Quem te ama, ama aqueles que são preciosos para você

Quem te ama, ama aqueles que são preciosos para você

Eu diria que nessa vida somos nós e nossos amores e não apenas nós, tão pouco só nossos amores, a compor tudo que somos. Chamo de amores aqui todos aqueles que nos são queridos e amados.

Depois de alguns bons passos, relações fortes e duradouras nos acompanham por onde quer que andemos. Filhos, sobrinhos, cônjuges, amigos de longa data, afilhados. Temos nosso significado intimamente atrelado àqueles que amamos profundamente.

Sabemos que eles são parte efetiva de nossa constituição e eles têm morada cativa em nosso coração. Contudo, por vezes, pode acontecer de aceitarmos em nossa vida pessoas que dizem nos amar, mas que agem diante daqueles que amamos de uma maneira muito peculiar e tendenciosa.

Então, desconsiderando nosso próprio bem-estar, essas novas pessoas passam a menosprezar aqueles que são preciosos para nós.

De repente, sem razão aparente o amor que essas novas pessoas dizem sentir por nós, romântico ou fraternal, não é suficiente para abraçar os nossos. De repente, esse amor pode não ser amor.

Não estou dizendo aqui que aqueles que nos amam devem amar todos que fazem parte do nosso círculo de amizades e parentes. Estou dizendo, de forma específica, que aqueles que nos amam estendem seus laços de amor aos que são importantes para nós. O amor verdadeiro é abrangente. Ele não se limita, rareia ou fica escasso se for além.

Quem assistiu ao belo filme biográfico “A Teoria de Tudo” certamente sabe do que estou falando. Nele o jovem cientista Stephen Hawking se casa com a estudante de humanas Jane Wide após descobrir que tem uma doença degenerativa. Em determinado ponto da história entra na vida do casal, além dos filhos, o professor de música, Jonathan, com quem Jane viria a se casar no futuro.

A relação de Jonathan com Stephen é de respeito e cordialidade. O amor de Jonathan por Jane permite que ele ame tudo que diz respeito ao universo dela, e isso inclui os filhos e até mesmo o marido dela.

O amor real não é restritivo. Não é tendencioso. Não é limitante. Não age de forma a se apropriar do outro. O amor verdadeiro aceita e naturalmente abrange todos que são também queridos para nós.

Se o amor que te propõem é apertado demais. Se nele você não cabe completo. Se existem numerosas condições para que o amor exista, preste atenção, pode ser que não seja amor.

Acompanhe a autora no Facebook pela sua comunidade Vanelli Doratioto – Alcova Moderna.

Atribuição da Imagem: Cena do filme “A Teoria de Tudo”.

Meu nome é existir

Meu nome é existir

Imagem de capa: Rawpixel.com/shutterstock

Então chega a segunda-feira. No cafezinho, a colega conta que a viagem com o noivo foi 10, ruim mesmo só a fila no aeroporto. O chefe diz que passou o domingão no sofá, ele e a mulher botaram em dia a pipoca e os capítulos atrasados do Homeland. O estagiário, deixando a timidez de lado, confidencia que conheceu uma garota especial na balada. E o que o colega gay e a colega lésbica contam? Nada.

Você se pergunta: O que eu tenho a ver com isso? Talvez bem mais do que imagine, uma vez que a socialização está intimamente relacionada com a inclusão e o acolhimento das diferenças. Se a colega lésbica e o colega gay sentirem que são respeitados na sua orientação sexual, estarão à vontade para compartilhar suas histórias de afeto.

A colega lésbica poderá contar que planeja comprar um apartamento com a sua companheira. Quem sabe o colega gay revele que pretende, junto com o parceiro, adotar uma criança. Uma coisa é certa: você descobrirá que a vida dos gays é igualzinha a sua. Que as alegrias e dificuldades dos relacionamentos afetivos só mudam de endereço.

Tem muita gente que se incomoda em trabalhar com colegas homossexuais. Tem medo que a coisa seja contagiosa. A advogada e ex-desembargadora Maria Berenice Dias, especialista em Direito Homo-afetivo, conta que alguns advogados fazem piadinhas. Entre elas: Quem for no escritório da Maria Berenice sai casado com uma pessoa do mesmo sexo.

Se o colega em questão for uma travesti, aí o mundo vem precipício abaixo. Por que como alguém pode ousar trocar o sexo de nascimento? Pois é, não só pode como faz. Analise, cada um pode se inventar à vontade. Tem gente que põe piercing na língua, tatuagem na testa, camundongo dentro da sala. E daí?

Pense bem: gostar de pessoas do mesmo sexo é tão legítimo quanto gostar de pessoas do sexo oposto. É uma diferença, não um problema. As estatísticas apontam que 10% da população mundial é homossexual. Quer dizer, para cada um milhão, cem mil. A orientação sexual não tem nada a ver com o caráter (ou a falta dele), com a competência (ou a incompetência) de cada qual.

Incluir e acolher a diversidade na nossa vida não é só questão de justiça e de respeito ao outro. É ação inteligente: quanto mais diversidade, maior a criatividade e a inovação. Basta comparar com as cidades. Quanto mais diversa, mais rica, mais cheia de possibilidades. Quanto mais fechada, mais monocromática e deprimida.

Amar muito não significa que você não consiga viver sem

Amar muito não significa que você não consiga viver sem

Imagem de capa: Elena Dijour/shutterstock

Vamos partir de um princípio básico: você só irá sofrer por alguém, até entender que tudo passa. Sim, é isso mesmo! Esse sentimento que você carrega no peito, essa dor que parece mais física do que emocional e essa carência camuflada de amor, irá passar e você terá a sensação de nunca ter sentido.

Não temos o controle de não sentir dor. Dor é uma condição humana. Mas, muitas vezes, supervalorizamos a mesma pra dar mais afetividade ao que sentimos.

O que dói na verdade, quando uma história acaba, é saber que tudo que fizemos, não foi suficiente para manter o amor vivo e não a separação em si. Culpamos-nos de tudo, sentimos-nos frustrados e queremos acreditar que somos vítimas de todas as situações. Quando, na verdade, um relacionamento acaba por vários motivos alheios a esses.

Quando amamos queremos que dê certo, fantasiamos tudo e exageramos nos sentimentos. O problema é quando as coisas não saem como esperamos e o relacionamento acaba, a fantasia faz dos envolvidos reféns da própria ilusão. Lembre-se que, antes de ser desiludido, você viveu iludido e, sinceramente, não sei qual dos dois sentimentos conseguem ser pior.

Por mais difícil que seja um término é preciso entender que amar muito não significa que não conseguimos viver sem. Você é independente em atitudes e sentimentos e, a sua felicidade, não está condicionada à permanência do outro em sua vida.

Martha Medeiros, em “A importância de perder peso”, do livro “Coisas da Vida”, afirma que: “ dores de amor, falta de grana e angústias existenciais são contingências da vida, mas você não precisa soterrar os outros com seus lamentos e más vibrações. Sustente o próprio fardo e esforce-se para aliviá-lo. Emagreça onde tem que emagrecer: no espírito, no humor. E coma de tudo, se isso ajudar.”

Entenda que a luz no final do túnel só aparecerá se você caminhar. Enquanto você cultuar a dor, ela permanecerá dentro de você. Então, apenas siga em frente. Logo você acostuma com a rotina, os finais de semana voltam a serem divertidos e você voltará a confiar nas pessoas. Mas, antes, você vai aprender a ser forte e a criar inteligência emocional. Como dizia Aristóteles: “não há nada na nossa inteligência que não tenha passado pelos sentidos.”

Pode ser que não seja hoje, amanhã ou na semana que vem, mas essa dor irá passar e você voltará a sorrir. Você se apaixonará novamente e irá fantasiar outras histórias, afinal, somos movidos por nossos sonhos. Apenas, tenha maturidade para entender que até dar certo, muitas coisas darão errado e, por mais que a dor arrebente sua alma, lembre-se que ela sempre irá passar.

Vá como um rio

Vá como um rio

Imagem de capa: InnaVar/shutterstock

“Eu vo-lo digo: é preciso ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela cintilante. Eu vo-lo digo: tendes ainda um caos dentro de vós outros.” Nietzsche

Certa vez, na prática de Zazen (meditação sentada), escutávamos, lá fora, na praça, um jovem a tocar violão. Ele tocava alto, acompanhado pelo coro de outros jovens, enquanto eu tentava (em vão) me concentrar. Quanto mais tentava, mais me incomodava com a música alta. Minha atenção persistia no som que vinha lá de fora, meu incômodo também.

Ao final da prática, o monge usou a música externa como metáfora para a vida: o caos sempre existirá, mas, dentro de nós, podemos criar um reduto pacífico e tranquilo. “Existe ordem no caos”, disse ele. Eu duvidei. Naquele dia, deixei a meditação mais estressada do que chegara. Mas essa experiência serviu como reflexão, para que eu passasse a observar com mais cuidado meu movimento (e incômodo) diante do caos. É fato, a bagunça, o barulho e o caos me incomodam, muito.

De uns tempos para cá, tornei-me excessivamente preocupada em manter a ordem; dedico tempo e energia, para manter tudo em seu devido lugar. Começando pela parte mais fácil, mantenho a casa arrumada, deleto e-mails, organizo documentos e aplicativos em pastas, apago as fotos mal batidas, desfocadas, todos os meus históricos e minhas conversas no whatsapp, mantenho a louça e meu carro em ordem, fazendo limpas constantes nos armários, não deixando papéis e bugiganga acumularem.

Então, vem a parte mais complexa: passo conflitos, sentimentos e palavras a limpo, evito pessoas e pensamentos tóxicos, tenho aprendido a dizer não e, certamente, preciso do silêncio para meditar. Talvez essa obsessão me transmita uma falsa ilusão de que tenho controle sob algo. Ironicamente, desenvolvi esse comportamento justamente quando tudo ao meu redor parecia desmoronar.

Para a Gestalt-terapia, somos um organismo inteligente que se autorregula e se adapta diante dos diversos estímulos e demandas externas; manter a ordem em meio ao caos foi uma resposta que encontrei para sobreviver. Sinto que é hora de deixar o caos fluir dentro e fora de mim.

Naquilo que resisto, persisto.

Escutei essa frase na aula de formação em Gestalt-terapia. Naquele mesmo dia, havia tido um dia caótico, tentando fazer meus alunos de 10 anos trabalharem em silêncio; esforcei-me, em vão, para manter a ordem na sala. Quanto mais insistia no silêncio, mais barulho ouvia. “As aulas andam um tanto caóticas, acho que eles não estão prontos para a prova”, disse, em tom preocupado, à minha coordenadora. Na semana seguinte, apesar do caos, decidi manter a data da prova e ninguém tirou abaixo de 90.

O caos e a ordem.

“Tome uma atitude caórdica”, lia o pequeno papel que tirei certa vez em um grupo de apoio. Fui a um encontro e nunca mais voltei, mas não me esqueci dessa palavra.

Tantas vezes, nas aulas de formação em Gestalt-terapia, falamos sobre a importância de fundir polaridades, “é preciso aprender a trocar o OU pelo E”. “Uma pessoa pode estar feliz e triste ao mesmo tempo”, dizia nossa mestre, Yara. Ontem, um dos meus alunos referiu-se ao colega como “inteligentemente burro”. Antes de interferir, observei a reação do colega, que não se ofendeu; pelo contrário, achou graça e concordou. As crianças parecem entender esse conceito com mais facilidade.

E, enquanto eles faziam os exercícios, contavam suas histórias, conversavam alto, resolvi deixá-los trabalhar e não mais pedir silêncio; parece que eles se organizam assim. Aprendi, com eles, que caos é algo muito relativo e que ordem é um conceito um tanto utópico, ainda que necessário, é também um trabalho interno. Se não resistirmos, dá para aprender no caos, meditar com música alta e, dentro de nós, podemos construir, sim, um reduto de paz.

contioutra.com - Vá como um rio

“Go as a river”, dizia um dos quadros de caligrafia impecável escritos pelo mestre zen-budista Thich Nhat Hahn, em sua comunidade na França. Todos os dias, eu meditava em frente àquele quadro, com esperança de absorver suas palavras. Vá como um rio. Os mais importantes aprendizados são tão simples de entender, ainda que difíceis de praticar.

Fato, quanto menos atenção colocamos em algo, menos aquilo nos incomodará. Não resista. Deixe fluir. Hoje, deixei a cama desarrumada e, quem sabe, possa aprender, por fim, que o caos contém muita ordem em si, basta validá-lo.

A gente não ama todo dia do mesmo jeito

A gente não ama todo dia do mesmo jeito

Imagem de capa: Kar Tr/shutterstock

Muito se engana quem acha que o amor segue o mesmo ritmo, a mesma teoria e os mesmos sentimentos todos os dias, como algo imutável. Tem dias em que o amor é aquele abraço que nos sufoca; em outros, o amor vira aperto de mão e a saudade cede lugar para o silêncio.

Tem dias em que o amor é jantar a dois com direito àquela música que faz o coração da gente disparar, mas tem dias em que o amor vira pão com mortadela, sem direito a uma tubaína para acompanhar. Há dias em que o amor é 24 horas; em outros, nem 5 minutos. Às vezes, o amor tem cara de “quero passar o resto da minha vida com você”, mas há dias em que o amor vira um “me dá um tempo”.

É assim mesmo, a gente não ama todo dia da mesma forma; tem dias em que o amor é furacão; outros, tempestade, que logo vira calmaria e nos abrigamos no abraço do outro. O amor também é cara feia, assim como é sorrisos de criança que acabou de ganhar um brinquedo. O amor é bonito, mas tem dias em que é feio, daqueles que a gente não quer nem olhar, não quer nem sentir.

Tem dias em que o amor é aquela nossa música preferida, que a gente não cansa de dar replay; em outros, ele vira aquela melodia que enjoamos de tanto ouvir. O amor é brigadeiro, mas também é chá de boldo; às vezes é doce demais, às vezes é amargo.

Há dias em que o amor é aquele sofá em que deitamos no final de um dia cansado. Há dias em que o amor vira aquela cadeira do escritório em que não aguentamos mais ficar. Machuca as costas, dói o pé e precisamos de um descanso.

E, quando entendemos que o amor não é a mesma coisa todo dia, entendemos que amar vai muito além de apenas sentir amor. É preciso saber perdoar quem nos machuca no final de um dia cansado, é preciso saber que não querer conversar hoje não significa desamor.

O amor é bonito, é leve, mas há dias em que o amor vira tempestade e a única coisa que importa é se abrigar nos braços um do outro no final de tudo. Amor também é renúncia, é saber que, naquele momento, querer despejar palavras duras não irá ajudar em nada e que o silêncio, talvez, seja a sua melhor resposta. E, mesmo não amando todo dia do mesmo jeito, a gente sabe: a gente ama cada vez mais.
*Texto inspirado em trecho de autoria de Fernanda Mello, sobre o amor.

O pior tipo de estranho é aquele que um dia a gente tanto conheceu

O pior tipo de estranho é aquele que um dia a gente tanto conheceu

O tempo passa e muitas coisas mudam, quase nada permanece igual. Tudo o que a vida traz modifica as pessoas, os ambientes, os sentimentos. Nesse girar, ganhamos experiências, sabedoria, acumulamos momentos, no entanto, também perdemos e deixamos para trás.

O passar dos dias vai nos modificando, ressignificando o mundo à nossa volta, reordenando os nossos sentimentos, ajustando o que se encaixa e desarticulando o que não cabe mais. É por isso que, não raro, pessoas de quem já fomos íntimos ontem poderão muito bem amanhã já não nos significarem mais nada.

Quantos amigos de infância ou de adolescência já não se tornaram distantes? Quantos amores que pareciam eternos hoje nem se dignam a um aceno de cabeça? Porque a gente muda as prioridades e, nesse ritmo, acaba percebendo quem fica e quem tem que sair. Quem é para sempre e quem nunca foi nem um dia todo.

Algumas pessoas sairão de nossas vidas com tranquilidade, enquanto de outras nos separaremos em meio a tempestades, lágrimas e decepções. É natural vermos gente indo viver a própria lá longe, porém, nunca estaremos preparados para ver partindo, a contragosto, quem morou num lugar especial, bem dentro de nós. Difícil ter que sufocar, abafar os sentimentos, quando o foco de nossa estima fica andando pra lá e pra cá, sem a gente.

Será uma viagem dolorosa que atravessaremos, enquanto nos despimos de toda e de qualquer afetividade em que tanto apostávamos, inutilmente, nutrindo e regando amor em terreno infértil. Ex-amores, ex-amigos, que um dia tão caros nos eram, de repente terão que passar por nós como meros desconhecidos. Antes próximos, agora estranhos – e a gente morre um pouquinho por dentro. Mas passa.

Não estaremos livres de nos decepcionar com as pessoas, tampouco conseguiremos evitar que se decepcionem também conosco. É impossível agradar a todos e muito do que esperamos receber nunca chegará. Algumas pessoas se tornarão estranhas em nossas vidas, portanto, mantermos nossa integridade e nossos princípios intactos é que nos ajudará a não nos tornarmos estranhos para nós mesmos, porque isso, sim, seria imperdoável.

Imagem de capa: Olesya Kuprina/shutterstock

Somos muitas metades no meio de poucos inteiros

Somos muitas metades no meio de poucos inteiros

Imagem de capa: Breslavtsev Oleg, Shutterstock

Não tá fácil, não. Somos uma geração de muitas metades no meio de poucos inteiros. Concentramos esforços demais para desfazer laços e para questionar afetos. Perdemos um tempão discutindo um jeito melhor de vivermos, mas quase não colocamos em prática aquilo que achamos merecer.

Tenho visto, e não é de hoje, o quanto depositamos maldizeres aos que não ficaram. O quanto, nos piores dias, desejamos resultados negativos para todos que não concordaram com algo que sentimos e dissemos. Parece que estamos cada vez mais imersos numa onda de egoísmos e solidões. Nada é suficiente quando olhamos para os lados. Temos essa sensação constante de vazio, mesmo que estejamos cercados por outros. E a dor é ainda maior no momento em que reconhecemos diferenças e desuniões.

Hoje, querer reciprocidade virou um mantra diário. Mas quantas vezes, por livre e espontânea vontade, demos em troca esses gestos incalculáveis? Será que precisamos tanto pedir algo que deveria vir assim, sinceramente? É quase como se apontassem um amor na nossa cara e dissessem, ame-o ou ame-o mais. Quer dizer, será que não percebemos que inteiros são inteiros justamente por não agirem tal qual metades?

Amor não funciona sob pressão. Amor funciona em formato de escolha. O que é recíproco, também é livre. Não invade, viola ou escancara. O que quer que seja que aprendemos até o presente sobre inteiros, acredito que estávamos errados. Ainda somos metades. E metades no meio de poucos inteiros, não funcionam, não existem e, tampouco, amam.

Tem gente blefando com você? Pague para ver

Tem gente blefando com você? Pague para ver

Imagem de capa:  211743697/shutterstock

Pode demorar muito tempo para se descobrir um jogador, um apostador que se diverte e lucra com a confiança alheia. Ele aposta na boa fé, na consideração que recebe, na ausência de dúvidas quanto à relação de confiança.

E blefa sem piedade, planta situações, sugere outras, vai moldando a realidade de acordo com sua vontade. Então, em dado momento acontece a desconfiança, a lógica grita e pede atenção!

-Tem gente blefando comigo. Tem gente me cozinhando em banho maria, me guiando para um lugar que não desejo ir, para uma vida que não quero ter.

O jogo não é gritante e escancarado. O jogador estuda muito antes de começar as apostas. Quem blefa o faz olhando nos olhos, assertivamente. É difícil de não acreditar. Exige o que mais tememos: O senso crítico com quem não queremos sequer contrariar. O afeto protege o apostador da desconfiança que ele merece ser submetido.

Ao se deparar com um apostador, tenha cuidado. Ele fará qualquer coisa para garantir a vitória do que quer conquistar.

Desconfia de um blefe? Pague para ver. Se decepcione, descabele, desiluda, perca fichas, mas corte a sequência de blefes e jogadas. O blefe é um péssimo indicador. Demonstra como a confiança pode ser manipulada e usurpada.

A não ser que o jogo seja mútuo e de comum acordo, sempre haverá prejuízo, perda, decepção.

Não tenha medo de pagar para ver. Tenha medo sim de aceitar como verdade o que é apenas um blefe irresponsável. O jogador não se importa com o valor do que se apropria e destrói. Se para ele é um jogo excitante, jamais enxergará a lista de prejuízos causados.

E sem essa de defender o jogador. Fazemos muito, até demais. Tentamos inutilmente clarear e maquiar as intenções de quem, cedo ou tarde se revela. Boas intenções e jogadas manipuladoras não ocupam o mesmo espaço.

Na dúvida, se preserve. Haverá sempre um jogo justo a se jogar, cujo objetivo não seja derrubar o outro. Desconfiou de um blefe? Pague para ver, encare. Defenda suas fichas!

Ele não virá em um cavalo branco te encontrar…

Ele não virá em um cavalo branco te encontrar…

Imagem de capa: JakawanTH/shutterstock

Quantas vezes não temos aquela sensação de que estamos pensando demais e realizando de menos? Idealizamos, planejamos, sonhamos, criamos uma projeção da pessoa ideal que gostaríamos de ter ao lado.

O resultado disso é que na vida real passamos a descartar todas as pessoas que não são aquilo que idealizamos.

E sabe quando será possível encontrar alguém exatamente como você busca? Nunca! Menina, preciso te contar um segredo: o amor da sua vida não virá em um cavalo branco, mas provavelmente surgirá de uma maneira desajeitada e o seu primeiro pensamento será não saber que aquela pessoa é alguém que, fora do seu mundo ideal, pode te fazer muito feliz. Alguém que pode te mostrar que sair dos planos é divertido e muito melhor do que você imaginava.

Inicialmente, é provável que você não concorde que está pensando assim, mas acredite sempre que buscamos alguém dizemos estar muito abertas a conhecer novas pessoas. E geralmente, não estamos! Ficamos nesse processo de criar defeitos e buscar perfeição. E acredite, não há ninguém perfeito. E se existisse, já pensou que chato alguém agindo com perfeição? Pensou que chato nunca ser surpreendida? Nunca ver algo legal que você nunca imaginou em uma pessoa? Pensou que mundo mais entediante não poder pegar no pé do outro tirando sarro das manias dele?

Quantas vezes não planejamos uma viagem, programamos tudo o que vamos fazer com antecedência, criamos um roteiro, e tudo sai conforme planejado e você fica com a sensação de que foi bem legal, mas faltou algo. Sabe o que faltou? O inesperado! Os imprevistos! Quantas vezes aquela viagem de última hora não te fez voltar com a sensação de que foi a mais divertida da vida?

No amor não é diferente! O amor é construído a partir do que você não esperava e te agradou. É construído nas imperfeições que você passa a achar engraçadas. É feito de gente de verdade, que erra, acerta, erra de novo, conserta! Nossa trajetória da vida é assim e não podemos achar que alguém vai tornar a vida algo estável.

Entenda de uma vez por todas que o previsível é chato! É monótono! Se abra para novas aventuras e nelas você encontrará pessoas incríveis, umas ficarão com você por um tempo e de repente não estarão mais lá, outras estarão com você e você não vai querer que elas estejam, até que uma hora vocês dois vão querer ficar, estar, parecer, ser.

E então minha amiga, você pare e me conte: esse alguém é como você sempre sonhou? Tenho certeza que não! Então, é uma grande perda de tempo idealizar alguém, porque é muito provável que o improvável aconteça! E te faça muito feliz!

O amor não consiste na ausência de conflitos, mas na habilidade de lidar com eles.

O amor não consiste na ausência de conflitos, mas na habilidade de lidar com eles.

O amor não é sinônimo de ausência de tempestades, é um equivoco pensar que o amor não tem lá os seus dias ruins. Nesses dias em que a gente está exausto do trabalho, dos problemas e das discussões desnecessárias, o amor é a capacidade de ser abrigo, quando tudo parece ser vendaval.

O amor é aquele chocolate quente em um uma manhã fria de inverno, é quando dispomos do nosso tempo para acolher a dor do outro, ainda que tudo pareça corrido demais em nossas vidas.

Amor é sobre preparar o jantar, esquecer-se de colocar sal na comida e rir disso, como quem prefere pedir pizza. Sem culpados, sem precisar jogar a culpa em alguém, sabe? É queimar as torradas, porque acordou atrasado e dizer que, na verdade, está no ponto, porque sabe que o outro está dando tudo de si.

É quando tudo está dando errado, o seu chefe ergueu o tom de voz com você no trabalho, o cartão estourou, a semana parece não terminar nunca e os problemas insistem em fazer morada. E, então, mesmo tendo coisas para serem discutidas, a gente deixa de lado as cobranças e termina a semana sendo abrigo, fazendo companhia, comprando pão francês na padaria para comer com carne moída, não se esquecendo da tubaína. Afinal, amor também é renúncia.

Amor é sobre quando você tira uma nota baixa na faculdade e precisa estudar muito para recuperar e o outro decide passar o domingo com a cara nos livros junto com você, tomando a matéria, como quem parece entender tudo sobre o assunto, mas, na verdade, só entende o quanto você precisa desse apoio. Amor também é parceria.

É quando as diferenças, depois de um tempo, começam a falar mais alto e você interrompe uma briga com um beijo, como quem diz: “nós não vamos brigar por isso”. Afinal, amor também é sabedoria.

O amor não dá as costas quando o outro não está bem, o amor não foge quando as coisas vão mal. Quem ama é presença, é presente. O amor é sobre aquele tempo que a gente tira no meio do dia para dizer “bom dia”, ou liga para saber se o outro melhorou da gripe e conseguiu dormir bem à noite.

O amor não consiste na ausência de conflitos, mas na capacidade que temos de aprender a lidar com cada um deles, não deixando que o amor acabe por qualquer coisa. Afinal, amor também é luta.

Muitas vezes, a gente mesmo é que ferra com tudo

Muitas vezes, a gente mesmo é que ferra com tudo

Por mais que haja textos, mensagens, livros, por mais que nos ensinem, desde crianças, a tentarmos agir de forma a não semear ventos, ninguém consegue passar a vida sem ferrar com si mesmo, de alguma forma, envolvendo, inclusive, quem mais amamos, nas tempestades que nós próprios criamos. Sim, muitas vezes, nós nos sabotamos, estragando o que estava bom, afastando as pessoas e oportunidades, de maneira exemplar.

E, pior, é que costumamos machucar quem mais confia em nós, quem nos ama e permanece junto de forma clara e verdadeira. Quanto mais próximos somos da pessoa, mais nos desnudamos, mais deixamos vir à tona o nosso pior. Enquanto o vento sopra forte aqui dentro, dizemos o que não devíamos, agimos como não poderíamos, machucando, ferindo fundo, por palavras e ações que raramente se apagarão dos sentimentos alheios.

Quantas vezes não jogamos de volta, agressiva e distorcidamente, o que de mais sincero o parceiro nos ofereceu? Quantas vezes não dizemos aos filhos coisas que ninguém mereceria ouvir, fazendo-os se sentirem um nada? Quantas vezes falamos palavras maldosas de alguém que gosta realmente de nós, enquanto ele não está presente? Parece que estamos pedindo para que tudo vire ruínas, para que saia de nossas vidas quem a torna mais feliz.

Talvez façamos isso porque temos medo de ser feliz, como se esperássemos, a todo momento, que algo viesse a estragar a nossa vida, e então nos adiantamos ao destino, ferrando, nós mesmos, com tudo. Talvez isso ocorra porque temos maior quantidade de munição afetiva justamente em relação a quem amamos e com quem compartilhamos mais verdades. Talvez sejamos odiosos com quem nos ama porque temos a certeza de que seremos perdoados. Vai saber.

Que a gente consiga, enfim, ter cada vez menos medo da felicidade. Que a gente possa sorrir sem esperar que lágrimas venham. Que a gente possa gozar o sucesso sem temer a inveja. Que não fujamos dos tapetes que nos puxam, mas saibamos levantar com dignidade. Que consigamos engolir de volta toda palavra dolorida que teimar em sair junto a quem amamos e nos ama verdadeiramente. Que a gente se sabote cada vez menos, porque sempre teremos alguém que sofrerá junto, porque resolveu andar de mãos dadas. Vivamos!

Todo mundo erra, mas tem gente que capricha nas cagadas que faz

Todo mundo erra, mas tem gente que capricha nas cagadas que faz

Estaremos sujeitos a errar durante nossa caminhada, o que pode ser benéfico. Erramos porque temos a coragem de tentar, de ousar, de sermos aquilo que queremos e de lutarmos por aquilo em que acreditamos. Somente quem não age fica imune aos erros, porém, assim, pouco se aprende, pouco se movimenta, pouco se cresce.

Analisar o erro, para refletirmos sobre a forma como vimos agindo, no sentido de mudarmos as ações que não estão trazendo resultados desejáveis, é uma necessidade, seja na vida, na escola, no trabalho, seja nos relacionamentos vida afora. Termos maturidade suficiente para encararmos nossas derrotas e nelas perceber o reflexo direto de tudo o que fizemos, das nossas más escolhas, de nossa própria semeadura, será o que nos possibilitará melhorarmos a cada dia.

Por outro lado, se nos postarmos como vítimas do destino, do acaso, do mundo em si, tentando nos isentar de qualquer responsabilidade sobre o que nos acontece, nada aprenderemos, ou seja, continuaremos voltando aos mesmos descaminhos, feito um pião que roda em torno de si mesmo. Não assumir a parcela que nos cabe no rumo dos acontecimentos em que nos inserimos significa distanciar-se das possibilidades de recomeço que o amanhã sempre traz.

No entanto, conscientizar-se de que errar faz parte da vida não significa, de forma alguma, que não existam erros inadmissíveis e imperdoáveis. Porque existe quem erre deliberadamente, com consciência, sabendo, no fundo, que está agindo de maneira contrária ao que deve ser feito, como quem trai um amor, quem desvia dinheiro, quem ofende e violenta, quem oferece e recebe propina, quem agride e fere repetidamente. A gente sabe o que é certo e errado, sim, por isso é que muitos erram de propósito – e isso é muita sacanagem.

Agirmos de maneira equivocada, tentando fazer o certo, acreditando no que nos move, na intenção de obter resultados positivos, é algo a que ninguém foge. Felizmente, é assim que a gente aprende a se consertar, a se enxergar e a enxergar o outro. No entanto, pautar suas ações por erros não somente uma, mas inúmeras vezes, é claro sinal de que a pessoa está agindo conscientemente, ferindo princípios éticos porque quer fazê-lo, na maioria das vezes em proveito próprio. Chame-se de egoísmo, de falta de caráter, de burrice, o que for, mas sempre haverá quem capriche nos erros – e quão amarga será sua colheita…

Imagem de capa: Evgeny Hmur/shutterstock

Geração Prozac: O mundo mergulhado em Depressão

Geração Prozac: O mundo mergulhado em Depressão

Imagem de capa:  SHYPULIA TATSIANA/shutterstock

O que é depressão? Apesar dela ser uma doença desoladora, destruidora e terrivelmente incapacitante, atingindo centenas de milhares de pessoas em todo o mundo, em uma escalada assustadora; ainda continua sendo um tabu falar em depressão ou quaisquer tipos de doenças ou transtornos psicológicos.

Há, de fato, muita ignorância no que tange a essas doenças, mas existe também muita falta de sensibilidade e empatia para que as mesmas sejam compreendidas, sobretudo, de acordo com a singularidade de cada um. Poderia ficar horas tentando responder à pergunta inicial, todavia, a melhor resposta que posso oferecer se encontra a seguir:

“Hemingway tem um momento clássico em ‘O Sol Também se Levanta’ quando perguntam para Mike Campbell como ele faliu. Tudo que ele consegue dizer é ‘Gradualmente, e depois rapidamente’. É assim que a depressão atinge. Você acorda uma manhã com medo de viver.”

A frase que define com perfeição o que é a doença é de autoria de Elizabeth Wurtzel, jornalista estadunidense, que em seu livro “ProzacNation” (Geração Prozac), narra as suas experiências com a doença. Enorme sucesso à época, vendendo milhares de cópias, o livro foi adaptado para o cinema pelo norueguês Erik Skjoldbjærg em 2001 com o mesmo nome.

No filme, conhecemos Elizabeth que está entrando em uma nova e promissora fase, já que está indo estudar jornalismo em Havard. No entanto, apesar de um início aparentemente “normal” e tranquilo na sua vida universitária, aos poucos a máscara vai caindo e a realidade da doença retoma a cena com mais força que nunca. O cerne do problema de Elizabeth está relacionado à problemática relação que possui com seus pais, os quais não conseguiram manter uma relação saudável após o término do casamento, afetando psicologicamente a filha situada no meio de um fogo cruzado.
Nessa situação não há como escapar, e ela começa mais uma vez a fazer terapia, embora não acredite que isso possa ajudá-la. E por que não acredita? Porque todos que a rodeiam, mesmo que seja um “especialista”, parecem não conseguir compreendê-la ou estar determinados o suficiente para isso. É como se tudo que ouvisse de quem tenta ajudá-la não passasse de uma repetição interminável de clichês que o seu cérebro já está cansado de escutar.

“ ‘Ouça, todos nós temos dias ruins’. Isso é o que as pessoas dizem quando não sabem mais o que dizer. Droga. Também não sei o que sugerir. ”

Entretanto, por outro lado, nem ela própria consegue se compreender e/ou ajudar as pessoas próximas a entendê-la. Aliás, esse é um traço típico de quem possui depressão (e outras doenças psicológicas), qual seja, a dificuldade de não conseguir compreender o porquê daquilo está acontecendo, já que ninguém quer passar por tanta dor e sofrimento, e ainda por cima, não saber claramente como encontrar uma saída.

A maior parte das pessoas, ao lidarem com situações como a do filme, sentem-se inconformadas, chateadas, cansadas e por vezes até esbravejam por não conseguirem encontrar a raiz do problema e maneiras de solucioná-lo de fato. Evidentemente, estar ao lado de alguém que se encontra com a mente enferma não é fácil, por mais que a pessoa esteja realmente empenhada em ajudar. Escutar aquele “famoso” – “Não sei porque estou assim” – é algo desolador para o coração de quem se vê envolvido na tempestade. Mas, o que muitas vezes é difícil de compreender, é que para quem está bem no centro da tempestade, leia-se, a pessoa com a doença, tudo que sentimos ainda é pouco para o que elas sentem.

Ou seja, para quem está sentindo na pele é muito mais complicado não conseguir entender o real motivo daquilo tudo: da falta de ânimo para viver, da falta de vontade para levantar da cama, da incapacidade de sorrir, do aperto no peito, da insônia sem fim e de tantas outras coisas que é impossível mensurar. Assim como, a depressão vem emaranhada em tantas coisas, que é impossível identificar apenas um problema e encontrar uma simples solução. É algo que acontece, que desencadeia outro “algo que acontece”, e outro “algo que acontece” e quando percebemos estamos como na história de Hemingway – rapidamente caminhando para o abismo, embora quiséssemos que algo mágico acontecesse e acordássemos no outro dia livre de todo emaranhado de coisas ruins indecifráveis, marcadas como “algo que acontece”.

“Se eu pudesse ser normal. Se eu pudesse sair da cama de manhã e tudo estivesse bem. ”

Elizabeth se sentia assim, perdida no meio da sua própria dor, buscando um modo de se comunicar com o mundo, contar a sua dor, pedir ajuda, mas sem conseguir êxito. E ela queria, tentava, mas parece que a cada tentativa, as coisas só faziam piorar e tudo que a cercava desmoronava ainda mais. Uma dor solitária que aumentava o seu sofrimento, porque era como se todo mundo conseguisse seguir suas vidas, apesar dos tropeços e só ela ficasse parada com o rosto no chão.

“ – A maioria das pessoas se cortam, e colocam um band-aid e continuam em frente.
– E o que você faz?
– Eu continuo sangrando. ”

Esse sangramento só chegou ao fim quando ela conseguiu, após quase cometer suicídio, “um tempo para respirar” por meio do Prozac, receitado por sua terapeuta. Tempo para que ela conseguisse voltar a levantar da cama, a escrever, a sorrir e colocar a sua vida em ordem, gradualmente e depois rapidamente. Entretanto, ao recobrar o fôlego, ela, finalmente, conseguiu compreender a sua situação e percebeu que ela não era a única que continuava sangrando. Pelo contrário, ela era apenas um grão, de uma multidão de pessoas sangrando e que, como ela, não sabem o que fazer, recorrendo, para conseguir respirar, ao Prozac.

Sendo assim, a história de Elizabeth é a história da Geração Prozac, dos Estados Unidos da Depressão, porque ela demonstra com clareza o que é estar doente, com a mente doente, com a alma doente; sem saber como encontrar uma saída ou gritar por ajuda. Assim como, encontrar um olhar empático nesses momentos é algo extremamente difícil. Um olhar que busque compreender a situação como algo único, sem comparações e clichês, porque cada dor dói e aflige em um peito. E mostra também que a medicação, para quem realmente necessita (está doente) e não como fuga para qualquer dor, é algo importante para que, como Elizabeth, se consiga um tempo para respirar.

Mas, além disso tudo, e talvez o questionamento mais importante do filme seja: por que vivemos em uma “Geração Prozac”? Por que as pessoas estão sofrendo tanto? Por que elas precisam de um remédio para conseguir respirar? O filme se encerra e deixa o questionamento no ar, e claro, não há uma resposta universal. Todavia, se existem tantas pessoas sofrendo (número que só faz aumentar), algo no nosso modo de vida não deve estar certo e acredito que é esse ponto (ou pontos) que precisamos encontrar para que deixemos de ser os Estados Unidos da Depressão ou em uma tradução livre: a Geração Prozac.

Tudo o que custar a sua paz, sempre será caro demais

Tudo o que custar a sua paz, sempre será caro demais

Imagem de capa: UrmasHaljaste/shutterstock

Salário alto, relacionamento de aparências e vaidade custam mais do que sua alma podem pagar e, passar a vida toda querendo mantê-las, faz você perder o controle da própria vida e entrar em uma frustração surreal.

Estamos sempre atrasados, nunca temos tempo para o essencial e reclamamos de (quase) tudo. A “grama” do vizinho é sempre mais verde, o relacionamento da amiga mais feliz e o trabalho do colega mais interessante.

Nessa rotina de reclamações constantes, buscamos incessantemente duas coisas na vida: a felicidade e a paz, sem entender, no entanto, que os dois sentimentos estão aliados e não tem relação nenhuma com bens materiais, aparência ou relacionamentos.

Não adianta ler todos os livros de autoajuda disponíveis ou buscar profissionais de todas as áreas de saúde para te aconselhar, se você não está disposto a colocar em prática o que aprende. Entenda que, sem a prática, nenhuma teoria funciona.

A felicidade e paz interior não são vendidas em cápsulas e não estão disponíveis nas prateleiras das farmácias. São estados emocionais que precisam ser desenvolvidos a partir do conhecimento da própria personalidade. François La Rochefoucauld: “o primeiro dos bens, depois da saúde, é a paz interior.”

Conhecer-se, saber o que o impulsiona é tão importante quanto respirar. O que te move nesse mundo? Quais são seus ideais? E, o mais importante: o que tem feito para conseguir?

Querer não é suficiente para atingir os objetivos. Você precisa conhecer as causas que motivam seus sonhos e as condições que tem para realizá-los, do contrário, sempre será frustrado e infeliz.

Fernando Pessoa afirmava, em toda a sua sabedoria, que o sucesso de tudo está no agir: “Agir, eis a inteligência verdadeira. Serei o que quiser. Mas tenho que querer o que for. O êxito está em ter êxito, e não em ter condições de êxito. Condições de palácio tem qualquer terra larga, mas onde estará o palácio se não o fizerem ali?

Encontrar felicidade na própria vida, ser grato pelas oportunidades e reconhecer a bondade dos detalhes, faz com que a paz se acomode dentro da alma.

Paz não é algo negociável, que você pode dar como moeda de troca ou que aceite perder com normalidade. A paz interior vale mais do que qualquer dinheiro no mundo. Então, caso seus sonhos estejam norteados apenas em algo consumível, você precisa rever seus conceitos sobre felicidade. Machado de Assis dizia que “o dinheiro não traz felicidade — para quem não sabe o que fazer com ele.” E, convenhamos, ele estava certo.

Paz interior não é fácil de conquistar porque envolve disciplina, perdão e generosidade. E, sim, isso são atitudes difíceis de serem praticadas. É fácil verbalizar o perdão, quando se não foi ferido na alma. É fácil discursar sobre generosidade, quando você nunca precisou dividir seus bens. É fácil falar de disciplina se você desconhece os próprios limites.

Ninguém consegue a paz sem antes passar pelo deserto. Para saber perdoar, você precisa ser ferido. Para ser generoso, você precisa aprender a ser desprendido. E, para ter disciplina, você precisa ser advertido por quem ama. Para Einstein “a paz é a única forma de nos sentirmos realmente humanos.”

Nada vale a nossa paz, nem esse relacionamento que você insiste há anos. Você pode ter encontrado a pessoa dos seus sonhos, estar vivendo um relacionamento digno de Oscar e ela pode ter as qualidades mais admiráveis do universo, se não trouxer paz no coração, acredite, não é para você.

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