O tempo da delicadeza

O tempo da delicadeza

Gosto muito de livros e filmes que retratam recomeços. Deve ser porque lá no fundo a gente esteja sempre recomeçando, mesmo que não perceba. Todos os dias estamos fazendo escolhas, decidindo voltar para casa, para os braços de quem amamos, para a vida que vivemos.

Escolher o mesmo amor todos os dias é um milagre. Porque todo afeto é feito de pessoas. E pessoas são incompletas e imperfeitas _ o amor também. Tem gente que imagina o amor como solução. Não entendeu que amor é construção.

Existe um tempo em que o amor amadurece. Chico Buarque chamou esse tempo de “Tempo da Delicadeza”, e definiu lindamente como o “tempo que refaz o que desfez”.

Não importa de que matéria é feito seu amor. Você nunca poderá controlar ou evitar que algumas lascas ou rachaduras aconteçam durante o percurso. E quando isso ocorrer, você terá duas opções: partir ou permanecer.

E é nessa hora, no instante em que você decide ficar, que o amor cria raízes. É nessa hora que você entende que entrou no “Tempo da Delicadeza” e terá que refazer o que foi desfeito_ de que forma for.

Ter que escolher talvez diga mais sobre você do que não ter que fazer escolha alguma.
Quando você descobre a razão que te faz permanecer, você começa a decifrar os motivos que te ligam àquela pessoa. Aquilo que faz o amor ser suficiente para você querer voltar para casa todos os dias.

E são essas novas razões que justificam e validam aquelas outras, antigas… pelas quais seu coração se apaixonou. Pois agora você já não enxerga apenas beleza; você percebe os defeitos e tem consciência das lascas.

Então você entende de fato o que são “promessas matrimoniais”, muito além de “na alegria e na tristeza até que a morte nos separe”.

Permanecer na estabilidade diante das provações do tempo é aceitar o amor como um emaranhado de angústias, intimidade e gentilezas. É compreender a contradição que existe no que gera prazer e dor. É ser paciente com o tempo de esperas, em que o amor atravessa o deserto do tédio e da rotina. É acreditar que ainda há o que se esperar mesmo quando esgotaram-se todas as possibilidades.

É entender que ninguém completa ninguém. O copo que está pela metade permanecerá meio vazio. O amor vem dar sabor, mas não tem vocação de plenitude.

O amor moldado pelo tempo ensina. Mas você tem que se permitir vivenciá-lo.
Tem que serenizar a alma e renovar os votos_ acreditando no tempo que refaz o que desfez…

Imagem de capa: wavebreakmedia/shutterstock

Os gatos de Bukowski: entenda o fascínio do escritor pelos felinos

Os gatos de Bukowski: entenda o fascínio do escritor pelos felinos

Na Era Bukowski, em que vemos inúmeras estampas de suas grandes obras e seu rosto veiculando pelas terras clandestinas da Web, eis que encontramos citações sobre os misteriosos felinos.

Charles Bukowski foi um escritor alemão, naturalizado americano, famoso por suas poesias e contos dramáticos recheados de sarcasmo e de uma verdade nua e crua. Um romancista com uma paixão paradoxal pelas mulheres e que destilava todas as frustrações na bebida e nas palavras escritas. Ele carrega uma legião de fãs pelo mundo, até mesmo os mais jovens buscam, em suas anormalidades, um refúgio através da literatura insubordinada desse “Velho Safado”.

Para quem leu os livros e vasculha quaisquer frases ou vestígios que o escritor perpetuou sabe que ele possuía muitos gatos, vários deles, perambulando pela casa, junto dos papéis, canetas, desejos e doses de Boilermaker, sua bebida favorita. Entenda que os gatos não passaram pela vida intensa de Bukowski aleatoriamente, mas era proposital e empático que partilhavam do mesmo comportamento, sendo os gatos inspirações para suas obras.

O escritor gostava de ressaltar o quanto gatos são animais livres, selvagens e de um amor peculiarmente exigente. Por vezes, Charles se encontrava arranhado ou mordido carinhosamente pelos vagantes silenciosos e articulados. Gatos penetram nas entranhas da alma, desarmam nossas defesas e desafiam nossa existência, como um ser pedante e inconstante, pois são animais confiantes e sobreviventes.

Bukowski encontrava, nessas áureas enigmáticas, um consolo para sua jornada inquietante. Dizia: “Ter um bando de gatos por perto é bom. Se você está se sentindo mal, é só você olhar para os gatos e vai se sentir melhor, porque eles sabem que tudo é, tal como é. Não há nada para ficar animado. Eles apenas sabem. Eles são salvadores. Quanto mais gatos você tem, mais tempo você vive. Se você tem uma centena de gatos, você vai viver dez vezes mais do que se você tem dez. Algum dia isso vai ser descoberto e as pessoas terão mil gatos e viverão para sempre. É realmente ridículo”.

Até mesmo um senhor insano e irreverente buscava inspirações de fontes naturais e instintivas para explanar obras geniais, com uma sacada que a minoria reconhece como uma incrível aula sobre sobrevivência humana em um mundo caótico e utópico. Os gatos o ensinavam com maestria essa passagem áspera, entre goles, intimidade, vazio e uma insuportável franqueza, de arrepiar nossas noites literárias. Um gênio.

“A erótica da alma”

“A erótica da alma”

Adélia Prado certa vez escreveu: “Erótica é a alma”. Além de poética, a frase é redentora, pois alivia o peso da sensualidade a qualquer custo, a busca desenfreada pela juventude perdida, a corrida pelos últimos lançamentos da indústria cosmética.

E nos autoriza a cuidar mais da alma, a viajar pro interior, a descobrir o que nos completa. Pois se os olhos são as janelas da alma, de que adianta levantar pálpebras se descortinam um olhar de súplica?

Erótica é a alma que se diverte, que se perdoa, que ri de si mesma e faz as pazes com sua história. Que usa a espontaneidade pra ser sensual, que se despe de preconceitos, intolerâncias, desafetos. Erótica é a alma que aceita a passagem do tempo com leveza e conserva o BOM HUMOR apesar dos vincos em torno dos olhos e o código de barras acima dos lábios; erótica é a alma que não esconde seus defeitos, que não se culpa pela passagem do tempo. Erótica é a alma que aceita suas dores, atravessa seu deserto e ama sem pudores.

Porque não adianta sex shop sem sex appeal; bisturi por fora sem plástica por dentro; lifting, botox, laser e preenchimento facial sem cuidado com aquilo que pensa, processa e fala; retoque de raiz sem reforma de pensamento; striptease sem ousadia ou espontaneidade.

Querendo ou não, iremos todos envelhecer_faz parte da vida. As pernas irão pesar, a coluna doer, o colesterol aumentar. A imagem no espelho irá se alterar gradativamente e perderemos estatura, lábios e cabelos. A boa notícia é que a alma pode permanecer com o humor dos dez, o viço dos vinte e o erotismo dos trinta anos_ se você permitir.

O segredo não é reformar por fora. É, acima de tudo, renovar a mobília interior_ tirar o pó, dar brilho, trocar o estofado, abrir as janelas, arejar o ambiente. Porque o tempo, invariavelmente, irá corroer o exterior. E quando ocorrer, o alicerce precisa estar forte pra suportar.

Não tem problema cuidar do corpo. É primordial ter saúde e faz bem dar um agrado à auto estima. O perigo é ficar refém do espelho, obcecado pelo bisturi, viciado em reduzir, esticar, acrescentar, modelar_ até plástica íntima andam fazendo! Aprenda: Bisturi algum vai dar conta do buraco de uma alma negligenciada anos a fio.

Vivemos a era das emergências. De repente tudo tem conserto, tudo se resolve num piscar de olhos, há varinha de condão e tarja preta pra sanar dores do corpo, alma e coração. Como canta Nando Reis, “O mundo está ao contrário e ninguém reparou…” Desaprendemos a valorizar aquilo que é importante, o que é eterno, o que tem vocação de eternidade. E de tanto lustrar a carapaça, vivemos a “Síndrome da Maça do Amor”: Brilhantes por fora e podres por dentro. O tempo tornou-se escasso, acreditamos que “perdemos tempo” quando lemos um livro inteiro, quando passamos horas com nossos filhos, quando oramos ou viajamos com a família. E nos iludimos achando que poderemos “segurar o tempo” cuidando da flacidez, esticando a pele, preenchendo espaços.

Cuide do interior. Erotize a alma. Enriqueça seu tempo com uma nova receita culinária, boas conversas, um curso de canto ou dança. Leia, medite, cultive um jardim. Sinta o sol no rosto e por um instante não se preocupe com o envelhecimento cutâneo. Alongue-se, experimente o prazer que seu corpo ainda pode lhe proporcionar. Não se ressinta das novas dores, da pouca agilidade, dos novos vincos. Descubra enfim que a alegria pode rejuvenescer mais que o botox. E não se esqueça: em vez de se concentrar no lustre da maçã, trate de aproveitar o sabor que ela ainda é capaz de proporcionar…

Imagem de capa: michaeljung/shutterstock

Feliz é quem entende que tudo passa…

Feliz é quem entende que tudo passa…

Ontem, procurando por algo diferente no Netflix, me deparei com “Happy”, documentário concebido e dirigido por Roko Belic, que busca definir as causas da felicidade genuína, aquela que cultivamos internamente, e que não está sujeita a condições externas para que possa existir.

“Happy” me fez refletir sobre o modo como tenho dirigido minha vida e educado meu filho, me levando a considerar maneiras de tornar a felicidade mais disponível, independente das circunstâncias que nos cercam ou afetam. Algumas pessoas nascem com potenciais mais elevados para a felicidade (dizem que cinquenta por cento é genético); outras, porém, deveriam criar condições favoráveis dentro de si para a manifestação da felicidade: através de exercícios físicos, gratidão, compaixão e relações afetivas positivas.

Sendo assim, a felicidade não seria apenas um dom, e sim uma habilidade que deveria ser exercitada e praticada. A começar por diminuir o foco sobre nós mesmos e ampliar nossa capacidade de servir aos outros.

De todas as definições sobre a felicidade, a que mais me cativa é: “Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade”. Pois a felicidade verdadeira, aquela que permanece conosco independente da dança dos dias, é gratuita, à toa, desinteressada e enraizada em nós. Não compete com os fatos ruins que acontecem em nossa vida, apenas abre brecha para que a tristeza venha à tona por algum tempo, e depois retorna colocando tudo de volta no lugar.

Temos vivido tempos difíceis. Tempos em que nos tornamos dependentes da internet, de comida, bebida e remédios. Nossa cultura não nos ensinou que a felicidade genuína é conquistada no convívio afetivo com outras pessoas, praticando a empatia, a generosidade e a compaixão. No reconhecimento de que, mesmo que a vida tenha nos dado uma rasteira, ainda há motivos para agradecer. No aprendizado de que o mais importante não é o que recebemos do mundo, e sim aquilo que a gente oferece.

Algumas tribos indígenas que ainda conservam suas tradições nos servem de exemplo. Lá, se alguém fica doente, todos se unem num ritual para curar essa pessoa. Em nossa cultura, porém, temos vivido relações utilitárias. Esperamos que as pessoas que convivem conosco possam suprir nossas necessidades e expectativas. E em vez de ampliarmos nossas relações, acabamos restringindo-as e diminuindo nossas possibilidades de felicidade.

Enquanto continuarmos acreditando que nossa felicidade está no parceiro perfeito, na foto mais curtida do Facebook, na carreira de sucesso, na viagem dos sonhos ou na aparência plena, permaneceremos insatisfeitos e inseguros, pois é impossível controlar o que vem de fora. Porém, quando entendemos que essa felicidade pela qual nos esforçamos pode vir de dentro, ficamos mais resistentes ao que a vida nos tira, e menos deslumbrados ao que ela nos dá.

Feliz é quem entende que tudo passa. Quem sabe que bênçãos e adversidades se intercalam na vida de todos, mas não são elas que determinam se somos ou não realmente felizes. Feliz é quem não deposita seu bem estar permanente naquilo que é perecível, nem recusa a alegria duradoura em nome de um prazer momentâneo. Quem compreende que a vida é muito frágil, e por isso não adia o encontro com aqueles que ama nem chega tarde demais aos encontros que nunca mais se repetirão. Feliz é quem descobre, a tempo, que ser importante, ter a saia plissada da estação, o carro conversível do momento ou as férias perfeitas do Instagram só aquecem o coração momentaneamente, mas não garantem o fim de nossas inquietações. Pois até esse coração aquecido passa. E depois que passa, restamos nós e o que fizemos de nós. As vidas que tocamos, as oportunidades que aproveitamos, as escolhas que fizemos, a gratidão que temos, a compaixão que desenvolvemos, o amor que ofertamos, o perdão que não recusamos, e finalmente a felicidade que tanto buscamos e na simplicidade de ser e ter, encontramos…

A seguir, um vídeo muito interessante sobre a Felicidade Genuína:

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Imagem de capa:  Halfpoint/Shutterstock

Abrir mão da popularidade para poder abrir os braços a quem somos de verdade

Abrir mão da popularidade para poder abrir os braços a quem somos de verdade

Por trás das palavras é que mora a verdade. As palavras são apenas e exatamente o que são: fragmentos escolhidos de nossos verdadeiros pensamentos. Não tornamos público, na íntegra, o que nos vai na alma por uma simples razão: caso o fizéssemos, acabaríamos a sós. E, nada nos assusta mais do que nossa própria companhia.

A despeito de nossa desesperada necessidade de categorizar tudo, não existem corajosos e covardes puros. Coragem ou covardia são acessórios que habilmente aprendemos a usar, a depender de nossa necessidade emergente. Assumir a autoria pelos desequilíbrios que causamos requer coragem; requer vontade confessa de abdicar da aparente proteção de um comportamento politicamente correto. Arcar com as consequências de uma postura rotulada como “covardia”, também requer coragem. Coragem de admitir que somos fracos, falhos, invejosos e egoístas. Admitir que essas mazelas fazem parte da nossa natureza nos tornaria, no mínimo, menos hipócritas.

Colocar a necessidade do outro adiante da nossa é uma decisão absolutamente subversiva. Requer de nós uma ousadia que estamos longe de alcançar. Olhar para a dor ou a fraqueza do outro à distância não nos aproxima de sua assustadora condição; mas, via de regra, é o que damos conta de fazer. O sofrimento é interpretado por nossa acanhada capacidade de compreensão como situações de punição ou de fatalidade. Temos enorme dificuldade de compreender que o sofrimento, assim como a felicidade, é o pão pronto saindo do forno. Esquecemos que para que esse pão fique pronto, antes de qualquer coisa é necessário que se tenha “a intenção do pão”. É preciso planejar, contar os ovos, medir a farinha, verter o leite, dosar a manteiga, quantificar o açúcar e o sal, lembrar que, se não houver fermento não haverá crescimento. E, atire a primeira pedra aquele que, na ansiedade pelo prazer de saborear o pão, iniciou o projeto sem ter certeza de possuir todos os ingredientes. Que fatalidade! O forno já aquecido, a batedeira em plena função, e constata-se que por uma negligência, não há fermento. Nesse momento, nos vemos confrontados com nossa infantil carência das soluções mágicas. Cabe-nos uma decisão. Teimamos em seguir adiante e aguentamos a experiência frustrada do pão ázimo? Ou, interrompemos a missão e vamos em busca de encontrar, lá fora de nós, o fermento esquecido? Desistimos do pão?

Como nos é penoso tomar decisões! Como somos despreparados para os insucessos! Mal uma ideia germina em nossa mente e já somos capazes de vislumbrar a glória. E, se somos corajosos o suficiente para considerar o fracasso, no lugar de emergirmos de nossos casulos tecidos de expectativas de perfeição e lançarmos mão de alguma coragem laboral, desistimos do projeto. Somos eternas raposas desmerecendo as uvas, não porque estejam verdes pra nós, mas sim, porque nós estamos eternamente verdes pra elas.

Perdidos num labirinto interno, cheio de espelhos a alimentar nossa tosca vaidade, nos transformamos em reféns do nosso próprio delírio de paixão por nossos próprios feitos. Desesperados por notoriedade e reconhecimento, subvertemos a ordem da lógica. Vestimos uma toga de poder sobre a interpretação que o mundo pode fazer de nós. Acreditamos em nossa prepotente capacidade de vender uma imagem de nós mesmos, criamos slogans de sedução como forma de impedir o outro de nos enxergar sem a maquiagem tridimensional.

O real significado das nossas projeções não é covardia, é medo, um medo visceral e viscoso. É por medo de que o mundo descubra nossa fragilidade ética que podemos cair numa armadilha tão dourada quanto opressiva que nos leva a vender-nos ao mundo como se fôssemos objetos de desejo numa vitrine de consumo. Olhando bem de perto, nossa propaganda de extrema sinceridade, não passa de uma fraqueza travestida de virtude. E, procuremos não nos esquecer que, antes de vomitarmos em cima do outro nossas “definitivas verdades”, é mais honesto avaliar se somos capazes de viver segundo o código de honra que vivemos bradando por aí, como se ele fosse uma natural extensão de nós mesmos; quando, na verdade, somos bem pouco aptos para honrá-lo.

Imagem de capa: Andrey Yurlov/shutterstock

A perfeição é uma pedra cheia de pontas, prontas para nos ferir

A perfeição é uma pedra cheia de pontas, prontas para nos ferir

A perfeição é uma pedra. Por mais que se queira e tenha boa vontade, não há o que se fazer com ela! Ah… Tenho certeza que você já foi logo imaginando uma pedra preciosa, não é mesmo? Não! A perfeição é uma pedra feia, cinza, coberta de musgo, cheia de pontas, prontas para te ferir. E é pesada. Muito pesada.

A perfeição é uma pedra. Daquelas que você tem vontade de empurrar ladeira abaixo. No entanto, não é aconselhável fazê-lo. Muitos inocentes seriam atropelados. Os culpados nunca estão no caminho das pedras. Eles se protegem no alto, no pico, distante das mazelas humanas. Nunca serão atingidos. Os culpados criaram a perfeição. A perfeição, a pedra cristalizada do sentimento de culpa.

E o culpado, não tendo como livrar-se da culpa, cria rapidamente um estereótipo de perfeição. Pronto. Decretam o modelo do correto, do ideal, do perfeito. A perfeição não existe. Não na vida real. Onde os dias frios esquentam sem avisar e as manhãs quentes se transformam em tardes frias sem pedir licença. O grande amor acaba sem querer voltar. O mar avança sem orientação. O corpo envelhece sem apelação.

Anseio pelo dia em que nossas imperfeições encontrem um jeito de serem conhecidas, reconhecidas e respeitadas, em primeiro lugar por nós mesmos, para em um outro ponto, o serem pelos que nos querem bem; e quem sabe, então, seja possível que o sejam por todos. Assumir que somos imperfeitos há do nos fazer mais tranquilos, mais flexíveis; há de nos colocar em condições de sermos apresentados à compaixão.

A imperfeição, ao contrário da solidez de sua opositora, é fluida; corre livre por entre as experiências da vida; é capaz de se diluir em abraços de compreensão; é capaz de lavar as dores com suas lágrimas genuínas; é capaz de se transformar em habilidades possíveis; recém-conhecidas e conquistadas.

Uma vez assumida nosso permanente estado de construção, encontraremos infinitas opções de lugares a visitar, dentro e fora de nós. Quando formos humildes o suficiente para olhar nos olhos de nosso semelhante e dizer “não sei”; “preciso de ajuda”; “me deixe te ajudar”; “não consigo te acompanhar”; “tenho medo de você”; seremos apresentados a uma outra versão de nós mesmos; uma versão de nós livre da pedra da perfeição, pronta para inaugurar uma nova vida.

Imagem de capa: Anastasiia Fedorova/shutterstock

Não te preocupes com quem se ocupa em maldizer-te. O carma é dele, não é teu

Não te preocupes com quem se ocupa em maldizer-te. O carma é dele, não é teu

Te avexe, não. Agorinha mesmo, enquanto tu dás de comer a teu espírito operário, um canalha qualquer está maldizendo tua vida em tuas costas. Não há o que fazer. Ele vai continuar sua marcha mesquinha para trás, para baixo. É um escroto, um verme, uma alma penada, um encosto. Não te preocupes. Respira, prossegue. O carma é dele, não é teu.

Patifes que se reproduzem feito as baratas, no escuro do esgoto, por baixo, é para lá que tentam arrastar desesperados tudo aquilo e todo aquele sobre os quais pousam seus olhos gordos e azedos de mosca varejeira. Porque são pobres criaturas afeitas a rebaixar e destruir o que tu constróis aqui, sob o calor do sol, com a Graça de Deus e todo o tempo que tens.

Os subreptícios jamais enxergam a si mesmos, viram o rosto, tapam os olhos para não ver sua própria miséria. Seu olhar viciado está fixado na labuta alheia. É contra ela que os pulhas disparam suas metralhadoras de ódio e cuspe. Porque veem o outro como ameaça, são incapazes de “viver e deixar viver”. Preferem destruir o que seu olhar estrábico enxerga como concorrência injusta. Disparam para cima, nivelam por baixo.

Aos escroques, tudo é motivo para amaldiçoar o outro. Ousa tu encerrares um relacionamento amoroso falido e serás transformado em “falso”, “cafajeste”, “psicopata”. Demite um funcionário mal intencionado e incompetente e serás julgado “explorador”. Afasta uma fruta podre e malcheirosa da caixa e serás um “antidemocrático”, um medonho vilão inimigo dos bonzinhos. Não adianta. Tudo o que fizeres será considerado maldade pela corja dos que se julgam perfeitos.

Pobres minhocas de chifres. Sua covardia patética as impede de mostrar a verdadeira face, por isso se escondem no rosnar das matilhas, avançam em grupo, atacam em bando. Não têm amigos, têm cupinchas com quem se reúnem para zangar e falar mal dos outros. Insistem em confundir os seres que têm amor com capachos que tudo devem aceitar, do contrário serão perseguidos como odiosos escravos fujões. Teimam em classificar os seres livres como malditos arrogantes. Essa é a lógica das mulas: o inimigo é sempre o outro.

Quando tu fores “o outro”, não te preocupes. Encosta teu joelho no chão e te ocupa em agradecer a teu Anjo da Guarda. Vão dizer que teu amor é mentira, que tua fé é falsa, que teu jeito de trabalhar é ditatorial. É o preço que pagarás por não mentir quanto a teu jeito de ser e fazer aquilo em que acreditas.

Que falem o que quiserem. Que xinguem, gritem, acusem, julguem, esperneiem. Importa a ti é a tua consciência. Eleva-a para além do subsolo dos cretinos. Limpa-a na água corrente do trabalho honesto, do empenho justo, do caráter firme. Passa ao largo das bestas e vai. Vai em frente. Deixa que falem. O carma é deles, não é teu. Vai em teu caminho no movimento santo das águas. Porque essas, ahh… essas a lama dos bandidos não há de alcançar jamais. Jamais.

Imagem de capa: Dzmitry Rasiukevich/shutterstock

Ninguém entre nós é perfeito. Exceto o perfeito cretino.

Ninguém entre nós é perfeito. Exceto o perfeito cretino.

Parabéns, ó criatura perfeita. Tu conseguiste. Teu empenho valeu. Por teu esforço em te mostrares superior, conseguiste evoluir à categoria dos seres alados, como os dinossauros voadores, que não mais existem, as baratas de asas e os mosquitos de banheiro que continuam aí, perseverantes em sua chatice, aporrinhando como ninguém mais.

Tu que nunca erras, que tanto te orgulhas de teu quilate e de tua coragem de cuspir em nossa face imperfeita tua integridade, tu que adoras apontar e julgar e condenar os erros alheios. Tu mereces um diploma, uma distinção divina, a chave de todas as cidades. Tu és, sim, o melhor de nós. Afinal, quem somos nós para discordar de ti?

Daqui deste lado de baixo do mundo, onde resistem aqueles que ainda não chegaram ao Olimpo onde resides, impera apenas uma incerteza colossal. E um desejo honesto de, entre um erro e outro, tropeçar uma hora dessas num acerto qualquer. Por menor que seja, um acerto há de nos redimir e nos manter no caminho.

É que os erros da gente são nada senão acidentes de percurso, sabes? Ninguém erra por vontade própria, não. Erra-se por descuido. Erros são acidentes. Humano é seguir adiante e insistir no acerto. Mas isso as criaturas sobre-humanas como ti desconhecem. Porque nunca erram, não é mesmo?

Mas aqui, enquanto tentamos dar jeito na vida, faz bem imaginar a tua figura impecável caminhando por entre as nuvens. Tu que tanto te imaginas um animal formoso, uma águia norte-americana, quando és menos que um urubu brasileiro. Bem menos. Tu és uma anta do tamanho de um elefante. É que tu mal imaginas, criatura mesquinha e pesada, que o ódio que compartilhas por aí, em comentários irresponsáveis nas redes sociais, desejando a morte de um e o sofrimento de outro, é o mesmo, escandalosamente o mesmo ódio que na esquina seguinte desaba em uma criança inocente, atingida por uma bala perdida, disparada por um cretino que também se acredita juiz da vida e da morte. As doses desse ódio podem ser diferentes, mas o sentimento é o mesmo.

Como os mosquitos de banheiro que voam de encontro ao nosso nariz, tu não te enxergas. Tu mal sabes, mas és um bom e velho inseto de lavabo. Podes conferir. Até nos sanitários mais limpos do mundo, desses que os maníacos por higiene mantêm impecáveis por capricho doentio, uma hora aparece ninguém sabe de onde um tipinho curioso de voador, uma minimosca acinzentada e ridícula que pousa sobre a toalha ou num canto gelado e fica ali. Inútil como o quê. És tu, ó idiota de asas frágeis.

Do alto de tua nulidade, serves para nada além de causar efeito breve esvoaçando de repente na direção do nariz da gente. Pousas na parede, levas um sopro e te desfazes em meio grama de cinzas. Como uma criatura feita de nada.

Teu parente mais próximo na família dos seres enfadonhos são as criaturas capazes de ponderar “ah, mas se o bichinho está ali é porque você invadiu o hábitat dele!”. São os arremedos de bons samaritanos, conhecidos como “gente boazinha”, sempre agitando o estatuto de defesa das mamangavas, dos escorpiões, das sanguessugas, das baratas e dos afins.

Eu tenho medo de tua gente, ó descendente direto de Moisés. Tenho medo de tua gente boazinha. De um lado, sempre pronta a defender em retóricas inflamadas todas as criaturinhas da natureza. Do outro, capaz de jogar comida envenenada para o gato do vizinho porque não quer limpar de seu quintal o cocô do animal alheio.

Tua gente boazinha é mera caricatura das pessoas boas. Uma pretensão, um fingimento. O sujeito bonzinho é quase sempre um cínico, um dissimulado, um pateta. Aplaude de perto e agride de longe. Conta ao mundo que chorou com as imagens de bois e vacas no matadouro e vive na churrascaria, refestelando-se em rodízios de carne, descendo o pau no governo corrupto e contando como pagou menos imposto com a ajuda de recibos médicos forjados, reunindo a turma do clube para comprar meia dúzia de cestas básicas e levar na comunidade carente uma vez por ano, porque assim é possível renovar seu visto de gente boazinha.

Sonso completo, lobo em pelo de cordeiro, o ser bonzinho é capaz das piores atrocidades. “Aiii… desculpa. Enfiei a faca em você, mas foi sem querer, viu…”. Gente do tipo que acredita que a bondade é uma utopia e que ninguém precisa mais ser bom, leal, amigo. Basta ser bonzinho e sair divulgando por aí. Alma penada, dedica seus dias medonhos a infernizar a vida daqueles que, simplesmente, não fizeram o que a casta boazinha queria, não se comportaram como a gente boazinha mandara, não seguiram a cartilha esquizofrênica que um perfeito cretino escrevera com seus recursos pequenos, seus gestos rasteiros e seu feitio de réptil. Assim é o sujeito bonzinho.

E sabes tu, ó ser perfeito, quem são os únicos capazes de suportar um humano bonzinho? As pessoas irretocáveis. Os seres evoluídos como tu.

Por tudo isso, seres infalíveis, gente boazinha e mosquitos de banheiro são nascidos uns para os outros. Vós vos mereceis. Então, que sejam felizes. E quanto a nós, os imperfeitos confessos, que nos deixem errar, aprender, acertar… e usar o banheiro em paz.

O importante não é a casa onde moramos. Mas onde, em nós, a casa mora.

O importante não é a casa onde moramos. Mas onde, em nós, a casa mora.

Alguns lugares permanecem vivos dentro da gente. independente do tempo em que vivemos neles. Sobrevivem ao tempo, às despedidas e desistências, às necessidades de se seguir em frente, ao desapego. Resistem como alicerces tão firmes quanto foram as lembranças, e mesmo sendo objetos, perduram repletos de memórias.

Não morei naquela casa, mas durante algum tempo foi o lar de meus pais. Antes do bilhete de despedida, era lá que passávamos os finais de semana, entre pães de queijo do sul de Minas e conversas na varanda, enquanto meu filho e sobrinho experimentavam as primeiras brincadeiras.

Era uma casa grande, centenária, tombada pelo patrimônio histórico, com janelões do tamanho de portas, e altura do teto a perder de vista. Uma casa bonita do interior que se destacava na descida da Matriz em direção à praça do coreto.

Ainda me lembro da última noite.

Já tinha fotografado seus cômodos e agora a estante da sala reinava vazia, restando apenas a televisão. Preferimos nos distrair da realidade e assistimos ao filme recém lançado de Arnaldo Jabor: “A Suprema felicidade”. De lá vinha a frase: ‘Nada é só bom”, e entendiamos que aquele momento era o nosso “não bom”, mas ainda assim seria revisitado muitas outras vezes, como um refúgio de lembranças e saudades.

Um ano depois, de férias pela região, esbarramos na casa aberta à visitação pública*. Era época de natal, e ali funcionava uma feirinha de artesanato comemorativa. Entrei de mãos dadas com o filhote e na cozinha chorei. Chorei não pela falta da casa, mas sim pela presença viva dela dentro de mim. Por enxergar minha mãe abrindo o forno e eu ajudando com a louça. Por ouvir a voz dos meus irmãos através da musiquinha natalina e imaginar momentos que não tiveram chance de existir. Por sentir vapores que só eu conhecia.

Vapores de vida, amor, nascimentos, despedidas, alegrias e tristezas.

Não havia mais nada de nosso lá. Ainda assim, aquelas paredes tinham tanto a dizer. Sabiam de um tempo nem sempre fiel ao que se esperava dele, mas um tempo bom.

A casa permanece à venda. Espero que os novos proprietários tenham sonhos, muitos deles, e que todos se realizem naqueles corredores e varandas. Que coloquem uma mesa grande na sala de jantar e discutam desde o preço da empadinha do Vadinho até os rumos da política atual. Que as crianças andem de patins pelos cômodos e façam uma sessão de cinema no tapete da sala. Se houver um casal, que saibam envelhecer juntos, e passeiem de mãos dadas pelas ruas da vizinhança. Que as flores do jasmim manga sejam colhidas no chão e oferecidas pelas crianças às suas mães. E que as paredes contem um pouco de nossa história àqueles que virão, para que cuidem com delicadeza daquilo que um dia quis ser parte de nossa eternidade.

Mia Couto tem razão. Já não importa mais a casa onde morei. Importa sim, a casa dentro de mim. Sabendo que vou me lapidando a partir do que existe, mas também daquilo que vivi e deixei partir. Entendendo que minha fachada não é somente o reboco visível, mas sim muitos outros alicerces imperceptíveis aos olhos. Descobrindo que também abrigo palavras não ditas, caminhos não escolhidos, sonhos não realizados. Aceitando a vida como ela é. cheia de acertos e imperfeições, percalços e contradições, desafios e realizações…

Imagem de capa: magda_shutterstock/shutterstock

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Solte as cordas que os manipuladores amarraram em você

Solte as cordas que os manipuladores amarraram em você

Vivemos presos a tantas coisas e pessoas, que nem nos damos conta do quanto estamos tolhidos e amarrados, andando aos passinhos curtos e lentos, presos às cordinhas, muitas vezes frágeis, mas muito bem amarradas.

Em família sempre há um expoente, que muito embora se pareça com um líder, pode também ser um manipulador ditando comportamentos, costumes, rotinas e até emoções. Para se livrar dessa corda não é preciso romper, apenas afrouxar, manter um espaço aceitável para todos.

No trabalho, é muito comum a ação dos manipuladores. Muitas vezes com jeitinho, agrados e elogios, e lá estamos nós, obedecendo cegamente, fazendo o que sequer avaliamos se queremos ou se devemos, porque mais uma vez nos deixamos amarrar.

Nos relacionamentos… as chantagens, a tirania, a manipulação da autoestima, do ego, a imposição, o medo, a falta de respeito…

As notícias, os vícios, as manias, a moda, a tecnologia, a necessidade de inserção, de aceitação, de pertencimento, tudo pode nos levar a estender os braços e dizer: amarre-me, manipule-me, me coloque em uma forma e só me tire quando eu estiver completamente moldado. Se assim escolhermos, assim será.

Por tudo isso, quando tomamos consciência das incontáveis cordas que nos enredam, da teia em que nos permitimos colocar e dos movimentos obtusos que fazemos por não sabermos mais como nos colocar em equilíbrio por nossos próprios pés, desejamos romper, rasgar, cortar as cordas com os próprios dentes se preciso for. O perigo de fazermos isso num ímpeto é descobrirmos que não sabemos mais ficar de pé sem as amarras.

Clarisse Lispector em uma carta à sua secretaria, Olga, escreveu: “Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso – nunca se sabe qual o defeito que sustenta o nosso edifício inteiro.”

Assim, também nós, tenhamos cuidado ao cortar as cordas que nos prendem e sufocam a liberdade de pensar, agir, decidir, escolher, viver.

Sejamos delicados, como nos jogos de equilibrio. Uma decisão após a outra, uma conquista, nova avaliação, mais uma tentativa, e vamos, pouco a pouco, soltando amarras de uma vida inteira, deixando de crer no manipulador de qualquer natureza, tirando-lhe todas as permissões, permitindo-se enfim, governar a própria vida.

Imagem de capa: Lia Koltyrina/shutterstock

12 coisas que somente pessoas que saíram de sua cidade natal entenderão

12 coisas que somente pessoas que saíram de sua cidade natal entenderão

Nas cidades do interior, como a minha, é normal que os jovens saiam de suas casas para estudar fora e cursar uma universidade.

A partir daí, os anos fora, e depois as oportunidades de emprego que surgirão por seus caminhos, muitas vezes oferecerão diferentes perspectivas às suas vidas, e morar na cidade em que cresceram talvez não seja mais a melhor opção.

Abaixo, conheça 12 coisas que somente pessoas que saíram de sua cidade natal entenderão.

1. Você aprende muito sobre a vida.

Não há nada melhor do que mergulhar fora de sua zona de conforto para fazer você perceber que você, independente da idade, é um novato na vida.

2. Você encontra pessoas inesquecíveis.

Morar em um mesmo lugar promove segurança e pode proporcionar relações sólidas e profundas. Entretanto, conhecer gente nova (pessoas que vieram de lugares diferentes e tiveram experiências de vida até opostas às suas) fornece uma visão mais ampla de diferentes realidades e possibilidades de vida.

3. A vida não é estática.

 Aventurar-se faz o coração se sentir revigorado e novo outra vez. 

4. Você tem que tentar coisas novas.

 É tudo sobre se meter em situações novas e transformá-las em experiências surpreendentes. Quando você estiver em lugar diferente, posturas diferentes serão tomas por você – mesmo que não queira.

5. Você encontra o valor em se perder.

Realmente! Se perder em uma cidade, em seguida, passear. Já aprendi a dirigir em cidades simplesmente me perdendo por elas. Eu tinha que ir a um lugar e me lembrava que já tinha me perdido por aquela região.

Outra coisa deliciosa quando você se perde é descobrir onde ficam alguns lugares que você nem imaginava como encontrar.

6. Você pode redefinir a relação que você tem consigo mesmo e até com os outros.

Todo mundo precisa de um tempo sozinho, e mudanças de cidade podem promover isso. A distância e algum tempo sem as companhias habituais permitem que valorizemos mais quem gostamos e tenhamos momentos mais construtivos com elas, quando as oportunidades permitem.

7. Você aprende a falar com as pessoas.

Ah, a “ocasião faz o monge”. Mesmo os mais tímidos precisam aprender a se virar em locais diferentes.

8. Você fica menos preconceituoso (a).

Morar fora permite conhecer coisas novas e ter contato com mundos e pessoas diferentes. Ao conhecê-los, em vez de temê-los e evitá-los, você perceberá que eles só têm a somar. Preconceito é fruto de ignorância e medo.

9. Você desenvolve confiança.

Depois de se adaptar em lugares diferentes, você começa a perceber como você é inteligente. Afinal, você chegou ao seu destino, se acomodou, pediu ou aprendeu a fazer comida e, de alguma forma, fez isso através de uma nova experiência. Você é muito engenhoso!

10. Você descobre que pode ser livre como os pássaros.

Você é o capitão do barco, você é seu próprio guia, seu próprio patrão. Toda decisão que você faz é sua, assim como as consequências dela. 

11. Você descobre que todos nós somos um só povo.

Não há nada como se mudar ou viajar para fazer você perceber que, onde quer que você esteja, você desenvolverá laços afetivos e passará a se preocupar com pessoas diferentes, e, a parte boa: elas também se preocuparão com você.

12.Voltar para cidade natal será maravilhoso

Rever os amigos, a família e os velhos cenários é algo indescritível para quem mora fora. Do cheirinho da comida à maneira como o clima impera naquela região, tudo tem o seu toque particular e você perceberá que, mesmo que não queira mais viver lá, aquilo faz parte de você.

Imagem de capa: Kristel Van den Broeck/shutterstock

Sabe aquela pessoa que não vai com a sua cara? De repente, ela tem razão!

Sabe aquela pessoa que não vai com a sua cara? De repente, ela tem razão!

Você não está imune de provocar a antipatia nas pessoas. Não é raro acontecer de, justamente aquele seu jeito inusitado de ver o mundo e de lidar com ele, que tanto encanta seus amorosos seguidores voluntários, causar a ira alheia. Conforme-se, sempre vai ter alguém que não vai com a sua cara. Relaxe. E tudo bem se você não for com a cara de alguém também. É a vida!

A impressão que nós causamos em outras pessoas depende muito pouco do nosso desejo de agradar. Na realidade, quanto mais ansiosos estivermos para angariar afetos, menores serão as nossas chances de sucesso. A ansiedade pela aceitação produz reações adversas em nossa maneira de agir; perdemos a naturalidade, passamos a interpretar uma personagem baseados naquilo que julgamos ser o que o outro espera de nós. Catástrofe total: adormecendo nossa espontânea maneira de interagir com o mundo, soamos falso e causamos no outro uma vaga sensação de desconfiança. O outro enxerga em nós uma ameaça, uma fraude. A partir daí, nossas chances de aproximação caem abaixo de zero.

A antipatia gratuita pode acontecer com qualquer um de nós. Dificilmente haverá sobre a terra alguém que nunca tenha vivido a experiência de conhecer uma pessoa e, por razões inexplicáveis, sentir-se desconfortável em sua presença. Essa sensação de aversão à primeira vista pode ser explicada de algumas maneiras. Por vezes, olhamos para um desconhecido e, sua maneira de falar ou expressões gestuais, nos faz recordar alguém ou alguma vivência desagradável. Nossa memória emocional reconhece a sensação e projeta na imagem da nova pessoa a lembrança mal sucedida. Enxergamos ali uma reprodução da experiência ruim e, sem que o outro suspeite, praticamente anulamos suas chances de nos causar uma boa impressão.

Outra arma de sabotagem muito eficiente para arruinar novos relacionamentos é assumirmos crenças limitadoras acerca da interpretação do mundo. Quando fechamos questão sobre o que reconhecemos como verdade, reduzimos drasticamente a chance de recebermos em nossos espaços de relacionamento pessoas cujos pontos de vista sejam diferentes dos nossos. É como se fizéssemos de nossa vida um espaço privado e secreto. Passamos a tratar o outro como candidatos a membros de nossa seita pessoal. Aqueles que apresentarem crenças similares às nossas ganham uma carteirinha de sócio, os que discordarem de nós ficam barrados na porta.

Os rejeitados ficam lá do lado de fora. Presos em nossas preciosas convicções perdemos a chance de vislumbrar uma salvadora flexibilidade para nossa visão de mundo. Olhamos para o “diferente” e só enxergamos o absurdo de sua insurgência: se não pensa de acordo com os nossos critérios só pode estar errado. Simples assim! Ora, nada poderia ser mais estúpido em termos de postura relacional. Ao rejeitarmos as ponderações diversas, abrimos mão da possibilidade de ver o mundo por outros ângulos, perdemos a chance de mudar de ideia, compramos a garantia da rigidez, deixamos de ser pessoa em construção pra virar um monumento estático em honra à nossa tacanha verdade. Quanta burrice!

Abrir as portas para o que parece estranho pode ser altamente libertador. Portas abertas trazem luz, ar fresco, vida nova. Portas abertas nos tiram do claustro das certezas absolutas. Portas abertas abrem espaço para mudarmos de ideia, de vontade, de lugar.

Da próxima vez que não for com a cara de alguém, faça um esforço, tente enxergar além. Quem sabe a antipatia instantânea não esteja diretamente ligada ao seu desejo de rebelar-se contra as grades que você mesmo construiu pra se proteger dos desafios. Estenda a mão, convide, baixe a guarda. Afinal, existe por aí uma porção de gente interessante que também não vai com a sua cara. Abra a mente, feche os olhos e se jogue. O desconhecido é, no mínimo, a saída pra uma experiência inusitada. E o inusitado é o que nos salva da mediocridade de viver eternamente no conforto do lugar comum.

Imagem de capa: racorn/shutterstock

As mãos da minha mãe

As mãos da minha mãe

O tempo insiste em ser verdadeiro no dorso das mãos. O rosto despista, atenua os anos corridos com corretivos simples e semblante suave, mas as pregas das mãos denunciam o tempo dos ganhos e das perdas, dos dias vividos e irremediavelmente vencidos.

O tecido que recobre suas mãos conta os anos de magistério com o giz em punho, a sensação de sentir-se segura no entrelaçamento de dedos com meu pai, o tempo de gerar e criar, o sol diário na despreocupação com o protetor solar, o carinho ao cair da noite, a firmeza ao volante, os gestos exagerados durante as costumeiras piadas, os movimentos contidos na desavença, o calor na menopausa, o frio na tristeza, o suor na espera, a suavidade resignada na prece e recomeço.

Sabe mãe, carrego alguma nostalgia da época em que suas mãos eram lisas e uniformes. Mas é no hoje, porém, que aprendi a respeitar o significado do desenho das veias que saltam através do tecido fino, e das manchas salpicadas como gotas de tinta decorando a fina estampa de sua superfície. Trazem mais história que ambição, exemplo de uma vida de coragem e superação.

Observo seu rosto mas a sinto em suas mãos. Sei que carregam o tempo e a vivência, o que deixou pra trás e o que tem guardado dentro de si. E admiro os sulcos que traduzem o amadurecimento e o olhar reciclado perante a vida; a sabedoria de entender-se completa, ainda que lhe faltem pedaços.

Talvez os sulcos sejam mais que deficiências cutâneas provocadas pelos raios de sol. Talvez sejam faltas que lhe acompanham e hoje fazem parte daquilo que se tomou.

Sinais de uma vida repleta de presença e ausência, orfandade e resiliência, alturas e tombos. Sei de seus voos, mãe, mas também acompanhei sua perda de altitude. Você, que sempre esteve no comando, teve que aprender a ser conduzida também. E isso lhe tornou uma pessoa melhor. Com mais marcas, mas melhor.

É por isso que admiro tanto suas mãos, mãe. Porque me mostram que você não é de ferro. Você é de verdade, assim como eu e meus irmãos. E descobri-la mais humana tem me ajudado a entender a vida também. Porque assim é mais fácil compreender que todos nós _ até você_ carregamos dúvidas, incertezas, desilusões. Mas tudo isso é superável também. Apesar dos cabelos brancos e das pintinhas coloridas, estamos diariamente tentando resistir. E você é dura na queda, mãe. Você é porreta. De uma fé e certeza tão grandes que a gente duvida se é feita do mesmo tecido. Mas então eu tenho as suas mãos. E elas dizem que sim, que você também enfrenta desafios, você também sente na carne cada uma de suas dores. A diferença é que aprendeu a lidar bem com elas, e não está nem aí se lhe causaram algum dano _ visível ou invisível. Você só quer saber do que virá depois.

Agora recordo uma história que aconteceu há aproximados dois anos. Fomos visitar minha amiga que tinha perdido a mãe no dia anterior. Eu perdi o apetite porque sentia a perda da mãe dela dentro de mim, como se fosse você que não estivesse mais ali. Mas você estava. E ao ser confrontada pela sobrinha da minha amiga, que não entendia o porquê do sofrimento e morte da avó, disse-lhe mais ou menos isso: Você ainda não entende porque tem muito chão pela frente. Quando tiver a minha idade, vai aprender e conseguir aceitar também”. Acho que naquele momento, as mãos da menina começavam a rachar também, só que de um jeito imperceptível. Mas você soube apaziguar um pouco a dor. Do alto de seus sessenta e poucos, soube colocar aquelas mãos tão jovens entre as suas e doar uma ponta de serenidade…

Minhas mãos começam a mudar também. Estão mais finas, e o esverdeado das veias faz contraste com o caramelo de minha pele. Meu filho chama atenção para elas. Diz que estão mais magras e entendo que o colágeno vai indo embora enquanto se aproximam outras noções acerca do meu tempo e espaço.

Aos poucos sigo seu caminho e desejo assemelhar-me a você. Nos gestos, nas andanças, na vontade de responder ao mundo como você tem respondido.

Mostrando ao Bemardo que, ainda que não haja remédio para a perda de gordura e saliência dos tendões, há delicadeza e poesia no tempo que chega de mansinho, de um jeito ou de outro, irremediavelmente.

Obrigada mãe, por não tentar esconder o traçado de suas mãos. Por não querer disfarçar os sinais de um tempo que se desenrolou cheio de promessas e desfechos nem sempre fiéis ao que se esperava deles. Por me mostrar que a vida nos aproximou como meninas crescidas, e hoje posso me preocupar com você tanto quanto você se preocupa comigo. Obrigada por me ensinar a não censurar o que o tempo traz sem o nosso consentimento, perdoando as marcas que não podemos controlar, reagindo com alegria aos dias que nem sempre são só bons.

Acima de tudo, por me dar a mão e mostrar que nossos sinais são resquícios de uma vida que se viveu _ intensa e plenamente.

Amo você.

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Você sabe quem anda ao seu lado?

Você sabe quem anda ao seu lado?

Quando você esvazia a carteira, retira os acessórios, cala as frases de efeito, apaga os sorrisos diplomáticos, quem está ao seu lado? O que sobra para você? Quem afinal é você?

Isso não é uma provocação, nem sequer uma afirmação de que sem o verniz social não sobra nada. É sobre justamente o oposto. Quem somos quando não precisamos provar nada a ninguém?

Uma pergunta daquelas que só se responde a si mesmo, a mais ninguém.

Mas necessária. Vital. Precisamos saber com quem andamos fazendo tratos na vida, precisamos avaliar de quem realmente precisamos por perto, quem faz nosso coração bater mais rápido mesmo sem celebrações ou conquistas, apenas por puro afeto.

Quando retiramos a maquiagem, vemos as imperfeições que tentamos esconder, reconhecemos nosso rosto original, aceitamos que ao natural somos a pessoa que vemos no espelho e nenhuma outra mais. Assim é a nossa vida, que inúmeras vezes retira a nossa pintura, nos deixa tão descoloridos, quase nada…

E quando nossa alma está nua, quando passamos pelas mais difíceis fases da vida, quando o sol não entra na nossa janela, quem somos para nós mesmos e para quem cultivamos uma vida de relações? Quem estaria ao nosso lado, quem nos ofereceria um abraço para abrigar, o ombro para chorar, o tempo, os recursos, a alegria para dividir?

É importante fazer uma análise antes de proferir acusações e lástimas, pois, sejam quem forem os nossos afetos e as expectativas que colocamos neles, lembremos sempre que nós os escolhemos e nos ligamos a eles pelo que achamos importante no momento. E se o importante hoje não for o bastante, é porque eles não conseguem reconhecer quem somos quando não somos nada, quando estamos sem maquiagem.

Imagem de capa: Africa Studio/shutterstock

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