Quero uma vida carinhosa!

Quero uma vida carinhosa!

Quero uma vida carinhosa. Macia comigo. Quero que a vida seja mais acolhida do que menosprezo, mais preocupação do que indiferença, mais compaixão do que neutralidade.

Quero que a vida seja o que deve ser, mas que seja cuidadosa. Que minhas quedas encontrem mãos estendidas, que meus desamores sejam delicados, que as despedidas sejam doces.

Quero uma vida mãe atenta e permissiva, não autoritária. Uma vida professora, que educa movida pela paixão e não pela obrigação. Que sabe que brincar é tão importante quanto entender. Que sabe que um sorriso e um gesto positivo valem mais do que uma repreensão.

Que a vida seja uma educadora que respeita os diferentes ritmos. Que ela me ensine pela curiosidade e não pelo medo. Pois minha raça é frágil, lenta e distraída.

Que a vida aceite com ternura o meu déficit de atenção perante as coisas do mundo, que perdoe a minha distração frente aqueles ensinamentos chatos e importantes. Que ela aceite essa minha estranha vocação para ser livre.

Quero uma vida que me ensina pelo exemplo, pela inspiração, que me faz querer estar ainda mais viva, que me sirva de espelho.

Quero uma vida que olha nos meus olhos firme e desarmada. Eu prometo tentar entende-la sempre, mesmo quando ela vier trazendo más notícias. Prometo ser forte e leve e não me desapontar com ela.
Mas, por favor, que ela venha com tato e cautela me contar seus pungentes segredos.

Quero que a vida saiba que eu sou força e coragem e por isso não dissimule comigo. Quero que ela saiba que eu também sou solidão e fragilidade, e por isso me conduza com zelo e dedicação.

Que a vida siga seu percurso como deve ser, sem defesas, mas também sem ataques.

Eu trato a vida como quem cuida de cachorrinho novo, cheia de alegria no olhar por deixa-la livre para seguir e protegida para ficar.
Que a vida me trate da mesma forma.

Imagem de capa: Tatyana Kuznetsova/shutterstock

“Sobre estar sozinho”, de Flávio Gikovate

“Sobre estar sozinho”, de Flávio Gikovate

Não é apenas o avanço tecnológico que marcou o inicio deste milênio. As relações afetivas também estão passando por profundas transformações e revolucionando o conceito de amor. O que se busca hoje é uma relação compatível com os tempos modernos, na qual exista individualidade, respeito, alegria e prazer de estar junto, não mais uma relação de dependência, em que um responsabiliza o outro pelo seu bem-estar.

A ideia de uma pessoa ser o remédio para nossa felicidade, que nasceu com o romantismo, está fadada a desaparecer neste início de século. O amor romântico parte da premissa de que somos uma fração e precisamos encontrar nossa outra metade para nos sentirmos completos. Muitas vezes ocorre até um processo de despersonalização que, historicamente, tem atingido mais a mulher. Ela abandona suas características para se amalgamar ao projeto masculino. A teoria da ligação entre opostos também vem dessa raiz: o outro tem de saber fazer o que eu não sei. Se sou manso, ele deve ser agressivo e assim por diante. Uma ideia prática de sobrevivência e pouco romântica por sinal.

A palavra de ordem deste século é parceria. Estamos trocando o amor de necessidade pelo amor de desejo. Eu gosto e desejo a companhia, mas não preciso, o que é muito diferente.

Com o avanço tecnológico, que exige mais tempo individual, as pessoas estão perdendo o pavor de ficarem sozinhas e aprendendo a conviver melhor consigo mesmas. Elas estão começando a perceber que se sentem fração, mas são inteiras. O outro, com o qual se estabelece um elo, também se sente uma fração. Não é príncipe ou salvador de coisa nenhuma. É apenas um companheiro de viagem.

O ser humano é um animal que vai mudando o mundo e depois tem de ir se reciclando para se adaptar ao mundo que fabricou. Estamos entrando na era da individualidade, o que não tem nada a ver com egoísmo. O egoísta não tem energia própria; ele se alimenta da energia que vem do outro, seja ela financeira ou moral.

A nova forma de amor, ou mais amor, tem nova feição e significado. Visa a aproximação de dois inteiros e não a união de duas metades. E ela só é possível para aqueles que conseguirem trabalhar sua individualidade. Quanto mais o indivíduo for competente para viver sozinho, mais preparado estará para uma boa relação afetiva.

A solidão é boa, ficar sozinho não é vergonhoso. Ao contrário, dá dignidade à pessoa. As boas relações afetivas são ótimas, são muito parecidas com o ficar sozinho, ninguém exige nada de ninguém e ambos crescem. Relações de dominação e de concessões exageradas são coisas do século passado. Cada cérebro é único. Nosso modo de pensar e agir não serve de referência para avaliar ninguém. Muitas vezes, pensamos que o outro é nossa alma gêmeae, na verdade, o que fizemos foi inventá-lo ao nosso gosto.

Todas as pessoas deveriam ficar sozinhas de vez em quando para estabelecer um diálogo interno e descobrir sua força pessoal. Na solidão, o indivíduo entende que a harmonia e a paz de espírito só podem ser encontradas dentro dele mesmo e não a partir do outro. Ao perceber isso, ele se torna menos crítico e mais compreensivo quanto às diferenças, respeitando a maneira de ser de cada um.

O amor de duas pessoas inteiras é bem mais saudável. Nesse tipo de ligação, há o aconchego, o prazer da companhia e o respeito pelo ser amado.

Texto de Flávio Gikovate

Imagem de capa: Jeremie86HUN/shutterstock

Acredite, você não é trouxa por querer um amor tranquilo

Acredite, você não é trouxa por querer um amor tranquilo

Não, você não está pedindo nada demais. Querer um amor tranquilo não é estampar um adesivo de trouxa na cara. É só o seu coração que merece, há muito tempo, ter um pouco de sossego.

Chega um determinado tempo na vida em que amores intensos e desmedidos não cabem mais. Que cansa entrar nessa disputa de quem se doa e expressa mais vontade de estar ao lado do outro. Precisa mesmo tanto? Será que não é possível encontrar alguém capaz de simplesmente aproveitar a companhia, os cuidados e os carinhos propostos?

Não dá para entender essa corrente atual de desapegos, onde demonstrar honestidade em ficar virou alvo de piadas e desinteresse. Se você quer alguém, apenas diga. Se não for recíproco, tudo bem. Acontece. Ao menos você não será ausente pela tentativa. Pode doer receber uma negativa? Pode. No entanto, é certo que a sua paz não ficará presa pela dúvida.

O amor é incerto. É um salto no escuro exibir coragem sem a certeza de que ele será somado com outra metade. Ainda assim, quantos casos de amor foram certeiros na primeira tentativa? Arrisque-se, mas não ache que mereça pouco. Não precisa ser uma completa loucura. Não precisa vir embutido das mais fantasiosas proporções. Mas, convenhamos, o amor precisa sim de tranquilidade.

É ter alguém para te acompanhar, para te fazer sorrir, para te mostrar que tudo é muito e que, juntos, vocês sempre podem descobrir um algo mais um do outro.

Desculpe, mas são infelizes os que acham o amor uma dança das cadeiras, daquelas permitidas apenas para os espertos e ligeiros. Verdadeiros trouxas esses que enxergam os relacionamentos como algum tipo de entrega sem sentimentos.

Acredite, você não é trouxa por querer um amor tranquilo. Você é, dentre tantos descontentes, alguém com leveza e maturidade para compartilhar. E o amor é sintonia para quem sabe abordar sinceridade. Acorde.

Imagem de capa: Candy (2006) – Dir. Neil Armfield

A idade dos seus anos

A idade dos seus anos

A vida começa a morrer quando deixamos de desejar, de fazer planos, de marcar uma data importante, num futuro próximo, que venha acompanhada da realização de uma meta.

A vida começa a morrer quando deixamos de ter metas próximas e distantes.

Essa história de que “não desejo mais nada”, “tenho mais do que pedi a Deus”, ou ainda “ tenho mais de que mereço”, pode ser muito altruísta, mas é uma verdadeira armadilha no processo normal de uma vida significativa.

May Sarton, poetisa e novelista americana, viu a mesma coisa em outras palavras:

“Creio que a verdadeira velhice começa quando se olha para trás, em vez de para frente.”

Também creio.

Quando vivemos em torno das conquistas que obtemos, erigindo altares ao passado, nos esquecemos que desejar é viver, e que, enquanto estamos vivos, merecemos a emoção de novas aventuras.

Em consequência desse “olhar para trás”, em qualquer idade, adquirimos uma velhice prematura.

O envelhecimento pode trazer uma seleção natural de desejos.

É normal que não se deseje tanto, posto que muitas metas foram batidas no decorrer da existência, mas ainda assim é preciso querer mais.

Ou, pelo menos, manter um expectativa de rotina que possa ser quebrada com alguns extras adicionais, como uma viagem, por exemplo.

Não qualquer viagem, mas uma que venha acompanhada de novas emoções e novos conhecimentos.

Um reforço na aquisição de novidades de vida devem ser providenciados, mesmo que isso nos custe o preço de renunciar ao conforto do mundo conhecido.

É preciso que, de tempos em tempos, sejamos surpreendidos por uma nova paisagem, que nos transporte para o centro de uma nova terra, a ponto do novo se inserir por dentro de nós, nos fazendo descobrir habilidades e inclinações que nunca antes existiram.

Eu não creio que seja difícil manter a meta do desbravador, uma vez ao ano.

Mais difícil é conviver com os dias comuns, quando nada desejamos, e a rotina se instala, e cria mecanismos que nos aprisionam ao universo de hábitos, cuja eficiência não ousamos contestar.

Tudo o que fazemos repetidamente, fazemos bem. Desde o café aos exercícios da academia.

E por isso que, de tempos em tempos, o instrutor muda as regras e estabelece novos desafios.

Com a vida não é diferente.

Se quisermos crescer, extrapolar limites, precisamos quebrar paradigmas, e despender esforços adicionais que nos tirem da zona de conforto.

Uma ferramenta muito útil para isso são as listas de tarefas.

Quando fazemos uma lista de tarefas, estamos obrigatoriamente reconhecendo que alguém deverá cumpri-las.

E quando esse “alguém” atende pelo nosso nome e sobrenome, fica evidente que somos, ao mesmo tempo, o empregado e o patrão da nossa empresa.

A vida é uma empresa.

Se ela funciona bem ou mal depende do indivíduo que está no controle acionário.

Depende das metas que estabelecemos para ela.

Depende do quanto investimos em seu funcionamento.

Depende do quanto acreditamos nela.

O indivíduo que não acredita na sua empresa deve esperar a decadência e a morte do seu negócio, tanto quanto aquele que não acredita na necessidade de renovar a vida.

Para que a vida tenha vida, monitore o seu tempo.

Cobre-se.

Liste as atividades comuns, e adicione atividades novas que envolvam interação social.

O simples fato de escrever a tarefa será a mola propulsora do fazer.

Noventa por cento das pessoas que fazem lista de tarefas diárias as cumprem, senão todas naquele dia, pelo menos nos três dias subsequentes.

Olha o poder que uma lista de tarefas tem!

Sabe aquela tarefa que você vem adiando há tempos?

Basta lista-la logo de manhã, no meio das coisas banais que não lhe cobram tanto esforço, para ela ser, finalmente, iniciada, e concluída.

Olhar para a frente, inclui atividades novas que nos livrem do automatismo, que nos libertem de uma vida extremamente metódica, para o nosso próprio benefício.

Preparar-se para viver, é também viver.

Não vivemos uma viagem apenas quando estamos viajando, mas muito antes, quando começamos a ler sobre o lugar que iremos visitar, e nos antecipamos às escolhas que faremos.

As listas parecem um método e são. Elas são o melhor método para buscarmos novas experiências que darão sabor à existência, em qualquer idade dos nossos anos.

Imagem de capa: Goami/shutterstock

Sobre lugares e relacionamentos: se está sufocando está na hora de sair

Sobre lugares e relacionamentos: se está sufocando está na hora de sair

Vivemos tempos de teorias contraditórias: se ele te ignora, ele gosta de você. Se ela não atende sua ligação, está fazendo charme para valorizar o relacionamento. Se ambos não se falam é uma forma de aumentarem a saudade e preservarem o relacionamento. Resumindo: ao amor deixou de ser um sentimento para se tornar um jogo de egos inflados.

Sempre acreditei que o amor deveria ser um privilégio de pessoas maduras e sensatas. Pessoas constantes, que sabem o que querem e que não abandonam a relação na primeira crise, já que entendem que, amar significa entrega, exposição das fragilidades humanas misturadas a um turbilhão de sentimentos intensos. Porém, não sempre assim que acontece.

Por algum motivo desconhecido, as pessoas estão mais carentes a cada dia e o rótulo de “relacionamento sério” está valendo mais que um diploma de faculdade. A lei é essa; ama-se qualquer um, de qualquer jeito e em qualquer lugar.

As pessoas não entendem (ou não querem entender) a diferença entre “amor genuíno” e “amor inventado”. Talvez porque, se descobrirem, serão obrigadas a tomar um posicionamento diante dos fatos e isso exige coragem.

Amor genuíno acontece quando estamos leves, sem bagagens do passado, quando não projetamos no outro a responsabilidade da própria felicidade.

É quando entendemos que o verdadeiro amor não faz charminho, não fere, não vai embora. Quando chega, faz morada. Cria raiz. Já o amor inventado é pura aparência. É como uma réplica de um aparelho celular: a aparência engana, mas o sistema operacional nunca será o mesmo.

Amor não sufoca, não prende, não aperta. Quem faz isso somos nós, como nosso comportamento infantil de ciúmes sem motivos e de brigas desnecessárias. A verdade é uma só: quando temos que forçar para acontecer, não é amor.

Relacionamentos não foram criados para machucar pessoas que se amam. Pelo contrário, foram criados para que haja trocas mútuas de experiências de vida e crescimento pessoal e afetivo.

Não dá para aceitar que o medo de ficar só, seja maior que o de sofrer em um relacionamento abusivo. Não dá para preferir o rótulo de “casada infeliz” do que o de “solteira”. Não dá para aceitar traição acreditando não merecer coisa melhor. Não dá!

Sejamos realistas: quem demonstra não se importar, realmente, não se importa. Não é charme, joguinho ou orgulho. É desinteresse! Então, abra seus olhos, feche seu coração e abra sua vida, somente, para quem merece.

Não tema a solidão, não se diminua para caber no mundo dos outros, nem quebre seus limites em troca de aceitação. Quem não te ama na totalidade, simplesmente, não te merece.

Mais importante do que querer viver um grande amor, é ser capaz de se amar primeiro.

Imagem de capa: Photographee.eu/shutterstock

Às vezes, teremos que atravessar o luto por alguém que ainda está vivo

Às vezes, teremos que atravessar o luto por alguém que ainda está vivo

Já sobrevivi ao luto de amigos, de entes queridos, de minha mãe – travessia mais do que dolorosa – e, agora, atravesso um luto amargo pela minha gatinha amada. Trata-se de um período muito duro, escuro e solitário, porque o que toma conta da gente é só nosso, ninguém mais consegue ver. Daí haver muita incompreensão por parte de algumas pessoas.

Como toda tempestade emocional, o luto nos leva a pensar e a repensar a nossa vida, a forma como vivemos, a dimensão do amor que sai de nós e que em nós entra. A gente compara, tenta entender, lembra, chora, revolta-se, chora, tenta voltar ao normal, mas chora. Olho à minha volta e percebo que cada um tem o seu luto próprio, que transborda com mais ou menos intensidade. Aprendo, assim, que não se deve julgar ou comparar a dor de ninguém. Dor é para ser entendida e consolada, jamais menosprezada.

Meu pai sempre me dizia que, para tudo, há um jeito, menos para a morte. E é verdade, pois, enquanto houver vida, existirão outros caminhos. Já quando a vida se foi, o único caminho será de dor, saudade e reerguimento interior. Tudo passa, dolorosamente, aos poucos, mas passa. Por outro lado, muitas vezes, teremos que atravessar o luto por alguém que se foi de nossas vidas, mas continua por aí, lindo, leve e solto.

Quando nos separamos de alguém por outras causas que não a morte, também teremos um luto a ser enfrentado pela frente. Olharemos ao redor e a pessoa não mais estará ocupando os nossos espaços, mas estará ainda habitando o mundo e longe de nós. E sofreremos do mesmo jeito, ainda mais imaginando onde o outro está, com quem, fazendo o quê, se está mais feliz que nós, se sente a nossa falta, enfim, a separação sem a morte também traz dor e saudades. Também tem seu tempo de cura e cicatrização.

A vida, como se vê, irá nos obrigar a aprender que a gente tem que continuar, muitas vezes sem o que queríamos, de uma forma totalmente diferente daquela com que tanto sonháramos, tendo de sobreviver com ausências doídas, enquanto a alma se dilacera. Apesar de ninguém substituir ninguém, sempre poderemos ir ao encontro de novos amores, novas amizades, novos bichinhos de estimação, para que nosso amor não sufoque dentro do peito e encontre outra morada onde possa repousar com verdade. É assim que o amor não morre.

Imagem de capa: SanchaiRat/shutterstock

Texto publicado originalmente em: Prof Marcel Camargo

Respeite a intensidade das pessoas

Respeite a intensidade das pessoas

“O que, para mim, é uma bomba, para você pode ser uma faísca. Aprenda a respeitar a intensidade das pessoas.” (Edvan Santos)

Dizem que há pessoas que sentem muito e outras que sentem pouco. Há quem pense ser quem mais demonstra o que mais sofre ou o que mais se sente feliz. Isso porque as pessoas costumam se ater tão somente ao que veem, ao que se aparenta, haja vista a superficialidade que baliza as relações entre as pessoas e o mundo, atualmente. No entanto, há muito, mas muito mais coisas acontecendo dentro de cada um de nós e nem sempre manifestamos algum traço externo do que ferve em nosso íntimo.

O mundo anda cada vez mais rápido, tornando-nos apressados e compromissados além da conta, o que nos impede de nos demorarmos em frente ao outro, entendendo-o além do que a superficialidade oferece. Mal temos tempo de analisarmos o que acontece dentro de nós, imagina se conseguiremos parar e compreender o que se passa dentro de quem está lá fora. Estamos tão preocupados em aparentarmos uma boa imagem e em comprarmos os bens que enchem os nossos olhos, que relegamos ao segundo plano as essências – a nossa e a de quem for.

Fato é que as pessoas possuem a sua própria maneira de sentir o mundo e de lidar com tudo o que lhes acontece. A forma como reagimos ao que ocorre envolve tudo o que já temos dentro de nós e iremos nos manifestar conforme o que temos acumulado aqui dentro. Muitas vezes, por exemplo, um fato qualquer acaba por ser o estopim que abre a torneirinha de nossas emoções e, assim, a gente deságua um monte de dores acumuladas a partir de um fato nem tão doloroso assim. Tudo o que até então estava guardado extravasa intensamente.

Injusto é ficar julgando a forma como o outro sente as coisas. Injusto é cobrar do outro mais, ou menos, intensidade naquilo que sente, sendo que ninguém sabe o que acontece dentro de cada um, a não ser a própria pessoa. Não é uma enxurrada de lágrimas que irá nos mostrar o quanto a pessoa sofre. Não são as gargalhadas que comprovarão a felicidade que a pessoa pode estar sentindo. E mais, algumas pessoas sentem tudo de uma forma intensa, exacerbada, porque é assim que se reequilibram. Cada um volta a si de uma forma peculiar – o importante é se juntar de novo.

Perderemos e ganharemos ao longo de nossa jornada, faz parte da roda do mundo essa gangorra de acontecimentos que nos dão e nos tiram, assim, de repente, de forma imprevista e, não raro, cruel. Ninguém precisa analisar e julgar as reações das pessoas ao que lhes acontece; entender que cada um tem suas razões e seu tempo já basta. A dor é de cada um, mas a empatia é uma necessidade de todos. Bem isso.

Imagem de capa: Liudmyla Boieva/shutterstock

A fé que nasce da escuridão

A fé que nasce da escuridão

O que acontece quando o homem chega a um ponto em que não sabe mais o que lhe espera, quando a rotina desmorona, quando o desconhecido se apresenta, quando todas as certezas se tornam incertas, e não há mais garantias da vida acostumada que, ele antes, conhecia?

Bem, essa mesma questão foi levantada por Edward Teller,  um físico agnóstico americano, de origem húngara e descendência judaica, que, curiosamente parece ter-se convertido à fé antes de morrer.

É dele esta frase que responde à minha proposição:

“Quando você chega ao fim de toda a luz que conhece, é hora de adentrar a escuridão do desconhecido. Ter fé é saber que uma destas duas coisas vai acontecer: ou lhe será dado algo de sólido em que se apoiar, ou ensinarão você a voar.”

Muitos de nós nunca chegamos a esse ponto cego, escuro, e sem luz.

Mas todos  nós conhecemos pessoas próximas a nós, que chegaram ao fim de toda a luz que conheciam.

Olhamos para elas e não acreditamos que possam estar sobrevivendo a  tamanha pressão e ainda sejam capazes de continuarem caminhando na escuridão do desconhecido.

Como se nada estivesse acontecendo. Como se tudo estivesse bem.

Elas se levantam da cama, tomam o café, seguem para as suas obrigações habituais, falam e respondem a questões, sorriem, se alegram por breves momentos, amam com intensidade, lêem, assistem filmes, oram, falam de Deus com extrema reverência, dirigem seus carros, executam a jornada diária, tomam banho, e dormem.

Como se, na escuridão, tivessem encontrado alguma espécie de sinalização adicional que não lhes foi concedida no caminho luminoso.

Que sinalização é essa que nós não vemos?

Que tipo de segurança encontraram quando nada mais parece humanamente possível, quando todos os recursos foram esgotados diante de uma doença terminal, a morte de um filho, uma tetraplegia, ou qualquer outro acontecimento  igualmente devastador?

Em cem por cento dessas situações, elas encontraram FÉ.

Fé  não é a garantia de que tudo vai ficar bem,

mas a certeza de que uma dessas duas coisas vai acontecer:

– ou lhe será dado algo de sólido em que se apoiar,

– ou lhe ensinarão a voar.

Cada uma dessas alternativas aponta para fora do homem e para dentro de Deus.

Não há sólidos disponíveis na matéria quando todas as certezas se desmancham no ar.

Mas há sólidos disponíveis na espiritualidade,que não precisa de átomos para fazer surgir algo de concreto em que nos apoiarmos.

Eu já me apoiei em passarinhos e borboletas,  na hora mais escura da minha vida.

E no dia em que eles me faltaram,  Deus me ensinou a voar.

De alguma maneira, a fé me catapultou da escuridão total para uma luz que só eu via.

E é isso que não entendemos,  quando somos meros observadores da escuridão do outro.

Como ele consegue continuar vivendo após a perda de um  filho?

Como ele sorri e segue com metástase de CA, em alguns órgãos vitais?

Que fé é essa que eu não tenho?

É a fé de que – se lhes faltar algo sólido em que se apoiar,-  eles serão ensinados a  voar.

Na verdade, na hora escura, os dois fenômenos se alternam:

Há dias em que Deus nos dá algo sólido para nos apoiarmos,

Há outros em que Ele nos ensina a voar.

Quem precisa de uma muleta quando se tem um par de asas?

Nós, os que estamos na “luz”, e olhamos para a escuridão do outro,  não  conseguimos enxergar  nem o apoio e nem as asas, que só ele consegue substantificar.

Porque nos falta essa qualidade de fé que nasce da escuridão.

De forma que aqui,  um paradoxo se apresenta:

QUANTO MAIS ESCURO É O CAMINHO, MAIS ILUMINADA É A FÉ.

Não queremos experimentar esse tipo de fé.

Fugimos das experiências dolorosas, como o diabo foge da cruz.

E não precisamos procurá-la.

Basta-nos saber que aquele que adentrou o caminho da escuridão ganhou uma luz adicional, que nós não vemos, uma  lâmpada com capacidade de força muitíssimo mais forte do que as lâmpadas que iluminam os dias normais e felizes.

Nessa luz eles têm uma – de duas coisas:

– Ou algo sólido em que se apoiar,

– Ou alguém que os  ensine a voar.

Imagem de capa: Anna Om/shutterstock

Quem quer, demonstra. Quem não quer, também

Quem quer, demonstra.  Quem não quer, também

As desculpas são criativas e a culpa sempre é do amigo, da mãe ou da vizinha, mas, o fato é que, para não assumirem um relacionamento, algumas pessoas são verdadeiros mestres.

Que a paixão cega, não é novidade, mas que propaga a alienação, sim. Parece inacreditável, mas há pessoas que ao escutarem “não podemos sair até que Saturno entre na casa de Júpiter”, acreditam que o parceiro é um fã de astrologia e, não conseguem ver, que isso é um “não quero vê-lo nunca mais” disfarçado.

Antoine de Saint-Exupéry, afirmava que o amor exige atitudes (ou sutis sinais) que comprovem sua veracidade: “Se o escultor despreza a argila, terá de modelar o vento. Se o teu amor despreza os sinais do amor a pretexto de atingir a essência, o teu amor não passa de palavreado”.

Acredito que a culpa seja dos nossos egos que, ao ficarem inundados de amor e expectativas, invertem as regras do bom senso e adequam aos seus próprios desejos. Vendo e percebendo apenas o que querem.

Talvez seja culpa do instinto humano querer o que não se pode ter. É quase automático: a pessoa demonstra desinteresse, o cérebro avisa “hora de partir para guerra da sedução”. E, nessa luta insana de conquista e desprezo, você perde metade da sua vida tentando entender o comportamento alheio.

Nessas horas, é preciso inteligência emocional e altas doses de bom senso para entender que há uma grande diferença entre demonstrar desinteresse e fazer charminho. Descaso não é sedução, grosseria não é demonstração de cuidado e não responder uma mensagem, depois de uma semana, não é esquecimento. Encare a realidade e não confie em seu coração.

Chega uma hora na vida que é preciso deixar a ilusão de lado e raciocinar. Entenda que, se a pessoa não marca local, horário e dia, vocês não têm um encontro. Se ele não te assume como namorada para a família, vocês não têm um relacionamento. Se ela demonstra desinteresse diante da sua constante demonstração de afeto, ela, realmente, não está interessada em você. A verdade é tão dura quanto libertadora: quem quer, demonstra. Quem não quer, também.

Relacionamentos são conseqüências de vontades mútuas entre duas pessoas. Tenha consciência que, um jantar na sexta-feira, não tem a obrigação de virar um namoro. Tão pouco um namoro tem a obrigação de virar casamento. Essa necessidade de tudo ter que dar certo, o tempo todo, consegue estragar até o que nasceu para dar certo.
Seja sensível aos sinais e inteligente o suficiente para perceber quando alguém não quer ficar. Às vezes, o “não” vem disfarçado de ausência para provar que você consegue viver sem esse sentimento.

Imagem de capa: Nicoleta Ionescu/shutterstock

Martha Medeiros: ‘Viver é uma honra’

Martha Medeiros: ‘Viver é uma honra’

Ilustração: Gillian Rosa

Martha Medeiros escreve porque não sabe cantar, interpretar ou riscar o salão ao som de tango ou gafieira – um feliz caso de inaptidão para a legião de leitores que acompanham sua trajetória, letra por letra.

Ao escrever sobre as pequenas angústias do dia a dia, a escritora, poeta, jornalista e agora roteirista nascida na cidade de Porto Alegre, mostra com jeito e cuidado aquilo que às vezes andava esquecido no fundo das nossas gavetas.

Aventura e liberdade são duas palavras que a definem bem. “A vida premia quem está em movimento”, disse no programa A Máquina, apresentado pelo seu amigo gaúcho e também escritor Fabrício Carpinejar.

Fã declarada de Woody Allen, acredita que a vida não tem sentido e que somos nós que damos o sentido que achamos que ela deve ter. Também não se considera uma “escritora mesmo”, desses de alto nível de debates intelectuais, colecionadores de prêmios e virtuoses da língua, como diz num bem escrito e humorado texto.

É que tornar-se uma escritora, alguém que vive exclusivamente da literatura, nunca esteve entre seus planos iniciais. Publicitária de formação, poeta por vocação e cronista por competência, ingressou nesse mundo por acaso, à convite de um amigo editor depois de voltar de morar um tempo fora por conta do trabalho do marido na época.

Desde então, cativa gente das mais variadas idades, classes e gêneros. Com 29 livros lançados (se as contas do repórter não estiverem erradas, e é bem provável que estejam) alguns deles adaptados para teatro e televisão, Martha segue adiante, “sempre em frente’, como diz a canção de Renato Russo, e não pretende parar por tão cedo e ousar ainda mais nos próximos passos, como contou em entrevista exclusiva à CONTI outra, onde falou sobre amor, medo, viagens, influências, envelhecimento e futuro.

Martha, por que você escreve?

Porque não sei cantar, atuar, dançar… Sempre quis me manifestar artisticamente e foi o dom da escrita que me coube, e honro esse dom diariamente, usando-o não só para me sustentar, mas para fazer alguma diferença na vida de quem me lê, levantando questões humanistas para serem refletidas e com isso tentando iluminar um pouco os caminhos mais sombrios de todos nós.

Sua carreira literária teve início com a poesia. O que foi essencial para que você desistisse de uma carreira na publicidade para ingressar num campo tão incerto?

Não me sentia realizada na propaganda e de repente surgiu uma oportunidade de escrever colunas para jornal. Eu trabalho melhor sozinha do que em equipe, então foi providencial essa possibilidade de deixar de ser um instrumento de comunicação de um cliente para ter uma voz própria. E ainda poder fazer isso em casa, administrando meus próprios horários e podendo estar mais perto das minhas filhas, que eram ainda pequenas. Passei a ter um estilo de vida mais condizente com a liberdade que sempre busquei.

Você começou com a poesia na década de oitenta e o primeiro livro de crônicas, se não me engano, só veio em noventa e cinco. O que te fez pensar em publicar um livro de crônicas?

Não foi iniciativa minha. Recebi o convite da editora Artes e Ofícios e, mesmo prematuramente, topei reunir umas 30 crônicas em livro. Foi quando saiu o Geração Bivolt, hoje fora de catálogo. Na época eu não tinha ideia de que minha carreira em jornal seria longeva, achei interessante documentar aquela experiência que me parecia circunstancial.

Sei que se tornar uma escritora, que vive de literatura foi algo que você não esperava. Foi difícil trocar a publicidade pela literatura? Quais foram os principais desafios e dificuldades de que se lembra?

Não houve dificuldades. Eu já não me sentia satisfeita com a profissão de publicitária. Fiz muitos amigos bacanas em agências, tive ótimas experiências, mas eu não me sentia competente o suficiente como profissional de criação e tinha muita vontade de realizar um trabalho mais autoral. Quando surgiu a oportunidade, me joguei. O problema que poderia haver seria financeiro, já que eu recebia um bom salário em agência, e no jornal comecei trabalhando quase de graça. Por isso fiz alguns frilas até me estabelecer como colunista. Além disso, eu estava casada na época e meu marido deu o suporte que faltava. Logo depois comecei a trabalhar em tevê (por um período curto) e fui recuperando minha independência aos poucos.

Quais foram os autores e livros que você considera fundamentais na sua formação e por quê?

Sempre que penso na minha formação, não me restrinjo à área profissional, penso na minha formação como pessoa, e aí surgem os nomes da minha infância e adolescência: Monteiro Lobato, Mario Quintana, Paulo Leminski, Herman Hess, Caio Fernando Abreu, Fausto Wolff, todos abrindo portas e janelas na minha mente. Mas saliento em especial a escritora Marina Colasanti, ela foi uma espécie de guru da minha transformação de menina para mulher. As obras dela, principalmente as colunas que escrevia em revistas femininas, ajudaram a formatar minha identidade. Eu ficava fascinada ao vê-la levantar questões importantes sem abrir mão da leveza e com muita sabedoria.

O ato de viajar parece ter um papel importante na sua vida. Como se iniciou essa relação, essa curiosidade em conhecer outras culturas, outros lugares?

Conhecer outras culturas se tornou a justificativa padrão para se pegar a estrada, mas hoje vejo que não foi só isso. Entrei na adolescência já tendo muita vontade de expandir minhas experiências, de não me deixar enquadrar pelos projetos sociais comuns a todos: casar, ter filhos, trabalhar e morrer. Sabia que existia muito mais lá fora, não apenas cidades, monumentos e praias, mas um “eu” estrangeiro que eu queria muito conhecer, pois intuía que ele me daria novas respostas sobre mim mesma. Quando fiz minha primeira mochilagem pela Europa, aos 24 anos, sozinha, foi um emocionante encontro comigo, me valeu por anos de terapia. E desde então virou vício, a ponto de eu me sentir mais eu mesma quando estou em outro país, desatada das obrigações da rotina. Claro que é muito bom ter raízes, ter uma casa, vínculos afetivos, tudo que nos retém num mesmo local, mas se eu não escapasse de tempos em tempos desta pretensa “segurança”, consideraria asfixiante viver.

Em seu livro Teoria da Viagem, o filósofo francês Michel Onfray argumenta que ter um lugar para onde voltar é tão fundamental quanto o caminho que se percorre. Você concorda com isso?

Concordo, pois viver todo o tempo solto no mundo, de porto em porto, acaba se tornando o reverso da liberdade, fica-se preso por fora. Ir e voltar são dois verbos com a mesma importância.

Você chegou a comentar que já estava sem muita paciência para viagens e aeroportos. Isso apenas no lado profissional ou também no pessoal?

Devo ter comentado isso após voltar de alguma longa viagem, cansada por ter ficado muitas horas enlatada dentro de um avião. Sempre chego pensando: nunca mais! Porém, no dia seguinte, começo a esfregar as mãos, pensando: quando será a próxima? O que não tenho mais disponibilidade é de pegar a estrada para cumprir compromissos profissionais ligeiros, o famoso bate-e-volta. Preciso ficar mais tempo em casa, dentro do meu escritório, escrevendo.

Atualmente, o que você acha que a vida é? Se você tivesse que explicar de maneira condensada o que é estar vivo, como faria?

Viver é uma honra. A alternativa seria não ter nascido, não ter existido. Então encaro a vida como uma grande oportunidade de criar uma história para si mesmo, ser o personagem de um roteiro que inclui sentimentos intensos, cenários variados, momentos ótimos e momentos péssimos. É um passeio por uma montanha-russa em movimento constante, com altos e baixos, e que uma hora vai acabar.

O que ainda hoje te causa encanto?

Conhecer pessoas com quem descubro afinidades imediatas. Estar perto do mar. A paixão e o sexo. Ler um livro espetacular. Ouvir música. Conversar com minhas filhas. Dia de sol.

Pensar na nossa finitude quase sempre não é nada fácil. Ernst Becker diz que praticamente tudo o que fazemos é para, de certa forma, negar a morte. Se me permite perguntar, como você tem encarado o processo de envelhecimento? Tem problemas quanto a isso?

É um privilégio muito grande ter 55 anos e afirmar que estou na melhor fase da minha vida. De fato, estou. Não lembro de ter me sentido tão entusiasmada e orgulhosa. Daqui “do alto”, contemplo a vista panorâmica do trajeto percorrido até agora e, incluindo os bons e maus momentos, o meu olhar é muito grato. Fico envaidecida por ter conseguido chegar aqui com tantas aquisições afetivas e profissionais. Claro que cometi erros, mas não tenho como voltar no tempo e corrigi-los, então aproveito a maturidade conquistada para viver melhor daqui pra frente, procurando acertar mais, e isso é possível quando se tem um bom conhecimento sobre si mesmo. Isso não significa que eu esteja achando incrível envelhecer… Por mim, daria uma segurada agora, não iria adiante tão rápido, mas não há feitiço contra a passagem do tempo, então estou tratando de aproveitar enquanto tenho saúde, joelhos, bom humor, jovialidade. Acredito que ainda há muita coisa boa pra fazer antes de alcançar a senilidade.

Qual a parte mais difícil do seu trabalho?

Encontrar um tema que me pareça estimulante, que não me dê a sensação de que já tratei sobre ele antes. São 23 anos escrevendo crônicas, muitas questões me parecem saturadas, mas é inevitável retomá-las, desde que com um novo olhar. É buscar este novo olhar o meu desafio de hoje.

Do que você mais tem medo?

De violência. Mas procuro não pensar muito nisso, para não me paralisar.

Tem medo de fracassar em algo?

Fracasso é uma palavra muito dramática. Fracassar totalmente em algo não me parece plausível de acontecer, pois o fracasso sempre divide a conta com o aprendizado.  Podem as coisas não saírem como o pretendido, mas não vejo isso como tragédia, e sim como uma frustração. As frustrações que me incomodam são de ordem emocional: não conseguir levar uma relação adiante, ter magoado alguém. Minha autocrítica custa a me perdoar.

Qual a maior alegria que já teve na vida?

Os dois partos das minhas filhas foram momentos inacreditáveis, sublimes. Não lembro de ter me sentido tão plena.

Existe amor além da abstração e das projeções?

Amor é um sentimento muito amplo. Existe o amor erótico, o amor entre amigos, o amor familiar, o amor por projetos, pela natureza, pela arte, pela vida. O amor é antes de tudo uma necessidade humana, ele é motivacional, dá um sentido para nossa existência. É o álibi perfeito para a maioria das nossas atitudes.

Quais os próximos passos que pretende tomar? O que vem por aí?

Estou escrevendo um roteiro de cinema, acho que ano que vem será filmado. Tenho conhecido pessoas novas, de outras áreas, e elas têm me feito convites para atividades a que nunca me atrevi. É essa a minha vibe no momento: abrir novas possibilidades de realização, não ficar trancafiada no que já deu certo.

Se beber, não dirija e nem entre no Facebook

Se beber, não dirija e nem entre no Facebook

É preciso ter a consciência de que o que se diz, o que se publica, o que se faz, mesmo quando estamos fora do nosso normal, ainda que estejamos passando por algum problema grave, atingirá e machucará outras pessoas, pois então já terá saído de nós e de nosso controle.

Ah, os arrependimentos; quantos a gente carrega vida afora. Quantos “e se” estão presentes em nossas culpas, martelando os nossos pensamentos e tornando nossas dúvidas ainda mais pungentes. Não conseguiremos refletir calmamente sempre que tivermos que tomar alguma atitude, mas prevenirmos um futuro intranquilo nos obriga a exercitar o pensar antes de agir, de falar, de postar.

Fato é que ninguém consegue ser moderado durante uma discussão acalorada, em meio a um problema imenso, quando estiver bem embaixo das tempestades, bem no centro de uma tormenta emocional. Frequentemente, falamos o que não devíamos a quem não merecia, principalmente às pessoas que nos são mais próximas, justamente porque com elas nos sentimos à vontade, inclusive – e infelizmente – para mostrar nossos piores lados.

E hoje, com a facilidade de acesso às redes sociais virtuais, temos ainda mais válvulas de escape para aliviarmos nossas angústias. Trata-se, porém, de um terreno perigoso, pois o que se publica é para sempre, mesmo que excluamos, porque os prints estão aí para eternizar tudo o que postamos, inclusive aquilo que não deveríamos ter escrito. Infelizmente, em poucos segundos, já poderá ser tarde demais para nos arrependermos.

É preciso ter a consciência de que o que se diz, o que se publica, o que se faz, mesmo quando estamos fora do nosso normal, ainda que estejamos passando por algum problema grave, atingirá e machucará outras pessoas, pois então já terá saído de nós e de nosso controle. Mesmo que sejamos perdoados, talvez as coisas nunca mais voltem a ser iguais. Porque a maioria das pessoas ao nosso redor não tem nada a ver com o que nos acontece e não são obrigadas a aceitar tudo o que fizermos.

Não será possível mantermos o equilíbrio o tempo todo, uma vez que enlouquecer, vez ou outra, fará com que nos livremos de pesos inúteis e nos coloquemos perante situações que incomodam. No entanto, será preciso tentar manter a calma quando a vida vier com suas rasteiras, ou estaremos passíveis de perder pessoas que são essenciais em nossa jornada. Como se vê, tudo tem sua hora certa, tanto a leveza quanto a gritaria.

Imagem de capa: aerogondo2/shutterstock

“Estou ficando louca…”, por Rubem Alves

“Estou ficando louca…”, por Rubem Alves

Ela chegou e depois de uma breve indecisão disse: “Acho que estou ficando louca…”

Fiquei em silêncio, como o caçador que espera o voo da caça, pois esta é a minha profissão: sou um caçador de palavras.

Era certo que alguma mudança surpreendente ocorrera com os seus pensamentos. Acostumada com as palavras domesticadas e de voo curto que diariamente se moviam em seu mundo interior, ela deveria ter se assustado com o súbito surgimento de uma outra entidade de cuja existência jamais suspeitara, escondida que estivera ao abrigo da densa vegetação que marca o início da obscuridade da alma. Recebera a visita de um emissário do inconsciente: pensamentos que nunca tivera, incomuns, desconhecidos… ela ignorava sua origem e nada sabia do seu destino. Descobria-se subitamente sem terra sólida sob os seus pés, flutuando sobre o mistério. Era isso que me dizia com sua curta declaração: “Acho que estou ficando louca…”

Mas eu nada sabia nem da cor, nem da forma, nem os movimentos dessa ave misteriosa que a assustava. Por isso fiquei quieto, à espera… confesso que senti um calafrio de prazer. Aves engaioladas são sempre banais e podem ser compradas em qualquer lugar. Não lhes dedico qualquer atenção, pois delas os jornais e a tagarelice cotidiana estão cheios. Mas estas aves selvagens que se anunciam com o nome de loucura nascem do desconhecido e levam-nos a voar por mundos onde nunca estivemos.

Aí ela continuou, explicando o que acontecera: “Eu sou uma pessoa prática, descomplicada. Gosto de cozinhar. E o faço de forma competente, automática, sem pensar. Corto as cebolas, as cebolinhas, os tomates, e vou fazendo as coisas que devem ser feitas da forma como sempre fiz. Estas coisas e estes atos nunca foram merecedores da minha atenção. Enquanto cozinho, meus pensamentos se concentram no prato terminado e no prazer de comer com os amigos.

Mas, na semana passada, uma coisa estranha aconteceu. Peguei uma cebola, igual a todas as outras, cortei uma rodela como sempre fiz, e levei um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Como era isso possível? Já havia visto e cortado centenas de cebolas e agora era como se estivesse vendo a cebola pela primeira vez! Olhei para a sua forma arredondada, senti a lisura de sua pelo sob os meus dedos, vi seus anéis circulares, perfeitos, encaixados uns dentro dos outros, surpreendi-me com sua quase transparência, a luz se fragmentando em centenas de pontos em sua superfície brilhante. Meu automatismo prático se interrompeu. Deixei a faca sobre a pia e fiquei com a rodela de cebola na minha mão, encantada. Esqueci-me do prato que estava preparando. Naquele momento eu não queria fazer prato alguma para o deleite da boca, pois havia encontrado outra forma de deleite: o deleite dos olhos. Meus olhos estavam comento a rodela de cebola. E eu senti um prazer que nunca sentira antes.

Pela primeira vez na vida vi que a cebola era bonita. Se fosse pintora, pintaria uma cebola. Se fosse fotógrafa, fotografaria uma cebola… Minha cebola deixara de ser uma criatura do sacolão, à mercê de facas e maxilares mastigantes, e aparecia como uma criatura encantada, moradora do mundo da beleza, ao lado de jóias e de obras de arte.

Ao acordar desse transe místico, em que vi a rodela de cebola como se fosse vitral de uma catedral gótica, fiquei assustada. Que coisa estranha deveria estar acontecendo com os meus olhos? que transformação deveria ter acontecido comigo mesma?

Se eu contasse aos meus amigos o que tinha acontecido, eles não entenderiam. Pensariam que eu estava fazendo gozação. Ririam. Não poderiam ver minha alegria vendo a rodela de cebola. Eu tive que fazer silêncio sobre a minha experiência. Pensei, então, que estava ficando louca. Pois loucura deve ser isto: Aquilo que a gente experimente e sobre o que tem de se calar. Pois se a gente disser, os outros não entenderão e começaram a pensar que a gente tem um parafuso solto.

Mas o pior é que o que aconteceu com a cebola começou a acontecer com tudo. Meus olhos já não eram mais os mesmos. Estavam possuídos por uma potência psicodélica. Viam o que sempre tinham visto de um jeito como nunca tinham visto. Meus quadros ficaram diferentes. E o mais perturbador era a felicidade que eu sentia em tudo. E eu pensei: se eu continuar a me sentir feliz assim, todos os meus grandes planos irão por terra! Se eu me sentir nas pequenas coisas, pararei de lutar para realizar as grandes coisas…

Ela estava assustada com a felicidade. Assustada ao perceber que a alegria mora muito perto. Basta saber ver. E eu lhe disse: “Você não está ficando louca. Você está ficando poeta…”

A experiência poética é ver coisas grandiosas que ninguém mais vê. É ver o absolutamente banal, que está bem diante do nariz, sob uma luz diferente. Quando isso acontece, cada objeto cotidiano se transforma na entrada de um mundo encantado. E a gente se põe a viajar sem sair do lugar… aquilo que procuramos se encontra bem debaixo dos nossos olhos.

Não é preciso fazer nada. Não é preciso viajar a lugares distantes. Coisa mais inútil haverá que a viagem, quando os olhos vêem tudo em preto-e-branco? Não é preciso também realizar grandes proezas de luta e trabalho – pois a beleza se encontra pronta ao alcance da mão… Dizia Blake: “Ver o mundo num grão de areia e um céu numa flor selvagem…”.

Não, ela não estava ficando louca. Mas eu compreendi o seu espanto. Descobria-se poeta. E a loucura da poesia está precisamente nisto: na compreensão de que basta que a beleza more dentro dos olhos para que o mundo inteiro seja transfigurado por eles… A felicidade nasce de dentro do olhar que foi tocado pela poesia…

Rubem Alves em ‘As Melhores Crônicas de Rubem Alves’
Conheçam o Instituto Rubem Alves e participem de seus projetos.
Imagem de capa:  Syda Productions/shutterstock

Muitos homens têm medo de mulheres fortes – por Flávio Gikovate

Muitos homens têm medo de mulheres fortes – por Flávio Gikovate

A grande maioria dos homens só se sente confortável ao lado de uma mulher que eles consideram mais fracas – ou menos – do que eles. Os critérios para esta avaliação são subjetivos e dependem da hierarquia de cada um.

A maioria gosta de ter controle financeiro sobre as suas mulheres, condição na qual sentem menos medo de serem abandonados. Muitos gostam de se sentir mais inteligentes, mais preparados e cultos, afora, é claro, a superioridade física.

Talvez por isso tenham podido, no passado, defender a tese da superioridade intelectual masculina: cada um escolhia uma mulher que lhe parecia portadora de poucos dotes. As mais qualificadas sempre tiveram mais dificuldade de encontrar um par!

É importante buscarmos uma hipótese explicativa para a insistência neste critério de escolha de cima para baixo.

O fato relevante é que quando este critério não for preenchido e a mulher se mostrar mais bem dotada intelectualmente e também mais bem sucedida profissionalmente, boa parte dos seus parceiros experimentarão uma dramática inibição da sexualidade. Isso foi registrado por Freud (1912): os homens só têm pleno desempenho sexual diante de mulheres que eles consideram inferiores a eles. Trata a questão como um fato biológico definitivo.

Hoje podemos ver isso com mais clareza. O bloqueio sexual realmente existe justamente nos homens que mais respeitam e valorizam as mulheres; costuma ser difícil de ser revertido, mas não é impossível, o que derruba a hipótese biológica.

Tenho pensado assim: os homens são muito fascinados pela aparência física das mulheres. Sentem forte desejo em decorrência dos estímulos visuais que elas provocam. Percebem que não são desejados da mesma forma como desejam e isso os deixa em condição de inferioridade.

Tentam equilibrar esta “conta” se sentindo superiores em outros setores, especialmente naqueles que as mulheres valorizam mais.

Avaliam, pois, a beleza feminina como uma grande vantagem que terá que ser superada pelas suas “prendas”.

Podemos dizer que o “erro” de julgamento é diretamente proporcional à beleza feminina. Assim, as mais lindas – e se ainda forem inteligentes e ricas – serão as que mais “espantarão” os homens. Triste destino para todos.

A esperança vem dos jovens, pois eles começam a avaliar tudo isso de uma outra maneira.

Imagem de capa: Lipik Stock Media/shutterstock

Por Flávio Gikovate

Resiliência é substantivo feminino

Resiliência é substantivo feminino

Existem palavras que nos fazem pensar, e para mim resiliência é uma delas. Fui procurar no dicionário seu significado, para ser mais exata nas minhas definições, e o que refleti a partir daí achei interessante o suficiente para desejar compartilhar com vocês.
Então vamos lá, joguei a tal da resiliência no Google, e o que apareceu foi:

Substantivo feminino
1. fís propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação elástica.
2. fig. capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças.
Origem ⊙ ETIM ing. resilience ‘elasticidade’

De repente eu me vi parada, tendo uma pseudo epifania olhando para a tela do computador, quando li que resiliência é um substantivo feminino. Eu sei que a relação do substantivo com o seu significado subjetivo não existe, mas eu gostei dela a ponto de querer criar uma relação, e é o que faço aqui sem medo de críticas. Resiliência é coisa de mulher mesmo, que tem a propriedade mágica de retornar à sua forma original depois do parto, da “deformação elástica” de carregar dentro de si outra vida. Essa foi a primeira coisa que pensei, mas esse sentido é físico e concreto demais para mim, eu gosto mesmo é da parte subjetiva da resiliência.

Resiliência é substantivo feminino, e quer você seja homem ou mulher, precisa exercer sua feminilidade na hora de aguentar o tranco e se recuperar depois de uma rasteira da vida. Calma, deixa eu explicar. Feminilidade é aquela coisa bonita que a gente carrega no peito, que tem a ver com cuidado, atenção, carinho. É aquele instinto de fazer acontecer, esperar a planta germinar no solo, organizar, concertar o que se quebrou e dar comida a quem tem fome. Não tem a ver com homem ou mulher, tem a ver com a delicadeza do feminino, da feminilidade.

E você deve estar aí se perguntando o que isso tem a ver com resiliência. Pois para mim tem tudo. Só aguenta levantar, só consegue se reerguer e ser inteiro de novo depois que te quebraram em mil quem reconhece a importância de ser inteiro. Pois só se ajuda, só conseguimos cuidar, alimentar, reparar, quando nós mesmos estamos reparados, cuidados. Isso não é lindo? Exercitamos nossa resiliência, aguentamos levantar depois da queda, quando reconhecemos o quanto é importante sermos inteiros. Pensei numa metáfora bem simples para entender o significado da resiliência para mim: ser resiliente é cair, mas perceber que mais gente caiu junto, e então levantar correndo, esquecer a dor para poder ajudar quem precisa. Resiliência é ato de amor.

Imagem de capa:  Captblack76/shutterstock

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