos os argumentos que reforçam a conclusão. Tamanha é a vontade de se proteger, de não mais errar, de bloquear e mandar para longe o que possa magoar ou decepcionar.

Somos assim, temos instinto de sobrevivência mas também temos e somos feitos de uma esperança emotiva, que nos apóia quando resolvemos dar aquele passo atrás e tentar sucesso mais uma vez, a despeito do histórico de fracassos.

O controle total e exclusivo das decisões nos coloca em posição ingrata, onde não há troca nem consentimentos. Saber o que é melhor para si é excelente, mas daí a sufocar um gesto espontâneo unicamente por prevenção, sei não…

É possível que os palpites errados sejam maioria, é possível ainda que tenhamos uma forte tendência para encontrar confusão, mas essa é a natureza das lutas, do aprendizado, do que por fim dá gosto e valoriza a boa conquista, a real satisfação.

É possível que, ao olhar para trás e buscar nova tentativa ou recomeço, enfim eu consiga enxergar que o melhor caminho é o futuro.

Tudo é possível!

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