A diferença entre amar e estar carente…

A diferença entre amar e estar carente…

Por favor, não confunda amar com carência. Amar é calma, serenidade e encontro. Carência é pressa, posse e desencontro. Nenhum relacionamento dá certo quando mistura-se ambas. O resultado é quase sempre catastrófico e deixa marcas de difícil cicatrização.

Não sei como andam os seus sentimentos. Se estão tranquilos, agitados ou em transição. Mas uma coisa é fato, se você não estiver dando conta deles, fique na solidão. Tire um tempo para você. Não é um atestado de fracasso não amar, longe disso. Na verdade, quem não está amando outra pessoa no momento tem sorte. Sorte porque sabe aproveitar a própria companhia. Porque entende sobre não escolher um suporte só para estar com alguém. Na carência, o primeiro sinal de carinho vira motivo para ser “um amor para vida inteira”. Será? Existe amar nisso?

Com o tempo, o suposto carinho transforma-se nos piores detalhes da carência. O controle constante, a obsessão emocional em ter de volta o que foi cedido, a luta diária para estar perto apenas por comodidade. Relacionamentos tocados na base do “assim que eu quero”. Seja razoável. Amar não é sofrimento. Se dói e incomoda tanto ao ponto de você perde-se de vista, infelizmente, a carência sobrou mais do que deveria. E quando ela permanece, qualquer fuga é confundida com amar.

Presta atenção, amar é saudade. E saudade é saudável. Mas, quando trocada pelos jogos, abusos psicológicos e outras mandingas amorosas, é só você caindo na carência de quem não está dando valor para si. Porque amar é ter, todos os dias, um gosto de tranquilidade ao lado de alguém. É ter o olhar sereno para encarar um relacionamento sem falsas promessas.

Amar é ver a própria sorte sendo duplicada. Pelo amor de você e pelo amor para você. Enquanto isso, estar carente é ter o grande azar de precisar pedir presença sem o comprovante de reciprocidade.

Imagem de capa: Andrii Kobryn, Shutterstock

Quando falar é agredir- Flávio Gikovate

Quando falar é agredir- Flávio Gikovate

Há opiniões discrepantes em relação às pessoas que são muito cuidadosas e delicadas quando expressam seu ponto de vista, especialmente sobre temas polêmicos.

Alguns as julgam falsas e hipócritas, pois escolhem as palavras com o intuito de agradar o interlocutor. Resultado: desconfia-se de sua sinceridade.

Outros, porém, pensam de forma diferente. Acham que são espíritos mais atentos, preocupados em não ser invasivos e grosseiros. Tomam cuidado, sim, porque não gostariam, em hipótese alguma, de magoar a pessoa com a qual estão conversando.

Pode parecer também que o tipo mais espontâneo e sincero é mais veemente na defesa de suas ideias, enquanto o mais delicado tem menos interesse em fazer prevalecer seu ponto de vista, ficando sempre “em cima do muro”.

Embora muitas vezes tais considerações sejam verdadeiras, penso que não é tão simples fazer a avaliação da conduta mais adequada. Esse assunto não só envolve questões morais, mas diz respeito à eficácia da comunicação entre as pessoas.

Sob o aspecto moral, a preocupação com o outro se impõe sempre. Ser honestos e sinceros não nos dá o direito de dizer tudo que pensamos. A franqueza pode ser prejudicial.

Por exemplo, se uma pessoa, ao encontrar um amigo de rosto abatido, falar: “Puxa, como você está pálido! Até parece doente”, estará sendo sincera, mas tremendamente insensível.

A verdade não subtrai o caráter agressivo da afirmação; pelo contrário o acentua.

Na prática, acredito que uma boa forma de avaliar uma ação é pelo resultado. Se o efeito for destrutivo, a ação será nociva, independentemente da “boa intenção” daquele que a praticou.

A tese de que devemos falar tudo o que pensamos é ainda mais indefensável quando o objetivo é facilitar o entendimento e a comunicação.

Indiscutivelmente o ser humano é vaidoso e, se sentir-se ofendido por alguma palavra ou atitude do outro, acabará desenvolvendo uma postura negativa em relação a essa pessoa.

Se alguém iniciar uma frase com expressões do tipo “Você não percebe nada”, “Qualquer idiota é capaz de compreender que…”, elas provocarão uma espécie de surdez imediata.

Não ouviremos o resto do argumento ou então o ouviremos com o intuito de encontrar bons raciocínios para derrubá-lo.

Quando nos expressamos, é preciso ter extremo cuidado com as palavras, pois elas atingem positiva ou negativamente o interlocutor. No processo de comunicação, a recepção é tão importante quanto a emissão dos sinais. Temos que nos lembrar disso se quisermos agir de modo construtivo para nós e para os demais.

O descaso pelo “receptor” indica desrespeito moral e agressividade (voluntária ou não).

Há pessoas que só têm interesse em mostrar como são perspicazes e brilhantes. Querem ficar por cima. Querem ensinar e não aprender. Despertam raiva, não admiração, pois a arte de seduzir caminha exatamente na direção oposta.

Um homem (ou uma mulher) atraente faz o outro se sentir bonito, legal e inteligente. Prefere dar atenção a repetir o tempo todo “Como sou bárbaro e maravilhoso”.

Qual a pessoa que gosta de se aproximar de alguém cujo objetivo principal é a autopromoção constante? Quem atura discursos intermináveis baseados num narcisismo oco? Praticamente ninguém.

O descaso pelo interlocutor é, a meu ver, fruto de um individualismo acirrado e oculta o desejo inconsciente de se dar mal na vida.

Visite a página oficial do autor Flávio Gikovate

Imagem de capa: kommando kunst/shutterstock

Sou fã das voltas que o mundo dá

Sou fã das voltas que o mundo dá

“Cedo ou tarde, seremos cobrados pelo que fizemos, pelo que dissemos, pelo que criamos ou destruímos, porque ninguém fugirá às mudanças, às rupturas, ao novo, ao fim do dia, ao amanhecer, por mais que isso doa.”

Por mais que nossos pais e a vida tentem nos ensinar, teimamos em nos achar incólumes à passagem do tempo e às cobranças que teremos de enfrentar quando sentarmos à mesa do banquete das consequências. Inúmeros artigos, filmes, poemas, romances, novelas embasam a sua trama na semeadura a que não podemos fugir, na certeza inconteste de que fatalmente ficaremos cara a cara com o resultado das escolhas feitas em nossa jornada. Na natureza e na vida, não se colhe aquilo que não foi semeado, como nos tentaram ensinar desde o jardim de infância.

Ao adolescente, que se acha imortal, raramente projeta o futuro e está em processo de formação, ainda podemos dispensar um olhar mais condescendente pelas escolhas erradas e comportamentos inadequados, mas e quanto aos adultos já criados, estudados e formados, supostamente amadurecidos pelos tombos acumulados e que continuam a ignorar o outro e tudo que o cerca, em vista de seus próprios objetivos? Por que muitos de nós persistimos a errar e errar de novo, pisando vidas alheias, tomando o que não é nosso, traindo a quem nos ama, vendendo nossa integridade em troca de favores?

O pouco caso em relação ao outro desencadeia consequências nefastas, que minam qualquer harmonia desejável entre as pessoas, pois, nesse caso, o alcance do raio das ações estende-se por muito tempo. Quem age de forma antiética acaba, por isso mesmo, desencadeando uma sucessão de cicatrizes, em si e nos demais, tolhendo os direitos de um todo muito mais abrangente, ou seja, o mal acaba se tornando ilimitado, pois se agiganta além de quaisquer domínios. Espanta-nos, pois, o fato de que muitos ajam dessa forma deliberada e conscientemente, a despeito da existência e dos sentimentos alheios.

A invisibilidade de que se reveste o outro, em tudo o que ele é e em como se sente, desencadeia atitudes de intolerância para com tudo o que foge à visão que se tem de mundo, mesmo que distorcida. Tornou-se comum o julgamento agressivo, em tom de repúdio, às escolhas do outro, às escolhas a que todos temos direito, pois a verdade egoísta deve ser a única possível e a única a ser aceita socialmente, para que o caminho se torne livre e mais fácil aos egoístas de plantão.

O poder é mesmo afrodisíaco, como dizem, e deve ser conquistado a qualquer preço, a despeito de quaisquer escrúpulos, apesar de toda ferida que em seu nome é deixada pelos caminhos. Essa busca desenfreada por mandar na vida do outro encontra-se presente, inclusive, na história da humanidade, cujos sucessivos episódios marcam-se pela dominação de povos e consequente aniquilação daquilo que contraria e emperra o estabelecimento de uma verdade homogênea – a verdade dos poderosos tão somente, visando à manutenção do “status quo”.

Ignora-se, nesse contexto, que o tempo costuma desestabilizar o que está instituído, pois a vida questiona sempre, pulsa por não se acomodar, por revelar verdades, por dissolver as incertezas e neutralizar as injustiças sociais. Assim é na vida, assim é em casa, no trabalho, na rua. Nada está posto para sempre, tudo está ainda por terminar – eis o fluxo da dinâmica da vida, que se movimenta à maneira das correntezas, com maior ou menor intensidade, mas de maneira intermitente.

Quando no topo, no poder, seja na política, no trabalho, em qualquer situação, a maioria das pessoas parece se esquecer de que aquela situação é transitória, de que em breve voltará ao seu lugar de origem e terá que conviver novamente, de igual para igual, com aqueles que eram seus subordinados. Quem estava no poder terá, então, que encarar de volta o resultado de suas ações e será tratado pelos colegas de acordo com o que plantou lá de cima. Infelizmente, já poderá ser tarde demais para tentar reatar relacionamentos e amizades que se romperam, para reerguer uma imagem largamente maculada ou para reestabelecer uma dignidade esquecida e ignorada.

Da mesma forma, no dia-a-dia, o tratamento que dispensamos a quem nos rodeia torna-se tão frio e desumano quanto o conjunto de nossas ambições e vaidades, enquanto nos concentramos na perseguição implacável de ascensão e status social. Com esse objetivo, muitas vezes nos aproximamos de novas – e falsas – amizades, consonantes com nossas intenções mesquinhas, distanciando-nos das pessoas que verdadeiramente se importam conosco e nos amam pelo que somos – se bem que o que somos então vai deixando de sê-lo. Quando, e se, percebermos a mentira sufocante a que nos submetemos e precisarmos da ajuda daqueles que sempre estiveram conosco, estaremos fadados a possivelmente estendermos as mãos e encontrarmos um vazio frio e desolador.

Os pais, os professores e os amigos bem que tentam nos ensinar, com paciência e dedicação, a pautarmos nossas ações por valores éticos, dignos, sem perder de vista o fato de que não estamos sozinhos, ou seja, o que fazemos e somos faz parte de um todo que deve estar harmonizado, para o bem comum e coletivo. Felicidade solitária não se sustenta por muito tempo; máscaras costumam cair; a toda ação corresponde uma reação, de mesma sintonia – frases que, de tão repetidas e disseminadas, parecem ter se banalizado. Felizmente, mesmo quando todos já tiverem desistido de nós, a vida persistirá e virá nos ensinar, sem rodeios e sem nos poupar de sofrimento. Cedo ou tarde, seremos cobrados pelo que fizemos, pelo que dissemos, pelo que criamos ou destruímos, porque ninguém fugirá às mudanças, às rupturas, ao novo, ao fim do dia, ao amanhecer, por mais que isso doa. Porque ninguém fugirá ao enfrentamento da verdade daquilo que se é.

Imagem de capa: Reprodução

6 coisas que aprendi com “O Pequeno Príncipe”

6 coisas que aprendi com “O Pequeno Príncipe”

Há mais de setenta anos um homem que via o mundo com olhos encantadores colocou no papel uma história que parecia para crianças, mas que no fundo contava a história dele e de muitos de nós. Não preciso dizer que falo aqui da belíssima obra “O Pequeno Príncipe” de Antoine de Saint-Exupéry.

Curiosamente a ideia para o livro nasceu de uma experiência vivida pelo próprio autor em 1936: o avião que Antoine pilotava caiu no Saara e ele passou quatro dias sofrendo de desidratação, fome, e tendo alucinações, até ser resgatado por um beduíno.

Toda a narrativa do livro de Tonio (apelido carinhoso do autor) é muito ampla e eu vou aqui me distanciar um pouco das citações difundidas dentro e fora da internet para falar um pouquinho do Pequeno Príncipe que existe em nós. Sim, essa singela história infantil não é a história do outro, mas a nossa própria e talvez seja por isso que ela nos toca tão profundamente.

1. Cada um de nós habita um pequeno asteroide

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“Eu aprendera, pois, uma segunda coisa, importantíssima: o seu planeta de origem era pouco maior que uma casa!” _ (O Pequeno Príncipe)

O pequeno Príncipe vivia em um planeta minúsculo, o asteroide B612. O seu planeta era do tamanho de uma casa. No entanto, ouso dizer aqui que ele não era apenas diminuto como uma casa, mas também simbólico como uma.

Por casa podemos entender: 1 – edifício de formatos e tamanhos variados, de um ou dois andares, quase sempre destinado à habitação. 2. família; lar.

Toda casa demanda uma série de cuidados que apenas quem mora nela conhece bem. Toda casa tem uma dinâmica particular. A casa física, com seus cômodos delimitados e a casa emocional, aquela que acolhe nossos entes queridos, requerem um enorme zelo diário e dependem da nossa dedicação exclusiva e constante para se manterem bem.

O comprometimento com a nossa casa é de nossa inteira responsabilidade. Nos portamos com relação a ela assim como o Príncipe em relação ao seu asteroide

Poderíamos então facilmente brincar de imaginar a nossa casa como um asteroide perdido em meio a um mundo de asteroides.

2. Cuide bem dos seus vulcões

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 “Durante o dia, seu trabalho consistia em cuidar dos vulcões para que não entrassem em erupção e em arrancar da terra os frutos de baobá”_ (O Pequeno Príncipe)

Todos os dias o príncipe precisava revolver seus vulcões. Ele revolvia todos os três, até mesmo o adormecido e fazia bom uso de algo que poderia ser prejudicial ao planeta dele.

Todos precisamos revolver nossos vulcões para que eles não explodam. Todos precisamos ter sabedoria e resiliência frente às situações que nos surgem para tirarmos delas o melhor.

As situações encaradas da pior forma possível podem nos levar à ruína. Encaradas da melhor forma possível tornam-se proveitosas. E esse manejo do olhar, sentir e agir é cotidiano. Se largarmos mão, nosso mundo se torna bem pouco agradável.

3. O mal se corta pela raiz

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“Os baobás, antes de crescer, são pequenos”_ (O Pequeno Príncipe)

Outra questão interessante no minúsculo planeta do Pequeno Príncipe é que chegam a ele sementes boas e sementes ruins. As boas são florezinhas e as ruins os temidos Baobás.  Logo, o Príncipe precisa estar atento para arrancar as mudinhas ruins quando ainda são bem pequenas. Se elas criarem raízes podem acabar com seu pequeno planeta.

Os Baobás podem representar tudo aquilo que nos chega de ruim. Aquilo que muitas vezes nos fere, machuca, mas que por alguma razão deixamos brotar em nós. Quando ainda pequenas, as sementes ruins podem ser facilmente liquidadas, mas quando grandes provocam enormes estragos.

Muitas vezes somos acometidos por coisas que nos chegam sorrateiras. Coisas que estavam bem escondidas em nós. Essas coisas podem ser um grande abalo emocional, síndromes e sintomas físicos. Daí precisamos parar tudo para, com muito esforço, cortar aquilo que um dia foi bem pequeno.

Quando somatizamos problemas podemos desenvolver transtornos psicológicos e físicos. Por isso devemos cuidar da nossa saúde física e emocional diariamente. E quando digo cuidar da nossa saúde emocional especificamente me refiro principalmente à interação, boa ou ruim, que temos com aqueles que nos acompanham durante a vida.

4. Algumas coisas só podem ser feitas por você

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“Um carneiro, se come arbusto, come também as flores?” _ (O Pequeno Príncipe)

Na história o Pequeno Príncipe pede ao seu amigo piloto que pinte para ele um carneiro. Mas por que um carneiro e não qualquer outro animal que possa ter um apetite voraz por arbustos?

O carneiro é a representação da vida em todas as suas manifestações. Sejam elas positivas ou negativas. O carneiro é um signo que carrega em si o bom e o ruim. Pode ser organizado ou caótico. Pode ser generoso ou obcecado.

Se prestarmos atenção o desejo do príncipe é que o carneiro liquide todos os seus problemas, representados por arbustos de Baobás, mas ele percebe que o carneiro pode em suma comer sua amada rosa também. Afinal, a rosa pode em alguns momentos ser encarada como um problema.

A vida é assim. Gostaríamos, por vezes, de poder delegar algumas tarefas árduas, no entanto apenas nós podemos escolher o que é bom e o que é ruim para nós. E escolher entre um e outro exige que usemos não apenas a razão, mas essencialmente a emoção.

5. O amor romântico nem sempre é fácil

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“Tenho horror a correntes de ar. O senhor não teria um anteparo?”_ (O Pequeno Príncipe)

A rosa é a representação do amor romântico. Ela é caprichosa e reflete em muitos aspectos a própria mulher de Antoine, a salvadorenha Consuelo. Existem muitas similaridades entre as duas. Consuelo era asmática e ao mesmo tempo delicada e de personalidade forte. A Rosa também vive com suas tosses e precisa ser protegida do vento.

O príncipe faz de tudo para agradá-la, mas em certo momento, exausto e frustrado, resolve largar tudo e partir. O Príncipe parte assim como o próprio Antoine fez inúmeras vezes.

O Pequeno Príncipe enxerga o mundo então através de outros olhos. E dessa forma percebe que o convívio diário com sua rosa, a doação generosa, que por vezes o chateou, fez com que ele tivesse por sua flor um carinho especial.

O amor romântico não é fácil. A convivência diária muitas vezes é uma provação, mas é nela que os laços são tecidos. É nos desafios do dia a dia que cativamos e somos cativados. O príncipe partiu de seu planeta, mas o amor que carregou consigo o fazia se preocupar com o bem-estar de sua rosa, mesmo estando bem distante dali.

No final das contas ele só queria voltar para seu pequeno planeta e dividir com a rosa tudo que havia descoberto sobre o mundo e sobre ele mesmo. De que vale o aprendizado sem a chance de compartilhá-lo com aqueles que amamos?

6. O mundo está cheio de reis, vaidosos, bêbados, empresários, acendedores de lampiões e geógrafos

contioutra.com - 6 coisas que aprendi com "O Pequeno Príncipe"“As pessoas grandes são muito esquisitas”_ (O Pequeno Príncipe)

Existem muitos outros ensinamentos em “O Pequeno Príncipe”. Em suma, quase todos os personagens guardam alguma semelhança com pessoas que conhecemos ou até mesmo conosco.

Nunca existiram tantos reis e vaidosos no mundo como nos dias de hoje. Tantos buscando o poder e vivendo para serem adorados, curtidos e seguidos por aí. Se olharmos bem esse comportamento é apenas uma projeção mental bastante fantasiosa.

Também são numerosos os que se ocupam com coisas sem sentido e esquecem de parar e pensar na própria vida e dar a si um pouco de bem-estar e propósito. Como o acendedor de lampiões, perdido em sua compulsão de fazer o que disseram que devia ser feito.

Outros personagens também comuns hoje em dia são o bêbado e seus vícios e o contador de estrelas que tudo quer. O geógrafo também é abundante mundo afora. Existem muitos especialistas de coisa nenhuma por aí, infelizmente.

Cada qual pode fazer do seu mundo o que desejar. Cada qual pode regar flores e ter jogo de cintura para tornar o viver agradável ou se perder dentre compulsões e contradições. O pequeno príncipe nos ensinou o caminho das pedras. Cabe a nós viver na manutenção constante daquilo que efetivamente pode dar bons frutos e nos manter saudáveis.

Acompanhe a autora no Facebook pela sua comunidade Vanelli Doratioto – Alcova Moderna.

Atribuição da imagem: diversas aquarelas da obra “O Pequeno Príncipe”.

Ninguém consegue ferir quem se aceita exatamente como é

Ninguém consegue ferir quem se aceita exatamente como é

Quem se aceita exatamente como é não tenta agradar a todos, impressionar, nem dá valor ao que os outros vão falar, vão pensar, vão fofocar, pois tem certeza de que é muito maior e melhor do que todo mal ao seu redor.

Quando somos crianças, desejamos ser aceitos por nossos pais, no seio de nossa família. Aliás, creio que esperamos a aprovação deles durante toda a nossa vida. Sempre que tomamos alguma decisão, voltamos os nossos olhos em sua direção, para que a concordância deles acalme o nosso coração.

Assim que chegamos à adolescência, queremos ser aceitos pelo grupo de amigos, mesmo quando este é formado por pessoas que não tenham nada a ver conosco. Não raro, somos atraídos por aqueles que são mais ousados e destemidos, ainda que seu comportamento seja indesejável, pois eles espelham tudo aquilo que queríamos fazer, mas não temos coragem. Daí o fascínio pelos mais rebeldes e transgressores.

Quando nos tornamos adultos, ansiamos pela correspondência amorosa de quem amamos, pois desejamos dar certo na vida a dois. No entanto, esse querer jamais poderá ultrapassar os limites de nossa dignidade; caso contrário, acabaremos enredados nas garras de pessoas manipuladoras, egoístas e que não sabem amar de fato. Porque carência alguma poderá nos sujeitar a aceitar qualquer tipo de companhia.

Na verdade, tornar-se adulto requer amadurecer, o que basicamente implica a aceitação de si mesmo. Temos que ter consciência de tudo aquilo que podemos ofertar, não aceitando retorno de menos. Sabermos com clareza quais são as nossas potencialidades e nossas limitações nos ajuda a mergulharmos nos encontros que valem a pena, onde o amor será sempre uma via de mão dupla.

Aceitar-se exatamente como se é liberta, apazigua as inseguranças e torna tudo mais fácil de se enfrentar. Quem se aceita para de tentar a agradar a todos, de tentar impressionar, de dar valor ao que os outros vão falar, vão pensar, vão fofocar. Quando nos aceitamos, temos, então, a certeza de que somos muito maiores do que todo o mal que nos rodeia.
Aceite-se e liberte-se do que não faz falta alguma em sua vida. É assim, somente assim, que tem de ser. Nem mais.

Imagem de capa: Voyagerix/shutterstock

Assuma seu novo amor!

Assuma seu novo amor!

Às vezes acho que existe uma força que age diante dos engates de novos relacionamentos. Parece uma conspiração para que o casal não funcione, uma distração… ou quem sabe seria mesmo uma confirmação? Calma, eu explico.

Você já deve ter passado pela experiência de assumir uma única pessoa na sua vida, fechar as portas para novos contatos e preferir se relacionar apenas com “o escolhido” – (chamarei assim até o final porque acho mesmo que é isso).

Quando este entendimento é concebido e assim define-se o casal, é como se uma força agisse nesse momento e abrisse as portas do limbo, aparecendo, como que do nada, contatos novos e antigos, pipocando por todos os lados! É uma força tão descomunal que é possível até mesmo ressuscitar quem já partiu: Abre-se a tumba dos contatos mortos em vida que você até mesmo rezou na missa de sétimo dia e desejou nunca mais encontrar! Como lidar?

Abrir mão dos contatos é a primeira prova de que você está num relacionamento sério. Este deve ser basicamente o primeiro movimento a se fazer se você deseja mesmo assumir um lance sério com alguém e quer isso em troca. Não vale entrar na relação pra matar carência e deixar os “contatinhos” de stand by.

É importante mesmo fechar as portas e se sentir tranquila. Não é legal manter as aparências com alguém quando se está namorando. Ou você está com esse alguém ou está na curtição. É bom entender isso.Quando estamos mesmo apaixonados, esse movimento até se torna bastante natural, pois não desejamos outro alguém na vida a não ser “o escolhido” . É dele nossos pensamentos, vontades e planos. Nesse sentido, os contatos que ressurgem não serão mais prioridades. Digo MAIS porque certamente um ou outro aí já foi. Importante saber enterrar os mortos.

Mas é verdade que os contatos parecem sentir o cheiro de longe quando a agenda está fechada, quando a placa virou para “fechado”, né não? Fica como se fosse uma corrida para a desistência, de que haverá mais uma chance.

Você pode até ficar surpresa com as propostas que aparecem, até mesmo daquele contato que já estava lá embaixo da sua lista de conversas do whatsapp.

Nesse caso, seja sincera com você e honesta com “o escolhido”. Construa algo sólido, verdadeiro, sem mentiras ou falcatruas. É melhor começar sempre com o pé direito!

Fale logo, abra o jogo e conta o que está se passando, doa a quem doer. “Desculpa, mas não vai dar. Agora estou namorando”, e ponto. É isso menina! Sem muitos rodeios e explicações porque bem provável que nessa história de contatinhos você não deva nada mesmo a ninguém. É bom haver respeito, tanto do contato quanto seu com seu novo amor. Não vamos sacanear nem iludir ninguém, porque esse negócio de mexer com sentimento dos outros machuca de verdade.

Ser leal a uma pessoa é bonito, e acredito que você também quer isso de volta. Faça o que gostaria que fizessem com você. Se o outro não fizer, isso é problema dele que não soube ser de verdade. Mostre sua integridade.

Nada contra a amores livres, cada um faz da sua relação o prato que quiser comer. O importante é ser feliz. É bom existir o entendimento do casal, de como deseja levar sua relação.

Mas se no caso for mesmo uma relação “pinguim”, daquela onde há apenas um único parceiro pra dividir a vida, ser franco é sempre a melhor saída, pois não há nada que gaste mais energia que o tal do “rabo preso”, viver numa situação comprometedora e não ter sossego porque precisa vigiar o telefone pra não aparecer mensagem do fulaninho ou vigiar facebook pra não expor o segredinho… Que feio, que gasto de energia! É bom ser leve, ter consciência e mente tranquilas.

Nesse sentido, se assuma, assuma pros contatos, assuma pro mundo seu novo amor e sejam os dois muito felizes!

*Ah! Este texto também é dedicado aos homens que encontraram as suas “escolhidas “!

Cair em si: o melhor tombo da vida

Cair em si: o melhor tombo da vida

Não aceite qualquer amizade, qualquer sentimento, um amor qualquer de uma pessoa qualquer. Ninguém é qualquer um, nem merece qualquer coisa, muito menos você.

O tempo passa tão rápido e ficamos tão atribulados com nossos compromissos de trabalho, de estudo, de vaidade, de tudo o que não tem a ver com a nossa essência, que, não raro, acabamos nos esquecendo de reservar um tempo a nós mesmos. Acabamos nos esquecendo de que há uma vida toda passando também aqui dentro de cada um de nós.

E, caso negligenciemos todas as nossas necessidades afetivas, quase nada nos resta de verdade. Sim, somos as nossas verdades, tudo o que alimenta as batidas de nossos corações, todos os nossos sonhos, desejos e que constituem aquilo que somos – humanamente somos. Não existe conforto algum, maquiagem alguma, dinheiro algum, capazes de preencher a nossa dimensão afetiva, as carências de nossos sentidos, o horizonte do amor que guardamos aqui dentro.

Somos sentimentos, somos alma, para muito além do nosso corpo e daquilo que vemos e pegamos com as mãos. Necessitamos de troca de energia, de toques de almas, de entendimento e de compartilhamento de olhares, de falas, de essências. Tudo o que é material, por si só, torna-se vazio e inútil, caso não estejamos trocando afetividade com alguém enquanto vivemos. Precisamos de amor e amor não se materializa no que a gente compra, mas existe e se multiplica através de sentimentos verdadeiros.

Assim sendo, sem que reflitamos acerca de nossas atitudes, agiremos, a pouco e pouco, mecanicamente, enxergando tão somente o que está ali na frente e os resultados, o produto final. Então, todo o processo que culminou naquela situação passará despercebido por nós, ou seja, não nos conscientizaremos de que muito do que nos acontece implica a colheita das sementes mal escolhidas e mal plantadas por nós mesmos.

Com isso, aceitaremos, resignados e passivamente, qualquer emprego, qualquer amizade, qualquer sentimento, um amor qualquer de uma pessoa qualquer. Mas ninguém é qualquer um, nem merece qualquer coisa, muito menos você. Temos que prestar atenção em nossas ações, para que possamos agir de acordo com as nossas verdades, para que não aceitemos menos do que a inteireza que estivermos oferecendo. Não podemos nos sujeitar a sermos menos e menores do que toda a integralidade de nossa essência, simplesmente por não prestarmos atenção em tudo o que temos dentro de nós.

Quando paramos e olhamos para dentro de nós, conseguimos perceber e refletir sobre as atitudes que vimos tomando, no sentido de mudar os comportamentos que nos afastam da felicidade e de manter em nossa vida as ações que nos aproximam de tudo e de todos que nos ajudam a sorrir com sinceridade. Isso é cair em si. Isso é o melhor tombo da vida!

Imagem de capa: nd3000/shutterstock

“Gosto que me digam a verdade. Eu decido se ela dói ou não”

“Gosto que me digam a verdade. Eu decido se ela dói ou não”

Quando eu era menina, era comum uma criança ou outra da vizinhança ter um problemão pela frente. Acontecia, vez ou outra, de quebrar uma porcelana de valor afetivo dentro de casa, e éramos tentados a remendar os cacos com super bonder, argila ou mesmo esmalte. Porém, aquilo era uma trapaça, uma forma de nos safarmos dos discursos inflamados, castigos e safanões. E, mesmo que conseguíssemos adiar o encontro com a verdade, cedo ou tarde ela viria à tona, e além de desastrados, seríamos culpados por mentir e enganar. Antes tivéssemos a coragem de varrer os cacos e revelar nosso descuido. O que nossos pais iriam fazer ao serem confrontados com a realidade poderia doer ou não, mas certamente nos libertaria a viver sem culpa, olhando nos olhos, livres de suposições acerca do “desgosto” que fomos capazes de provocar em nossa família.

A mentira “bonita” é muito mais devastadora que a verdade intragável. Por mais que a mentira tenha “boa intenção”: poupar alguém da realidade, proteger, resguardar… ela causa rupturas amargas na confiança, e pode diminuir a fé que essa pessoa tem na vida, nas circunstâncias e nas pessoas.

Há cinco anos, quando comecei o blog, estava passando por um momento delicado na minha vida. Inesperadamente, algumas “verdades” que eu conhecia foram por terra, e me deparei com uma nova realidade, a realidade que me pertencia e que eu sempre tive o direito de conhecer, mas que por “cuidado” tinha sido revestida de mentira e omissão.

Conhecer a verdade _ sendo ela bonita ou não _ não me amargou nem me tornou revoltada ou deprimida. Porém, saber que tinha sido enganada com mentiras e omissão, me afligiu e por um tempo diminuiu minha confiança nas pessoas.

A realidade, seja ela boa, má, fácil ou extremamente dura, é o que há. Ela é nosso fato concreto, e não pode ser mascarada com uma mentira que não reflete aquilo que temos pra hoje. Não podemos manipular a vida de ninguém, editando aquilo que ela deve ou não conhecer, deve ou não lidar, deve ou não enxergar. Não dá para poupar alguém dos fatos de sua própria vida enfeitando a realidade com omissões. Não dá para achar que ajudamos alguém contando a ela uma mentira.

“Gosto que me digam a verdade. Eu decido se ela dói ou não”. Nem sempre a verdade vai nos trazer alívio ou alegria, mas a vida precisa ser vivida com clareza, por mais que essa transparência traga dor. Ainda assim, é uma dor que nos localiza, nos situa, nos confronta com o amadurecimento e aprendizado. Pois tudo está em pratos limpos, às claras, sem manipulações, hipocrisias, omissões e mentiras.

É melhor desapontar alguém com a verdade (nem sempre bonita) do que enganar com uma mentira. Se a pessoa vai sofrer ou não, isso não nos cabe decidir ou controlar. Não podemos agir como deuses, capazes de manipular e conduzir o que foi reservado à vida de cada um. O sofrimento não é só prejudicial, ele também tem seu papel no fortalecimento dos vínculos e no crescimento pessoal. Tentar remediar o sofrimento através de uma mentira é causar uma dor ainda maior.

Sempre tive afeição por aqueles que me olham nos olhos e deixam transparecer o que vai dentro do coração. Quando há respeito, a sinceridade, por mais que doa, estreita os laços e nos ajuda a crescer. Nos situa, dá um chacoalhão na nossa comodidade e nos desperta para a vida. É como um estalar de dedos na nossa cara, dizendo “acorda, Alice!”; nos ensinando que é preciso arregaçar as mangas e lidar com aquilo que nos cabe: nossa vida real e nada mais.

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Imagem de capa: Monkey Business Images/ Shutterstock

Não permita que a covardia dos outros, tire a sua coragem de amar

Não permita que a covardia dos outros, tire a sua coragem de amar

Que amar é um ato de coragem todos sabem, mas que está cheio de falsos corajosos, usando máscaras de apaixonados, poucos.

Infelizmente, os relacionamentos que sempre acreditávamos ser vividos por pessoas corajosas e sinceras, estão minados por pessoas covardes, maldosas e dissimuladas que, para satisfazerem a vaidade do próprio ego, brincam com o sentimento alheio como quem brinca de lego.

Pessoas covardes nunca assumem um posicionamento diante de um conflito pessoal ou profissional. Utilizam-se da desculpa do “bom relacionamento” para jogar dos dois lados e para se manterem em suas zonas de conforto, sejam elas profissionais, sociais ou sentimentais.

Pessoas covardes jogam sujo. Não falam com você, mas falam de você o tempo todo. Julgam suas lutas, suas escolhas, sua vida, mas, nunca enfrentaram uma tempestade ao seu lado.

Pessoas covardes não assumem relacionamentos, com a desculpa de “relacionamentos escondidos duram mais” nunca estão disponíveis, nem prontas para algo sério.

Com desculpas esfarrapadas e pouca criatividade, não dispensam um encontro casual e um romance escondido, desde que não tenha que colocar uma aliança e apresentar o outro como parceiro de vida. Alegam incompatibilidade de gênios, colocam a culpa nos astros, na ex-namorada, no ex-parceiro, na mãe, na parteira, na “química”. Mas, nunca assumem a culpa da incapacidade de amar. Como definiria Sarah Westphal: “sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz”.

Gente corajosa é sincera. Diz “que não dá mais” com motivos certos, respeitando a dor e o sofrimento do outro. Pessoas covardes, não. Manipulam seus parceiros, até os mesmos se sentirem culpados de erros que não cometeram, apenas para terem motivos para “desaparecem” no meio da história.

Por sorte pessoas covardes não são a maioria e, a vida, acontece com os transparentes e verdadeiros. Dessas que assumem as conseqüências de seus atos e que permitem que o amor e o respeito prevaleçam na relação.

Pessoas corajosas dão cor à vida. Deixam o amor leve, engraçado, bonito. Confirmando a definição perfeita de Zygmunt Bauman: “sem humildade e coragem não há amor. Essas duas qualidades são exigidas, em escalas enormes e contínuas, quando se ingressa numa terra inexplorada e não-mapeada. E é a esse território que o amor conduz ao se instalar entre dois ou mais seres humanos”.

Que, em nossas vidas, os covardes sejam passageiros e os corajosos eternos. Que sejamos inteligentes para aprender com quem parte e sensíveis para valorizar quem fica. Afinal, “Amar é um ato de coragem”. (Paulo Freire)

Imagem de capa: farfalla81/shutterstock

Tomara que caia

Tomara que caia

Nunca fui uma mulher dessas “femme fatale”, sabe? A minha rebeldia contra alguns dos padrões impostos pelo patriarcado começa desde que me conheço por gente. Minha mãe contava que ainda bebê me incomodava com os laços e fitas com os quais ela insistia em adornar meu cabelo, em cinco minutos arrancava tudo.

Quando garota passávamos as férias na fazenda da minha tia, minha irmã e prima gostavam de fazer coisas mais simples, dormir até tarde, assistir TV, ler Agatha Christe, eu tinha outras ambições: aprender a cilhar cavalos e a cavalgar. Meu primo, três anos mais velho que eu, era entendido do assunto, acordava antes do sol nascer todos os dias para cilhar os cavalos e tocar os bois.

Meu sonho era fazer o mesmo, mas sabendo da minha condição de prima mais nova, da cidade – e menina – aprender a cilhar um cavalo já estava de “bom tamanho”. Ele tentava sair em silêncio para não me acordar. Eu era determinada, antes dele sair, já aguardava ansiosamente. Descia atrás dele, caminhando apressadamente pelo trecho da estradinha de chão que levava até o barracão, me esforçava para acompanhar seu ritmo, ele caminhava com passos rápidos e largos, com andar confiante de quem, desde cedo, conhecia seu lugar no mundo, eu ia ficando para trás, chegava lá embaixo ofegante – e feliz.

Observava atenta enquanto ele ia até o pasto pegar o cavalo, se aproximando devagar do bicho, colocando primeiro o cabresto, depois o freio e ajeitando a rédea. Então ele o trazia para perto do barracão e colocava o pelego e o arreio ou a sela, por último apertava a barrigueira. Decorei a sequência que nunca usei. Às vezes, ele me deixava colocar o freio ou ajeitar a sela, segundo ele, eu era “fracote” e não tinha força para apertar a cilha da barrigueira.

Meu primo não era um guri “ruim”, eu que era teimosa demais (era o que me diziam) e ele sempre me deixava andar no “Campeão”, que teoricamente era o cavalo “mais bravo” que tinha para as meninas. E o Campeão foi meu companheiro de cavalgadas, até hoje lembro daquela sensação, me sentia livre e capaz.

Pois é, posso não ser nenhuma “femme fatale” (será que na “vida real” elas existem mesmo?), mas com os anos aprendi a celebrar minha feminilidade, aprendi que ser mulher vai além da roupagem, é um dom adquirido com a maturidade e as cicatrizes deixadas por uma sociedade que não contempla nossas grandes ambições. Noite dessas quis usar um vestido “fatale” tomara que caia, preto, curto e que há tempos não vestia. Por via das dúvidas (e por ser Curitiba) resolvi levar um casaquinho.

Meus amigos vestiam moletom e camiseta, senti inveja deles, eles estavam confortáveis e ninguém (além de mim) parecia se importar com o que vestia. Os rapazes na balada exibem sorrisos despretensiosos, tênis, moletons e camisetas, e assim como meu primo, pareciam nem se dar conta do conforto e facilidade que desfrutavam pelo simples fato de terem nascido homens. Privilégio é algo difícil de entender porque nunca saberemos como é viver sem os que temos ou na pele daqueles que não têm.

Às vezes sinto que ser mulher é como aquela caminhada de passos ligeiros que fazia tentando alcançar meu primo; em terreno desregular, tropeçando no breu da noite que findava, aliviada quando o sol despontava no horizonte como se fora aliado ajudando a iluminar o caminho. Ser mulher é constantemente se esforçar e sentir-se ficando para trás. É viver desconstruindo padrões, arrancando laços e fitas diante do olhar de reprovação de muitos. Não, claro que não é assim para todas, para a maioria é muito pior. Muitas não têm nem a chance de fazer a caminhada. Eu tenho consciência dos meus privilégios.

Deu calor, resolvi prender o cabelo, o rapaz, um estranho, ao meu lado achou-se suficientemente familiar para dizer “prende o cabelo bem alto que fica gata, hein?”. E quando eu ia tirando o casaco ele também sentiu-se no direito de acrescentar um “agora sim!”. Eu não quero sair de moletom na balada, gosto de usar vestidos, mas quero poder vesti-los sem sentir que serei devorada, e definitivamente sem os comentários de estranhos.

Sim, ser mulher é ter alguém (estranho ou não) constantemente te dizendo o que você deve ou não fazer, como deve ou não se comportar. Vestir-se. Pensar. Agir. Falar. Sonhar. Desejar. E ainda assim sentir-se, de diversas maneiras e em diversas situações, inadequada. É o que aprendi desde cedo, como uma menina-moleca que arrancava laços e fitas diante do olhar reprovador da minha mãe.

Soltei o cabelo, vesti o casaco, resolvi que minha noite já tinha chegado ao fim. No meu tempo de menina já estaria quase na hora de ir cilhar os cavalos. A caminhada, todavia, parece-me longa e escura. Talvez o sol ainda seja aliado, torço para que a luz que brilha no horizonte ilumine nossos caminhos, sigo ofegante e com grandes ambições.” Tomara que caia ” essa moda machista.

Imagem de capa: alex makarenko/shutterstock

Não deixe seu coração tomar decisões. Ele não é tão inteligente assim…

Não deixe seu coração tomar decisões. Ele não é tão inteligente assim…

Somos românticos assumidos e dramáticos por opção. Gostamos de supervalorizar a dor e acreditamos ser mais fácil curar um coração ferido à poupá-lo de sofrer sem necessidade. Isso explica, talvez, porque encaramos nossos erros como hábito e não como um acidente de percurso.

Diferente do que dizem, inteligência emocional não é algo que pode ser adquirido por conselhos, exemplos ou dado como presente de aniversário. Adquire-se depois de muitos nocautes e depois de muitas quedas.

Na definição, inteligência emocional é deixar suas ações serem dirigidas pela razão e não pelas emoções. Na prática, como dizia Freud, “é o único meio que possuímos de dominar nossos instintos”.

Para Gikovate, “uma característica da maturidade é o senso de responsabilidade sobre si mesmo, assim como o desenvolvimento de uma sólida disciplina: isso significa controle racional sobre todas as emoções. (…).

Controlar não significa reprimir e muito menos sempre deixar de agir de acordo com as emoções; significa apenas que elas passam pelo crivo da razão e só se tornam ação quando por ela avalizadas. Esse é mais um motivo para que sejam criaturas confiáveis, uma vez que exercem adequado domínio sobre si mesmas”.

Ser inteligente emocionalmente é respeitar a decisão dos outros, mas não permitir ser vitima delas. É deixar ir quem quer ir e entender que nem todos merecem seu sofrimento. Ser inteligente é saber que ninguém é tapa buraco de ninguém e que somos responsáveis pelos relacionamentos que atraímos.

Ser inteligente é ser sensível e forte ao mesmo tempo. Sensível para entender que um fim de relacionamento não é o fim da vida e, forte, para seguir sem mágoas, discussões e cobranças. É saber que um relacionamento abusivo não é o melhor para você e que, respeitar os limites criados pelo amor próprio e pela razão, é um direito que você não deve abrir mão, em hipótese alguma.

Ser inteligente é entender que, nem todos, merecem seu sofrimento e que, como dizia Shakespeare “nem toda nuvem gera tempestade”. É saber discernir entre o bem e o mal, entre o necessário e supérfluo e entre aquilo que merece sua atenção e o que exige seu esquecimento.

Ser inteligente é respeitar a opinião do coração, mas deixar que as decisões da vida sejam tomadas pelo cérebro.

Imagem de capa: sun ok/shutterstock

Frozen nos ensina: precisamos descongelar os icebergs das emoções

Frozen nos ensina: precisamos descongelar os icebergs das emoções

Ficha técnica:

Filme: Frozen  

Direção: Cris Buck e Jennifer Lee

Produção: Disney – EUA

Ano: 2013

Frozen foi e é um sucesso unânime entre crianças e adultos. E, apesar de já haver um tempo do seu lançamento, o enredo segue encantando a todos e sendo alvo de inúmeras reflexões. O que será que faz este filme ser tão irresistível?

Trata-se de uma espécie conto de fadas moderno, que carrega um significado psicológico essencial e nos convida a dois tipos de conhecimento: um intelectual, que nos ajuda a refletir sobre o enredo e dele tirar determinado proveito ao compreendê-lo intelectualmente; e um conhecimento vivencial, ou seja, que se realiza por meio dos nossos órgãos do sentido, que nos toca intuitivamente e nos provoca reações afetivas e emocionais. Um conto de fadas é sempre um convite a entrarmos em um outro mundo, cheios de encantos e magias, com desafios e obstáculos que chamam heróis e heroínas à mais profunda realização do seu potencial escondido ou não aprimorado, ou seja, à realização do próprio Self.

É neste mundo subjetivo e inconsciente que entramos quando assistimos a saga das irmãs Ana e Elsa, e neste ponto os produtores foram muito felizes ao escolherem abordar o relacionamento amoroso entre familiares, fugindo do antes tradicional par romântico.

A relação entre as irmãs e a importância dos laços de sangue são temas centrais não só do filme, como também do cotidiano. Aprender a amar e o amor em si são vivências muito primárias em nossas vidas e determinam futuras relações.

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Este texto foi produzido por Marcia Berman Neumman e Marcela Alice Bianco, membros da Comissão Organizadora do Cine Sedes Jung e Corpo com base nas reflexões realizadas durante o evento realizado em março de 2017, com os comentários da Professora e Psicoterapeuta Junguiana Maria Helena Mandacarú Guerra e da Psicóloga e Psicoterapeuta Junguiana Rosângela Victor Marconi.

O Cine Sedes Jung e Corpo é uma atividade extracurricular do curso Jung e Corpo: Especialização em Psicoterapia Analítica e Abordagem Corporal do Instituto Sedes Sapientiae de São Paulo.

É um evento gratuito e aberto ao público geral organizado pelos professores do curso em conjunto com ex-alunos e ocorre todas as últimas sextas-feiras dos meses letivos do curso.

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Na psique, o simbolismo das irmãs pode representar os pares de opostos, as polaridades consciente e inconsciente, subjetividade e objetividade, razão e emoção, sensação e intuição, entre tantas outras. Todas elas são complementares entre si, e podem ser assim experimentadas quando funcionam de maneira dinâmica, harmonizada e integrada dentro psique. Porém, quando por ventura há algum tipo de conflito que causa uma fixação de uma polaridade em detrimento de outra, a psique vive um período de estagnação, repressão, fixação, que se exterioriza no surgimento de inúmeros sintomas. A resolução desta fixação e a ultrapassagem da atitude unilateral, com o estabelecimento de uma relação entre as polaridades de maneira dialética e integrada, alcançada por meio da função afetiva, ou seja, do amor, pode ser a via para se chegar a um novo equilíbrio e a um novo patamar de amadurecimento psíquico, seja na vivência pessoal ou relacional e coletiva. Esta será a tônica apresentada em Frozen, uma aventura congelante.

No filme, as princesas Elsa e Ana viviam felizes num lindo reino. Elsa detinha poderes secretos e os usava de forma lúdica para se divertir com a irmã. Criavam brincadeiras juntas, e nelas Elsa fazia surgir, com sua magia, neve, tobogãs e bonecos de neve, explorando o mundo da fantasia e criatividade junto com Ana. Eram próximas e cúmplices, até que certo dia, num acidente, Elsa atinge com um raio a cabeça da irmã, ferindo-a.

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 Ao perceberem a situação, os pais se apavoram, repreendem Elsa e levam as duas para verem os trolls (os especialistas em amor), que no filme aparecem como seres elementares e totalmente ligados à natureza e, portanto, têm papel de curandeiros/sábios da floresta. Estes falam que por sorte o raio atingiu a cabeça e não o coração: “a cabeça é mais fácil de convencer; já o coração, não”, dizem eles.

A partir deste evento, os reis decidem que o melhor é esconder os poderes de Elsa. Tomam medidas para isolar a filha e protegerem a todos. Decidem fechar os portões do castelo, reduzir o número de funcionários e instruir a filha a não sentir e a esconder e não mostrar mais seus poderes. Para o bem comum, Ana não lembrará de nada, e como marca do incidente só restará uma mecha branca em seus cabelos. Os trolls ainda avisam: “o medo será o grande desafio a ser vencido por Elsa”.

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A porta carrega o simbolismo da passagem, do acesso, da discriminação entre que está deste e o que está do outro lado, entre o conhecido e o desconhecido, entre um mundo e outro mundo. Quando elas estão abertas ou são acessíveis, há um convite para o relacionamento entre o que está de de cada lado da porta, há um convite para a troca, para a intimidade, para a atividade criativa, para a participação. No entanto, quando elas se encontram impossibilitadas de serem abertas, ou inacessíveis, funcionam como limite, defesa, separação e o relacionamento direto fica inviabilizado. Assim, o evento traumático leva a uma grande repressão na vivência emocional familiar e as portas são fechadas, separando as irmãs e as formas de viver (introversão e extroversão, razão e sentimento, poder e ingenuidade, saber e não saber). Por trás das portas passam a existir grandes segredos, que levam toda a família à estagnação e à ausência da vivência criativa.

Elsa passa a sentir medo e se tranca em seu sofrimento; teme ferir ou revelar seu segredo à irmã. A experiência, vivida como traumática e negativa, torna-se motivo de afastamento entre as irmãs, antes companheiras e amigas. Ana não entende o que houve para tudo mudar repentinamente e, durante anos, insiste em chamar Elsa para brincar. Ambas se sentem solitárias e angustiadas, cada uma de um lado da porta, de um lado da realidade.

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Aqui cabe uma pausa para uma reflexão. Como ficamos quando somos impedidos de sentir? O que significa um coração congelado?

Os sentimentos e as emoções são funções estruturantes que contribuem para o desenvolvimento da personalidade. O medo, por exemplo, dispara um mecanismo instintivo de ataque-defesa ligado à sobrevivência e que permite que nos defendamos dos perigos que nos cercam. Diante dele, uns fogem, outros paralisam ou congelam.

Distanciar dos sentimentos e das emoções faz com que nos afastemos da força e do potencial humanos, inclusive de nossa capacidade de amar e ser amado. Um coração congelado, o não contato, evidencia traumas, defesas rígidas e dificuldades no desenvolvimento da afetividade e dos relacionamentos.

Por isso, como mencionamos acima, devemos nos atentar para a importância das relações parentais durante a primeira infância. O ambiente, a amorosidade, a qualidade do vínculo afetivo criado pela relação entre a criança e quem cuida dela são essenciais para a formação da personalidade.

É muito comum psicoterapeutas receberem em seus consultórios indivíduos com questões amorosas. Pessoas que estão marcadas com feridas de rejeição, abandono, negligência e perdas precoces e que, muitas vezes, fantasiam que a solução é se fechar para o amor como mecanismo de autoproteção. Indivíduos que pensam: “se eu não amar, controlo melhor, não sofro”. São corações congelados que temem o sofrimento, mas que só se aquecerão com o amor, com o enfrentamento, com a coragem de arriscar entrar em contato com a dor.

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A transformação verdadeira implica num sentimento modificado. Para elaborar um complexo, uma dor profunda, não basta só o intelecto. É preciso vivenciar, sentir no coração e ressignificar a vivência.

A experiência de Elsa ainda na infância foi de exclusão, “bronca” dos pais, o que gerou muita culpa e resultou numa defesa muito bem estruturada. Aprendeu que é perigosa, que pode fazer mal ao outro a quem ama e por isso deve se isolar: “não sentir, não deixar saber”. Ninguém a ensinou a lidar com a questão de outro modo, a usar seu dom de maneira construtiva e criativa, mas a se isolar, se fechar, se distanciar, fazendo com que ela acreditasse que era perigosa e destrutiva. E assim, a defesa se solidificou. Estar sozinha foi o modo aprendido. Porém, ser feliz sozinho, quando a solidão é fruto de uma defesa tão arraigada, é uma ilusão, que custou no enredo do filme o impedimento de convívio entre as irmãs e com o mundo. Trancar-se no castelo foi a solução ensinada. O par de luvas que lhe foi dado significando: “reprima ao invés de lidar com a questão”. Com estes ensinamentos os pais de Elsa, crendo fazer o melhor à família, estigmatizaram as duas irmãs. Elas tornaram-se jovens sem repertório, impedidas de sentir o amor, isoladas do convívio social e, por consequência, com baixa autoestima e autoconfiança. Ambas sentiam solidão.

A criança aprende a se reconhecer com o olhar do outro durante seu desenvolvimento. O olhar dos pais é fundamental e estruturante nesta primeira infância. Devemos levar em conta que pais fazem o que julgam melhor para seus filhos, dentro de um quadro de referências culturais e sociais. Antigamente, por exemplo, crianças especiais e pacientes psiquiátricos eram isolados, presos. Este era o movimento que traduzia a sociedade até então: isolar o que é diferente, como no filme. Este movimento reflete o pouco desenvolvimento da consciência coletiva da época.

Mas a primazia do poder dos pais sobre a vivência psíquica dos filhos, um dia perde força. Os pais de Ana saem para uma viagem e acabam naufragados no próprio mar revolto do inconsciente coletivo. Ou seja, a energia ligada a eles imerge a um nível inconsciente e impessoal. É chegado o momento de o reino ser liderado pela nossa heroína Elsa, cujo poderes cresceram de maneira sombria e desenfreada pela falta de oportunidade para elaboração. Por conta disso, ela e sua irmã, terão que enfrentar inúmeros desafios que ainda estão por vim.

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É impossível mantermos tudo dentro de um controle rígido, acreditando que ele será suficiente para não nos comprometermos ou não deixarmos vir à tona quem realmente somos. As luvas mostram como as defesas de Elsa são frágeis e o quanto ela está despreparada para a vivência interpessoal. É como se quiséssemos esconder toneladas de sujeira embaixo de um ínfimo tapete. Basta que ela tenha que tirar as luvas por poucos instantes e seja de alguma forma incitada a ter uma reação emocional, para que toda a força reprimida no inconsciente venha à tona, liberando uma energia descontrolada e cujas consequências são difíceis de medir.

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Amedrontada pelo mesmo medo que vê refletido nos olhares de seus súditos e convidados no castelo, Elsa foge. A reação aprendida é a de isolar e se afastar, portanto, neste momento não há outra saída. O isolamento parece garantia de que tudo ficará bem.

Tanto na realidade como na ficção, é muito comum vermos indivíduos defendidos iludirem-se e sentirem-se felizes isolados. Em Frozen, quando Elsa foge imaginamos que ela se libertou. É um momento encantador para quem assiste. Ela canta, experimenta seus poderes, solta o cabelo, suas vestimentas e maquiagem se transformam. A personagem cria uma nova moradia bem longe: um castelo de gelo. A perfeita “redoma de gelo”, onde parece estar feliz. Uma ilusão se pensarmos na voz da defesa, que tenta convencê-la que está feliz, livre. Porém, na realidade, é uma estagnação, o não crescimento, não estar conectada com sua alma, com sua essência, não perceber que tudo que mais importava ficou para trás, congelado como seu coração/sentimentos/emoções.

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Quando Elsa foge, Ana vai atrás e, ao contrário de todos, não teme a irmã. Quer protegê-la e vai de coração aberto. Em sua empreitada de resgate se dá conta da gravidade dos acontecimentos: um reino inteiro congelado. Ana acha que a culpa é sua, pois provocou a irmã querendo se casar com alguém que acabara de conhecer. Mais uma vez, podemos ver aqui o despreparo e falta de experiência causados pelo isolamento. A irmã mais nova despreparada para discriminar entre um amor verdadeiro e uma emboscada interesseira. Assim, Ana também precisa iniciar uma jornada pessoal, movida pelo desejo de ajudar a irmã, e se aventura sozinha frente ao desconhecido, para o seu próprio bem.

Na jornada para encontrar a irmã, Ana relaciona-se com Olaf, Sven e Cristofer. Olaf (boneco de neve) e Sven (alce) representariam a fantasia e os instintos, respectivamente. O reino interior sempre envia os seus auxiliares, os símbolos, que aqui se manifestam como elementos complementares que ajudam a enfrentar os desafios e que serão essenciais para o autoconhecimento. Cristofer (vendedor de gelo) em certo momento fala à Ana que não confia nela, pois: “como confiar em alguém que casa com um desconhecido! ”  

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As irmãs se reencontram no castelo de gelo e Elsa não quer voltar. Elsa cria um mostro de neve para protegê-la, mas afasta as pessoas que ela ama e afasta a irmã. Podemos pensar aqui na autonomia da Sombra. Muitas vezes ficamos presos em um complexo autônomo, mas o que significa isso em termos práticos? Significa que existe uma autonomia que se manifesta em ações que são contra nossa vontade, como neste trecho, onde tudo o que Elsa mais queria era voltar e estar perto de quem ama, mas faz o contrário, criando um mostro ainda mais amedrontador que ela própria para afastar a todos e proteger sua defesa.

No enredo, Elsa teme pela segurança de todos e acaba acidentalmente atingindo Ana, pela segunda vez, com um raio congelante. Porém, desta vez no coração. Cristofer a leva para seus amigos, os especialistas em amor. Os Trolls falam que, desta vez, somente um ato de amor verdadeiro poderá salvar e aquecer o coração de Ana. Logo imagina-se que um beijo de seu noivo, Hans, poderá salvá-la e levar a estória a um final feliz.

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Porém, aqui devemos fazer outra pausa e retomar a questão levantada no início do texto: Frozen é inovador porque os autores captaram uma mudança muito grande de paradigmas. No filme não é o homem ou o par romântico que salvam. O masculino dá lugar ao empoderamento do feminino que cura. O amor conjugal, idealizado com frequência nos contos de fadas e filmes, dá lugar ao amor fraterno, entre irmãs, no caso.

Podemos pensar num resgate do feminino, da mulher, e na modificação na relação masculino-feminino, homem-mulher, com este novo paradigma. Antes de Frozen, muitos contos de fadas e filmes, mostravam que só por meio do casamento a mulher seria salva e feliz para sempre. Podemos citar como exemplo: Bela e Fera, Bela Adormecida, Cinderela, entre tantos outros…

A animação captou muito bem esta mudança do feminino e da posição da mulher em nossa época. Ana não é salva pelo outro, pelo masculino, pelo homem. Ao contrário, ela salva Cristofer, bate em Hans quando descobre que seu amor por ela era uma farsa, um golpe. Em seu amadurecimento e aprendizado, ela descobre que não está à mercê do masculino, do homem: toma decisões de um feminino ativo, uma mulher forte: é determinada, suas escolhas são genuínas e conectadas com sua essência. Mesmo sem repertório inicial, é guiada por uma coragem, um impulso de vida interno que a faz desbravar o mundo e querer ter relacionamentos. Ela não suportava mais ficar trancada, isolada. Podemos pensar aqui na individuação como um projeto, uma perspectiva a ser alcançada, e não um ponto de chegada.

A história das irmãs nos mostra um trajeto de sofrimento como ocorre em nossas vidas reais, pois os percalços, angústias e dores fazem parte do desenvolvimento humano. Por isso nos identificamos tanto com ela.

No desfecho do filme, Ana salva a irmã da morte. Entra na frente para defender Elsa de Hans, que planeja matá-la para ocupar o lugar de Rei.

Neste momento, Ana congela e Elsa chora em cima de sua estátua de gelo. Este é o ato de amor verdadeiro ao qual os Trolls se referiam. Somente quando Ana prova o amor verdadeiro pela irmã, Elsa percebe o quanto a ama, sente a dor da perda e deixa sair seus sentimentos verdadeiros pela irmã, chora e liberta seu coração do gelo. Assim, o antidoto para uma ferida nem sempre pode ser encontrado longe daquele que inoculou o veneno, ou seja, a salvação de Ana e, por que não dizer de Elsa, ocorre juntamente no resgate da relação amorosa e genuína entre ambas. E neste momento ambas se salvam pela vivência do amor!

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Ana e todo o Reino descongelam quando aprendem que podem amar e ser amadas. Elsa não precisa mais temer suas emoções. O que sente agora é genuíno, verdadeiro e não mais defensivo. Quando estava dentro da defesa, as emoções reprimidas explodiam e ultrapassavam a si mesma, atingindo seu entorno (reino congelado, família, amigos).

Podemos pensar no medo na vida real também. O medo nos protege enquanto função, porém, quando ultrapassa seu limite funcional, dispara defesas (medo de amar, de se frustrar, de sofrer, de demonstrar, crises de pânico). Afinal, de que temos tanto medo? Poderíamos arriscar dizer que tememos o que (ainda) não podemos curar!  Tememos o que é sombrio em nós mesmos, ou seja, o que rejeitamos, não gostamos, desconhecemos e reprimimos. Porém, esquecemos que estas forças só são sombrias enquanto dissociadas. Uma vez elaboradas e integradas, geram criatividade!

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Aqui cabe uma última consideração: pensar no porquê do grande encantamento e identificação com Elsa. Nossa heroína detém um grande poder: congelar a água. O simbolismo da água está diretamente ligado às emoções. Existe uma analogia entre a água que transmuta os estados e os sentimentos e emoções neste caso. A água é um elemento da Natureza de muito poder, tanto construtivo (essencial para a vida), como destrutivo (enchentes, chuvas, nevascas). Podemos levantar também a questão da identificação das pessoas com a dificuldade de Elsa para demonstrar e comunicar os sentimentos, para se relacionar, o sentir-se diferente e excluída.

Por último vamos olhar para o desfecho, em que o amor reina absoluto e permite um novo padrão de consciência e de relação. Quando o poder supressor e congelante da Sombra desaparece, Ana e Elsa se salvam e com elas, todo o reino é salvo, ou seja, toda a consciência coletiva pode florescer.

Amor e poder são temas já muito estudados e merecem atenção. Quando tratados de maneira unilateral e opostas, o amor precisa sempre vencer o desejo de poder, em nós mesmos e no outro. Jung já dizia: “Quando o poder entra por uma porta, o amor sai pela outra”. No filme, temos um exemplo deste tipo de relação entre amor e poder no drama amoroso de Ana e Hans e o príncipe deseja o poder, o reino. Para isso, engana, mente e tenta matar Elsa e Ana. Falha e acaba unindo as irmãs.

O amor vence neste caso e o Reino agora é aberto e acolhe a todos. O poder passa então a ser exercido com muito amor, acolhendo a diversidade e apontando para uma nova dinâmica de funcionamento, a alteridade, Ou seja, o poder vivido como autoritarismo e unilateralidade não cabe em uma relação de amor. É preciso que se encontre uma nova atitude, que não sirva para aprisionar, abusar, fechar, reprimir e separar. Dentro de uma relação de alteridade, ou seja, quando todos os elementos têm o mesmo valor e são considerados dignos para existir, esse poder ganha uma nova força, a do empoderamento, que juntamente com o amor valoriza o ser, a relação e poder e amor passam então a agir de maneira construtiva e transformadora, seja na própria vida interior, seja nas relações interpessoais e na relação do homem com a Natureza.

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Este texto foi produzido por Marcia Berman Neumman e Marcela Alice Bianco, membros da Comissão Organizadora do Cine Sedes Jung e Corpo com base nas reflexões realizadas durante o evento realizado em março de 2017, com os comentários da Professora e Psicoterapeuta Junguiana Maria Helena Mandacarú Guerra e da Psicóloga e Psicoterapeuta Junguiana Rosângela Victor Marconi.

O Cine Sedes Jung e Corpo é uma atividade extracurricular do curso Jung e Corpo: Especialização em Psicoterapia Analítica e Abordagem Corporal do Instituto Sedes Sapientiae de São Paulo.

É um evento gratuito e aberto ao público geral organizado pelos professores do curso em conjunto com ex-alunos e ocorre todas as últimas sextas-feiras dos meses letivos do curso.

Material reproduzido na CONTI outra com autorização.

Se uma pessoa trata você como se não desse a mínima, ela genuinamente não dá a mínima

Se uma pessoa trata você como se não desse a mínima, ela genuinamente não dá a mínima

A maioria de nós já se apaixonou. Foi correspondido. Achou que era correspondido. Foi rejeitado. Achou que poderia dar certo e não deu. Amou e foi amado. Achou que seria pra sempre e não foi. A maioria de nós já foi vítima dos próprios enganos, da própria necessidade de se sentir amado mesmo quando não havia sinais de amor, da própria vontade de dar certo mesmo quando não havia certeza de nada.

A maioria dos relacionamentos é precedida por um período de dúvidas e suposições. Enquanto sentimos o coração acelerar e as pernas bambearem, nos perguntamos se será ou não pra valer. Ainda não há sinais nem certezas que garantam a permanência, o vínculo, a solidez. Mas ainda assim, pouco a pouco afrouxamos nossas defesas e, conscientes ou não, nos tornamos vulneráveis ao que o outro sente por nós. Se somos correspondidos, bingo! Se não, a história se complica.

Estar vulnerável aos sentimentos de outra pessoa é uma das piores sensações que existem. Pois nessa situação ficamos dependentes de um sinal, de um emoji banal no whatsapp, de uma frase clichê no Facebook, de um comentário suspeito numa página em comum… para nos sentirmos bem. Nada mais tem sentido se aquela pessoa está quieta, sem comunicar nada, sem dar a mínima. Nos agarramos a pequenos indícios de interesse e tentamos encaixar as peças de um quebra cabeça que não se completa.

Agora preste atenção. Existe um sinal que nunca deveria ser desprezado. Um sinal que deveria ser levado em consideração a qualquer hora, em qualquer circunstância: “Se uma pessoa trata você como se não desse a mínima, ela genuinamente não dá a mínima”. E você precisa aprender a enxergar isso com clareza. A aceitar isso com convicção e firmeza. A colocar limites para seu espírito sonhador e coração de manteiga. Porque se você não entende isso, se conta mentiras para si mesmo várias vezes ao dia e tem necessidade de fazer castelinhos com as migalhas que recebe, está faltando respeito por si mesmo. Está faltando maturidade para aceitar que as coisas são como são, o resto é só divagação pra iludir o coração.

Se uma pessoa some, responde mensagens longas com um simples sinal de “joinha”, não te procura, ignora sua presença e age como se nunca tivessem tido algo em comum, essa pessoa não tem o mínimo interesse em você. E mesmo que de vez em quando ela oscile o comportamento e dê sinais vagos e esperanças miúdas de mudança, nunca, jamais, de forma alguma caia nessa.

Ok, você diz. Mas como a gente faz para esquecer?

Esquecer alguém que se ama não acontece da noite para o dia, num estalar de dedos. Esquecer começa com a vontade de colocar um ponto final e o empenho em não olhar pra trás. Mas também requer respeito pelos próprios sentimentos, que vez ou outra podem resgatar uma saudade. Porque no fundo a gente nunca esquece completamente. O que acontece é que a lembrança vai ficando menor, distante, apagada… mas de qualquer jeito, sempre presente em nossa vida. E vamos ter que conviver com isso, entendendo que alguns amores funcionam melhor quando são só saudade.

A maioria de nós já foi vítima dos próprios enganos, da necessidade de se sentir amado a todo custo, de insistir num buraco sem fundo, de tentar salvar um barco que se afunda. Mas chega uma hora em que é preciso dar um basta. Entender que, se um sapato não está te servindo, ele genuinamente não é para você. E com isso sentir-se pronto para recusar o que te fere e abraçar o que te faz bem.

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Imagem de capa: Vadim Georgiev / Shutterstock

Somos todos um

Somos todos um

Estamos todos conectados, a todo momento, numa grande malha consciencial. Cada ser humano é um elemento conectado a esse campo energético mental e isso nos torna um.

Não é clichê nem modinha dizer que SOMOS TODOS UM porque somos mesmo uma grande mente humana operando junto a uma consciência ainda maior e ordenada. Somos parte dessa pulsação inteligente.

Nossos pensamentos estão todos interligados. Uma inspiração pode ser resultado de uma conexão com esta malha, um insight, uma sensação estranha ou boa também podem ser resposta dessa conectividade. Nesses casos, ocorrem também as telepatias – estar pensando em alguém e esse alguém ligar, ou virar a esquina e encontrar essa pessoa.

Coincidência? Se a mente humana não fosse tão ruidosa, essa ferramenta poderia ser usada com mais frequência já que faz parte do potencial humano.

Em grandes centros e cidades é possível se sentir mais exausto mentalmente e até fisicamente, pois somos bombardeados com uma carga maior de informações e sensações. Além de muitas mentes operando juntas num descuido com o conteúdo mental, há também as interferências eletrônicas, que refletem diretamente no nosso organismo. Podemos sentir raiva, tristeza, angústias e medos que não são nossos. Herdamos.

Esta reação em cadeia ocorre também no aspecto positivo. E é aí que está a grande transformação. Vibrar amor, alegria, abundância, nos conecta a uma onda bastante poderosa que influencia às pessoas a nossa volta. Há mesmo pessoas que transformam ambientes, aquelas que gostamos de ficar perto, nos sentimos bem… As ondas emitidas pelo nosso coração podem radiar a quilômetros de distância e assim contagiar mais e mais pessoas com sensações positivas.

Você pode ser sim um agente transformador apenas sintonizando seu canal vibracional e auxiliando nessa carga energética. A vibração do amor têm um acesso incrível e pode ser mesmo transformadora.

Aquilo que você emite, você recebe. Quando você emite uma carga positiva, ela vai para o todo e é refletida de volta pra você em abundância. Existe aquela famosa frase que ratifica o raciocínio: “se não gostas do que estás recebendo, percebes o que estás emitindo.”

Não tem como dar errado, esta é uma lei universal, a do retorno.

Quanto mais sentimentos positivos você emitir e vibrar, mais disso irá receber. Quanto mais sentimentos negativos você vibrar, mais disso será revertido a você.

Claro que não estamos imunes aos sentimentos de raiva, medo, angústias, mas é importante buscar um entendimento emocional, codificar e entender. Inteligência emocional!

As energias da alegria, abundâncias e das bênçãos estão aí também, todas disponíveis, basta sintoniza-las e vibra-las.

Quando criamos consciência desse potencial criamos também responsabilidade. Podemos ser uma gota nesse oceano de consciência, mas somos uma gota transformadora quando colaboramos com o coletivo.

Imagem de capa: DisobeyArt/shutterstock

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