Eleita pela Forbes como executiva do ano em seu país, chinesa não tira férias há 27 anos

Eleita pela Forbes como executiva do ano em seu país, chinesa não tira férias há 27 anos

Imagem capa: Gree

Nunca se falou tanto sobre o equilíbrio entre vida pessoal e trabalho. Cada vez mais pessoas têm se dado conta de que seus trabalhos das 08h às 18h não fazem sentido. Alguns, como eu, migraram para o home office. Mas, a verdade é que, infelizmente, poucos trabalhadores têm essa opção. E é óbvio que trabalhar em casa, como qualquer outra coisa, tem seus prós e contras. Não é fácil. Pelo contrário! Porém, a melhora na qualidade de vida compensa. E muito. Mas isso é assunto pra um próximo texto.

Sou um cara que adora ler biografias e histórias de gente que começou do nada e teve sucesso na vida. São inspiradoras. Muitas vezes nos dizem o óbvio, mas nos impulsionam a ir além. É comum ler depoimentos desses homens e mulheres sobre sacrifícios que tiveram que fazer no início de suas carreiras. Até aí tudo bem. Não existe sucesso sem trabalho duro. Eu mesmo, em 2016, sacrifiquei várias horas livres não-remuneradas para escrever artigos. A recompensa veio no final do último ano, quando fui eleito o terceiro brasileiro mais influente do LinkedIn pela própria rede profissional.

Hoje, meu trabalho é escrever. Porém, não tenho mais a necessidade de sacrificar horas livres. Como freelancer, não tenho chefe e faço meus horários. Para evitar a procrastinação e ter melhores resultados, criei um expediente e escolhi trabalhar das 09h às 18h. Inclusive, deixo isso bem claro para meus clientes. Não adianta me mandar mensagem no WhatsApp depois das 18h ou nos finais de semana que não vou te responder (e isso também é tema pra outro texto). Eu poderia ganhar muito mais dinheiro se aumentasse minha carga de trabalho para 12h diárias, por exemplo, ou se desse palestras em outras cidades e estados. Teria mais clientes, escreveria mais e, consequentemente, seria mais bem sucedido.

Mas, o que é ser bem sucedido?

Pra mim é, justamente, equilibrar vida pessoal e trabalho. Hoje não tenho um super salário, mas tenho equilíbrio. Não faço horas extras, não trabalho nos finais de semana e posso passar mais tempo com minha esposa, minha família e meus amigos. E tô feliz pra carvalho assim.

Para a Forbes, aparentemente, ser bem sucedido é outra coisa

No início do mês a Forbes da China divulgou seu ranking anual com as 100 mulheres que mais se destacaram nos negócios no país asiático. A executiva Dong Mingzhu ficou em primeiro lugar. Ela é presidente da Gree Electric Appliances, a maior fabricante de ar condicionado chinesa, cujo valor de mercado é de aproximadamente US$ 22 bilhões.

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Mingzhu, de 62 anos, de acordo com uma reportagem recente da Quartz, está à frente da organização desde 2001, onde lidera mais de 70 mil pessoas. A chinesa que ingressou na empresa como vendedora no início dos anos 1990 viu a Gree, sob seu comando, se tornar uma gigante em seu segmento — 2 de cada 3 aparelhos de ar condicionado vendidos na China são produzidos por eles.

Inspirador, concorda? Começar de baixo e chegar até a presidência da empresa, sendo responsável direta por seu crescimento avassalador. Eu realmente adoro esse tipo de história. Palmas para a querida Dong!

Ela deve, no entanto, ter sacrificado algumas coisas para chegar até lá, né?

27 anos sem férias

27 anos. Essa é minha idade. E em 2017 também será o tempo desde o último dia livre de Dong Mingzhu. A executiva não pega férias ou mesmo tira um dia de folga desde quando começou a trabalhar na Gree.

Nessas quase três décadas (caraca, também tô com quase 30 anos) ela sacrificou algumas coisas. Mingzhu é viúva desde 1984. Seu filho tinha oito anos quando ela ingressou na Gree. O menino foi morar com a avó e, desde então, ela deixou de ir em todos seus eventos escolares. Incluindo formaturas. Há alguns anos o garoto, hoje adulto, se formou na faculdade. Ela não estava lá. Tinha uma reunião que parecia ser mais importante.

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“Para fazer do mundo um lugar melhor, um número pequeno de pessoas precisa fazer sacrifícios”. Dong Mingzhu em entrevista, acrescentando que teve que sacrificar sua vida pessoal, o convívio com os amigos e com sua família. Você concorda com ela? Até que ponto esses sacrifícios são saudáveis?

Sem alternativa

Sem alternativa“. Essa é a resposta que Mingzhu costuma dar em entrevistas quando é questionada sobre seu estilo de vida workaholic. Para ela, “não há alternativa a não ser continuar na Gree por toda a vida”. Pô, Dong! Como não, cara? Você cheia da grana! Vamos sair dessa zona de conforto e curtir um pouco a vida?

A chinesa costuma dizer, ainda, que “terá muito tempo para descansar quando se aposentar” — torço por isso, Dong, afinal, nem preciso mencionar os problemas de saúde causados por excesso de trabalho, né?

Um funcionário da Gree afirmou ao Telegraph, em 2009, que “Ela passou por tudo isso sozinha. Nunca ousamos dizer que algo é impossível na frente dela. Todos nós temos que ter vontade de ter sucesso“. O discurso é bonito, mas pense comigo. Que alternativa seus 70 mil funcionários tem a não ser seguir seus passos como workaholics? O resultado do estilo de vida de Mingzhu certamente afeta todos seus subordinados e suas vidas pessoais.

Imagine que você vai morrer essa noite

Não tenho amigos porque não posso ter amigos“. Essa frase, presente em sua autobiografia lançada em 2006, mostra o vazio que parece ser a vida de Dong Mingzhu. Imagine que você vai morrer essa noite. Os anos em que você esteve na Terra valeram a pena? Sua vida valeu a pena ser vivida? Com quem você gostaria de passar suas últimas horas? O que você gostaria de fazer?

A morte é a única certeza que temos na vida. E ela também pode ser um grande motivador.

Como assim?

Pessoas como Dong parecem viver a vida no automático. Trabalhando como loucos, gerando riqueza material e colocando o dinheiro à frente de tudo e de todos com a desculpa de que terão muito tempo para descansar quando se aposentarem. A questão é: e se esse dia não chegar? E se você trabalhar tanto ao ponto de morrer por causa de um ataque cardíaco? Se o estresse causado pelo trabalho lhe deixar sequelas ou mesmo afastar de você as pessoas que ama?

A executiva chinesa do texto pode ter muito mais dinheiro que eu e ser capa da Forbes, mas sou muito mais rico e bem sucedido que ela. E por rico não falo de grana, claro.

PS1: Evidentemente, a tal da Dong Mingzhu pode fazer o que quiser da vida dela que eu não tenho nada a ver com isso. Meu ponto com o texto é questionar esse modelo de sucesso profissional à todo custo.

PS2: Hoje vou tirar a tarde de folga.

PS3: E é exatamente isso que tô afim de fazer, jogar um pouco de PS3.

PS4: Tenho outras prioridades no momento, tô feliz com o meu PS3.

PS5: Quando será que sai, hein, Sony?

Try a little tenderness

Try a little tenderness

Imagem de capa: Memory Stockphoto/shutterstock

“Ooh she may be weary
And them girls they do get weary
Wearing that same old shaggy dress
But when they get weary
[You gotta] try a little tenderness”

Sento solitária no chão frio da sala, a chuva cai la fora, a noite escura assola e reflito em tudo que eu deveria ter sido e não fui, deveria ter sido menos isso, mais aquilo. E perco tempo de vida precioso divagando sobre erros e passado, sobre a necessidade de me transformar em alguém que não sou, nem nunca fui, nem nunca serei.

Enquanto tempo e lágrimas escorrem incansáveis, faço uma pausa, respiro fundo e me acalmo: sou o que sou, o que deu para ser, fui o que tinha que ter sido. E se fui inteira, então fui meu melhor, mesmo que isso não baste aos outros. Além disso, nada que eu fale ou faça agora pode mudar o que já está feito.

Se perco energia pensando em tudo que poderia ter sido diferente, esqueço-me de viver e celebrar tudo aquilo que de fato foi.

E finalmente me dou conta do quanto sofremos, projetamos, fantasiamos enquanto deixamos de ficar com o que se apresenta para nós, com o que é, com o que somos, com tudo que nos trouxe até aqui. Naquele momento eu estava assim. Nem sempre fui meu melhor, mas certamente o melhor que consegui ser com os recursos que tinha.

O passado nos torna escravos, nossas feridas ferem também os outros, nossos medos nos paralisam, o que fomos, o que sofremos, o que sangramos muitas vezes nos impede de enxergar a beleza do novo que se apresenta diante de nós.

Desconfiados exigimos provas e certezas, queremos controle e garantias. Sem notar, perdemos boas oportunidades de felicidade, analisando-as, comparando-as com o que já vivemos, fantasiando com o que queremos que elas sejam. A dor me recorda que nunca tive nem terei controle de nada, que para ser inteira preciso correr o risco de me machucar. E as lágrimas que insistem em  cair me trazem esta única certeza e me convidam a estar presente.

Enquanto me condeno pelas escolhas que fiz, que me trouxeram até aqui, a sensação de que muitas vezes a vida segue repetidas vezes em um “loop” infinito, como um disco de vinil riscado, a letra de um antigo clássico me conforta.

Try a little tenderness.

Deixe ir. Viva o presente, com os recursos que você tem agora, abra-se para o novo, entenda que o novo nunca é igual ao que foi. Os erros não se repetem, são diferentes, com vivências diferentes que me trazem novos aprendizados.

Tente.

Com os meus processos na vida, com os processos dos outros. Para todas as falhas que foram e as que ainda estão por vir, só um pouco de ternura.

Tente.

Para os fim das linhas, os atalhos e encruzilhadas. Os caminhos tortos que percorremos. Para o cansaço e lágrimas. Para os novos começos.

Tente.

O caminho só se faz ao caminhar.

Então enxugo as lágrimas, me acalmo e decido tentar, só por hoje, só um pouco, de conforto, de afeto e ternura.

Try a litte tenderness

Se fazer presente dispensa presentes

Se fazer presente dispensa presentes

Imagem: Pindyurin Vasily/shutterstock

Receber uma ligação, uma mensagem, uma surpresa, de forma inesperada, impensada, inusitada. Alguém se fazendo presente, batendo na porta da nossa vida, trazendo a notícia de uma saudade carinhosa e com pressa de ser resolvida.

Eis aí um enorme presente. Uma lembrança declarada, espontânea, destemida, pronta para ser compartilhada.

A lista de afetos é enorme, o tempo é curto, a vida é louca. Mas a saudade ignora tudo isso e aperta quando já não cabe mais na casinha onde vive. E cada um sabe o quanto expande e encolhe a sua saudade.

Tem saudade diária, que quer só cumprimentar, para se fazer presente. Tem saudade que aguenta um pouco mais, que se esconde por trás da rotina e deixa a semana toda passar, porque não sabe como se infiltrar.

Tem saudade que só desperta de vez em quando, que vive mais adormecida, mas ainda assim é saudade. Tem a saudade de uma vida, que vive escondida, na forma daquele aperto no peito, sem coragem de sair.

E saudade não se resolve com presentes. Saudade só se acalma com presença.

Se fazer presente é demonstração de amor, de amizade, companheirismo, sintonia. O tempo não colabora, mas também não pode ser responsabilizado. Presença se demonstra de muitas maneiras.

Em tempos de tecnologias múltiplas, as ausências ficam cada vez mais notórias. E não há presentes que dispensem ou substituam o que a saudade mais suplica: a simples presença.

Uma palavra, uma mínima lembrança, um rabisco, bilhetinho, até o emotion do diabinho. Tudo vale na tentativa de substituir a saudade pela presença.

Quase sempre, é somente disso que todos nós precisamos em algum momento do dia. E, com toda certeza, o dia será mais feliz!
Se estiver em débito com alguma saudade, não mande presentes, se faça presente!

Para você, o amor que escolheu ficar

Para você, o amor que escolheu ficar

Imagem de capa: Mila Supinskaya Glashchenko, Shutterstock

Essa carta é para você, o amor que escolheu ficar. Até pouco tempo, ainda duvidava se chegaria o dia em que te escreveria. Não sabia se iria demorar, como e quando iria surgir. Mas aqui está você, um amor inteiro, um amor sadio, um amor escolhido.

Te reconheci ainda de longe, sem saber muito mais do que um sorriso e um olhar. Mas não tinha jeito, era para sermos nós. Tudo tornou-se apenas uma questão de liberdade. Para dizer que é você, que sou eu. Não ignoramos os maus bocados passados, mas não desistimos de seguir em frente.
Você entende que amores já vieram e respeita que amores não ficaram. Estamos num único abraço. Se isso não é sintonia, não sei o que é. E assim foi e continua.

Você admira o lar construído pelos nossos afetos. Daqui de onde vemos tantos sentimentos, acentuados por cafunés não desperdiçados, por beijos não pedidos a todo instante. Você sabe que esse amor não é metade, pode aceitar dentro do peito. Mas, se por ventura, algum dia as nossas pernas trocarem de lugar, não lamente. Não posso prometer futuros, somente presentes. Então, digo sem meias palavras que, agora é amor. O amor que escolheu ficar.

Essa carta é para você, o amor que escolheu ficar. Até pouco tempo, não saberia como demonstrar tantas felicidades. Também desconfiaria sobre como e quando iria confessar esse desejo. Mas aqui está você e tenho muita sorte por amar do seu lado.

Dizer sempre o que o outro quer ouvir é uma forma de desamor

Dizer sempre o que o outro quer ouvir é uma forma de desamor

Males do desamor estão escondidos em inadvertência opinativa sobre certos aspectos que realmente importam em um relacionamento genuíno. Agradar nem sempre é se importar.

Algumas vezes temos que ouvir coisas bem desagradáveis das pessoas que amamos, ou então dizer a elas algo que não lhe comprazem. Apesar do desconforto emocional que isso pode causar, dependendo do caso, não é algo de todo ruim. Pior do que ser incomodado pela amargura de palavras moralistas alheias é ser apunhalado pela própria moral quando essas palavras nos fazem sentido no futuro.

Uma pessoa que se importa realmente com a outra não hesita em manifestar objeção ao que está sendo tratado, se achar que é o correto a fazer. A questão aí não é tentar ferir os sentimentos do outro, mas oferecer cenários de risco para que a pessoa faça suas escolhas sem desconsiderar as possíveis consequências.

Poucas pessoas estão preparadas para ser realistas ou lidar com gente realista. Diante de inúmeras adversidades corriqueiras, é muito melhor procurar pessoas que nos tranquilizam em momentos de preocupação, e então costumamos rejeitar, não sem algum ressentimento, quem nos orienta com outras realidades menos convenientes. Muitas verdades que se revelam a alguns são o motivo de outros se alimentarem com mentiras. O realismo não é o melhor conforto, o otimismo sim. Mas ser otimista demais torna alguém resguardado, passível de acreditar em invulnerabilidade, sendo, assim, ainda mais vulnerável do que já é por natureza.

Algumas vezes, não conseguimos adotar a sinceridade sem sermos rudes. Nesses casos, há uma diferença entre ser rude por ter sido sincero e mentir para esconder a rudeza. A sinceridade acompanhada de descortesia tende a ser combatida, não agradecida. Quando alguém começa a nos dizer: “Olhe, sinceramente…”, logo imaginamos que essa pessoa irá nos bombardear com palavras espinhosas, mas nem sempre ser sincero remete a dizer coisas mais difíceis de aceitar.

Muitos se sentem desrespeitados em ouvir as verdades do outro como se fossem as suas, e então taxam quem as verbalizou de estúpido, arrogante, egoísta, sem noção. Contra esse problema, costumeiramente escolhem omitir o que pensam para reduzir a intensidade do desgosto, quando, na verdade, agridem-se indiretamente por conta de não lidar com seu problema. Sim, abuso verbal é método de violência, mas omissão verbal também pode ser.

Há de se ter atenção redobrada com aqueles que buscam sempre nos agradar com palavras sutis, agradáveis e acalentadoras, e nunca nos repreendem (mesmo suavemente). Quem se preocupa verdadeiramente com nosso bem-estar reconhece que o valor da felicidade não se estrutura apenas nela. O mimo é uma expressão de amor, e também uma atitude que desacostuma a pessoa à maturidade amorosa. Quanto a isso, cabe os dizeres do filósofo alemão Erich Fromm em seu livro A Arte de Amar:

“O amor infantil segue o princípio: ‘Amo porque sou amado’. O amor amadurecido segue o princípio: ‘Sou amado porque amo’. O amor imaturo diz: ‘Eu amo você porque preciso de você’. O amor maduro diz: ‘Eu preciso de você porque amo você’.”

Em um mundo onde o amadurecimento é visto como forma de opressão, a possibilidade de ser mimados é atraente demais para que aceitemos os perigos do mimo exagerado. Um desses perigos é que, quando a vida nos desafia a adiar gratificações, a não ser tão imediatistas, traduzimos isso em sofrimento desnecessário, e então adotamos a posição de vítimas. A inocência é saudável até certo ponto; para além desse limite, torna a pessoa refém das próprias responsabilidades.

Não temos como perceber todas as vezes que erramos, então dependemos de pessoas que nos orientem. Às vezes, precisamos de humildade para ouvir conselhos dos outros e alterar nosso comportamento; outras vezes, precisamos de proatividade para dar conselhos aos outros e inspirá-los à mudança.

Reconhecer aquilo que a pessoa que amamos gosta de ouvir torna-se mais fácil em proporção ao aumento da intimidade desse amor, todavia, usar tal conhecimento afetivo de forma invariável não é um sinal de preocupação com o bem-estar da pessoa, mas uma outra estratégia de manipulação emocional que aponta investimento nos próprios interesses.

Uma boa forma de saber se alguém se importa ou não com nós é observar o seu potencial de criticidade a nosso respeito: se esta pessoa nunca nos critica, então a nós ela é indiferente. Nossas opiniões, se não forem por vezes contestadas ou provocadas, tornam-se frugais, porque somente a crítica faz nascer a reflexão da qual toda boa opinião depende.

Muita gente pensa que o ato de criticar logo remete a falar mal em sentido pejorativo: isso só se aplica no caso de críticas destrutivas. Por outro lado, as críticas construtivas tem conotação positiva, visto que promovem desenvolvimento humano.

A identificação do significado de uma crítica depende muito de como adaptamos o que ouvimos para nossa realidade, e também do nosso relacionamento com o crítico. Sem uma adaptação justa e uma relação desprovida de inveja, ciúme ou mesquinharia, não temos um real feedback produtivo, apenas impressões precipitadas baseadas em letárgicos duelos de julgamento pessoal.

Toda crítica é escondida em um conselho, que pode vir para o bem ou para o mal. Se todo conselho fosse bom, as pessoas sempre o pediriam.

A qualidade dos conselhos depende muito da habilidade de escolher os conselheiros. Na época da monarquia, por exemplo, várias conspirações foram organizadas por pessoas mais próximas do rei, aquelas que faziam parte da corte especial e participavam ativamente dos processos de Estado. Justamente por ter recebido maiores votos de confiança do rei, esses indivíduos tinham mais chances de verificar os pontos fortes de seu líder para neutralizá-los, e identificar os pontos fracos para explorá-los. O rei que não sabia selecionar seus conselheiros ficava à mercê deles e, portanto, a autoridade se invertia.

Bem, é sabido que as pessoas têm a mania de usar seu filtro interno para ouvir apenas o que querem ouvir. Contudo, cedo ou tarde verão-se tentadas a ouvir o que não querem, pois ninguém sobrevive – tampouco evolui – só de elogios.

O ideal, quando ouvimos palavras indecorosas de alguém que amamos ou mesmo daqueles que não temos tanta intimidade, não é responder em tom de ofensa, mas, primeiro, discernir se realmente foi uma ofensa. Nem sempre o problemático é a causa do problema que está sendo problematizado. É muito fácil transferir o conteúdo de uma crítica do campo técnico para o campo pessoal. As pessoas estão mais preocupadas com seu orgulho presente do que aprender no agora.

É deveras importante controlar o temperamento ao se dar um conselho, porque a percepção de destemperança por parte da outra pessoa faz com que ela adote uma postura defensiva, e esta, por si só, prejudica na devida assimilação do caso, uma vez que o foco passa a ser a relação pessoal entre os envolvidos e não o caso em si. Assim, no calor da discussão, conselhos são rejeitados e ignorados com muita facilidade.

Um conselho dado de maneira inadequada não terá efeito solutivo, mesmo que seja o mais adequado dos conselhos.

Muitos relacionamentos são terminados ou prejudicados porque, por mais de uma vez, uma pessoa pediu ajuda à outra para resolver um assunto para si relevante, mas foi decepcionada em ouvir exatamente aquilo que mais temia. Engraçado como as pessoas primam pela sinceridade, mas não se mostram muito seguras para ouvir opiniões desagradáveis, por mais sinceras que possam ser.

O romancista espanhol Miguel de Cervantes, criador de Dom Quixote, aconselhava o seguinte: “Segui o vosso caminho e não deis conselhos a quem não vos pede”. Mas a grande maioria das opiniões é oferecida sem que o outro peça ou queira ouvi-las, mas, ainda assim, desejamos opinar, dada a necessidade iminente de expressão e utilidade.

Pede-se do outro um dizer necessário, mas, muitas vezes, o que queremos ouvir não é o que precisamos saber. Confunde-se muito querer e precisar. Nós queremos tudo o que precisamos, mas não necessariamente precisamos de tudo que queremos. Assim se dá também com conselhos e opiniões no nosso cotidiano.

Nós damos mais bons conselhos do que achamos preciso recebê-los. Aconselhar sem dar o exemplo é incoerente igual um cristão que peca e condena o herege pelo pecado. Francis Bacon, filósofo inglês, dizia:

“Aquele que dá bons conselhos constrói com uma mão; aquele que dá bons conselhos e exemplo constrói com ambas; o que dá bons conselhos e mau exemplo constrói com uma mão e destrói com a outra.”

O conforto para uma lamentação nos é tão necessário que estamos muito mais inclinados a pedir ajuda àqueles que supomos ser apoiadores carinhosos, como se a privação afetiva fosse causada pela falta de carinho e nada mais. Essas solicitações de consolo em tempos de crise melancólica são quase inevitáveis, no entanto, deveria ser tão costumeira a vontade de ter alguém para ajudar a secar nossas lágrimas como a vontade de entender porquê elas surgiram. Sem a compreensão das causas de dor, o sofrimento injustificável é mais penoso e desesperador do que o normal, porque sabemos que sua reincidência não tem precedentes, uma vez que ainda não identificamos a raiz do mal e, portanto, não sabemos como evitá-lo, o que nos torna mais suscetíveis a ele.

Problemas diferentes requerem competências de ação diferentes. Pedir ajuda sempre à mesma pessoa, independente da situação que se apresenta e do grau de confiança praticado, é equivocado e perigoso, porque não há somente um problema a ser resolvido e nem alguém que possa ter conhecimento de todos os problemas.

As pessoas mais confiáveis e dignas da nossa companhia são aquelas que, primeiro, buscam compreender nossas angústias, para em seguida nos ajudar a superá-las. Não devemos aceitar tudo sobre quem amamos, mas, para genuinamente amarmos uma pessoa, precisamos nos esforçar para compreender o porquê ela faz o que faz, e esse esforço só é possível se abraçarmos as suas diferenças, inclusive as que não queremos para nós, mas que, querendo ou não, também fazem parte de nós a partir do momento em que amamos.

Moça, o amor é para quem ama. Simples assim

Moça, o amor é para quem ama. Simples assim

Imagem de capa: Olena Andreychuk, Shutterstock

Moça, você precisa entender que do amor não se corre atrás. Ou ele está indo na sua direção, com todo o carinho e intensidade ou sequer teve vontade de permanecer. Não há grandes explicações, moça. É bem simples. Sempre foi. O amor é para quem ama.

Sabe o tempo que você dedicou naqueles beijos? Não se arrependa. Foram toques sinceros e entregues. Deixou ali mais do que os seus lábios, mas inteiros da sua alma. Beijou com graça e excitação. Beijou em todos os encontros e desencontros. Ainda assim, beijou. Tenha certeza que o seu gosto não será esquecido.

Nas vezes que os seus abraços criaram laços, você permitiu o amor fazer morada. Deixou portas e janelas escancaradas para que ele entrasse devagarinho, como quisesse. Foram abraços de respeito e sintonia. Abraços de chegadas e nunca de partidas. Ainda assim, ele também foi embora. Tenha certeza que a sua coragem não será ignorada.

Moça, você precisa entender que nada disso foi em vão. Que apesar do tudo que você foi, algumas vezes, o amor é passado a perna. Não se culpe. Em tempos de desapegos, ainda há quem ache uma boa troca esconder respeito em troca muitos amores.

O amor é para quem ama. Talvez você não perceba o quanto é simples reconhecer isso, entendo. Mas deixe o coração aberto. Deixe essas incertezas e desgostos de lado. Beije-se. Abrace mais de você. Moça, o amor é para quem sabe se amar primeiro.

Um tipo de homem para se evitar

Um tipo de homem para se evitar

Ele é bonito, viajado, fala várias línguas, se veste bem e é extremamente educado – sempre segura a porta para as mulheres passarem, puxa a cadeira, abre a porta do carro. Entende de vinhos, música erudita, literatura, teatro.

Não é rico, mas tem uma vida econômica estável e cercada de pequenos luxos.

Seu humor é irônico, ácido. É incapaz de cometer uma indelicadeza com quem quer que seja, porém, é mordaz com quem possui intimidade – criticando roupas e o modo de andar e de falar dos que julga menos polidos do que ele.

Gosta de presentear, gosta de partilhar seu conhecimento: “leia o livro x”, “escute a música y”, “vá ao teatro z”.

Detesta seu país. Por ter vivido em Paris acredita que seus conterrâneos são atrasados, mal educados, mal vestidos e incautos – sempre que pode, numa reunião entre amigos, desmerece a cultura de seu país com frases do tipo “aqui os atores representam tão mal”.

E por ostentar uma altivez tamanha e sugerir (ainda que tacitamente) que possui algo que os demais não possuem, é extremamente sedutor – afinal a paixão é a crença de que o outro tem o que nos falta.

Trata-se de um hedonista que vivencia plenamente os prazeres que a vida pode proporcionar – do luxo e do requinte de uma boa mesa à uma cama com lençóis de seda e uma bela dama sobre ela.

Ostenta a melancolia chique dos que fingem que, por saberem que nada sabem, não passam de reles miseráveis.

Quando (supostamente) apaixonado, escreve mensagens matinais como: “Que outros desejem a fortuna, a glória, as honras, eu desejo-te a ti. Só a ti, minha pomba, porque tu és o único laço que me prende à vida, e se amanhã perdesse o teu amor, juro-te que punha um termo, com uma boa bala, a esta existência inútil”.

E faz promessas ardentes e enlouquecidas de paixão como: “Quando estou ao pé de ti sinto-me tão feliz; parece-me tudo tão bom… Queres que fujamos? Foge comigo, vem, levo-te! Vamos para o fim do mundo”.

À medida que a relação progride e um certo grau de intimidade é estabelecido, ele passa a criticar paulatinamente o objeto de sua “paixão”: “não use esse tipo de sapato”, “aprenda a tocar tal música no piano”, “fale baixo”, “não acredito que você nunca leu esse livro?!”, “você é infantil”, “solte esse cabelo”.

E quando a dama finalmente se entrega, aceita os seus apelos e faz as malas para viver com ele, ele fica irritadiço, diz que as coisas não podem ser feitas de modo tão precipitado; diz que está trabalhando demais e que em breve terá que viajar para o exterior a negócios, e… desaparece.

Não, cara amiga leitora, ele não é o canalha que partiu o seu coração. Ele é Basílio, personagem de Eça de Queiroz do livro “O Primo Basílio” (Editora Record), que levou sua prima Luísa, de vinte e poucos anos, à ruína.

Publicado em 1878, o romance deveria ser leitura obrigatória para todas as meninas em fase de formação. Não apenas porque a narrativa é pungente e questiona os valores das famílias ditas tradicionais, tampouco por tratar-se de um grande clássico, com personagens riquíssimos; nem por nos prender à sua narrativa do começo ao fim das 266 páginas; mas porque, para além da chantagem que Luísa – a prima que se apaixona pelo primo galanteador – sofre de sua criada invejosa Juliana (que descobre a traição da patroa, casada com Jorge), podemos entender a lógica DESSE TIPO de homem:

“Não lhe faltava mais nada senão partir para Paris com aquele trambolhozinho! Trazer uma pessoa, havia sete anos, a sua vida tão arranjadinha, e patatrás! Embrulhar tudo, porque à menina lhe apanharam a carta de namoro e tem medo do esposo! Ora, o descaro! No fim, toda aquela aventura desde o começo fora um erro! Tinha sido uma ideia de burguês inflamado ir desinquietar a prima da Pratiarcal. Viera a Lisboa para os seus negócios; era tratá-los, aturar o calor e o boeuf à la mode do Hotel Central, tomar o paquete e mandar a pátria ao inferno – e ele, burro, ficara ali a torrar em Lisboa, a gastar uma fortuna em tipoias para o Largo de Santa Bárbara para quê? Para uma daquelas! Antes ter trazido a Aphonsine! Que verdade, verdade, enquanto estivesse em Lisboa o romance era agradável, muito excitante; porque era muito completo! Havia o adulteriozinho, o incestozinho. Mas aquele episódio agora estragava tudo! Não, realmente, o mais razoável era safar-se”!

Imagino que se eu tivesse lido a obra de Eça de Queiroz aos dezesseis anos teria poupado muitas lágrimas inúteis em minha vida e teria pensado algumas vezes antes de me jogar de cabeça em certas relações com janotas como Basílio. Talvez nunca tivesse pensado, como Luísa:

“As qualidades de Basílio apareciam-lhe então magníficas e abundantes como os atributos de um Deus. E estava apaixonado por ela! E queria vir viver ao lado dela! O amor daquele homem, que tinha esgotado tantas sensações, abandonado de certo tantas mulheres, parecia-lhe como a afirmação gloriosa de sua beleza e da irresistibilidade da sua sedução. A alegria que lhe dava aquele culto trazia-lhe o receio de o perder. Não o queria ver diminuindo; queria-o sempre presente, crescendo, balançando sem cessar diante dela, o murmúrio lânguido das ternuras humildes”.

A pomba Luísa teve um final trágico – aliás, o final do livro é arrebatador –, porém não senti pena dela. Afinal, não passava de uma mocinha que vivia numa província, em 1878, que nada sabia da vida. Senti pena de nós, mulheres ditas modernas, que vivem sua sexualidade livremente, trabalham, têm acesso à informação, grau universitário; mulheres viajadas, inteligentes, cultas, independentes, que sabem se vestir, falam várias línguas, comandam empresas, escrevem romances, mas que ainda, sim, caem nessa pantomima.

Imagem de capa: cena da minissérie da Rede Globo de 1988: “O Primo Basílio”. Atores: Marcos Paulo e Giulia Gam

Rejeição é a vida mostrando que há novas possibilidades para ser feliz

Rejeição é a vida mostrando que há novas possibilidades para ser feliz

Imagem: Africa Studio/shutterstock

Analisando friamente, a rejeição parece uma faca que nos corta sem anestesia, enquanto o outro continua sua vida normalmente. Mas, se pararmos para analisá-la na sua essência, a rejeição é muito mais defesa do que agressão e serve para nos proteger de uma porção de erros que cometemos (ou poderíamos ter cometido) em nome do amor.

Em algum momento da vida fomos ou seremos rejeitados. Fato! O que não dá é para cultuar esse sofrimento e achar que somos indignos de sermos amados porque algumas pessoas recusaram a fazer isso.

Tudo tem dois lados. Até a dor. E eu sei que poucos sentimentos são tão dolorosos quanto ser rejeitado por alguém, principalmente quando amamos. Mas é preciso entender que é muito melhor ouvir um “não quero ficar com você”, do que saber que alguém está ao nosso lado por obrigação, por dó ou por qualquer outro motivo que não seja o amor (sinto o coração apertar, ao imaginar que há pessoas que se sujeitam a isso).

Muitas vezes, estamos tão envolvidos emocionalmente com alguém que não conseguimos ver a realidade tal qual ela é. Não vemos que o outro não quer estar ali, não quer continuar a relação e que o amor que sentimos não é recíproco. Mas, estamos tão cegos pelo sentimento que não permitimos que as escolhas sejam democráticas na relação.

Confundimos amor com posse, carência com afeto e atenção com dependência emocional e, quando o outro quer partir, o culpamos por nossos vazios existenciais. Na verdade, o que dói na rejeição não é a falta de amor, é a ferida que fica no ego de quem recebe um “não.”

Nós rejeitamos e somos rejeitados frequentemente. E isso é normal! Ninguém escolhe quem vai amar e não podemos mandar nos sentimentos de ninguém (ainda bem). Todos nós temos nossos critérios conscientes ou inconscientes de escolhas pessoais.

Ninguém aponta para o outro e diz “se apaixone por mim agora!”, porque amor é coisa de alma e não de vontades próprias. Então, relaxe, e veja as coisas com mais simplicidade.

Não encare a rejeição como uma metralhadora de autoestima. Encare como uma defesa da alma e descobrimento do próprio valor. Às vezes, sermos rejeitados por quem julgávamos amar é a forma que a vida encontrou de dizer “o caminho é outro, vem comigo.”

Não há tristeza que supere nossa capacidade de sentir alegria.

Não há tristeza que supere nossa capacidade de sentir alegria.

Imagem: Aleshyn_Andrei/shutterstock

Eu tenho fé. Nunca a tristeza vai ser maior que a alegria da gente. Por mais azedo que seja o dia, há sempre um instante doce à espera, pronto para vencer as horas aborrecidas.

Ninguém escapa do desgosto e da amargura. Toda alma tropeça aqui e ali em alguém disposto a estragar a festa. Só nos resta olhar em frente e estar ao lado de quem nos goste. E que toda tristeza aprenda a viver perto de nossa alegria.

Teimosia. É só o que nos cabe. Ser feliz é coisa de quem insiste na vida. Vivamos cem anos e todo dia alguém há de atentar contra a paz que é direito nosso. Acontece. É tanto idiota por aí mirando nossas costas que a gente já nem repara.

Hoje vou rezar por nós de novo. Pedir a Deus e a todos os santos por nossa capacidade de sentir alegria. Que apesar de toda aporrinhação, sejamos capazes de respirar fundo e resistir. E que maior do que toda tristeza seja a nossa competência para criar belezas, nossa coragem de consertar os erros, nossa gratidão por estarmos vivos. E que tudo isso se apresente com euforia e amor. Amém!!

Não tem jeito. Sentir alegria é uma capacidade humana mais forte que toda tristeza. É quando a tardinha é tão bonita, as pessoas certas estão juntas, o vento é fresco, o sol é manso, o céu é azul e o dia não passa, como quem nos diz que será para sempre.

Será. Sempre é. Por mais funda que seja uma angústia, ela nunca dura o tempo infinito da alegria de que somos capazes. Sejamos felizes. Apesar de tudo, sejamos felizes.

O amor é complexo. Esse arrepio fácil na nuca é outra coisa!

O amor é complexo. Esse arrepio fácil na nuca é outra coisa!

Não é de se admirar que a gente esteja sempre às voltas com relacionamentos amorosos que vivem naufragando em mares de expectativas surreais.

Todos esses naufrágios acabam acontecendo porque a gente teima em vestir terno e gravata em encontros que ficariam muito mais confortáveis e interessantes trajando bermudas e um descolado All Star.

Há amores e amores. E a única coincidência entre eles é só a grafia mesmo. O ponto de tensão se forma quando a gente força a barra para fazer o que era para ser puro tesão virar romance de filme francês. Nem sempre procede, não é mesmo!?

Esse arrepio fácil na nuca faz parte de todo o processo de encantamento que cerca essas coisas maravilhosas que são as paixonites e atrações instantâneas.

Relacionamentos tipo pipoca de cinema ou macarrão instantâneo têm lá seus encantos, mas podem ser chamados de muitos adjetivos bacanas, só não lhes serve essa designação substantiva que se chama “amor”.

O amor é complexo e depende, entre outras coisas, de disposição afetiva para construir uma relação aos poucos, a cada encontro e a cada desencontro também.

Amor é aquela mistura genial de chocolate com pimenta, é café passado na hora, é brigadeiro de panela, é pão feito em casa – de preferência a quatro mãos.

Amar é entender até os silêncios e respeitar, inclusive, os ruídos. Quando o amor pega a gente de jeito mesmo, o tesão é um ingrediente gourmet, não é o sal.

O sal do amor é a alegria pelo sucesso do outro que deixa a gente de pernas bambas e coração aquecido. É querer prolongar o tempo junto, mas também compreender que momentos a sós são a base de uma relação de confiança e respeito.

O sal do amor é essa vontade de querer dividir, multiplicar e somar a vida, tudo com a mesma pessoa. E, a cada dia, descobrir nas bonitezas e dificuldades do convívio, mais razões para ficar e nenhuma vontade de partir.

É preciso ter muita coragem para acolher no peito um amor de verdade. Porque o outro vai errar, vai se transformar e vai nos desafiar. Porque não é fácil acomodar dois mundos num casal.

Não é nada fácil compreender que às vezes a doçura azeda, e que é justamente nessa hora que a gente tem a chance de amadurecer e ver no desafio do convívio uma oportunidade única de dar um passo além.

Pode ser mesmo, de verdade, que esse fogo no corpo acabe se transmutando num calor benigno que é capaz de acomodar, entre braços e pernas, algo além de um encontro de desejos. E isso é nada menos que absolutamente maravilhoso!

E pode ser ainda melhor! Quem sabe o calor benigno, o fogo que arrebata, o sabor agridoce dos dias, as calmarias e tormentas não acabem fazendo surgir uma história que vale inúmeros começos, e meios, e fins, e outros tantos recomeços.

Quem sabe a gente já não esteja pronto para desapegar de tantos modelos de propaganda amorosa que tão facilmente compramos. Quem sabe já não seja tempo de parar de jogar na conta do outro o custo da nossa felicidade.

E que venha o amor, sem rótulos, sem pesos, sem joguinhos e estratégias de poder. E que seja complicado, posto que a simplicidade é mesmo coisa muito cheia de detalhes. E que nos faça olhar para dentro com a indiscutível certeza de que viver sem amar é quase a mesma coisa que não viver… ou ainda, algo menos que isso.

Imagem meramente ilustrativa: cena do filme “Amor e outras drogas”.

Pessoas que cuidam da própria vida são mais queridas

Pessoas que cuidam da própria vida são mais queridas

Pessoas que cuidam da própria vida correm atrás de seus sonhos de forma ética e limpa, sem pisar ninguém pelo caminho, sem tentar culpar o outro pelo que lhes acontece, sem achar que o mundo conspira contra elas.

Inevitavelmente, em algum momento de nossas vidas e em determinados locais, encontraremos aquele tipo de pessoa que cuida da vida de todo mundo, parece saber de tudo, conhecer todos, controlando a vida de quem quer que seja. Esses indivíduos são invariavelmente alvo de antipatia, uma vez que todos acabam querendo evitar a sua companhia, ou seja, ninguém parece gostar deles.

Quem cuida da própria vida vive bem primeiramente consigo mesmo, aceita-se como é e se basta. E essa condição faz com que a pessoa não se incomode com o que vem de fora, com a forma como o outro leva a vida, pois compreende que cada um tem a sua própria maneira de encarar a vida, aceitando todos como são. Quer ver o outro feliz, pois também é feliz de fato.

Quem cuida da própria vida é alguém que se sente bem, gosta de quem vê ao se olhar no espelho, ou seja, não se compara com ninguém, entendendo que deve se virar na vida com o que possui, a partir do que é capaz, de acordo com o que faz o seu coração vibrar. Por isso mesmo, deixa cada um ser o que é, aceita as pessoas em tudo o que lhes define, enxergando o melhor que cada um tem a oferecer.

Pessoas que cuidam da própria vida correm atrás de seus sonhos de forma ética e limpa, sem pisar ninguém pelo caminho, sem precisar usar de artifícios desleais nessa busca dos caminhos mais serenos que compõem a sua jornada. Conseguem avaliar a si próprias, assumindo o que não dá certo, sem tentar culpar o outro pelo que lhes acontece, sem achar que o mundo conspira contra elas.

Pessoas que cuidam da própria vida não prestam atenção na vida dos outros, a não ser quando percebem que alguém está precisando de ajuda – isso é empatia. Estão sempre dispostas a dedicar um tempo para ouvir, ajudar, acolher o outro, pois são solidárias. Ao contrário do que possa parecer, não são egoístas, apenas se aproximam da vida alheia para torná-la melhor.

Não é à toa que nos sentimos tão bem perto dessas pessoas que somente cuidam das nossas vidas quando pedimos ou quando percebem que estamos chateados, tristes. São pessoas bem vindas, que nos provocam sorrisos espontâneos, que tornam a vida menos pesada, menos perigosa. Embora não consigamos evitar por completo as pessoas desagradáveis e enxeridas, sempre poderemos contar com o apoio acalentador e prazeroso daqueles que nos somam coisas boas. Por eles é que a vida vale a pena.

Policiais chilenos resgatam cães abandonados e os transformam em parceiros de ronda

Policiais chilenos resgatam cães abandonados e os transformam em parceiros de ronda

Imagem de capa: @bombicum

Desde o ano passado os policiais chilenos da cidade de Quilpué, conhecidos como Carabineros, contam com reforço pra lá de especial. Ao adotarem cães de rua, estes policiais conquistaram fiéis companheiros de ronda.

Tudo começou depois que um cachorro de rua foi atropelado perto de uma estação da polícia. Mobilizados, os oficiais resolveram então adotar os animais, transformando-os em parceiros.

Os colegas caninos usam coletes parecidos com os dos oficiais e os acompanham nas tarefas do dia a dia. Estes jalecos reflexivos foram doados por uma vizinha, no intuito de impedir que mais algum deles fossem atropelados.

Além disso, os bichinhos se mostram bem educados e, sempre que um policial precisa entrar em algum lugar, eles esperam do lado de fora, calmos e quietos.

Ao terminarem os seus turnos, voltam para a delegacia, onde os aguardam comida, água e um lugar para dormir em segurança.

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Com informações do site espanhol: SoyValparaíso.

Hoje é carnaval, amanhã não existe!

Hoje é carnaval, amanhã não existe!

Imagem:  conrado/shutterstock

Faz uns anos que eu não sei o que é carnaval, que eu uso esse feriado para esquecer do mundo, ficar em casa, desligar de tudo. Fico com preguiça de pensar em sair na rua, de pegar a estrada, de encontrar pessoas. Nem os desfiles pela TV eu assisto. Simplesmente me desligo.

Mas, outro dia desses, numa conversa com um jovem carioca apaixonado por carnaval, tive uma lembrança emocional dos tempos da adolescência em que eu passava o ano esperando para que chegasse fevereiro, chegasse essa folia. Eu aproveitava os 3 dias de festa do começo ao fim, era uma energia que não acabava mais, parecia que tinha baixado um santo em mim.

Eu perguntei para o rapaz: ‘mas o que há de bom nisso de se espremer numa multidão, num calorão de matar atrás de um trio elétrico?’

E ele encheu o olhos de sorrisos, e disse algo como:

‘Eu não sei bem, mas o carnaval é um organismo de alegria que te invade e contagia e não tem sensação igual.

O carnaval é uma pulsação. Tem que suar, dançar, esquecer que se é corpo, alma, e virar célula constituindo uma multidão que salta e vibra num mesmo ritmo. Todo mundo vira uma coisa só, uma massa de alegria.

Ninguém é de ninguém no carnaval, nem a gente da gente mesmo. E é isso que a gente quer, e é isso que a gente espera, render-se, abandonar-se, permitir-se.

A gente se agrega a uma energia, faz uma prece e se entrega à folia e que a quarta-feira de cinzas nos espere ou nos vele.

Carnaval é esquecer do céu, do chão, do umbigo. É deixar o sol queimar a pele e a chuva cair gloriosa, é pular de braço dado com um desconhecido, é a festa mais religiosa que existe, rompem-se as diferenças, todos tornam-se irmãos, amamo-nos uns aos outros como a nós mesmo. O mais importante é dançar e cantar, comemorar.

Carnaval quebra as horas dos relógios, faça lua ou faça sol é tempo de folia. No carnaval a gente usa máscara, maquiagem, fantasia, tudo como pretexto pra gente derrubar as máscaras da nossa alma, borrar a maquiagem no tempo e libertar as nossas fantasias de dentro. Jogamos pro alto como confete as expectativas, destruímos o dia de amanhã.

Hoje é carnaval, amanhã tudo se resolve, amanhã não existe! Hoje a gente é suor e sal, amor e celebração, hoje a gente canta o axé de coração aberto e voz alta, a gente dança o que tocar, até funk do tigrão.

Hoje a gente usa saia, tira a camisa, pula no mar, na piscina, se declara, sorri, beija, brinca. Ninguém julga, hoje as regras foram abolidas.

Porque o caos é tão importante quanto a calmaria. Porque a bagunça abençoa as nossas vidas, porque é importante desestabilizar tudo que é sério e adulto e cresce na gente o ano todo. Carnaval é o pretexto pra gente soltar as rédeas, soltar a franga, chutar o pau da barraca, virar criança.’

Que mais eu poderia dizer a não ser sorrir e sentir uma imensa vontade de pular carnaval este ano!

Há silêncios que constrangem. Há silêncios que constroem…

Há silêncios que constrangem. Há silêncios que constroem…

Imagem: CREATISTA/shutterstock

Silêncio no elevador, constrange. Você está descendo nesse veículo de utilidade indiscutível e, de repente, o elevador para no 12 andar e entra o seu vizinho, que você conhece, mas não muito. E entre o 12 e o térreo fica estabelecido um silêncio constrangedor. Parece uma viagem incômoda e comprida.

Instintivamente você se encolhe contra a parede, olha para o chão que, naquela hora te falta, e descobre o cachorro. O cachorro te tira do constrangimento abanando o rabo, interessadíssimo na sua pessoa, bem no momento em que a porta se abre e você sai esbaforida, como bezerro liberto da estrebaria, dizendo “até mais.” Até mais NUNCA, se for possível.

Silêncio no consultório não constrange. O médico já te examinou, já fez o diagnóstico, você já sabe que daquilo não vai morrer, e então, ele se volta para o computador, para fazer as anotações em sua ficha, e te esquece. Você fica ali, muda, enquanto ele digita calado, mas o silêncio é um conforto íntimo, uma oportunidade de xeretar, olhando em volta, e conferir porta-retratos com a imagem da esposa, dos filhos,e da última viagem que eles fizeram para Cancun.

Silêncio no consultório do dentista não constrange. Você chega, mal diz boa tarde, e já vão colocando na sua boca aberta aqueles ferros que te impedem de fecha-la. Se em boca fechada não entra mosquito, em boca aberta não sai som. Sem som não há palavras. Sem palavras há silêncios. Um silêncio que te é lícito e que você pode desfrutar de olhos fechados.

Silêncio na fila do banco não constrange. Barulho de conversas alheias, também não. Todo mundo paradinho na fila, trocando o peso nas duas pernas, olhando fixamente para a frente e para o painel, de quando em quando apenas o barulhinho da campainha chamando o próximo, o próximo, o outro próximo,quando de repente, a dona Maria avista o seu Joaquim,e de longe começam a trocar notícias.

Seu ouvido ouve, ele foi feito para ouvir, mas nem o silêncio anterior e nem o barulho te constrangem. Em fila de banco, no silêncio a gente aproveita para pensar, e no barulho, a gente aproveita, para fazer laboratório e aprender sobre o ser muito humano.

Silêncio no decorrer de uma visita, que te visita e não tem o que falar, constrange. A pessoa é querida, é amável, é prestativa, é atenciosa, mas nem é tão sua amiga, e vem te visitar, e não tem nada para falar. Não preparou o script. Não ensaiou coisa nenhuma. Você que está em casa, desprevenida, fica esperando que ela tenha o que dizer, já que se deu ao trabalho de vir, mas ela não diz.

-“Eu só vim para te ver”, ela diz quando chega. E você não sabia que era para levar a declaração ao pé da letra. Ela só veio te ver. Não veio para conversar.

Esse silêncio constrange. Constrange porque você não está preparada para tanta plenitude e se obriga a inventar um assunto qualquer para escapar do silêncio entre duas pessoas que não têm nenhuma intimidade, sentadas no mesmo sofá. Da sua casa. Como se fosse uma viagem de ônibus, ou de avião.

Aliás, silêncio no ônibus ou no avião, mesmo que seja entre duas pessoas sentadas lado a lado não constrange. Fala quem quer, dá prosseguimento quem gosta.

Silêncio entre amigas, também não constrange. Se essa amiga que vem te visitar, for muito, muito amiga, o silêncio não constrange. Vocês podem tranquilamente dividir o silêncio, ou ligar a TV e assistir um programa onde só o apresentador fala, desde que, de vez em quando vocês possam sorrir, ou gargalhar, ou até chorar. Se a intimidade for muita, podem até dormir.

O silêncio entre amigos, muito amigos, é conexão. É raro, mas acontece e quando acontece é muito bom.

Silêncios virtuais constrangem ou não. Você está no maior papo em tempo real com uma pessoa. De repente, silêncio. Nem tchau, nem dá licença, nem preciso ir. Nesse caso, constrange. A gente rola a conversa para cima, pensando: será que falei alguma coisa errada?

Mas se o papo for entre duas pessoas cuja amizade seja à prova de web, alguém que você já conhece, convive, e confia, dá para pensar: foi atender à porta, as crianças chegaram, o wifi caiu, depois falamos mais. A confiança te isenta de projeções ruins.

Silêncio entre namorados lógico que não constrange. Namorados não dependem de sons, eles falam com as mãos, com os olhos, com o toque, com a língua, com a boca, com o cheiro. E não raro, no meio de uma longa conversa, o silêncio pode ser introduzido com essa frase poética:

– Amor, cala a boca e me beija…

Ai você obedece e beija. Nesse caso, não… não constrange.

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