As vantagens de ser invisível

As vantagens de ser invisível

O filme “As vantagens de ser invisível”, baseado em livro homônimo de Stephen Chbosky (em inglês “The perks of being a wallflower”), narra as pequenas (porém grandes) batalhas diárias de um adolescente que ao sentir-se invisível, deseja inclusão. A maneira leve como temas importantes são abordados é cativante, apesar de aparentemente tratarem-se de problemas simples enfrentados na adolescência, como fazer novos amigos, pertencer à um grupo e até um primeiro amor, o filme aborda ainda temas mais complexos, como traição, preconceito, morte, abuso sexual e distúrbios mentais.

Talvez as mensagens mais importantes do filme venham de um sentimento de “não pertencimento” e dos questionamentos feitos pelo protagonista, Charlie, enquanto observa quanto esforço é feito por muitos nessa ânsia de “pertencer”. O menino, que se sente invisível e excluído, encontra refúgio emocional em um grupo de amigos igualmente deslocados.

Charlie, em sua maneira “deslocada” de olhar a vida encontra dificuldade em entender porque pessoas tão especiais escolhem amores tão fragmentados. Ele não compreende, por exemplo, o que sua melhor amiga Sam (por quem ele se apaixona) vê no namorado, um cara que a trata tão mal. A própria Sam se faz o mesmo questionamento: “Por que eu, e todos quem eu amo, escolhem pessoas que as tratam como se fossem nada?”.

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O menino resolve então perguntar ao seu professor de literatura, a resposta que ele lhe dá é certeira, ainda que complexa na prática:

“Charlie, nós aceitamos o amor que achamos que merecemos.”

A beleza do filme está justamente na maneira invisível como Charlie caminha perante a vida, em simples entendimentos do óbvio que, na atualidade, tornou-se não-óbvio, como a lógica da matemática do amar e ser amado, que parece ter transformado-se em uma equação de subtração e não de adição.

O filme aborda, ainda que sutilmente, um tema que é fundamental para todo e qualquer ser: a necessidade de pertencimento. Pertencer é uma necessidade básica de todos e por trás de nossas escolhas e ações existe uma busca em sermos aceitos e reconhecidos, uma busca por inclusão. E talvez também, a maioria das brigas e desavenças da humanidade surjam quando não nos sentimos incluídos, ouvidos, contemplados. Pois até na revolta ou no isolamento existe uma vontade, mesmo que escondida, de pertencimento.

E assim um dos maiores desafios do ser humano, enquanto ser único e irrepetível, está justamente em encontrar esse equilíbrio entre pertencer, sem perder sua essência, sem perder-se. Porque a beleza existe na autenticidade e nas diferenças e não na mesmice. Portanto, algumas perguntas, não feitas pelos personagens, também surgiram através da leitura do filme:

Por que é preciso perder-se para poder pertencer?

Por que precisamos deixar adormecidas, camufladas, mascaradas partes tão essenciais de quem somos para tornarmos visíveis ao olhar do outro? Quantos amores fragmentados devemos aceitar para sermos amados?

Qual é o limite da barganha?

As perguntas ficam sem respostas, porque as respostas, como sabemos, são muito diferentes e pessoais. Mas, é bom lembrar, como diz o título do filme, em algumas circunstâncias, ser invisível pode sim ter muitas vantagens.

Imagem de capa: Reprodução

A cegueira de Saramago

A cegueira de Saramago

E se nós todos fôssemos cegos? Esse foi o questionamento que levou José Saramago a escrever o seu livro de maior sucesso – “Ensaio sobre a cegueira” -, em que trabalha, sob uma perspectiva filosófica e sociológica, problemas da vida moderna, a partir da metáfora da cegueira.

Para o escritor português, a resposta à pergunta veio rapidamente, pois, em verdade, já estamos cegos; cegos da razão, já que, embora dotados de inteligência, não a usamos para instruir nossas vidas.

A cegueira é apresentada, na obra, como uma doença não diagnosticável chamada de “cegueira branca”, a qual se alastra com imensa velocidade. Assim, pouco a pouco, todos vão ficando cegos, com uma única exceção: uma mulher (mulher do médico). Antes da generalização da cegueira, os primeiros a se cegarem são isolados numa espécie de quarentena, demonstrando, desde já, a cegueira que todos já se encontravam, pois o isolamento era a atitude mais fácil a ser tomada, como se aquelas pessoas fossem frutos podres que deveriam ser exterminados para o bem da árvore.

Na quarentena, eles são tratados como animais e, rapidamente, assim se tornam. Parece-me que, em situações extremas, escassas, os homens são tomados por atitudes primitivas e animalescas. A escassez leva à disputa por espaço, comida, privilégios e poder. O instinto de sobrevivência parece sobrepor-se à razão, pois

 “[…] quando a aflição aperta, quando o corpo se nos demanda de dor e angústia, então é que se vê o animalzinho que somos”.

Embora, naquela condição horrível em que se encontravam, não residiam sentimentos de redenção, como o coletivismo e amizade (raras exceções), mas antes, o egoísmo; primeiro, daqueles (Estado) que isolaram os cegos e os tratavam como animais; e depois, dos próprios cegos que, ainda que na mesma situação, não possuíam a menor empatia. O egoísmo faz com que a situação torne-se ainda pior e evidencia o quão forte é essa característica, a qual nos parece intrínseca e permanente como uma pele, como se

 “[…] ainda está por nascer o primeiro ser humano desprovido daquela segunda pele a que chamamos egoísmo, bem mais dura que a outra, que por qualquer coisa sangra.”

Conforme o tempo passa, a cegueira se alastra e o caos aumenta. A animalidade torna-se mais aflorada e, como se estivessem no estado de natureza de Hobbes, movidos pelo conatus, pelas suas paixões egoístas, cada um busca a sua sobrevivência, sem preocupar-se com o outro.

Nessa cegueira generalizada, apenas uma mulher mantém a visão, e, por ver, sofre duplamente. Como a única que continuou a enxergar, vivenciou a cegueira que as pessoas se encontravam, mas não somente a física, como também aquela manifestada por Saramago. Ela vivencia a falta de visão que as pessoas têm em relação à realidade, à falta de sensibilidade, de enxergar o problema do outro como um que poderia ser seu, essa incapacidade constante que o homem tem de colocar-se no lugar do outro, ou, como prefere Erich Fromm, a incapacidade de amar.

 “É desta massa que nós somos feitos, metade de indiferença e metade de ruindade.”

“A mulher do médico” vivencia a miséria humana, o que somos capazes de fazer para manter a nossa potência, o quanto egoístas somos e o quão difícil é demonstrar o mínimo de compaixão, isto é, sentir a dor com o outro. Essa realidade demonstrada não difere muito da que os personagens viviam antes de cegar, assim como não difere da nossa realidade, uma vez que já vivemos em um mundo de conflitos, egoísmo, medo e isolamento. Não é preciso cegar para entender que lutamos por espaço e poder; que lutamos pela sobrevivência na selva de pedra; que nos tornamos descartáveis.

As únicas coias que importam são as que abastecem o nosso ego. Dificilmente nos preocupamos com o bem coletivo ou se alguém será prejudico por nossas atitudes. De fato, Saramago está certo, todos já estamos cegos. Não foi a cegueira que transformou os homens em animais, eles já eram animais, já viviam em conflito, apenas não viam.

Mas, se estes não viam, havia uma que, podendo olhar, via e, vendo, reparava e, por isso, também sofria, pois entendia que possuía a responsabilidade de ter olhos, quando os outros os perderam; de contribuir para, no mínimo, acalentar os que não veem, tentando mostrar-lhes o caminho e lhes abrir os olhos. A mulher do médico representa a esperança, diante de um mundo cada vez mais burocrático e chato; egoísta e mesquinho.

Isolados nas nossas bolhas, não conseguimos olhar para o lado e, contraditoriamente, em plena era da informação, cada vez menos nos comunicamos; e, quando digo comunicar, não me refiro a dizer palavras lançadas ao vento, mas partilhar algo, tornar comum, afetar o outro e ser afetado.

A reflexão que Saramago nos propõe é desafiadora, pois nos faz questionar o que somos, qual a essência da nossa natureza e qual a responsabilidade de ter olhos, quando os outros os perderam. A metáfora da cegueira branca encaixa-se perfeitamente com a vida moderna (ou pós-moderna), em que não conseguimos enxergar a sociedade doente que nos circunda; a sua fragilidade; a nossa fragilidade; e que, embora tenhamos, hoje, condições de melhorar a vida, esta parece perder o valor.

Para aqueles que ainda não sucumbiram e conseguem pensar fora da caixinha, a de se considerar que precisamos refletir sobre o modus vivendus contemporâneo, sobre o que nos tornamos, sobre o que somos, e entender a responsabilidade de ter olhos, quando os outros os perderam. Pois,

 “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”.

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Há pessoas que se amam de verdade, mas não estão juntas

Há pessoas que se amam de verdade, mas não estão juntas

Quando nos lançamos ao encontro do outro, teremos que trazer para dentro de nossas vidas tudo o que ele traz, tanto aquilo que nos satisfaz, quanto o que nos desagrada. Não existe nada que o passar do tempo não desmascara, não traz à tona, não torna claro, mesmo que à nossa revelia. Da mesma forma, estamos sujeitos a mudar de opiniões, a mudarmos nosso comportamento, pois assim é a vida. E, nesse contexto, não raro mudamos de forma a desagradar quem estava acostumado com o antigo eu.

A convivência diária acaba nos obrigando a enfrentar tudo o que somos, o nosso melhor e o nosso pior, uma vez que existem pessoas ali bem perto, que recebem imediatamente os reflexos de nossas atitudes. Porque, quando compomos uma família, já não podemos agir, sem que isso se estenda ao cônjuge e aos filhos, cujas vidas se ligam às nossas com proximidade e carga emocional intensa.

Caso não prestemos atenção aos anseios e necessidades de quem  caminha ao nosso lado, por conta da priorização exclusiva do que queremos, sem levar em conta as vidas que nos rodeiam, dormem e acordam ao nosso lado, iremos nos distanciar cada vez mais de nossa família, de corpo e alma. O amor é troca, é ida com volta, é dar e receber, ou seja, não permanecerá onde não encontre contrapartida sincera, retorno de olhares, de toques, de sonhos.

Por isso é que muitas pessoas se separam, mesmo que ainda se amem. Não deixaram de se amar, mas pararam de prestar atenção nos olhos de quem torcia ali bem juntinho, cessaram o apertar das mãos que se tateavam em vão por entre a escuridão dos lençóis frios, deixaram de construir aqueles sonhos bobos, mas essenciais à continuidade dos passos harmoniosos, dos desejos em comunhão. E assim se perderam de si mesmo e do outro.

Portanto, é necessário que sejamos mais fortes do que a dureza desarmônica do dia-a-dia e do cotidiano maçante, que muitas vezes assolam nossos sentidos, desconstruindo nossos sonhos e nos desviando de nossa busca pela felicidade junto de alguém, inclusive de alguém que já está ali do nosso lado, pronto para lutar junto, sonhar junto, crescer junto. Triste não podermos caminhar de mãos dadas com quem amamos, mas ainda mais desolador é ver o amor de nossas vidas se afastando por conta de tudo o que deixamos de fazer.

Imagem de capa: nd3000/shutterstock

Amar é catarse

Amar é catarse

Relacionamento bom é aquele que tem vida. E vida é sinônimo de movimento.

Tem gente que acha que um bom namoro, casamento ou mesmo amizade é aquela onde existem acordos bem definidos, deveres e direitos estabelecidos, leis muito claras, pessoas sujeitas a punições e recompensas caso ajam fora ou dentro dos moldes cirúrgicos do amor ou da amizade.

Eu fico pasma, mas ainda existe gente que acredita em pintar o amor com as cores da perfeição, colocar no dia a dia o ser idealizado e viver frustrado para sempre ao ver o outro quase nunca sendo capaz de cumprir esse papel.

Para mim relacionamento bom é cíclico, é espaço para amor e descobertas, companheirismo e crescimento, troca e, por vezes, individualidade. É movimento, é caos e calmaria. Tudo no mesmo território. É ficar bem pertinho do lado humano do outro a ponto de deixar aflorar fadas e monstros. A ponto de querer a plenitude do ser e ver beleza nisso. A ponto de se deixar ser livre, a si mesmo acima de tudo. Livre para falar, para expressar, para agir, para ser e sentir tudo o que surgir.

Relacionamento bom pra mim tem jeito de choros e risos, taças vazias de vinho, comidas malucas feitas à quatro mãos, tardes de domingo de conversas e consolos, segundas-feiras descabeladas, desencontros, reencontros, olhos nos olhos do começo ao fim.

Mais importante do que querer colocar todos os pingos nos ‘is’ e ter controle de tudo (ou pensar que se tem!) é dar um abraço ou um espaço para que sentimentos respirem e fluam pelos ares da casa. É ceder um ouvido, uma fala de alívio, não uma verdade, não uma sentença, não uma vingança, apenas um silêncio e um respeito com a incansável maré da vida que ora nos explode de emoções e ora nos deixa amáveis e amando feito noite de primavera.

Porque eu acho que amor sem espontaneidade é como dormir de sutiã. E paixão sem possibilidade de expressão é como um furacão de flores guardado debaixo do tapete. E amizade regrada é a mesma coisa que ficar na fila do banco esperando para pagar o cartão de crédito vencido.

Não são os defeitos, as divergências, os problemas que mais destroem relacionamentos, é o tédio! A chatice conjugal. A falta de habilidade e criatividade para recolorir os dias, é o comodismo nos atos mecânicos. O esquecimento de que a vida pode ser mais interessante, curiosa, dinâmica e verdadeira.

Então, eu espero que os nossos relacionamentos sejam chuvosos, montanhosos, ensolarados, dinâmicos, transbordantes e sorridentes. Samba de Cartola com Dorival Caymmi.

Amar é Catarse!

E assim, alguém poderá dizer que eles foram felizes, tristes, loucos, sãos, confusos, coerentes, espontâneos, mutantes e vivos até que uma morte os separe.

Imagem de capa: Leszek Glasner

Ela quer parceria, cara

Ela quer parceria, cara

Cara, não sei em quantos amores você já investiu alguma coisa mas, vamos ser honestos, se você não chegar na vida dela para somar e entregar uma parceria que tire os pés dela do chão, melhor ir correr atrás de outro coração.

Entenda, ela não quer um amor que só faça mimos e preencha os seus dias de cuidado. Ela quer uma parceria que respeite e fique feliz com os planos dela. Que não faça jogos e chantagens emocionais pelo prazer de estar certo. Isso tudo é pouco e ela está cansada de saber como funciona. Reciprocidade é uma disposição que você deve proporcionar em todos os dias ao lado dela. Não é só quando você quer, não. Não adianta vir depois com desculpas e promessas de instantes melhores. Um amor assim não enche barriga, viu?

Ela espera, melhor, ela merece que você tenha paciência, ternura e tesão por fazer parte da sua vida. E não, ela não é louca. Louco é você que finge não se importar. Que prefere apontar defeitos em vez de admirar as qualidades dela. Ela tem nome, bagagem e muitos sentimentos para compartilhar. Se não te interessa, se é difícil para você escutar e aprender com tudo que ela já passou, siga em frente. Não a prenda nos teus egos. Ela é livre, cara. A única diferença é que, depois de um tempo, ela permitiu que você fizesse parte da liberdade dela. É aí que mora o significado do amor.

Se ela quisesse um amor faz de conta tinha encomendado, passava o cartão, parcelava em várias vezes ou simplesmente pediria indicação para as amigas. Ela não quer o cara perfeito, entende? É parceria. Tudo se resume a parceria. É segurar nas mãos dela, apoiá-la nos seus sonhos e fazer todo o possível para que ela saiba, diariamente, que não está sozinha. Que você quer vê-la feliz antes de qualquer desejo passageiro que tenha.

Cara, me diz que você está entendendo. Te garanto que não é em um aplicativo e nem na casualidade da vida que você encontrará uma como ela. Se ela já sorriu para você com o olhar, acredite, é amor o que ela disse. E se ela disse, ela sente. E se ela sente, cara, que sorte a sua.

Imagem de capa: Pinterest

7 informações vitais sobre o que fazer se você conhece alguém que tem depressão

7 informações vitais sobre o que fazer se você conhece alguém que tem depressão

Dedico esse texto ao meu colega de profissão Diego Calori, que com sua palestra sobre o tema depressão da última semana, me fez refletir sobre dezenas de exemplos vividos durante meus anos de atendimento clínico. 

Vamos lá: 

Primeiro passo para quem quer ajudar: leia esse artigo com atenção.

A depressão é uma doença séria e que vem aumentando ano após ano em praticamente todo o mundo. A lógica do aumento prova que nós não estamos sabendo como lidar com ela e que nossas atitude em relação a doença também não tem sido as mais acertadas.

É muito importante deixar claro que, para qualquer caso de depressão, quanto mais rápido a pessoa iniciar o tratamento, melhor serão as perspectivas de melhora e menos graves se tornarão os casos ao longo do tempo.

Informação, aceitação, consciencialização e diminuição do preconceito são fundamentais para o processo de melhora individual e da sociedade como um todo.

Abaixo listo 5 erros comuns quanto falamos com uma pessoa que tem depressão e, em seguida, qual seria uma sugestão de postura mais acertada a ser tomada.

 

1- Não ouvir o que o outro tem para dizer:

 

ERRO: As pessoas têm muita dificuldade em ouvir o que o outro fala. Muitas vezes nós até pensamos que estamos ouvindo nossos amigos e colegas, mas, na verdade estamos apenas esperando uma chance de falar sobre nós mesmos. Ouvir verdadeiramente significa permitir que o outro diga o que pensa e o que sente antes que tentemos oferecer soluções, comparações ou exemplos de nós mesmos. Ouvir ao outro é deixar ele ser ele mesmo, com tudo de bom ou ruim que ele estiver sentindo naquele momento.

O QUE FAZER: Manter-se em silêncio, em escuta atenta e gentil, é uma das grandes demonstrações de afeto que podemos oferecem às pessoas que amamos. É preciso treino para calar, é preciso humildade para não oferecer ao outro soluções imediatas que, muitas vezes, não servem nem para nós mesmos. Quando ouvimos atentamente, nós permitimos que todo um pensamento seja construído e, só assim, tanto a pessoa que fala quanto aquela que escuta poderá formular uma ideia que depois será melhor explorada. Ouvir, ainda, mostra para pessoa que nós “aguentamos” a sua dor, que nós a “respeitamos” mesmo nesse lado não tão bonito. Ouvir mostra que entendemos que ela não tem que ser forte e nem perfeita o tempo todo. Ouvir é estar lá para e com a pessoa antes de qualquer julgamento ou ação.

2- Julgar, tentar mensurar ou mesmo invalidar a sua dor.

 

ERRO: Existe uma tendência, frente a qualquer problema apresentado, a compará-lo com nossos próprios problemas ou com outras questões da humanidade que, na teoria, seriam mais graves. O erro se encontra em presumir que você pode julgar a dor do outro ou mesmo que, por já ter passado por uma situação pareceria, você tem todas as respostas que essa pessoa precisa.

Outro problema relacionado a depressão é que, muitas vezes, a pessoa nem sabe ao certo o que a está incomodando. Frases como “Vocês não tem do que reclamar”, “Veja a situação de fulano que é muito pior que a sua”, “No dia em que você tiver um problema de verdade, aí sim terá motivos para reclamar”, além de pouco empáticas, são cruéis e desrespeitosas com a dor do outro. Afinal, se você não autoriza a pessoa a sentir, como acha que poderá ajudá-la a melhorar? Com julgamentos como os exemplificados acima, a única coisa que conseguimos é criar constrangimento e pessoas que tentam esconder o seu adoecimento porque sabem que não serão entendidas. Ajudar nunca será fazer uma pessoa sentir vergonha por estar doente.

O QUE FAZER: Reconheça o sofrimento do outro sem compará-lo ou desvalorizá-lo, mesmo que coisas assim passem pela sua cabeça! Quem quer ajudar deve entender que falar das “crianças que passam fome na África” não diz nada para essa pessoa nesse momento. A pessoa adoecida não consegue perceber essas comparações.

Explico:  Pense, por exemplo, em uma pessoa que tem um dedo cortado em um acidente. É necessário que ela seja socorrida e não importa se outra pessoa teve a perna cortada. O dedo, naquele momento, terá que ser tratado, serão necessários pontos, ela viverá um luto pela perda. É o seu dedo e somente ele que importa naquele momento.

É preciso que você saiba que, quando a pessoa está adoecida, ela possui muita dificuldade em ver as coisas de maneira mais global. A pessoa fica mais lentificada e mais voltada para si mesma. Ela tem dificuldade de ver ao outro e TUDO ISSO FAZ PARTE DA DOENÇA e não tem nenhuma relação com egoísmo. Dar um “choque de realidade”, como muitos gostam de chamar, terá muito mais chance de ser uma agressão do que trazer qualquer benefício a médio e longo prazo. Normalmente, esse tipo de postura só gera culpa e sentimento de inadequação na pessoa adoecida.

3- Culpar a pessoa pela sua própria dor. 

Erro- procurar culpados. Depois que um problema está instalado, no momento do adoecimento, não é a hora de condenar a pessoa pelo que teriam sido “más escolhas”. Tenha certeza que, se existiram más escolhas, a própria pessoa estará se culpando e o julgamento não caberá a você. Um exemplo importante para ser dado e que merece muito cuidado é não misturar adoecimento com fé. Pessoas que têm fé e amam a Deus também têm depressão! Nunca digam que uma pessoa está doente porque se afastou da igreja. Isso só gera perseguição e, mais uma vez, culpa.

O que Fazer- Ouça, não julgue, esteja presente. Se existe algo que a pessoa gostava de fazer e não está fazendo, mesmo que ligado a religião como no exemplo acima, você pode fazer convites para pequenas ações, mas tudo de forma gradual. Lembre-se que a pessoa que está adoecida não está sentindo a vida da mesma forma que sentia antes, logo, ela precisa de estímulos, mas pode “espanar” se você insistir demais.

4- Competir com a sua dor

 

Erro: Achar que você tem que dar os seus próprios exemplos. Achar que os seus exemplos são mais graves. Medir força pela sua desgraça ou pela desgraça de outras pessoas. Exemplo: Se a pessoa perdeu um filho de 10 anos, você não tem que dizer que sua vizinha perdeu dois filhos com 3 e 5 anos. Isso não ajuda ninguém nesse momento.

O que Fazer: Se falamos da necessidade de ouvir, de não julgar e nem de competir, o que resta é estar verdadeiramente disponível para a pessoa. Muitas vezes aquele que mais ajuda não é aquele que fala e sim aquele que está presente, e que oferece um café, que disponibiliza um sorriso e, principalmente, que sabe que nas relações verdadeiras existem momentos em que uma das partes estará mais fragilizada do que a outra e, nessa hora, saberá que será o seu momento de doação. Isso é amor.

5- Achar que, pelo fato da pessoa estar bem em um dia, isso significa que ela dissimula os outros dias em que não está bem.

 

Erro: Erramos pelo excesso de julgamentos, mas também erramos pelo excesso de expectativas e falta de conhecimento. Saber mais sobre a doença e sobre como ela funciona, como você está fazendo agora ao ler esse texto, permite que você reaja melhor frente aos momentos de melhora e recaídas de quem está em tratamento.  A informação sempre será uma arma a seu favor e a favor da pessoa adoecida. O desconhecimento dá margem para atrocidades.  Lembro-me de um exemplo de uma paciente que eu acompanhava em um serviço de saúde e que estava afastada do trabalho por síndrome do pânico. Certo dia, em um momento de melhora, a jovem foi ao shopping com algumas amigas e colocou uma foto nas redes sociais. Isso era ótimo! Ela saiu e se divertiu por algumas horas. Essa foto, entretanto, foi usada pela empresa em um processo para dizer que a jovem estava simulando o adoecimento. Com isso tudo o que conseguiram foi uma cronificação ainda maior do caso onde a jovem passou a ter medo de demonstrar qualquer alegria em ambientes públicos, pois poderia ser julgada como mentirosa e punida. A ansiedade aumentou e o quadro piorou. Esse é um exemplo de como a desinformação sobre a doença (da empresa e dos advogados, nesse caso) gerou prejuízos pessoais e sociais. Agora, antes de perguntar para uma pessoa que está afastada por adoecimento sobre como estão as suas férias, recomendo que reflita sobre o peso de uma frase dessas: Ela é fruto de ingenuidade ou julgamento? Erro muito importante, também, é achar que a depressão apenas se manifesta na tristeza. É comum, principalmente em idosos, sintomas de irritabilidade. Ou seja, mais informação sempre!

O que fazer: Os momentos em que a pessoa está melhor são grandes oportunidades para que ela comece a se lembrar de como era a vida antes do adoecimento e volte a ter uma melhor expectativa referente ao seu futuro. Os dias melhores são a prova de que vale a pena continuar!

6- Ter expectativas irrealistas

Erro: Existe uma grande expectativa relacionada a qualquer adoecimento porque nós tendemos a relacionar doenças a coisas que devemos tratar por um tempo e, depois disso, o problema acaba. Isso acontece com uma dor de ouvido, com uma inflamação de garganta. Mesmo com um braço quebrado que, após o uso do gesso, mais uma vez se calcifica. Na depressão, entretanto, nunca sabemos exatamente qual será a evolução da doença e, para piorar, ainda temos a questão de não existir um osso quebrado, ou uma ferida aparente para indicar uma evolução da cicatrização. Muitas vezes o tratamento levará meses ou até anos. Algumas pessoas se mantem em tratamento ao longo de toda a vida. O que é mais importante aqui não é o tempo de tratamento porque isso não importa, o que temos que ter em mente é que qualquer pessoa viva quer e procura qualidade de vida. Logo, se para que essa pessoa tenha mais qualidade de vida ela deve ser medicada em algum momento, devemos abrir nossos olhos e nos despirmos de preconceitos. Nunca incentive uma pessoa que toma medicação para depressão (ou qualquer outra patologia) a parar com uma medicação sem o consentimento de seu médico.

O que fazer: Incentivar ações de cuidado. Seja o acompanhamento com psicólogo e/ou com médico psiquiatra. Seja a prática de alguma atividade física, seja a retomada de algo que gosta de fazer, mas sempre tome muito cuidado para não misturar as coisas. Cada atividade tem a sua função e uma coisa não substitui a outra.

7- Abandonar ou dar a ausência pedida

Erro: Se você percebe que o seu amigo, conjuge ou familiar está adoecido por uma doença que afeta o seu humor em diversos momentos, você também tem que levar em consideração que essa doença também pode afetar a sua capacidade de julgamento do que são as melhores escolhas para si. Isso não quer dizer que a pessoa não esteja lúcida ou que esteja “louca”, não é isso, mas ela pode não estar suficientemente apta para tomada de diversas de decisões que afetam diretamente o seu bem estar. Uma pessoa com depressão moderada ou grave pode passar dias sem tomar banho ou se alimentar, por exemplo. Ou seja, estamos falando de alguém querido que pode precisar de uma ajuda que, naquele momento, ela pode dizer que não quer.

O que fazer: Esteja presente da forma que for possível. Ligue, passe na casa para dar uma olhada se está tudo bem, observe se tem algo faltando, alerte outras pessoas próximas se for preciso. Veja se a pessoa está se cuidando e fazendo tratamento (indo as consultas, tomando os remédios, etc). Um dos grandes problemas da depressão é que a pessoa, por estar sem energia, abandona o tratamento, logo, uma das grandes demonstrações de afeto que você poderá dar é não abandoná-la nesse momento.

Esteja presente.

Segundo passo para ajudar.  Compartilhe esse texto com o maior número possível de pessoas.


Nota: as informações acima trazem conteúdos escritos de forma informal e visam apenas a informação pública preventiva. Nenhuma informação publicada em meios de comunicação substitui a avaliação, diagnóstico e acompanhamento de um profissional.

Imagem de capa: Africa Studio/shutterstock

Tranquilize-se- Rubem Alves

Tranquilize-se- Rubem Alves

Então você está com medo porque acha que a sua vida está prestes a desmoronar: paredes que você considerava firmes estão fora de prumo, há sinais de rachaduras no reboco, as lâmpadas no teto balançam sugerindo terremotos que se aproximam, pensa até em mudar para outras paragens, ninguém segura terremoto, você escora as paredes mas não põe muita fé no que está fazendo, escora outras, mas você é fraco demais para tanta confusão, parece que tudo é inútil, as coisas não se encaixam, sua alma se agita, há muito que você não conhece a felicidade de uma noite de sono feliz, cada manhã é uma angústia, seu corpo está perturbado, faz coisas que não deveria fazer, fere pessoas por onde passa, justamente as pessoas que você ama e que são a razão de ser da sua vida. É triste isto: que frequentemente sejam as pessoas amadas as que vão receber o veneno que se ajuntou em nós. Aí, ao sentimento de catástrofe junta-se o sentimento de culpa, como se você fosse a causa de tudo o que existe de errado.

Quando isso ocorre, a gente começa a sentir raiva e dó da gente mesmo. Essa combinação de sentimentos é letal. Uma vez vi uma maria-fedida chupando os sucos de uma lagarta: enfiou dentro dela uma pequena tromba e foi chupando, chupando, do mesmo jeito que se chupa iogurte com canudinho. A lagarta foi esvaziando até ficar como um saco de pele vazio. Cuidado! Os sentimentos de autopiedade podem fazer com você o que a maria-fedida fez com a lagarta: eles nos exaurem de nossas energias.

Aconselho-o a tomar um banho frio. Banho quente não. Dá moleza. Fuja de quem tem dó de você e deseja consolá-lo. Prefira a voz dura do bruxo D. Juan. O aprendiz de feitiçaria, Carlos Castanheda começou com uma conversa choramingas e logo recebeu do feiticeiro um golpe: “Sua cabeça é um saco de lixo. Você precisa ouvir a sabedoria da morte. A morte é a única conselheira sábia que temos. Sempre que você sentir, como você sente sempre, que tudo está errado e que você está prestes a ser aniquilado, volte-se para a sua morte e pergunte-lhe se é assim mesmo. Sua morte lhe dirá que você está errado. Nada realmente importa, fora do seu toque. Sua morte lhe dirá: ‘Eu ainda não o toquei’”.
A morte ainda não o tocou. Portanto, seus motivos de queixa não têm importância. Mais cedo ou mais tarde seus problemas vão se resolver, de um jeito ou de outro.

Há dois tipos de problemas.

Primeiro, os problemas reais: uma cólica renal, uma goteira, uma conta para pagar, uma perna quebrada, um pneu furado, os pratos do jantar para lavar, um amor que não deu certo, uma pessoa querida que morreu.

Esses problemas se resolvem de duas formas. Os pratos a gente lava, o pneu a gente troca, a perna quebrada se encana. Problemas que devem ser resolvidos sem reclamação e sem muito falatório, pois reclamações e falatórios, além de nada contribuírem para a solução dessas contrariedades, só servem para produzir irritação. Os faladores são especialistas nisso.

Outros não têm solução. O amor que não deu certo, a pessoa querida que morreu: só resta chorar. E o importante é enxotar os consoladores, que são a praga-mor daqueles que estão sofrendo. Os consoladores acham sempre que suas tolas palavras são capazes de encher o vazio do sofrimento.

Problemas, sofrimentos, frustrações são partes da vida. Não é possível evitá-los. Mas é possível sofrê-los com sabedoria.

Por isso cuide de seu corpo e de sua alma. Frequentemente as pessoas me perguntam: “Tudo bem?”. Eu respondo: “Nem para Deus, todo-poderoso, as coisas vão bem. As coisas não vão bem mas eu vou bem”. É como no avião: lá fora está uma terrível tempestade, nuvens pretas, não se vê nada, os raios iluminam o escuro, o avião pula como um cavalo bravo. E eu, já que não posso mesmo fazer coisa alguma, tomando o meu uisquinho. O medo é enorme. Mas entre medo sem uísque e medo com uísque, prefiro a segunda alternativa. Na vida é assim: tudo vai mal, mas preciso que o corpo e a alma sejam um centro de tranquilidade.

Mas essa tranquilidade não acontece por acaso. Ela é o resultado de disciplina.

Sugiro que o primeiro ato do seu dia seja um ato de defesa. Há uma série de encheções à sua espera: listas de coisas para fazer, compras, providências práticas, crianças a serem levadas à escola. Claro, você não poderá fugir dessas responsabilidades. Mas não deixe que sejam elas as primeiras a entrar dentro do seu corpo. Lide com elas com a sobriedade Zen. Caso contrário, elas tomarão conta do seu corpo e da sua alma e se transformarão numa legião de demônios a atormentá-lo através do dia.

Tire quinze minutos da manhã, antes de fazer qualquer coisa. Não é muito tempo. E você merece. Ponha uma música pra tocar. Há tanta coisa bonita. O canto gregoriano, as sonatas de Scarlatti, as sonatas para violino e piano de Bach, as mazurcas de Chopin (pura brincadeira), as Cenas infantis ou as Cenas de floresta de Schumann. Esses são gostos meus. Você terá os gostos seus. O importante é que, no início da manhã, a música seja cheia de paz.

Enquanto você ouve a música, leia. Estou me deleitando com a leitura do livro de Eclesiastes, e estou mesmo me atrevendo a uma tradução poética minha: “Neblinas, neblinas, tudo são neblinas”, diz o poeta. “O homem, por mais que trabalhe, poderá por acaso produzir algo sólido, que não seja neblina? Uma geração passa, outra geração lhe sucede – como a neblina; somente a terra permanece…”.

Esse sentimento de que tudo é espuma e areia tem um efeito tranquilizador. Tudo é neblina, tudo é espuma. Pense na praia, ao final do dia, arrasada pela praga dos humanos que a violentam de todas as formas possíveis. Vem a noite. A solidão. Sobe a maré. Pela manhã a praia é uma pele lisa, jovem, sem nenhuma cicatriz. Toda a loucura humana foi esquecida. Pois assim mesmo é a vida: tudo será esquecido – de sorte que não vale a pena nos afligirmos.
E reze o poema de Ricardo Reis, resumo da minha filosofia de vida:

“Mestre, são plácidas todas as horas que nós perdemos, se no perdê-las, qual numa jarra, nós pomos flores. Não há tristezas nem alegrias em nossa vida. Assim saibamos, sábios incautos, não a viver, mas decorrê-la, tranquilos, plácidos, tendo as crianças por nossas mestras, e os olhos cheios de natureza. À beira-rio, à beira-estrada, conforme calha, sempre no mesmo leve descanso de estar vivendo. O tempo passa. Não nos diz nada. Envelhecemos. Saibamos, quase maliciosos, sentir-nos ir. Não vale a pena fazer um gesto. Não se resiste ao deus atroz que os próprios filhos devora sempre. Colhamos flores. Molhemos leves as nossas mãos nos rios calmos, para aprendermos calma também. Girassóis sempre fitando o sol, da vida iremos tranquilos, tendo nem o remorso de ter vivido”.

Igual ao sábio das Escrituras é a Cecília Meireles: se a morte ainda não o tocou, trate de aprender a viver com sabedoria. A sabedoria não é garantia de felicidade. A vida não oferece garantias de felicidade para ninguém. Como disse Guimarães Rosa, “felicidade só em raros momentos de distração”. Mas a sabedoria nos livra dos sofrimentos provocados pela nossa própria loucura. Quem é sábio sofre pelas razões justas e, por isso mesmo, sofre com tranquilidade. A sabedoria nos traz paz de espírito. Que é aquilo que mais o coração deseja. Paz de espírito é como um campo batido pelo vento, como um riacho de águas limpas, como uma borboleta pousada sobre uma flor.

A cabeça é um útero terrível. Dela tanto podem sair flores e borboletas quanto charcos e escorpiões. De vez em quando ela é invadida pelos demônios das catástrofes e dos horrores – e aí não existe corpo que aguente. Os tais demônios são produtores de filmes, que ficam sendo exibidos em sessão contínua em nossa cabeça.

Imagem de capa: marvent/shutterstock

Os gritos causam danos ao cérebro infantil

Os gritos causam danos ao cérebro infantil

“Por ignorância caímos na escravidão, pela educação alcançamos a liberdade”, disse certa vez Diego Luís de Córdoba. No entanto, a educação das crianças não tem nada a ver com a imposição e com os gritos. Na verdade, os gritos podem causar danos significativos no cérebro infantil.

Educar gritando não traz nenhum benefício para as crianças, ou pelo menos é o que demonstram alguns estudos. Por trás de muitos desses gritos está a impotência dos pais para transmitirem a informação que desejam. Os gritos são uma liberação de energia e não conseguem transmitir a mensagem que os pais desejam impor para as crianças.

“Diga-me e eu esqueço, ensina-me e eu me lembro, envolva-me e eu aprendo”.
-Benjamin Franklin-

Os gritos da impotência

Alguns autores, como Aaron James, dizem que gritar não lhe dá mais razão e nem lhe confere uma posição de vantagem em uma discussão. Isto foi confirmado através dos seus estudos, referindo-se inclusive ao atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Dessa forma, se quisermos ter razão, gritar não nos ajudará em nada. Pelo contrário, devemos argumentar ao invés de levantar a voz.

Geralmente os gritos aparecem quando alguém perde o controle. Dessa forma, o estado emocional interfere na expressão da mensagem, distorcendo as informações. Se para os adultos é complicado lidar com isso, imagine para as crianças. Os gritos têm um efeito devastador sobre o cérebro infantil.

Os gritos que afetam o cérebro infantil

De acordo com um novo estudo da Universidade de Pittsburgh, concluiu-se que esses gritos, especialmente quando são emitidos regularmente, afetam o cérebro da criança e acarretam uma série de riscos para o seu desenvolvimento psicológico.

Ou seja, as pessoas que optam por gritar, com o objetivo de direcionar ou repreender, estão aumentando o risco do qual falamos anteriormente. Na verdade, por causa dos gritos as crianças desenvolvem comportamentos agressivos ou defensivos.

Esse estudo foi realizado com 1.000 famílias com crianças entre um e dois anos. Os pesquisadores perceberam que as crianças que conviviam com pais que recorriam aos gritos para educá-las desenvolviam na adolescência, a partir de 13 e 14 anos, sintomas depressivos e problemas comportamentais.

Na verdade, eles chegaram à conclusão de que o grito não minimiza os problemas, mas os agrava. Por exemplo, no que diz respeito à desobediência, os pais que são carinhosos com seus filhos conseguem minimizar muito esse tipo de comportamento.

Mais estudos sobre esse assunto

Na verdade, foram realizados muitos estudos sobre esse assunto. A prestigiada Harvard Medical School, através de estudos realizados pelo departamento de psiquiatria, afirma que o abuso verbal, os gritos, a humilhação ou a combinação dos três elementos alteram de forma permanente a estrutura cerebral da criança.

Depois de analisar mais de 50 crianças com transtornos psiquiátricos causados por problemas familiares e compará-las com quase 100 crianças saudáveis, os pesquisadores fizeram uma descoberta alarmante: perceberam que havia uma redução severa do corpo caloso, ou seja, na parte que conecta os dois hemisférios cerebrais.

Dessa forma, tendo as metades do cérebro menos integradas, as mudanças na personalidade e no humor são mais acentuadas, comprometendo a estabilidade emocional. Outra consequência desta conectividade diminuída é a dispersão da atenção.

Como podemos acabar com os gritos?

É verdade que as crianças podem nos deixar loucos, mas o grito não é a solução, por mais que estejamos irritados. Para evitar cair nessa tentação podemos usar algumas das seguintes estratégias:

  • Gritar é perder o controle. Se perdemos o controle, perdemos toda a capacidade de disciplinar adequadamente a criança.
  • Evite os momentos estressantes. Às vezes é complexo, mas com um bom trabalho de observação perceberemos se estamos gritando ou não. Dessa forma, quando conseguirmos detectar esse padrão de comportamento, poderemos trabalhar para eliminá-lo.
  • Acalme-se antes de agir. Procure fazer algo que o tranquilize quando perceber que está no seu limite. Dessa forma, você evitará perder o controle. Pare por um momento, relaxe e assuma o comando.
  • Não se culpe e não se exceda. Tenha cuidado com as expectativas que você cria a respeito dos seus filhos. Não os culpe por não serem da forma como você gostaria. São apenas crianças: o importante é que desfrutem, sejam felizes e se desenvolvam adequadamente.

“Não podemos moldar os nossos filhos de acordo com os nossos desejos, devemos estar com eles e amá-los como Deus nos deu”.
-Goethe-

Agora já sabemos quais são os danos que os gritos frequentes podem causar no cérebro infantil. Então, está em nossas mãos, como adultos responsáveis que somos, encontrar soluções alternativas para educar corretamente sem causar danos ao cérebro das crianças.

Imagem de capa: Shutterstock/ Monkey Business Images

TEXTO ORIGINAL DE A MENTE É MARAVILHOSA

Primavera- Fábio de Melo

Primavera- Fábio de Melo

Primavera é tempo de ressurreição. A vida cumpre o ofício de florescer ao seu tempo. O que hoje está revestido de cores precisou passar pelo silêncio das sombras. A vida não é por acaso. Ela é fruto do processo que a encaminha sem pressa e sem atropelos a um destino que não finda, porque é ciclo que a faz continuar em insondáveis movimentos de vida e morte. O florido sobre a terra não é acontecimento sem precedências.Antes da flor, a morte da semente, o suspiro dissonante de quem se desprende do que é para ser revestido de outras grandezas. O que hoje vejo e reconheço belo é apenas uma parte do processo. O que eu não pude ver é o que sustenta a beleza.

A arte de morrer em silêncio é atributo que pertence às sementes. A dureza do chão não permite que os nossos olhos alcancem o acontecimento. Antes de ser flor, a primavera é chão escuro de sombras, vida se entregando ao dialético movimento de uma morte anunciada, cumprida em partes.

A primavera só pode ser o que é porque o outono a embalou em seus braços. Outono é o tempo em que as sementes deitam sobre a terra seus destinos de fecundidade. É o tempo em que à morte se entregam, esperançosas de ressurreição. Outono é a maternidade das floradas, dos cantos das cigarras e dos assobios dos ventos. Outono é a preparação das aquarelas, dos trabalhos silenciosos que não causam alardes, mas que, mais tarde, serão fundamentais para o sustento da beleza que há de vir.

São as estações do tempo. São as estações da vida.

Há em nossos dias uma infinidade de cenas que podemos reconhecer a partir da mística dos outonos e das primaveras. Também nós cumprimos em nossa carne humana os mesmos destinos. Destino de morrer em pequenas partes, mediante sacrifícios que nos fazem abraçar o silêncio das sombras…

Destino de florescer costurados em cores, alçados por alegrias que nos caem do céu, quando menos esperadas, anunciando que depois de outonos, a vida sempre nos reserva primaveras…
Floresçamos.

Imagem de capa: Miramiska/shutterstock

Como as pessoas manipuladoras se relacionam?

Como as pessoas manipuladoras se relacionam?

Sem nos darmos conta, podemos estar imersos em relações com pessoas manipuladoras, que mudam nosso modo de pensar ou agir, pelo seu próprio bem.

Existem diferentes “categorias” dentro dos manipuladores, segundo o controle exercido pela pessoa sobre nós. Se essa pressão for muito grave, os especialistas a chamam de: “Narcisista perverso”, e esse é o assunto do qual vamos falar neste artigo.

Certamente você já viu diversos filmes, leu alguns livros ou escutou histórias sobre pessoas que manipulam seus parceiros, filhos, amigos, etc. Esse tipo de personalidade existe em todas as famílias e nem sempre estamos a par da situação. E mais, podemos até ser vítimas de pessoas manipuladoras agora mesmo e não saber.

Os narcisistas perversos, como alguns psicólogos nomeiam este perfil, são aqueles que, constantemente, estão dizendo ao outro o que ele deve fazer. De maneira sutil (ou não), mas com uma efetividade que realmente assusta, uma vez que restringe sua liberdade.

Estas pessoas, por sua vez, podem ter outros tipos de comportamentos negativos, como, por exemplo, excessos emocionais de todo tipo, comportamentos agressivos e ameaçadores, contínuas faltas de respeito e desprezo.

Quando se fala se um indivíduo perverso, ele é assim 24 horas por dia, sem distinção. A relação com sua vítima foi determinada dessa maneira e não há nada que pode mudá-la, a menos que a pessoa que esteja sofrendo a manipulação comece a querer modificar a relação.

Principalmente nos relacionamentos amorosos com uma pessoa manipuladora, pode passar muito tempo até que a vítima se dê conta do que está ocorrendo. Ela não deseja escutar o que seus entes queridos dizem, pensa que todo mundo está errado, que a outra pessoa faz isso porque a ama, que ela pode tomar suas próprias decisões, que não tem medo de seu parceiro, etc.

Em algum momento, ainda não está claro por que a pessoa que sofre nas garras do manipulador acorda desse “sono profundo”.

Imagine, por um instante, o que a aranha faz com sua presa: envolve-a com sua teia, até que, finalmente, alimenta-se dela. Algo similar acontece com os manipuladores e a energia positiva de sua “presa”.

Além de dizer que a vítima de um manipulador tem carências ou problemas, devemos indicar que o narcisista perverso também precisa de ajuda.

O manipulador

Embora todos nos complementemos nos relacionamentos, a pessoa que mais tem a perder é o manipulador, não o manipulado. Isso é assim, já que ele está “consumindo” algo que a vítima tem, como pode ser sua capacidade intelectual, bondade, carisma, solidariedade, autoestima, amizades, trabalho, saúde, etc.

Sempre falamos das características das pessoas manipuladoras e de como nos darmos conta de que alguém está nos controlando, mas nunca tentamos julgar o por quê dessa pessoa reagir dessa maneira, do que ela está precisando e de que forma pede ajuda. Com isso, não estamos dizendo que ele não seja responsável ou culpado por seus atos, no entanto, teríamos que analisar que traumas ou problemas do passado levaram-no a agir dessa maneira, ou quais são suas necessidades mais profundas.

Quando um perverso narcisista se encontra com alguém fácil de controlar, é onde pode colocar em prática ou depositar todos os seus traumas. Sem querer ofender ninguém, um manipulador age quando a vítima permite. Nem sempre isso acontece de propósito por parte do manipulado e, até mesmo, há casos nos quais a vitima também não percebe.

O perverso inveja aquilo que o outro tem, por isso utiliza suas ferramentas para se apoderar. A vítima não pode ver as manobras usadas contra ela, está cega de paixão, não percebe as ações do outro como algo negativo.

Mas isso pode influenciar sua mente e em suas emoções. O mesmo acontece com uma gota que cai sobre uma pedra; com o passar do tempo, acaba desgastando a pedra.

Quando um manipulador se encontra com uma pessoa segura de si, que sabe do que gosta, tem suas próprias opiniões sobre certas coisas e até mesmo lhe aconteceu algo ruim com um narcisista perverso antes, ela conta com armas a sua disposição para não permitir que as teias de aranha o envolvam.

Mas atenção, ninguém está 100% imune a este tipo de personalidade, já que alguns sabem como fazer um trabalho perfeitamente “fino” e quase imperceptível, até que o outro se torne uma marionete.

Tenha muito cuidado com as pessoas com as quais você se relaciona. Não é questão de se sentir ameaçado ou perseguido o tempo todo, mas sim de andar por caminhos seguros.

Também não hesite em fazer um trabalho de introspecção para determinar, de maneira objetiva, se você pode chegar a ter uma personalidade que pode ser facilmente manipulada.

Imagem de capa: BhFoton/shutterstock

TEXTO ORIGINAL DE A MENTE É MARAVILHOSA

Sobras, por Ita Portugal

Sobras, por Ita Portugal

Eu já fui tanta coisa. Fui artista sem plateia. Palhaça sem fazer ninguém sorrir. Ensinante sem aprendiz. Errante sem caminho. Perdida sem direção. Malabarista na estrada.

Costureira de sentimentos rasgados. Menina sem inocência. Moleca feito gente grande. Doutora sem diploma. Artesã sem criatividade. Pintora de ilusões. Contadora de histórias sem pé nem cabeça. Passarinho sem asas para voar. Borboleta no casulo.

Já fui grande no coração. Pequena na fragilidade. Cantora sem nenhuma partitura.
Fui amante e amada e fiz loucuras por amor. E em muitas laudas de coisas que fui, também mudei algumas que não gostei. Mudei de profissão, mudei a cor do cabelo, mudei de casa, de estado; civil inclusive, mudei a rota, mudei o tom, mudei os critérios, mudei a frase, troquei a pilha, rompi os vínculos e tive que refazer depois. Concordei, discordei. Disse não, disse sim tantas vezes.

Já fui quase tudo sem nada. Fui de invernadas friorentas, teimando em sentir calor. Catadora de flores murchas. Já fui escuro. Claridade. Opaca por decisão. Fui da terra com os pés na lua.

Psicóloga sem habilidade. Bailarina sem dança no pé.Fui moleca atrapalhada. Rainha sem reinado.Dicionário sem palavras. Silêncio cheio de ruídos. Beata sem rosário e até santa se santidade. Fui pecadora inocente. Culpada sem merecer.

Fui moça de rua, só na calçada . Menina de família, órfã. Amante sem um amor. Bandida do coração. Estrangeira sem tradução.

Fui sem causa. Sem lei. Sem jeito. Sem teto. Sem sol. Sem doçura e sem frescura.
Escrevi poemas. Reatei amores. Apaguei paixões. Comprei vestidos. Ajudei e esqueci que fiz. Presenteei. Perdoei. Briguei. Abaixei a cabeça. Levantei a crista achando que eu era boa. Estudei o que eu achei que devia e cheguei à conclusão que deveria ter estudado mais. Exagerei na dose. Perdi a paciência. Voltei atrás. Rompi e refiz laços tantas vezes. Comprei briga e o preço foi caro. Esqueci. Perdoei. Machuquei e fui machucada. Disse sim, não, talvez, espere um pouco, deixa pra lá.

Aprendi coisas novas e esqueci coisas velhas. Comecei projetos errados. Conclui trabalhos acertados. Tomei porre. Engoli uma dose. Levei um susto. Tive equívocos. Errei os erros previstos e não cometi todos os acertos programados. Molhei as plantas. Colhi flores. Alimentei os pássaros. Escrevi e rasguei. Reescrevi e guardei. Molhei travesseiros e disse que era a última vez. Tornei a molhar várias outras últimas vezes. Amei rápido demais. Esqueci devagar. Perdi o encanto e sem querer o encontrei.

Fui tola demais. Muito esperta. Ganhei o jogo. Perdi o amor e o mundo quase acabou na minha cabeça. No outro dia, no mesmo lugar, estava o mundo igualzinho eu deixei. Cantei. Chorei. Dancei. Fiquei emburrada. Sai sem rumo.

Não fiz nada sobrenatural. Não salvei o mundo e não consegui me salvar. Vivi os erros. Comemorei os acertos. Escrevi no caderno. Marquei na linha da vida. Fui luz apagada. Borbulhas sem gás. E na imaginação fui até rima, poeta sem inspiração, mas isso meu caro foi tudo sonho numa noite sem verão.

Agora, quero apertar o play para o novo que está a minha porta e fazer o que ainda falta. Com sonhos novos. Doses de coragem sem saber de muita coisa, aliás, eu só sei que uma horinha dessas, eu chego a algum lugar. Roma, Paris, ou talvez apenas no meu quarto.
Feliz, sorte, coragem, fé ou sei lá o quê, para tudo que começa outra vez.
Ita Portugal

Imagem de capa: Mehendra_art/shutterstock

40 anos: hora de jogar os entulhos fora

40 anos: hora de jogar os entulhos fora

Desde menina, escutava as pessoas dizendo que “a vida começa aos 40”. Confesso que isso me deixava bastante intrigada, mesmo depois de adulta. Afinal, que surpresas poderiam aguardar uma pessoa ao entrar para a quarta década de vida? Questionei muitas vezes.

Eu adoraria encontrar uma forma de escrever sobre esse tema sem me expor, mas não seria possível, visto que o texto ficaria pobre em autenticidade. Óbvio que me inspiro também em incontáveis relatos de outras pessoas.

Ao entrar para o clube dos “enta”, pude constatar esse “começo” de vida. Me deparei com a necessidade urgente de uma revisão sobre o modo como eu vinha vivendo. Foi como jogar tudo o que eu tinha de crenças, valores, sentimentos, medos e etc. num grande tatame e fazer uma seleção bem criteriosa. Olha, isso me deu muito trabalho. Eu simplesmente “filtrei” o que me servia e joguei o resto no lixo e mandei incinerar. Percebi, claramente, que eu carregava uma mala gigante de coisas que não me pertenciam. Eram tralhas indesejadas que muitas pessoas foram me entregando ao longo de minha vida.

E, tinha muito lixo, muita tranqueira pesada e incômoda. Me deparei com “objetos” em forma de insegurança, sentimento de incapacidade, sentimento de menos valia, crenças idiotas, necessidade de aprovação de pessoas que eu nunca gostei, bloqueios e etc. Olhei para cada um desses entulhos e disse: chega, vão todos para o lixo, aqui não tem lugar para vocês mais, vou trocar toda minha mobília, vou enfeitar a minha alma.

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No meio dessa bagunça toda, encontrei alguns sonhos e desejos, completamente empoeirados, quase irreconhecíveis. Peguei-os, separei num canto, limpei a poeira mais grossa e prometi a eles que, dedicaria um tempo especial para restaurar-lhes o brilho, mas que esperasse eu jogar fora tudo o que não me servia. Então, após levar todo aquele entulho para a incineração, voltei aos objetos que restaram. Eles eram meus de verdade, faziam e fazem parte da minha essência. O riso, a fé, a espontaneidade, a mania de poetizar tudo, o senso de liberdade são alguns dos itens que estavam empoeirados e que eu fiz questão de restaurá-los, lustrá-los e transformá-los em objetos de decoração da minha alma

Eu encontrei, em meio a essa bagunça toda, no fundo da minha memória, uma menina pobre, que morava num sítio. Muito tímida, desconfiada e completamente desacreditada. Com muita mansidão, acolhi-a, coloquei-a no colo. Ela chorava muito, pois ela disse a um adulto que quando crescesse queria ter o nome dela na capa de um livro, tal qual o nome da Branca Alves de Lima na capa da sua cartilha de alfabetização “Caminho Suave”. O adulto riu e zombou do sonho dela e disse ainda que ela não serviria nem para dar um recado quando crescesse.

Então, enxuguei as lágrimas daquela menina, enchi-a de beijos e disse a ela: olha aqui nos meus olhos e ouça, você vai ser escritora, sim, eu acredito em você e você vai começar a escrever hoje mesmo. A menina sorriu e me abraçou de volta, ela está aqui escrevendo nesse momento. Os recados dela estão espalhados pela internet em forma de crônicas e poesias.

Em suma, fui percebendo que a maioria dos meus medos me foram entregues por outras pessoas. Pessoas que não queriam que eu crescesse, que eu sonhasse, que eu vivesse de forma plena. As razões pelas quais elas queriam podar minhas asas? Não sei e nem me interesso em saber, importa é que me libertei das crenças aniquiladoras que elas me entregaram um dia.

Eu optei por fazer minhas próprias escolhas, foi como tirar um véu das vistas. Eu aprendi a dizer “não” sem me sentir culpada. Aprendi a me tratar com mais respeito, zelo e compaixão. Me perdoei pelas escolhas infelizes e me parabenizo por cada obstáculo superado. Aprendi que devo comemorar minhas conquistas, não importa o quão pequena ela pareça aos olhos dos outros. Desenterrei sonhos e me dedico a eles diariamente. Não preciso mais ouvir alguém dizer que sou ou não capaz de realizá-los. Eu aprendi a me conhecer, perceber meus pontos fortes e o que posso melhorar. Percebi que não existe impossível para quem tem a alma transbordando motivação e fé.

Libertei-me da necessidade de ter uma companhia para me sentir completa. Continuo acreditando no amor e desejo vivê-lo mas não quero nada mais ou menos, eu não suporto migalhas…não as aceito mais em minha vida.

Sabe, acredito que esse despertar aos 40 ocorre porque nos percebemos na metade do caminho, considerando a expectativa de vida humana. Então, não queremos mais viver de qualquer jeito, não queremos viver imposições alheias. Queremos viver aquilo que faça sentido para nós. Isso se refere à crença espiritual, relacionamentos, estilo de vida e etc. Esse filtro do que serve ou não serve acontece diariamente, só que agora ficou mais fácil, pois a “faxina” pesada já foi feita. Nesse despertar, veio, no pacote, um outro modo de olhar o outro. Com mais empatia, com mais leveza, com mais compaixão. ” Eu não tenho um novo caminho, o que tenho de novo é o jeito de caminhar”.

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Nada que começa com um “vamos dar um tempo” pode dar certo

Nada que começa com um “vamos dar um tempo” pode dar certo

No termo técnico, “stand by” significa deixar um aparelho ser movido com pouca energia, mas não desligá-lo totalmente. Isso permite que, a qualquer momento, você pode ligá-lo rapidamente, sem precisar esperar o carregamento dos servidores de energia. Quando trazemos o termo “stand by” para os relacionamentos, a definição não é tão boa assim.

Provavelmente, se me pedissem um conselho no meio da rua sobre o tema, eu diria que essa conversa de “dar um tempo” é a maior palhaçada que existe, mas, nos textos, a mensagem deve ser mais leve. Então, que assim seja.

Sejamos realistas: essa história de “dar um tempo” no relacionamento não existe. Na verdade, os adeptos da situação, são pessoas convenientes que preferem deixar o parceiro à espera da sua decisão, enquanto aproveitam o melhor da vida de solteiro. E, o pior é que, a sociedade, parece encarar como normal essa atitude e denomina o famoso “tempo”, como um “suspiro de vida” para o relacionamento”.

Não me leve a mal, mas na vida, há verdades que precisam ser ditas e “toda vez que alguém quiser deixar o relacionamento em stand by, está na hora de seguir sozinho” é uma delas.

Atualmente o “vamos dar um tempo” está modernizado. Disfarçado de “não sei o que estou sentindo” ou “preciso colocar na balança o que sinto”, acorrenta vítimas e deixa presas pessoas maravilhosas que deveriam estar livres para amar.

Pela razão “tempo” é a única coisa que não deveria ser pedido, nem deveria ser dado, até porque, não o temos. Ninguém sabe o amanha. A vida acontece hoje! Mas, os audaciosos de plantão trabalham com o tema como se fossem donos dele.

Pare de carregar culpas que não são suas. O fato do relacionamento não estar dando certo, nem sempre tem motivos palpáveis. O problema não é você, são as migalhas que você aceita. Não é ser tratada como segunda opção, é aceitar isso. Está na hora de entender que há coisas que valem a pena e coisas que não. Perder a própria paz esperando o outro decidir o rumo do relacionamento é, no mínimo, loucura.

Amar é transbordar. É querer estar perto. É, como dizia Antonie de Saint- Exupéry, “olhar juntos na mesma direção”. Quando o amor não acontece em toda a sua totalidade, não merece continuar. Entenda que é melhor investir tempo se curando, do que perder tempo de iludindo.

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Se você não se ama e espera que o amor venha do outro, você é uma pessoa folgada.

Se você não se ama e espera que o amor venha do outro, você é uma pessoa folgada.

Em qualquer trabalho, se eu espero o outro fazer por mim o que é a minha obrigação, eu não passo de um folgado, relapso, encostado e enganador. Assim é em todo canto. Por que raios no amor há de ser diferente?

O amor é um trabalho e amar a mim mesmo é a minha primeira obrigação. Se eu não me amo e espero o outro fazê-lo em meu lugar, é porque eu sou um péssimo amante! Quem não ama a si mesmo não tem condições de amar o outro nem deve dele esperar amor. É muito simples. Quem é que pode oferecer o que não tem?

Guardadas todas as proporções, é como chegar de mãos vazias a uma festa onde cada convidado contribuiu levando comida e bebida. Lá estão você e sua cara de pau consumindo o que é dos outros sem colaborar com nada. Bonito, né?

Quem não tem amor por si mesmo não pode ter amor pelo outro. Logo, ao receber amor de alguém, pelo menos no primeiro instante, não vai retribuir. Vai guardar aquele amor para consumo próprio feito uma droga, uma medicação.

Bom momento para outra observação importante: a pessoa que tem amor de verdade por si mesma dá amor ao outro sem nada exigir em troca. Abastece de amor alguém a quem o sentimento amoroso anda em falta ou divide seu amor próprio com alguém que também se ama. E se acaso entrar em uma relação vampiresca, com pessoa que só recebe e não retribui, uma hora isso vai lhe cansar a beleza. Então ela vai passar a mão em suas coisas e seguir em frente, ué! Depois, quando quiser e se acontecer, vai dividir com outro o amor que tem de sobra por si mesma.

Dia desses, li por aí uma frase que dizia mais ou menos assim:

“Se você entra na vida dos outros, faz bagunça e vai embora, um conselho: coração gosta de sim e não. Se não sabe onde quer ficar, fique na sua.”

E eu fiquei na minha, pensando no quanto esse tipo de raciocínio protecionista, recriminador e repreensivo se tornou comum hoje em dia. Pena, porque é uma premissa tão estapafúrdia quanto o comportamento de quem se acha perfeito e, por isso, exige perfeição de seus parceiros amorosos, amigos, parentes e colegas.

Com todo o respeito, é discurso de quem cobra dos outros aquilo que tampouco faz. Denota nada senão o típico comportamento da pessoa que não se gosta e espera que o outro vá fazer isso por ela.

Pensemos juntos, minha gente. Se o outro entrou na minha vida, “fez bagunça” e foi embora, foi porque eu permiti. E se eu não cuido de quem entra na minha vida, ou se eu deixo qualquer um entrar, é porque eu larguei o portão aberto, fui desmazelado, descuidei. Não fiz direito o que é a minha obrigação. Se o coração gosta mesmo de sim e de não, como quer o autor da frase que eu li por aí, e eu deixei alguém bagunçá-lo, então eu não cuidei direito do meu próprio coração. A responsabilidade, então, é minha.

Cá entre nós, eu aposto que algum interlocutor abespinhado vai dizer que estou “culpando a vítima”. Não é o caso. Eu não penso que o culpado de um assalto é o assaltado que deixou o vidro do carro aberto ou não instalou um alarme em casa. Também acho absurdo e criminoso insinuarem que a culpa de um estupro é da vítima, por estar sozinha em local indevido, por suas roupas ou por qualquer outro “motivo” absurdo. Não é nada disso. São coisas diferentes.

Eu só não espero que o outro faça por mim o que é a minha obrigação. Começando por amar a mim mesmo.

Imagem de capa: Victoria Chudinova/shutterstock

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