Ninguém consegue ferir quem se aceita exatamente como é

Ninguém consegue ferir quem se aceita exatamente como é

Quem se aceita exatamente como é não tenta agradar a todos, impressionar, nem dá valor ao que os outros vão falar, vão pensar, vão fofocar, pois tem certeza de que é muito maior e melhor do que todo mal ao seu redor.

Quando somos crianças, desejamos ser aceitos por nossos pais, no seio de nossa família. Aliás, creio que esperamos a aprovação deles durante toda a nossa vida. Sempre que tomamos alguma decisão, voltamos os nossos olhos em sua direção, para que a concordância deles acalme o nosso coração.

Assim que chegamos à adolescência, queremos ser aceitos pelo grupo de amigos, mesmo quando este é formado por pessoas que não tenham nada a ver conosco. Não raro, somos atraídos por aqueles que são mais ousados e destemidos, ainda que seu comportamento seja indesejável, pois eles espelham tudo aquilo que queríamos fazer, mas não temos coragem. Daí o fascínio pelos mais rebeldes e transgressores.

Quando nos tornamos adultos, ansiamos pela correspondência amorosa de quem amamos, pois desejamos dar certo na vida a dois. No entanto, esse querer jamais poderá ultrapassar os limites de nossa dignidade; caso contrário, acabaremos enredados nas garras de pessoas manipuladoras, egoístas e que não sabem amar de fato. Porque carência alguma poderá nos sujeitar a aceitar qualquer tipo de companhia.

Na verdade, tornar-se adulto requer amadurecer, o que basicamente implica a aceitação de si mesmo. Temos que ter consciência de tudo aquilo que podemos ofertar, não aceitando retorno de menos. Sabermos com clareza quais são as nossas potencialidades e nossas limitações nos ajuda a mergulharmos nos encontros que valem a pena, onde o amor será sempre uma via de mão dupla.

Aceitar-se exatamente como se é liberta, apazigua as inseguranças e torna tudo mais fácil de se enfrentar. Quem se aceita para de tentar a agradar a todos, de tentar impressionar, de dar valor ao que os outros vão falar, vão pensar, vão fofocar. Quando nos aceitamos, temos, então, a certeza de que somos muito maiores do que todo o mal que nos rodeia.
Aceite-se e liberte-se do que não faz falta alguma em sua vida. É assim, somente assim, que tem de ser. Nem mais.

Imagem de capa: Voyagerix/shutterstock

Assuma seu novo amor!

Assuma seu novo amor!

Às vezes acho que existe uma força que age diante dos engates de novos relacionamentos. Parece uma conspiração para que o casal não funcione, uma distração… ou quem sabe seria mesmo uma confirmação? Calma, eu explico.

Você já deve ter passado pela experiência de assumir uma única pessoa na sua vida, fechar as portas para novos contatos e preferir se relacionar apenas com “o escolhido” – (chamarei assim até o final porque acho mesmo que é isso).

Quando este entendimento é concebido e assim define-se o casal, é como se uma força agisse nesse momento e abrisse as portas do limbo, aparecendo, como que do nada, contatos novos e antigos, pipocando por todos os lados! É uma força tão descomunal que é possível até mesmo ressuscitar quem já partiu: Abre-se a tumba dos contatos mortos em vida que você até mesmo rezou na missa de sétimo dia e desejou nunca mais encontrar! Como lidar?

Abrir mão dos contatos é a primeira prova de que você está num relacionamento sério. Este deve ser basicamente o primeiro movimento a se fazer se você deseja mesmo assumir um lance sério com alguém e quer isso em troca. Não vale entrar na relação pra matar carência e deixar os “contatinhos” de stand by.

É importante mesmo fechar as portas e se sentir tranquila. Não é legal manter as aparências com alguém quando se está namorando. Ou você está com esse alguém ou está na curtição. É bom entender isso.Quando estamos mesmo apaixonados, esse movimento até se torna bastante natural, pois não desejamos outro alguém na vida a não ser “o escolhido” . É dele nossos pensamentos, vontades e planos. Nesse sentido, os contatos que ressurgem não serão mais prioridades. Digo MAIS porque certamente um ou outro aí já foi. Importante saber enterrar os mortos.

Mas é verdade que os contatos parecem sentir o cheiro de longe quando a agenda está fechada, quando a placa virou para “fechado”, né não? Fica como se fosse uma corrida para a desistência, de que haverá mais uma chance.

Você pode até ficar surpresa com as propostas que aparecem, até mesmo daquele contato que já estava lá embaixo da sua lista de conversas do whatsapp.

Nesse caso, seja sincera com você e honesta com “o escolhido”. Construa algo sólido, verdadeiro, sem mentiras ou falcatruas. É melhor começar sempre com o pé direito!

Fale logo, abra o jogo e conta o que está se passando, doa a quem doer. “Desculpa, mas não vai dar. Agora estou namorando”, e ponto. É isso menina! Sem muitos rodeios e explicações porque bem provável que nessa história de contatinhos você não deva nada mesmo a ninguém. É bom haver respeito, tanto do contato quanto seu com seu novo amor. Não vamos sacanear nem iludir ninguém, porque esse negócio de mexer com sentimento dos outros machuca de verdade.

Ser leal a uma pessoa é bonito, e acredito que você também quer isso de volta. Faça o que gostaria que fizessem com você. Se o outro não fizer, isso é problema dele que não soube ser de verdade. Mostre sua integridade.

Nada contra a amores livres, cada um faz da sua relação o prato que quiser comer. O importante é ser feliz. É bom existir o entendimento do casal, de como deseja levar sua relação.

Mas se no caso for mesmo uma relação “pinguim”, daquela onde há apenas um único parceiro pra dividir a vida, ser franco é sempre a melhor saída, pois não há nada que gaste mais energia que o tal do “rabo preso”, viver numa situação comprometedora e não ter sossego porque precisa vigiar o telefone pra não aparecer mensagem do fulaninho ou vigiar facebook pra não expor o segredinho… Que feio, que gasto de energia! É bom ser leve, ter consciência e mente tranquilas.

Nesse sentido, se assuma, assuma pros contatos, assuma pro mundo seu novo amor e sejam os dois muito felizes!

*Ah! Este texto também é dedicado aos homens que encontraram as suas “escolhidas “!

Cair em si: o melhor tombo da vida

Cair em si: o melhor tombo da vida

Não aceite qualquer amizade, qualquer sentimento, um amor qualquer de uma pessoa qualquer. Ninguém é qualquer um, nem merece qualquer coisa, muito menos você.

O tempo passa tão rápido e ficamos tão atribulados com nossos compromissos de trabalho, de estudo, de vaidade, de tudo o que não tem a ver com a nossa essência, que, não raro, acabamos nos esquecendo de reservar um tempo a nós mesmos. Acabamos nos esquecendo de que há uma vida toda passando também aqui dentro de cada um de nós.

E, caso negligenciemos todas as nossas necessidades afetivas, quase nada nos resta de verdade. Sim, somos as nossas verdades, tudo o que alimenta as batidas de nossos corações, todos os nossos sonhos, desejos e que constituem aquilo que somos – humanamente somos. Não existe conforto algum, maquiagem alguma, dinheiro algum, capazes de preencher a nossa dimensão afetiva, as carências de nossos sentidos, o horizonte do amor que guardamos aqui dentro.

Somos sentimentos, somos alma, para muito além do nosso corpo e daquilo que vemos e pegamos com as mãos. Necessitamos de troca de energia, de toques de almas, de entendimento e de compartilhamento de olhares, de falas, de essências. Tudo o que é material, por si só, torna-se vazio e inútil, caso não estejamos trocando afetividade com alguém enquanto vivemos. Precisamos de amor e amor não se materializa no que a gente compra, mas existe e se multiplica através de sentimentos verdadeiros.

Assim sendo, sem que reflitamos acerca de nossas atitudes, agiremos, a pouco e pouco, mecanicamente, enxergando tão somente o que está ali na frente e os resultados, o produto final. Então, todo o processo que culminou naquela situação passará despercebido por nós, ou seja, não nos conscientizaremos de que muito do que nos acontece implica a colheita das sementes mal escolhidas e mal plantadas por nós mesmos.

Com isso, aceitaremos, resignados e passivamente, qualquer emprego, qualquer amizade, qualquer sentimento, um amor qualquer de uma pessoa qualquer. Mas ninguém é qualquer um, nem merece qualquer coisa, muito menos você. Temos que prestar atenção em nossas ações, para que possamos agir de acordo com as nossas verdades, para que não aceitemos menos do que a inteireza que estivermos oferecendo. Não podemos nos sujeitar a sermos menos e menores do que toda a integralidade de nossa essência, simplesmente por não prestarmos atenção em tudo o que temos dentro de nós.

Quando paramos e olhamos para dentro de nós, conseguimos perceber e refletir sobre as atitudes que vimos tomando, no sentido de mudar os comportamentos que nos afastam da felicidade e de manter em nossa vida as ações que nos aproximam de tudo e de todos que nos ajudam a sorrir com sinceridade. Isso é cair em si. Isso é o melhor tombo da vida!

Imagem de capa: nd3000/shutterstock

“Gosto que me digam a verdade. Eu decido se ela dói ou não”

“Gosto que me digam a verdade. Eu decido se ela dói ou não”

Quando eu era menina, era comum uma criança ou outra da vizinhança ter um problemão pela frente. Acontecia, vez ou outra, de quebrar uma porcelana de valor afetivo dentro de casa, e éramos tentados a remendar os cacos com super bonder, argila ou mesmo esmalte. Porém, aquilo era uma trapaça, uma forma de nos safarmos dos discursos inflamados, castigos e safanões. E, mesmo que conseguíssemos adiar o encontro com a verdade, cedo ou tarde ela viria à tona, e além de desastrados, seríamos culpados por mentir e enganar. Antes tivéssemos a coragem de varrer os cacos e revelar nosso descuido. O que nossos pais iriam fazer ao serem confrontados com a realidade poderia doer ou não, mas certamente nos libertaria a viver sem culpa, olhando nos olhos, livres de suposições acerca do “desgosto” que fomos capazes de provocar em nossa família.

A mentira “bonita” é muito mais devastadora que a verdade intragável. Por mais que a mentira tenha “boa intenção”: poupar alguém da realidade, proteger, resguardar… ela causa rupturas amargas na confiança, e pode diminuir a fé que essa pessoa tem na vida, nas circunstâncias e nas pessoas.

Há cinco anos, quando comecei o blog, estava passando por um momento delicado na minha vida. Inesperadamente, algumas “verdades” que eu conhecia foram por terra, e me deparei com uma nova realidade, a realidade que me pertencia e que eu sempre tive o direito de conhecer, mas que por “cuidado” tinha sido revestida de mentira e omissão.

Conhecer a verdade _ sendo ela bonita ou não _ não me amargou nem me tornou revoltada ou deprimida. Porém, saber que tinha sido enganada com mentiras e omissão, me afligiu e por um tempo diminuiu minha confiança nas pessoas.

A realidade, seja ela boa, má, fácil ou extremamente dura, é o que há. Ela é nosso fato concreto, e não pode ser mascarada com uma mentira que não reflete aquilo que temos pra hoje. Não podemos manipular a vida de ninguém, editando aquilo que ela deve ou não conhecer, deve ou não lidar, deve ou não enxergar. Não dá para poupar alguém dos fatos de sua própria vida enfeitando a realidade com omissões. Não dá para achar que ajudamos alguém contando a ela uma mentira.

“Gosto que me digam a verdade. Eu decido se ela dói ou não”. Nem sempre a verdade vai nos trazer alívio ou alegria, mas a vida precisa ser vivida com clareza, por mais que essa transparência traga dor. Ainda assim, é uma dor que nos localiza, nos situa, nos confronta com o amadurecimento e aprendizado. Pois tudo está em pratos limpos, às claras, sem manipulações, hipocrisias, omissões e mentiras.

É melhor desapontar alguém com a verdade (nem sempre bonita) do que enganar com uma mentira. Se a pessoa vai sofrer ou não, isso não nos cabe decidir ou controlar. Não podemos agir como deuses, capazes de manipular e conduzir o que foi reservado à vida de cada um. O sofrimento não é só prejudicial, ele também tem seu papel no fortalecimento dos vínculos e no crescimento pessoal. Tentar remediar o sofrimento através de uma mentira é causar uma dor ainda maior.

Sempre tive afeição por aqueles que me olham nos olhos e deixam transparecer o que vai dentro do coração. Quando há respeito, a sinceridade, por mais que doa, estreita os laços e nos ajuda a crescer. Nos situa, dá um chacoalhão na nossa comodidade e nos desperta para a vida. É como um estalar de dedos na nossa cara, dizendo “acorda, Alice!”; nos ensinando que é preciso arregaçar as mangas e lidar com aquilo que nos cabe: nossa vida real e nada mais.

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Imagem de capa: Monkey Business Images/ Shutterstock

Não permita que a covardia dos outros, tire a sua coragem de amar

Não permita que a covardia dos outros, tire a sua coragem de amar

Que amar é um ato de coragem todos sabem, mas que está cheio de falsos corajosos, usando máscaras de apaixonados, poucos.

Infelizmente, os relacionamentos que sempre acreditávamos ser vividos por pessoas corajosas e sinceras, estão minados por pessoas covardes, maldosas e dissimuladas que, para satisfazerem a vaidade do próprio ego, brincam com o sentimento alheio como quem brinca de lego.

Pessoas covardes nunca assumem um posicionamento diante de um conflito pessoal ou profissional. Utilizam-se da desculpa do “bom relacionamento” para jogar dos dois lados e para se manterem em suas zonas de conforto, sejam elas profissionais, sociais ou sentimentais.

Pessoas covardes jogam sujo. Não falam com você, mas falam de você o tempo todo. Julgam suas lutas, suas escolhas, sua vida, mas, nunca enfrentaram uma tempestade ao seu lado.

Pessoas covardes não assumem relacionamentos, com a desculpa de “relacionamentos escondidos duram mais” nunca estão disponíveis, nem prontas para algo sério.

Com desculpas esfarrapadas e pouca criatividade, não dispensam um encontro casual e um romance escondido, desde que não tenha que colocar uma aliança e apresentar o outro como parceiro de vida. Alegam incompatibilidade de gênios, colocam a culpa nos astros, na ex-namorada, no ex-parceiro, na mãe, na parteira, na “química”. Mas, nunca assumem a culpa da incapacidade de amar. Como definiria Sarah Westphal: “sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz”.

Gente corajosa é sincera. Diz “que não dá mais” com motivos certos, respeitando a dor e o sofrimento do outro. Pessoas covardes, não. Manipulam seus parceiros, até os mesmos se sentirem culpados de erros que não cometeram, apenas para terem motivos para “desaparecem” no meio da história.

Por sorte pessoas covardes não são a maioria e, a vida, acontece com os transparentes e verdadeiros. Dessas que assumem as conseqüências de seus atos e que permitem que o amor e o respeito prevaleçam na relação.

Pessoas corajosas dão cor à vida. Deixam o amor leve, engraçado, bonito. Confirmando a definição perfeita de Zygmunt Bauman: “sem humildade e coragem não há amor. Essas duas qualidades são exigidas, em escalas enormes e contínuas, quando se ingressa numa terra inexplorada e não-mapeada. E é a esse território que o amor conduz ao se instalar entre dois ou mais seres humanos”.

Que, em nossas vidas, os covardes sejam passageiros e os corajosos eternos. Que sejamos inteligentes para aprender com quem parte e sensíveis para valorizar quem fica. Afinal, “Amar é um ato de coragem”. (Paulo Freire)

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Tomara que caia

Tomara que caia

Nunca fui uma mulher dessas “femme fatale”, sabe? A minha rebeldia contra alguns dos padrões impostos pelo patriarcado começa desde que me conheço por gente. Minha mãe contava que ainda bebê me incomodava com os laços e fitas com os quais ela insistia em adornar meu cabelo, em cinco minutos arrancava tudo.

Quando garota passávamos as férias na fazenda da minha tia, minha irmã e prima gostavam de fazer coisas mais simples, dormir até tarde, assistir TV, ler Agatha Christe, eu tinha outras ambições: aprender a cilhar cavalos e a cavalgar. Meu primo, três anos mais velho que eu, era entendido do assunto, acordava antes do sol nascer todos os dias para cilhar os cavalos e tocar os bois.

Meu sonho era fazer o mesmo, mas sabendo da minha condição de prima mais nova, da cidade – e menina – aprender a cilhar um cavalo já estava de “bom tamanho”. Ele tentava sair em silêncio para não me acordar. Eu era determinada, antes dele sair, já aguardava ansiosamente. Descia atrás dele, caminhando apressadamente pelo trecho da estradinha de chão que levava até o barracão, me esforçava para acompanhar seu ritmo, ele caminhava com passos rápidos e largos, com andar confiante de quem, desde cedo, conhecia seu lugar no mundo, eu ia ficando para trás, chegava lá embaixo ofegante – e feliz.

Observava atenta enquanto ele ia até o pasto pegar o cavalo, se aproximando devagar do bicho, colocando primeiro o cabresto, depois o freio e ajeitando a rédea. Então ele o trazia para perto do barracão e colocava o pelego e o arreio ou a sela, por último apertava a barrigueira. Decorei a sequência que nunca usei. Às vezes, ele me deixava colocar o freio ou ajeitar a sela, segundo ele, eu era “fracote” e não tinha força para apertar a cilha da barrigueira.

Meu primo não era um guri “ruim”, eu que era teimosa demais (era o que me diziam) e ele sempre me deixava andar no “Campeão”, que teoricamente era o cavalo “mais bravo” que tinha para as meninas. E o Campeão foi meu companheiro de cavalgadas, até hoje lembro daquela sensação, me sentia livre e capaz.

Pois é, posso não ser nenhuma “femme fatale” (será que na “vida real” elas existem mesmo?), mas com os anos aprendi a celebrar minha feminilidade, aprendi que ser mulher vai além da roupagem, é um dom adquirido com a maturidade e as cicatrizes deixadas por uma sociedade que não contempla nossas grandes ambições. Noite dessas quis usar um vestido “fatale” tomara que caia, preto, curto e que há tempos não vestia. Por via das dúvidas (e por ser Curitiba) resolvi levar um casaquinho.

Meus amigos vestiam moletom e camiseta, senti inveja deles, eles estavam confortáveis e ninguém (além de mim) parecia se importar com o que vestia. Os rapazes na balada exibem sorrisos despretensiosos, tênis, moletons e camisetas, e assim como meu primo, pareciam nem se dar conta do conforto e facilidade que desfrutavam pelo simples fato de terem nascido homens. Privilégio é algo difícil de entender porque nunca saberemos como é viver sem os que temos ou na pele daqueles que não têm.

Às vezes sinto que ser mulher é como aquela caminhada de passos ligeiros que fazia tentando alcançar meu primo; em terreno desregular, tropeçando no breu da noite que findava, aliviada quando o sol despontava no horizonte como se fora aliado ajudando a iluminar o caminho. Ser mulher é constantemente se esforçar e sentir-se ficando para trás. É viver desconstruindo padrões, arrancando laços e fitas diante do olhar de reprovação de muitos. Não, claro que não é assim para todas, para a maioria é muito pior. Muitas não têm nem a chance de fazer a caminhada. Eu tenho consciência dos meus privilégios.

Deu calor, resolvi prender o cabelo, o rapaz, um estranho, ao meu lado achou-se suficientemente familiar para dizer “prende o cabelo bem alto que fica gata, hein?”. E quando eu ia tirando o casaco ele também sentiu-se no direito de acrescentar um “agora sim!”. Eu não quero sair de moletom na balada, gosto de usar vestidos, mas quero poder vesti-los sem sentir que serei devorada, e definitivamente sem os comentários de estranhos.

Sim, ser mulher é ter alguém (estranho ou não) constantemente te dizendo o que você deve ou não fazer, como deve ou não se comportar. Vestir-se. Pensar. Agir. Falar. Sonhar. Desejar. E ainda assim sentir-se, de diversas maneiras e em diversas situações, inadequada. É o que aprendi desde cedo, como uma menina-moleca que arrancava laços e fitas diante do olhar reprovador da minha mãe.

Soltei o cabelo, vesti o casaco, resolvi que minha noite já tinha chegado ao fim. No meu tempo de menina já estaria quase na hora de ir cilhar os cavalos. A caminhada, todavia, parece-me longa e escura. Talvez o sol ainda seja aliado, torço para que a luz que brilha no horizonte ilumine nossos caminhos, sigo ofegante e com grandes ambições.” Tomara que caia ” essa moda machista.

Imagem de capa: alex makarenko/shutterstock

Não deixe seu coração tomar decisões. Ele não é tão inteligente assim…

Não deixe seu coração tomar decisões. Ele não é tão inteligente assim…

Somos românticos assumidos e dramáticos por opção. Gostamos de supervalorizar a dor e acreditamos ser mais fácil curar um coração ferido à poupá-lo de sofrer sem necessidade. Isso explica, talvez, porque encaramos nossos erros como hábito e não como um acidente de percurso.

Diferente do que dizem, inteligência emocional não é algo que pode ser adquirido por conselhos, exemplos ou dado como presente de aniversário. Adquire-se depois de muitos nocautes e depois de muitas quedas.

Na definição, inteligência emocional é deixar suas ações serem dirigidas pela razão e não pelas emoções. Na prática, como dizia Freud, “é o único meio que possuímos de dominar nossos instintos”.

Para Gikovate, “uma característica da maturidade é o senso de responsabilidade sobre si mesmo, assim como o desenvolvimento de uma sólida disciplina: isso significa controle racional sobre todas as emoções. (…).

Controlar não significa reprimir e muito menos sempre deixar de agir de acordo com as emoções; significa apenas que elas passam pelo crivo da razão e só se tornam ação quando por ela avalizadas. Esse é mais um motivo para que sejam criaturas confiáveis, uma vez que exercem adequado domínio sobre si mesmas”.

Ser inteligente emocionalmente é respeitar a decisão dos outros, mas não permitir ser vitima delas. É deixar ir quem quer ir e entender que nem todos merecem seu sofrimento. Ser inteligente é saber que ninguém é tapa buraco de ninguém e que somos responsáveis pelos relacionamentos que atraímos.

Ser inteligente é ser sensível e forte ao mesmo tempo. Sensível para entender que um fim de relacionamento não é o fim da vida e, forte, para seguir sem mágoas, discussões e cobranças. É saber que um relacionamento abusivo não é o melhor para você e que, respeitar os limites criados pelo amor próprio e pela razão, é um direito que você não deve abrir mão, em hipótese alguma.

Ser inteligente é entender que, nem todos, merecem seu sofrimento e que, como dizia Shakespeare “nem toda nuvem gera tempestade”. É saber discernir entre o bem e o mal, entre o necessário e supérfluo e entre aquilo que merece sua atenção e o que exige seu esquecimento.

Ser inteligente é respeitar a opinião do coração, mas deixar que as decisões da vida sejam tomadas pelo cérebro.

Imagem de capa: sun ok/shutterstock

Frozen nos ensina: precisamos descongelar os icebergs das emoções

Frozen nos ensina: precisamos descongelar os icebergs das emoções

Ficha técnica:

Filme: Frozen  

Direção: Cris Buck e Jennifer Lee

Produção: Disney – EUA

Ano: 2013

Frozen foi e é um sucesso unânime entre crianças e adultos. E, apesar de já haver um tempo do seu lançamento, o enredo segue encantando a todos e sendo alvo de inúmeras reflexões. O que será que faz este filme ser tão irresistível?

Trata-se de uma espécie conto de fadas moderno, que carrega um significado psicológico essencial e nos convida a dois tipos de conhecimento: um intelectual, que nos ajuda a refletir sobre o enredo e dele tirar determinado proveito ao compreendê-lo intelectualmente; e um conhecimento vivencial, ou seja, que se realiza por meio dos nossos órgãos do sentido, que nos toca intuitivamente e nos provoca reações afetivas e emocionais. Um conto de fadas é sempre um convite a entrarmos em um outro mundo, cheios de encantos e magias, com desafios e obstáculos que chamam heróis e heroínas à mais profunda realização do seu potencial escondido ou não aprimorado, ou seja, à realização do próprio Self.

É neste mundo subjetivo e inconsciente que entramos quando assistimos a saga das irmãs Ana e Elsa, e neste ponto os produtores foram muito felizes ao escolherem abordar o relacionamento amoroso entre familiares, fugindo do antes tradicional par romântico.

A relação entre as irmãs e a importância dos laços de sangue são temas centrais não só do filme, como também do cotidiano. Aprender a amar e o amor em si são vivências muito primárias em nossas vidas e determinam futuras relações.

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Este texto foi produzido por Marcia Berman Neumman e Marcela Alice Bianco, membros da Comissão Organizadora do Cine Sedes Jung e Corpo com base nas reflexões realizadas durante o evento realizado em março de 2017, com os comentários da Professora e Psicoterapeuta Junguiana Maria Helena Mandacarú Guerra e da Psicóloga e Psicoterapeuta Junguiana Rosângela Victor Marconi.

O Cine Sedes Jung e Corpo é uma atividade extracurricular do curso Jung e Corpo: Especialização em Psicoterapia Analítica e Abordagem Corporal do Instituto Sedes Sapientiae de São Paulo.

É um evento gratuito e aberto ao público geral organizado pelos professores do curso em conjunto com ex-alunos e ocorre todas as últimas sextas-feiras dos meses letivos do curso.

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Na psique, o simbolismo das irmãs pode representar os pares de opostos, as polaridades consciente e inconsciente, subjetividade e objetividade, razão e emoção, sensação e intuição, entre tantas outras. Todas elas são complementares entre si, e podem ser assim experimentadas quando funcionam de maneira dinâmica, harmonizada e integrada dentro psique. Porém, quando por ventura há algum tipo de conflito que causa uma fixação de uma polaridade em detrimento de outra, a psique vive um período de estagnação, repressão, fixação, que se exterioriza no surgimento de inúmeros sintomas. A resolução desta fixação e a ultrapassagem da atitude unilateral, com o estabelecimento de uma relação entre as polaridades de maneira dialética e integrada, alcançada por meio da função afetiva, ou seja, do amor, pode ser a via para se chegar a um novo equilíbrio e a um novo patamar de amadurecimento psíquico, seja na vivência pessoal ou relacional e coletiva. Esta será a tônica apresentada em Frozen, uma aventura congelante.

No filme, as princesas Elsa e Ana viviam felizes num lindo reino. Elsa detinha poderes secretos e os usava de forma lúdica para se divertir com a irmã. Criavam brincadeiras juntas, e nelas Elsa fazia surgir, com sua magia, neve, tobogãs e bonecos de neve, explorando o mundo da fantasia e criatividade junto com Ana. Eram próximas e cúmplices, até que certo dia, num acidente, Elsa atinge com um raio a cabeça da irmã, ferindo-a.

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 Ao perceberem a situação, os pais se apavoram, repreendem Elsa e levam as duas para verem os trolls (os especialistas em amor), que no filme aparecem como seres elementares e totalmente ligados à natureza e, portanto, têm papel de curandeiros/sábios da floresta. Estes falam que por sorte o raio atingiu a cabeça e não o coração: “a cabeça é mais fácil de convencer; já o coração, não”, dizem eles.

A partir deste evento, os reis decidem que o melhor é esconder os poderes de Elsa. Tomam medidas para isolar a filha e protegerem a todos. Decidem fechar os portões do castelo, reduzir o número de funcionários e instruir a filha a não sentir e a esconder e não mostrar mais seus poderes. Para o bem comum, Ana não lembrará de nada, e como marca do incidente só restará uma mecha branca em seus cabelos. Os trolls ainda avisam: “o medo será o grande desafio a ser vencido por Elsa”.

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A porta carrega o simbolismo da passagem, do acesso, da discriminação entre que está deste e o que está do outro lado, entre o conhecido e o desconhecido, entre um mundo e outro mundo. Quando elas estão abertas ou são acessíveis, há um convite para o relacionamento entre o que está de de cada lado da porta, há um convite para a troca, para a intimidade, para a atividade criativa, para a participação. No entanto, quando elas se encontram impossibilitadas de serem abertas, ou inacessíveis, funcionam como limite, defesa, separação e o relacionamento direto fica inviabilizado. Assim, o evento traumático leva a uma grande repressão na vivência emocional familiar e as portas são fechadas, separando as irmãs e as formas de viver (introversão e extroversão, razão e sentimento, poder e ingenuidade, saber e não saber). Por trás das portas passam a existir grandes segredos, que levam toda a família à estagnação e à ausência da vivência criativa.

Elsa passa a sentir medo e se tranca em seu sofrimento; teme ferir ou revelar seu segredo à irmã. A experiência, vivida como traumática e negativa, torna-se motivo de afastamento entre as irmãs, antes companheiras e amigas. Ana não entende o que houve para tudo mudar repentinamente e, durante anos, insiste em chamar Elsa para brincar. Ambas se sentem solitárias e angustiadas, cada uma de um lado da porta, de um lado da realidade.

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Aqui cabe uma pausa para uma reflexão. Como ficamos quando somos impedidos de sentir? O que significa um coração congelado?

Os sentimentos e as emoções são funções estruturantes que contribuem para o desenvolvimento da personalidade. O medo, por exemplo, dispara um mecanismo instintivo de ataque-defesa ligado à sobrevivência e que permite que nos defendamos dos perigos que nos cercam. Diante dele, uns fogem, outros paralisam ou congelam.

Distanciar dos sentimentos e das emoções faz com que nos afastemos da força e do potencial humanos, inclusive de nossa capacidade de amar e ser amado. Um coração congelado, o não contato, evidencia traumas, defesas rígidas e dificuldades no desenvolvimento da afetividade e dos relacionamentos.

Por isso, como mencionamos acima, devemos nos atentar para a importância das relações parentais durante a primeira infância. O ambiente, a amorosidade, a qualidade do vínculo afetivo criado pela relação entre a criança e quem cuida dela são essenciais para a formação da personalidade.

É muito comum psicoterapeutas receberem em seus consultórios indivíduos com questões amorosas. Pessoas que estão marcadas com feridas de rejeição, abandono, negligência e perdas precoces e que, muitas vezes, fantasiam que a solução é se fechar para o amor como mecanismo de autoproteção. Indivíduos que pensam: “se eu não amar, controlo melhor, não sofro”. São corações congelados que temem o sofrimento, mas que só se aquecerão com o amor, com o enfrentamento, com a coragem de arriscar entrar em contato com a dor.

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A transformação verdadeira implica num sentimento modificado. Para elaborar um complexo, uma dor profunda, não basta só o intelecto. É preciso vivenciar, sentir no coração e ressignificar a vivência.

A experiência de Elsa ainda na infância foi de exclusão, “bronca” dos pais, o que gerou muita culpa e resultou numa defesa muito bem estruturada. Aprendeu que é perigosa, que pode fazer mal ao outro a quem ama e por isso deve se isolar: “não sentir, não deixar saber”. Ninguém a ensinou a lidar com a questão de outro modo, a usar seu dom de maneira construtiva e criativa, mas a se isolar, se fechar, se distanciar, fazendo com que ela acreditasse que era perigosa e destrutiva. E assim, a defesa se solidificou. Estar sozinha foi o modo aprendido. Porém, ser feliz sozinho, quando a solidão é fruto de uma defesa tão arraigada, é uma ilusão, que custou no enredo do filme o impedimento de convívio entre as irmãs e com o mundo. Trancar-se no castelo foi a solução ensinada. O par de luvas que lhe foi dado significando: “reprima ao invés de lidar com a questão”. Com estes ensinamentos os pais de Elsa, crendo fazer o melhor à família, estigmatizaram as duas irmãs. Elas tornaram-se jovens sem repertório, impedidas de sentir o amor, isoladas do convívio social e, por consequência, com baixa autoestima e autoconfiança. Ambas sentiam solidão.

A criança aprende a se reconhecer com o olhar do outro durante seu desenvolvimento. O olhar dos pais é fundamental e estruturante nesta primeira infância. Devemos levar em conta que pais fazem o que julgam melhor para seus filhos, dentro de um quadro de referências culturais e sociais. Antigamente, por exemplo, crianças especiais e pacientes psiquiátricos eram isolados, presos. Este era o movimento que traduzia a sociedade até então: isolar o que é diferente, como no filme. Este movimento reflete o pouco desenvolvimento da consciência coletiva da época.

Mas a primazia do poder dos pais sobre a vivência psíquica dos filhos, um dia perde força. Os pais de Ana saem para uma viagem e acabam naufragados no próprio mar revolto do inconsciente coletivo. Ou seja, a energia ligada a eles imerge a um nível inconsciente e impessoal. É chegado o momento de o reino ser liderado pela nossa heroína Elsa, cujo poderes cresceram de maneira sombria e desenfreada pela falta de oportunidade para elaboração. Por conta disso, ela e sua irmã, terão que enfrentar inúmeros desafios que ainda estão por vim.

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É impossível mantermos tudo dentro de um controle rígido, acreditando que ele será suficiente para não nos comprometermos ou não deixarmos vir à tona quem realmente somos. As luvas mostram como as defesas de Elsa são frágeis e o quanto ela está despreparada para a vivência interpessoal. É como se quiséssemos esconder toneladas de sujeira embaixo de um ínfimo tapete. Basta que ela tenha que tirar as luvas por poucos instantes e seja de alguma forma incitada a ter uma reação emocional, para que toda a força reprimida no inconsciente venha à tona, liberando uma energia descontrolada e cujas consequências são difíceis de medir.

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Amedrontada pelo mesmo medo que vê refletido nos olhares de seus súditos e convidados no castelo, Elsa foge. A reação aprendida é a de isolar e se afastar, portanto, neste momento não há outra saída. O isolamento parece garantia de que tudo ficará bem.

Tanto na realidade como na ficção, é muito comum vermos indivíduos defendidos iludirem-se e sentirem-se felizes isolados. Em Frozen, quando Elsa foge imaginamos que ela se libertou. É um momento encantador para quem assiste. Ela canta, experimenta seus poderes, solta o cabelo, suas vestimentas e maquiagem se transformam. A personagem cria uma nova moradia bem longe: um castelo de gelo. A perfeita “redoma de gelo”, onde parece estar feliz. Uma ilusão se pensarmos na voz da defesa, que tenta convencê-la que está feliz, livre. Porém, na realidade, é uma estagnação, o não crescimento, não estar conectada com sua alma, com sua essência, não perceber que tudo que mais importava ficou para trás, congelado como seu coração/sentimentos/emoções.

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Quando Elsa foge, Ana vai atrás e, ao contrário de todos, não teme a irmã. Quer protegê-la e vai de coração aberto. Em sua empreitada de resgate se dá conta da gravidade dos acontecimentos: um reino inteiro congelado. Ana acha que a culpa é sua, pois provocou a irmã querendo se casar com alguém que acabara de conhecer. Mais uma vez, podemos ver aqui o despreparo e falta de experiência causados pelo isolamento. A irmã mais nova despreparada para discriminar entre um amor verdadeiro e uma emboscada interesseira. Assim, Ana também precisa iniciar uma jornada pessoal, movida pelo desejo de ajudar a irmã, e se aventura sozinha frente ao desconhecido, para o seu próprio bem.

Na jornada para encontrar a irmã, Ana relaciona-se com Olaf, Sven e Cristofer. Olaf (boneco de neve) e Sven (alce) representariam a fantasia e os instintos, respectivamente. O reino interior sempre envia os seus auxiliares, os símbolos, que aqui se manifestam como elementos complementares que ajudam a enfrentar os desafios e que serão essenciais para o autoconhecimento. Cristofer (vendedor de gelo) em certo momento fala à Ana que não confia nela, pois: “como confiar em alguém que casa com um desconhecido! ”  

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As irmãs se reencontram no castelo de gelo e Elsa não quer voltar. Elsa cria um mostro de neve para protegê-la, mas afasta as pessoas que ela ama e afasta a irmã. Podemos pensar aqui na autonomia da Sombra. Muitas vezes ficamos presos em um complexo autônomo, mas o que significa isso em termos práticos? Significa que existe uma autonomia que se manifesta em ações que são contra nossa vontade, como neste trecho, onde tudo o que Elsa mais queria era voltar e estar perto de quem ama, mas faz o contrário, criando um mostro ainda mais amedrontador que ela própria para afastar a todos e proteger sua defesa.

No enredo, Elsa teme pela segurança de todos e acaba acidentalmente atingindo Ana, pela segunda vez, com um raio congelante. Porém, desta vez no coração. Cristofer a leva para seus amigos, os especialistas em amor. Os Trolls falam que, desta vez, somente um ato de amor verdadeiro poderá salvar e aquecer o coração de Ana. Logo imagina-se que um beijo de seu noivo, Hans, poderá salvá-la e levar a estória a um final feliz.

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Porém, aqui devemos fazer outra pausa e retomar a questão levantada no início do texto: Frozen é inovador porque os autores captaram uma mudança muito grande de paradigmas. No filme não é o homem ou o par romântico que salvam. O masculino dá lugar ao empoderamento do feminino que cura. O amor conjugal, idealizado com frequência nos contos de fadas e filmes, dá lugar ao amor fraterno, entre irmãs, no caso.

Podemos pensar num resgate do feminino, da mulher, e na modificação na relação masculino-feminino, homem-mulher, com este novo paradigma. Antes de Frozen, muitos contos de fadas e filmes, mostravam que só por meio do casamento a mulher seria salva e feliz para sempre. Podemos citar como exemplo: Bela e Fera, Bela Adormecida, Cinderela, entre tantos outros…

A animação captou muito bem esta mudança do feminino e da posição da mulher em nossa época. Ana não é salva pelo outro, pelo masculino, pelo homem. Ao contrário, ela salva Cristofer, bate em Hans quando descobre que seu amor por ela era uma farsa, um golpe. Em seu amadurecimento e aprendizado, ela descobre que não está à mercê do masculino, do homem: toma decisões de um feminino ativo, uma mulher forte: é determinada, suas escolhas são genuínas e conectadas com sua essência. Mesmo sem repertório inicial, é guiada por uma coragem, um impulso de vida interno que a faz desbravar o mundo e querer ter relacionamentos. Ela não suportava mais ficar trancada, isolada. Podemos pensar aqui na individuação como um projeto, uma perspectiva a ser alcançada, e não um ponto de chegada.

A história das irmãs nos mostra um trajeto de sofrimento como ocorre em nossas vidas reais, pois os percalços, angústias e dores fazem parte do desenvolvimento humano. Por isso nos identificamos tanto com ela.

No desfecho do filme, Ana salva a irmã da morte. Entra na frente para defender Elsa de Hans, que planeja matá-la para ocupar o lugar de Rei.

Neste momento, Ana congela e Elsa chora em cima de sua estátua de gelo. Este é o ato de amor verdadeiro ao qual os Trolls se referiam. Somente quando Ana prova o amor verdadeiro pela irmã, Elsa percebe o quanto a ama, sente a dor da perda e deixa sair seus sentimentos verdadeiros pela irmã, chora e liberta seu coração do gelo. Assim, o antidoto para uma ferida nem sempre pode ser encontrado longe daquele que inoculou o veneno, ou seja, a salvação de Ana e, por que não dizer de Elsa, ocorre juntamente no resgate da relação amorosa e genuína entre ambas. E neste momento ambas se salvam pela vivência do amor!

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Ana e todo o Reino descongelam quando aprendem que podem amar e ser amadas. Elsa não precisa mais temer suas emoções. O que sente agora é genuíno, verdadeiro e não mais defensivo. Quando estava dentro da defesa, as emoções reprimidas explodiam e ultrapassavam a si mesma, atingindo seu entorno (reino congelado, família, amigos).

Podemos pensar no medo na vida real também. O medo nos protege enquanto função, porém, quando ultrapassa seu limite funcional, dispara defesas (medo de amar, de se frustrar, de sofrer, de demonstrar, crises de pânico). Afinal, de que temos tanto medo? Poderíamos arriscar dizer que tememos o que (ainda) não podemos curar!  Tememos o que é sombrio em nós mesmos, ou seja, o que rejeitamos, não gostamos, desconhecemos e reprimimos. Porém, esquecemos que estas forças só são sombrias enquanto dissociadas. Uma vez elaboradas e integradas, geram criatividade!

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Aqui cabe uma última consideração: pensar no porquê do grande encantamento e identificação com Elsa. Nossa heroína detém um grande poder: congelar a água. O simbolismo da água está diretamente ligado às emoções. Existe uma analogia entre a água que transmuta os estados e os sentimentos e emoções neste caso. A água é um elemento da Natureza de muito poder, tanto construtivo (essencial para a vida), como destrutivo (enchentes, chuvas, nevascas). Podemos levantar também a questão da identificação das pessoas com a dificuldade de Elsa para demonstrar e comunicar os sentimentos, para se relacionar, o sentir-se diferente e excluída.

Por último vamos olhar para o desfecho, em que o amor reina absoluto e permite um novo padrão de consciência e de relação. Quando o poder supressor e congelante da Sombra desaparece, Ana e Elsa se salvam e com elas, todo o reino é salvo, ou seja, toda a consciência coletiva pode florescer.

Amor e poder são temas já muito estudados e merecem atenção. Quando tratados de maneira unilateral e opostas, o amor precisa sempre vencer o desejo de poder, em nós mesmos e no outro. Jung já dizia: “Quando o poder entra por uma porta, o amor sai pela outra”. No filme, temos um exemplo deste tipo de relação entre amor e poder no drama amoroso de Ana e Hans e o príncipe deseja o poder, o reino. Para isso, engana, mente e tenta matar Elsa e Ana. Falha e acaba unindo as irmãs.

O amor vence neste caso e o Reino agora é aberto e acolhe a todos. O poder passa então a ser exercido com muito amor, acolhendo a diversidade e apontando para uma nova dinâmica de funcionamento, a alteridade, Ou seja, o poder vivido como autoritarismo e unilateralidade não cabe em uma relação de amor. É preciso que se encontre uma nova atitude, que não sirva para aprisionar, abusar, fechar, reprimir e separar. Dentro de uma relação de alteridade, ou seja, quando todos os elementos têm o mesmo valor e são considerados dignos para existir, esse poder ganha uma nova força, a do empoderamento, que juntamente com o amor valoriza o ser, a relação e poder e amor passam então a agir de maneira construtiva e transformadora, seja na própria vida interior, seja nas relações interpessoais e na relação do homem com a Natureza.

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Este texto foi produzido por Marcia Berman Neumman e Marcela Alice Bianco, membros da Comissão Organizadora do Cine Sedes Jung e Corpo com base nas reflexões realizadas durante o evento realizado em março de 2017, com os comentários da Professora e Psicoterapeuta Junguiana Maria Helena Mandacarú Guerra e da Psicóloga e Psicoterapeuta Junguiana Rosângela Victor Marconi.

O Cine Sedes Jung e Corpo é uma atividade extracurricular do curso Jung e Corpo: Especialização em Psicoterapia Analítica e Abordagem Corporal do Instituto Sedes Sapientiae de São Paulo.

É um evento gratuito e aberto ao público geral organizado pelos professores do curso em conjunto com ex-alunos e ocorre todas as últimas sextas-feiras dos meses letivos do curso.

Material reproduzido na CONTI outra com autorização.

Se uma pessoa trata você como se não desse a mínima, ela genuinamente não dá a mínima

Se uma pessoa trata você como se não desse a mínima, ela genuinamente não dá a mínima

A maioria de nós já se apaixonou. Foi correspondido. Achou que era correspondido. Foi rejeitado. Achou que poderia dar certo e não deu. Amou e foi amado. Achou que seria pra sempre e não foi. A maioria de nós já foi vítima dos próprios enganos, da própria necessidade de se sentir amado mesmo quando não havia sinais de amor, da própria vontade de dar certo mesmo quando não havia certeza de nada.

A maioria dos relacionamentos é precedida por um período de dúvidas e suposições. Enquanto sentimos o coração acelerar e as pernas bambearem, nos perguntamos se será ou não pra valer. Ainda não há sinais nem certezas que garantam a permanência, o vínculo, a solidez. Mas ainda assim, pouco a pouco afrouxamos nossas defesas e, conscientes ou não, nos tornamos vulneráveis ao que o outro sente por nós. Se somos correspondidos, bingo! Se não, a história se complica.

Estar vulnerável aos sentimentos de outra pessoa é uma das piores sensações que existem. Pois nessa situação ficamos dependentes de um sinal, de um emoji banal no whatsapp, de uma frase clichê no Facebook, de um comentário suspeito numa página em comum… para nos sentirmos bem. Nada mais tem sentido se aquela pessoa está quieta, sem comunicar nada, sem dar a mínima. Nos agarramos a pequenos indícios de interesse e tentamos encaixar as peças de um quebra cabeça que não se completa.

Agora preste atenção. Existe um sinal que nunca deveria ser desprezado. Um sinal que deveria ser levado em consideração a qualquer hora, em qualquer circunstância: “Se uma pessoa trata você como se não desse a mínima, ela genuinamente não dá a mínima”. E você precisa aprender a enxergar isso com clareza. A aceitar isso com convicção e firmeza. A colocar limites para seu espírito sonhador e coração de manteiga. Porque se você não entende isso, se conta mentiras para si mesmo várias vezes ao dia e tem necessidade de fazer castelinhos com as migalhas que recebe, está faltando respeito por si mesmo. Está faltando maturidade para aceitar que as coisas são como são, o resto é só divagação pra iludir o coração.

Se uma pessoa some, responde mensagens longas com um simples sinal de “joinha”, não te procura, ignora sua presença e age como se nunca tivessem tido algo em comum, essa pessoa não tem o mínimo interesse em você. E mesmo que de vez em quando ela oscile o comportamento e dê sinais vagos e esperanças miúdas de mudança, nunca, jamais, de forma alguma caia nessa.

Ok, você diz. Mas como a gente faz para esquecer?

Esquecer alguém que se ama não acontece da noite para o dia, num estalar de dedos. Esquecer começa com a vontade de colocar um ponto final e o empenho em não olhar pra trás. Mas também requer respeito pelos próprios sentimentos, que vez ou outra podem resgatar uma saudade. Porque no fundo a gente nunca esquece completamente. O que acontece é que a lembrança vai ficando menor, distante, apagada… mas de qualquer jeito, sempre presente em nossa vida. E vamos ter que conviver com isso, entendendo que alguns amores funcionam melhor quando são só saudade.

A maioria de nós já foi vítima dos próprios enganos, da necessidade de se sentir amado a todo custo, de insistir num buraco sem fundo, de tentar salvar um barco que se afunda. Mas chega uma hora em que é preciso dar um basta. Entender que, se um sapato não está te servindo, ele genuinamente não é para você. E com isso sentir-se pronto para recusar o que te fere e abraçar o que te faz bem.

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Imagem de capa: Vadim Georgiev / Shutterstock

Somos todos um

Somos todos um

Estamos todos conectados, a todo momento, numa grande malha consciencial. Cada ser humano é um elemento conectado a esse campo energético mental e isso nos torna um.

Não é clichê nem modinha dizer que SOMOS TODOS UM porque somos mesmo uma grande mente humana operando junto a uma consciência ainda maior e ordenada. Somos parte dessa pulsação inteligente.

Nossos pensamentos estão todos interligados. Uma inspiração pode ser resultado de uma conexão com esta malha, um insight, uma sensação estranha ou boa também podem ser resposta dessa conectividade. Nesses casos, ocorrem também as telepatias – estar pensando em alguém e esse alguém ligar, ou virar a esquina e encontrar essa pessoa.

Coincidência? Se a mente humana não fosse tão ruidosa, essa ferramenta poderia ser usada com mais frequência já que faz parte do potencial humano.

Em grandes centros e cidades é possível se sentir mais exausto mentalmente e até fisicamente, pois somos bombardeados com uma carga maior de informações e sensações. Além de muitas mentes operando juntas num descuido com o conteúdo mental, há também as interferências eletrônicas, que refletem diretamente no nosso organismo. Podemos sentir raiva, tristeza, angústias e medos que não são nossos. Herdamos.

Esta reação em cadeia ocorre também no aspecto positivo. E é aí que está a grande transformação. Vibrar amor, alegria, abundância, nos conecta a uma onda bastante poderosa que influencia às pessoas a nossa volta. Há mesmo pessoas que transformam ambientes, aquelas que gostamos de ficar perto, nos sentimos bem… As ondas emitidas pelo nosso coração podem radiar a quilômetros de distância e assim contagiar mais e mais pessoas com sensações positivas.

Você pode ser sim um agente transformador apenas sintonizando seu canal vibracional e auxiliando nessa carga energética. A vibração do amor têm um acesso incrível e pode ser mesmo transformadora.

Aquilo que você emite, você recebe. Quando você emite uma carga positiva, ela vai para o todo e é refletida de volta pra você em abundância. Existe aquela famosa frase que ratifica o raciocínio: “se não gostas do que estás recebendo, percebes o que estás emitindo.”

Não tem como dar errado, esta é uma lei universal, a do retorno.

Quanto mais sentimentos positivos você emitir e vibrar, mais disso irá receber. Quanto mais sentimentos negativos você vibrar, mais disso será revertido a você.

Claro que não estamos imunes aos sentimentos de raiva, medo, angústias, mas é importante buscar um entendimento emocional, codificar e entender. Inteligência emocional!

As energias da alegria, abundâncias e das bênçãos estão aí também, todas disponíveis, basta sintoniza-las e vibra-las.

Quando criamos consciência desse potencial criamos também responsabilidade. Podemos ser uma gota nesse oceano de consciência, mas somos uma gota transformadora quando colaboramos com o coletivo.

Imagem de capa: DisobeyArt/shutterstock

Aprecio quem diz que tudo vai dar certo, mas amo quem diz que ficará comigo, mesmo que tudo dê errado

Aprecio quem diz que tudo vai dar certo, mas amo quem diz que ficará comigo, mesmo que tudo dê errado

Não basta ter alguém apenas nos falando frases feitas, dizendo que tudo vai passar. Bom mesmo é saber que teremos alguém do nosso lado, haja o que houver, mesmo que nada dê certo, ainda que tudo desmorone de vez.

Ninguém há de negar que a vida costuma vir com tudo, atropelando-nos os sonhos, as certezas, as expectativas, muitas vezes nos deixando sem chão, totalmente desesperançosos e tristes. Cada dia é uma luta e, assim, vamos sobrevivendo em meio a essa gangorra emocional que nos consome, equilibrando-nos entre o que é prazer e o que é dor – infelizmente, nem sempre o peso recai do lado mais fácil dessa equação.

De repente, alguém que amamos muito se vai, o parceiro arruma as malas, o chefe nos dispensa, a saúde nos dá um susto, um filho se mete em encrencas, um irmão se vê sem saída. De repente, temos que enfrentar um passado mal resolvido que vem nos assombrar, temos que encarar as consequências de péssimas sementes escolhidas por nós mesmos, ou abrir mão de conforto material em favor de um familiar que adoece.

Dentre as vinte e quatro horas que compõem os nossos dias, nem ao menos um milésimo de segundo é previsível, pois tudo pode mudar drasticamente no próximo instante, num piscar de olhos. Logicamente, não poderemos pensar nisso o tempo todo, ou acabamos não nos permitindo desfrutar dos bons momentos que sempre pontuarão nossa jornada. Porém, o apego demasiado ao que pensamos ser certo e nosso possivelmente nos enfraquecerá quando das tempestades que se abatem sobre nossas cabeças.

Daí a importância de termos pelo menos uma pessoa com quem possamos contar, com quem estejamos à vontade para nos abrir e em quem nos apoiar durante as escuridões de nossa alma. Será vital, em nosso reerguimento, poder estender as mãos e encontrar braços que se estendem para nos trazer de volta à vida, com amor sincero. E não basta ter alguém de quem ouvir as frases feitas de apoio, alguém dizendo que tudo vai passar. Bom mesmo é saber que teremos alguém do nosso lado, haja o que houver, mesmo que nada dê certo, ainda que tudo desmorone de vez.

Qualquer um é capaz de nos dizer palavras de consolo, dando tapinha nas nossas costas, no entanto, somente quem nos ama verdadeiramente será capaz de permanecer ao nosso lado durante nossas batalhas mais difíceis, quando nada tivermos a oferecer, quando só precisarmos receber, ainda que sem merecermos. Isso é amor de fato, sem senões, sem rodeios. Isso é o que faz valer a pena tudo o que tivermos para viver, faça chuva, faça sol ardente.

Imagem de capa: Cookie Studio/shutterstock

Existem pessoas que ferem…e pessoas que curam.

Existem pessoas que ferem…e pessoas que curam.

Existem pessoas que tem o dom de curar, outras, o dom de machucar. Lendo esse texto, acredito que, naturalmente virão à sua mente algumas pessoas, tanto curadoras, como ofensoras. Imagine alguém que está sempre sorrindo e que tem sempre uma fala positiva, que sempre elogia, que tem um abraço gostoso. Quem veio à sua lembrança? E agora, imagine alguém rabugento, que adora jogar um balde de água fria na empolgação das pessoas. Lembrou de alguém? Não tem como passarmos pela vida sem nos depararmos com esses dois perfis de pessoa. As pessoas amargas sentem-se fortemente recompensadas quando percebem que machucou alguém. Parece que a alegria delas é nutrida pelo desgosto do outro.

Quer acabar com o dia de uma pessoa amargurada, compartilhe uma alegria sua com ela. Ela vai tratar de te convencer de que você está delirando, que sua alegria não é para tanto, que você pode “cair do cavalo”…que você precisa manter os pés no chão…etc. É como se a alegria do outro fosse um espinho na alma dela. São pessoas com as quais, se pudéssemos, evitaríamos qualquer contato. E quando estamos fragilizados, essas pessoas causam um verdadeiro estrago no nosso emocional,agindo como verdadeiros vampiros, parece que elas captam a nossa vulnerabilidade e fazem a festa. Se você emagreceu e está feliz, ela vai fazer questão de te dizer que você ficou com cara de doente e que estava melhor quando estava gorda. Se você foi aprovado num concurso público, ela vai te dizer que ouviu dizer que o concurso teve fraude e que vai ser anulado. Enfim, ela vai ter sempre um problema para cada solução.

Somente quando nos tornamos mais maduros é que vamos adquirindo uma espécie de imunidade à essas pessoas, daí elas não exercem mais nenhuma influência sobre as nossas emoções, pois passamos a enxergá-las como elas de fato são, verdadeiros enfermos espirituais e emocionais. Pessoas feridas ferem outras. Simples assim. Em contrapartida, existem aquelas pessoas que são puro bálsamo, são um verdadeiro sol mesmo nos dias nublados das nossas vidas. Pessoas que nos estendem a mão, que nos encorajam, que nos trazem à memória o que temos de bom e o que deu certo em nossas vidas. São verdadeiras bússolas divinas que nos norteiam quando estamos desorientados. É uma delícia ter por perto quem acredita em nós, quem nos aceita e quem nos acolhe. Essas pessoas serão as primeiras a serem lembradas por nós quando estamos em alguma dificuldade. Elas nos encorajam e elas nos lembram que a dificuldade vai passar. Por vezes, só precisamos nos lembrar disso, que nada é eterno e que dias bons e ruins passam. Quando alguém compartilha algo delicado conosco, nos sentimos honrados, afinal, no mínimo, essa pessoa confia em nós. Que sejamos dignos dessa confiança. Que saibamos lidar com a vulnerabilidade do outro. Que sejamos calmaria em dias de tempestade.

Imagem de capa: Pop Paul-Catalin/shutterstock

14 séries com roteiros surpreendentes

14 séries com roteiros surpreendentes

A rápida ascensão no consumo de séries de TV mostra que os serviços streaming atendem à demanda mais desejada para esse tipo de produto. O cliente escolhe o quê, quando e como assistir, em vez de torcer para que uma programação aleatória e mal planejada sirva a seus interesses culturais de momento.

Menos gente têm suportado a chatice, previsibilidade e falsidade das novelas brasileiras, que pouco ou nenhum compromisso com a realidade têm. Os enredos até variam, mas as mensagens transmitidas são basicamente as mesmas e no final os espectadores terão todas as respostas que procuram, o que no mundo real está longe de acontecer.

Na internet, há mais listas com indicações de séries do que séries para indicar. Como se não bastasse, aqui está mais uma, com a promessa de ter sido preparada com carinho.

As 14 séries a seguir são dignas de maratonas e fortíssimas candidatas a entrar num hall da fama de conteúdo televisivo, se já não estiverem. Algumas foram finalizadas, outras canceladas antes do previsto, outras ainda estão em exibição. Vamos a elas:

Hannibal (2013 – 2015)

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Os amantes de psicologia têm em Hannibal um vasto repertório de conceitos interessantes para discorrer em suas rodas de debate. Baseada no livro Dragão Vermelho, de Thomas Harris, a série é, seguramente, a melhor adaptação audiovisual sobre o famoso psicopata canibal. A performance artística formidável de Mads Mikkelsen como Hannibal Lecter fez muitos em Hollywood se esquecerem de Anthony Hopkins. Os diálogos são inteligentes e envolventes, e a mente do espectador se vê compelida a penetrar na dos atores com intensidade.

The Borgias (2011 – 2013)

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Imperdível para quem gosta de séries históricas. A narrativa é centrada nas engenhosas, mas imorais artimanhas políticas de uma das famílias mais poderosas da Renascença, os Borgia. Intriga, manipulação, luxúria, corrupção, guerra e superstição marcaram fortemente aquela época em que a Igreja se sobrepunha ao Estado. A influência dominante do então Papa Rodrigo Borgia (Alexandre VI) encontrou fortíssimas resistências dogmáticas, inclusive dentro do próprio círculo religioso, o que fez toda a sociedade inflar por revoluções radicais nas esferas política, cultural e econômica. Interessante do início ao fim.

Black Mirror (2011 – atual)

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A série é conhecida pela distopia crítica e veia humorística negra no tratamento de teses de ficção científica que, hoje, estão mais perto de se concretizar do que em outrora. O avanço imparável da tecnologia oferece inspiração em abundância para os roteiristas. Muitas pessoas têm certeza que os contos futuristas narrados em Black Mirror são profecias fidedignas à realidade. Os episódios não são complementares e podem ser vistos aleatoriamente; todos eles captam a atenção das máquinas, quer dizer, das pessoas e mostram possíveis consequências da evolução tecnológica desenfreada para a saúde da humanidade. O entretenimento na tecnologia tem sido utilizado como poderoso instrumento de controle das massas e devastação em larga escala. Esse vício de estar conectado em dispositivos eletrônicos acarreta em efeitos colaterais indisfarçáveis. A sociedade do espetáculo de Guy Debord foi bem adaptada para a TV.

O Nevoeiro (2017 – atual)

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Das séries baseadas em obras de Stephen King, esta merece o maior crédito. Apesar de pecar nos quesitos fotografia e efeitos especiais, o que importa é a alta densidade da trama. As obras do escritor americano são repletas de mensagens profundas, mas a grande maioria dos roteiristas as propaga de forma superficial. O nevoeiro é a metáfora para o medo irracional do desconhecido – morte, religião, liberdade, eternidade – que diferencia o ser humano do resto dos animais. Quando o homem é cegado pelo terror, seu bom senso se transforma na substância da loucura. Atuações extraordinárias não se verá, apenas (e é o suficiente) como o comportamento coletivo condiciona-se, quer queira quer não, pelas leis empíricas da natureza.

Bates Motel (2013 – 2017)

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Tendo Alfred Hitchcock escrito e dirigido o filme Psicose em 1960, várias adaptações foram feitas, com destaque para Bates Motel. A série narra como Norman Bates, jovem com distúrbio dissociativo de identidade e complexo de Édipo, regride de ser humano a monstro. O ator, Freddie Highmore, tem sido muito elogiado por seu desempenho.

Penny Dreadful (2014 – 2016)

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Penny Dreadful explora as origens e características mentais de personagens de terror clássicos da literatura, como Van Helsing, Dorian Gray, Dr. Jekyll, Drácula e Frankestein. Enredo permeado de fantasia, cenários e figurinos vitorianos e uma atmosfera de suspense.

Dexter (2006 – 2013)

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Dexter (Michael C. Hall) trabalha no departamento policial de Miami e sua função é servir a lei, mas o problema é que ele segue um código de conduta individual e personalizado. Os seres humanos não têm um senso organizado de justiça, e aí está o motivo de tamanha atenção direcionada à série. O público se atrai por vilões com déficit de caráter, talvez porque na vida real falha-se muito em identificar quem são os verdadeiros heróis. O fato do desfecho de Dexter ter sido decepcionante não elimina a boa avaliação geral de seu conteúdo.

Vikings (2013 – atual)

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Todos os interessados em mitologia nórdica são atraídos por essa série produzida pelo canal History. O universo primitivo dos vikings oxigenava-se em adrenalina e selvageria. Aqueles seres pareciam viver sem medo algum. A guerra era seu entretenimento, e o tédio se resolvia com violência, carne, cerveja e sexo à vontade. O criador da série é o estudioso de história medieval Michael Hirst, que também se responsabilizou por parte do conteúdo de The Borgias, The Tudors e Camelot, entre outras produções.

Breaking Bad (2008 – 2013)

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O que se destaca aqui é o argumento-chave do roteiro. Um professor de química e pai de família devotado descobre que está com câncer em estado terminal. O que ele faz? Entra no submundo criminoso do tráfico de drogas para enriquecer rapidamente e deixar a família em boas condições financeiras para depois que ele morrer. Se o modelo tradicional familiar é, em teoria, o exemplo mais comum de moralidade, o argumento foi uma ótima aposta.

Sherlock (2010 – atual)

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Benedict Cumberbacht encarnou Sherlock Holmes com tanta personalidade que, se Arthur Conan Doyle estivesse vivo, ficaria orgulhoso do que fizeram com sua invenção. A BBC parece ser a emissora ideal para transmitir esse tipo de série. Vale a pena mergulhar nos casos criminais de complexa resolução e na velocidade de raciocínio do mais icônico detetive do mundo.

Homeland (2011 – atual)

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Trama cativante sobre confrontos geopolíticos envolvendo fanatismo religioso. A protagonista, Carrie, motiva-se de um grande senso de dever e patriotismo para com sua nação, mas seus distúrbios psiquiátricos prejudicam severamente sua capacidade de juízo racional e, por tabela, a eficiência no trabalho. Prato cheio para quem gosta da temática de guerra aplicada a um contexto social moderno.

Orange Is The New Black (2013 – atual)

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Mulheres infratoras, cheias de hormônios pululando e com muitas histórias dramáticas na cabeça precisam se unir para sobreviver em uma penitenciária feminina administrada por autoridades machistas. O passado sombrio das detentas e o choque entre culturas divergentes faz de suas revoluções libertárias um desafio para a disciplina que tanto almejam restabelecer em suas vidas. A roteirista, Jenji Kohan, usa e abusa de jargões e frases de efeito nos diálogos para transmitir visões de mundo inquisidoras. Uma série convidativa para as feministas comprometidas com sua causa, e um choque de realidade para os homens que desejam rever condutas que condizem a uma sociedade patriarcal agudamente preconceituosa.

Oz (1997 – 2003)

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Os fãs de Prison Break têm grandes chances de gostar de Oz, antiga série da HBO que retrata as histórias alarmantes dos detentos da penitenciária de segurança máxima Oswald. Lá dentro, todos lutam contra seus pecados capitais e possuem motivos infinitos para confissão. Uns estão preocupados com dinheiro, outros em manter-se drogados, outros em matar quem lhes comprar inimizade, outros em estuprar, outros em voltar para o seio da família, e um punhado já desistiu de reaver a tão sonhada liberdade perdida muito antes do encarceramento.

Game Of Thrones (2011 – atual)

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O fato de ser impossível assistir todas as séries de TV já produzidas no mundo – até por limitação de tempo e critérios de gosto – não atrapalha a opinião que aqui será registrada: Game Of Thrones possui uma qualidade de produção em todos os aspectos tão espetacular que nenhuma outra série ameaça ou ameaçará seu império. Esse privilégio absoluto se deve em especial ao trabalho da vida do gênio George R. R. Martin, que, há de se convir, só não é o pai da literatura fantástica porque Tolkien nasceu antes dele. Realismo na série é gritante, e o fator surpresa característico faz com que todas as teorias imaginadas não passem de hipóteses duvidosas. Os personagens são muitíssimos bem arquitetados e, se há buracos na trama, ou eles serão preenchidos ou nunca existiram senão na cabeça de quem os criou.

*Com informações do IMDb

É preciso se perder para voltar a se encontrar

É preciso se perder para voltar a se encontrar

“Você tem que estar preparado para se queimar em sua própria chama: Como se renovar sem primeiro se tornar cinzas?”
— Friedrich Nietzsche.

É impossível compreender a vida em sua totalidade. Isso é completamente apavorante. Nos assusta. Nos deixa acuados. Nos deixa impotentes, indecisos, boquiabertos, paralisados. Paralisados com o susto da liberdade. De um mundo em que temos, como diria Sartre, que nos equilibrar o tempo inteiro entre escolhas e consequências.

Um mundo que ao mesmo tempo que nos puxa para baixo e pesa o nosso coração com o nada, engrandece-nos e permiti-nos dançar entre as nuvens com os seus recantos de poesia. Essa é a vida, com suas contradições e ambivalências, a qual buscamos com a nossa finitude compreender.

Por mais que busquemos, há sempre algo que nos escapa na imensidão da vida. O tempo controla as suas próprias coordenadas, de modo que não temos como compreender todos os seus caminhos, as suas escolhas e o que ele quer de nós. É como se tivéssemos tanto para fazer, tanta potência de vida dentro de nós, mas não soubéssemos bem o que, de fato, fazer, como fazer, por onde andar. E, diante dessa incognoscibilidade do tempo, é como se ele escorresse pelas nossas mãos, deixando-nos cada vez mais assustados.

Como se não bastasse, quantas vezes acreditando estar no caminho certo, não nos damos conta de que tomamos a estrada errada e, então, temos que recalcular a nossa rota a partir da nossa bússola interna? É o momento das travessias das tormentas, em que é necessário deixar tudo que não for essencial de lado, juntar o que realmente importa em uma mochila e tornar a se meter a andar pelas ruas solitárias da vida. É o momento do desencontro, da perda, do desassossego, da ruína, da entrega. É o momento em que a escuridão do universo parece maior e nós ainda mais fugazes e pueris.

Entretanto, são exatamente nestes instantes que a vida também proporciona viradas e possibilita encontros, chegadas, sossegos, construções. Bem como, a reprodução de vagalumes, que se espalham como luzes harmoniosas para celebrar as nossas contradições. Celebrar a fusão do homem com o mundo. Do finito com o infinito. Do transitório com o duradouro. Do instante com o eterno. Do profano com o divino.

E a partir da compreensão das nossas contradições, passamos a melhor entender as contradições do universo, as quais invariavelmente estamos submetidos. É como se passássemos a entender a não-linearidade do tempo como algo que nos é próprio e, portanto, cognoscível. Porque a nossa vida é como um quebra-cabeça temporal, que vai se formando aos poucos, de tal maneira que muitas das peças que em determinado momento parecem inúteis, em outros são as chaves para elucidar grandes problemas.

Assim, passamos a nos lambuzar no jubilo da perdição, porque às vezes é preciso que nos percamos para que possamos nos encontrar e, então, transformar – como escreveu Galeano – medos em coragens, dúvidas em certezas, sonhos em realidades, delírios em razão, perdas em achados. Transformar o fio da navalha, por onde a vida sinuosamente caminha, em espaço lúdico de nossas astúcias, porque é preciso se queimar para se tornar fogo, já que o renascimento só acontece por meio das cinzas.

Imagem de capa: AstroStar/shutterstock

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