Um copo de leite, por favor!

Um copo de leite, por favor!

Outro dia, um senhor chamou minha atenção. Sentado próximo à mesa na qual eu me encontrava, tínhamos o plano coincidente de almoçar no mesmo restaurante, do tipo self service. Ele me surpreendeu ao chamar a garçonete e indagar como funcionava o almoço: se ele mesmo poderia servir-se ou se ela o faria para ele.

Que coragem! -eu pensei. Deixada de lado a vergonha por não saber como proceder para fazer a refeição, ele ocupou-se apenas com sua fome e ignorou meu olhar curioso. À resposta de que ele mesmo poderia servir-se, ele recusou. Disse que preferia que ela mesma o fizesse porque ele não gostava de servir-se.

A garçonete se foi, a fim de cuidar da missão que lhe foi confiada. Eu ainda tentava digerir aquela cena de coragem recém-presenciada.

O mais provável, a julgar por sua conduta um tanto acanhada, é que ele tinha pouca ou nenhuma experiência com restaurantes. Mas aquilo não o impediu de entrar, sentar-se e dar um jeito na fome que o incomodava.

Por que não aprendo com ele?- pensei. Por que não me arrisco assim, sem tanto medo de errar? De súbito tentei enumerar quantas vezes deixei de fazer algo por receio de passar vergonha, por medo de fazer feio ou não conseguir.

Lembrei-me de quando era criança e deixei de experimentar um salgadinho porque tinha palitos de dente espetados nele e eu me perguntava o que faria com eles. Agora, tantos anos depois, a resposta me veio de assalto, quando eu já não esperava mais por ela. Coragem foi o que me faltou naquele dia: pra descobrir como fazer e pra admitir que eu não sabia mas que precisava me arriscar.

Abri mão de muitas outras coisas, desde o episódio do salgadinho. Enterrei muitas vontades por não saber o que fazer com elas. Deixei de viver muitos momentos, por ignorar o fato de que tentar é a atitude mais importante de todas.

Talvez eu devesse ter aprendido isso antes; deveria ter entendido que ninguém nasce sabendo. Poderia ter confiado naquele ditado “quem não se arrisca, não petisca” que me disseram a vida toda. Arrisquei-me muito menos do que poderia e aprendi menos, por consequência.

Deixei de ir a lugares, de conhecer pessoas e de viver mil coisas por não saber o que faria, o que diria, o que aconteceria.

Eu ali, ao lado daquele senhor cheio de coragem, planejei agir com mais acerto na próxima vez em que o receio batesse à minha porta. E quando achei que a ousadia já ia adiantada, ouvi sua resposta à pergunta da garçonete, sobre beber alguma coisa: – Um copo de leite, por favor!

A coragem dele era algo incomum- pensei, agora com perplexidade. Tenho mesmo muito a aprender nessa minha vida.

Imagem de capa: ProStockStudio/shutterstock

Os inevitáveis (e abençoados) pontos finais

Os inevitáveis (e abençoados) pontos finais

Passageiros, é isso o que melhor nos define. Nenhum de nós, vivo ou morto, nasceu nesse planeta de agressivas contradições, para ser resumido a uma definição. Mesmo que à primeira vista isso pareça beirar o exagero, o fato é que a cada dia somos apresentados a uma nova versão de nós mesmos.

Até mesmo os dias mais vazios e entediantes exercem sobre a nossa maneira de ser algum tipo de força ou sugestão. Em verdade, talvez seja exatamente a falta de assunto, atividade ou alegria que faça brotar dentro da gente um “não sei quê” de rebeldia.

E, sem rebeldia, não haverá jamais nenhuma revolução. É o desgostar de algo que nos faz ir atrás de outros sabores, texturas e cheiros. E, ainda que a próxima degustação nos traga paladares mais ácidos ou amargos, que venham as experiências desconhecidas; que venham os tombos para nos sangrar os joelhos; que venha a luz forte para nos ofuscar a visão; ou a escuridão para nos fazer o peito palpitar de medo, susto ou prazer.

Ninguém pode sentir prazer em histórias terminadas por reticências, toda vez. Que haja algumas reticências, tudo bem. Elas são uma pausa, ou licença necessária para o que ainda não foi revelado, ou para aquilo que ainda não está pronto para o fim.

No entanto, reticências excessivas têm o perigoso efeito colateral de nos fazer acreditar que pode haver algo de romântico ou suave na indecisão. Viver na indecisão dos dias torna-nos seres acostumados com uma vida em suspenso. O ar fica parado; ninguém respira; ninguém pisca; ninguém vive.

Viver, pressupõe acolher corajosamente algumas pequenas mortes. Morremos um pouco cada vez que fazemos tornar possível algo que parecia ser inatingível. Morremos um pouco a cada orgasmo. Morremos um pouco a cada sonho desfeito. Morremos um pouco a cada partida, nossa ou do outro. Morremos um pouco todas as vezes que desistimos de algo sem ter tentado.

Tentar; arriscar; desafiar são coisas muito mais fortes e importantes do que acertar ou errar. Erros e acertos podem estar vinculados a árduos processos de empoderamento e luta. Mas, também podem ser presentes do acaso. Há sucessos e fracassos que vêm espontaneamente ao nosso encontro.

Entretanto não há tentativa, risco ou desafio que possa nos transpassar com sua força transformadora, se não estivermos dispostos e disponíveis a deixá-los nos arrebatar.

E, uma vez arrebatados pela avassaladora inquietação do desconhecido, da página em branco, do próximo capítulo, aprenderemos a forjar no traço empunhado por nossas mãos (tão provisórias), os definitivos e necessários pontos finais.

É bem verdade que vivemos assustados pelos términos de tudo. O fim nos deixa sobressaltados e, ao mesmo tempo, nos mantém cativos numa espécie de visgo em nome de uma segurança qualquer que nos proteja e nos salve de enfrentar a perda.

Porém. Ahhhh sempre haverá, mesmo na mais inofensiva de nossas escolhas, um “porém”. Porque ao escolhermos seguir em frente, em busca do que ainda não compreendemos, deixamos para trás o que nos é familiarmente acomodado ao colo. E porque, ao escolhermos a permanência morna daquilo que já nos é tão íntimo, abrimos mão do salto, do frio na barriga e do que não temos como prever. Então, para que sejamos dignos de uma vida menos medíocre, apertemos a ponta da pena mergulhada em tinta e calquemos, de peito aberto, os inevitáveis e abençoados pontos finais. Afinal, sem eles não haverá próximas histórias para nenhum de nós, porque elas ficarão invisíveis entre os espaços em branco, deixados pelos pontos finais que não fomos capazes de determinar.

Imagem de capa: Masson/shutterstock

De bons de briga o mundo anda cheio. O que falta é gente boa de amor.

De bons de briga o mundo anda cheio. O que falta é gente boa de amor.

Deu, né, minha gente? Já tem muito coração cheio de ódio nesse mundo. Basta. Nós mesmos, humanos que somos, vez em quando rangemos os dentes por aí. Todos temos motivos para odiar alguém ou alguma coisa. Mas passou da hora de fazer um esforço, remar no sentido contrário, apertar o passo, seguir em frente e deixar lá atrás tudo quanto é odioso.

A vida anda repleta de pessoas, bichos, ideias, causas e coisas de toda sorte merecendo o amor da gente. É questão de escolha: em vez de perder um só segundo odiando quem nos ofende, nos rouba, explora, agride e nos xinga, por que não mudar o foco e buscar quem mereça de nós coisa melhor?

Falo por mim, mas acho que com você não é diferente: eu odeio tanta coisa! Odeio mesmo. Tenho ódio puro e simples de um caminhão de comportamentos que, para mim, são próprios de gente ruim. Homem que bate em mulher, político ladrão, arrogância, grosseria, maldade com criança, desprezo com velhinhos, crueldade com animal, assédio, força bruta. Tanta coisa! Mas fazer o quê senão me posicionar contra isso, me afastar do que faz mal e me concentrar no que faz bem?

Verdade é que a minha raiva me escraviza. Quem é dono do meu ódio é dono de mim. Já quem tem o meu amor, não. Sou escravo de quem eu odeio e amigo de quem eu amo. Então, chega de ódio. É tempo de buscar o que possamos querer bem.

O seu tempo, claro, é seu. Você faz o que quiser com ele. Mas eu acho que ele bem gostaria de ser investido num amorzinho bom, um passatempo saudável, um trabalho que cansa o corpo e descansa a cabeça, uma amizade sincera. Uma companhia a quem se achegar à tardinha, um afeto a quem deixar de manhã e regressar à noite. Essas coisas que, Deus é grande, estão sempre à nossa espera.

Há sempre o que fazer de bom. Adote um gato, um cachorro, uma nova postura, um hábito saudável, um hobby. Telefone às pessoas queridas, ainda que para dizer nada. Perdoe os velhos erros, inclusive os seus. Peça perdão! Beba água, seja amigo dela! Compre uma planta e dê-lhe um nome bonito e simples. Quando for regá-la de manhã, diga “Saúde, Fulana!” e beba água junto com ela, num brinde à saúde de todas as plantas e todos os bichos e todas as gentes! Escolha um segredo revelável e conte a um amigo querido como prova de confiança. Se ele contar a outro alguém, não o odeie por isso – o segredo era revelável mesmo. Mas não perca tempo com mau sentimento. Odiar quem bem merece é tão ruim quanto amar quem não merece.

O mundo já vai cansado de gente boa de briga. O que falta é gente boa de amor.
É tempo de caçar o que amar. Encontremos então o que nos faça sentir o coração feliz.
Olhemos para fora ou miremos para dentro, não importa. Sejam os outros, sejamos nós mesmos, tem sempre alguém ou alguma coisa merecendo o amor da gente por aí.

Imagem de capa: Kris Tan/shutterstock

10 sinais de que o seu relacionamento não vale mais a pena.

10 sinais de que o seu relacionamento não vale mais a pena.

Para que exista uma relação são necessárias duas pessoas. Agora, para que a relação seja saudável é preciso que essas pessoas entreguem muito mais de si do que apenas a sua presença física.

Abaixo, listo algumas reflexões sobre comportamentos que observei ao longo dos anos- na vida e na clínica- e que podem servir como sinal de alerta para relações que perderam sua a sua essência.A boa notícia é que o primeiro passo para qualquer mudança é identificar que existe um problema. Apenas quando sabemos que existe algo errado é que conseguimos buscar ajuda e mudanças.

Boa leitura!

Josie Conti

1- Não existe mais um vínculo afetivo entre as partes. 

Para que exista uma relação deverá existir uma troca. Ela pode acontecer por amizade mútua, interesse romântico, parentesco ou até mesmo por uma proximidade física que leve a convivência. Entretanto, é bom lembrar que nem sempre os vínculos que mantém pessoas juntas são vínculos saudáveis. Logo, o primeiro mandamento determina que o vínculo que sustenta uma relação saudável seja afetivo, ou seja, que exista algum tipo de afeto verdadeiro entre as partes. Manter relações por objetivos terceiros como questões financeiras ou criação de filhos, por exemplo, não são alicerces firmes e podem desmoronar a qualquer momento.

2- Não é porque existe um vínculo que há permissão para as pessoas se tratarem de forma agressiva e desmedida.

Tendemos a ser condescendentes com as pessoas que gostamos e, ao fazê-lo, podemos ignorar, mascarar e até inventar desculpas para comportamentos grosseiros, depreciativos ou dominadores. É importante ter a clareza de que qualquer pessoa pode errar, mas a frequência de comportamentos que levem a constrangimento, intimidação ou que entristeçam qualquer uma das partes, é indicativo de que a relação pode não estar tão bem quanto você pensava.

3- Vocês não riem mais juntos

Risadas são um grande termômetro de que a relação vai bem. Elas indicam leveza e descontração entre as partes. Se o clima está sempre tenso, é sinal de que algo está errado. Mais um alerta vermelho.

4- Se você não se sente à vontade para ser quem você é perto do seu parceiro ou parceira, amigo ou colega, isso é um indicativo de que há algo errado.

É básico em nossas relações mais íntimas que nós nos sintamos confortáveis para sermos quem realmente somos. Se nossa maneira de rir, falar, vestir ou mesmo de conversar com terceiros gera discussões frequentes, isso é um indicativo de que existe um desequilíbrio de poder na relação- um dos sintomas das relações tóxicas.

5- Nunca, jamais, se esqueça de que a violência psicológica é muito mais frequente que a violência física. Entretanto, ela não é menos danosa.

O item 2 já mencionou a violência psicológica, mas é importante deixar clara a sua representação dentro dos relacionamentos, pois ela acontece por longos períodos de tempo e, por isso, mina a autoestima. Logo, a pessoa que é vítima dela sofre de maneira progressiva e continua. Esse item retoma o assunto para ressaltar que a violência física é inaceitável, mas é a violência psicológica a que mais destrói, pois é menos aparente e muito subvalorizada dentro da relação. Se você percebe que ela acontece, esteja alerta.

6- Os limites não são respeitados

Quando uma pessoa não quer dois não fazem, certo? Nem sempre. O problema do desrespeito aos limites das partes é que isso gera um desrespeito aos valores pessoais de quem se sente invadido. O alerta deve acontecer quando você percebe que se sujeitar ao que o outro quis gerou um sofrimento com relação as suas crenças primárias e que são o norte das coisas em que você acredita. Se o que está acontecendo, de alguma forma, te ofende. É hora de realmente parar.

7- Você sempre está insatisfeito (a) perto da pessoa

É só encontrar a outra pessoa e as partes começam a se alfinetar e a se desentender. Não existe interesse em flexibilidade, pois cultivar o equilíbrio entre os gostos e vontades das partes deixou de ser relevante. Quando isso acontece, a coexistência torna-se dolorosa. Parece  que a relação é mantida por um braço de ferro constante e isso é sinal de que é hora de mudar. O oposto disso, mas não menos relevante, acontece quando a presença da outra parte passa a ser irrelevante.

8- As pessoas não admitem suas fraquezas

Demonstrar vulnerabilidade é um dos grandes sinais de que você confia na outra parte e se sente protegido (a) e seguro (a) perto dela. Se existe uma necessidade constante de autoafimação isso é um indicativo de que a entrega não é genuína e pode ser um sinal de alerta.

9- A pessoa que está ao seu lado é incapaz de sentir empatia pelos seus sentimentos.

Quando nos relacionamos esperamos que a outra parte tenha simpatia por nossos sentimentos. Não é necessário que as partes concordem com tudo (isso seria impossível), mas demonstrar empatia com o ponto de vista e sentimento do outro mostra maturidade emocional e respeito: principais ingredientes das relações saudáveis.

10- Vocês sempre estão brigando, terminando e voltando em seguida.

Um ciclo vicioso de términos e voltas pode indicar uma relação adoecida. É preciso analisar se o que mantém esse círculo é realmente afeto ou se são sentimentos como carência, dependência afetiva ou mesmo uma retroalimentação de uma relação abusiva.

Se você se identificou com alguns dos itens mencionados acima, lembre-se de que você sempre pode procurar e aceitar ajuda. Converse com pessoas da sua confiança ou busque orientação psicológica. Também não se esqueça de que não é vergonha estar em sofrimento. Nesse momento muitas outras pessoas estão passando por isso. O importante é saber que é possível mudar.

Imagem de capa:  klublu/shutterstock

Tudo o que deixamos de dizer vai se tornando Adeus

Tudo o que deixamos de dizer vai se tornando Adeus

O silêncio será a melhor pedida em muitos momentos de nossas vidas, principalmente quando estivermos nervosos e contrariados, ou quando estivermos sendo importunados por gente sem importância. No entanto, deixar de dizer o que deveria ter sido dito em alto e bom tom, a quem nos ama de verdade, pode nos trazer arrependimentos futuros, quando o outro não estiver mais ali ao lado.

O tempo não para, a vida corre e escapa aos nossos planos, às nossas certezas, trazendo imprevistos que desarranjam tudo aquilo que planejamos, plantando incertezas em nossos jardins, tornando-nos suscetíveis a quebras de expectativas constantes. Nada é certo nessa nossa jornada, ninguém nem nada serão para sempre. Um de repente inesperado pode mudar do avesso nossas vidas, assim, sem mais nem por quê.

Quando, então, a gente se vê sem aquela pessoa que tanto amamos ao nosso lado, tem que lidar com essa ausência, que dói, que machuca, que bagunça toda a carga emocional aqui dentro. O que em muito nos ajudará a prosseguir com esse vazio serão as lembranças de tudo o que compartilhamos com quem se foi, pois o amor é o que fica, quando tudo o mais se vai.

Por isso é que não podemos silenciar o amor que sentimos, a gratidão que nos invade, a felicidade que nos preenche, porque regar sentimentos é uma necessidade diária, para que mantenhamos sempre por perto quem nos é especial. Tudo o que calamos, tudo o que não dizemos, vai se tornando adeus, vai afastando quem não recebe de volta a verdade que traz junto de nós. As pessoas se cansam de terrenos áridos e tomam a iniciativa de sair dali. E a gente fica sozinho, remoendo tudo o que deveria ter sido dito e feito e demonstrado.

Uma das piores sensações que existe é perceber que já é tarde demais, porque o que não tem volta nunca será mudado. Expressarmos o que sentimos, deixando bem claro às pessoas queridas o quanto elas são importantes em nossa vida, o quanto somos gratos, fará um bem enorme, tanto para nós quanto para quem receber o nosso carinho explícito. É assim que a gente consegue sobreviver às perdas e aos rompimentos dessa vida. É assim que os adeuses se transformam em doces e esperançosos “até breve”.

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Sinto que alguns “eu te amo” podem sair não só da boca pra fora, como também do ego pra fora

Sinto que alguns “eu te amo” podem sair não só da boca pra fora, como também do ego pra fora

Sinto que alguns “eu te amo” podem sair não só da boca pra fora, como também do ego pra fora. Há um certo “eu te amo” que não significa um amor pela pessoa, mas o amor pela forma que se é amado.

Há uma confusão aí. Quando se diz eu te amo, a palavra amor entra em jogo. Ele é verbo de ação. Porque quem ama cuida, respeita, protege, ampara, encoraja, anima… É presente, é presença.
Mas e quando muito disso não existe numa relação? Nesse caso, eu vejo apenas o amor por uma forma e não por um ser.

É fácil detectar. A falta de algumas frases podem ajudar a perceber esta ideia “você está bem?”. “Como foi seu dia?” ” “Está melhor hoje?” “Ta precisando de alguma coisa?”

O amor tem dessas coisas- de cuidado, carinho, interesse, real entrega. Se não vejo essa sutileza, pra mim não configura amor, configura armadilha. Dizer “eu te Amo, e ser vazio de atitudes concretas com o ser “amado” é contraditório.

Muitas vezes, a pessoa ama a forma como é amada – ama o cuidado, o carinho, o movimento do parceiro em sempre atender e estar perto, ama o amor do outro por ele, mas não necessariamente o ama de fato.
Dá pra compreender?

É importante sentir a maré. Perceber os gestos, o interesse para não ficar nessa de viver uma carência afetiva sem real interesse.

É fácil dizer TE AMO, mas atrás dessas lindas palavras que estremecem o coração é importante acompanhar o carinho, atenção, afeto e cuidado.

Sinto diversas relações vazias preenchidas de falso amor.

Digo isso apenas para compreender que amor não é apenas um bom sexo e uma noite gostosa juntos. Amor está na relação que se constrói no dia-a-dia. No querer bem, no estar por perto mesmo que distante e saber que existe um bom parceiro pra vida, para diversos momentos.

Eu te amo não é contrato de alma nem de serviço. É um sentimento real e construtivo.

Saber que é amado é entender que alguém está junto pro que der e vier! E não apenas para ser amor e objeto de desejo.

Imagem de capa: Teresa Yeh Photography/shutterstock

Quando desistir, desista por completo

Quando desistir, desista por completo

Temos, muitas vezes, medo de desistir das coisas e das pessoas, porque pensamos que talvez não consigamos sobreviver longe daquilo tudo. Preferimos, assim, perpetuar a dor a cortá-la de uma vez por todas, por medo de sofrer. No entanto, dessa forma mantemos um sofrimento diário junto de nós. Se vamos sofrer de qualquer jeito, que seja pela partida da dor.

Não raro, nos relacionamentos amorosos, por exemplo, os casais rompem e voltam, repetidamente, não exatamente por sentirem falta do amor do outro, mas simplesmente por temerem não se acostumarem com a nova vida longe do parceiro. O que une duas pessoas deve ser sempre o amor, nunca uma hesitação, mas sim uma certeza. Permanecer ao lado de alguém por comodismo é muito pior do que estar sozinho, pois dessa maneira se opta por uma solidão acompanhada.

Isso se dá também em relação às amizades. Existem pessoas que se afastam e se reaproximam de um amigo, inúmeras vezes. Forma-se, assim, um ciclo vicioso: confia-se, decepciona-se, afasta-se, reaproxima-se e começa tudo de novo. Trata-se, nesses casos, de autoestimas fragilizadas, que precisam se sentir amadas a todo custo, enquanto ocorre a banalização do amor próprio e do perdão, já que, dessa forma, deve-se desculpar o outro sem parar.

Na verdade, quando temos muitas dúvidas em relação a algo, possivelmente quer dizer que aquilo não está trazendo alegria para nossas vidas, afinal, o que é verdadeiro sempre carrega certezas, carrega inteireza e completude. Se não tivermos certeza, é preciso tomar distância, para que possamos analisar a real significância daquilo em nossa jornada. E isso requer tempo, coragem e determinação.

Fato é que o que permanece com verdade em nossas vidas não traz dúvida alguma; se houver hesitação, é necessário parar e tomar uma atitude segura quanto ao que incomoda, o que, muitas vezes, implica desistir de uma vez por todas. Daí a importância de se entregar por inteiro ao que temos, para que não temamos desistir por completo quando precisarmos.

Imagem de capa:brickrena/shutterstock

Você anda levando pedradas? Isso pode ser um ótimo sinal!

Você anda levando pedradas? Isso pode ser um ótimo sinal!

A troco do quê alguém sacudiria os galhos de uma goiabeira seca, caso houvesse bem ali perto uma outra goiabeira carregada de frutas suculentas e prontas para serem colhidas e degustadas?

Ahhhhh… você não é lá muito chegado em goiabas? Tudo bem. Troque a goiabeira por uma jabuticabeira, uma mangueira, uma amoreira – a fruta é escolha sua – o sacrifício que pretende empenhar para obtê-la, também.

Uma coisa, no entanto, é fato indiscutível: quem já provou de uma fruta no pé, aquela fruta que teve o tempo do tempo para cumprir sua história, e encontrar a doçura na madureza natural do seu ciclo de vida, há de achar que essas coisas insossas e com gosto de sabão, que anda comprando no supermercado é tudo, menos fruta de verdade.

Assim como é inigualável a experiência de comer, chupar ou morder uma fruta de verdade, é extraordinária a oportunidade de conhecer e conviver com gente de verdade. Aquela gente que tem mais sumo que casca e bagaço; aquela gente que faz a nossa fé na humanidade volta a criar vida.

Gente frutífera! Dá até pra imaginar algumas dessas pessoas iluminadas que cruzaram o nosso caminho na vida, vertendo framboesas em vez de palavras, mestres com cabelos em cachos de uva, cuja sabedoria invade a alma da gente e se converte num vinho raro, daqueles que fazem a gente fechar os olhos pra aproveitar melhor a intensidade do sabor, a violência benigna das sacudidas em nossas certezas e a embriaguez reveladora de uma existência que andava amortecida em camadas de poeira.

Não há razão para se sacudir árvores secas, porque ninguém está interessado em agregar secura aos dias. Nossos dias já tem potencial insuspeito para permanecerem secos por conta própria. Nós é que temos que teimar em cavar bem fundo à procura de fontes limpas, ou andar sem preguiça em viagens de descoberta por rios infinitos de sabedoria e mares cheios de promessas, aventuras e perigo.

Porque uma vida sem perigos é uma vida seca. Não vale o esforço de acordar e se arrastar para além da cama, quando não se está disposto a correr o risco de descobrir que estamos muito longe de alcançar os sonhos.

E os sonhos são essas frutas maravilhosas, ainda não foram contaminadas pelos venenos dos homens e mulheres. Os sonhos são o desjejum dos corajosos. Gente corajosa sonha com o impossível. E não corre atrás de nada, porque correr atrás é perseguir; e perseguir cansa, humilha, coloca a gente num lugar atrasado, um lugar onde se come poeira dos outros.

Gente que brota frutos e verte sumos e não tem medo de amadurar pra retornar à terra e se realimentar de si mesmo… Ahhhh… gente assim assusta os acovardados, os invejosos e os preguiçosos. Gente assim, desperta no outro um incômodo ardido e o desejo de ter o que não se conquistou… tomar. Sacudir os galhos alheios para ter a posse daquilo que não se foi capaz de produzir.

Sendo assim… se você anda levando muitas pedradas… isso pode ser um bom sinal! Pode ser que suas raízes estejam cumprindo seu papel, de honrar a sua história. Pode ser que seus galhos estejam a rasgar o céu das oportunidades numa altura impossível de ser ignorada. Pode ser que suas folhas andem purificando o entorno de seu mundo, a ponto de tê-lo tornado indispensável. Pode ser que seus frutos estejam encantando aqueles que não acreditavam na sua capacidade de transformação. Então… comemore as pedradas! Ou você preferia estar no lugar daqueles que precisam apedrejar?!

Imagem de capa: BLACKDAY/shutterstock

Ela não é inteira para qualquer um

Ela não é inteira para qualquer um

Ao contrário do que imaginam, ela não é inteira e entregue para qualquer sorriso. É preciso muito respeito, atenção e originalidade para que ela seja alguém com quem se possa contar. A sua parceria não foi feita para afetos contados. Com ela é assim, reciprocidade ou nada.

Ela aprendeu no passado que não dá para confiar amor sem uma via de mão de dupla. Ela foge dessas promessas clichês. Por uma noite, ela até pode mostrar quem é de verdade. Mas só quando quer e com quem quer. Nada disso é garantia de um futuro. Sim, o dia seguinte importa. Os detalhes não escapam de vista do seu coração. Não tem um jeito fácil de conquistá-la. Se você acha que umas poucas doses de carinho farão com que ela atenda o seu chamado, desculpe. O encanto pode ser intenso, mas sem uma manutenção diária e sadia dos gestos realmente importantes, que pena, você vai perdê-la.

Porque antes dela ser esse presente bem-vindo, muitas cicatrizes ficaram. A sua pele ainda guarda marcas sutis dos amores insensíveis e das companhias que abusaram da falta de sinceridade. No que diz respeito ao estado da sua alma, aprendizados de sobra. Sejam com quedas, lágrimas e decepções na forma de metades, ela conseguiu superar cada obstáculo emocional para se tornar livre. Logo, não é com qualquer papo furado que ela esquecerá os próprios caminhos.

Se você honestamente deseja saber mais das suas lacunas e pontos finais, pergunte. Não faça jogos. Não tente dar uma de esperto pra cima dela. Leveza é o sobrenome que ela está disposta a receber de alguém. Mais uma vez, é reciprocidade ou nada.

Ela não é inteira para qualquer um. Ela demonstra o seu melhor lado com quem valoriza a sua companhia e com quem não mendiga amor para dois. E não, ela não é tão exigente quanto você pensa. Ela está mais para uma moldura das suas maiores percepções, somas e, principalmente, dos versos claros e simples que transbordou até aqui.

Imagem de capa: L’Amant d’un jour (2017) Dir. Philippe Garrel

Atração física não basta, tem que haver atração mental

Atração física não basta, tem que haver atração mental

Algumas pessoas nos atraem, de primeira, somente pela aparência, sem nem sabermos explicar o porquê direito. É a chamada atração física, que, muitas vezes, aproxima as pessoas, de início, para aventuras iniciais. No entanto, caso o físico não nos revele uma essência interessante, o relacionamento não dura, não se sustenta.

Embora, hoje, as aparências e superficialidades sejam supervalorizadas, em meio à rapidez que permeia todos os setores de nossas vidas, tornando-nos como que robôs ligados no modo automático, na maioria das vezes insensíveis, não existe relacionamento capaz de sobreviver somente pautado sobre a materialidade. Se sobreviver, será aos pedaços, desconexo, inverídico.

Viver não é fácil, ainda mais com as dificuldades que crescem a cada dia, ou seja, sem que tenhamos alguém que nos receba com verdade e transparência, ao final do dia, tudo ficará pior. Os pesos de fora então se acumularão aos que nos aguardarão no lar, onde o amor não estará. Ou ficamos com a nossa própria companhia, ou com alguém que nos seja recíproco, porque, ao menos em nosso tempo livre, teremos que nos distanciar do que é falso, vazio e irreal.

Conviver com alguém requer entrega, partilha, sinceridade, o que não se sustenta sob aparências e frivolidades. Atração física pode até servir para a aproximação, porém, o que faz o amor durar é exatamente o que não se vê, o que é de dentro, íntimo e pessoal. Somente quem se desnuda para além do corpo é capaz de se entregar e de receber sentimentos verdadeiros. A superficialidade é como um muro que barra o que vem de dentro.

O corpo envelhece, a pele enruga, os cabelos vão ficando brancos, a força física se esvai aos poucos, porém, sentimentos verdadeiros e recíprocos permanecem acesos e renovados a cada amanhecer. No final de nossas vidas, o sexo já não fará diferença alguma, mas sim as conversas entre nós e a pessoa amada. E é assim que o amor fica. E é assim que o para sempre não acaba.

Imagem de capa: wavebreakmedia/shutterstock

O raso me dá preguiça. O intenso me fascina!

O raso me dá preguiça. O intenso me fascina!

Dia desses, estava em uma rodinha de bate papo. Ali, os papos variavam, entretanto, não pude deixar de prestar atenção em um comentário que ouvi de uma das pessoas que estavam presentes. Ela disse que nós mulheres nunca podemos deixar claro demais quando estamos gostamos de alguém.

Mesmo discordando, ouvi o comentário, e fiquei na minha. Até por que, mesmo não concordando com algo, temos que respeitar a opinião alheia.

Talvez eu seja transparente demais com meus sentimentos e com as pessoas que os despertaram. Não sei viver as coisas de uma forma rasa, e quando sinto, sinto intensamente. Comigo não existe meio gostar, meio amar, se gosto, gosto mesmo. Se amo, ahhh se amo, a pessoa saberá a qualquer custo, mesmo que seja através de pequenos gestos.

O raso me dá preguiça. O intenso me fascina.

Sou a favor de demonstração de afeto, contudo, deve haver reciprocidade de ambas as partes. Não adianta só um lado demonstrar que se importa. Isso seria falta de amor próprio. O amor deve partir de nós mesmos. Quando aprendermos a nos amar por inteiro, não amaremos alguém pela metade.

Cada um sabe do caminho que percorreu até chegar onde está, porém, cada relacionamento se faz único. Mesmo que o último tenha deixado seu coração em pedaços, saiba que os cacos um dia se juntarão, e você será capaz de amar novamente.

É difícil confiar em alguém após alguns dissabores, no entanto, devemos respeitar nosso tempo. Se sentimos a necessidade de guardar nossos sentimentos, guardamos até o momento que tenhamos confiança em demonstrá-los. Quando sentir confiança novamente, o carinho sairá naturalmente.

E em hipótese alguma, jamais deixe de acreditar que pode ser amado (a) genuinamente.

Um dia você perceberá que cada tropeço, foi uma experiência.

Imagem de capa: alessandro guerriero/shutterstock

Porque é preciso cair para aprender a levantar voo

Porque é preciso cair para aprender a levantar voo

Em um mundo que grita felicidade e sucesso pelos cotovelos, sobretudo nas redes sociais, é difícil falar sobre fracasso e suas inevitáveis implicações. No entanto, por isso mesmo, parece-me que discorrer um pouco sobre esse assunto tão temido é imprescindível.

O fracasso ocorre toda vez que você investe tempo e esforço em um projeto e este dá errado. Como somos seres falíveis, há de se entender que, mais cedo ou mais tarde, todos nós iremos fracassar. Não há como escapar dele. Aliás, até existe uma maneira de não fracassar – qual seja – não ter sonhos e traçar projetos para a vida. Todavia, em que medida podemos chamar de vida uma existência sem sonhos, sem projetos? Talvez, isso ajude a explicar a tamanha “felicidade” que possuímos, uma vez que ao demonizar completamente o fracasso, as pessoas, por consequência, deixaram de sonhar, a fim de não fracassarem. Além do mais, projetos dependem de esforço e tempo, coisas também não muito valorizadas na nossa sociedade líquida.

Entretanto, para os que ainda não sucumbiram à ditadura da “felicidade”, fracassar é um verbo presente na vida, o que me leva a escrever esse texto, sendo eu um fracassado por excelência. Antes de mais nada, uma pergunta precisa ser feita: os fracassos nos levam à felicidade? Não. Desculpem-me, mas estaria mentindo se dissesse que sim. Porém, a bem da verdade, eles nos levam, caso saibamos aprender, a um elemento fundamental para que se possa ser feliz: o autoconhecimento.

A meu ver – e isso não é a verdade absoluta, portanto – para que o sujeito possa ser feliz é necessário que ele se conheça verdadeiramente, a fim de que possa buscar no mundo aquilo que realmente lhe apraz e traz alegria a sua alma. O fracasso entra nesse processo por ser da sua característica a solidão. Sim, o fracasso é por natureza um ser solitário e isso ocorre, entre outras coisas, por ser extremamente difícil, para os que nos cercam, entender como nos sentimos ao não conseguir realizar algo que planejamos durante tanto tempo e trabalhamos duro para que acontecesse.

Falta empatia nessas horas (e em tantas outras) para que se entenda de que forma um fracasso abala a estrutura emocional de uma pessoa, acima de tudo, em um ambiente tão hostil a ele, como o nosso. Desse modo, nesses momentos de fracasso, de um lado há a dor de perceber-se em muitas situações sozinho; mas de outro, essa solidão pode permitir que entremos em contato com o nosso interior sem interferências externas, analisando o que realmente queríamos, o que queremos e de que maneira devemos buscar esses desejos.

Sendo assim, o fracasso, por meio da solidão, pode levar ao autoconhecimento, que nos permite conhecermo-nos melhor, pois muitas vezes é preciso ir até o subterrâneo para, então, saber o que precisamos fazer na superfície. Esse processo de autoanálise, embora doloroso, mostra-nos maravilhas escondidas (ou não percebidas) em nosso caminho, bem como, leva-nos ao encontro de uma felicidade mais profunda e verdadeira, já que é fruto de algo latente no mais profundo do nosso ser, lugar em que se guardam as verdades.

Ninguém gosta de cair, entretanto, às vezes isso é importante para que possamos nos reencontrar e amadurecer. Sei o quanto fracassar é doloroso, triste, cria medos e ansiedades, mas é desse turbilhão de emoções que somos constituídos e é preciso aprender a lidar com eles, tornando-os nossos amigos — assim como as alegrias — para que possamos aprender, ouvir o que eles têm a nos dizer e criar novas rotas, novos caminhos. Afinal, nunca há um só caminho para o que se deseja, até porque, no meio do caminho os desejos podem mudar e, então, buscar novos roteiros é inevitável.

No fim das contas, de fracasso em fracasso ninguém se torna feliz. No entanto, podemos nos tornar mais fortes, porque estamos mais próximos do que somos essencialmente e isso possibilita que saibamos em que lugar aquilo que a nossa alma precisa se encontra, mesmo que seja um novo fracasso, uma nova busca interior e uma nova aprendizagem.

Os fracassos levam a ultrapassagens e as ultrapassagens a descobertas. A felicidade, por sua vez, não está nem um ponto, nem em outro; ela está no caminho que se faz até que novas descobertas sejam projetadas, no mundo externo e no mundo interior. Precisa-se conhecer a infinidade do universo, para que se conheça a infinidade de alegrias presentes cotidianamente entre os fracassos e os sucessos.

Imagem de capa: areebarbar/shutterstock

Sou da época em que demorava pra gente pegar na mão de uma garota

Sou da época em que demorava pra gente pegar na mão de uma garota

“Naquela época, da paquera ao primeiro beijo, era como organizar um evento.” (Allê Barbosa)

A minha infância durou muito, comparada à de meu filho. Eu brinquei na rua, na casa de amigos, nas pracinhas do bairro, ia ao clube nadar, jogar bola, sem nem pensar em namoro, até praticamente o fim do ginásio. A infância durava mais, bem como os brinquedos. A gente herdava brinquedos e roupas de nossos irmãos.

Como fui o caçula de seis filhos, eu raramente tinha o primeiro algo, porque a bicicleta, os brinquedos, os jogos de tabuleiro e até os livros escolares já tinham sido usados pelos irmãos mais velhos. Lembro-me de brincar com o Falcon, com Playmobil, de jogar piorrinha, de rodar pião e de jogar bolinhas de gude na saída do grupo, mesmo após os onze anos. Hoje, com onze anos, já vejo crianças preocupadas com namoro.

É incrível como tudo durava, desde móveis, utensílios, até brinquedos. Várias gerações utilizavam os mesmos produtos. Os móveis da casa de meus pais eram aqueles de quando eles casaram. Acho que talvez seja essa uma das razões de os sentimentos também terem sido mais duradouros naquela época, porque amizade costumava ser para sempre e os casais lutavam mais para ficarem juntos.

Hoje, nada dura, nem roupa, nem cadeira, nem carrinho de brinquedo, nem sentimento. É necessário consumir, é preciso comprar, afinal, os modelos vão se tornando antiquados e novidades são lançadas num piscar de olhos. Nada dura o bastante, o que, infelizmente, acaba ocorrendo também no plano afetivo, no tocante às relações humanas. A necessidade de compra acabou contaminando os sentimentos, que passaram a ser comprados também.

Da mesma forma, essa velocidade desmedida que permeia os nossos dias acaba nos distanciando da necessidade de nos demorarmos, em certos momentos, em determinadas ocasiões, junto a pessoas especiais. Parece que tudo tem que ser já, para ontem, inclusive o amor – daí a conquista quase nem mais existir, infelizmente. Com isso, muitos casais apressam-se e se esquecem de se conhecerem de fato antes de tomarem decisões de vida.

Logicamente, é utopia querer que voltem os comportamentos de outrora, uma vez que o mundo sempre segue e se moderniza, tornando os costumes algo a ser também transformado, afinal, não caberiam, hoje, muitas atitudes que eram comuns lá atrás. Mesmo assim, o amor ainda deve ser algo desenvolvido com cuidado, tempo e disposição, refletido e levado a sério.

Amor requer demora, comprometimento e dedicação, pois é dele que se alimentam os nossos mais belos sonhos de vida. É o amor que nos ajudará a não cair, sempre que a vida disser não. Demoremos, pois, ao menos no amor.

Imagem de capa: Vasilyev Alexandr/shutterstock

Quem quer se joga. Quem não quer faz jogo.

Quem quer se joga. Quem não quer faz jogo.

De repente eu pensei em você. Do nada, andei pensando em você que já não sei onde anda. Lembrei das nossas coisas, nosso tempo, nosso jeito. Refiz comigo nosso primeiro passeio, na chuva, nosso Réveillon em casa, nossa única sessão de cinema. Lembrei da gente, assim, sem mais. E acho que foi justa a nossa conduta, nosso juízo, nossa iniciativa de seguir em frente, resolutos, nossos caminhos opostos. É assim que é.

Fomos breves, quase tanto quanto breve é a vida. Passamos um pelo outro feito cometas em direções opostas. Corpos celestes que um dia se cansaram de girar em torno do sol e decidiram sair do rumo e olhar a lua juntos. Rebeldes, deixamos nossa via certa, circular e eterna por um zigue-zague esquisito de pequenos erros entre as estrelas. Belos e breves no espaço infinito em que vive uma lembrança boa.

Nosso voo vertiginoso e fugaz riscou o céu de luz, mudou os ciclos lunares, bagunçou a casa dos astros. Você e eu estremecemos tudo, deixamos no infinito nosso rastro luminoso de ternuras e afetos. Depois partimos leves, felizes, soltos, melhores, um para cada lado do firmamento.

Fossem os amores eventos previsíveis e fáceis de classificar por seu tempo de duração, o nosso seria nada mais do que breve e bonito feito os cometas e sua passagem. Fomos breves, repentinos, imediatos. E ficamos um no outro para sempre. Porque assim quisemos, porque nos jogamos e vivemos com verdade. Sem jogos, sem dramas, sem medos. Você sabe: quem quer se joga. Quem não quer faz jogo.

Imagem de capa: Jurij Krupiak/shutterstock

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