Se o parceiro não muda, muda de parceiro

Se o parceiro não muda, muda de parceiro

Parece impossível saber com exatidão o momento exato em que nada mais adiantará, em que tudo já foi feito, dito, revisado, explicitado, em que é hora de sair de um relacionamento que expirou de vez. Queremos dar certo na vida, no trabalho, no amor, por isso nos custa demais terminar com algo definitivamente, porque dói falhar assim, dói demais.

Nós nos apegamos com certa facilidade a coisas, a pessoas, tomando como parte de nossa vida muito do que nem deveria estar junto, mantendo o que machuca, por medo, covardia, por ter que dar satisfações aos outros, ao mundo, enquanto ficamos a cada dia menores, acumulando o vazio de um relacionamento de mão única, amando por dois, pedindo, clamando, doando sem retorno, sem guarida, sem volta.

E os dias vão se passando como nuvem, fugidios, superficiais, carregados de uma ausência doída de afeto e de atenção. E vamos como que nos arrastando, trabalhando, agindo mecanicamente, carentes de ao menos um olhar que retorne sentimento, carentes de abraço, de beijo, de “bom dia” e “boa noite”. A cada dia, ficamos menos gente, vivemos menos amor, ao passo que nutrimos uma falsa e tola esperança de o outro vá mudar – porque a gente já mudou tanto por ele…

Inevitavelmente, chegaremos a um ponto em que já teremos tentado de tudo, já teremos avisado repetidamente, mostrado, já teremos gritado exaustivamente, até terem sido esgotadas todas as forças, todas as possibilidades, todo e qualquer caminho, toda e qualquer tentativa. Sem ânimo, alquebrados, aniquilados emocionalmente, sem ter onde agarrar, tomaremos, então, consciência de que é chegada a hora de sair daquilo tudo, de praticar o adeus, o nunca mais.

Quando ainda amor houver, quando o sentimento ainda estiver ali, sufocado pelo cotidiano, mas disposto a reavivar-se, sempre deveremos tentar e lutar pela manutenção do que já construímos a dois. Entretanto, se somente existe vida de um lado, mesmo após as súplicas e insistências de um só, ali o amor não mais florescerá, pois não há mais cor que se instale em terreno infértil, onde não se semeia reciprocidade.

Não esquecer: ainda há muito pela frente a ser vivido com alguém que realmente lhe dê as mãos e volte os olhos para você. Acredite!

Imagem de capa: Matthew Nigel/shutterstock

A maturidade nos ensina a reordenar as prioridades e colocar cada coisa em seu devido lugar

A maturidade nos ensina a reordenar as prioridades e colocar cada coisa em seu devido lugar

Imagem de capa: XiXinXing/shutterstock

O tempo passa e inevitavelmente algumas coisas não têm mais importância nem espaço em nossas vidas. Percebemos que é uma grande perda de tempo revitalizar o que desbotou.

Depois de algum tempo, compreendemos que o mundo não acaba por razões tão pequenas. Por situações que fugiram do controle. Por tudo aquilo que não era para ser.

Os infortúnios, os desencontros, as decepções e as perdas sempre vão acontecer, é inevitável. O que muda é a forma de lidar com as rupturas, com os nãos que a vida impõe.

A vida tem ritmo próprio, que segue indiferente ao caminho desenhado por nós. O que acontece fora do planejamento, não deve nos roubar a paz e a esperança no futuro, é apenas uma parte que não se encaixou naquele momento. Que não girou conforme a mirabolante engrenagem que montamos. Que não entrou em sintonia com aquela expectativa que regamos durante tanto tempo.

Há um ponto onde a engrenagem para, e isso não está mais relacionado ao que fizemos ou deixamos de fazer. É da ordem do que não se explica. Não convém debulhar para entender. Não significa que estagnamos ou desistimos. Significa que mudamos o comportamento em relação àquele fato, e agora, mais plenos e conscientes, descobrimos que algumas coisas escapam e não dependem mais dos nossos esforços, da nossa entrega.

O tempo passa de qualquer maneira, e frequentemente, somos modificados por tudo que nos cerca. O que não deu certo não deve ganhar autoridade para nos atormentar com o fantasma da culpa. Deve ficar no passado. A maturidade nos ensina a reordenar as prioridades e colocar cada coisa em seu devido lugar.

A quem você tem confiado suas dores?

A quem você tem confiado suas dores?

Imagem de capa: Ollyy/shutterstock

Conselheiros são pessoas iluminadas. São pessoas que escolhemos para dividir nossas dores com a certeza que não seremos julgados e, de quebra, receberemos uma solução para aliviar a alma.

Pedir conselhos é demonstrar afeto e respeito. Somos conselheiros e aconselhados o tempo todo. Nossos erros servem de exemplos para que outros não cometam os mesmos e nossa postura, diante das adversidades, uma inspiração para os indecisos. O problema é que nem sempre isso acontece.

Tem gente que incorpora um personagem quando alguém lhe pede conselhos. Parecendo mais um juiz do que um amigo disposto a ajudar. As frases do tipo “eu te avisei” ou “ se eu fosse você, eu faria…” estão impregnadas em todos os diálogos. Logo depois, claro, das frases prontas de autoajuda. Dão conselhos passando a mensagem entrelinhas de: “Com licença? Me permite fazer um comentário, que além de derrubar gravemente sua autoestima, não acrescentará nada de positivo a sua vida?”

Só há um detalhe em comum nessas pessoas: aconselham mas nunca vivem o que pregam. Você escuta um “o mar está agitado para surfar” de quem não sabe nem nadar. Escuta um “você vai esquecer essa traição” de quem nunca foi traído. Escuta um “esse remédio é bom para o estômago” de quem nunca teve uma azia. E, se não resolve seguir os conselhos, ainda escuta um “você não faz nada do que eu digo”.

É difícil acreditar em um conselho onde a prática esteja longe da aplicação, simplesmente, porque a consciência nos define, mas nossos atos nos revelam. Em o Lobo da Estepe, de Hermann Hesse há uma citação que afirma bem essa situação: “ninguém pode ver nem compreender nos outros o que ele próprio não tiver vivido.”

Claro que tudo tem dois lados. Existem (ainda bem) pessoas maravilhosas que, realmente, se preocupam conosco, mas não podemos ser ingênuos em acreditar que todos querem nosso bem. A verdade é que estamos recebendo conselhos demais e vendo exemplos de menos. Confúcio dizia que não há coisa mais fria do que o conselho cuja aplicação seja impossível.

É tão fácil usar o discurso para encantar, encorajar, superar a dor, esquecer o ex, mas quando vivenciamos a dor do outro parece que estamos com uma faca cravada no peito e morrendo de forma cinematográfica. Resumindo pregamos a lei: para os outros o rigor, para nós a misericórdia. “Todo mundo é capaz de dominar uma dor, exceto quem a sente”. (William Shakespeare).

Às vezes quem busca seu conselho, não quer a sua opinião. Quer seu ombro, sua companhia, um amigo para desabafar… apenas isso! Rubem Alves dizia que “buscamos, no outro, não a sabedoria do conselho, mas o silêncio da escuta; não a solidez do músculo, mas o colo que acolhe.”

Conselho bom é daqueles que nos amam. Daqueles que vivem a nossa dor e se preocupam conosco. Daqueles que, indiferente, da distância se fazem presentes. Quanto aos outros, releve. Há conselhos que revelam as ações que as pessoas gostariam de ter realizado, mas o medo não permitiu.

Coringa e Arlequina: quando o amor extrapola

Coringa e Arlequina: quando o amor extrapola

Ninguém pode negar que Coringa e Arlequina, mesmo que por poucos minutos, roubam a cena em “Esquadrão Suicida”. Ainda que sejam personagens bastante populares nas HQs ou que os atores tenham elevado à excelência suas performances, certo é que o romance entre os dois antagonistas carrega um amor com o qual muitos de nós nos identificamos, guardadas as devidas proporções.

Arlequina representa o parceiro que se doa além do razoável, entregando-se incondicionalmente a um sentimento que, na verdade, mais machuca do que cura, mais entristece do que alegra. Obscuro, selvagem, insano, o que ela sente acaba por transbordar os limites morais e éticos que são aceitáveis e desejáveis socialmente, tornando-a alguém teoricamente pior, alguém que transgride as regras e normas convencionais.

E é assim nos apaixonamos por ela, por sua beleza, por suas habilidades e personalidade forte. Arlequina, afinal, representa a libertação de amarras por que muitos de nós ansiamos: ela se torna mais bela, mais desejada, mais perigosa, ágil e proibida. Trata-se, pois, daquilo que nos atrai, mesmo quando sabemos que é errado, simplesmente porque todo mundo já desejou, alguma vez na vida, ultrapassar algum limite, perigosamente.

Coringa, por sua vez, em si carrega todas as características de um anti-herói, de um fora-da-lei, de alguém que fascina, lidera, que é temido e, por isso mesmo, atrai vários olhares femininos. De início, ele percebe, na Arlequina, um meio de atingir os seus objetivos, um mero joguete, porém, acaba por ser vítima do próprio ardil, ao se apaixonar por quem menos esperava. Ah, o amor e suas armadilhas…

Na verdade, o casal de antagonistas simboliza nada menos do que os desejos inconfessáveis de muitas pessoas, quando idealizamos e imaginamos um outro nós, desarticulados das regras e convenções que muitas vezes nos sufocam e questionamos. A grande maioria das pessoas jamais excederá nestes terrenos obscuros e indesejáveis, logicamente, mas assistir a isso tudo como espectadores é fascinante e, até certo ponto, consolador, visto que catártico.

O amor pode se transformar em tudo, até mesmo no que machuca e fere, da mesma forma nos transformando em pessoas melhores ou piores, mais felizes ou mais tristes, somando ou subtraindo. Caberá sempre e somente a nós lidar com um sentimento tão nobre, a ponto de aninhá-lo confortavelmente em nossos corações, sem dor, sem demora, sem espera, com verdade e conforto na alma.

Imagem de capa meramente ilustrativa: cena do filme Esquadrão Suicida.

É impossível conviver com a dor de abandonar um sonho

É impossível conviver com a dor de abandonar um sonho

Imagem de capa: pathdoc/shutterstock

Às vezes penso que é fácil desistir. Olhar para tantos sonhos coloridos e desviar o rosto. Não sorrir. É que tudo fica tão chuvoso por dentro, e olha que eu amo tanto a chuva, mas ela amedronta às vezes. Quando é forte demais e a janela parece que vai despencar com tantos bombardeios de trovões. O tempo lá fora entra em consonância com a bagunça aqui dentro e custo achar um pente fino que ponha ordem nessas ideias embaraçadas.

A vida é muito louca mesmo. Um dia a gente acorda e quer engolir o mundo porque o peito está queimando em sonhos. A gente quer levantar, fazer tudo certo e até faz. Até certo ponto. Mas no outro dia, compreende que é pouco. Que precisa de mais. É um desalento, porque nem sempre a gente tem esse “mais” para dar, aquele gás na subida. Aquela alavanca que segura as pontas e nos protege de tudo.

Parece que a gente murcha com o acúmulo de expectativas. Porque é preciso mover muitas peças para movimentar o tabuleiro, bem mais do que a gente pensava. É mais complexo. É mais duro. É mais fundo. É além. A gente se sente sozinho, despencando no túnel vazio da descrença, caçando o “mais” sem ter.

É quando penso que deixar para lá é a coisa mais sensata a fazer. Mas deixar para lá é se abandonar e isso significa se esquecer. Ninguém quer viver esquecido de si mesmo, porque é isso que acontece quando a gente abandona um sonho. É mais que isso, é acordar com aquele oco imenso doendo que nem ferida recente, onde tudo bate em cima, e qualquer coisa é motivo para lembrar que não sonhar é o fim.

É quando penso que eu não sei desistir. É inviável. Impossível. Porque jamais conseguiria conviver com a dor de abandonar um sonho e não poder vê-lo crescer gradualmente. Ganhar forma e engatinhar mesmo com passos lentos e titubeantes para o futuro realizável. Brincar na varanda dos meus pensamentos com as peças de encaixe de uma vida inteira a construir.

Sei que essa transição às vezes parece uma eternidade. ‘’Somos instantes’’. Instantes cheios de luzes e explosões, porém instantes de reflexão e pressa. Descemos até o interior, aos confins de nós mesmos para planejar cada detalhe, como se pudéssemos gerenciar o rumo das coisas. Ilusão de controle… que circo! Não controlamos absolutamente nada. Que graça teria se não recebêssemos a visita do acaso?

Se somos instantes, efêmeros pontos de luz que, às vezes, se apagam para consertar as instalações da luz própria, devemos ter a plena consciência da falha e finitude. E isso não deveria assustar tanto. A luz que oscila, às vezes é só um detalhe, um embaraço provisório nessa imensidão de instantes futuros.
Quantos?

Não sabemos.

Frieza alguma justifica um coração partido

Frieza alguma justifica um coração partido

Não aconteceu como você queria. Um amor que deveria ficar e logo foi embora. É triste. Cansativo até. Mas tão breve perceber que quer arriscar de novo, entregue-se. Seja fogos de artifício para ter o mesmo em troca. Porque frieza alguma justifica um coração partido.

Quem está chegando não pode carregar tristezas de amores passados. Para ser assim, fique na solidão. Aprenda. Amadureça. Pratique autoconhecimento e saboreie quantos momentos forem necessários para que, quando a hora de finalmente conhecer alguém chegar, você saiba quais carinhos despertam aconchegos. Sair entrando de cabeça no primeiro relacionamento após ter o coração partido e oferecer inseguranças, poucos sorrisos e uma mão frouxa, é simplesmente afastar quem escolheu estar com você.

Daí, depois não adianta lamentar e tampouco cobrar. Reciprocidade é um sentimento espontâneo. Você não escolhe como e de que forma ele será manifestado. É egoísmo enxergar o amor com formas próprias.

Portanto, siga. Se não for para ser mais, se não for para estar ali, de querer inteiro, apenas vá. Convoque os seus medos e mágoas e bata um papo com eles antes de permitir-se cativar outra pessoa. Porque, mais uma vez, frieza alguma justifica um coração partido.

Imagem de capa: Depois de Maio (2012) – Dir. Olivier Assayas

E se você tivesse escolhido outro caminho? Será que você seria outra pessoa?

E se você tivesse escolhido outro caminho? Será que você seria outra pessoa?

Causa e efeito, ação e reação, feito, bem-feito, desfeito… a vida é mesmo um nó de caminhos. Uns paralelos, outros que se cruzam, outros que nunca vão se encontrar. E o nosso destino pode ser completamente alterado por uma única, pequena e aparentemente inofensiva escolha.

O fato, é que nenhuma escolha é inofensiva. E se a gente escolhe uma porta por onde entrar, precisa estar preparado para abrir mão de todas as outras que deixamos passar. As portas que não escolhemos, aquelas que rejeitamos, hão de ser abertas por outras pessoas.

Aquelas outras histórias, veladas atrás de outras portas vão morar na parte misteriosa de nossas vidas. Aquela que nunca aconteceu.

A realidade é essa vida que temos nas mãos, é com ela que a gente precisa aprender a lidar. E é por meio dessa aprendizagem que vamos conseguindo reverter algumas perdas em ganhos, olhar para outras perdas como causas perdidas mesmo… e, a partir delas buscar outros caminhos.

Se um projeto não vinga, pode ser que tenhamos errado nas estratégias; pode ser que precisemos lançar mão de novas abordagens; mas pode ser também, e isso não é nada raro de acontecer… que era para não dar em nada mesmo.

Até mesmo os tenebrosos fracassos têm lá a sua função educativa. Eles nos revelam lugares onde não devemos estar, brigas que não valem a pena comprar, projetos que não têm chance de decolar.

Esses “nãos” que a gente leva na cara precisam ser encarados como uma nova oportunidade. Quem sabe não esteja bem na hora de você enxugar o suor e as lágrimas perdidas, tomar um banho de redenção e aprumar-se para um encontro inédito com outras opções; tentar, em vez da porta, uma janela.

Afinal, não há nada de errado em mudar de ideia. Muito menos ainda, em reconhecer uma limitação, um engano, um caminho mal escolhido, um atalho malsucedido. Errar é parte do processo, afinal de contas.

Acontece que muitas vezes entramos numa história com uma carga de fantasia, além da conta, como se fosse um excesso de bagagem desnecessário. E conforme o tempo vai passando, descobrimos que nunca encontraremos ali algo que nos preencha, que se compare à nossa fantasia.

Essa quebra de ilusão é acompanhada de algumas dores, faz a gente ficar meio adoecido pelo sonho desfeito. E tudo bem que a gente se conceda um dia, ou dois, ou três de convalescença.

Apenas não podemos nos apoiar nessa desilusão para lançar em colos alheios a nossa decepção. Não podemos acabar nos aconchegando nessa almofada de vítimas como se fossem coletes salva-vidas. Não são!

No entanto, quando demorar um pouco demais para que o tombo pare de se transformar em ralados pelo corpo, é bom procurar ajuda. Admitir que não se pode carregar sozinho um fardo, não é sinal de fraqueza, é sinal de maturidade. Crescer envolve mesmo algumas escoriações afetivas. Faz parte.

É inevitável ser visitado de vez em quando por essas reflexões: “E se eu tivesse feito outra escolha?”; “E se eu não tivesse aceitado aquele convite?”; “E se eu não tivesse desistido?”… Esse “se” é de lascar mesmo! E se a gente cair nessa armadilha, vai viver atormentado.

As escolhas nos definem, é verdade. Mas até mesmo essas definições são temporárias. Somos inacabados até o último sorriso, ou até a última lágrima. E isso, acredite, é a parte mais maravilhosa de estar vivo!

Imagem de capa meramente ilustrativa: cena do filme  “De repente 30!”

Ansiedade, um combustível perigoso!

Ansiedade, um combustível perigoso!

Imagem de capa:  pathdoc/shutterstock

A ansiedade põe a gente de pé num piscar de olhos, orquestra movimentos rápidos, pensamento acelerado, curiosidade aguçada, tolerância zerada.

Se ansiosos por uma boa notícia, acordamos positivos, lépidos, energizados. Quando a ansiedade é por uma chegada, tomamos todas as providências possíveis, tratamos de arrumar e organizar, surpreender e adivinhar.

Ansiedade é combustível. Acelera, bota ordem, encadeia, encaminha. Ansiedade bem dosada, é um estimulante, a companhia perfeita da curiosidade.

Mas, como toda matéria inflamável, entra em combustão com a mínima fagulha. Uma incerteza, o menor atraso, um passo fora da linha, um retorno que não estava nos planos…

E a ansiedade vira incêndio, explosão e destruição. Fica fora de controle, do eixo, da respiração. Ansiedade descompensada agride, asfixia, deixa a vida imersa em fumaça, fuligem e sombra. Esconde o horizonte, fecha as cortinas, tranca as possibilidades e faz disparar o coração, até o ponto de explodir.

Como combustível, empurra!
Como explosivo, destrói!

Todo mundo carrega a sua quantidade de ansiedade, e controlar é tão difícil quanto identificar o que faz disparar. Assim como a agressividade, é quase impossível saber a faísca que provoca o fogo. Mas a luta é diária e sem descanso. O que nasceu para ser estímulo, não pode virar obstáculo.

Ansiedade é coisa séria e deve ser tratada como merece. Quem já viveu a menor crise, sabe o poder desse incêndio incontrolável, que consome todas as reações.

Ao menor sinal de que o combustível está fugindo do controle, o melhor é reduzir a marcha, desligar os motores, procurar ajuda e alternativas para manter a respiração na velocidade de cruzeiro.

Moça, cá pra nós, não faz sentido ser sobra de alguém

Moça, cá pra nós, não faz sentido ser sobra de alguém

Moça, reciprocidade não cai do céu. Ele não vai mudar de ideia de um dia para o outro. Ele já tem um cafuné quando precisa e você só faz correr atrás de quem não merece. Presta atenção, não faça isso. Ame-se. Moça, cá pra nós, não faz sentido ser sobra de alguém.

Eu sei que você gosta dele, moça. Eu sei que ele prometeu o mundo já no primeiro beijo. Sei, também, que ele diz o que você quer ouvir. Ainda assim, entre mimos e outras vontades, ele não deixou de estar com quem sempre esteve. Você não é a amante. Esse termo é pobre demais. Mas você é a escolha que não vinga. É o momento prazeroso com prazo de validade. É justo? Claro que não. Então por que insistir?

Ah, moça. Não está vendo que a conta não bate? Onde já se viu dar inteiros e receber metades? Mude isso, agora. Abra os olhos. Pegue o primeiro amor de você e saia em busca de alguém que some, e não subtraia. Deixe-o com a cara no chão quando souber que acabou. Não por vingança, mas por respeito próprio. E mesmo que ele peça uma nova chance, pese nas mãos se vale a pena ceder carinhos em troca de poucos instantes.

Eu sei que o medo faz a gente ficar rendido, mas você consegue. Porque o amor só cabe para quem tem coragem. Anda, moça. Respira fundo. Sorria e atraia o melhor, o saudável e o transparente de uma relação de verdade.

Não se esqueça, do seu coração é você quem permite.

Imagem de capa: O Desprezo (1963) – Dir. Jean-Luc Godard

O orgulho estraga muita coisa, inclusive o amor.

O orgulho estraga muita coisa, inclusive o amor.

Imagem de capa: Iakov Filimonov/shutterstock

Quem nunca sentiu aquela sensação terrível de querer pedir perdão, mas sentir uma “força” maior dentro de si que o impediu de se desculpar?

Que atire a primeira pedra quem nunca ignorou quando, na verdade, queria oferecer atenção. Quem tem dificuldade de dar o braço a torcer em uma briga e de ser o primeiro a confessar que errou.

Acontece que o orgulho estraga muita coisa. O orgulho faz você perder quem ama, faz você perder oportunidades e também pessoas. O orgulho faz você se tornar alguém difícil de ser amado, alguém que, por mais que o outro insista, torna-se cada vez mais difícil de resolver conflitos, de dialogar e de fazer dar certo.

O orgulho estraga o amor, a amizade, o trabalho. Porque nada pior do que lidar com alguém orgulhoso, que não sabe reconhecer quando está errado, que não sabe pedir desculpas, que não sabe olhar nos olhos e dizer que sente nossa falta e que nos ama quando não merecemos ser amados.

É difícil porque, quando estamos mal, chateados, nem sempre temos a coragem de sempre correr atrás, de sempre tentar consertar as coisas, e tudo fica pior quando o outro não colabora – e então a gente cansa. Cansa mesmo de insistir, de pedir desculpas e o outro continuar fazendo joguinhos e oferecendo a nós a sua indiferença.

Tome cuidado, porque o orgulho pode fazer você perder muita coisa: o amor de quem o ama por inteiro, o abraço de quem o acolhe no final do dia, o beijo de quem beija com a alma, o sorriso de quem transforma o seu mundo. Cuidado, porque o orgulho torna você outra pessoa. Alguém dominado pela raiva e pelo impulso. Alguém que não sabe perdoar, não sabe resolver e que, nesses instantes de orgulho, parece não saber amar.

O orgulho pode fazer você evitar dizer coisas bonitas, de soar palavras agradáveis naquele dia cansado em que o outro precisa tanto de um gesto de carinho nosso. Esse orgulho bobo aí pode distanciar você de quem realmente se importa, de quem faria de tudo para dar certo.

E, embora você não tenha a escolha de não sentir isso, você tem a escolha de não permitir agir com orgulho. Você tem a escolha de ouvir quem quer falar, de perdoar quem pede perdão, de se desculpar quando errar, porque, acredite, isso é bonito. Você sempre terá a escolha de não estragar tudo.

Que um dia o amor te encontre

Que um dia o amor te encontre

Imagem de capa:  Kitja Kitja/shutterstock

Que um dia tão grande o amor te encontre como me encontrou. E tomou-me como vilas, esquinas e quebra-mares são tomados por encontros. E amei, como se só te amar bastasse, como se te querer já me deixasse ainda que uma pequena intenção de pensamento mais próxima de você. Como se pudesse te convencer silenciosamente a me amar também, na insistência crédula do meu bem-querer.

Assim, amei por mim, por ti e por nós, para que houvesse um nós conjugado em um lugar qualquer que fosse. Amei sabendo que amava sozinha, como quem doa para a mão direita com a própria mão esquerda. Te amei de fato, tão e bem mais em nome de mim mesma. Ganhando e perdendo sozinha, sonhando e acordando sozinha, sem ter a quem reclamar das escolhas que fiz. Amei porque ainda é melhor ter uma coleção inteira de vazios não preenchidos que não sentir nada.

Que um dia você descubra que quem ama, ama sempre por inteiro. Ama preenchendo as faltas com esperança, as esperas com lembranças, e erguendo-nas de um algo misturado a um punhado inexato e farto de fé. O amor se alimenta bem mais do que poderia ser do que de fato se é. E ele se reconhece mais fielmente no que poderia existir do que no que de fato se há. Por isso nos demos tão bem, como gêmeos docemente delirantes.

Assim, fui me reconstruindo, como um barco que se remenda sem conter a invasão do mar, apenas no esforço de seguir reagindo. Inútil, como quem guarda um segredo que não pertence a mais ninguém se não a si. Assim, te amei até não haver mais forças para continuar amando sozinha por dois. Que um dia tão grande amor te encontre e te entregue todo o amor que preparei para ti. Que um dia tão grande amor te encontre e te faça feliz como eu não pude fazer, nem ser sem ti.

Quer saber quem são seus verdadeiros amigos? Fique doente

Quer saber quem são seus verdadeiros amigos? Fique doente

Uma das melhores coisas de nossas vidas são as amizades que pontuam a nossa jornada, tornando-a mais prazerosa e leve, principalmente nos momentos em que precisamos de alguém ali ao lado, quando escurece de repente dentro de nós. Infelizmente, quando mais precisarmos, parece que menos amigos aparecerão ou terão disposição para ouvir pacientemente o que temos para dizer, compartilhar. A não ser que façamos uma festa.

Na verdade, muitas pessoas estão à procura de oportunidades que lhes favoreçam, que lhes tragam benesses, conforto, retornos majoritariamente financeiros e/ou materiais. Aproximam-se, assim, de quem possa lhes oferecer algum benefício que usufruirão em causa própria, baseando-se tão somente em suas intenções, quem nem sempre são as melhores. Difícil, nesse contexto, haver alguém que nutra relacionamentos que não lhes possam servir como degrau social ou fonte de renda e de status.

Muitas pessoas passarão pelas nossas vidas, desde a infância, porque nunca é tarde para encontrarmos alguém que possa compartilhar uma amizade sincera. Não conseguimos explicar bem o que nos faz gostar tanto de algumas pessoas, a ponto de nos sentirmos bem ao seu lado e confortáveis para contar-lhes nossos sonhos, medos, nossos tesouros. Parece que tem gente que conhecemos há anos, embora tenhamos iniciado a amizade recentemente; é como se tivéssemos encontrado um irmão perdido por aí, tamanha a sensação de proximidade imediata.

Da mesma forma, algumas pessoas fazem parte de nosso círculo de amigos ou de trabalho por muito tempo, sem que consigamos ir além das meras formalidades de convivência. No entanto, nem todos serão amigos de fato, ainda que confiemos plenamente neles, mesmo que depositemos a maior confiança em suas mãos, porque algumas pessoas simplesmente não sabem o valor dos sentimentos alheios, nem dos próprios. Algumas pessoas simplesmente desconhecem a força de um compromisso com o outro que não envolva nada além de afetividade.

Não podemos nos iludir, achando que todos aqueles que sorriem ao nosso lado, em comemorações regadas a cerveja, também ficarão conosco quando nada tivermos a oferecer, quando precisarmos de um ombro amigo que nos console, ouvindo-nos nos momentos de nossas atribulações, caso contrário, a decepção nos machucará ainda mais.

No entanto, sempre haverá alguém, muitas vezes quem menos esperávamos, que nos estenderá as mãos com verdade e amor. Sempre haverá alguém que não desiste da gente. Daquelas surpresas mágicas com que a vida nos abençoa, a fim de que não desistamos de prosseguir, incansavelmente.

Imagem de capa:  Elnur/shutterstock

A triste geração que prefere mentir do que sentir

A triste geração que prefere mentir do que sentir

Chegamos em um ponto crítico da vida. Infelizmente, é mais comum mentir do que sentir. Somos uma triste geração tão acostumada com a negação, que corremos de qualquer possibilidade verdadeira de aproximação.

Na infância, podíamos pensar muitas vezes sobre o constrangimento de demonstrar afeto em público. Principalmente pelos nossos pais e outros parentes. Não é que fôssemos avessos ao carinho, mas era um trato social não expor certas atitudes na frente de estranhos. Com o tempo, na adolescência, ignoramos qualquer protocolo na busca por um alguém que nos completasse. São os hormônios, dizem. Era liberado ter uns momentos a mil por hora com alguém. Os cinemas que o digam. Mas o tempo passou. E passou rápido.

Hoje, somos uma geração de adultos que não sabe lidar com os sentimentos. Gostar é pouco, amar é muito e mentir tornou-se o ideal. Por quê? Por que fingir, mascarar e manipular experiências para um ganho exclusivo? Será que tivemos tantos tropeços ao longo da vida que viramos cascas sem nada para oferecer? Quando foi que o amor virou essa pedra no sapato? Quando, no mais irresponsável dos encontros, decidimos que não valeria a pena sentir, mas sim distorcer a realidade?

Talvez, essa seja história que preferimos contar. Aquela na qual viramos vítimas de outras sensibilidades não correspondidas. Onde, escolhendo o sentir errado, fizemos um voto de não mais permitirmos algo de verdade. Trouxa de novo? Nem pensar. Se fosse assim tão fácil. Se fosse assim tão difícil. No fundo, é tudo sem sentido, mas com sentimento. Trouxa é fingir não querer, querendo. É estipular atitudes, ditar os discursos e anotar num caderno quantos flertes foram entregues. Paremos. Paremos antes que seja tarde. Paremos antes que a mentira fique convincente. Paremos antes que o coração cegue.

É triste uma geração que prefere mentir do que sentir. Chegamos em um ponto crítico da vida, onde nada nos resta a não ser jogar toda essa bobeira de negar para o alto e, finalmente, urgentemente, com gentilezas, apenas sentirmos. De uma vez por todas, por favor.

Imagem de capa: Sonhando Acordado (2006) – Dir. Michel Gondry

A traição é a mais covarde das escolhas

A traição é a mais covarde das escolhas

Supondo que a pessoa seja acometida por um arrependimento monumental, que amargue um tremendo remorso e se afogue num mar de culpa… aquele que traiu jamais terá a dimensão exata do buraco gigante que cavou no peito do outro.

Ser traído é ter a confiança roubada pelas costas. É ter a inteligência subestimada e a auto estima picada em minúsculos pedacinhos.

A dor da traição é extremamente complexa, porque quebra no interior daquele que foi traído os alicerces sobre o qual fora construída a relação.

Ser enganado altera a capacidade de interpretar os sentimentos. Ficamos frágeis, confusos, temos dificuldades em discernir o que é real, do que é ilusão destruída.

Não raras vezes, aquele que é traído acaba buscando em seu comportamento, em suas atitudes a razão para tudo o que aconteceu; torna-se suspeito do mal feito alheio.

E dói. Dói por inúmeras razões. Dói porque é desnecessário, dói porque diminui a importância da história partilhada, dói porque não há nada que justifique a quebra de confiança.

A traição é a mais covarde das escolhas. É a opção pelo caminho mais fácil. É arrastar para dentro de um buraco o que deveria ser honrado e ter valor.

Perdoar a traição é dessas coisas que foge à nossa capacidade racional. E quando acaba acontecendo, muitas vezes é porque existe nessa atitude uma esperança em fazer cessar o sofrimento.

Perdoa-se numa tentativa de retroagir, como se fosse possível apagar os danos. Quase sempre não é. E o tempo acaba revelando fissuras no relacionamento, trincas por onde emergem ressentimentos, mágoas e culpas.

Por mais que pareça triste, no fim das contas o melhor que se pode fazer é cortar os laços mesmo. Deixar que a ferida cicatrize em paz. Seguir em frente e deixar que o outro descubra por si mesmo que havia outra escolha, ele só não foi capaz de fazê-la.

E depois disso, de ter sido capaz de desenhar no fim dessa história um definitivo ponto final, projetar para si mesmo um modelo mais saudável de relação, na qual o compromisso seja partilhado, assumido e respeitado por todos os envolvidos. Porque errar na escolha do parceiro uma vez é humano, persistir na escolha errada é falta de amor próprio mesmo.

Imagem de capa meramente ilustrativa: cena do filme “Linha de ação”

INDICADOS