Tudo o que é forçado acaba espanando

Tudo o que é forçado acaba espanando

Não force nada, nem roupa, nem sapato, nem sentimento, nem relacionamento. Tudo o que for insistência apenas trará dor, decepção e sofrimento. Deixe a vida fluir e lute pelo que vale a pena e por quem faz diferença positiva na sua vida.

A regra é clara: cada vez que insistimos em alguém ou em algo que não retorna, acabamos desistindo, aos poucos, de nós mesmos. Ficar correndo atrás do que não tem chances de fazer parte da vida da gente só serve para trazer decepção e para minar qualquer autoestima. É preciso discernir o que pode do que não pode acontecer, ou adoeceremos e viveremos infelizes e intranquilos.

Existirão pessoas que gostarão de nós já na primeira vez e manterão amizade sincera conosco pelo resto de nossas vidas, sob sol ou sob tormentas. Outras pessoas jamais gostarão muito de nós. Afinidade não se explica nem se cobra, simplesmente acontece. Não conseguimos explicar direito, mas os amigos verdadeiros serão aqueles que, não importa há quanto tempo conhecemos, parecerão como amigos de infância.

Alguns empregos parecerão serem feitos para nós, por mais que relutemos em aceitá-los. Poderemos até tentar nos aventurar por ocupações outras, investindo e nos dispondo a dar certo naquilo, porém, nem sempre nosso perfil será afim com o trabalho que desejamos. Aceitarmos nossas limitações e valorizarmos nossas potencialidades é o que nos tornará mais abertos a nos sentirmos realizados fazendo aquilo que se encaixa perfeitamente em nossas habilidades e aptidões.

Nem todo mundo que amarmos nos amará de volta. Não seremos a escolha de todos por quem nos apaixonarmos. Por mais que nos entreguemos, por mais que nos doemos e ofereçamos o nosso melhor, não conseguiremos ser morada de quem não tiver a real intenção de ficar. Sentimento também é algo que não se explica, ele simplesmente acontece ou não. Deixar de insistir em sentimentos não correspondidos pode ser penoso, de início, mas, com o tempo, irá nos oportunizar vivenciar afetividade recíproca junto a quem retornará afeto na mesma medida.

Não force nada, nem roupa, nem sapato, nem sentimento, nem relacionamento. Tudo o que for insistência apenas trará dor, decepção e sofrimento. Deixe a vida fluir e lute pelo que vale a pena e por quem faz diferença positiva na sua vida. O que não ficar, foi-se, já era, adeus. O que permanecer então será intenso, verdadeiro e recíproco, como deve ser.

Imagem de capa: Michelangelo Gratton/shutterstock

“Comigo ele(a) será diferente” – A ilusão que atrai para os relacionamentos abusivos.

“Comigo ele(a) será diferente” – A ilusão que atrai para os relacionamentos abusivos.

Você conhece alguém que se submete aos maus tratos nos relacionamentos amorosos? Neste momento, lendo este artigo, vem em sua lembrança alguém que comporta-se com total submissão dentro de um relacionamento, aceitando humilhações, traições, desrespeito e até mesmo agressões físicas? Certamente, toda pessoa conhece alguém que vive ou já viveu essa realidade tão deprimente, como também é possível que este artigo esteja nas mãos de alguém que esteja vivendo esse drama.

É fato que, perceber uma pessoa querida vivendo um relacionamento abusivo, nos causa uma série de sentimentos conflituosos. Causa muita indignação ver uma pessoa cheia de atributos intelectuais, físicos e morais sendo tratada como se fosse um entulho, pior ainda é perceber a passividade dessa vítima, aceitando tudo sem nada questionar e ainda demonstrando muito temor em perder o seu algoz a quem ela refere-se como “amor”. Diante disso, uma pessoa será sempre vista como alguém que “não tem vergonha na cara”, “que só dá valor em quem não presta” dentre outros julgamentos. O que a maioria das pessoas talvez não compreenda é o motivo que leva alguém a se posicionar dessa forma nos relacionamentos amorosos e, também, em outros contextos.

Ocorre que costumamos avaliar as pessoas pelo o que elas apresentam externamente, então, diante de uma pessoa bonita e culta, tendemos a acreditar que ela é dona de si e que faz sempre as escolhas mais sensatas para ela. Entretanto, não é bem assim que a coisa funciona. Nem sempre uma pessoa com um elevado nível intelectual possui independência emocional. Esses dois atributos, não são, necessariamente, vinculados. Inteligência emocional e autoestima não são adquiridos nas cadeiras das universidades.

Obviamente, uma pessoa esclarecida intelectualmente e com independência financeira terá menor vulnerabilidade no que se refere às relações abusivas, uma vez que ela não terá a dependência econômica como um fator agravante que venha a dificultar a ruptura de uma união tóxica.

A forma como uma pessoa se comporta num relacionamento afetivo é o reflexo da forma como ela se percebe. Normalmente, as vítimas de relacionamentos abusivos aprenderam, em alguma fase da vida ou ao longo da vida, que isso é normal e aceitável. Provavelmente, essa pessoa tenha vindo de um contexto familiar desajustado, onde, dentre outras disfunções, presenciava o pai bater na mãe, por exemplo. Ela aprendeu a associar o amor à dor e ao desrespeito, então, ainda que ela adquira esclarecimentos teóricos sobre a forma saudável de se relacionar, aquilo que ela viveu na prática ainda terá um peso gigante na sua percepção. Entretanto, vale lembrar que esse quadro não é irreversível, contudo, é fundamental que a vítima se disponha a buscar essa desconstrução. O processo pode ser lento, mas vale a pena investir todos os esforços nessa busca, que tem na psicoterapia individual, uma poderosa aliada.

As vítimas de relacionamentos tóxicos não se percebem como pessoas dignas e merecedoras de afeto e respeito. No geral, elas não exigem nada do parceiro, no fundo, elas se percebem como inferiores demais para pedir algo ou manifestar alguma vontade. Tudo o que vier será aceito, e, como elas temem muito a rejeição, elas evitam, ao máximo, contrariar o parceiro. Na realidade, quando você olha aquela mulher super bonita e interessante ou aquele homem super bacana vivendo essa realidade tão triste, é preciso entender que eles não se enxergam assim. Eles não tem a menor consciência da beleza física, ou de qualquer outra virtude que eles possam ter. Essas pessoas já entraram no relacionamento com a autoestima adoecida e, se ainda tinha algum resquício de amor próprio, ele foi extinto na convivência com o parceiro.

Reforçando que a construção da autoestima e a percepção de si próprio como um sujeito digno de amar, de ser amado, de ser respeitado e de ser tratado com dignidade poderá ser reforçado nos bancos das escolas e universidades, porém, essa compreensão será adquirida pelo sujeito no seu contexto familiar, o seu núcleo de referência. Contudo, vale lembrar que, no geral, o histórico de relações abusivas tendem a se perpetuar se não sofrer uma interrupção, dessa forma, as vítimas farão novas vítimas, repassando o modelo doentio de se envolver afetivamente aos seus descendentes. Contudo, faz-se necessário compreender que ninguém deverá encarar o histórico de vida sofrido dos antepassados como uma sentença irrevogável que será estendida aos descendentes, basta buscar ajuda e se posicionar como um agente de transformação desse ciclo, beneficiando a si próprio bem como as gerações futuras da própria família.

Imagem de capa: Billion Photos/shutterstock

Um guerreiro que caminha na trilha do coração é capaz de enfrentar o desconhecido

Um guerreiro que caminha na trilha do coração é capaz de enfrentar o desconhecido

A vida é mesmo uma grande caixinha de surpresa. A gente nunca sabe o que vai encontrar, sentir e experienciar. A cada novo dia, refeitos do sono, com as energias recalibradas, nos colocamos em contato com o mundo, para um novo encontro que requer preparo (físico e psicológico) para enfrentar todo tipo situação que possa surgir pela frente. E porque na verdade, é disso mesmo que a vida é feita – de (fortes) emoções.

Preparo para vivê-las é requisito básico de formação mas que nunca, jamais estaremos prontos, completos e formados pois enquanto encarnados, estaremos jogando o grande jogo da escola da vida. E é por isso que aceitamos este convite, para colocarmos nossos seres em prova, confrontar nossas almas e nos colocar em teste para seguir dentro da espiral da evolução.

Encarnar é um grande desafio que requer coragem e humildade. Sem estas duas bagagens não há individuo que passe com louvor nas provas que serão aplicadas no caminho
Coragem, pois muitas situações ela será essencial para não nos acovardar e sentirmos menos capazes. E a palavra coragem traz na sua origem o significado de coração. Portanto, ser corajoso é viver com o coração, e viver com coração é viver no amor.

No coração há a sabedoria da alma, aquilo que somos em essência.

Quem vive muito no plano mental acaba se perdendo diante do pensamentos egoicos, intelecto, das reações primitivas e de muitas ideologias, fundamentos e paradigmas.

Quem vive com o coração tem a chance de expandir, compreender e aplicar a sua força interior, agir com mais sabedoria nas diferentes situações da vida, motivados pela sua essência, o amor.

Um ato de coragem é um ato de amor.

Levar a humildade como escudo também se faz necessário pois sem ela nada se aprende. Um ser que vive na arrogância não é capaz de reconhecer um ensinamento, saber ouvir quando necessário e observar. O arrogante acha que já está pronto e não dá oportunidade para seu crescimento pessoal.

E mesmo diante dos embates mais emblemáticos da vida, a solução jamais será o de “ir embora”, até porque, ninguém vai embora de si mesmo, nós sempre nos levaremos junto seja pra onde for. Nós jamais escaparemos da eternidade. A solução será sempre o de ser um guerreiro.

Um guerreiro que caminha na trilha do coração é capaz de enfrentar o desconhecido, as batalhas mais perigosas, os riscos, carregando consigo a espada da sabedoria e o escudo da humildade.

A covardia não permite os ganhos e os louros das experiências, pois quem se acovarda já está morto. Estar vivo é encarar os combates com fé, confiança e coragem.
E a vida é assim mesmo, com seus dias de luta e seus dias de glória. Jamais pense que não é capaz, pois se você está aqui, nesta vestimenta humana, é porque sem dúvida em você existe todos os instrumentos e capacidades necessárias para esta vivência.

Acredite! A vida vai fazer você se mexer e o objetivo será sempre a sua evolução.

Por isso, abrace a vida com amor, e não permita se esquivar ou paralisar diante das dificuldades. Você pode sim ter dúvida, e elas fazem parte das escolhas, você pode também ter medo, pois elas auxiliam na sua proteção, mas não se permita paralisar diante disso.

Os combates são na verdade os presentes que a vida te deu para seu crescimento pessoal e espiritual. Aceite com amor.

Imagem de capa: Samet Guler/shutterstock

Caminhar por terras peruanas é a prova de que a felicidade está na jornada

Caminhar por terras peruanas é a prova de que a felicidade está na jornada

Conhecer cidades do Peru, ou mesmo, Machu Picchu, nunca fez parte do meu repertório de sonhos. A viagem, aceita de supetão, foi um mero acaso ligado ao convite de uma amiga muito querida. Mal sabia eu que o Peru já me esperava.

Caminhar por seu solo sagrado, conhecer um pouco mais de sua história, sentir o amor que seu povo nutre pelo passado, saber de suas lutas… tudo isso me acessou naquele ponto mais íntimo, naquele local que não existe no concreto, mas que faz girar o universo.

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A sensação de real pertencimento é algo que encontramos em poucos lugares de nossa vida. Ele costuma acontecer quando estamos no conforto e na segurança de nossos lares, no seio de nossa família ou mesmo entre amigos queridos. Mas, às vezes, ela também acontece em momentos inusitados. Ou, como disse Guimarães Rosa ao falar da felicidade, nos momentos de descuido.

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No cerne dessa descoberta o pertencimento é aquele que dá ritmo a nossa jornada, é aquele que sincroniza nosso respirar, é aquele que coloca em uma só frequência as dimensões que pensávamos ser inacessíveis. Deve ser daí, desse encontro inesperado, que surgem os andarilhos ou até os modernos mochileiros que vislumbram o movimento e que, mesmo definindo uma meta de chegada, encontram sua renovação na hipnótica frequência dos passos, na sublimatória harmonia com o trajeto, no chão batido, na água e nas pedras que trazem a energia de vidas que, provavelmente, nunca nem mesmo foram registradas.

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As Brumas de Machu Picchu

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É no emblemático encontro consigo mesmo, naquele momento em que as variáveis constantes são deixadas para trás, que o ritmo se instala, que o olhar segue o horizonte: é lá que as guardas são baixadas. É nesse momento, nessa fagulha do sentir , que nos abrimos e aí, finalmente, percebemos que também pertencemos, que somos parte do todo, que somos todos pétalas de uma mesma flor.

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Agradeço ao universo, por cada passo dado, por cada quilômetro percorrido e por cada degrau que meu corpo teve forças para subir. Um após o outro numa sequência infinita que, a cada instante, me levava de encontro ao sol.

Agradeço à minha amiga Maria Carolina Gouvea, pelo feliz convite, à minha sobrinha Ana Carolina, que esteve comigo em cada respiração, mesmo que numa localização onde o ar, mais rarefeito, nos fazia parar frente a insignificância de nossas limitações físicas para nos mostrar nosso ínfimo lugar naquele espaço.

Agradeço aos meus colegas de percurso do grupo. São eles as pessoas que, assim como eu, permitiram-se trilhar o inesperado com o peito aberto para o novo e tudo que ele pode trazer.

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Agradeço, finalmente, aos profissionais que possibilitaram essa jornada: A Fabiana Pagan, da Adventure Peru Brasil  que nos contagiou com todo comprometimento, amor pelo Peru e honestidade em seu trabalho; ao guia Roli Mallqui, que esbanja simpatia e conhecimentos, ao Juju Romero e à sua esposa Sheila e, principalmente, ao gerente da Machupicchu Best Trips , Jean Carlos Romero, que presenteou a mim e ao resto do grupo com sua presença e cuidados constantes, assim como com histórias de família que fizeram toda a diferença em minha percepção do local: definitivamente um belo ser humano que cruzou nosso caminho.

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Do mais, não sei se um dia terei a oportunidade de voltar ao Peru (apenas espero muito que sim). Mas o Peru, definitivamente, jamais sairá de mim.

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Não busco mais uma história de amor dessas que os séculos repetem

Não busco mais uma história de amor dessas que os séculos repetem

Não busco mais uma história de amor dessas que os séculos repetem, com rituais exteriores, com votos ditos altos, com símbolos marcados no corpo, mas com almas pouco despertas. Não busco mais viver uma união de cegueiras, um relacionamento em que um ampara a mentira ou a ilusão do outro, em que quase tudo fica na superfície por termos medo de mexer no que assustaria a todos.

Busco sim companhias para a caminhada, amizades corajosas, trocas de aprendizados, amparo mútuo nesse caminho doce e difícil de flexibilizar o olhar e romper condicionamentos e ciclos viciosos.

Não busco mais um colo familiar e confortável, reconhecível pelas minhas células femininas ancestrais, que atraem o que foram educadas por séculos. Não procuro um alguém para eu repousar a mulher que a cultura me ensinou a ser, porque dentro de mim e no espírito do mundo eu ouço que é tempo de transformar, de despertar, de aprender a deixar o propósito maior da vida vir à tona.

Porque eu ando aprendendo que o meu corpo sabe dizer onde ele gosta de se encaixar, que o meu coração pode ficar mais leve, que a minha alma só pertence a mim mesma e quem chega perto é um visitante que eu posso querer ou não receber.

Por isso, às minhas mãos eu quero que se unam mãos desbravadoras, quero olhos ousados como os meus, quero seres que sejam espelhos revelando as minhas sombras que sozinha eu não consigo ver, e que os sustos desses insólitos contatos com os meus porões não me façam sair correndo, mas me insuflem energia para querer desbravar-me mais ainda e limpar as crostas antigas das paredes da minha alma.

Quero também, a companhia que saiba também abrir as minhas janelas e portas e não tenha medo de encontrar a luz radiante dos meus sóis. E que eu esteja preparada para o mesmo! Que a gente possa unir nossa energia vital, essa coisa que é maior que nós e que pode causar tanto medo pois é um gostinho do que seria a morte, já que é exatamente o auge da vida.

Que a gente tenha estômago e coração para ver nossas sombras e luzes, nossas inteirezas e assim nos libertarmos de sermos apenas vultos de nós mesmos.

Que a coragem esteja nos nossos passos, que, com amor, a gente saiba abrir frestas um no outro, para que a nossa essência respire. Que a gente respeite os ritmos, principalmente o nosso próprio, que a gente deixe o amor ser como onda, que vem e vai, que foge ou fica… Que saibamos que nada está nas nossas mãos, por isso mesmo podemos relaxar.

Que sigamos nos desvendando um no outro, um com o outro. Que a vida seja um estudo compartilhado de dois cientistas que aceitam ser as próprias cobaias.

Que a gente possa ficar cansado e titubear, mas que as nossas companhias sejam fortalezas, ponte e inspiração, para que nossos passos, mesmo que hesitantes, sigam sempre em frente.

Imagem de capa: patronestaff/shutterstock

A era da incomunicação

A era da incomunicação

Rubem Alves certa feita disse que mais do que cursos de oratória, nós precisamos de cursos de “escutatória”, porque todo mundo quer aprender a falar, mas ninguém quer aprender a ouvir. O problema do ouvir e, mais apropriadamente dito, o da comunicação, vem se tornando um dos grandes problemas da nossa sociedade, o que lhe garante a alcunha de “Era da Incomunicação”, muito embora se viva na época de ouro dos meios de comunicação.

É fato que a rede mundial de computadores deu voz a todos com um smartphone na mão, mas, parece-me, que o ouvir não acompanhou o mesmo processo de desenvolvimento do falar. Entretanto, para que o que seja dito por alguém possua significado, é preciso que haja do outro lado, um interlocutor, capaz de ouvir, absorver a mensagem e, somente depois disso, falar alguma coisa em resposta ao que ouviu. Ou seja, na comunicação existe um processo no qual deve haver necessariamente no mínimo duas pessoas. A partir do momento em que passamos a desconsiderar o interlocutor, o ouvinte, o outro, da nossa fala, passamos a descaracterizar o próprio ato de se comunicar e, assim, nos tornamos autofalantes.

Dessa maneira, desenvolvemos extraordinariamente a capacidade de falar, mas não, necessariamente, a de se comunicar. Falamos, falamos e falamos, porém, não somos escutados, bem como, não conseguimos escutar o que os outros falam. Essa incomunicabilidade se dá justamente por estarmos preocupados tão somente em nos expressar. É como se andássemos todos na rua, ao mesmo tempo, da mesma forma, mas ninguém conseguisse perceber ninguém. E, sim, podem fazer essa relação, porque ela ocorre inevitavelmente: a incapacidade do ouvir leva à incapacidade de enxergar.

Assim sendo, tornamo-nos surdos, cegos, mas com a fala enormemente potencializada. Podemos gritar, espernear, tentar chamar a atenção de diferentes modos (e constantemente fazemos isso), mas continuaremos autofalantes, porque esse comportamento apenas ratifica o egoísmo e o narcisismo que nos impedem de deixar a nossa voz (ego) um pouco de lado e tentar escutar, perceber o que o outro está dizendo ou tentando dizer.

Ainda que cercados de fios, que – via de regra – devem promover a comunicação, o que se constata é o falar solitário, como se fôssemos início, meio e fim de um mesmo ato. E por mais que viver em grandes cidades, sejam reais ou “cidades.com”, aparente demonstrar que estamos conectados e que estamos próximos, no fundo sabemos que estamos sozinhos em nossos pensamentos, seja por não encontrarmos pessoas capazes de ouvir, seja porque nós mesmos já não conseguimos escutar, sendo apenas mais um autofalante com número e série.

Nessa Torre de Babel que construímos, a comunicação não evoluiu, pelo contrário, se tornou ainda mais primitiva, pois em meio a uma confusão de línguas, raramente se encontra pessoas que se esforçam para entender o dialeto que forma o outro, já que a comunicação, acima de qualquer coisa, é sair de si e adentrar em outro universo particular, não seu, mas do outro.
O que talvez ainda não tenhamos compreendido, apesar disso tudo, é que as palavras e, consequentemente, o sentir, só possuem significado em mão dupla, quando há um significante. Do contrário, elas morrem sozinhas, dentro de nós, sem que possam crescer e criar vida. Morrem no silêncio perturbador de quem grita, mas só escuta o próprio eco (ego) como resposta, até que ele também cansa e, então, já não se escuta nada, a não ser o silêncio pleno da era da incomunicação.

Imagem de capa: VGstockstudio/shutterstock

Às vezes, a ovelha negra é a pessoa mais sadia da família

Às vezes, a ovelha negra é a pessoa mais sadia da família

É muito difícil encontrar um parâmetro do que possa ser considerado normal ou não. Para alguns, a normalidade está atrelada a comportamentos padronizados socialmente; para outros, tem a ver com preceitos religiosos, e por aí vai. Fato é que, muitas vezes, confunde-se normalidade com calmaria, quietude e obediência, sendo que uma coisa não necessariamente depende da outra.

Quantas vezes nós mesmos não temos uma impressão errada sobre alguém que se veste de uma forma totalmente peculiar, ou possui um corte de cabelo diferente, alguém que, aparentemente, foge ao que é considerado normal? Ou sobre alguém que abraça as causas em que acredita de uma maneira efusiva, brigando por elas sempre que necessário, até mesmo empunhando cartazes e saindo às ruas? Pois é, a aparência não tem nada a ver com a essência humana, mas parece ser tão difícil entender isso.

Difícil porque o mundo de hoje se baseia naquilo que se vê, naquilo que se ostenta, nas grifes que se vestem, no poder de compra, no tanto que se consome. Com isso, torna-se cada vez mais difícil enxergar o essencial de cada um, aquilo que a pessoa realmente possui dentro de si e consegue viver, praticar, sem machucar ninguém pelo caminho. É o que fazemos que importa, não o que falamos e aparentamos por aí.

E, nos núcleos familiares, não raro se tomam como ovelhas negras justamente as pessoas que contestam, que ousam, que enfrentam o que, embora já esteja estabelecido há muito tempo por várias gerações, trata-se de algo que precisa ser mudado, oxigenado, a fim de se quebrar uma falsa base da zona de conforto que se perpetua há anos. Porque ninguém é obrigado a manter um casamento fracassado ou a se vestir seguindo a moda, somente porque sempre foi assim entre os familiares. Os ousados é que promovem avanços que abrem novos caminhos a muita gente sem coragem.

Portanto, é preciso muita cautela ao julgar alguém que já foi julgado, pelas pessoas ou pelos familiares, como sendo uma ovelha negra, visto que somente a convivência e o tempo é que mostram realmente o que cada um é de fato. Muitas vezes, apenas se trata de alguém que não se sujeitou a regras e comportamentos ditos como normais, sabe-se lá por quem ou por quê, e resolveu viver de acordo com as batidas do próprio coração. Trata-se, enfim, de alguém que não se permitiu ser aceito pelos outros em troca da própria felicidade.
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Texto originalmente publicado em: Prof Marcel Camargo

Quem insiste pelo amor do outro acaba desistindo da própria dignidade.

Quem insiste pelo  amor do outro acaba desistindo da própria dignidade.

No geral, as pessoas persistentes são admiradas em seu contexto familiar e social, podendo ser alvos de inspiração e inveja. Elas são obstinadas e não se intimidam diante dos obstáculos que surgem na busca por um determinado objetivo, elas entendem que, para algumas conquistas, é uma questão de tempo e empenho. Contudo, faz-se necessário compreender e aceitar que, em se o objetivo envolve o sentimento de outra pessoa, a persistência será inútil.

O amor nasce espontaneamente, ele é inegociável, tampouco depende da persistência de alguém para vir à tona. Nesse território, o máximo que alguém pode fazer é demonstrar o seu interesse à pessoa que deseja conquistar e considerar um espaço de tempo mínimo para que a investida surta algum efeito, porém, uma vez que foi feito isso e não houve reciprocidade, é preciso entender que a persistência, nesse caso, passará a ser sinônimo de inconveniência, algo totalmente repelente em qualquer contexto relacional.

Acontece, sim, de alguém vencer o outro “pelo cansaço”, sabe-se que existem relacionamentos que são iniciados e arrastados porque, de tanto um implorar, o outro acabou cedendo, ainda que sem o mínimo de empolgação, provavelmente por receio de não ter outras possibilidades. Isso é possível detectar naqueles casais nos quais um dos parceiros faz de tudo e se desdobra pela relação, enquanto o outro comporta-se como se estivesse naquele relacionamento fazendo um favor. São casamentos compostos por um que sempre “pisa em ovos” e se comporta como um capacho e outro que manda e desmanda, agindo sempre como se fosse a última “bolacha do pacote”. Uniões assim mais parecem uma relação profissional com uma hierarquia bem definida e rígida, como se fossem um general e um soldado.

Fica implícito um quê de revanchismo nessas relações que não são movidas pela reciprocidade, parece conter, nas entrelinhas, a seguinte mensagem: “estou contigo mesmo sem nunca ter sido apaixonado(a), em contrapartida, você vai ter que fazer todos os meus caprichos e se conformar com as migalhas que eu te oferecer”. Eis a pergunta: faz sentido um relacionamento assim? Seguramente esse formato de parceria amorosa é comparável a um rolo compressor passando sobre a autoestima dos envolvidos, especialmente sobre a dignidade daquele que se dispôs a implorar pelo amor do outro, acreditando que, de tanto insistir, seria recompensado.

Se uma pessoa entende que precisa insistir para ter a companhia de outra, já existe aí um indicador de uma autoestima patológica. E, se o outro cede apenas porque houve insistência, estará formada uma parceria com todos os requisitos para um relacionamento disfuncional. Relacionamento bacana é quando ambos estão interessados, quando a química é flamejante, quando a admiração recíproca salta aos olhos e o respeito é companheiro inseparável. O que foge disso será encaixado naquele rol de parcerias formadas por duas pessoas murchas, desidratadas afetivamente, que acreditam possuírem uma companhia, quando, na realidade, estão solitárias, em alguns casos, tão sozinhas ao ponto de terem perdido a própria identidade.

Imagem de capa: Everett Collection/shutterstock

As coisas que me fizeram ficar com você

As coisas que me fizeram ficar com você

E não foram poucas. Você não precisou pedir, eu já tinha escolhido passar todo esse tempo ao seu lado. Agora, apenas quero contar as coisas que me fizeram ficar com você.

Foi esse sorriso aberto quando eu estava distraído. Foi esse olhar sonhador e intenso quando eu segurava a sua mão. Foi esse carinho inesperado, gratuito e cheio de vontade que você fez quando eu não imaginava mais ser possível.

Também foi o frio na barriga que senti e ainda sinto quando te encontro. Foi o medo que você desfez com um abraço. Foi a coragem que você argumentou com um beijo. Foi o respeito, a responsabilidade e a honestidade com nossos instantes juntos.

Mas foram tantas outras coisas. Teve o dia em que você deitou comigo e colocou a sua perna sobre a minha. Um gesto comum, talvez. Mas foi de um jeito que significou uma declaração de presença. E estar com alguém é ser presença nos detalhes.

Ficar com você foi passar a ter confiança. Confiança naquilo que quero, naquilo que demonstro. Sem perfeições ou através de uma corrida desenfreada para. Foi a tranquilidade com a qual você me fez redescobrir a importância de olhar para os lados, mas nunca deixando de mirar para frente.

Foi a sua força para lutar todos os dias. Foi esse jeito que você tem de acolher, de retribuir e de querer aproximar pessoas das gentilezas e sentimentos que carrega. Foi esse prazer pela vida. Foi essa preguiça pela rotina.

As coisas que me fizeram ficar com você…

Imagem de capa: Monsieur & Madame Adelman (2017) – Dir. Nicolas Bedos

Mulher não desiste de quem ama, mas cansa de não ser correspondida

Mulher não desiste de quem ama, mas cansa de não ser correspondida

É eu sei querida, chega um momento que cansa. Para de doer, de sofrer, para de querer e a gente perde mesmo o interesse de investir.

É que esse negócio de sofreguidão gasta uma energia, borra uma maquiagem, faz um “revertério” na nossa cabeça até que chega uma hora que a deusa envia uma ajuda divina: Cai uma ficha que avisa “amada, você não precisa mais passar por isso”!

E aí, fica o caminho aberto à nossa frente.” Eu não sabia que podia”… A decisão é somente nossa de ficar ou pegar a própria vida, dignidade, respeito, amor e seguir.

É que cansa!

Mulher não desiste de quem ama, mas cansa de não ser correspondida, de não ser amada.

Amada como deve ser e não cortejada apenas para satistafazer necessidades.

E mulher investe mesmo! Quando tá afim, ela vai fundo nos propósitos. Enquanto estiver propondo encontros, fazendo planos, mostrando sentir ciúmes e tendo saudades, ela está presente, e deseja ser valorizada. A partir do momento que ela deixar de se importar, é porque certamente ela perdeu o interesse.

E vou dizer, não há nada que segure uma mulher decidida!

Elas até demoram para tomar uma atitude, mas quando resolvem seguir é porque esgotaram todas as chances, foram ao fundo do pote, viveram todos os “e se”, ouviram todos os conselhos e passaram a praticar os próprios – siga em frente!

É meu bem… Não dá pra consertar o que não tem conserto e na verdade querida, não conserte! Este não é o seu papel. Não pense que daqui há dois anos ele vai melhorar, porque quando chegar lá você vai se frustrar por perceber que nada mudou.

Não crie tantas expectativas quando o seu coração já te alertou sobre as possíveis falhas que irão te fazer cansar.

Certo, todos temos falhas, mas o desinteresse, falta de afeto, atitude e coragem para se envolver na relação, são razões suficientes para seguir em frente.

É triste admitir que certos parceiros não são suficientes, e não por questão de capacidade, mas por preguiça e comodismo. Ou mesmo, um “tilt” de personalidade.

Não dá para viver de pequenezas, nem se satisfazer com migalhas muito menos se acostumar com isso quando ha o entendimento de que merecemos um algo inteiro que preencha nossos corações e vidas de forma inteira e amorosa.

O fato é que quando cansa, cansa! E quando ela vai, ela vai segura e cheia de si. Vai sabendo que fez o que pode e que algo de maior valor a espera.

E ela não sai para buscar um outro… Ela sai para se resgatar. Para se pertencer, pois sua doação virou caridade e ela não teve troca para ser reabastecer.

Ela pode sofrer, criar mágoas dentro de si, mas uma hora isso tudo seca e ela passa a perceber que os valores que possui podem salvá-la de qualquer tempestade.

Mulher quando entra na relação, aposta, nutre, se entrega, vive cada momento. Mas quando sai, é pra não voltar e o seu silêncio será a resposta, a prova de que ela se cansou. Ela foi.

Imagem de capa: wavebreakmedia/shutterstock

Por trás da química entre duas pessoas existe lições a serem compreendidas

Por trás da química entre duas pessoas existe lições a serem compreendidas

Ter química com alguém é bicho brabo viu! Algo que tira o juízo e faz qualquer um de gato e sapato. Cria-se um vínculo movido pela atração que não se sabe explicar muito bem de onde vem e não há nada que possa ser feito de imediato. Fica difícil evitar.

O fato é que, pessoas não passam por nossas vidas por uma obra do acaso, elas sempre trazem um propósito, uma história, uma lição a ser aprendida, uma experiência a ser vivida, ainda mais àquelas que trazem a química como atração principal.

Por isso, não há como ignorar que algo será revelado nessa alquimia toda. É inegável o fato de que esta pessoa será àquela que mais vai trazer lições para a nossa vida, pois serão elas que de maneira ou outra, ficarão um tempo a mais em nossos lençóis, quartos e espaços íntimos… será com elas que criaremos algum tipo de laço íntimo e que irão trazer os nossos problemas para a superfície.

Elas irão refletir o nosso recôndito da alma, pois um relacionamento nos dá um espelho de nossas emoções íntimas.

E esta necessidade química é mesmo uma droga. Entorpece, vicia e gera uma dependência surreal. Ao tentar se desfazer o ser é passível de sofrer por abstinência, e assumir o risco de sentir que só ali ele pode ser feliz.

E a química é a oportunidade devassa, deslavada e descarada que o “universo” encontrou para aproximar pessoas que precisam trocar experiências.

Relacionamentos serão sempre portas para grandes revelações e lições a serem compreendidas a fim de um amadurecimento pessoal e uma versão mais completa de nós;

As lições aparecem de formas desafiadoras, e nem sempre teremos o fim que queremos idealizados no amor romântico.

Por meio da química, é possível desbravar selvagemente o caminho do amor, e por meio dele trabalhar as questões reveladas pelo nosso ego.

Por vezes o amor se revela na soltura, no perdoar – o parceiro ou a nós mesmos – ou nos próprios desafios expostos pelo mestres do amor.

Sentimentos como insegurança, medo, desprezo, são os que mais serão despertados por quem mais desejamos. São sensações egoicas que se bem trabalhadas poderão lapidar um novo eu.

Àqueles por quem mais somos atraídos, mais tem lições a nos passar.

Aprenda a estar aberto aos ensinamentos e tire proveito para o seu desenvolvimento pessoal. O propósito da vida é o amadurecimento da alma, e ela acontece por meio das vivência obtidas nas relações humanas.

É uma prova de fogo, difícil e deliciosa de se enfrentar e que trará inúmeros aprendizados.

Por isso, jamais ignore o poder de atração que você tem com alguém. Este será sem dúvida o seu grande mestre do amor.

Imagem de capa: Y Photo Studio/shutterstock

Sobre depressão

Sobre depressão
Suicide rates for women and girls are on the rise

Depressão não é sentir-se triste, abalado, chateado, magoado. É um vazio inexprimível. O depressivo, em suas horas ruins, apresenta percepções distorcidas e julga que o que vê é real, enquanto está perturbado pelo medo em sua forma límbica e primitiva. Vulnerável psicologicamente, ele passa a crer em superstições negativistas e questiona seu bom senso, o que o torna presa fácil àquele medo.

Há dois aspectos da depressão: leve e severa. Na leve, tem-se aquela percepção gradual de decadência que faz parte do processo de viver; na severa, a ansiedade se apossa da pessoa, ela toma como verdade um falso conhecimento (a de total ausência de sentido da vida) e, nesse instante, sua vitalidade está esmorecida.

Enquanto houver a consciência do próprio eu mortal, a depressão estará lá, de algum modo. Essa doença tem lógica de explicação, mas o medo que se sente não, já que, sendo irracional, confunde. Entender a doença é fácil; agir conforme esse entendimento, porém, nem tanto. Durante as crises, o medo dá asas à crueldade e, como resultado, ocorre prejuízo na capacidade de autonomia racional.

A doença psicológica mais mortífera de todas é também a mais banalizada. Há quem diga que isso é besteira, uma ilusão da mente vazia e ingrata com a vida. O ser que pormenoriza a depressão ou não sabe do que está falando ou não tem preocupação em entender o assunto. O depressivo sente-se refém da própria violência e isso o castiga mais do que qualquer julgamento social.

Diferente de uma catapora que, uma vez curada, nunca mais voltará, a depressão é cíclica e não desaparece após sua primeira manifestação, razão pela qual nunca deve ser ridicularizada.

Andrew Solomon, escritor americano que convive com a depressão, afirmou em sua obra confessional O Demônio do Meio-Dia:

“O pesar é a depressão proporcional à circunstância; a depressão é um pesar desproporcional à circunstância (…) A realidade é que as pessoas não são deprimidas porque são pobres, mas, em vez disso, elas estão pobres enquanto deprimidas.”

Solomon deu início ao livro dizendo que a depressão é a “imperfeição no amor”. Uma definição falha, pois sem o reconhecimento da imperfeição não há amor verdadeiro. Amar as virtudes do amado é a coisa mais fácil. O que se prova desafiador é conviver com todas as suas falhas, neuroses, defeitos e inconveniências. Tende-se, claro, a querer um relacionamento com alguém que compartilhe dos mesmos interesses, hábitos e filosofias. Um amor à la carte.

Uma das pessoas que o autor entrevistou para o projeto de pesquisa de seu livro estava com os olhos marejados de lágrimas quando lhe disse: “A depressão é um segredo que todos nós compartilhamos”. A onipresença dessa patologia no conjunto da experiência humana é algo intrigante. Depressão é a doença do século? Não, é a doença dos séculos. Ela tem sido descrita desde a época de Hipócrates.

A impotência experimentada pelo depressivo é diferente da impotência de alguém cego, por exemplo. Este quer enxergar as cores, mas não pode; aquele pode, mas não consegue.

Ter uma família próspera e acolhedora. Um trabalho construtivo e estável. Comida na mesa, teto e uma cama para dormir. Amigos para desabafar as injustiças e narrar os sucessos. Sapatos e roupas para todas as ocasiões. Dinheiro na conta suficiente para anos e anos de viagens ao redor do planeta. Essa é a realidade de muitos depressivos. Então por que eles ainda se sentem assim de vez em quando, sendo que na faixa de Gaza há milhares se explodindo para salvar suas religiões e na África um terço da população come o equivalente a morrer de fome? Parece uma absurda ingratidão para com a própria vida. Sartre dizia que “O inferno são os outros”. Para os depressivos crônicos, o inferno são eles mesmos.

A depressão não é uma doença de burgueses que nadam em dinheiro e podem contar com planos de saúde que cobrem os hospitais mais caros, os médicos mais rodados e os exames de tecnologia mais avançada. É de todos. Também não se trata de ociosidade e falta de trabalho. A questão é que a depressão não faz julgamentos de valor sobre quem a tem, mas quem a tem sente seu valor severamente comprometido.

Depressão tem muito a ver com administração da raiva melancólica. Muitos, em resposta a uma angústia agressiva, mutilam-se para aliviar a dor. Cilada. Este comportamento não deve ser usado como justificativa para aquele sentimento: violência gera violência e no final o sujeito estará ferido e a raiz da dor intacta. A melhor forma de amenizar a angústia é penetrando nela, não com ações impulsivas, mas na base do exercício combinado entre paciência e esquecimento da ânsia de controle. Isso requer perseverança e humildade.

Uma reação comum dos deprimidos mórbidos é o silêncio porque, se eles narrassem perfeitamente todas as suas fobias para as pessoas que estão mais próximas de seu coração, elas não dormiriam em paz e ainda lhes sobraria amargura. Ficam quietos para não transmitir energias negativas a quem amam. Trata-se de um motivo compreensível, embora em certas circunstâncias seja perigoso.

A agonia de experimentar a sensação de vazio é exclusivamente humana, sintoma de um buraco que devasta de certa forma traumática a estimular o apego à transcendência, alguma estrutura imaterial de apoio. Quando essa estrutura falha, o vazio se instaura com mais facilidade. Os homens são seres inacabados, em transição, obrigados a usar sua imaginação criativa para cimentar aquele buraco em seu peito toda vez que ele alarga e ganha profundidade.

A resiliência está na aplicação da inteligência não para destruir a sensação de desespero (que levaria a seu reforço), mas para penetrar nela com coragem até que vá embora. Não é sensato tentar encontrar a saída desse labirinto psicológico com emoção, mas adaptar-se ao labirinto com a racionalização da emoção: isso exige um certo desprendimento de si, o que, nesse caso, não significa abandono de si.

Muito se sugere aos depressivos em crise que procurem uma religião, se já não forem religiosos. Mas, quando se é cético – por motivos intelectuais ou em respeito a certo estilo de vida –, a abertura à ajuda espiritual inexiste e, mesmo se porventura houver disposição, dificilmente surtirá efeito, a menos que o ceticismo seja uma moda.

Há um silêncio mortal que grita mais do que todas as reverberações de autonomia na Terra, um silêncio que se é chamado a ouvir apesar de toda resistência, um silêncio que quebra toda a lógica construída para se tentar contradizê-lo, um silêncio que conduz ao pânico e dele se alimenta. O homem se curva ao desconhecido e sua batalha individual por sentido atravessa períodos de insignificância e glória, vendo-se tentado a chegar a Deus por não ter encontrado uma alternativa de vida completamente autossustentável. Toda crítica da menoridade costuma ser, ela mesma, finita. Immanuel Kant, em seus estudos sobre autonomia e vontade, notou, com certo senso de humor:

“O maior mestre deve estar apenas em si mesmo, e ainda permanecer homem. Esta tarefa é, porém, a mais difícil de todas; na verdade, sua solução completa é impossível, pois de madeira tão torta como o homem é feito nada perfeitamente direito pode ser construído.”

A ideia de liberdade total aterroriza o ser que toma consciência do determinismo de suas escolhas e tem voz ativa para fazê-las, coisa que um mestre deve superar para inspirar confiança em seus discípulos.

O autor que melhor abordou a questão do desespero (tema de um dos seus livros) foi Søren Kierkegaard, considerado o pai do existencialismo moderno. Ele analisou que a fonte do desespero está na imaginação e que, precisamente, a liberdade para morrer é pior que a própria morte. Antes de ser uma precursora da felicidade, a liberdade absoluta de escolha provoca uma sensação de angústia e o ser livre no mundo percebe-se frágil. À primeira vista parece uma teoria sobre covardia, mas é justamente em superação a ela que se faz a força.

O existencialista é aquele que cria o que é; entretanto, o que ele é muda conforme cria e essa doutíssima responsabilidade acusa uma liberdade e, ao mesmo tempo, sua contradição. Porque as implicações de cada decisão não são ilusórias (do simples fato de se pensar nelas), o destino não pode ser previamente determinado, e isso parece bom por permitir uma vida autêntica, mas também parece ruim por impossibilitar uma segurança absoluta. Uma vez no mundo, ele sabe que deve assumir aquilo que se torna e, sendo livre, criador de si mesmo, pensa profundamente e não quer ser tão livre assim, pois a solidão de ser é muito mais pesada que a de estar. Na intersubjetividade acorda sua identidade, mas, como não nasceu pronto e nem morrerá assim, apenas percebendo a existência de outros ele se sente salvo, dado que sua solidão seria insuportável em uma realidade só.

Kierkegaard, cristão genuíno, pensava que a responsabilidade de construir a própria história não se suporta harmonicamente sem o incentivo de um poder superior. Ele separou a necessidade de se acreditar em Deus da desnecessidade de provar a sua existência. Nisso foi semelhante a Kant, que, mesmo agnóstico, teve que suprimir o conhecimento para dar espaço à crença.

Não há um ser humano apto a liberar toda a angústia da liberdade de dentro de si, e também nenhum que não encontre, num súbito reconhecimento, uma força interna capaz de moldá-la a seu favor, independente da fortuna dos acontecimentos.

O anseio pela resolução de sentimentos ininteligíveis tem na religião uma companheira constante. Aquela gana pelo desprendimento da realidade se apossa de uma pessoa que, com os pés na Terra, treme.

Quando a crise melancólica passa, em muitos surge uma ligeira voz interior dizendo “Graças a Deus” ou “Obrigado, Senhor”, fenômeno intuitivo que abarca também ateus militantes (dependentes da ambição religiosa, por mais que o neguem).

Se o depressivo pudesse dizimar seu holocausto mental de uma vez por todas, o faria instantaneamente e como seu primeiro e último pedido, mas a medicina ainda não encontrou um remédio que cure angústia, a mais devastadora das sensações humanas. Nesse aspecto a ciência leva desvantagem sobre a religião, esta que, possuindo demanda em todas as épocas, é a única indústria impossível de falir.

Em seu livro Religião e o Declínio da Magia, o historiador Keith Thomas defendeu que, enquanto a religião preencher o espaço das respostas que a ciência não consegue fornecer, seu papel será eterno. Esse papel, contudo, não corresponde à razão da coisa. A religião não resulta como complemento da insuficiência de conhecimento científico: essa insuficiência já é óbvia pelo simples fato de existir religião.

Ouve-se muito dos motivadores de plantão: “Seu futuro depende de você”. Há uma desejosa liberdade em tomar as próprias decisões, mas, com ela, uma profunda insegurança a ser domesticada e isso também é trabalho de uma vida inteira. As religiões encontram no âmago desse medo uma causa sui generis a cuidar, ofertando o apoio para aquilo que não se explica, mas se sente e precisa ser explicado.

Longe de significar um medo da maturidade, a depressão torna os seres imaturos à margem de um esforço lógico pela superação da insegurança, mas apenas enquanto ativa. Quando esse eclipse da alma finda, dá-se uma maior importância às coisas mais simples da vida, e é então que a gratidão se manifesta sem qualquer artificialidade. Isso lembra uma das frases icônicas do filme Gênio Indomável, de que as crises acordam para as coisas boas que não são percebidas.

Não é preciso seguir uma religião para ter fé, mas é necessário ter fé para seguir a vida. Para os que não têm fé alguma, a vida logo desaparece, de dentro para fora. As pessoas são capazes de acreditar em qualquer coisa quando o desconhecido invade suas vidas para lhes mostrar até onde a lucidez tem ousadia de perscrutar.

As crises existenciais variam de conteúdo e intensidade, metamorfoseiam-se, e a máxima competência de suportá-las reside no fato de que todas as formas que o mal assume são híbridas. Em seu best-seller de terror A Coisa, Stephen King explora o argumento de que um monstro, para ser inteligente e efetivo, deve mudar de estética, hábitos e personalidade conforme as especificidades terrorísticas do pensamento de cada uma de suas vítimas. Todos têm medos únicos, terrivelmente únicos, isto é, demônios que os perturbam e a mais ninguém. Agora, todos esses medos particulares, juntos, dão em um resultado comum: o medo de morrer. É com esse medo que se joga a isca e com a religião se puxa a vara de pescar.

Pode soar ruim, mas sem a morte não há como forjar o significado da vida. As pessoas deixariam de dar conta de suas demandas caso fossem imortais, afinal, nenhuma recompensa valeria o risco e os princípios morais se dissipariam no ar junto com as relações humanas.

Alguns depressivos em enfermidade latente dizem se sentir “possuídos”. Chegam a cogitar uma espécie de maldição, como se estivessem pagando por um castigo do qual nem sabem o motivo. Criam ciclos de autoperpetuação de culpa, e isso concatena visões hostis irreais – contudo, eles não estão acreditando nisso. Essa cegueira moral prepondera sintomas catárticos na saúde mental.

Quando se diz que alguém está iludido, isso parte da noção primal de que se é apto para diferenciar realidade de ilusão. Ora, visto que a realidade não é a mesma para todos, e que uma pessoa iludida pode muito bem dizer à outra que o que enxerga é real, todos, de alguma forma, são iludidos. Um lunático enfrentando um mundo de aparências por muito tempo passará a acreditar que o faz-de-conta é real, até não perceber mais a distinção. O depressivo, embora se sinta lunático, pode enxergar muito bem e aprender coisas extraordinárias se se adapta ao preço da compreensão da angústia. Quem superestima o poder da capacidade criativa do gênio humano tem muito a sofrer. Excesso de consciência. Na Grécia, os que mais se esforçavam para adquirir sabedoria atraíam a raiva dos deuses, que os repreendiam com lições morais irresolutas à combinação da inteligência de todos os homens. “Use o deus dentro de ti, mas não ouse ser deus”.

Cada vez mais se toma antidepressivos. Sobre esses remédios, há muitas reclamações, dentre as principais perda de desejo sexual, sonolência, distúrbios de alimentação (que levam a aumento ou perda de peso), falta de concentração e retardo do raciocínio. Alguns se tornam viciados neles e outros os dispensam por motivos quase sempre sociais. Não existe remédio psiquiátrico inofensivo.

Balancear o descompasso químico com fármacos ajuda apenas parcialmente na recuperação; fatores empíricos são tão ou mais importantes e precisam ser revistos, como os padrões de pensamento que levam à crise, hábitos e qualidade dos relacionamentos atuais.

Mesmo quando se tem certeza de saber exatamente do que se trata, a revisão de conceitos sempre se mostra válida, pois em relação a uma doença traiçoeira como essa nada é tão familiar como parece.

No dia a dia é comum as pessoas experimentarem oscilações de humor dentro de um certo continuum. A ultrapassagem desse terreno estabelece uma condição de emergência anormal, contra a qual se luta instintivamente. Isso gera enorme ansiedade; a pessoa sente como se uma tempestade de chuva ácida caísse apenas sobre si, enferrujando todo seu sistema. Mas ela é de carne e osso.

O deprimido age igual Quasímodo, que evita a sociedade não porque a teme, mas estranha a si mesmo e não quer fazer mal a ninguém. A cara deformada (feiura) e a corcunda proeminente (insegurança) assustam a todos que enxergam nele não uma pessoa, mas uma aberração; não um inteiro, mas um “quase”. Isolado na catedral de Notre Dame, passa o dia inteiro imerso em conflitos internos, e o curioso é que seus melhores amigos são gárgulas falantes: somente pedras se preocupam em ouvi-lo. No filme da Disney, adaptado do livro Notre Dame de Paris, de Victor Hugo, Quasímodo é criado por um arquidiácono que assassinou sua mãe quando ele ainda era um bebê em desmame. Esse arquidiácono é Frolo, o vilão mais complexo já criado pela Disney e que, no decorrer da história, precisa lidar com o remorso pelo crime cometido e ainda se responsabilizar pela educação daquele que se tornou órfão por sua causa. O filme ensina que a matéria-prima de um monstro é o autoengano. Ao plantar na mente de Quasímodo a crença de que este é um monstro, Frolo, um ser blasfemo e covarde por trás da máscara da fé, queria se esconder da própria monstruosidade viva em sua consciência. A mentira usada para enganar a si mesmo causa mais danos morais do que qualquer distúrbio de personalidade.

J.K. Rowling, autora de Harry Potter, sofre de depressão. No terceiro livro da série, O Prisioneiro de Azkabam, ela metaforiza a doença com personagens chamados “dementadores”. O que fazem estas criaturas? Sugam todas as memórias felizes de suas vítimas e reavivam nelas seus piores traumas, deixando-as gélidas, paralisadas e absolutamente aterrorizadas. Quando os dementadores se aproximam de Harry, ele se sente torturado, desesperançado e toda sua magia se esvai como se nunca tivesse existido. Não à toa são os dementadores (espectros da depressão) que atuam como vigias da prisão de Azkabam, onde ficam enclausurados os prisioneiros vencidos pela insanidade. O professor Snape – talvez o personagem mais bem elaborado por Rowling – esconde sua depressão por trás da máscara de ferro que usa ao relacionar-se com os outros. Após as atividades diárias, isola-se em sua masmorra no canto mais inferior do castelo de Hogwarts, a fim de discutir consigo mesmo sobre como aliviar seu passado tão cruel como a imagem que vende. Foi obrigado a aceitar o fato de que o amor de sua vida, Lílian, casou-se com seu pior inimigo, Tiago; e ainda se mói de culpa pela morte dos pais de Harry, tendo acusado a Voldemort a profecia de que este seria derrotado por uma criança. Na tentativa de canalizar ódio e raiva reprimidos, muitos depressivos agem como Snape, solitários em sua capa de aço.

A solitude dos que a bem empreendem se mostra valiosa em termos de autoconhecimento. Mas existe uma solidão patológica: a que coloniza o sujeito em sua própria terra. O solitário feliz cria em sua solidão; o solitário triste é produzido por ela. Para alguns depressivos, experimentar a solidão é como ser arremessado numa selva desconhecida em plena madrugada. Tudo no escuro parece mais assustador do que na claridade do dia.

A solidão também é metaforizada pela imagem do deserto. Só quem experimentou o deserto é capaz de compreender a pequenez do ser em contraste com a imensidão do universo. Um mergulhar direto no isolamento, onde não se é ouvido por ninguém e os corpos celestes apenas prosseguem seu rumo indiferente àqueles que os vislumbram. Fábulas bíblicas relatam que grandes transformações exigem o desprendimento da sociedade. O deserto não é apenas um local de privação, mas também de amadurecimento. Muitos que vão para o deserto nunca mais voltam, é verdade. Se a empreitada fosse fácil, não haveria pelo que se vangloriar.

Exagerado estigma ronda a depressão, e isso é herança de tempos longínquos. No período da Inquisição, acreditava-se que as doenças mentais eram doenças da alma. Os deprimidos crônicos, desesperados por questões além de sua compreensão, duvidavam da ideia de salvação eterna e quem estava de fora julgava que esse temor era consequência direta do ceticismo. Ainda hoje esse tipo de associação é bem comum, dentro e fora dos círculos religiosos.

Não se pode brincar com o sofrimento das pessoas, ainda mais em estado depressivo. Outra coisa desumana é abandoná-las ou evitar contato porque a sua companhia desagrada. Os melhores amigos são reconhecidos no coração negro da angústia, pois este exige a prática de uma boa vontade sólida e irreprimida, enquanto uma amizade supérflua depende tão só do prazer e seu futuro está arruinado desde que esse requisito seja aceito como verdadeiro.

No filme Patch Adams: O Amor é Contagioso, Robin Williams interpreta um homem depressivo e com tendências suicidas. Após uma tentativa de suicídio, ele voluntariamente se interna num hospital psiquiátrico e lá recobre o ânimo estimulando o senso lúdico dos pacientes. De volta à sociedade, estuda medicina para se tornar médico e realizar um sonho: ajudar os outros. Enquanto aplica o método terapêutico do bom humor para restabelecer a esperança dos enfermos, ele mesmo se renova a cada dia. Ao adentrar no vasto universo da medicina, ele descobre que falta um ingrediente ao sistema: humanidade. De nada adiantam as máquinas ultramodernas de investigação de patologias e os incríveis recursos tecnológicos de suporte aos processos medicinais se os próprios médicos não têm vontade de exercer a empatia. Patch descobre três coisas: 1) Todo médico é também um paciente; 2) A morte não é a verdadeira inimiga, mas indiferença; 3) Fazer os outros sorrirem surte um efeito terapêutico mais efetivo do que qualquer benção ou milagre.

O sofrimento ensina mais que o amor, pois quem ama certamente sofre e quem não ama também. Se for para sofrer, que seja pela coisa certa. Pergunta-se muito se a escravidão inerente à sobrevivência faz dos seres de sofrer azarados demais. O sofrimento em si não é algo bonito, mas são lindas muitas causam que o justificam.

A depressão torna difícil a troca afetiva, não por carência de afeto social, mas por interrupção casual da afetividade. Em Edward Mãos de Tesoura, há uma cena em que Peg pede para Edward abraçá-la e ele responde: “Não posso”. Ele se encaminha para a janela, olha tristonho para a lua e a moça se aproxima e lhe dá um abraço.

As pessoas têm sido martirizadas por suas angústias. Onde está a empatia? O ser empático não é capaz de captar com plena exatidão a dor do outro, seja quem for e qual for, mas é capaz de usar sua própria dor para ser empático e, quem sabe, amoroso. Se a dor é um ingrediente do amor e só se tem real empatia amando, um ser ausente de dor não conseguiria ser empático. É incrível como uma pessoa depressiva (ou que convive com uma) se torna hábil para saber quando alguém está em recaída ou prestes a entrar em recaída.

Não é agradável falar sobre depressão, tampouco senti-la. Pior ainda é ver gente perdendo a vida por causa de desinformação e apequenamento do problema.

Os depressivos precisam de pessoas que as acalmem e estejam lá para ouvi-las, não julgá-las. Exclamações moralistas como “Pare de se comportar como um pobre coitado!” ou “Acorde para a vida!” ou “Levante essa cabeça!” são de pouquíssima ajuda e apenas demostram uma indignação que os depressivos não precisam, pois já estão preocupados demais. Passada a crise, eles agradecerão àqueles que os ouviram com paciência e compreensibilidade e não dos que se mostraram implacáveis na emissão de seus juízos finais.

Perguntam se a gente tem emprego, se a gente se casou, mas raramente querem saber se a gente é feliz

Perguntam se a gente tem emprego, se a gente se casou, mas raramente querem saber se a gente é feliz

A maioria das pessoas está preocupada com os próprios problemas, com o quanto poderão consumir naquele mês, ou se o peso do corpo continua o mesmo. Quando conversam umas com as outras, mal estão prestando atenção nas respostas às perguntas superficiais que fazem, porque não se interessam, pouco se importam – trata-se apenas de curiosidade mesmo.

Quanto mais a gente vive, mais percebe que a grande maioria das pessoas não está nem aí, não se importa, não quer saber, tampouco se interessa pela vida do outro. As pessoas correm demais, trabalham demais e se preocupam excessivamente consigo mesmas, a fim de que lhes sobre tempo para sair de sua confortável redoma, onde o eu – e só ele – existe.

E, assim, atravessamos bons dias apressados, boas tardes frios e boas noites desinteressados. Discursa-se sobre a necessidade de haver mais sentimento entre as pessoas; postam-se mensagens e textos virtuais que transmitem amor e solidariedade; leem-se livros de autoajuda, veem-se filmes motivadores. No entanto, na prática, no dia-a-dia, os eus continuam olhando para si mesmos, tão somente para si mesmos, atropelando quem ousar pensar diferente.

O pouco tempo disponível que sobra é lotado de compromissos egoístas, como exames de rotina, malhação na academia ou nos parques arborizados, encontro com colegas de quem pouco se sabe, para embriagar-se e assim tentar se esquecer do que se deixa para trás. Não queremos sofrer, temos horror ao sofrimento, por isso nos afundamos em dívidas, em pílulas da felicidade, em sessões de terapia.

A maioria das pessoas está preocupada com os próprios problemas, com o quanto poderão consumir naquele mês, ou se o peso do corpo continua o mesmo. Quando conversam umas com as outras, mal estão prestando atenção nas respostas às perguntas superficiais que fazem, porque não se interessam, pouco se importam – trata-se apenas de curiosidade mesmo. No máximo, repassarão algo que ouviram, através do “diz que diz”, muitas vezes de maneira puramente maldosa.

Isso, no entanto, não significa que não existe quem seja verdadeiro e confiável, mas serve para que possamos nos abrir a quem de fato se interessa pelo que sentimos. Sempre haverá alguém que torce por nós verdadeiramente, com afetividade sincera. Saber quem são essas poucas pessoas nos dará a certeza de que temos com quem contar, se precisarmos. Nós, obviamente, teremos também que nos abrir, saindo de nosso mundinho, para que partilhemos verdades com quem chega de coração aberto. Somente assim a gente vive sem pesos demais atravancando nossa busca pela felicidade.

Imagem de capa: Billion Photos/shutterstock

O problema do barco furado é que ele costuma afundar a quilômetros da costa

O problema do barco furado é que ele costuma afundar a quilômetros da costa

Sim, você percebeu que tinha um furinho ali, no chão daquele pequeno barco, mas a sua ânsia em começar a tão sonhada viagem fez com que você desconsiderasse esse detalhe.

Você ignorou os sinais claros de que havia algo errado. Você fez vista grossa para coisas desagradáveis. Você entrou nesse barco e remou muito, até que, lá na frente, bem lá na frente, o seu pequeno barco começou a afundar.

O problema do barco furado é que ele costuma afundar a quilômetros da costa. Quando você já remou horrores. Quando a terra desapareceu do horizonte. Quando voltar não parece tão fácil.

Deixar esse barco furado e começar a nadar é a única possibilidade de salvar quem você realmente é, não duvide disso. O único problema é que, diferente da animação do começo da viagem, depois que o barco afunda, você, quase sempre, está exausto e, muitas vezes, sem ao menos um colete salva-vidas.

Sempre que nos encontramos em uma situação assim, quando a verdade não pode mais ser ignorada, ao relembrarmos o nosso trajeto afetivo, é comum que encontremos indícios de que algo não ia bem desde o primeiro dia da relação. Seja essa relação entre amigos ou apaixonados.

No entanto, desconsiderando a lógica, acreditamos, desesperados, que o pequeno buraco no barco iria desaparecer magicamente e que o nosso esforço em manter o barco navegando iria compensar o furo. Ledo engano.

A vontade de fazer tudo dar certo, quase sempre, não nos deixa pensar direito. O desespero em seguir viagem nos faz remar de forma frenética rumo ao que pensamos ser a felicidade, mas que, comumente, está muito longe disso. A ânsia por uma experiência nunca experimentada, no final das contas, pode deixar um gosto amargo na boca.

Ignorar a nossa intuição é o primeiro passo para entrar em um barco furado. Quase sempre estamos certos intuitivamente em relação às pessoas e situações. No entanto, comumente, justificamos racionalmente as faltas dos outros e colocamos panos quentes em situações ruins.

Não só a intuição é poderosa, mas também o autoconhecimento é importante para identificarmos se a relação com aquela pessoa está nos levando rumo aos nossos anseios ou se ela está nos levando para longe de nós mesmos.

Pesquisar o passado do nosso amigo ou crush e verificar padrões repetitivos em relações passadas dele também é muito aconselhável. O que aconteceu com quem veio antes pode fatalmente se repetir.

Entrar em qualquer relacionamento é infinitamente mais fácil que sair. O desgaste emocional que uma relação ruim provoca é imenso e quanto mais tempo você levar para assumir que as coisas não estão bem, mais você terá que nadar para se restabelecer emocionalmente.

É decepcionante dizer não a uma viagem que promete ser o deleite dos prazeres, antes mesmo dela começar, mas isso poupa muito esforço e sofrimento. Nunca se esqueça que o buraco que à princípio é muito pequeno em um barco, com o tempo, só tende a aumentar.

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