Nós demos certo, sim, por um tempo, e agora outras coisas vão dar certo novamente.

Nós demos certo, sim, por um tempo, e agora outras coisas vão dar certo novamente.

Imagem: maxbelchenko/shutterstock

Talvez eu devesse sentir raiva, querer fugir da realidade em um copo de bebida, sair com os amigos e conhecer gente nova.

Talvez, para muitos, esteja agindo mal por de fato não parecer bem, afinal, em um mundo de tantos disfarces, é mais fácil fingir que a gente superou tudo e que estou “pronta para outra”.

Mas, sabe, quando nossa história teve fim, eu achei que não iria suportar a dor da saudade. Foram dias e dias pensando em você e adormecendo, enquanto revia alguma foto ou lembrança nossa.

Depois de um tempo, percebi que tudo aquilo estava me ferindo cada vez mais e que, embora tenhamos sido inteiros, foi mais saudável chegar ao fim. Nossa história foi bonita, confesso.

Impossível me esquecer da nossa cumplicidade, do nosso carinho, e é por isso que eu faço questão de guardar essas lembranças boas, não como saudade, mas como aquele sentimento bom de respeito por quem fez parte da minha história, de alguém que, por muito tempo, transbordou-me. Fui feliz.

Mas, hoje, você está aí e eu aqui. Você, cuidando dos seus sonhos, e eu dos meus. Mas eu sei, ainda torcemos um pelo outro, porque é isso que o amor nos ensinou: a felicidade do outro também é a nossa. E só eu sei o quanto cada coisa conquistada por você o tem feito feliz.

Alguns dizem que é impossível manter todo esse carinho depois de um término, mas eu digo que, talvez, essas falas sejam respaldadas por quem desconheçam verdadeiro amor.

Não consigo ignorar e simplesmente apagar da minha história alguém que fez parte dela de um jeito tão bonito. Não tem como esquecer os desejos um do outro e como você gosta de suco de laranja. O quanto você odeia dieta e como ama brigadeiro. O que podemos fazer é acomodar todo esse sentimento, sem que ele se torne raiva e sem que se torne uma angústia que nos consuma pouco a pouco.

Então, eu lhe desejo força para enfrentar qualquer tempestade que possa surgir e que você não desmorone quando tudo parecer ir mal. Eu desejo uma fé inabalável, na vida, nas pessoas e no amor; que os dias floresçam e você sempre consiga contemplar as belezas dessa vida.

Para pessoas como eu e você, sempre existe algo bom à espera. Eu sempre irei me lembrar de você quando for ao supermercado e vir o seu chocolate favorito – é uma saudade boa.

Que nós possamos ser uma lembrança boa um para o outro. Lembre-se da sua coragem e de que o seu sorriso é capaz de conquistar o mundo. Prometo me lembrar do quanto sou forte e de como o meu jeito é mesmo encantador.

Obrigada por me ensinar tantas coisas, obrigada por trilhar junto comigo até aqui. Eu só quero que saiba que eu não me arrependo de ter tido você comigo e, talvez, se eu não dissesse isso a você, eu me arrependeria.

A boa briga: Enfrentar os demônios do passado

A boa briga: Enfrentar os demônios do passado

Imagem: Antonio Guillem/shutterstock

Brigar por razão, por vaidade, por exibicionismo ou até mesmo maldade, ah, essa briga é tola!

Brigar por vontade de fazer justiça, para defender um afeto, garantir direitos e espaço, aí já começa a melhorar…

Mas, briga boa, aquela que se reza para não entrar, mas depois paga para não sair, é a briga urgente e necessária com os demônios do passado.

Os demônios que espreitam a vida, que sugerem a repetição de reações equivocadas, que fazem o tempo presente parecer inútil e o futuro, desanimador.

Há um demônio comum que mora no passado de quase todo mundo. Agressivo, asqueroso, implacável. Usa a culpa como arma, e a chama ao menor sinal de liberdade. A briga com esse é séria, mas vale muito a pena tentar.

Companheiro desse, um demônio sonso, que evoca despretensiosamente as terríveis sensações de insegurança sentidas em algum momento lá atrás, e que lá deveriam ter ficado. Mas ele sabe onde estão escondidas e as apresenta sem avisar, roubando-nos o chão. Com ele, funciona bem a indiferença.

Um menorzinho mas não menos perigoso, o demônio da chantagem infantil. Esse nasceu da oportunidade, daquela ocasião em que um apelo funcionou tão bem, que resolveu ficar para sempre. E, mesmo não sendo mais a versão original, usa e abusa das caras e bocas para conseguir o que deseja. Ainda que não tenha mais idade para isso. Discutir não adianta muito, é melhor mesmo colocar de castigo, para pensar.

O demônio da malcriação, aquele que não sabe ser contrariado, que bate pé e se joga no chão. Esse, agora mais velho, parte até para o surto quando não se sente confortável com as respostas que recebe. Esse merece uma boa bronca, além da lição de educação que lhe falta.

E tantos outros, vestidos e revestidos das mais variadas temáticas, que assombram e modificam nossas condutas, somente porque em algum momento do passado, foram acolhidos.

Somos nutridos por anjos e demônios, mas, e acima de todas as influências, somos o que queremos ser, e se não estamos nos sentindo donos da vida, o melhor é partir para a briga, conquistar o espaço e fazer as escolhas. O passado que fique com seus demônios. O presente que crie o ambiente para o que irá povoar o futuro.

Não ter razões para ficar é uma ótima razão para partir

Não ter razões para ficar é uma ótima razão para partir

Uma das decisões mais difíceis de todo ser humano é tomar a iniciativa de partir, ir embora, deixar para trás. Isso porque se acomodar ao que supostamente já faz parte de nossas vidas é mais fácil do que quebrar as correntes das ilusões que nos aprisionam numa redoma de falso conforto. Quando nada mais nos faz sorrir, é hora de partir.

Quando os dias se arrastam, as horas se eternizam, os segundos não chegam, fazendo com que ansiemos pela cama, pelas luzes apagadas e pelo silêncio que não machuca. Quando o ambiente se carrega de peso, dificultando o nosso respirar tranquilo, amedrontando os nossos passos, calando nossa voz e nossos sonhos. É hora de partir.

Quando o trabalho se torna mera repetição, em que nada se cria, nada motiva, nada alegra, forçando-nos sorrisos teatrais, palavras sem verdade, ausência de coleguismo. Quando nos sentimos menos, não nos valorizam, não nos pedem nada,tampouco nos enxergam, como se ali tivéssemos o mesmo valor de um móvel barato. É hora de partir.

Quando a amizade enfraquece, distancia-se, fria e cortante, sem volta, sem retorno, sem cumplicidade. Quando não se lembram de nos chamar, de nos ligar, de nos dizer um mero oi, enquanto somente nós nos esforçamos por encontros, conversas, risadas, em meio a mensagens não visualizadas, telefonemas não atendidos, convites sem resposta. É hora de partir.

Quando damos as mãos ao vento, quando olhamos nos olhos que se desviam, quando não nos sentimos gente ao lado de quem está ali por mera formalidade, como se fosse uma obrigação a convivência. Quando não há mais procura, nem escuta, tampouco diálogo; quando temos que implorar, gritar, caso tenhamos que obter um pingo – meio pingo – de atenção. Quando a reciprocidade ficou num passado distante, junto com a verdade. É hora de partir.

Ainda que suas mãos tremam, que seus olhos se inundam, que seu coração se quebre, que suas pernas pesem, que sua voz falhe, vá, saia de onde nada mais lhe roube sorrisos, de onde somente existe vazio e dor, solidão e mágoa. À medida que caminhamos em busca do que nos torna felizes de fato, tudo se vai ficando mais leve, mais calmo, mais lúcido. Porque ficar com medo jamais será capaz de nos trazer o prazer de ir ao encontro de uma felicidade possível, verdadeira, merecidamente nossa. Vá.

Imagem: Tinxi/shutterstock

Certas histórias têm que ficar no passado

Certas histórias têm que ficar no passado

Imagem: Dean Drobot/shutterstock

Pedro Ynterian, um cubano residente no Brasil e antigo líder estudantil em Cuba na década de 60, revelou ao programa Fantástico que em 1962 arquitetou um plano para matar Fidel Castro. Ao final da entrevista, questionado pela reportagem, ele disse: “certas histórias têm que ficar no passado”.

A afirmação me fez refletir. Pois apesar de travar uma batalha diária para focar no hoje e absorver com poesia o instante presente, tenho uma tendência à nostalgia.

Porém, algumas histórias não podem sobreviver. Têm que se despedir de nós do mesmo modo que o tempo.

Seja porque nos feriram, seja porque ferimos alguém, seja porque doeram, seja porque ainda doem… o fato é que nem toda história merece ser carregada ou guardada.

Há que se ter cuidado com as bagagens. Andar com mais suavidade levando apenas partes de nós mesmos que nos fazem bem. Despir-se de mágoas, ressentimentos, culpas e rancores. Carregar somente a parte da nossa história que pode ser curada. Perdoar e pedir perdão, zerar as dívidas com as sombriedades que carregamos e não se apegar a sentimentos que perderam o prazo de validade.

Algumas histórias têm que ficar no passado para que a gente encontre sentido e poesia no presente. Para que a memória não se sinta aprisionada num lugar de dúvidas e dor. Para que, ao dormir, os sonhos não sejam povoados por uma identidade que não nos define mais.

Nem tudo a gente deve carregar. Nem tudo merece espaço na nossa lembrança e afetividade. Alguns fatos, acontecimentos e até mesmo algumas pessoas devem ser esquecidos para que a vida encontre seu curso, trazendo as boas surpresas que só quem tem espaço na mala vai conseguir carregar…

Aceitar as pessoas como elas são não nos obriga a conviver com elas

Aceitar as pessoas como elas são não nos obriga a conviver com elas

Imagem: Evannovostro/shutterstock

A tolerância é uma necessidade urgente neste mundo violento de hoje, em que uma simples discussão no trânsito pode chegar a provocar mortes. A intolerância é a mãe do preconceito, da exclusão, do racismo, de tudo, enfim, que segrega, separa e agride o que não se aceita, o que não se acha normal, o que incomoda sem nem haver razão. Sim, é preciso tolerar e aceitar as pessoas como elas são, porém, conservando-nos o direito de nos afastar cordialmente de quem não nos agrada.

Podemos entender que o outro tem a própria maneira de pensar, que sua história de vida é peculiar e suas bagagens podem ser totalmente diferentes das nossas. Podemos compreender que as verdades alheias, por mais que nos soem ilógicas e absurdas, são do outro tão somente e não necessariamente nossas. Desde que não nos firam, as escolhas do outro não nos dizem respeito. Desde que o outro esteja feliz, sem pisar ninguém, não temos como tentar intervir em estilos de vida que não são nossos.

Devemos saber discordar sem ofender, sem tentar impor o que pensamos como verdade absoluta – isso é arrogância burra. Necessitamos ouvir o que o outro tem a dizer, por mais que não enxerguemos ali razão alguma, mesmo que o que disserem ou fizerem seja exatamente o contrário de tudo o que temos como certo. Desde que não nos ofendam, nem ultrapassem os limites de nossa dignidade pessoal, os outros terão o direito de viver o que bem quiserem.

Por força maior, como o emprego ou a família, inevitavelmente estaremos sujeitos à obrigação de conviver ao lado de pessoas com quem não simpatizamos ou cujas idéias não se afinem minimamente com as nossas. No entanto, sempre poderemos escolher quem ficará ao nosso lado nos momentos mais preciosos de nossa jornada, enquanto construímos nossa história de vida, de luta e de amor.

Da mesma forma, conseguiremos nos desviar de quem nos desagrada, afastando-nos das pessoas que nada nos acrescentam, sem precisar criticá-las ou brigar com elas. Sim, podemos – e devemos – aceitar as pessoas como elas são, pois isso é o mínimo que se requer, em se tratando de sociedade, porém, não seremos obrigados a conviver além do necessário, além do suportável, além do adequado, com gente que enche a paciência e nos irrita. Isso seria masoquismo.

O mal nunca vem disfarçado de mal

O mal nunca vem disfarçado de mal

Todos temos uma ideia de como pode ser uma pessoa má, de como nos prevenir e tomar distância de uma se por acaso surgir em nossa vida, mas nem sempre estamos preparados para identificar alguém que é mau, mas que não parece ser. Acredito que isso se dê pelo fato de ser muito difícil pensar o mal quando ele não faz parte efetiva do nosso cotidiano. Logo algumas possibilidades absurdas, mas possíveis, passam bem longe da nossa cabeça e, eventualmente, para nosso espanto, acabam se concretizando.

Acho que a historinha a seguir exemplifica bem o que estou dizendo:

“O escorpião aproximou-se do sapo que estava à beira do rio. Como não sabia nadar, pediu uma carona para chegar à outra margem. Desconfiado, o sapo respondeu: “Ora, escorpião, só se eu fosse tolo demais! Você é traiçoeiro, vai me picar, soltar o seu veneno e eu vou morrer.” Mesmo assim o escorpião insistiu, com o argumento lógico de que se picasse o sapo ambos morreriam. Com promessas de que poderia ficar tranquilo, o sapo cedeu, acomodou o escorpião em suas costas e começou a nadar. Ao fim da travessia, o escorpião cravou o seu ferrão mortal no sapo e saltou ileso em terra firme. Atingido pelo veneno e já começando a afundar, o sapo desesperado quis saber o porquê de tamanha crueldade. E o escorpião respondeu friamente: – Porque essa é a minha natureza!” (Trecho retirado do livro “Mentes Perigosas” da Psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva)

Então em um passe de mágica damos as chaves de nossas casas na mão da pessoa errada e muitas vezes somos nós a convidá-la a entrar em nossa vida, como uma vítima convida um vampiro que se coloca frente à sua porta. Tudo acontece muito rápido e em um piscar de olhos estamos mais enroscados que um inseto em uma grande teia de aranha.

Eu diria que para começo de conversa todos nós temos que ter clara em nossa mente a ideia de que nem todas as pessoas são iguais. Nem todos sentem empatia, amor ou entendem o que é respeito. Existem patologias mentais que distorcem a forma como alguns enxergam a realidade, mas uma delas, que não pode ser considerada uma patologia, mas uma disfunção do funcionamento cerebral, mais precisamente da ligação da amígdala cerebral com o córtex órbito-frontal, é devastadora. Esse mal funcionamento cerebral impede que pessoas sintam qualquer tipo de emoção, mesmo que pareça o contrário. Passamos a falar então de psicopatia.

Estima-se que 4% da população mundial sofra desse mal. Dessa falta de bom senso e consciência que pode deixar um rastro de tristeza e destruição na vida de pessoas normais, dotadas de amor e empatia como nós. Pessoas como eu e você, cientes do nosso papel moral dentro da sociedade, passíveis de erros, afinal não somos perfeitos, mas plenamente capazes de aprender com cada um deles.

Diferente do que muitos pensam a grande maioria dos psicopatas nunca cometerá um assassinato físico, mas muitos deles cometem golpes, fraudam, mentem, roubam, agridem e difamam pessoas próximas, sem remorso algum por isso. Dotados de uma mente extremamente racional e desprovidos de sentimentos, eles não se sentem mal por causar a ruína na vida alheia, pelo contrário, se sentem muito bem em ter alcançado suas metas, mesmo que para isso tenham passado sobre uma longa fila de inocentes.

Acho que o cinema se debruçou com maestria sobre a psicopatia, principalmente em seu grau mais severo, mas aqui me recordo de um filme singelo, o “Educação” de Lone Scherfig, que fala de David, um personagem que certamente poderia ser descrito no mundo real como psicopata e que muito pode ensinar a quem assiste ao filme com atenção.

Resumidamente o enredo fala de uma jovem, Jenny, que sem uma boa orientação familiar e bastante inocente, se apaixona por David, um homem mais velho que lhe apresenta um mundo diferente, repleto de glamour e luxo. Jenny se encanta com o que ela acredita ser a vida que sempre desejou, abandona então seus estudos e aposta em uma vida de ilusões. Os pais fazem vista grossa e aceitam o relacionamento da filha com esse gentil e encantador homem mais velho, sem fazer questionamentos ou procurar saber quem ele realmente é. Afinal, eles foram completamente envolvidos pelas mentiras encantadoras de David. Com o passar do tempo Jenny percebe que algo não está muito certo e encontra duras respostas acerca de quem ela pensava ser o homem de sua vida.

Quando assistirem ao filme “Educação” atentem para o fato de que em determinado momento, o sedutor David, entra na casa de uma velhinha e com muita lábia rouba um quadro de valor que estava na sala da mulher (sem que ela perceba). Ele menciona que a senhora não precisaria daquele precioso item. Ele faz o mesmo com Jenny, entra na casa de seus pais e a rouba de lá como fez com o quadro, sem que os mesmos se deem conta disso. Jenny e o quadro são tratados como posses que servirão, na cabeça dele, para um meio.

De acordo com as estimativas cruzaremos com ao menos quinze psicopatas durante a vida. Eles estão em todos os lugares, quase sempre ocupando posições de poder onde poderão exercer maior influência sobre as pessoas. Mestres do convencimento sempre conseguem inverter o jogo a favor deles, dizendo que a culpa pelas suas mazelas é dos outros. Fazendo suas vítimas pensarem ter culpa pelo que não fizeram e agirem diferente de como sempre agiram.

Comumente quando a máscara sentimental do psicopata cai e ele se revela em sua plenitude, já sem fazer uso de sua perspicaz sedução, muita gente se pergunta como as pessoas envolvidas por ele não perceberam o golpe, não viram que estavam sendo ludibriadas. A resposta para isso se justifica pelo fato de psicopatas serem ótimos atores e planejarem com minúcia seus passos, fazendo uso da boa-fé de pessoas solícitas e quase sempre de alma pura.

Saber da existência do mal é o primeiro passo para se prevenir. Ninguém está imune a ele em um mundo tão competitivo e cheio de valores deturpados como o nosso, mas eu diria que a intuição ainda é a nossa maior e melhor aliada na detecção de pessoas efetivamente más, mas que comumente se vestem com uma linda pelagem de cordeiro. A nossa intuição quase sempre, movida pelo que há de mais genuíno e sentimental em nós, nos alerta acerca da conduta errática do outro. Só cabe a nós dar ouvidos a ela com carinho, mesmo diante daquela vontadinha de subestimá-la frente ao que nos parece quase irresistível.

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Atribuição da imagem: pixabay.com – pexels – CC0 Public Domain

E a gente ainda pergunta por que o mundo vai mal.

E a gente ainda pergunta por que o mundo vai mal.

Imagem: Olya Steckel/shutterstock

Dia desses, eu quase presenciei um atropelamento. Um senhor atravessava a rua na faixa de pedestres, duas sacolinhas do mercado nas mãos, o farol recém-fechado para os veículos motorizados, e um motoqueiro avançou entre dois carros, ignorando o sinal vermelho. O velhinho, decerto um ninja aposentado, deu um passo rápido para trás num reflexo espetacular e só por isso a moto não o atingiu em cheio. Seguiu acelerando impune, para chegar mais cedo sabe Deus aonde.

O detalhe é que a moto não era do tipo popular, de preço acessível a todos. Era uma motocicleta de corrida, sabe? Dessas que o piloto conduz abaixado e que fazem um barulho ensurdecedor. E sobre ela não havia um entregador de comida. Havia um casal passeando a toda velocidade, nem aí para as leis do trânsito.

Outro dia alguém disse que o ser humano está em extinção e uma tropa de faladores ferozes se levantou para acusá-lo de catastrofista, vitimista, mimimista e outros insultos.

Mas será mesmo catastrofismo, vitimismo e mimimi observar o óbvio, que tem muita, mas muita gente jogando no ralo as melhores possibilidades da nossa espécie?

Será que um sujeito que assusta, fere, tortura e mata o outro sem compaixão já não extinguiu em si mesmo o mínimo de humanidade que lhe restava?

Será que o cinismo de um político que tira dinheiro dos serviços públicos, da saúde, da educação e da segurança só para manter os privilégios de seus pares não é um sinal de que em seu coração já não restam sequer migalhas de solidariedade humana?

Enquanto milhares de pessoas sofrem de fome, doença e ignorância, um chefe de estado se ocupa de abastecer com comida cara seu gabinete e seu avião. Deputados e senadores assoviam, fazem cara de paisagem e empurram com barrigas enormes os projetos de reforma política que, se conduzidos da maneira certa, demolirão uma montanha de mamatas, reduzirão o número de deputados e senadores por estado e economizarão bilhões de reais por ano, dinheiro que bem gerido pode tirar tanta gente da rua, do crime, da miséria, do desespero.

Mas não. Eles preferem “corrigir” os próprios salários com argumentos técnicos rasteiríssimos, como acompanhar as variações da inflação, a mesma inflação que obriga milhões de pessoas a escolher se a sua única refeição diária vai ser no almoço ou no jantar.

Será mesmo que essa indiferença não quer dizer nem de longe que os seres humanos estão acabando uns com os outros aos pouquinhos?

Você já viu estatísticas medonhas dando conta de absurdos como o fato de que 1% dos homens mais ricos do planeta detém coisa de 40% do patrimônio mundial? Pesquise por aí! As três pessoas físicas com o maior saldo bancário da Terra têm um patrimônio superior ao das 48 nações mais pobres do mundo somadas!

E será mesmo que essas três pessoas especiais, assim como os milhares e milhares de bilionários com fortunas menores, mas que ainda assim ajudariam países inteiros a viver melhor, será que eles estão só um pouquinho assim preocupados com as consequências da desigualdade e da concentração de renda?

Entre essas consequências, é claro que não falta gente achando que destruir o outro é o único jeito de sobreviver.
Ao mesmo tempo, sobram teorias vagabundas de tão superficiais, generalizando covardemente ao afirmar que toda pessoa pobre só é pobre por culpa dela. Porque não se esforçou como devia, não levantou mais cedo para trabalhar.

Que mentira! É claro que por aí tem gente que não quer nada com nada, em todas as classes sociais. Mas há também uma multidão de operários, agentes da limpeza pública, trabalhadores braçais, pedreiros, pintores, empregadas domésticas, eletricistas, motoristas de ônibus e tantos outros profissionais que a vida inteira levantaram cedo, a vida inteira se esforçaram como deviam, sim, porque afinal alguém precisa fazer esse trabalho, e ainda assim sempre serão pobres. Honestos, trabalhadores, cumpridores de suas obrigações. Mas pobres! Muitos deles esperando ganhar na loteria para serem ricos.
Muitos deles engolidos pela ignorância absoluta e a incapacidade de pensar. Porque, você sabe, para os que concentram dinheiro e poder não é interessante que aqueles que não têm nem um nem outro sejam educados, esclarecidos, cidadãos no franco exercício de sua inteligência.

É mais útil que sejam muito pobres para outros serem muito ricos. É melhor que se reduzam à sua insignificância eterna, disfarçada de um protagonismo falso só de dois em dois anos, às vésperas das eleições.

Ao mesmo tempo, a cada nova eleição, a gente sonha que tudo vai melhorar, que a reforma política vai fazer sobrar dinheiro para mudar a vida de todo mundo. A gente acredita que enfim vai ter casa, carro do ano, viagem pra fora. Como se isso fosse condição indispensável de felicidade e, sobretudo como se isso fosse cair do céu.

Aí as eleições passam, nada muda, a gente se frustra, se magoa e volta com mais força ainda a odiar uns aos outros. E a se ferir, a se matar, a se atropelar na faixa de pedestres.

Não será tudo isso um sinal da progressiva extinção dos valores que deveriam compor o ser humano?

Em algum momento a gente acreditou que os pouquíssimos políticos honestos que realmente existem serão capazes de fazer uma transformação que deve, necessariamente, começar aqui dentro de cada um de nós. Pensando, reformulando, superando perdas, descartando o que não serve mais, abrindo espaço para o novo. E talvez deixando de acreditar nessa balela segundo a qual é preciso ter mais dinheiro do que o outro para ter o mínimo de felicidade.

Eu não quero muito, não. Mas o pouquinho que me interessa eu quero de verdade. Eu quero bem.

Sei lá. Eu só acho que tem muita gente querendo tudo e pouca gente querendo bem. Poucas pessoas querendo bem umas às outras.

E a gente ainda se pergunta por que o mundo vai mal. E se é mesmo verdade que o ser humano anda fazendo de tudo pela extinção da sua espécie. A gente ainda se pergunta por quê.

Passei a ser seletivo por amor próprio

Passei a ser seletivo por amor próprio

Imagem de capa: everst, Shutterstock

Chega um certo tempo na vida que, ou você permite o mundo ditar regras ou abraça o melhor de si e segue em frente. Porque não dá para agradar ninguém a todo momento. Mas em compensação, isso não significa que deva ser menos para quem desconhece o significado de ser mais.

A primeira coisa que passa na cabeça dos outros é que o problema está com você e que não está enxergando o lado positivo e bonito da vida. Lamento, mas não é assim que funciona. O fato de estar em desacordo com o assunto que for não lhe torna alguém insensível. Pelo contrário, saber identificar pessoas, situações e simples futilidades que venham a incomodar, nada mais é do que amor próprio. É respeito pela pessoa mais importante que conhece, você. E antes dos julgamentos e acusações de egoísmos pense, é verdade. Bom, no que diz respeito ao egoísmo, por que não?

Amor próprio é um indício de egoísmo, mas passa distante da gravidade proposta. Isso acontece porque para você alcançar algum resquício de felicidade e tranquilidade para si, infelizmente – para os mesmos que julgam previamente, você precisa estar disposto a conhecer-se. Precisa ter consciência das coisas que já não te enchem os olhos. Precisa e deve escolher, sobre quem fica e quem vai embora da sua vida.

Ainda parece ser um desconhecimento ou descontentamento, mas antes do amor sair vagando liberdade, afeto e proximidades, ele reside primeiro em cada um. É disso que se trata ser seletivo. Não é um estado momentâneo que acorda do seu lado, mas um aprendizado contínuo e reconhecível por todos os gestos, pensamentos e sentimentos que nutre.

Deixe que apontem, invejem e diminuam a sua leveza, o seu despertar. Para alguns, amor próprio é algo que você toma somente quando está para baixo. Para outros, o ser seletivo não passa de um alguém entupido de chatices. Siga sorrindo, não por maldade, mas porque sabe o que realmente lhe faz bem. E nunca bastou nada além disso.

“Nós aceitamos o amor que achamos que merecemos”

“Nós aceitamos o amor que achamos que merecemos”

“Nós aceitamos o amor que achamos que merecemos”. A frase famosa dita no filme “As Vantagens de Ser Invisível” nos faz refletir sobre o porquê de nos submetermos muitas vezes a determinados tipos de relacionamento, os quais em pouco ou quase nada nos agregam, quando não retiram o que possuímos de bom ou como é dito no próprio filme – nos tratam como nada.

O medo da solidão pode ser uma boa resposta para que aceitemos nos subjugar a relacionamentos que não permitem que o nosso melhor venha à tona. Ficar sozinho é um problema para a maior parte de nós, de modo que estar com alguém para simplesmente não ter que ficar só e lidar com certos monstros, acaba sendo uma opção seguida por muitos.

O comodismo também pode ser determinante no “mergulho” em relacionamentos rasos. Não raras vezes, preferimos estar em um relacionamento, mesmo que seja ruim e nos deixe péssimos, por preguiça de arregaçar as mangas e correr atrás de algo que realmente valha a pena e seja transformador de alguma maneira.

Há, ainda, a falta de coragem que faz com que se tenha medo de arriscar, de sair da zona de conforto, de buscar outros lugares, outras pessoas, outras experiências. O medo de falhar novamente, de se magoar de novo, de só encontrar pessoas completamente iguais às que se afastou.

O resultado desses sentimentos e dessas fobias é a insegurança e a total autodepreciação, o que implica o apequenamento do indivíduo por ele mesmo, como se não merecesse mais do que possui ou como se não fosse capaz de ter alguém ao seu lado que o faça se sentir infinito.

Por isso, aceitamos tão pouco em nossos relacionamentos, já que ao se tornar menor, acabamos nos contentando com migalhas, deixando a alma faminta e, por conseguinte, desnutrida. Assim, pouco importa se você está em um relacionamento, o sentimento de vazio será ainda maior, uma vez que ele sequer é capaz de fazê-lo sentir o que há de mais vivo na sua interioridade – e algo fundamental em qualquer relação é permitir que as potencialidades e belezas do outro sejam afloradas – de tal maneira que se o relacionamento não consegue ser um agente criativo, torna-se um contrassenso permanecer nele.

Entretanto, nós permanecemos e nos autodepreciamos ainda mais, tornamo-nos ainda menores e mais subjugados a uma relação escravizadora, uma solidão compartilhada, que nos mata a cada dia por ser incapaz de oferecer algo vivo.

É preciso olhar para dentro de si e perceber o que existe de belo e oferecer apenas a quem esteja disposto a, como diria o velho Bukowski, “aguentar a sobrecarga psíquica”, já que se relacionar com alguém de verdade é estar disposto a aguentar tudo que uma alma traz, todas as lágrimas que serão derramadas, todos sorrisos singelos, todas alegrias mais simplórias; bem como, ser alguém que sempre vai lembrar ao outro quão grande e belo ele é.

Toda vez que aceitamos algo menor do que isso, aceitamos o amor que achamos que merecemos e ao contrário do se busca, retroalimenta-se a tristeza, a solidão e a finitude, posto que, como disse, se alguém não é capaz de explorar o seu melhor, ele jamais vai fazê-lo sentir-se amado e grande, porque isso só ocorre quando estamos em uma relação que toca a nossa alma em sua completude, fazendo-nos merecedor de sentimentos profundos, que nos afaste qualquer ideia de que não somos nada e, portanto, faça-nos maiores e infinitos.

O que eu chamo de amor

O que eu chamo de amor

Imagem:  Alexandra Lande/shutterstock

É preciso que tu entendas que o que eu chamo de amor é a anestesia que percorre minhas dores a cada vez que elas encontram descanso no teu peito.

O que eu chamo de amor é o desejo constante de que toda beleza que eu for capaz de encontrar nesse mundo tenha teu par de olhos castanhos como testemunha.

O que eu chamo de amor é o cuidado espontâneo com as tuas feridas; é quando, por ser capaz de sentir no meu próprio peito aquilo que machuca o teu, empresto o que em mim for esperança, para, de mãos dadas, driblarmos a dureza dos caminhos.

O que eu chamo de amor é a saudade que minha pele grita da tua quando tudo que a abraça é a distância; é urgência pelo único beijo que sacia, pois tem gosto de lar.

O que chamo de amor é a coragem extra para enfrentar meus monstros que advém da certeza de que, ao final do dia, sonharemos sob a mesma cama.

O que eu espero do amor é reciprocidade.

Das nossas batalhas, perdas e ganhos, sabemos nós, e mais ninguém.

Das nossas batalhas, perdas e ganhos, sabemos nós, e mais ninguém.

Como seria magnífico se tivéssemos, acerca do tratamento de nossos próprios dilemas, a mesma desenvoltura que temos com relação aos dilemas alheios.

As histórias vividas pelo outro parecem sempre menos desafiadoras do que as nossas. Temos sempre a impressão de que a sorte dos vizinhos, dos colegas, dos familiares, do pessoal que aparece na revista, nas fotos pelo mudo postadas nas redes sociais, é sem nenhuma sombra de dúvida mais brilhante do que a nossa.

A questão é que a gente vê um episódio ou outro e acha que tem recursos para interpretar toda a temporada. Ora, ora… isso é, para dizer o mínimo, uma tremenda sacanagem.

Basta que a gente faça um exercício breve ao contrário. Pense em quantas vezes você deu um duro danado para conquistar coisas, que foram avaliadas por pessoas que mal o conhecem como um golpe de sorte ou “super valorização” (hehehehe) – acontece até com a Meryl Streep, não vai acontecer com você, por quê?! Pense em quantas vezes você foi silenciosamente forte diante de situações impensáveis, que foram julgadas como corriqueiras pelos demais.

Nem é preciso fazer muito esforço, não é mesmo? Das nossas batalhas, perdas, ganhos, períodos de secas ou enchentes, sabemos nós, e mais ninguém.

E ainda que sejamos aquele tipo de pessoa que é “pau pra toda obra” e que se possa contar a qualquer momento, seja de vitória, derrota ou tédio… ainda assim, o que podemos ofertar é a nossa mão, nosso ombro, algum recurso material ou amoroso. E é só!

E não, eu não acho que isso seja pouco. É muito, até! Principalmente se levarmos em conta que cada um vive a própria vida, na maior parte das vezes, e pouco se mexe para socorrer os aflitos ou desvalidos.

O fato é que esse “muito”, essa tão bem-vinda ajuda, suporte ou apoio, são externas ao sofrimento. A gente pode se alinhar à dor do outro, a gente pode – e deve -, exercitar a empatia. Mas a gente NUNCA vai saber exatamente a dimensão do estrago.

Sendo assim, antes de sair por aí tecendo, em pensamentos ou palavras, verdadeiras análises dos tropeços, enganos, deslizes, acertos e conquistas dos nossos companheiros, próximos ou nem tanto, contemos até mil.

Ninguém é capaz de entender todo um livro, baseado na leitura de alguns capítulos. Sobretudo se essa tal leitura for feita assim “por alto”, não é mesmo?!

Imagem meramente ilustrativa: cena do filme Carol, 2015.

Ensaio sobre ela

Ensaio sobre ela

Imagem de capa: Versta, Shutterstock

Eu me pergunto, o que é que eu fiz para merecer alguém como ela? Ainda há dias em que acordo ao seu lado e questiono se aquele instante é fruto da minha imaginação ou se é consequência da nossa entrega. Apenas sei que quando ela abre qualquer sorriso de manhã, o tempo torna-se cúmplice desse amor tranquilo. Nunca acreditei em destino, mas encontrá-la não foi por acaso.

Ela não veio para construir o que já foi feito. Ela veio para ser o melhor de mim em quatro mãos. Para deitar no meu peito por vontade própria e carinho dado, e não por proteção ou imposição. Ela sente sono em qualquer filme e não vê problema algum nisso. Ela salta os olhos para o novo do mesmo jeito que para o gasto. Para ela, não há diferença quando se trata de demonstrar afeto pelo que gosta. Ela ainda fica emocionada com o breve, mas deixa nascer uma cachoeira quando você cita o futuro.

Ela é saudade sem até logo marcado. Quero-a por perto para poder vê-la indo para onde quiser. O mundo é grande demais para ela ficar enclausurada num único fim de tarde. Ela é dessas almas que carregam um universo de emoções, disponíveis apenas para os interessados e interessantes. E ela canta porque transborda. Ela é muitas histórias em uma só. Ela é uma só em muitos versos.

Ela é sonho. Sonho daqueles que a gente sonha junto porque não quer mais perseguir separado. Ela é gratidão em domingos ensolarados, onde perdemos a noção dos carinhos e talvez incomodemos os vizinhos. Ela é fogo que incendeia e há de ser.

Eu ainda me pergunto o que é que eu fiz para merecer alguém como ela, verdade. O importante é que agora sou feliz de novo. Nem a vi chegar, mas que bom que ela aqui está. De resto, fica o amor.

Pessoas livres não enclausuram outras pessoas

Pessoas livres não enclausuram outras pessoas

Imagem: Jacob Lund/shutterstock

Pessoas livres têm uma perspectiva interessante do mundo e das relações. Não cultivam o medo dos rompimentos, não constroem armadilhas para prender outras pessoas.

Pessoas livres enxergam beleza na fragilidade dos encontros, se fortalecem de momentos felizes, vivenciam as fases difíceis e comemoram intensamente as superações e progressos.

Não alimentam neuroses, não sentam ao lado de paranoias, não dão conversa para os pensamentos possessivos. Sabem que nada nem ninguém lhes pertence e jamais pertencerão. Pessoas livres convivem com idas e vindas sem grandes dores. No máximo, saudades e recordações, até mesmo as tristes e doloridas.

Ninguém jamais será aprisionado por uma pessoa livre! Ainda que possa parecer desamor, uma pessoa livre não concebe a prisão como forma de vida. E tanta gente se querendo aprisionar, obedecer, se submeter… Uma ordem não natural das coisas que a gente acaba se acostumando, e as pessoas livres transgridem, ainda bem.

Da mesma forma, nunca será possível encarcerar uma pessoa livre. As mais fabulosas e criativas maneiras terminarão em fracasso e frustração. A pior das notícias para os dominadores de plantão.

Ser livre é estado de espírito. Estar livre é momento sublime. Quando nada prende, a gente sabe exatamente onde e com quem quer estar. Pessoas livres nos mostram o caminho, mas quase sempre preferimos as correntes e os segredos dos cadeados. E damos passos tão curtos quanto pequena é a corda que nos aprisiona.

Se o mundo é dos que não se acovardam, a liberdade é para os que enfrentam o que vida lhes oferece. Aceites, recusas, êxitos, fracassos, amores intensos, infidelidades, mentiras, verdades… Liberdade é conviver com tudo o que faz parte da vida sem negociar o direito de viver plena e pessoalmente.

Não há proteção nem conforto, tampouco promessas e esperanças, que paguem o preço de uma liberdade. Pessoas livres sabem disso e aprendem bem cedo que, mais valem passos errantes no mundo, do que uma bola de ferro nos tornozelos.

Quando os pais atrapalham os filhos

Quando os pais atrapalham os filhos

Imagem: Breslavtsev Oleg/shutterstock

A menina tem 13 anos e o menino 15. Estão sempre juntos, na companhia dos amigos, dos pais, dos responsáveis, do grupo de jovens da igreja.

Mal se tocam, nem pegam na mão, mas todo mundo sabe que ali se formou uma duplinha inseparável. Riem ao mesmo tempo. Ficam vermelhos ao mesmo tempo. Acham graça de tudo. Dançam sem se tocar.

Não se importam de andar sempre em grupos de amigos ou de parentes. No meio da festa, de repente, ambos se voltam para o celular, para uma plataforma digital qualquer, e silenciam. Pare o mundo que eles estão jogando. A prioridade é o jogo. Jogos de ação, tiros, fugas, explosões cinematográficas. Abstraídos da realidade voltam a ser crianças ganhando, perdendo, esboçando reações de alegria, de raiva, de medo ,buscando resultados e placares que só a cada um deles interessa.

São namorados ou são amigos? São os dois.
São jovens ou são crianças? São os dois.
É amor ou é paquera? É amor e é paquera.
Uma fase que veio para NÃO ficar. Uma experiência sazonal, dessas que não deixam marcas.

Um dia, acaba: deixam de se ver. No outro, mal se cumprimentam. E mais um outro, são capazes de jurar que nem se conhecem. Trocam de igreja, são transferidos de colégio, mudam de cidade. Acaba.

Poderia ser diferente? Poderia!

Poderia ser o principio de um namoro adulto, de um noivado adulto, de um casamento adulto, que fosse eterno enquanto durasse, ou até para sempre, desde que a relação ganhasse estabilidade e contornos de uma realidade estável e planejada.

Aos poucos e sempre, um passo de cada vez. E por que não ganha? Por falta de interesses comuns? Nem sempre!

Muitas vezes o que falta é o crédito dos adultos. Sem o crédito emprestado, o jovem casal recém formado não tem estrutura emocional para vencer as fases da vida.

Quando se conheceram, a menina acreditava no menino, e o menino acreditava na menina. Ambos acreditavam em si e nem sabiam que estavam em construção. Ele se viam prontos, porque se correspondiam, porque estavam ombreados, no mesmo estágio.

Ela o via como sempre viu: um menino divertido. Não percebia as pernas finas, a voz que ora falava grosso, ora falava fino, o rosto imberbe, o corpo desengonçado.

O menino não reparava que ela era a gordinha da sala, que tinha espinhas no rosto, e uma barriguinha que se insinuava sob a camiseta baby look.

Ele olhava para ela e a via como amenina mais legal da terra.Ela olhava para ele e o via como um porto seguro, um cara que a defenderia em qualquer circunstância, e se fosse preciso, partiria para a porrada.

Até que chega a irmã mais velha, o irmão mais velho, a mãe, a prima, o primo, ou qualquer pessoa da família, e aponta o primeiro defeito. Depois outro, e outro, e mais outro, quase todos relativos à aparência física, ou à forma de se portar. A sabotagem começa.

Nessa idade, os relacionamentos se desfazem por nada. Por um tênis. Por uma botina. Por um jeito de dançar. Por um jeito de sentar sem jeito. Por uma postura relaxada. Por comer com muita fome. Por não comer. Por falar que tem preguiça de estudar. Por não falar nada.

Os pais não têm paciência para cozinhar em banho-maria uma nora ou um genro em construção. As famílias não percebem que todo edifício começa com um alicerce e se constrói tijolinho a tijolinho. Querem ver o edifício pronto da noite para o dia. E desse jeito, sob uma montanha de censuras veladas ou declaradas, um jovem de boa família, e uma jovem de boa família, se perdem por culpa das respectivas famílias: o envolvimento acaba.

Anos depois aquele jovem desabrochou, atingiu a maturidade, virou um profissional competente, ganhou músculos e nervos de aço, aprendeu a sentar, a falar, a conduzir-se na vida. Está noivo, vai se casar. A noiva lembra um pouco o amor da sua adolescência. Que ele nunca mais viu.

Aquela jovem ganhou altura, emagreceu, as espinhas sumiram, o corpo ganhou contornos de feminilidade, o trabalho fez dela uma mulher segura que não precisa de um protetor, mas oh mundo cruel, ela ainda precisa de um homem para chamar de seu, e não consegue vislumbrar nenhum no seu horizonte de executiva.

Os homens sumiram. Os que ficaram, querem só FICAR.

Sem querer parecer dramática, mas já colocando na vitrola o Luciano Paravarotti cantando O Sole Mio – e você que me aguente -, quero encerrar dizendo isto:

Pais não atrapalhem a vida dos seus filhos .Deixem que eles decidam por si o que lhes for melhor, no momento da decisão.

Se o amor acabar no meio do caminho, eles saberão. Se o amor se fortalecer no meio do caminho, eles também saberão. Mas se vocês atrapalharem, no início do caminho, eles nunca saberão.

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