Quando NÃO se deve fazer psicoterapia

Quando NÃO se deve fazer psicoterapia

Imagem de capa: wavebreakmedia/shutterstock

Como em todos os tratamentos, a psicoterapia também tem contraindicações. É um tratamento que exige investimentos altos, como o financeiro, o mental e relativos ao tempo. Dessa forma, é importante conhecer as contraindicações do processo terapêutico:

  1. Se suas faculdades mentais estiverem muito comprometidas, pois a psicoterapia necessita trabalhar com a realidade, ou seja, se o indivíduo estiver com delírios e alucinações, faz-se necessário procurar um psiquiatra, antes de dar início ao tratamento psicoterápico;
  2. Se deseja mudar o mundo: A PSICOTERAPIA NÃO TEM O ALCANCE DE MUDAR O MUNDO todo, mas de mudar o seu mundo interno e de aperfeiçoar o seu olhar em relação às pessoas e situações que o rodeiam;
  3. Quando se deseja mudar o outro, pois a psicoterapia tem como objetivo mudar o indivíduo que se submete ao tratamento psicológico; entretanto, indiretamente, as pessoas que o cercam podem sofrer mudanças de comportamento decorrente das alterações da sua nova forma de “funcionar”;
  4. Para ajudar alguém: o tratamento psicológico não tem alcance de ajudar alguém que não tem “coragem” de se submeter ao processo, pois ajudará você a entender o porquê de querer ajudar essa pessoa;
  5. Se deseja psicoterapia para se manter numa relação tóxica ou trabalho que lhe traga prejuízos, pois a psicoterapia fará enxergar que, provavelmente, existem aspectos seus que o prendem a essas situações ou pessoas;
  6. Caso queira “aval” do profissional de que o mundo é cruel e você é sempre vítima de pessoas e situações, pois, ao longo do tratamento, certamente aparecerão questões relacionadas às suas “escolhas” de estar em situações de natureza destrutiva;
  7. Para agradar ao outro: muitas vezes, o profissional ouve que foi procurado porque alguém pediu para que fizesse terapia. Geralmente, nesses casos, os encontros entre psicólogo e paciente duram por 2 ou 3 atendimentos, pois fazer terapia necessita de desejo genuíno de se conhecer e de se entregar ao processo terapêutico;
  8. Para mudar sua história: a psicoterapia pode trazer uma compreensão e um “novo” olhar sobre o seu passado, mas não muda sua história de vida, entretanto, tem o poder de mudar seu futuro.

Fazer psicoterapia é indicado somente para os corajosos. Há de se ter coragem para se autoconhecer, entrando em contato com seu pior lado.

Há de se ter coragem para entrar em contato com a dor que ficou em algum canto, para se proteger do sofrimento.

Há de se ter coragem para mudar seus velhos comportamentos e trilhar novos e desconhecidos caminhos.

Talvez, a única indicação para se submeter ao processo terapêutico seja a coragem.

Essa vai pra todas as mulheres livres!

Essa vai pra todas as mulheres livres!

Imagem: acervo pessoal da autora

Essa vai pra todas as mulheres que preferem ser livres e vagar por aí do que ficarem em casa. Pras que já disseram, “Eu gosto de você, mas eu amo mais a minha liberdade”. Pras mulheres que não se contentam com uma vida comum e se recusam a viver assim.

Essa vai pras mulheres que são encaradas quando estão em um restaurante sozinhas, pras mulheres que curtem a sua própria companhia e não precisam de ninguém para se sentirem aceitas. Pras mulheres que não têm medo de comprar uma passagem pra um outro país e irem sozinhas.

Essas vai pras mulheres que procuram o amor, mas ao mesmo tempo se sentem completas sem ninguém, e que nunca vão se contentar com alguém que não as mereça completamente.

Essa vai pras mulheres que se impõem, que não ficam quietas e não abaixam a cabeça. Pras que dizem com o queixo erguido “sim, eu estou viajando sozinha” pros taxistas do aeroporto que te olham estranho. Pras mulheres que sabem o que querem e correm atrás disso.

Essa vai pras mulheres que não dependem de homem nenhum para terem suas coisas. Pras mulheres que vão e fazem. Pras mulheres que – apesar de saberem que serão julgadas – não ligam para opiniões alheias.

Essa vai pras mulheres que preferem um dia escalando uma montanha pra ver um por do sol em cima das nuvens do que um dia de beleza. Pras mulheres que se sentem mais felizes em uma roda de fogueira num camping qualquer do que uma tarde no shopping.

Pras mulheres que preferem as memórias que acumulou viajando do que a certeza de um futuro bem sucedido. Pras que preferem sanar a curiosidade de desbravar o desconhecido do que o conforto de uma rotina. Pras que preferem ir do que ficar.

Essa vai pras mulheres que não se contentam com o que nos impõem. Que, quando mais velhas, não se vêm fazendo bolo pros netos, mas sim lhes contando sobre aquela vez que viajaram pro interior de algum país desconhecido e sobre os perrengues que já passaram.

Essa vai pra todas as mulheres livres: ESSE MUNDO TAMBÉM É NOSSO.

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Uma boa companhia é melhor do qualquer lugar

Uma boa companhia é melhor do qualquer lugar

Imagem de capa: Antonio Guillem/shutterstock

Em tempos de ostentação, superficialidade e aparências, em que o parecer se tornou mais importante do que o ser, é extremamente difícil encontrar pessoas que apreciam a companhia das outras em seus mínimos detalhes.

Tudo que gira em torno do “encontro” parece ser mais importante do que as próprias pessoas envoltas nele, e a selfie (ou selfies) assumiu o protagonismo ante às conversas, não raras vezes, superficiais e girando em torno de lugares comuns, sem qualquer grau de intimidade e profundidade. Diante disso, pergunto-me: será que o lugar, a selfie e os protocolos sociais são mais importantes do que a companhia, ou uma boa companhia é melhor do qualquer lugar?

Como diria um poeta português: “A intimidade é o último refúgio”. Estar em um lugar “bacana” com pessoas superficiais não vale a pena. Não é isso que proporcionará felicidade, tampouco, fará com que esses momentos sejam transpostos ao infinito pela memória. Para que isso ocorra é preciso que haja sincronicidade entre as almas, comunicação entre os olhos e ligação entre as falas, coisas que independem de lugar, hora ou dinheiro.

Sendo assim, o que importa é a comunicação estabelecida, seja com palavras, seja com os silêncios, porque são nos silêncios, lembrando Rubem Alves, que a gente escuta, presta atenção nas entrelinhas do coração, na melodia das palavras. Ao mesmo tempo em que a gente se sente acolhido, o coração sereno e os olhos vibrantes.

E isso pode acontecer estando sentando em um banquinho, comendo um “dogão” e bebendo coca, ao mesmo tempo em que as palavras fluem como se direcionassem para um rio caudaloso de tranquilidade, como se cada letra não fosse falada de qualquer forma, mas acompanhasse um tom, uma melodia em profunda sincronia com o universo, de modo que a nossa dimensão finita pudesse, mesmo que apenas por alguns segundos, penetrar a sua infinitude incompreensível.

E os nossos olhos passam a enxergar a obviedade, o cotidiano, as trivialidades, as pessoas indo e vindo, com significado, com beleza, poesia, porque é nisso que reside a beleza inexplicável da vida e não em momentos de grandiosidades vazias. É sentando na ponta da calçada, olhando a sarjeta sendo iluminada pelo céu, se permitindo divagar pela existência, em seus caminhos mais obscuros e sinuosos. Compartilhando uma música, ou simplesmente sentindo a brisa que corre pela noite e vem de encontro ao nosso corpo como se quisesse abraçar a nossa alma.

Pode ser em casa, assistindo Netflix e dividindo uma pizza. Rindo até a barriga doer, até mesmo daquelas piadas completamente sem graça, porque a alegria é tão grande, que a gente fica com o riso frouxo.

Uma boa companhia é melhor do qualquer lugar. Mais do que isso: é o melhor lugar que podemos encontrar para repousar o nosso desassossego, porque quando conseguimos escutar o nosso eu ecoando dentro de outro espaço, percebemos que a nossa existência vai muito além do nosso existir.

Na sua lista de prioridades, qual é a sua posição?

Na sua lista de prioridades, qual é a sua posição?

Imagem de capa: Mamonov Stanislav/shutterstock

Quem nunca abriu mão da própria felicidade em prol de um amigo? Quem nunca engoliu a seco uma ofensa para não ofender? Quem nunca sorriu chorando por dentro? Somos assim: generosos com os outros e cruéis com o próprio coração.

Acreditamos ser mais fácil dizer “não” para os nossos sonhos, do que para os sonhos de um filho. É menos doloroso abrir mão de ser feliz, do que fazer o outro sofrer. É mais bonito trair a própria vontade, do que deixar o outro frustrado. Pelo menos, é isso que nos ensinaram até hoje: toda renúncia em nome do amor vale a pena. Mas, sabe, sinto informar que distorceram a frase em benefício próprio. As renúncias que funcionam no amor, são as recíprocas, não as de mão única.

Há uma música da Oswaldo Montenegro denominada de “A Lista” que descreve bem essa situação. Criada para uma peça de teatro com o mesmo nome, consegue emocionar de forma única quem a escuta. Com uma melodia calma e versos que levam à reflexão das ações do homem durante a vida, o poeta proporciona um momento de interiorização entre alma e ações do próprio ser humano: “Faça uma lista dos sonhos que tinha/ Quantos você desistiu de sonhar!/ (…)Onde você ainda se reconhece/ Na foto passada ou no espelho de agora?Hoje é do jeito que achou que seria/Quantos amigos você jogou fora? (…)Quantas mentiras você condenava? Quantas você teve que cometer? Quantos defeitos sanados com o tempo/Eram o melhor que havia em você?

Soluços e lágrimas a parte, voltemos da viagem interior e foquemos no que importa: o que nos leva a sempre priorizarmos o que não é importante? Por que a dor do outro é mais profunda que a nossa? Por que o boleto a pagar é mais urgente que o café com o amigo?

Priorizar-se não é ser egocêntrico, é apenas entender que a sua dor é tão importante quanto a do próximo. Que os seus sonhos são tão grandes quanto à de seus familiares e que a sua felicidade é tão necessária quanto a de seus amigos.

Colocar-se como prioridade na própria vida é entender o próprio valor e respeitar o caminho que o trouxe até aqui. É respeitar a própria opinião, como respeita a de quem discorda de você. É entender que é merecedor  de uma amizade sem interesse, e não dessas que te enxergam como organização filantrópica.

É saber o valor que se tem, indiferente da opinião alheia. É se cuidar, ser capaz de perdoar os próprios erros com a mesma facilidade que perdoa a do companheiro. É ser capaz de ir ao cinema sozinho e sentir-se completo com a própria companhia.

É amar sem medo de perder. É entender que perfeição não é uma qualidade humana e que erros são cometidos com mais frequência que escovar os dentes. É ser capaz de dar foras sem se condenar. É rir quando tiver que rir e chorar quando tiver que chorar. Livre assim.

Colocar-se como prioridade é ser capaz de se amar antes de exigir isso dos outros. É respeitar o próprio tempo, os conhecimentos empíricos que adquiriu na vida, os princípios morais que te ensinaram quando criança, para que não aconteça de esquecer-se de si tentando agradar os outros.

Como dizia Clarice, in “Carta a Tânia” [irmã de Clarice] (1947), eu queria dizer é que a gente é muito preciosa, e que é somente até um certo ponto que a gente pode desistir de si própria e se dar aos outros e às circunstâncias.(…) Ouça: respeite a você mais do que aos outros, respeite suas exigências, respeite mesmo o que é ruim em você – respeite sobretudo o que você imagina que é ruim em você – pelo amor de Deus, não queira fazer de você uma pessoa perfeita – não copie uma pessoa ideal, copie você mesma – é esse o único meio de viver”.

Às vezes, é preciso dar um tempo, para analisar as coisas a uma distância segura

Às vezes, é preciso dar um tempo, para analisar as coisas a uma distância segura

Imagem de capa: astarot/shutterstock

Termos um tempo sozinhos, bem longe, para refletirmos sobre nossas vidas e tudo o que trazemos para junto dela, irá nos dar clareza quanto à real importância do que e de quem vale a pena manter conosco.

A gente se cansa. A gente se cansa das pessoas, dos lugares, do trabalho. A gente se esgota. Acumulamos muita coisa parada aqui dentro de nós, coisas que não digerimos, palavras que não devolvemos, ofensas que não rebatemos, vazios que não nos sustentam. O tempo torna tudo mais pesado e, frequentemente, embaralha as nossas verdades, sufocando o nosso respirar. Às vezes, é preciso dar um tempo, é preciso dar-se um tempo. Para os outros e para nós mesmos.

É preciso dar um tempo longe de pessoas cuja importância ainda não nos é clara, cuja companhia não é uma certeza; pessoas que permanecem ao nosso lado sem estar ali de verdade ou com vontade. Perdemos horas preciosas dando importância a quem mal se lembra de nossa existência, a quem somente nos procura quando lhe convém, a quem pouco importa como nos sentimos. Isso nos esgota.

É preciso dar um tempo longe dos lugares onde não encontramos receptividade calorosa, não provocamos sorrisos sinceros, não recebemos abraços intensos. Existem espaços que já não mais nos comportam, que não requerem nossa presença, em que não mais cabemos porque nada ali nos acrescenta. Trata-se de lugares que parecem correr da gente e que nunca conseguimos alcançar; onde ficamos de maneira forçada. Isso nos diminui.

É preciso dar um tempo longe do relacionamento que nem sabemos mais se é amoroso ou o que quer que seja, se tem vai com volta, onde não mais existe calor, arrepio, frio na barriga, coração que salta. Muitas vezes, insistimos na manutenção de uma relação que se vale do comodismo, da conveniência gratuita, de aparências frágeis. Acabamos nos confortando em terreno falso e arenoso, presos a ilusões de que tudo pode mudar. Isso nos frustra.

É preciso dar um tempo longe do trabalho que esgota, suga, assedia, machuca e drena nossas forças, nossa dignidade. Não é possível suportar por muito tempo ter que chegar contrariado todos os dias a um lugar onde os colegas das mesas ao lado são falsos, onde o chefe destrata a todos, onde a pilha de serviços acumulados é maior do que o prazer que sentimos enquanto passam as horas que se arrastam. Não é possível manter a sanidade mental onde a maldade impera, as ofensas se alastram, a fofoca é doentia, onde a felicidade nunca entra. Isso nos adoece.

É certo que não estaremos sempre rodeados por gente do bem, nem poderemos sentir prazer em tudo o que fizermos, porém, evitar permanecer onde o vazio e a dor reinam sempre poderá nos salvar de um viver arrastado, de um caminhar moroso, de companhias erradas, de amores doídos. Termos um tempo sozinhos, bem longe, para refletirmos sobre nossas vidas e tudo o que trazemos para junto dela, irá nos dar clareza quanto à real importância do que e de quem vale a pena manter conosco. O resto a gente vai jogando fora, aos poucos, para que nos livremos de tudo o que só atrapalha essa felicidade que é tão preciosa, tão necessária, tão nossa.

“Um salve para nós que estamos dispostos a trocar um punhado de certezas por um infinito de possibilidades”

“Um salve para nós que estamos dispostos a trocar um punhado de certezas por um infinito de possibilidades”

Haveria muito menos sofrimento afetivo no mundo se nos déssemos conta de que não há nenhuma fórmula – mágica ou matemática -, capaz de definir o formato, o sabor ou a textura de qualquer relacionamento.

Vivemos apegados demais à certeza de que há uma alma gêmea vagando por aí à nossa espera ou procura. Vivemos isolados em bolhas de ilusão, e seguimos acreditando que a família do outro é perfeita, que os filhos dos outros dão muito menos trabalho, que os pais dos outros foram muito mais atentos e amorosos.

E todas essas certezas acabam por nos confinar num lugar de extrema solidão. São essas tolas certezas que nos impedem de enxergar além das aparências e encontrar em nossos relacionamentos amorosos, de amizade ou familiares, encantos únicos que foram sendo tecidos a partir das possibilidades afetivas de todos os envolvidos.

É maravilhosamente libertador ser capaz de abrir os olhos para outras possibilidades de se conectar com outro; entender que é exatamente essa imperfeição que nos possibilita transformar crenças e apegos em coisas muito mais reconfortantes e reais.

Esses caixotinhos de modelos pré-concebidos só servem para nos deixar vazios e infelizes. Ficamos ali, dentro das caixinhas de estereótipos afetivos que vão nos transformando em ridículas caricaturas de nós mesmos.

Se nossos filhos parecem testar nossa capacidade de acolhimento e paciência… ótimo! Façamos desses testes, oportunidades de alargamentos emocionais e flexibilização de nossas convicções.

Se nossos parceiros ou parceiras parecem distantes demais da figura idealizada que construímos em nossos corações e mentes… sensacional! É sinal que são pessoas inteiras e que não se deixaram moldar ao bel prazer de nossos caprichos.

Se os amigos parecem pouco envolvidos conosco, distantes e ausentes… que maravilha! Talvez esteja na hora de ressignificar essas relações para encontros diferentes. Ou mesmo, talvez, esteja na hora de conhecermos outras pessoas e alargarmos nossos horizontes emocionais.

Sendo assim… Um “SALVE!”para todos nós que formos capazes de abrir mão de algumas certezas e trocá-las por um infinito de possiblidades! Nem o céu é o limite! Aliás… não existem limites!

Imagem meramente ilustrativa: cena do filme “Truque de Mestre”

Amor mais do mesmo? Tô fora. Não sei fingir um relacionamento

Amor mais do mesmo? Tô fora. Não sei fingir um relacionamento

Imagem de capa: Viagem à Itália (1946) – Dir. Roberto Rossellini

Se decido por um amor a dois é porque entendo o bem que isso possa me trazer. Não tenho nenhuma felicidade em viver vidas totalmente separadas, com cada um no seu quadrado, já que o objetivo do amor é somar vontades e planos. Quem fica junto, sente saudade. Quem fica distante, sente adeus.

Esse papinho de vou pra cá e você vai pra lá, não cola nem em feriado de Finados. Claro, ninguém é obrigado a estar, o tempo todo, compartilhando das mesmas saídas, das maratonas na Netflix ou daqueles churrascos em família. Mas deve haver um bom senso entre o que podemos viver em conjunto com aquilo que, por vezes, passamos individualmente. Afinal, ambos escolhemos o nosso amor. Ele não caiu assim, desesperadamente, no colo de nenhum dos dois.

E não adianta vir pedindo desculpas e tentando explicar a agenda cheia, os programas que não batem e outras conversas sobre gostos diferentes. Tudo isso foi exposto desde o começo, acredito. Também não estou apontando reclamações e, muito menos, fazendo um dramalhão sobre liberdades. Mas pera lá, onde já se viu um relacionamento funcionar na base do vamos ver se encaixa? Não sabia que as relações amorosas tinham sido transformadas em jogos de tabuleiro.

O amor requer paciência, mas muito mais consequência. É para ser suave e caótico ao mesmo tempo. Temperado e agitado. Doce e meio amargo. Aceitar o comodismo é cilada e antes que perceba, acabou. Porque não preciso me arrumar com alguém pura e simplesmente para transparecer estabilidade e segurança no coração. Dá preguiça só de imaginar passar por esse longo processo somente para escapar das indagações feitas pelas tias nas festas de fim de ano.

Amor mais do mesmo? Tô fora. Não sei fingir um relacionamento. Quero, sem carências líquidas, a simples sorte de esbarrar em alguém que saiba fazer um amor fora da curva, fora desse círculo de gente sem graça e contente com qualquer declaração e montagem filtrada.

Mudar o mundo

Mudar o mundo

Imagem de capa: Yuliya Evstratenko/shutterstock

O pior adoecimento é o conformismo, pois amortece a vontade, fragiliza a luta, mata a esperança. Seguir em um namoro requentado, persistir num péssimo emprego, emudecer diante de uma injustiça são alguns sintomas da resignação.

Entendo: o mundo é vasto, a sociedade é complexa, o sistema tem a sutileza de um trator, as flores são frágeis. Há desigualdade, desorganização, corrupção e maldade. Tem canalha com auréola de santo. Tem santo de pau oco. Há puxadores de tapetes, e arrivistas que se dão bem.

Mas mesmo o sórdido, o obscuro, o nefasto não são eternos. Eles não gozam do status de deuses. Nem está escrito em parte alguma que não possam ser enfrentados. Também sei que toda gente está cansada de promessas. Está farta de pagar sonhos de revoluções.

No entanto, um mar de dificuldades não quer dizer que os horizontes foram borrados. Há uma energia de transformação dentro da coletividade: escravos se rebelam, mulheres se emancipam, gays e lésbicas se assumem, pessoas com deficiência põem cara e pernas para fora.

Dentro de cada indivíduo existe criatividade e vontade de fazer o melhor. Esse sentimento começa na infância e, muitas vezes, é sufocado na medida em que os anos passam. Um tremendo prejuízo para todos. É triste que o inquieto de ontem seja o conformista de hoje.

Tenho para mim que não queremos, e nem devemos, aceitar a injustiça como normal, o malfeito como bem-feito, o pato como ganso, a vida como destino pré-escrito. Acho que existimos para fazer alguma diferença. Não acredito que tantos recursos sejam para nada.

Por exemplo, nascemos para tornar o mundo melhor. Para isso não é preciso pegar em armas, assaltar o poder, discursar para as massas, converter pessoas. Ninguém precisa ser um herói, um comandante, ou um chato, para transformar as coisas.

Basta que cada um, dentro da sua circunstância, encontre seu jeito de mudar o mundo. Fazendo trabalho de formiguinha, agindo no varejo. Pondo fé na sua própria importância. Um bom pedreiro faz mais bem ao mundo do que um médico ruim.

Iluminar-se dos outros

Iluminar-se dos outros

Imagem de capa:  Kichigin/shutterstock

Meus avós costumavam contar que antigamente, quando ainda não existia eletricidade nas casas, e combustível para as lamparinas era artigo raro, a pouca luz que se tinha em casa era regrada. À noite, as pessoas apenas se aquietavam.

Mas quando ia se fazer uma visita ou levar um agrado, a luz da lamparina que iluminava o caminho, que clareava a estrada, era recebida pela casa com as seguintes palavras: “Bem-vindo você que trouxe luz para essa casa”. Eu sempre adorei essa história.

E o que é o amor se não isso, luz trazida de longe para iluminar a gente por dentro? Basta olhar para ver como os amantes se iluminam mutuamente. Em uma medida rara, são o ascender dos sonhos do outro, o aquecer da candura do outro, a centelha que generosamente se multiplica em nome do outro, sem esforço desproporcional, sem anulação. Iluminam, um ao outro, apenas existindo.

E nos momentos difíceis, em que nos perguntamos se o amor vale mesmo todos os desafios, a conta é fácil: se há respeito pela grandiosidade do outro, vale. Se há generosidade de aguardar o tempo de maturação da calma do outro, vale. Se após a tempestade, vem a doçura se assentando no horizonte, ainda que tomada emprestada das memórias, vale.

Vale porque, muito além do que se abre mão, há tudo que se ganha sendo dois. Ganha-se um colo que não exige pressa, pés que entrelaçados nos situam na noite, olhos que entrelaçados nos aprumam no dia. Ganha-se um parceiro sem julgamento para os domingos preguiçosos, uma voz que acalma em meio à rotina, um riso pela casa que também faz rir.

Ganha-se na espontaneidade de quem rima com seu jeito sem ensaio, ganha-se em silêncios que se respeitam, orgulhos que se põem de lado em espera, beijos paliativos, conversas que não se despedem. Ganha-se mãos que encorajam, interesse para os seus assuntos sem nexo preferidos, intimidade deliciosamente conquistada, ganha-se compreensão. Ganha-se o estado constante de estar-se iluminado pela existência do outro.

Não deixe de ser você para que alguém o ame mais

Não deixe de ser você para que alguém o ame mais

Imagem de capa: francoimage, Shutterstock

Ainda que possa tentar a ideia de que, agindo de outra maneira, a pessoa que lhe interessa possa gostar de você também, tudo que você irá conseguir será passageiro caso precise deixar de ser você

Não perca sua identidade, não se boicote. Não deixe de ser você mesmo para que alguém o ame mais. Se fizer isso, de forma inevitável, estará se sabotando.

Quando gostamos de uma pessoa e queremos conhecê-la mais profundamente, desejamos causa-lhe uma boa impressão. Isto, às vezes, nos leva a não agir com naturalidade.

Porém, com esta atitude você mente para si mesmo e também para a pessoa por quem se interessou. A encherá de expectativas com mentiras, acreditará que algumas coisas em você a atraem, mas na realidade essas coisas são falsas…

Não deixe de ser você mesmo ou terminará em um falso amor.

A magia de todo começo

Os inícios das relações são mágicos. Tudo parece fluir de uma maneira mística, sem esforço. Porém, com o tempo isso se desvanece. De repente, é preciso se esforçar em aspectos nos quais não era preciso fazer antes.

Talvez tenha chegado a este momento porque se transformou no ideal da outra pessoa. Quis afirmar as expectativas que ela tinha em relação a você. Isto, cedo ou tarde, tinha que acabar.

Não só você se apaixona por alguém que espera que se adapte aos seus padrões, como também você mesmo tenta apaixonar à outra pessoa se transformando no que ela deseja.

E onde ficou a sua autenticidade? O que aconteceu com o seu “eu”? Tentou camuflar tudo o possível para mergulhar em um amor falso.

Todas essas conexões que criou com a outra pessoa eram falsas. Seu medo de não gostar de você, de que seus defeitos a espantassem, fez com que você agisse diferente do que você é.

Essa magia do começo logo irá embora, simplesmente porque sua forma de começar a relação não foi a mais sincera e nem justa.

A importância de ser assertivo

Desde um primeiro momento, com a pessoa que gostamos, é imprescindível manifestar nossos gostos, nossos interesses e mostrar o nosso verdadeiro caráter.

Não temos porque esconder o que nos desagrada, porque com o tempo desejaremos fazê-lo e nosso parceiro ficará confuso a respeito e dirá: eu não sabia!

Pensemos em um breve exemplo: imagine que a pessoa com a qual você está, fuma. Ela faz isso desde sempre e você nunca expressou sua desconformidade quanto a ela fazer isso no carro ou em casa.

Mas, um dia você se incomoda muito. Se irrita, grita perguntando se ela não percebe que você não gosta desse hábito. Sua resposta, sem dúvidas, será: eu não pensei que isso te incomodasse, afinal, você nunca se queixou.

Poderíamos dar muito mais exemplos similares que não farão mais do que comprovar o quanto somos pouco assertivos.

Não nos damos conta de que, em nosso afã por gostar, nos enganamos.

Os problemas que surgem quando começa a ser você mesmo

Tudo vai bem, sem problemas, até que você começa a ser você mesmo. Porque a máscara que colocou não pode ser sustentada por muito tempo.

É então quando surgem os conflitos. A conexão que há entre você e seu parceiro é alterada. Agora está sendo assertivo, mas já é tarde.

Há partes de nosso parceiro que começam a nos incomodar, mas o mesmo acontece com ele. Começamos a reclamar de coisas que antes não nos incomodavam ou é isso que parecia.

Discussões, irritações e conflitos que não os levam a nenhum entendimento se fazem presentes e não têm mais volta.

Tudo isso te desgasta. Você crê que já não ama mais o outro, que o amor se desgastou. Porém, não se dá conta de que tudo isso é fruto de um falso amor que ambos criaram.

Não deixe de ser você, ainda que se sinta tentado. É difícil ser consciente de como estamos agindo no início, mas devemos fazer um esforço para não terminarmos frustrados, doídos e decepcionados.

Não tenha medo de ser autêntico. Quem se apaixonar por você deve fazê-lo pelo seu verdadeiro eu, não pelo modelo que adotou para gostar de você.

Se não pode ser quem é do lado da pessoa que ama no começo, não vale a pena mantê-la ao seu lado.

Não deixe de ser você mesmo e terá o relacionamento que sempre quis.

Fonte indicada: Melhor com Saúde

Paredes de hospitais já ouviram preces mais honestas do que paredes de igrejas

Paredes de hospitais já ouviram preces mais honestas do que paredes de igrejas

Imagem de capa: palidachan/shutterstock

Não sabemos o dia de amanhã, tampouco podemos prever quando alguma fatalidade virá nos encontrar, mas, caso tenhamos mantido junto as pessoas certas, com gratidão sincera, estaremos mais fortes para enfrentar as tempestades que se avizinham.

A maioria de nós parece se lembrar de ser mais grata, caridosa e altruísta exatamente quando está passando por algum problema, seja de saúde, financeiro, familiar, seja de qual natureza for. É como se, na dor, fôssemos automaticamente dotados de empatia e de espírito de solidariedade, desprendendo-nos de materialidades fúteis e de vaidades vãs.

Logicamente, há quem se digne a se satisfazer a partir de atitudes caridosas; há quem pense primeiramente no outro, bem antes de si; há quem se lembre de agradecer por estar vivo todos os dias, sem que esteja sofrendo ou passando por alguma instabilidade. Caso contrário, a humanidade já estaria quase que extinta. No entanto, muitos somente voltam os olhos para além de si mesmos nos momentos em que não conseguem enxergar alguma saída da escuridão em que se encontram.

Quando tudo vai bem, quando temos emprego, saúde, quando ninguém da família está doente, sentimos um prazer imenso desfrutando de tudo o que temos junto de nossas vidas e, nesses momentos, muitas pessoas se esquecem de nutrir o sentimento de gratidão. Não se refere, aqui, exclusivamente ao ato de orar, de agradecer a Deus, mas sim de ser grato também a quem nos ajudou e continua ajudando, a quem nos ama, a quem nos espera com verdade, todos os dias.

Caso não se trate de uma pessoa religiosa, sempre haverá pessoas ao redor que deverão ser especiais, pois ninguém chega sozinho onde se encontra hoje. Ao longo de nosso caminho, muita gente nos motiva e fortalece, através de palavras reconfortantes, de uma mão amiga, de conselhos preciosos, até mesmo por meio de sua companhia, do estar junto por inteiro. Sermos gratos a quem nos faz bem acabará sempre por nos tornar pessoas melhores e mais felizes.

Por isso, estarmos sempre em dia com o retorno afetivo em relação aos verdadeiros anjos terrenos que suavizam a nossa jornada fará com que mantenhamos próximos justamente quem veio para ficar. Não sabemos o dia de amanhã, tampouco podemos prever quando alguma fatalidade virá nos encontrar, mas, caso tenhamos mantido junto as pessoas certas, com gratidão sincera, estaremos mais fortes para enfrentar as tempestades que se avizinham. A gratidão, afinal, é um escudo poderoso contra o mal, pois ela ilumina qualquer caminho.

Flávio Gikovate: saudades além do Divã

Flávio Gikovate: saudades além do Divã

Imagens: Divulgação

Atencioso e engraçado. Justo e metódico, assim o apresentador, escritor e psicoterapeuta é descrito por amigos e colegas.

Desde 1976 Flávio Gikovate, psiquiatra e escritor, se dedicava a tentar entender quais são as variáveis que determinam nossos parceiros sentimentais, pondo em xeque a visão mágica e inexplicável que normalmente temos do amor.

Tarefa difícil naquela época, onde os dilemas da vida conjugal eram mantidos a sete chaves. Mesmo assim, resolveu encarar o desafio e seguiu adiante, transformando-se em um dos pioneiros nos estudos sobre amor e sexo no país.

Tendo sexo e amor como fenômenos completamente diferentes, Flávio Gikovate acreditava que os termos gregos como Eros e Philia (duas das definições que os percussores da cultura ocidental tinham para falar de amor), a base de nosso conhecimento sobre o assunto, são insuficientes e que o buraco é bem mais embaixo e bem menos místico.

Também é dele o conceito de +Amor – que parece mais uma daquelas frases que terminam com “por favor”, mas não é. +Amor faz referência à união entre dois indivíduos que já são inteiros, deixando de lado a velha história da tampa da panela ou da metade da laranja, valorizando a auto-estima e autoconfiança no lugar da dependência.

Tudo muito adulto e moderno, mas será que as pessoas de hoje estão preparadas para esse tipo de vínculo? Em tempos onde assumir posturas extremas é quase uma obrigação, as ideias de Gikovate soam como desafiadoras. Nelas, os matizes desempenham papeis importantes. Para entender o amor, por exemplo, seria preciso ser mais objetivo e ir um pouco mais a fundo no tema, longe das especulações corriqueiras.

“O que chamo de +amor corresponde a relações afetivas erotizadas em um par romântico no qual a intimidade é igual à que existe entre amigos: a dependência é mínima e o prazer da companhia é máximo”, esclarece na descrição de um vídeo sobre o tema, postado em seu canal no YouTube.

No vídeo, Flávio Gikovate gesticula, fala com as mãos e pausadamente, sempre com tranquilidade. Seus cabelos brancos inspiram confiabilidade, algo ancestral. A estante de livros ao fundo do seu escritório ajuda na construção de uma imagem de segurança intelectual. Sua postura é séria, mas inspira simpatia, convida a chegar perto e ouvir. “Amor é sempre remédio para desamparo”, profere em um trecho, antes de prosseguir e mergulhar um pouco mais fundo no tal do amor.

Autor de 34 livros publicados, atingiu a impressionante marca de um milhão de vendas em um país onde, de acordo com pesquisa realizada pelo IBOPE, sob encomenda do Instituto Pró-livro, 44% da população não tem o costume de ler.

Como psiquiatra e psicoterapeuta, atendeu mais de 10.000 pacientes em sua clínica particular. Era atarefado, mas amava o que fazia.

contioutra.com - Flávio Gikovate: saudades além do Divã

UM HOMEM JUSTO

Flávio Gikovate era admirado não apenas por seus leitores e ouvintes. Conseguiu o respeito também daqueles que se dedicavam ao crescimento da sua carreira.

Atualmente, após seu falecimento no ano passado, aos 73 anos, duas pessoas são responsáveis por cuidar de seu acervo. Elas foram autorizadas pela família a conversar com o CONTI outra. Como preferem ficar nos bastidores, pediram para que não fossem identificadas.

Uma delas era sua assistente, que trabalhava com ele desde 1995. O auxiliava diretamente na clínica, tinha apenas 18 anos quando começou.

“Minha incumbência era a parte burocrática da clínica, desde agendar consultas, contas a pagar e receber até a organização de palestras, passando pelas atualizações diárias das redes sociais”, explica.

“O Dr. era metódico, disciplinado. Tudo tinha um horário específico. A clínica funcionava diariamente com os mesmos horários marcados, começando às 9h o primeiro atendimento e o último terminando às 18h30”, diz sobre a rotina no local de trabalho.

“É fato que ele foi diminuindo o ritmo nos últimos anos, tendo em vista que, inicialmente, começava a atender às 8h15 e o último cliente saía às 20h. No geral, a cada 45 minutos chamava o próximo cliente e assim seguia o dia todo, sempre com a agenda lotada, não parando nem para almoço, apenas comia um lanche de pão integral com queijo branco no início da noite e depois jantaria em casa.”

Descreve o ex-chefe como um homem justo, que costumava dar na mesma medida em que recebia e não se curvava diante das dificuldades que surgiam.

“Fazia parte de sua formação moral e intelectual tratar a todos com respeito e nunca se exasperar, mesmo diante das piores situações”.

A segunda pessoa responsável cuida da parte de tecnologia, encarregado do site, vídeos e venda de livros da Gikovate Loja Virtual desde 2003.

“O Dr. era um cara muito legal, tinha muito senso de humor, comentava comigo os assuntos do momento, sobre futebol e falávamos muito também sobre investimentos e bolsa de valores. Eu aproveitava para puxar esse tipo de assunto com ele porque ele gostava e me ensinava muito”, relembra.

Dentre algumas lembranças marcantes do convívio com Gikovate, ficou a de quando fez a primeira entrevista para começar a trabalhar na clínica. “Lembro de estar muito nervoso e ele ter quebrado a tensão inicial da entrevista perguntando se eu era hacker. Ele perguntou e ficou olhando para mim, depois soltou um sorriso. Isso me deu muita segurança e vontade de trabalhar com um ‘patrão’ tão legal, foi o que eu pensei na época e que perdurou por mais de uma década.”

Como bom comunicador que era, Flávio Gikovate gostava de ficar atento sobre os novos modos de alcançar o seu público. Depois que seus assistentes o convenceram a criar uma conta no Twitter e um perfil no Facebook, passou a alimentar pessoalmente o primeiro e a dar dicas do que ser publicado no segundo.

Nos últimos tempos, criava material inédito para alimentar as redes sociais durante quatro dias na semana: frases para sábado, domingo e segunda – que algumas vezes a filha dele traduzia para o inglês – e o vídeo do YouTube na sexta. Nos outros dias, a escolha de conteúdo ficava a critério de sua assistente.

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AMIZADE SINCERA

Reinaldo Polito (66) ensina expressão verbal para executivos e às vezes atende pela alcunha de mago da oratória. Já escreveu dezenas de livros sobre a arte de falar em público e goza de grande prestígio em sua área de atuação.

Polito e Gikovate se conheceram no começo da década de 1990. Pouco tempo depois, fizeram uma palestra juntos em Cuiabá, patrocinada pela psicoterapeuta Ireniza Canavarros, amiga de Flávio. O relacionamento entre os dois se estreitou cerca de quatro anos depois, quando palestraram novamente juntos no mesmo evento no Centro de Convenções de Olinda.

Depois do evento, os dois foram jantar acompanhados de Marlene, esposa de Polito. “A conversa foi tão envolvente que ele fez questão de nos convidar para um jantar em sua casa. Queria que a Ceci [como Gikovate chamava carinhosamente Cecilia Gikovate], sua esposa nos conhecesse. Como imaginávamos, a conversa naquele jantar na sua casa também foi excelente”, resume Reinaldo.

A relação literária entre eles também foi ampla e rendeu bons frutos. Polito coordena a série Série Superdicas, da Editora Saraiva. Um dos volumes é o Superdicas Para Viver Bem e Ser Mais Feliz (Saraiva, 2009), de autoria de Gikovate. Seu livro Vença o Medo de Falar em Público (Saraiva, 2007) foi prefaciado pelo amigo.

“Fui eu também que o apresentei para os agentes e editores internacionais. Uma das histórias até foi bastante curiosa”, antecipa. “Eu havia fechado acordo para publicar um de meus livros na França. Falei para a agente literária ‘seria bom mostrar o livro do Flávio, cairia como uma luva para os franceses’. Pois bem, acabaram publicando o dele e não o meu. Rimos muito.”

O exímio orador nutria grande admiração pelo amigo, de como aliou sua “habilidade de comunicação com o vasto conhecimento que possuía na sua área profissional”. Reinaldo chama a atenção para a capacidade de falar das questões complexas da psiquiatria de maneira tão simples que não havia uma pessoa sequer que não o entendesse. Afirma que Flavio havia desenvolvido “uma habilidade rara de resolver problemas intrincados em pouquíssimo tempo”.  Em seguida, dá exemplo de como essa habilidade funcionava na prática.

“Um amigo muito querido estava se separando da esposa. Meio perdido e sem saber bem como agir, marcou uma consulta – só uma. Em 40 minutos o Flávio fez o diagnóstico e deu a chave para que ele tomasse a decisão acertada para ser feliz. Até hoje esse amigo comenta como a orientação foi certeira. E diz que ninguém poderia ter sido mais competente que ele para que se reorganizasse na vida.”

Polito define o amigo como uma das pessoas mais bondosas, competentes e comunicativas que teve a felicidade de conhecer.  Alguém bem humorado até para reclamar; que gostava de conversar, falar de seus livros, das viagens a Nova Iorque, das palestras que fazia e do seu programa de rádio, que aparentemente era seu xodó.

Em 2007 Flávio começou a apresentar o programa “No Divã do Gikovate”, na CBN, onde conversava e tirava as dúvidas das pessoas presentes na plateia sobre os mais variados assuntos. A atração fazia sucesso e ajudou a alavancar ainda mais sua carreira.

“Eu estava na casa dele quando acertou com a CBN o início do seu programa. Estava ansioso e com grande expectativa. Estavam preparando o prefixo musical. Parecia que estava iniciando uma carreira – e de certa forma estava mesmo (…) Ele adorava fazer aquele programa.”

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LEGADO E SAUDADE

Na ocasião de seu falecimento, avalanches de mensagens chegavam na página do Facebook e na conta do Twitter. O público honrava e consolava a família e os amigos que acompanharam de perto a trajetória do homem que dedicou sua vida a dar sentido à vida de outras pessoas.

“O público ficou realmente muito triste; manifesta até hoje a saudade daquele a quem consideram um sábio, um guru, um mestre”, contou a dedicada assistente. “Acredito que devam se sentir como nós ou os familiares: é como perder um norte.”

Do convívio que tiveram, ela afirma levar “a busca pela constante evolução moral e intelectual, que, segundo ele, nunca acaba (…) de compreender a sociedade em que vivemos e colaborar de alguma forma para melhorar o estado de coisas em que nos encontramos”.

“Aprendi muito, mas o caminho para tentar ser justo, é o que mais me orgulho de ter absorvido da convivência com ele”, conta o assistente de tecnologia. Segundo ele, Flávio Gikovate nunca negou uma conversa. “Às vezes era entre os intervalos das consultas, outras vezes durante suas pausas para o café, mas sempre estava lá para aconselhar.”

Ambos os responsáveis por manter sua obra sentem-se como se houvessem perdido um pai, um amigo e um sábio que tinham sempre por perto. Também consideram a perda de alguém tão especial como algo irreparável e assumem com visível alegria e respeito a missão de propagar seus ensinamentos, via redes sociais.

Reinaldo Polito lembra com carinho da gratidão e considera essa uma grande lição de vida deixada pelo mesmo. “Ele não tinha ideia de quanto me deixava feliz em ser considerado seu amigo.”

“Por uma educação que ensine perguntas e não respostas”

“Por uma educação que ensine perguntas e não respostas”

Imagem de capa: Inara Prusakova/shutterstock

“A educação modela as almas e recria os corações. Ela é a alavanca das mudanças sociais.” Paulo Freire.

É sabido que a educação está intimamente ligada ao processo de desenvolvimento econômico e social de qualquer nação. No Brasil, haja vista a falta de investimentos e de priorização, a educação como um fio condutor do progresso da sociedade sempre esteve relacionada à utopia, isto é, a algo muito distante e, em certa medida, irrealizável.

Apesar da situação dificultosa ao longo da história brasileira, encontramos alguns personagens importantes na luta por uma educação que seja, antes de qualquer coisa, fator de humanização de um povo sofrido, explorado e sonegado sistematicamente em seus direitos.

Alguns desses personagens são responsáveis pelo livro “Fazer Universidade – Uma Proposta Metodológica”, uma obra seminal para o processo pedagógico e o pensar educacional, a saber, os professores Cipriano Luckesi, Elói Barreto, José Cosma e Naidison Baptista, que em 1984 trouxeram uma fresta de luz sobre a penumbra que cobria, e ainda cobre, o pensar educacional no país.

A proposta educacional levantada no livro, alinhada aos pensamentos de mestres, como Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro, Rubem Alves e Paulo Freire, assume um caráter “utópico”, dada as circunstâncias e o status que a educação possuía e continua a ter na nossa sociedade.

Entretanto, ao tratar sobre essa problemática, é preciso resgatar as palavras de Victor Hugo (2013, p.486), de que “Nada como o sonho para gerar o futuro. Hoje utopia, carne e osso amanhã”. Dessa maneira, a educação como um caminho para o desenvolvimento humano no solo brasileiro deve ser um sonho em constante reconstrução, já que, como dizem os próprios autores

“A delimitação que apresentamos de universidade pode se apresentar, a muitos, como um sonho. Certamente que assim o é! Mas um sonho possível, desde que por nossa prática tentamos transformar essas aspirações em realidades factuais” (LUCKESI. et al., 1984, p.22).

Sendo assim, a universidade como lugar próprio do conhecimento, deve estar estruturada de modo a possibilitar que o pensamento seja erigido de forma crítica e, por conseguinte, se reverberando em experiências de libertação individual e coletiva. O que implica dizer que “O importante é, na universidade, aprender a estudar, a fazer, a produzir conhecimentos, a ser gente” (LUCKESI. et al., 1984, p. 23).

A universidade não deve preocupar-se somente com a formação tecnicista a fim de atender as demandas do mercado, mas antes, deve contemplar uma formação com conhecimento crítico, buscando questionamentos, colocando o pensamento em análise e, consequentemente, saindo do lugar perigoso, mas cômodo, do senso comum.

Devemos considerar, todavia, os empecilhos historicamente colocados junto à construção de um saber acadêmico crítico e questionador. A formação dogmática das universidades, originadas a partir da Igreja, ainda permanece na contemporaneidade, isto é, na forma de produzir e perpassar o conhecimento, carregada em regras que tornam a educação tecnicista e o conhecimento demasiadamente mecânico e reprodutivo, sem que haja espaço para que o pensamento possa se manifestar de forma livre e autônoma.

Do mesmo modo, há de se considerar que ainda permanecem resquícios das sanções impostas àqueles que corajosamente ousavam contestar as autoridades e os dogmas impostos, fazendo com que o conhecimento continue sendo um instrumento rígido e, em certos casos, até incontestável e imutável.

No Brasil, essa estrutura rígida e dogmática impediu que movimentos e pensamentos que sonhavam com a universidade como um espaço onde, de fato, poderia ocorrer o livre pensar, se concretizassem. A nossa política, marcada por processos ditatoriais, sempre buscou modos de silenciar os sujeitos tidos como subversivos, homens que pensavam a academia como um espaço de desconstrução dos grilhões que impedem a sociedade de avançar, que mantêm o povo ignorante e alienado, que molda pensamentos a modelos pré-definidos de controle, exploração e perversidade. Como apontam os autores (LUCKESI. et al., 1984, p.35) “[…] ditaduras são incompatíveis com os debates e a verdadeira universidade deve ser edificada sobre e a partir do debate livre das ideias”, pois “[…] o conhecimento só evolui se é passível de crise, de questionamento” (Ibid, p. 38).

Dito isso, devemos ter em mente que fazer a universidade ainda consiste em um projeto de luta e resistência ante às ditaduras invisíveis que permanecem.

Aceitar um modelo de educação que visa exclusivamente atender aos detentores do capital e transforma a universidade em um grande balcão de negócios é impedir o desenvolvimento do ser social, que necessita da criticidade para aprender a observar e problematizar a sua realidade, adquirindo, assim, a capacidade de ser um agente transformador do seu meio.

O processo educacional que priva o educando da práxis, o torna incapaz de apreender a realidade posta ao seu redor, tornando-o um mero objeto, dissociada da ação que só pertence àquele que aprende sendo sujeito. Nesse sentido, é necessário estar o tempo inteiro buscando maneiras de questionar a ordem posta, as verdades colocadas, para que não haja uma sacralização dos saberes e das verdades históricas e sociais, pois é condição própria da evolução do homem estar propicio à reavaliação da sua maneira de enxergar o mundo.

Dessa forma, é imprescindível que o aluno não seja apenas um reprodutor de saberes e dogmas estabelecidos durante o processo de aprendizagem, mas sim, sujeito ativo e, por isso mesmo, construtor do seu próprio conhecimento, exercendo perenemente a sua capacidade de leitura, de análise, de problematização e de soluções perante a realidade que o circunda e lhe é posta. A simples repetição de verdades torna, pois, o ensino tão somente uma “[…] reprodução de ideias sem qualquer força de criação contínua, de produção nova, uma vez que se bloqueia a fecundidade e o exercício da crítica” (LUCKESI. et al., 1984, p. 40).

E, como dito, o aluno deve ser construtor de conhecimento e, por conseguinte, de mundo, porque como bem disse Paulo Freire (2004, p.18): “A educação modela as almas e recria os corações. Ela é a alavanca das mudanças sociais”.

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Ainda hoje, existem alguns problemas com a educação. Especialmente, por incrível que pareça, ensino superior. O currículo certamente conterá disciplinas opcionais para a sua especialidade e o único motivo para estarem lá é para preencher as horas de estudo. Para tais assuntos, é melhor usar um serviço de redação como um desta coleção da Top Writers Review, que fará a papelada desnecessária enquanto o aluno está se concentrando em algo mais importante.

Moça, nunca cobre presença de alguém que não te quer por perto

Moça, nunca cobre presença de alguém que não te quer por perto

Imagem de capa: Dmytro Zinkevych, Shutterstock

Não pede mais, não. Se para quem quer que seja, estar com você tanto faz, coloque já o seu respeito em primeiro lugar e vá para perto de pessoas que realmente façam questão da sua companhia. Porque chega uma hora que cansa ficar pedindo para alguém permanecer. Aliás, cansa precisar pedir.

Você pode muito bem procurar outros carinhos, moça. Pode e deve, sair porta afora atrás de amores e amizades que te reconheçam. Não tem essa de continuar pingando no molhado, esperando a outra pessoa mudar de ideia. A sua ficha é que precisa cair. Depois de todo o tempo dedicado, o mínimo a ser recolhido é a tal da honestidade. Trate de ser sincera consigo. Tanto fez te encontrar? Mande um adeus bem dado, sorrindo. Nem é vingança, mágoa ou pagar na mesma moeda, nada disso. É sobre não abaixar a cabeça para gente que faz pouco caso. É, ainda mais, sobre abraçar um autoconhecimento e uma maturidade emocional de quem não depende de qualquer par para ser completa.

Talvez você nem tenha percebido, mas em todos os momentos nos quais esteve lá, presente e inteira, poucos se importaram. Poucos quiseram. Isso serve, principalmente, para os amores. Quanto mais de você será suficiente? Por que colocar expectativas tão altas em um amor que não sabe amar? Você sente vontade de mudar para agradar, quando o justo seria mudar para si.

Moça, nunca cobre presença de alguém que não te quer por perto. Seja sentimento bem-vindo a quem possa interessar. Nada de afeto a longo prazo e parcelado com ausências semana sim, semana não. Você não é artigo decorativo e o seu coração tampouco parece um anúncio de jornal.

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