Você fica maravilhosa quando se ama.

Você fica maravilhosa quando se ama.

Imagem de capa: InaKos/shutterstock

Você fica linda quando não olha para os padrões, quando aceita suas celulites, sua barriguinha e quando não acha que isso é um problema.

Você fica linda quando valoriza as suas curvas e quando se destaca pela sua inteligência admirável. Quando você se olha no espelho e enxerga uma mulher de coragem, uma mulher forte que já suportou tanta coisa.

Uma mulher que não aprendeu apenas a equilibrar o corpo em cima de um salto alto, mas que já aprendeu a equilibrar as emoções diante de situações que tentaram jogá-la no buraco. Você é aquela que aprendeu a suportar a saudade, o medo, as mentiras, as traições e tantos enganos de pessoas que você amava. Você é aquela mulher que a gente olha e vê uma história de superação, a gente olha e vê nos olhos o brilho de quem ainda acredita na vida, nas pessoas e no amor.

Você fica linda quando passa o seu batom vermelho, quando usa seu vestido florido, porém, melhor do que isso, você fica linda quando se ama. Quando não se importa com aquilo que dizem por que você, mais do que ninguém, sabe a mulher guerreira que é.

É bonito ver você mudando por você, melhorando muita coisa por você. Deixando para trás quem não enxerga a sua alma e quem suga as suas energias. É bonito ver o quanto você não tem medo de recomeços e que, embora tudo pareça desmoronar, não perde a fé nunca.

É lindo ver você correndo atrás dos seus sonhos sem deixar de estender a mão para quem precisa do seu colo, do seu abraço. É admirável ver a sua graça de viver e como se preocupa com as pessoas, mesmo precisando de tantos cuidados.

Mulher, você fica linda de todos os jeitos, com todas as cores e combinações, mas, quando você se ama, ah, quando você se ama, você fica maravilhosa.

Eis a vida: é uma porrada atrás da outra

Eis a vida: é uma porrada atrás da outra

Cheguei à conclusão de que, não importa o tanto que a gente ore ou tente andar corretamente, a vida muitas vezes vem para derrubar com força, atropelando, passando por cima, deixando-nos sem chão, sem norte, sem rumo. Quando achamos que está tudo bem, que finalmente teremos paz, lá vem tempestade se formando sobre nossas cabeças, lá vem dor, decepção choro e sofrimento. Isso não é pessimismo de minha parte, é mera constatação.

Eu não vivo sozinho, não sigo de acordo só com o que eu penso e quero, porque existem mais pessoas comigo, acreditando em mim e torcendo junto. Ninguém faz o que quiser, sem ter que prestar atenção no alcance de suas atitudes. Ninguém consegue agir conforme cada batida de seu coração, a não ser que se trate de alguém sem amigos, sem família e sem noção de coletividade. Nada do que fazemos, afinal, recai somente sobre nossas cabeças – somos parte de um corpo coletivo.

Ademais, a gente acaba amando demais algumas pessoas, a gente forma família, círculo de amizades, a gente trabalha junto com os outros. Dessa forma, nossa felicidade não tem autonomia suficiente para se bastar sem se importar com o que ocorre ao seu redor. Não dá para ser feliz, por exemplo, quando há alguém que amamos muito sofrendo bem ali na nossa frente. Nós carregamos as dores que não são somente nossas também, pois somos humanos, compadecemos, olhamos além de nós mesmos.

Como manter o sorriso quando um filho chora ou se mete em enrascada? Como ter ânimo, diante de uma esposa doente, de um irmão acamado, de um amigo endividado, desempregado? Embora não possamos carregar o peso do mundo em nossos ombros, fato é que a nossa essência bondosa acaba, por si só, solidarizando-se com os machucados alheios, chegando junto à dor de quem amamos. Porque a gente divide tudo com as almas amigas, até mesmo o que fere.

Mesmo assim, ainda que eu esmoreça, caia ao chão, chore e pense em desistir, meu instinto de sobrevivência e minha fé acabam por me resgatar. Acredito que nada é por acaso, nada. Tudo é lição, tudo é aprendizado e evolução. E, quando nada mais parece restar, a não ser desistir, a não ser parar, morrer em vida, é momento de se agarrar à fé. Fé em Deus, em algo superior, em alguma força que venha não se sabe de onde, fé no que temos dentro de nós – a gente é mais forte do que imagina. Por isso é que sempre haverá alguém que não desiste de nós. Por isso é que fomos feitos para durar.

Imagem de capa: Chernishev Maksim/shutterstock

Você sabe em que medida a lavagem cerebral afeta a sua vida?

Você sabe em que medida a lavagem cerebral afeta a sua vida?

Imagem de capa: Eduard Gurevich/shutterstock

O que é lavagem cerebral? Você sabe em que medida a lavagem cerebral afeta a sua vida e dita as suas escolhas?

Muitas pessoas pensam que lavagem cerebral é apenas um catecismo ministrado aos incautos e débeis mentais seguidores de um grupo formado por doutrinas fundamentalistas exóticas e amalucadas.

Não é bem assim. A lavagem cerebral é um processo constante e contínuo que é praticado pela sociedade organizada, formando o que se pode chamar de movimentos sociais. Se você está vivo, e pertence de maneira efetiva a um grupo social, está sendo submetido a constantes lavagens cerebrais.

Interessa a todos os setores do humanismo que sejamos lavados cerebralmente. Interessa-lhes que os cidadãos não pensem, não comparem, não analisem, não critiquem, não exerçam resistência, obedeçam, e propaguem ideias difundidas com o objetivo de catequizar a população em massa.

Interessa ao comércio, à política, ao Estado, à religião, aos grupos sociais, a todas as cooperativas e cooperações que se unem sob o mesmo credo, interessa-lhes que todos os seus cooperados se mantenham fortemente motivados, alienados e manipulados sob estatutos e conveniências.

Somos alvo de lavagem cerebral o tempo todo, de maneira velada, constante, contínua. Só que não percebemos.

Chamamos de moda, tendências, publicidade, propaganda, atualização, religião, cultura, toda a informação que recebemos para nos induzir a determinados comportamentos, e pensamos que estamos a salvo de manipulações mentais. Só que não.

Sofremos uma manipulação cerrada sob a influência da mídia: vestimos a moda que um grupo invisível determina que é a “última moda.” Por mais que não se goste da “última moda” num primeiro momento, de tanto sermos expostos à ideia última, acabamos adotando aquilo que, a princípio, detestamos. E quando estamos definitivamente convencidos de que aquela moda é a nossa moda, chega a próxima nos convidando para esquecer o aprendido e efetuar uma nova compra.

O mesmo acontece com o nosso gosto musical. De tanto ouvir uma música feia, a achamos bonita. Dali uns dias nos surpreendemos cantarolando o refrão que grudou em nossa cabeça.

Avistamos a primeira imagem do novo modelo de um carro e pensamos: “ esse eu jamais compraria”. Quem nunca? Depois de um tempo nos surpreendemos saindo da concessionária justamente com aquele carro que nos parecia impossível de tão feio.

De tanto nos expormos ao conceito ele se agarra a nós. De tanto ouvirmos a sugestão, ela se torna nossa. De tanto baterem na mesma tecla invadem o nosso piano e trocam todos os nossos sustenidos e bemóis.

Vivemos dentro da caixa dos outros, do grande caixão universal coletivo, e fora da nossa caixinha. De tanto todo mundo repetir a mesma coisa, acabamos por replicar o mesmo comportamento.

Renunciamos ao nosso senso crítico e adotamos o senso comum. Que é burro, mas é avassalador, por conta do processo de lavagem cerebral a que somos submetidos continuamente.

Somos lavados e varridos por propagandas de produtos cujo conteúdo e utilidade são duvidosas, mas fazem o nosso cérebro sucumbir ao desejo, a tal ponto que até mesmo a nossa química cerebral se altera a cada vez que obedecemos à sugestão massiva.

Somos dopados pelas endorfinas que se apresentam e inundam a nossa corrente sanguínea no momento da compra.

Consumir libera altas doses de endorfinas. Consumir afoga mágoas. Consumir “amplia” a visão de mundo. Tiramos a visão dos problemas e nos fixamos naquilo que está nos seduzindo. Passamos por cima de tristezas infindáveis, a cada vez que enfiamos a mão no bolso, e sacamos a carteira para comprar aquilo que não precisamos, mas naquele momento, parece ser a única coisa no mundo sem a qual não poderemos mais viver.

Por que fazemos isso? Por que nos rendemos a algo cujo prazer dura apenas o instante da posse? Por conta da lavagem cerebral que nos assedia todos os dias, todos os anos, em todos os setores da sociedade organizada, enquanto vivemos.

Engana-se quem pensa que esse assédio é apenas de origem comercial.
Que nada – e antes fosse!

Somos abduzidos por conceitos sociais, por conceitos filosóficos, por conceitos sanitários, por conceitos políticos, por conceitos religiosos, e por outras associações menos óbvias que no fundo querem não apenas o nosso dinheiro, mas também a captura da nossa mente.

Quando digo “conceitos religiosos” não estou me referindo a religiões exóticas ou perturbadoras.

Lamentavelmente, o bom, grande, seguro, antigo, e eterno Cristianismo é hoje o veículo das maiores investidas desferidas contra nós. Os “gurus do cristianismo” trabalham com um instrumento de grande poder: a salvação das nossas almas.

Quem não sabe que precisa de Jesus para se salvar? Todos sabemos. Não há nenhum outro nome, e nenhum outro homem na face da terra, que tenha vencido a morte e voltado para assumir que pode salvar todo aquele que nele crê. Ninguém teve coragem de reivindicar isso. Só Jesus.

Sabendo disso os “gurus do cristianismo” lançam os seus tentáculos infalíveis contra a plebe ignara, faturando como depositários da fé, e explorando todas as leis do Antigo Testamento, -feitas para os judeus e não para os cristãos, – como se fôssemos judeus e não cristãos.

Essa profissão vantajosa rende status, posição e dinheiro. Muito dinheiro. Basta olhar para a vida dos assim chamados pastores midiáticos, incensados por programas de televisão e por seguidores que mal leem a Bíblia.

Coincidentemente, quanto mais sucumbe ao mercado de lavagem cerebral, mais o homem se percebe vazio, pequeno, carente de graça, e mais se torna presa fácil da sociedade e de seus conceitos estatutários. Estabelece-se um circulo vicioso.

Nesse rastro entram os partidos políticos, as organizações societárias, as estruturas que nasceram para atender as brechas das necessidades fundamentais do ser humano com educação, saúde, segurança, cultura, entretenimento, e sobretudo, pertencimento. O homem é um ser que adora pertencer. Depois dele vem o cachorro.

Tudo o que a gente imagina, e tudo o que nos rodeia, se vale da prática da lavagem cerebral sobre a humanidade e sobre nós.

Aqui no Brasil temos visto o fenômeno da religiosidade partidária promovida pelas ideologias de esquerda. É de praxe fazer um catecismo, mas a esquerda se especializou de forma que se encontra anos-luz na frente das outras ideologias.

Não importa quanta corrupção e quanta bandidagem haja no seio desses partidos, sempre haverá multidões dispostas a lutar, defender, arrumar discussões infindáveis e brigar por tratados enganosos de justiça social. Quando percebem a mais leve sombra de discordância ou de censura ao partidão, pulam como bonecos de mola.

O que impede pessoas de bom nível cultural enxergarem a corrupção e a roubalheira que se escondem nesse ninho? A lavagem cerebral. Funciona? E como funciona! A lavagem cerebral coloca as inteligências no bolso da insensatez e da mediocridade comum a todos os níveis de escolaridade.

Ela não apenas ajunta, como também separa. Faz parecer que a humanidade deve ser contida dentro dos bolsões de seus credos fundamentais. Rotulada por seus estatutos. Por isso, proliferam os estatutos. Quanto mais leis, mais muros delimitando a humanidade catequizada. Ouso dizer que estamos há tanto tempo nessa toada robótica que não saberíamos mais viver sem lavagem cerebral.

Ficaria um vazio.
Uma ausência de centro.
Um oceano sem limites de força gravitacional.
Uma massa sem forma.

Sem os donos da verdade teríamos que construir a nossa própria verdade priorizando a individualidade, promovendo a unicidade essencial do ser consigo mesmo, rompendo os laços do pertencimento a qualquer preço que faz partidários de um mesmo clube de futebol, de um mesmo credo político, de uma mesma denominação religiosa, de uma mesma escola de samba, de um mesmo gênero musical, de uma mesma seara, de um mesmo rebanho, sem o exercício da contestação e da dúvida.

Isso dá um trabalho!
Poucos querem!
A maioria esperneia até diante de um artigo como esse.
Que venham as críticas!

Os poucos que despertarem com as fagulhas que este texto produzir, ficarão silenciosos, e me farão pensar que este artigo valeu a pena.

Da coragem de partir

Da coragem de partir

Imagem de capa: Bogdan Sonjachnyj/shutterstock

“Portanto, nem todo contato é saudável, nem toda fuga é doentia. Uma das características do neurótico é não poder fazer bom contato, nem organizar sua fuga.” Fritz Perls

Existe uma linha tênue entre a escolha de permanecer e a coragem de partir, muitas vezes é difícil mapear racionalmente os motivos que nos fazem ficar em uma relação que se mostra disfuncional ou tóxica. Dentro da abordagem da Gestalt-terapia, sempre que permanecemos em uma situação, mesmo reconhecendo que ela não é saudável, é porque existe alguma necessidade sendo suprida em tal dinâmica. O que acontece em um estado de neurose, ou quando estamos dessensibilizados, é que muitas vezes não conseguimos reconhecer essa necessidade para supri-la da melhor forma. Entendemos, de alguma maneira, que temos que ir, mas não conseguimos entrar em contato com o que nos faz ficar, e assim ficamos paralisados, imóveis, sem a capacidade de tomarmos escolhas mais saudáveis para nós mesmos.

Na tentativa de justificar a covardia que nos paralisa e corrói, contamo-nos histórias e meias verdades que, geralmente, começam com uma promessa ilusória de que o amor tudo deve suportar, de que amor verdadeiro é incondicional. Assim, aceitamos as migalhas que nos são jogadas e o pouco, muito pouco, que se torna cada vez mais escasso. Enquanto vivemos do pouco que nos é dado, aniquilamos toda riqueza e toda grandeza que existe em sermos capazes de escolher, para nós, caminhos mais harmoniosos e saudáveis, de troca e crescimento, de assumirmos as verdades de nossas fraquezas e necessidades não ou mal supridas, de sermos responsáveis por buscar supri-las de maneiras mais autênticas e menos caóticas.

Como muitos relacionamentos estão fundados nos frangalhos que damos e recebemos, temos uma falsa impressão de que a escassez é normal. Para nós, mulheres, um agravante: somos criadas para tudo suportar, para sermos tolerantes, para nos adequar. A sociedade patriarcal faz questão de nos lembrar, durante todas as fases de nosso crescimento, da importância da adequação, de anulação, de ficarmos caladas – ou homem nenhum vai nos amar ou tolerar.

O que ninguém menciona é que nós também não gostamos de diversas coisas nos homens, mas, ao contrário deles, somos o tempo todo convidadas a tolerá-las. E o custo é alto: adequamo-nos, podamo-nos e nos diminuímos para caber dentro de uma dinâmica de relacionamento que não contempla nem metade de nossa grandeza. Na solidão das dores que brotam de um viver tentando se adequar – mas sempre se sentindo inadequada –, nossa alma clama por aceitação e liberdade.

Fritz Perls, um dos pensadores da Gestalt-terapia, falou sobre essa adequação e como a necessidade dela acaba com o ser humano autêntico, que é funcional para seu meio. Segundo ele: “Quanto mais a sociedade exige que o indivíduo corresponda aos seus conceitos e ideias, menos eficientemente ele consegue funcionar”. Ou seja, a exigência de adequação aniquila a possibilidade de vivermos uma vida mais autêntica e gera neurose. Não é à toa que estamos vivendo tempos com o maior número de transtornos mentais e neuroses da história da humanidade.

Então, mais do que se adequar, é preciso ter coragem para partir. Partir quando o pouco é quase nada, quando o outro não consegue enxergar a beleza que existe em nossa inadequação. Quanta essência existe em nossa indignação; quanta autenticidade vive em nossa frustração; quanta liberdade habita em um grito de basta!

É preciso coragem para partir antes que nos partam, para seguir quando o outro traz à tona apenas o pior de nós, quando a alma está cansada de adequar-se, de tudo suportar. Não, o amor verdadeiro não é incondicional, nem tudo tolera. Ele é exigente, provoca-nos, instiga e questiona, para que a gente se sinta vulnerável, desconfortável e inadequado. E para que a gente sinta quanta vida brota da nossa inadequação. Amor também é feito de limites. E, quando uma relação nos exige medir as palavras, autocontrole e adequação é quando entendemos: é preciso ter coragem e saúde emocional para organizar nossa fuga e partir.

Confiança não é um sentimento que você encontra em qualquer esquina

Confiança não é um sentimento que você encontra em qualquer esquina

Imagem de capa: Hrecheniuk Oleksii, Shutterstock

Não adianta dizer que ela depende do outro. Muito menos, não funciona esperar que ela brote nos primeiros encontros. Confiança não é um sentimento que você encontra em qualquer esquina. Confiança é uma atitude ampla que demanda disposição de quem chega e de quem ali já está.

Você não pode pedir provas. Provas não existem. Expectativas são superestimadas. Confiança é o nome que a gente dá para quando alguém deposita tempo, ouvidos e coração para os nossos anseios. Não deveria ser assim. Relacionamentos devem ser mútuos.

Enganam-se os que acham que a confiança acontece num passe de mágica. Mas ela também não acontece necessariamente ao longo de um grande período de tempo. Mensurar atitudes é, antes de tudo, entregar sinceridade. Afinal, como esperar que alguém confie em você sem que inteiros sejam demonstrados?

Confiança não é para quem pensa em metades, aviso. Mas calma. Ninguém precisa sair por aí contando todos os segredos e expondo passados, presentes e futuros. Confiança não tem a ver com dividir tudo o que se passa na cabeça. Quem confia e quer confiar, acima de tudo respeita o individualismo.

Trocando em dizeres simples, confiança é sobre despertar o melhor de você. É assim que uma relação torna-se recíproca, quando ninguém precisa estipular barreiras entre o que se sente e o que se diz.

Por isso que você não mais encontra confiança em qualquer esquina. Temos medo de sermos. E quando temos medo, o do tipo que trava e nos impede de seguirmos em frente, desconfiamos. Mas sabemos, essa história de confiar desconfiando é uma conversa fiada que nos mantém reféns. Confiança é liberdade para sentir.

Em tempo, sinceridade e dizer a verdade não é a mesma coisa

Em tempo, sinceridade e dizer a verdade não é a mesma coisa

Você pode alegar dizer a verdade o quanto quiser, é seu direito, afinal. Mas não confunda com sinceridade. Porque, enquanto dizer a verdade envolve uma opinião, expressar sinceridade requer abandonar qualquer julgamento para entregar respeito e, principalmente, empatia.

Em tempos onde todos temos a liberdade de dizer o que pensamos, muitas vezes substituímos o discurso de não agir como gostaríamos de sermos tratados por uma estupidez baseada em nada menos que ego. Falar a verdade, implica em dosar palavras. Não dá para chegar e soltar o verbo e não esperar fogo contra fogo. Verdades são perspectivas individuais, conforme experiências vividas. Elas não podem ser encaradas como caminhos que seguem em linha reta, sem mudanças. Assumir que a sua verdade pode não caber para o outro demonstra autoconhecimento.

Já no caso de escolher a sinceridade, você entende que, para proclamar carinho, é necessário despir-se de medos e traumas passados, de modo a encontrar confiança e completude nas relações com outras pessoas. Mas é também sobre reivindicar amor próprio porque, sem ele, nada acontece. Independente do sentimento acolhido.

Portanto, dizer a verdade tem a ver com o que você acha certo, e não necessariamente com o que é certo. E sinceridade é não brigar quanto a isso. É não disputar o que se sente. Seja por você ou por qualquer envolvimento criado. Sinceridade é, no fim das contas, dizer a verdade através do coração e não da razão. Daí sim, você pode agir dessa forma sempre que puder. O respeito agradece e a empatia fica em um longo abraço.

Imagem de capa: Corações em Conflito (2009) – Dir. Lukas Moodysson

Moana – um mar de emoções

Moana – um mar de emoções

Imagens: foto divulgação Disney.

A animação Moana mostra uma heroína que tem sido bem típica nas animações da Disney pelo fato de não terminar com um príncipe e não se casar ao final.

Esse tema da princesa sem príncipe tem sido bem comum e vem para agradar as mulheres em seu recente processo de empoderamento. Se por um lado isso reflete a necessidade da mulher atual em buscar e afirmar sua identidade tão reprimida ao longo dos séculos, por outro transformou certos aspectos da personalidade antes valorizados em verdadeiros tabus. Expressar o desejo de se casar ou encontrar o amor é quase uma ofensa para a mulher moderna.

No entanto, não é esse assunto que quero abordar nesse texto. Algo maior e de importância coletiva surgiu como tema central em Moana, e é sobre isso que pretendo escrever esse texto.

Não que a questão da afirmação da personalidade feminina não seja importante, mas o tema que a animação trouxe é de uma importância coletiva para as mulheres e para a sociedade contemporânea.

A animação começa contando uma lenda sobre a grande deusa Te Fiti. A deusa, que havia criado toda a vida na Terra e se tornou uma ilha, teve seu coração – uma pequena pedra pounamu – roubado pelo semideus Maui .Aparentemente a intenção dele era encontrar o monstro de lava Te Ka, porém o monstro faz com que seu anzol mágico e o coração desapareçam no oceano. Por causa do coração roubado, as ilhas que Te Fiti criou foram amaldiçoadas.

A animação tem como base a mitologia polinésia. O semideus Maui está presente no panteão polinésio e é utilizado na história. É interessante que a Disney tenha se apoiado em uma mitologia e cultura antiga e pouco conhecida pela sociedade ocidental.

A cultura polinésia é pautada por uma ligação entre o homem e a natureza muito intensa. Mesmo que a Disney retrate a cultura polinésia de forma simplificada, esse pequeno contato serve como porta de entrada para o conhecimento de uma cultura e mitologia perdidos.

No início da animação vemos o povo da ilha Motuni sendo retratado. Trata-se de uma sociedade tribal, onde as pessoas possuem uma relação de muito respeito com a natureza, pois dependem dela para viver.

É intrigante a escolha de um povo tribal, que zela e preza pela natureza e que ao mesmo tempo adora uma Deusa Mãe criadora. Se trata de uma sociedade e cultura oposta a Ocidental patriarcal, que valoriza a exploração dos recursos naturais e prol do desenvolvimento tecnológico, e que se encontra sob o estigma do Deus pai judaico-cristão.

A animação então, vem trazer uma compensação para a Consciência Coletiva, de forma a tentar o equilíbrio entre essas duas polaridades matriarcal/patriarcal.

Conforme Edinger (1993), a sociedade ocidental já não possui um mito viável, que sustente nossa necessidade intrínseca de estarmos imbuídos em um mito. Sem esse mito estruturante, o indivíduo perde a razão de ser. Por essa razão temos hoje uma epidemia de depressão, ansiedade e pânico, nos grandes centros.

Com a carência de mitos nossos valores são substituídos por motivações elementares de poder e prazer, ou então o indivíduo é exposto ao vazio existencial e ao desespero. Por isso, há uma necessidade urgente da descoberta de um mito central.

Von Franz (2010) também aponta que em nossa sociedade ocidental judaico cristã, de tradição estritamente patriarcal, não existe imagem arquetípica da mulher. O resultado é que a mulher, o feminino, o matriarcal e a anima são negligenciados e incompreendidos.

Com isso as mulheres se tornaram incertas com o que é ser feminina, não sabem o que são nem o que poderiam ser.

Atualmente, para as mentes mais reflexivas essa atitude unilateral não faz mais sentido e vem trazendo mais malefícios do que benefícios. Uma nova revisão dos valores se faz necessária. Cada dia mais crescem os movimentos de defesa da natureza. A consciência ecológica cresce cada dia mais, bem como os questionamentos e a importância do que é a essência feminina.

A Deusa Te Fiti na animação é a grande Deusa da natureza e a criadora de tudo. Ela possui a capacidade de gerar a vida em torno dela. É a responsável pelo crescimento das plantas de todos os tamanhos e pode manipular o terreno ao redor de seu corpo. Com o coração dela, ela pode criar outras ilhas repletas de flora e fauna e afetar esses elementos de longe.

A Deusa Te Fiti não está no panteão polinésio, mas parece ser uma representante de Gaia, a deusa grega primordial da Terra. Podemos observar, então, características de uma sociedade matriarcal. Diante desse contexto não há nenhuma novidade no fato de Moana ser a nova líder do povo.

As sociedades matriarcais valorizavam o cultivo da terra e os alimentos por ela proporcionados. Os povos agrícolas vivam em um estado de fusão com a natureza, como sendo integrantes desse todo.
Havia, nesses povos, a predominância da terra e da vegetação. E a terra e a natureza, como fontes de fertilidade e alimento, bem como de morte e também como aquela que devora os filhos.

A Deusa para esses povos eram a fonte de fertilidade e o masculino era sempre subserviente dela. Eles não acreditavam e não sabiam que o homem tinha participação na reprodução. Sua função era só romper o hímem para a passagem da criança (Harding, 2007).

Além disso, era incumbência da mulher cuidar dos assuntos relativos ao suprimento de alimento, exceto a caça e abatimento de presas. Elas colhiam frutas, ervas, raízes e as preparavam para comer. Plantar, cultivar e colher eram tarefas femininas essencialmente.
Acreditava-se que a mulher fazia com que as coisas frutificassem e crescessem devido a sua capacidade de gerar crianças e de ter seus ciclos hormonais em relação direta com a Lua – fonte de fertilidade. Com isso, o feminino sempre foi visto mais próximo a natureza e aos processos corporais.

Ao desenvolvermos então o aspecto patriarcal da psique coletiva, perdemos a ligação com o corpo e consequentemente com a natureza. Nos separamos dela e passamos a enxerga-la como fonte de exploração para o ego humano. Privilegiamos o mental e deixamos o emocional e instintivo de lado.

contioutra.com - Moana - um mar de emoções

Hoje sentimos novamente essa necessidade de nos reaproximarmos desse lado matriarcal. Urgentemente precisamos encontrar um equilíbrio entre essas duas forças. Vemos esse apelo emocional na animação, que resgata e traz à tona esse nosso lado esquecido.
Moana é então escolhida pelo mar para a jornada de resgate do coração de Te Fiti.

O mar para a psicologia analítica simboliza o útero de onde surge toda vida. Deuses do mar como Posídon são considerados deuses ctônicos e estão ligados a Grande Mãe e aos aspectos da natureza de doador de vida e alimento e destruidor da vida.

O fato de termos a Deusa como centro vital da animação e o de ser uma garota escolhida para essa jornada chama bastante a atenção. A tendência de uma divindade encarnar em um filho não é algo desconhecido e revelou-se no cristianismo. A encarnação de Deus no Cristo foi vivida como uma experiência religiosa coletiva de enorme alcance (Von Franz).

Mas a tendência da antiga deusa – mãe de encarnar em uma filha ainda não se realizou. Assim a imagem do feminino em sua totalidade ainda não alcançou o humano e a consciência, temos apenas vestígios disso.

O culto a Deusa foi reprimido com o advento do Cristianismo. Isso aconteceu em partes, pois a força de um arquétipo é muito forte, e ocorreu a reaparição da deusa na Virgem Maria, com a subsequente devoção. Contudo essa imagem feminina veio para a nós com sérias restrições. A imagem feminina precisou ser retratada purificada de sua sombra e de forma que agradasse o patriarcado. A sombra da Deusa então, ainda não fez sua reaparição em nossa sociedade.

Contudo, essa reaparição parece ser uma necessidade emocional muito forte e algo iminente de ocorrer. Vemos algumas animações que trazem heroínas que representam “filhas” de deusas antigas. Em Valente vemos uma representante da deusa Artemis em Merida, em Mulan a heroína pode ser considerada uma representante de Atena, a deusa da guerra. Moana também pode se encaixar nessa categoria.

Ela representa a jornada da heroína escolhida para humanizar esses aspectos sombrios da antiga Deusa e assim deixando viável a assimilação desses conteúdos para a consciência. Vemos na animação que o coração da deusa é roubado e ela se vinga se transformando no monstro Te Ka, retirando toda a vida e alimentação.

Esse tema da vingança da deusa é recorrente nos mitos antigos. Demeter outra deusa da fertilidade, se vingou com a esterilidade da terra ao ter sua filha roubada e sequestrada. Hera era a rainha da vingança. Afrodite se vingava quando deixava de ser adorada ou quando alguma humana lhe suplantava em beleza. Atena e Ártemis também possuem episódios de vingança.

A vingança feminina é um dos aspectos da Deusa feminino que está ausente da consciência. As mulheres conhecem esse sentimento muito bem, mas não o aceitam e por isso lidam mal com ele. Pois se prega a benevolência feminina.

Para finalizar é importante falar sobre Maui.
Maui na mitologia polinésia é um Herói trapaceiro, conhecido por suas aventuras extravagantes e sobrenaturais. Sua lenda diz que ele era um humano nativo das ilhas do Havaí.

Sua mãe, o achava fraco ao nascer e preferiu afogá-lo. Maui, porém, sobreviveu às ondas, foi salvo pelo Sol e tornou-se um homem extremamente forte, sem medo em seu coração, um semi-deus. Em uma de suas aventuras, ele vai ao submundo atrás da deusa da morte para conseguir a imortalidade, mas é morto por ela. Diz – se que por causa dessa transgressão a humanidade perdeu a imortalidade.

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Outra aventura de Maui é o furto do fogo e a posterior entrega para os seres humanos que passaram a utilizar a madeira para fazer fogo.
Na animação isso se repete de uma forma diferente. Ele rouba o coração de Te Fiti para entregar aos humanos. Na lenda como no filme e ele é uma espécie de Prometeu que rouba algo para a humanidade e é posteriormente punido.

Maui simboliza a exploração da natureza em prol do desenvolvimento da humanidade. Pretendemos nos igualar aos deuses para sermos imortais, exploramos a natureza em busca de remédios e imortalidade, mas com isso somos punidos cada vez mais por ela. A natureza vem cobrar seu preço e sua vingança.

Sua relação com Moana se desenvolve em uma amizade profunda e duradoura. Algo que se perdeu nas relações aqui é resgatado na relação de Moana e Maui – a amorosidade. A relação entre eles se constrói no conhecimento das fraquezas e virtudes um do outro. Maui e Moana estabelecem um equilíbrio harmônico e desprovido de competição entre masculino e feminino que precisamos encontrar.

A amorosidade, característica do feminino precisa ser resgatada em todas as relações. O amor fraterno ou o romântico se constrói com isso e somente após as projeções serem retiradas. Mas é necessária paciência nesse processo. Não sabemos amar, pensamos que amamos, só saberemos quando aprendermos a construir isso na amorosidade.

Cuidado: quem sempre joga para ganhar, nem sempre joga limpo

Cuidado: quem sempre joga para ganhar, nem sempre joga limpo

Imagem de capa: nuvolanevicata/shutterstock

Parece inacreditável, mas existe uma síndrome denominada “síndrome de dom-juanismo” ou compulsão por sedução. Caracterizada como um transtorno baseado na ação compulsiva por sedução e no envolvimento emocional, a síndrome determina o tempo (curto) de poucos relacionamentos e é responsável por muitas feridas abertas da alma.

Lembram de “Dom Juan de Marco”? Pois bem, a denominação da síndrome é baseada nas atitudes do próprio protagonista. Logo no começo do filme, Dom Juan usa uma frase que explica bem suas atitudes e o que o motiva a conquistar: “Toda mulher é um mistério a ser desvendado, mas uma mulher nada esconde, de um amante verdadeiro”.

Atingindo homens e mulheres, as pessoas que possuem essa síndrome possuem características específicas de comportamento: são sedutoras ao extremo, gentis e têm como alvo pessoas “difíceis” ou “proibidas” de serem alcançadas.

Apaixonantes, deixam os outros encantados e, logo que percebem que conquistaram o que queriam abandonam o barco. Para eles, não existe sentimentos, nem envolvimentos emocionais. Há apenas uma busca, onde a conquista é a caça e o conquistador o caçador. Para eles é tudo ou nada. O “não” é visto como um desafio e quanto mais empecilhos tiver na história, melhor.

Imagino que, a essa altura, você tenha listado os nomes dos seus antigos relacionamentos atribuindo a eles todas as características dessa síndrome. Calma! Não é porque a pessoa sumiu do mapa que ela possui a síndrome. As pessoas perdem o interesse, o sentimento acaba, a paixão esfria e isso é normal.

Na verdade, não dá para entrar na neura de que só encontraremos pessoas assim. Se assim fosse, viveríamos em uma ilha com poucas pessoas. Precisamos da convivência, do afeto, do compartilhamento de ideias. Se o outro for uma pessoa má e egoísta, o problema é dele. Se ele fizer mal a você, o problema é seu.

Ninguém está livre de conhecer alguém assim. Na verdade, é bem provável que já tenhamos conhecido alguns. Mas não dá para ficar lamentando o mau caráter dos outros. As pessoas só nos machucam quando permitimos.

Não se cegue diante dos fatos. Não confie em quem ainda não conquistou sua confiança e não acredite em todos os elogios. É sempre bom lembrar que as pessoas se revelam pelas atitudes e não pelo que falam.

Você não precisa de galanteios para se sentir importante, nem de alguém para dizer o quanto é especial. O seu valor vem de dentro e não da opinião alheia. Entenda que estar com alguém deve ser uma opção e o que, realmente, importa é o que você quer para sua vida e não o que estão te oferecendo.

Existem mais pessoas boas do que más e elas fazem tudo valer a pena. Não desacredite no amor por causa dos maus. Cure-se quando te machucarem, feche seus ciclos para começar os novos e amadureça. A dor só terá importância, se você der esse poder a ela.

A vítima oportuna é poderosa e perigosa!

A vítima oportuna é poderosa e perigosa!

Imagem de capa: Photosebia/shutterstock

A vítima é sempre credora de algo. Desde um pedido de perdão até mesmo uma reparação pública. Na maior parte das vezes é a justiça atuando para deixar tudo no zero a zero novamente.

Mas o hábito de se fazer vítima em qualquer situação é pra lá de diferente das vítimas alheias à sua própria vontade. A vítima oportuna quer a atenção, a piedade, a preocupação, e, se possível, todas as reparações imagináveis. Justas ou não.

A vítima oportuna se veste de humilhação, se cobre com melindres e caminha pela estrada de lamentos e ladainhas. Mas não é fraca, não é humilde, não é inocente.

É cheia de poder e acumula créditos. É intocável porque é vítima. É credora porque lhe devem. É manipuladora pela voz que invoca piedade.

E quando algo parece não funcionar, ainda restam as lágrimas. As lágrimas que desarmam muitos e bons argumentos, que lavam e levam embora boa parte da razão, que derretem decisões e deixam arrependimentos espalhados como poças depois da chuva.

A vítima oportuna atua com as ferramentas que possui e vai construindo suas muralhas, até o ponto de ficar totalmente inacessível. Ceder às suas queixas é conceder-lhe cada vez mais poder.

É importante ser sensível aos dramas alheios, é essencial praticar a empatia, mas é absolutamente imprescindível tomar posição firme junto às vítimas oportunas. Não há liberdade nessas relações, a vítima é quem comanda, ainda que aparentemente ferida ou paralisada.

Quem quer ter boa relação com o mundo, com as pessoas e com a vida, precisa ter os olhos abertos para as vítimas oportunas. Boas intenções são como iscas que as atraem. Elas sabem que boas intenções não apertam o botão da desconfiança com facilidade.

São vítimas de si mesmas, ardilosas, criativas, golpistas. Vítimas que não se comprometem com nada já que são vítimas e vivem passivamente, aguardando chances para se agarrarem.

Em todos os casos, ao reconhecer uma vítima oportuna, não dê a ela a oportunidade de fazer moradia nas suas ocupações.

O Alienista: Machado de Assis e a “Loucura”

O Alienista: Machado de Assis e a “Loucura”

A razão necessita da loucura para existir propriamente enquanto razão, de modo que é preciso definir o caminho a não seguir para que se crie os muros de proteção da sanidade.

Ao longo do século XIX, a ciência se desenvolveu muito, promovendo, assim, um grande progresso para a sociedade. Nesse contexto, temos o erigimento de correntes de pensamento, como, por exemplo, o Positivismo.

Este acreditava que aquele progresso visto na sociedade, a partir das descobertas científicas, levariam aquela a um grau inigualável de desenvolvimento. Isto é, passa-se a ter nesse momento uma crença total na ciência e na razão como forças máximas e absolutas, axiomas inquestionáveis responsáveis por levar a sociedade a um estágio superior.

Nesse mesmo contexto, surge a obra “O Alienista” do bruxo do Cosme velho, Machado de Assis. Na obra, com todas as características machadianas: ironia, ceticismo, metáforas, etc.; temos a construção de uma crítica ao saber que estava se formando e, consequentemente, suas imbricações. Obviamente, o livro possui inúmeras interpretações, haja vista a sua riqueza. Entretanto, vamos nos ater ao porquê da crítica de Machado ao cientificismo da época e a relação desta com a loucura apresentada no conto.

Todo saber que se pretende universal e absoluto, ou seja, sem direito a contestações e outras interpretações, é perigoso, pois desconsidera a pluralidade humana e, por conseguinte, a subjetividade de cada um, o que pode acarretar análises amplas e distintas acerca das coisas. Como um homem à frente do seu tempo, Machado conseguiu perceber isso de forma muito clara e, dessa maneira, uma história que satiriza e demonstra os perigos de se estabelecer um saber centralizado e absoluto que reina como um déspota.

Ao estabelecer verdades absolutas a partir de um único ponto de vista, cria-se um sistema determinista, já que há o enquadramento de todos os agentes sociais dentro do mesmo prisma. Vale ressaltar que o Positivismo e teorias como o Darwinismo social consideravam que existiam pontos de maior e menor evolução na sociedade, sendo os europeus o povo mais evoluído e civilizado, ao passo que africanos, asiáticos e americanos eram povos menos evoluídos e atrasados.

Cabia, assim, ao homem branco europeu a missão civilizatória de levar luz a sociedades que viviam em trevas. Era o “fardo do homem branco”, assumido com muita “coragem” e responsável por milhares de mortes e arbitrariedades, as quais pretendem-se inimagináveis no Estado Democrático de Direito.

Desse modo, observa-se que o saber científico que elevaria a sociedade mundial ao grau máximo de desenvolvimento, tornou-se propagadora de ideias segregacionistas, racistas e violentas contra o homem, contrassenso de qualquer evolução que se pretenda. Apesar de teoricamente superado, esse pensamento ainda possui resquícios na contemporaneidade e influencia o comportamento atual, vide o racismo e a intolerância religiosa (temas, inclusive, do Enem em 2016, o que ratifica a sua atualidade).

Posto isso, há de se considerar o caráter visionário de Machado, percebendo precocemente falhas naquele sistema, que à época era admirado por todos.

O grande problema do saber criticado por Machado e, de qualquer outro que se pretenda axiomático, reside na sua incapacidade de relativizar as problemáticas. Ou seja, na impossibilidade de considerar que possam existir outras verdades, outros pontos de vista, outras interpretações para a mesma questão. Tudo se torna mecânico, padronizado, dogmatizado, resguardando a um juiz o arbítrio de tudo segundo a sua cosmovisão e sem direito a salvaguardas. Esse juiz na obra é Simão Bacamarte, o alienista, que determina o certo e o errado, o normal e o anormal, a sanidade e a loucura.

A loucura era o diagnóstico de todos os que não estavam no momento enquadrados no padrão de sanidade. A loucura, então, é utilizada no conto não apenas para satirizar as falhas do saber científico absoluto, mas também para demonstrar o segregacionismo provocado pelas verdades absolutas, em que por meio do arbítrio do sistema dominante há o julgamento e a separação entre os sãos e os loucos. Dessa forma, os loucos são os inadequados sociais, uma vez que basta o sujeito se enquadrar em um perfil de comportamento desviante determinado pelo médico para ser considerado louco e, consequentemente, ser internado.

É, portanto, a loucura o afastamento de uma norma psicossocial estabelecida, de modo que basta que o sujeito se afaste dela para ser reconhecido como louco. Em outras palavras, o diagnóstico se dá sempre em relação a uma ordem de normalidade, no caso do livro, esta é determinada pelo alienista. Ainda nesse sentido, Foucault diz que a razão necessita da loucura para existir propriamente enquanto razão. Ou seja, é preciso definir o caminho a não seguir para que se crie os muros de proteção da sanidade.

Assim sendo, a loucura no conto é utilizada por Machado para satirizar o cientificismo e demonstrar que a “loucura”, nesse prisma, é determinada de forma arbitrária por alguém investido de um poder absoluto, valendo destaque rapidamente nesse ponto (daria um outro texto) para o verbo “investir”, uma vez que o Dr. Bacamarte recebia da câmara a autoridade para os seus desmandos, demonstrando a imbricação que existiu e existe entre o saber científico (sentido amplo) e a ordem política, em uma relação de troca de legitimidade e normatização.

Ao criar uma obra tão rica, Machado vai além de seu tempo e se contextualizado para a contemporaneidade, percebe-se que ainda persistem sistemas que se pretendem ou se estruturam como verdades absolutas, em que a loucura é o diagnóstico definitivo para os que não se encaixam ou questionam a ordem estabelecida, como acontece na sociedade de consumo e seus inúmeros protocolos que devem ser seguidos à risca, afinal, há sempre Simões Bacamartes prontos para trancafiar os perturbadores da ordem em uma casa verde, a fim de evidenciar a loucura existente nestes.

No fim da obra, o alienista, então responsável por detectar os doentes e libertá-los do seu estado de alienação, acaba chegando à conclusão de que ele era o louco, o alienado, e trancafia-se na casa verde. Mas, se, como disse, os Doutores Bacamartes permanecem, há de convir que ser atestado como louco é o maior sinal de sanidade.

A imagem de capa é uma ilustração de Fábio Moon e Gabriel Bá para o livro “O Alienista”, da editora Agir. O trabalho rendeu o prêmio Jabuti de melhor livro paradidático em 2007.

Como deixar de lado alguém que você quer do lado?

Como deixar de lado alguém que você quer do lado?

Imagem de capa:Robsonphoto/shutterstock

Como deixar de lado alguém que você queria ao seu lado para contar como foi o seu dia e como o metrô ou o “busão” estava lotado? Contar que esqueceu as chaves em casa e que vive quebrando tudo.

Aquela vontade de dividir as tragédias do dia-a-dia e que, na noite passada, ao acordar de madrugada, esbarrou em algo e, na tentativa de não deixar aquele objeto cair, acabou quebrando a casa toda e todo mundo acordou, o que não era o seu intuito (risos).

Como deixar de lado alguém em quem você pensa o dia todo, sente saudade e morre de vontade de mandar uma mensagem, perguntando como está sendo a semana, como anda aquele probleminha do trabalho? Como deixar de lado o “boa noite” engasgado, a saudade que invade logo pela manhã?

Como deixar para trás os planos, os segredos, os momentos? Como apagar da memória quem persiste em estar em nossos pensamentos? Como é difícil deixar de lado quem sempre caminhou com a gente. Para qual abraço se refugiar, no final do dia, cansado?

É difícil, eu sei, mas, às vezes, é preciso deixar de lado quem não nos quer mais por perto, quem não dá valor à nossa presença e quem não se importa com as nossas dores. Por mais difícil que seja deixar de lado quem gostaríamos de continuar andando de mãos dadas, é necessário entender que deixar ir, às vezes, é uma forma de não nos machucarmos ainda mais.

Por mais que o fim doa e a saudade nos esmague, uma historia repleta de zigue-zagues só nos fere. É difícil, eu sei, deixar de lado quem era sua risada mais gostosa, seu café mais quentinho. Quem era a primeira pessoa a saber das suas conquistas e também das suas derrotas.

Parece ser uma tarefa tão difícil, mas o problema é que focamos em entender tudo, perdemos tempo demais tentando entender os porquês de quem foi embora sem se importar com a dor que causaria em nós.

De alguém que se foi sem olhar para trás, apagando toda a história que insistimos em relembrar, todos os dias. De quem nos pede para “tocarmos a vida” e esquecer de vez. Tentamos achar respostas que expliquem o porquê de ter dado errado e buscamos, em nossa memória, em que ponto falhamos.

E, nisso tudo, enquanto buscamos entender aquilo que não pode ser explicado, deixamos de viver, enquanto o outro segue sua vida normalmente sem nós. Depositamos nossa felicidade nas mãos de quem não se importa mais com esse lance de nos fazer felizes.

É difícil deixar de lado quem queríamos ao nosso lado, entretanto, mais difícil ainda, como diz Zack Magiezi, “é morar sozinho em uma história de amor.”

Na minha infância, nossa rede social era a rua

Na minha infância, nossa rede social era a rua

Não existe quem, a certa altura da vida, não comece a nutrir saudosismo em relação à sua época de infância, de adolescência, de juventude. O tempo traz muita coisa boa, arruma, ajusta, acerta as contas e vem impregnado de saudades – saudades do que se viveu, do que se fez, dos gostos, dos cheiros, das cores, de gente. Nossas vidas são especiais e, por isso mesmo, permanecem junto a nós, aqui dentro, sempre e para sempre.

Quantas pessoas fazem parte da nossa jornada e vão embora, muitas vezes para nunca mais, e, mesmo assim, tornam-se inesquecíveis? Professores, colegas de escola, de rua, de clube, familiares, vizinhos, enfim, sempre sorriremos ao nos lembrarmos de gente querida que passou por nós e deixou magia conosco. Sempre teremos de seguir faltando um pedaço, com lembranças apertadas de quem nos tocou fundo o coração.

Lugares, casas de avós, lares, salas de aula, sítios, muitos ambientes preencherão nossas vidas, muitos deles ficando impressos em nossas almas. Quem nunca sentiu um cheiro, como de grama molhada, que evoca as mais tenras lembranças de algum lugar que volta dentro de nós, trazendo nitidamente cada canto, cada sofá, cada janela, cada recanto de jardim por onde fomos felizes, onde a alegria então era uma constante?

E, embora a infância passe rapidamente – enquanto, tolamente, somos crianças ansiando por nos tornarmos adultos -, ela nos deixa recordações do tamanho do mundo, como se uma vida toda não fosse suficiente para aquilo tudo. A gente brincava na rua, sem medo, e a gente se virava com muito pouco – umas latinhas vazias, algumas bolinhas de gude, um pedaço de corda -, a gente era feliz por dentro, não importando a riqueza lá de fora.

Na verdade, embora nós sempre achemos que o nosso ontem foi o melhor, que nossas lembranças são mais especiais, cada pessoa levará sempre consigo recordações mágicas, lembrando-se com saudade do que viveu, junto de pessoas que valeram a pena. Porque a gente guarda o que alimenta o coração. Porque a gente leva junto do peito quem compartilhou alegria conosco, mesmo que por pouco tempo. É assim, afinal, que a gente se recarrega diariamente e continua seguindo, em busca de ser feliz, na esperança de reviver tudo o que deixou o nosso caminho mais iluminado.

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Pega leve. Amor nenhum sobrevive a gente chata!

Pega leve. Amor nenhum sobrevive a gente chata!

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O amor suporta cada uma! O tempo, a mágoa, a miséria, a distância, a doença. Até à morte ele resiste. Aguenta firme qualquer tranco. Pode com quase tudo. Poucas coisas o derrubam e sufocam. Gente chata é a primeira delas.

Incrível, mas nada é mais tóxico e daninho ao sentimento amoroso que uma pessoa enfadonha, tediosa, dona da verdade. Por mais saudável e exuberante que seja, todo amor cai doente e desenganado sob o olhar mesquinho de um amante grudento, enciumado e mandão.

Traição e deslealdade ferem o amor de morte. Mas o perdão é um milagroso remédio. Aplicado na dose exata por mãos generosas, faz efeito certo. Agora, contra gente estreita e tediosa, nem o perdão dá jeito. O amor definha e sucumbe sem mais.

Mandões e mandonas que perambulam por aí, berrando que “amor de verdade não acaba”, ordenando sua vontade egoísta feito matracas engasgadas, sequer fazem ideia do número de romances que eles mesmos já mandaram às cucuias. Deles e dos outros, porque a chatice é contagiosa e letal. Temerosos de responder-lhes “e daí se o amor não durar para sempre, ô criatura chata?”, simplesmente vamos embora e deixamos o monstro crescer livre, chateando mundo afora.

Gente chata no amor tem de todo jeito. Os que grudam e os que prendem, os que chantageiam e dramatizam, os engraçadinhos demais e os desprovidos de humor, os que sabem tudo, os sociopatas afeitos em isolar o ser amado do convívio de antigos amigos, os que adoram um papel de vítima, os que falam demais, os que falam de menos, os que imitam voz de bebê e os piores: os infantiloides incapazes de aceitar que o mundo não gira em torno de seus umbigos.

Esses, quando obrigados a encarar a realidade, são capazes de tudo. Inclusive de matar e de morrer. Nesse caso, o que morre não é só o amor. Cada vez mais, morre também quem ousa desobedecer à convicção de um ser insistente, autoritário e convencido de que a única verdade é a sua. Acredite. Gente chata é um perigo maior do que qualquer um imagina.

O que fazer com este vazio que te preenche?

O que fazer com este vazio que te preenche?

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Então, você chegou numa altura da vida em que já conseguiu a maioria das coisas que planejava, ou está bem encaminhado para isso.

Todavia, há um vazio que insiste em te preencher. Você demorou a reconhecer ele… ora parecia ingratidão da sua parte para com tudo o que já tinha, ora parecia que estava perdendo o juízo perfeito das coisas e teve horas até que achou que era a tal da depressão.

Mas, não, investigações feitas, nada grave, ele restou: pura e simplesmente o vazio. O seu dia acaba e você sente que ficou algo por fazer e não é aquela tarefa atrasada, não. Chegou o fim de semana e você não se empolga tanto assim com os lazeres previstos. Você está sentado na mesa do seu trabalho e simplesmente sem empolgação de começar qualquer coisa a ele relacionado.

Você é abençoado com uma vida razoavelmente boa, têm plena consciência disso e valoriza tudo o que o envolve, mas sente que falta alguma coisa. Não sabe o quê. Só sabe que não dá para continuar assim. Que não é simplesmente seguir desta forma que, uma hora dessas, vai ficar tudo bem. Que não quer chegar ao final da vida com essa sensação de incompletude. Que algo precisa ser feito, afinal, nunca se sabe quando é o fim da vida.

Você sente, no seu íntimo, que não é possível que a vida seja apenas trabalhar, pagar contas, conviver com as pessoas, comer, dar uma curtida aqui, outra ali, descansar e começar tudo de novo, ainda que com algumas variações. Isso não faz sentido algum.

Estamos todos aqui, nesse mundo, na nossa vida, nesse momento, por um motivo. Um motivo muito maior, muito divino, muito lindo. Cada um tem o seu propósito, a sua missão, que podem ser as mais diversas possíveis.

Ocorre que não nascemos com manual de instruções para facilitar as coisas. Precisamos descobrir o que nos move, o que nos inspira, o que nos define. Essa caminhada, o do autoconhecimento, faz parte do plano maior.

Uns preenchem muito cedo o seu vazio, antes mesmo de se darem conta da sua existência. Outros morrem sem o ter investigado. Cada um tem o seu momento. Geralmente, quando os eventos externos se aquietam e ficamos frente a frente com nós mesmos. Como, por exemplo, quando conquistamos aquela pessoa, conseguimos aquele emprego “dos sonhos” (dos sonhos de quem mesmo?!), uma vida financeira estável, a melhora da saúde, filhos, ou seja o que for que parecia a grande questão da nossa vida. Daí paramos e pensamos: tá, e agora?! É só isso?! Não existe o felizes para sempre?!

E então ficamos inquietos. Tentamos canalizar essa ansiedade para uma coisa ou outra, mas nada funciona por muito tempo. E não podemos permanecer assim, vazios. Se ainda temos essa sensação, é porque alguma coisa está ali latente, esperando ser explorada. Precisamos nos mexer!

Mas como?! Por onde começar, são muitos os caminhos possíveis!

Primeiro, silenciando e ouvindo seu coração. De forma completamente aberta e livre das intenções e dos julgamentos alheios. Ninguém tem mais legitimidade para escolher o nosso caminho do que nós mesmos.

Pode demorar, podem haver desvios de rota, retrocessos, recomeços, faz parte. O importante é estar em busca, é ser um buscador. Ficar de braços cruzados esperando algo acontecer por si só realmente não vai funcionar…

O universo vai dando pistas, das formas mais improváveis possíveis… Precisamos ficar ligados, todo momento é momento de ir encaixando as peças. E muitos eventos podem nos ajudar, assim como um curso, um livro, um determinado programa de televisão, a fala de um desconhecido na rua, uma música…

Como diz OSHO, “opte por aquilo que faz seu coração vibrar”. O nosso coração é a nossa bússola, que vai indicar se estamos indo para o caminho certo.

Com o tempo, nossa intuição fica mais apurada, e a caminhada rumo à realização começa a ficar mais fácil.

A simples consciência da necessidade de busca do nosso propósito já irá começar a dissolver esse vazio. A busca de sentido, outrossim, nos preencherá de energia para a realização, que virá, mais cedo ou mais tarde. Pode acreditar!

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