“O melhor prêmio que tive como escritor foi-me dado por uma criança”: conheça essa história de Mia Couto

“O melhor prêmio que tive como escritor foi-me dado por uma criança”: conheça essa história de Mia Couto

Por Mia Couto

Do original:  Ensaio sobre a Convenção sobre os Direitos da Criança: Engravidar o mundo de futuro

“O melhor prémio que tive enquanto escritor foi-me dado por uma criança”

Maputo, 10 de Dezembro de 2014 – O melhor prémio que tive enquanto escritor foi-me dado por uma criança. Por um menino que teria uns 9 anos de idade. O pai tinha-o levado a uma sessão de lançamento do meu livro “O gato e o escuro”.

A obra foi apresentada como sendo um “livro para crianças”, apesar da minha resistência em aceitar que alguém escreve “para” crianças. O facto é que o menino ali estava, à entrada do grande salão, com um exemplar debaixo do braço. O pai pediu-me que assinasse o livrinho antes da sessão de lançamento porque o menino, o Manuel, tinha que se deitar cedo. Ajoelhei-me junto ao Manuel e fiz umas tantas perguntas idiotas que os adultos normalmente fazem quando acreditam que estão a falar com crianças. O menino olhou-me desinteressado e quase desapontado: eu era igual a todos os outros, os que, vezes sem conta, já lhe haviam feito as mesmas perguntas. Coloquei-lhe então uma outra questão:

– Este livro é sobre o medo do escuro. Será que tu tens medo?

Pela primeira vez ele me olhou nos olhos. Demorou a reagir e respondeu com uma pergunta:

– E tu tens medo do escuro?

Disse-lhe que sim. Ele gostou da sinceridade, deu meia volta e quando já se afastava conduzido pela mão do pai, ele parou e disse-me à distância:

– Não tenhas medo. O escuro apenas é feito das coisas que nele colocamos.

Disse aquilo para me reconfortar. Mas ele apenas recitava uma frase que eu tinha escrito no livro. O facto de um menino ter citado uma frase minha como se fosse algo da sua autoria foi talvez o maior dos prémios literários que tive. Nunca mais esquecerei esse momento.

Falo deste episódio para chegar a um outro ponto de partida: quase todos nós deixamos de saber falar com as crianças. Primeiro, pela raridade do momento: as poucas vezes que a elas nos dirigimos é para lhes falarmos. Não é para falarmos com elas. Essa ausência de diálogo tem uma aparente justificativa: as crianças, pensamos nós, pouco sabem e o que sabem, sabem mal. Não são ainda pessoas. São um projecto de pessoa. Olhamos para baixo quando falamos com elas. Como se elas fossem incompletas e estivessem à espera de legitimação para serem tratadas como sujeitos. Até esse reconhecimento de idade elas não são senão objecto da nossa atenção, mesmo que essa atenção seja positiva.

Em segundo lugar, não falamos com elas, porque o conteúdo da nossa “conversa” com as crianças resume-se a três ou quatro perguntas sempre iguais:

– Como te chamas?

– Quem é o teu pai? Ou a tua mãe?

– Em que escola andas?

– O que queres ser quando fores grande?

Esgotadas estas perguntas, resta um vazio. A razão deste vácuo não está na criança. A falta de habilidade para o diálogo mora em nós, adultos: deixámos de saber lidar com a infância que sobrevive dentro de nós. Mais grave ainda: temos medo de revisitar essa criança que subsiste no nosso íntimo.

Quando construímos a categoria “criança” inspiramo-nos quase sempre num critério meramente etário. Fica demarcada uma fronteira intransponível: de um lado, “eles”, as crianças; do outro, nós, vivendo no território da maturidade, longe da infância.

Estamos marcados por preconceitos e ideias feitas que vão desde a tentativa de menorizar os outros até à percepção da criança como uma entidade pura, essencial e que, por isso, se encaixa bem numa gaveta existencial. A realidade é outra, bem diferente: as crianças surpreendem-nos e revelam-se pessoas inteiras, com capacidades ao mesmo tempo iguais e diferentes das nossas. Algumas dessas capacidades nós, que nos chamamos de adultos, já as perdemos.

Essa plasticidade de pensamento, essa capacidade de estarmos disponíveis e nos espantarmos, são características que muito nos ajudariam a sermos melhor, num mundo mais aberto à mudança.

Na verdade, não existe uma entidade denominada “criança” que possa ser separada de forma definitiva do resto da humanidade.

Essa entidade é sobretudo de carácter relacional. Ela nasce das interacções entre os diferentes grupos sociais, religiosos e culturais.

Não se é criança. Está-se criança. É evidente que a Convenção sobre os Direitos da Criança teve que operar nessa generalização simplificadora. E é justo que não se relativize aquilo que é central e essencial de modo a não cair na armadilha dos relativismos culturais que nos atirariam para muita palavra e pouca acção. Foi nessa dimensão universalista que se deram passos decisivos no mundo inteiro. Em Moçambique essas conquistas são visíveis e constituem um claro motivo de orgulho.

Contudo, existem alguns cuidados que nos devem guiar na avaliação do que foi feito e do que falta fazer. Essa avaliação é muitas vezes conduzida de forma apressada e para servir intenções políticas. E as conquistas tendem a ser apresentadas de forma quantitativa: o número de escolas, o número de vacinas, o número de crianças abrangidas por programas sociais. Falta examinar a qualidade. Falta avaliar a adequação da escola em função da dinâmica do tempo que vivemos.

As muitas escolas que foram edificadas são, na verdade, uma condição para que se observe um dos direitos fundamentais da criança. Mas elas preparam as novas gerações para um futuro que já se torna presente? Está a nossa sociedade estruturada para se confrontar com a dinâmica demográfica que se avizinha? Estamos acompanhando as exigências crescentes de uma sociedade maioritariamente composta por gente com menos de 15 anos?

Noutros termos: quanto estamos construindo no ventre do presente uma sociedade grávida de futuro? Esta é as perguntas mais sérias que podemos fazer quando o tempo presente se senta no lugar do réu.

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“A destrutividade é a consequência de uma vida não vivida”: considerações de Erich From

“A destrutividade é a consequência de uma vida não vivida”: considerações de Erich From

Por Nando Pereira

Do original: “A DESTRUTIVIDADE É A CONSEQUÊNCIA DE UMA VIDA NÃO VIVIDA”: ERICH FROMM EXPLICA A ENERGIA PELA VIDA E PELA DESTRUIÇÃO.

O psicólogo, filósofo humanista e sociólogo alemão Erich Fromm (1900-1980), conhecido popularmente por seu livro “A Arte de Amar” (1956), não é obviamente a única referência a definir as origens da destrutividade e agressão humanas, mas é uma das fontes mais interessantes sobre o assunto, e o que impressiona é essa relação direta que traça entre a destrutividade e o viver sem vida, sem expressão, sem espontaneidade – um realidade contemporânea apesar de nossa aparente liberdade. Uma das partes do seu trabalho foi estudar o caráter humano e os dois trechos abaixo buscam decifrar essa característica da destrutividade, que, segundo ele, seria uma transformação da energia da vida gerada a partir dos cerceamentos da expressividade espontânea do viver.  O primeiro trecho é do livro “Em Nome da Vida: Um Retrato Através do Diálogo”, publicado 6 anos após sua morte mas que contém a transcrição de palestras que Fromm realizou em 1970 para uma rádio alemã. O segundo é do seu primeiro livro, “O Medo à Liberdade” (Escape From Freedom), de 1941, da época em que Fromm viveu nos Estados Unidos, retirado da Europa depois da tomada do poder na Alemanha pelo partido nazista.

Fromm geralmente usa o termo destrutividade, talvez porque se refira a comportamentos consolidados nas pessoas, mas acredito que seja possível incluir o conceito de agressão nas duas descrições abaixo. Não a agressão no sentido “saudável”, digamos assim, como Fritz Perls definiria, mas a “agressão anti-social”, contra os outros ou contra si mesmo. Uma interpretação particular dessa agressividade, e que pode servir de convite à mais reflexões nossas aqui, incluiria a agressividade mais comum, como a postura repetidamente crítica como traço de caráter ou a “contrariedade” como maneira de relacionamento com o mundo.

Uma ressalva importante é que essa destrutividade precisa ser compreendida no contexto mais amplo do trabalho inteiro de Fromm, onde ele apresenta a importância das assimilações sociais e o conceito da “liberdade de” (diferente da “liberdade para”), que indica claramente a influência de um ambiente cerceador.

Seguem os dois trechos:

“Em última análise, pode-se dizer que uma pessoa que não encontra alegria na vida tentará vingar-se e preferirá destruir a vida a sentir que não consegue encontrar qualquer sentido em sua vida. Pode estar ainda viva fisiologicamente mas psicologicamente está morta. É isso que dá origem ao desejo ativo de destruir e à necessidade apaixonada de destruir tudo, incluindo a própria pessoa, em vez de confessar que nasceu mas não logrou se tornar um ser humano vivo. Isso é um sentimento amargo para quem o experimenta e não nos entregamos a mera especulação se admitirmos que o desejo de destruir decorre desse sentimento como uma reação quase inevitável.”
~ Erich Fromm, em “Em Nome da Vida: um Retrato Através do Diálogo” (For The Love of Life, 1986)

“Parece que a quantidade de destrutividade encontrada nos indivíduos é proporcional à quantidade em que a expansividade da vida é cerceada. Não estou me referindo às frustrações individuais deste ou daquele desejo instintivo, mas à frustração do todo da vida, ao bloqueio da espontaneidade do crescimento e da expressões das capacidades sensíveis, emocionais e intelectuais do homem. A vida tem um dinamismo interno por si mesma; a vida tende a crescer, a ser expressada, a ser vivida. Parece que se essa tendência é cortada, a energia dirigida à vida passa por um processo de decomposição e muda em energias dirigidas à destruição. Em outras palavras, a vontade de viver e a vontade por destruir não são fatores mutuamente independentes, mas estão em uma interdependência revertida. Quanto mais a vontade em direção à vida é cerceada, mais forte é a energia pela destruição; quanto mais a vida é realizada, menor a força da destruição. A destruição é a consequência de uma vida não vivida. As condições individuais e sociais que geram a supressão da vida produzem a paixão pela destruição que cria, por assim dizer, o reservatório da qual as tendências hostis particulares – seja contra os outros ou contra si mesmo – são nutridas”.
~ Erich Fromm, em “O Medo à Liberdade” (Escape From Freedom, 1941)

Nota da Conti outra: a publicação do texto acima por esta página foi autorizada pelo autor.

Fonte mais do que indicada:

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As principais dúvidas dos pais que realmente se preocupam com seus filhos

As principais dúvidas dos pais que realmente se preocupam com seus filhos

Por MARCOS MEIER

Do original: Dicas para pais

Como fazer com que as crianças gostem de ir para escola? Como diminuir a resistência?

Os pais podem ajudar seus filhos a gostar da escola participando da vida escolar. Buscar os filhos na escola e ficar mais um pouquinho lá; pedir para o filho mostrar cada detalhe da escola, conversar sobre professores e colegas de turma, conhecer o nome dos melhores amigos da sala e convidá-los a brincar juntos num sábado, enfim, participar com alegria. Isso cria um clima favorável para aceitar a escola como algo bom, gostoso.

A própria escola deve ajudar criando apresentações, mostras, feiras de ciências, etc…  os pais vão à escola e valorizam a participação do filho, criando nele um sentimento bom em relação a tudo que se referir à escola.

O que fazer quando se sabe que a criança está fazendo manha?

Manhas, birras, “shows”, choradeiras, etc são mecanismos que as crianças utilizam para tentar conseguir o que querem. Se os pais, não suportando mais as manhas, cederem uma vez, os filhos aprendem que dá certo, que birra funciona. Portanto, para mudar esse comportamento da criança, ela precisa perceber que a manha não funciona. Para isso, não se deve gritar com os filhos, ameaçar, punir, etc… isso só envia a mensagem para a criança que ela está conseguindo alterar os pais e , portanto, ela pode continuar a fazer as birras. A melhor forma de lidar com isso é afastar-se da criança deixando-a sozinha. A perda da atenção mostra à criança de que birra traz perdas, traz o oposto do que ela queria, o que faz mudar o comportamento.

Como demonstrar segurança?

Pais seguros não gritam, não xingam, não perdem o controle, e não precisam provar seu amor a toda hora com brinquedinhos, com atitudes de desistência perante regras e limites. “Tá bom filhinho, mas só dessa vez” é um dos maiores problemas na educação das crianças. Pais seguros, firmes, que sabem dizer “não” quando precisa, criam filhos tranquilos que conhecem seus limites e que não precisam testar os pais para saber se eles realmente os amam. Vale lembrar que, de vez em quando, podemos sim aceitar exceções, podemos quebrar algumas regras, não precisamos ser sempre tão rígidos. No entanto, é a sistematização que traz resultados.

Como despertar o desejo das crianças fazerem as lições de casa?

Lição de casa é fundamental para a aprendizagem. Durante a aula a criança aprende e o cérebro registra tudo na memória de curto prazo. Em casa, durante a lição de casa, durante a leitura, ou na hora que a criança explica aos pais o que aprendeu na sala, o cérebro envia o que está na memória de curto prazo para a memória de longo prazo. Se não faz lição, é mais fácil esquecer tudo o que se aprende. Depois, à noite, durante o sono profundo (daí a importância de dormir bem) o cérebro fixa o que estiver na memória de longo prazo. É aí que termina a aprendizagem. Crianças que não fazem lição de casa (ou que as mães fazem por elas) não aprendem adequadamente e depois afirmam que na avaliação “deu um branco”. O mesmo acontece com crianças que não dormem mais de 8 horas por noite.

Assim, para criar o desejo, é necessário criar hábito. Todos os dias um horário para fazer lição ou para ler ou para estudar. Hoje não tem lição? Não faz mal, vamos ler.

As crianças precisam mesmo de uma rotina diária?

Precisam. A rotina traz segurança, tranquilidade. O cérebro aprende que há uma familiaridade no dia-a-dia e não gasta energia tendo que inventar ou descobrir o que vem depois. Dentro da rotina, a criança tem espaço para criar, inventar e fazer novas descobertas mais significativas.

Os filhos podem/devem receber prêmios por bom comportamento e bom desempenho escolar?

Não. Premiar por estudar ou por ir bem numa prova ensina ao filho que estudar não é tão bom assim e que tirar boas notas é raro, por isso deve ser premiado. Pais que prometem prêmios no final do ano por aprovação ou por notas boas criam mais uma pressão (desnecessária) na hora de uma avaliação. A criança fica com medo de errar,  pois pode perder o prêmio. O adequado é acompanhar todos os dias, ver se fez lição, conversar sobre a leitura etc.. isso faz com que a criança não deixe para estudar só no dia da prova. Acompanhar todos os dias vai resultar em aprovação, notas boas, sucesso.

Elogios, beijos e abraços mostram ao filho que os pais têm orgulho do seu comportamento. Logo ele vai sentir prazer em estudar. A motivação será intrínseca.

Qual o segredo para não errar pelo excesso de zelo e nem pela falta de atenção às crianças?

Dar autonomia passo a passo, dia a dia. Autonomia se desenvolve dando responsabilidade e liberdade nas decisões que o filho deve (e pode) tomar. Só liberdade cria filhos irresponsáveis, egoístas e voltados ao prazer a qualquer custo. Só responsabilidade cria filhos escravos, sem personalidade, sem vontade própria. O equilibro desenvolve autonomia.

As férias proporcionam oportunidades de manter relacionamentos familiares agradáveis e descontraídos. Como manter este clima mesmo com a volta às aulas?

Separando momentos de interação. Uma dica prática é fazer pelo menos uma das refeições juntos, mas com uma regra bem clara: proibido falar coisas ruins, assistir TV, dar broncas, pegar no pé, etc… hora da refeição é hora da alegria. Hora de compartilhar coisas que aprendeu, que viveu, sentiu, etc… ou seja, hora de repartir a vida.

Outra dica é: evite dizer não, mas quando disser, faça valer. Passar o dia mandando, dando brincas, brigando com os filhos, não resolve, não cria um clima de participação.

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E você, precisa de ajuda com os seus filhos?

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O mundo é poser

O mundo é poser

Por Marcela Picanço

Todo mundo quer ser alguém. Talvez não alguém em carne e osso, mas alguém que seja um personagem nosso, como se fosse uma imagem de pessoa ideal. A partir daí, fazemos tudo em busca dessa “pessoa”. Talvez a felicidade que tanto esperamos seja o encontro entre alguém que você quer ser com alguém que você realmente é. E eu não acho que tenha problema nenhum nisso, se não o prejudicar e não reprimir suas verdadeiras vontades.

O problema é que, hoje em dia, parece que a maioria das pessoas se padronizaram. Agora, a pessoa ideal é praticamente a mesma para todo mundo. Não existem mais vários grupos diferentes, mas poucos, onde as pessoas gostam de ser rotuladas, apesar de falarem constantemente: “eu não gosto de rótulos”. Todas as pessoas se vestem igual, escutam as mesmas músicas ‘cools’ e tiram as mesmas fotos. Todo mundo quer que a vida seja igual a uma foto espontânea com efeito vintage. Tudo que é antigo é muito cult. E a questão é que todo mundo sabe que ninguém é assim naturalmente. Essas fotos antigas dos nossos avós, que são super legais, só são super legais porque eles não estavam pensando no status que aquela foto ia trazer. Eles só tiravam e ficavam felizes por aquele momento ter sido registrado. Hoje, tudo é muito forçado, tudo significa passar uma imagem do que se é. O que você é todo mundo está vendo. Não enganamos ninguém, só nós mesmos.

A maioria das coisas que existem no mundo são uma cópia de outra coisa. Todas as ideias têm uma base, por mais originais que sejam. E isso não é uma crítica, é apenas um fato. As grandes inovações também surgiram de algo, por exemplo, da natureza. E, se formos entrar no assunto “e a natureza, de onde veio?”, eu vou responder que simplesmente não sei. Ninguém sabe a origem de tudo. Talvez o Big Bang também seja uma cópia de um universo que era meio sem graça. Vai saber…

Não tem como ser cem por cento original, mas isso não significa que precisamos ficar presos na mesmice. As pessoas começaram a ter noção de que ser diferente é legal, pois o diferente se destaca. O problema é que se esqueceram de nos contar que, quando todos querem ser diferentes, todos ficam iguais. E o pior é que os pensamentos ficam todos no mesmo nível. Ninguém se permite pensar e dar uma ideia diferente do diferente padronizado. E o mundo começa a gerar as mesmas coisas de sempre, transformando-se em um lugar monótono.

A gente deveria usar esse nosso lado “wanna be” como influência e não como lema de vida. É possível virar o que queremos ser, desde que ainda seja você. Muitas pessoas estão sem coragem de assumir uma ideia, pois vai fugir aos padrões, se for uma ideia idiota. Uma vez me falaram que uma ideia boba era igual a um aluno bagunceiro em sala de aula. Se você der a dose certa de estímulo para ele, ele vira um gênio. E estão faltando mais corajosos, que exponham suas ideias idiotas para o mundo, para que elas virem geniais. Uma ideia só é idiota quando é vista por um idiota.

A nossa personalidade vai se moldando com aquilo que achamos que é certo e legal, mas não para que alguém diga que é legal. Nós sabemos o que nos faz bem. Deve dar muito trabalho ser uma farsa o tempo todo. Em algum deslize, alguém nos descobre. Ninguém é tão incrível como mostra ser. Todos têm suas fraquezas. Não precisa sair mostrando quais são, mas também não precisa fingir que elas não existem, porque ninguém é super-herói. Acho que ser um ser humano ainda deveria ser normal.

***

Nota da CONTI outra: Poser é uma gíria da língua inglesa cujo significado – principalmente no contexto musical – se refere a uma pessoa com personalidade influenciável, sem atitude e que se deixa impressionar pelo artista, banda ou estilo musical que está fazendo sucesso no momento. O poser finge ser um fã apenas para estar na moda, para se juntar a um grupo e seguir as mesmas tendências.

Conselhos de um velho apaixonado: uma crônica de Carlos Drummond de Andrade

Conselhos de um velho apaixonado: uma crônica de Carlos Drummond de Andrade

Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção: pode ser a pessoa mais importante da sua vida.

Se os olhares se cruzarem e, neste momento, houver o mesmo brilho intenso entre eles, fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu.

Se o toque dos lábios for intenso, se o beijo for apaixonante, e os olhos se encherem d’água neste momento, perceba: existe algo mágico entre vocês.

Se o 1º e o último pensamento do seu dia for essa pessoa, se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça: Algo do céu te mandou um presente divino : O AMOR.

Se um dia tiverem que pedir perdão um ao outro por algum motivo e, em troca, receber um abraço, um sorriso, um afago nos cabelos e os gestos valerem mais que mil palavras, entregue-se: vocês foram feitos um pro outro.

Se por algum motivo você estiver triste, se a vida te deu uma rasteira e a outra pessoa sofrer o seu sofrimento, chorar as suas lágrimas e enxugá-las com ternura, que coisa maravilhosa: você poderá contar com ela em qualquer momento de sua vida.

Se você conseguir, em pensamento, sentir o cheiro da pessoa como se ela estivesse ali do seu lado…

Se você achar a pessoa maravilhosamente linda, mesmo ela estando de pijamas velhos, chinelos de dedo e cabelos emaranhados…

Se você não consegue trabalhar direito o dia todo, ansioso pelo encontro que está marcado para a noite…

Se você não consegue imaginar, de maneira nenhuma, um futuro sem a pessoa ao seu lado… Se você tiver a certeza que vai ver a outra envelhecendo e, mesmo assim, tiver a convicção que vai continuar sendo louco por ela…

Se você preferir fechar os olhos, antes de ver a outra partindo: é o amor que chegou na sua ida.

Muitas pessoas apaixonam-se muitas vezes na vida, mas poucas amam ou encontram um amor verdadeiro.

Às vezes encontram e, por não prestarem atenção nesses sinais, deixam o amor passar, sem deixá-lo acontecer verdadeiramente. É o livre-arbítrio.

Por isso, preste atenção nos sinais.

Não deixe que as loucuras do dia-a-dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: o AMOR !!!

Ame muito…..muitíssimo…

Texto atribuído à Carlos Drummond de Andrade

Nota da Conti outra: após questionamento dos leitores identificamos uma análise em que o texto supracitado consta classificado como sem referencial bibliográfico que comprove a sua origem embora o mesmo não esteja classificado na listagem de atribuições falsas destinadas ao autor.

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O poeta Carlos Drummond de Andrade em 29/09/1972
Fernando Bueno/AE, Fonte Acervo Estadão

NORMOSE, a patologia silenciosa: a história de como o psicólogo Pierre Weil se curou dela, por ele mesmo

NORMOSE, a patologia silenciosa: a história de como o psicólogo Pierre Weil se curou dela, por ele mesmo

Alguns já estão familiarizados com o conceito de “normose” e também com o trabalho do educador e psicólogo francês Pierre Weil (1924-2008), Doutor em Psicologia pela Universidade de Paris e autor de “A Neurose do Paraíso Perdido”, “Antologia do Êxtase” e “As Fronteiras da Evolução e da Morte”, mas talvez alguns ainda não estejam com a história pessoal que levou Pierre a se perceber um normótico em si mesmo e, a partir daí, a tomar um rumo diferente e a trabalhar profissionalmente, como psicólogo e palestrante, esse novo conceito. No texto abaixo, Pierre conta parte dessa história, fala de como saiu de uma infelicidade pessoal, de uma separação e de um câncer para o Tibete, para o ioga e para a fundação da UNIPAZ, a conhecida universidade da Paz fundada em Brasília em 1987.

Um dos problemas das correntes da normose é que elas são inconscientes e silenciosas. Mas, como Pierre afirma no texto abaixo, de sutis e fracas elas não tem nada: a normose é “um processo psicossociológico que ameaça a humanidade e as outras espécies vivas no planeta Terra, uma verdadeira fonte de sofrimentos e de tragédias, das mais diversas proporções”.

Para conhecer mais de Pierre Weil, visite o site oficial em pierreweil.pro.br e veja também o post “As grandes perguntas da existência e os processos de descoberta, pelo psicólogo Pierre Weil [4 VÍDEOS]“, publicado pelo Dharmalog em 2012.

“A normose pode ser considerada como o conjunto de normas, conceitos, valores, estereótipos, hábitos de pensar ou de agir aprovados por um consenso ou pela maioria de pessoas de uma determinada sociedade, que levam a sofrimentos, doenças e mortes. Em outras palavras: que são patogênicas ou letais, executadas sem que os seus autores e atores tenham consciência da natureza patológica.”
~ Pierre Weil

NORMOSE” [TRECHOS]

Por Pierre Weil

“(…) A maneira mais simples de fazê-los entender do que se trata será contando um pouco do que se passou comigo há algumas décadas. Isso nos levará, ao mesmo tempo, aos aspectos pessoais e sociais que levaram à criação do conceito de normose. Lembro-me da crise existencial pela qual passei aos trinta e três anos de idade. Com o conhecimento que tenho hoje, identifico-a como consequência de uma normose. Foi, tipicamente, a crise de um normótico que ainda não sabia nada a respeito da normose. Fazia prosa sem o saber, como diz um jargão popular.

Por que afirmo que eu era normótico? Minha crise ocorreu por eu ter procurado ser normal, de ter realizado o que uma sociedade recomendava e recomenda até hoje sobre o que é ser um homem bem-sucedido. A sociedade, por meio dos meus pais, moldara um ser humano bem-sucedido aos trinta e três anos. Um homem de sucesso porque eu tinha tudo: tinha a minha residência, tinha a minha casa de campo, tinha a minha piscina, tinha meu cargo na universidade, tinha o meu cargo junto ao presidente do maior banco da América Latina, tinha o meu consultório, tinha o meu livro best-seller, tinha entrevista na televisão, tinha, tinha, tinha, tinha… E minha normose era, justamente, ter. Havia introjetado toda uma civilização do ter. Eu tinha, tinha tudo e estava muito infeliz, não era um homem realizado. Conformado a este contexto, eu acabei tornando-me normótico.

Por quê? Porque eu segui a norma que me levou à patologia: a patologia moral – era profundamente infeliz; a patologia social – me divorciei porque, quando se está infeliz, culpam-se os outros; e uma patologia orgânica – a separação me levou a fazer um câncer. Então, já temos o conceito da normose: é o conjunto de hábitos considerados normais e que, na realidade, são patogênicos e nos levam à infelicidade e à doença. Embora resumida, é a definição que eu tenho seguido até hoje, muito útil e clara. Para sair da normose, deitei no divã do psicanalista e resolvi aprender e praticar ioga. Foi numa sessão de ioga que descobri a relatividade do conceito de normalidade. Vou contar a história, pois é muito ilustrativa. Todas as quartas-feiras à noite nosso grupo se reunia e o professor nos fazia relaxar, com música, e meditar. Depois, cada um relatava a sua experiência. Um dizia: eu vi um ser.

Outro: eu vi cores. Outro ainda dizia: eu vi formas. Um mais: eu tive uma inspiração maravilhosa. E, quando chegou minha vez, eu disse: gente! Eu estou tapado. Eu não estou vendo nada! Isso transcorreu durante um ano. Foi aí que comecei a observar a relatividade do conceito de normalidade: nesse grupo, todo mundo tinha visões e eu não. Então, o grupo era normal e eu era anormal. Lá fora, nos dois milhões de habitantes de Belo Horizonte, quase ninguém tinha visões. Então, eu era normal e o grupo era anormal. Foi quando comecei a cogitar sobre a relatividade do conceito de normalidade.

A fantasia da separatividade

O estudo da ioga me levou ao hinduísmo, ao budismo e ao conceito de maia. Constatei que essa nossa maneira de ver as coisas é uma fantasia. Mais tarde, eu a denominei de fantasia da separatividade.

Quando criamos a Universidade Holística, ao fazer o estudo da gênese da destruição da vida no planeta, descobrimos que sua raiz está em que consideramos a ilusão como normal. É um conceito provido de consenso social, que pode levar ao suicídio da humanidade. A isso se acrescentou, então, a noção de consenso: uma crença partilhada por uma maioria.

Os estudos de ioga me levaram a fazer um retiro com lamas tibetanos.

Fui para esse retiro especialmente para entender por que os tibetanos insistiam Maia: termo sânscrito, que significa ilusão, em seu sentido mais geral. tanto no caráter do sonho em nossa vida cotidiana. Ou seja, a semelhança entre o estado de consciência de vigília e o onírico. E lá eu aprendi, por mim mesmo, por meio do sonho lúcido, que a nossa vida cotidiana é como se fosse um sonho. Não tem muita diferença não. E todos acreditam nesse sonho. Voltamos à noção de normose e de consenso.

Um dia, em 1986, ao sair do retiro tibetano, Jean-Yves Leloup me convidou para um simpósio sobre a normalidade, no Centro Internacional de Saint-Baume. O local era um tipo de universidade holística, com um ambiente como o da Unipaz, que ele dirigia, no sul da França. Lá se encontrava e podia ser visitada a gruta onde Maria Madalena se refugiou depois da passagem de Jesus. E lá, a seu pedido, proferi uma palestra sobre as anomalias da normalidade.

Então, surgiu a ideia de que a normalidade podia ser patológica e patogênica. Todo o seminário versou sobre a definição do que é normal, tarefa nada fácil. O que é normal, afinal? De qualquer forma, a criação do conceito de normose nos força a buscar definir o que não o é.

Um conceito que me trabalhou

Fiz uma experiência em que procurei colecionar todas as atribuições que se costuma fazer às pessoas julgadas anormais. Por exemplo: você é um idiota; você é um irresponsável; você é maligno, etc. Fiz uma coleção de umas trinta ou quarenta epítetos. Em seguida, traduzi-os ao seu contrário, pensando que, talvez dessa forma, poderia definir o que é normal. Para surpresa minha, saiu uma lista do que é um santo. Por esse procedimento empírico, um ser normal seria um santo. Será? Deixo a ideia para reflexão.

Depois disso, o conceito de normose ficou me trabalhando porque um conceito novo nos trabalha. De vez em quando, eu o usava nas palestras. Notei que, a cada vez que pronunciava a palavra normose, as pessoas riam muito. Percebi, então, que a reflexão estava mexendo com alguma coisa fundamental. Inquietava as pessoas. Pouco a pouco me dei conta, entretanto, que esse é um conceito fundamental em psicologia, em sociologia, em antropologia, em educação e nas demais disciplinas e áreas de atuação humana. Mais ainda: evidencia um processo psicossociológico que ameaça a humanidade e as outras espécies vivas no planeta Terra. Uma verdadeira fonte de sofrimentos e de tragédias, das mais diversas proporções. Foi quando realizei uma primeira classificação das normoses. E continuo descobrindo outras em minhas reflexões cotidianas.

(…)

A característica comum a todas as formas de normoses é seu caráter automático e inconsciente. Podemos falar, no caso, do espírito de rebanho. A maior parte dos seres humanos, talvez por preguiça e comodidade, segue o exemplo da maioria. Pertencer à minoria é tornar-se vulnerável, expor-se à crítica. Por comodismo, as pessoas seguem ou repetem o que dizem os jornais; já que está impresso, deve estar certo! Quantas pessoas aderem a uma ideologia, religião ou partido político só porque está na moda ou para ser bem vistas pelos demais?

Uma maneira disfarçada de manipular as opiniões e mudar os sistemas de valores é anunciar que são adotados pela maioria da população. Nesse sentido, toda normose é uma forma de alienação. Facilita a instalação de regimes totalitários ou sistemas de dominação.

(…)

A tomada de consciência da normose e de suas causas constitui a verdadeira terapia para a crise contemporânea.”

Nota da Conti outra: a publicação do texto acima por esta página foi autorizada pelo autor.

Fonte indicada:

contioutra.com - NORMOSE, a patologia silenciosa: a história de como o psicólogo Pierre Weil se curou dela, por ele mesmo

 

 

 

Quer saber mais sobre o tema? Abaixo, veja a live da psicóloga e escritora Josie Conti que comenta a Normose.

Confissões de um humorista depressivo

Confissões de um humorista depressivo

Diversos estudos vem debatendo a questão de pessoas que, mesmo convivendo com a depressão, aparentemente levam vidas normais e são até divertidas.

Kevin Breel não parecia ser uma criança depressiva: capitão do time, em todas as festas, engraçado e seguro de si. Mas ele conta a história da noite em que percebeu que — para salvar sua própria vida — ele precisava dizer três palavras bem simples: Eu tenho depressão

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Tédio tem mais a ver com você do que com a situação

Tédio tem mais a ver com você do que com a situação

Não tem nada para fazer? Você está em um lugar chato? Com pessoas chatas? Talvez você é quem esteja chato. Segundo um estudo canadense, o tédio geralmente tem mais a ver com o estado de espírito ou problema da pessoa do que com um problema do ambiente.

John Eastwood da Universidade York (Toronto, Canadá) e Mark Fenske, da Universidade de Guelph (Canadá), decidiram estudar o tédio por ser uma experiência humana comum pouco analisada e compreendida.

Fenske e Eastwood dizem que a maioria das pessoas pensa no tédio como trivial e corriqueiro, e talvez por isso pesquisadores ainda não o tenham estudado profundamente. Mas o tédio pode ser um sinal de problemas mais sérios.

“O tédio pode ter alguns efeitos horríveis e pode estar associado com estados patológicos. Há uma forte associação entre depressão e tédio, e lesão cerebral traumática e tédio”, observa Fenske. Também, viciados em drogas e álcool geralmente recaem quando confrontados com o tédio.

Portanto, é sim importante responder: o que nos faz ficar com aquela cara de mosca morta desejando que o tempo passe mais rápido?

Segundo os pesquisadores, as pessoas acreditam que o tédio se relaciona com o ambiente. Por exemplo, elas acham que, se uma palestra ou uma conversa está chata, podem simplesmente mudar de tópico para evitar a monotonia.

“Nós atribuímos o tédio a problemas no ambiente, em vez de problemas com nós mesmos”, explica Fenske. Mas o tédio pode ter mais a ver conosco.

Eastwood e Fenske avaliaram descrições de tédio da filosofia existencialista, psicologia e literatura. Também realizaram um estudo com participantes, em que eles descreviam como se sentiam ao experimentar o tédio.

Os pesquisadores, então, construíram uma definição que abrangeu todas as ideias mencionadas: o tédio ocorre quando temos dificuldade em prestar atenção aos estímulos internos e externos necessários para desfrutar de uma atividade. Quando percebemos que estamos com dificuldade de prestar atenção, culpamos o ambiente pela nossa falta de prazer (daí a relação que fazemos).

“Nossa abordagem é de vincular o tédio à atenção”, disse Fenske. Essa abordagem é importante porque os psicólogos sabem como tratar problemas de atenção, ou seja, os especialistas podem ajudar as pessoas que experimentam tédio crônico (sim, isso existe) ou cujo tédio está afetando sua vida de qualquer maneira (depressão, vícios, etc).

Os cientistas também acreditam que suas descobertas fornecem novas áreas de estudo.

“Não tenho dados para apoiar isso, mas especulo que as pessoas têm mais tédio nos tempos modernos porque experimentam entretenimento intenso. Estamos acostumados a ser passivamente entretidos e essa estimulação constante nos coloca em risco de [mais] tédio no futuro”, finaliza Eastwood.

Via Hypescience, do original MSN

Quando a “menina do vestido azul” foi a Nova Iorque

Quando a “menina do vestido azul” foi a Nova Iorque

Na década de 90, em Nova Iorque, a criminalidade crescia assustadoramente e o vandalismo era exibido nas ruas, onde prédios públicos e particulares eram pichados, trazendo ares pesados à cidade. A situação chegou a níveis assustadores e foi uma das políticas públicas adotadas pelo então prefeito, Rudolph Giuliani, que fez mudar esse cenário medonho. Ele decidiu que nenhum prédio permaneceria mais depredado pelos vândalos. Passou, então, a ter como prioridade máxima a recuperação de todo e qualquer prédio, vagão de metro ou monumento que fosse objeto do vandalismo. Essa atitude teria sido um dos pilares pelos quais ele ficou conhecido pela real redução da criminalidade da cidade: manter os ambientes limpos e organizados.


Narro esses fatos para dizer que a história da menina do vestido azul, embora seja um conto aparentemente infantil, encontra eco, para a alegria nossa, no mundo real em que vivemos. O mundo não ignora o nosso esforço a favor da beleza e da justiça. Vejamos a história.

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A menina do vestido azul

“Num bairro muito pobre de uma cidade distante, morava uma garotinha muito bonita.

Ela frequentava a escola local. Sua mãe não tinha muito cuidado e a criança quase sempre se apresentava suja. Suas roupas eram velhas e maltratadas. Até um dia em que um professor penalizou-se com a menininha. Como uma garota tão bonita pode vir para a escola tão mal arrumada? Separou algum dinheiro de seu salário e, embora com dificuldade, lhe comprou um vestido novo. A garotinha ficou ainda mais bonita no seu vestidinho azul.

Quando a mãe viu a menina naquele vestido azul, sentiu que era lamentável que sua filha, vestindo aquele traje novo, fosse tão sujinha para a escola. Por isso passou a lhe dar banho todos os dias, pentear seus cabelos, cortar e limpar suas unhas.

Depois de uma semana, o pai falou: “Mulher, você não acha uma vergonha que nossa filha, sendo tão bonita e bem arrumada, more em um lugar como este, caindo aos pedaços? Que tal ajeitar a casa? Nas horas vagas vou pintar as paredes, consertar a cerca e plantar um jardim”.

Em pouco tempo a casa da garotinha destacava-se na pequena vila pela beleza das flores que enchiam o jardim, pela limpeza, pelo capricho de seus moradores com seus pequenos detalhes. Os vizinhos ficaram envergonhados por morar em barracos feios e resolveram também arrumar suas casas, plantar flores, usar pintura, água e sabão, além de criatividade.

Logo, o bairro estava todo transformado. Um homem que acompanhava os esforços e as lutas daquela gente achou que eles bem que mereciam um auxílio das autoridades. Foi ao prefeito e expôs suas idéias e saiu de lá com autorização para formar uma comissão para estudar os melhoramentos que seriam necessários no bairro.

A rua de lama foi substituída por asfalto e calçadas de pedra. Os esgotos a céu aberto foram canalizados e o bairro ganhou ares de cidadania. Tudo começou com um vestidinho azul.

Não era a intenção daquele professor consertar a rua, nem criar um organismo que socorresse o bairro. Ele fez o que podia apenas a parte que lhe cabia.

Qual será a parte de cada um de nós? Será que basta apontar os buracos da rua, reclamar dos erros do vizinho e cuidar apenas do portão para dentro?

É difícil mudar o estado total das coisas. É difícil varrer toda a rua, mas é fácil varrer nossa calçada. É difícil modificar o bairro, mas podemos começar pela nossa casa, deixando-a mais bonita. É difícil reconstruir o planeta, mas é possível dar um vestido azul.”

Entre prosa e poética: a consciência do mundo e da alma na voz de Carlos Lobato

Entre prosa e poética: a consciência do mundo e da alma na voz de Carlos Lobato

Por Josie Conti

Carlos Lobato é um escritor português radicado em Londres, mas que não restringe sua transição aos territórios em que habita fisicamente.  Em sua escrita também existe um ser transicional que vagueia entre a prosa e a poesia. Carlos Lobado, de forma única, dá concretude e realismo a textos que, se têm origem em temáticas contemporâneas, num piscar de olhos, transcendem o real e ganham asas através da subjetivação poética.

Como definiria a poetisa Maria Augusta Ribeiro, Carlos Lobato é alguém que “tendo em si grandes mananciais de amor às coisas sublimes, também é um bon vivant que se agarra sofregamente aos prazeres da vida.”

Convido-os para um passeio pelos olhos brilhantes desse escritor-homem-menino que ainda se chocam com as asperezas da vida e nos mostram que, apesar de tudo, devemos seguir: “até a próxima vez.”

***

“Servir-me do tempo. Esperar pelo enrugar da pele e a sanidade crescente. Demente, foi a inocência escondida. Um mundo quase perdido, procurado por um Eu, como a essência de uma fantasia paralela inigualável. Tão paralela como o canto escuro do quarto, a sombra da vida e o apagar do presente. Passado… Um pequeno rasgo na esperança, um canto vivo nessa memória nunca apagada. A vida encarrega-se de um sossego real na fantasia de hoje. A memória, essa, nunca se apaga!”

Carlos Lobato

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Teddy Locquard

PEQUENEZ

Percebi finalmente a minha pequenez!
Sou ínfimo aqui, neste espaço medonho,
Quase tão enorme como o meu sonho,
Mas tão pequeno à vista do Arquitecto.
A essência de toda a vida,
Todas as vidas de pés na terra,
Têm geomancia como arca, indefinida,
Demasiada. Demasiada com tanta gente,
humilde, que sofre e impera sem o saber.
Os rios que não separam as margens, são
Oceanos que nos unem em linhas rectas.
A fraqueza, está em corpo e carne,
Apesar do sustento de almas,
Que sempre os renovam.
São os mistérios que movem a alquímia,
A procura de todas as pedras filosofais.
A Humanidade, essa, divide-se negativamente,
Pelos próprio meios que a sustentam.
Sei da destruição de almas que renascem,
Sei do menosprezo à vida terrestre.
Apenas a pobreza se perde em crescendo,
Apenas doi, crianças morrerem famintas,
Por todo um desleixo profano de egoísmo!
Pudera eu ser Deus por um dia!
Juntar todas as chamas individuais,
Crescendo a minha, de uma chama faria fogo.
Queimaria as ideias idiotas da amargura,
Destruiria todos os pecados mortais solucionáveis.
Apesar de tudo, vivemos nesta contradição.
Destruir para voltar a criar.
Morrer para voltar a nascer.
Sofrer na procura da felicidade!
Estou farto!
Percebi finalmente a minha pequenez!

Carlos Lobato

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Tommy Ingberg

EFÉMERA ROTINA

Ando assustado com a rotina.
Já não é a mesma que era.
Os mecanismos estão corroídos,
as engrenagens guincham sózinhas,
adivinho um final doloroso.
Já não há manutenção a esta alma,
a engenharia imaginária enrijou
gretando a pele que a sustenta.
As rugas crescem por lubrificar,
secam os processos do tempo.
Fica o sadismo da inteligência.
Fica a alma que pensa e vê,
sem remédio mundano ou milagre.
A dor da noção que tenho,
não se altera, antes se afina,
corta-me ilusões efémeras.
Um devaneio, é peculiar,
normalmente não me ralo.
Desvio o consciente para as artes,
distraem-me. Sem grande frenesim,
da realidade, e o envelhecer do tempo.
Abnego-me a todas as alterações,
as minhas e de outros que estimo.
Além de tudo, é a felicidade que conta!
A rotina, apesar de tudo, fica.
Uso-a indescriminadamente por defeito.
Nada contra. Só o susto da (in)diferença.
Que tudo de novo surja. Depois da rotina,
sorrio à novidade. Uma outra ruga.
Tão previsivel como a morte.
O potencial do ânimo está aqui,
no próximo sorriso sincero, sem teatro,
a todas as imprevisibilidades do Mundo,
a todos os finais científicos previstos,
a todas as indefinições e incertezas,
que nunca alcançarei, por falta de tempo.
Mas amo tudo o que me merece,
todos os que me querem, na minha rotina.
A vida não passa de rituais consagrados,
nós efémeros, dependemos de rotinas.
As rotinas são para cumprir!

Carlos Lobato

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Logan Millmer

“A tendência é imprevisível. Equilíbrio. De mim, de todos. A magia tem o destino da surpresa. Manipulação de cérebros, que se perdem chocalhando em crâneos que os definham. A vida torna-se cinzenta, como um nevoeiro mais denso, tão denso, que me perco no balanço, que vai crescendo incontrolado, até perder o equilíbrio. É disto que gosto! Esta luta interminável, que se aprende a admirar e, faz falta em tempos onde a paliação toma as rédeas da vida. Que é isso, senão sobreviver…”

Carlos Lobato

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Tash Capstick

APENAS OUÇO

Tal é o timbre,
o sonho, a música,
só o luar me acorda.
Sonata, perdido
no som de veludo.
Um piano,
quente.
E eu.
O agora.
O ébano,
o marfim,
os dedos,
os segredos.
Só quem compõe.
Só quem o toca.
Só quem o sabe.
Eu ouço,
e ouço,
e ouço.
Apenas ouço.
Não sei nada.
Fino martelar,
melodias,
viagens,
umas quentes
outras frias.
Os dedos.
As teclas.
Correrias selvagens.
E eu.
Ouço,
e ouço,
e ouço.
Apenas ouço.
Não sei nada!

Carlos Lobato

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Ben Zanks

SE ME PERDER UM DIA

Se me perder um dia,
quero perder-me entre dois espaços.
Estou mais perto disso que de nada.
Se as montanhas se movessem,
aparava as arestas das encostas,
alisava os vales com rios calmos,
e os cumes beijariam o céu.
Talvez a terra chame os anjos,
na calma paradisíaca da floresta,
ou pelas cicatrízes escondidas da cidade.
A cidade fere as almas.
Precisam descansar da geometria falsa,
dos cubículos ressequidos onde vivem,
de tanta realidade falsa e, da prática
de impulsos rápidos de sobrevivência.
É incerta a travessia da coragem.
É quase impossível viver em dois espaços,
continua ou descontinuamente como eu.
Queria fugir desta responsabilidade certa,
conquistar o gozo de sobreviver,
na originalidade da natureza.
Já há poucos eremitas no mato.
Transformaram-se eremitas do betão.
O calcinar do tempo endurece a vida e,
toda as vontade de uma liberdade pura.
Pedir a Deus ajuda permanentemente,
mas não leva a qualquer benefício prático.
Mas sim. Esperança e fé são gratuitas.
O cristalino das nascentes é oferenda
de todos os deuses que imaginamos.
Desfrutar da natureza e inteligência,
virou contrasenso e contranatura.
Se me perder um dia,
que seja na minha própria cabeça,
onde o impulso puro, reaja forte,
que vença o politicamente correcto,
e me traga o mistério desvendado.
Estou práticamente perdido,
consciente da próxima viagem,
perder-me por todos os sentidos,
até encontrar o meu equilíbrio.

Carlos Lobato

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Tushar Khandelwal

SER SELVAGEM

Ser selvagem.
Ser selvagem seria uma benção,
se a inteligência estivesse ausente!
Essa consciência é uma enormidade,
de coisas boas enquanto o são.
Entre a felicidade e o desespero,
basta um sopro, um passo em falso,
desilusões, opções subjectivas…
Ser selvagem sem pensar,
inconsciente por instinto, essa
é a pura liberdade. Meu Deus,
como assim gostava eu de ser,
livre, selvagem, sem consciência.
Apesar de tudo, nada disto
é desgraça! É bom ter inteligência,
fazer parte do desenvolvimento
de células, com um final feliz.
Acho eu, conscientemente…
Um final feliz?!
Pelo que aprendo, não há nem princípio,
nem fim. Talvez mesmo, o futuro
se construa de passado, o quântico
se revolte e conquiste a micro existência.
Já conquistou! Só falta a certeza,
e explicar como o fez, e faz!
Por isso a vida tem tanta dúvida.
Talvez por isso, tenha eu dificuldade
em entender as pessoas, ou elas a mim.
Não consigo viver a vida só porque sim.
Selvagem, seria a fórmula ideal,
sem opções conscientes, lógicas
ou limitadas com fins objectivos.
Por isso amamos as bestas,
as belas bestas que correm e calam.
Que não ligam, que ferem inconscientemente,
apenas como defesa natural inata.
Ser selvagem…
Era bom esse acrescento
à irreverência que me torna só,
realista e delimitativo.
O caos será selvagem,
até que a consciência,
consiga apenas sobreviver.

Carlos Lobato

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Tash Capstick

PERDER O FÔLEGO

Apetece-me perder o fôlego!
Correr está fora de causa,
o Homem não foi feito para isso,
fica desengonçado e estranho.
Um livro brilhante, faz o efeito.
Um poema incrível, idem.
Sexo. É tão bom que,
é garantia de perda de fôlego.
A surpresa dos elementos,
do calor para o frio,
falta-me o ar, mas sabe bem.
Estes momentos de anarquia pessoal,
têm uma virtude irresistível.
Acordar, abanar o corpo,
que vai adormecendo na rotina,
nas sensações habituais e,
nas simples ideias utópicas.
Picar um dedo, beliscar a pele,
morder sensualmente, tocar,
beijar todo o corpo. Tudo!
Tanta coisa boa, provocada,
que me faz perder o fôlego.
Quero viajar. Sentir deslumbre,
curiosidade, paixão, sexo!
Perder muitas vezes o fôlego.
E ficar cansado.
Até à próxima vez…

Carlos Lobato

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René Magritte

Carlos Lobato

Saiba mais sobre o autor:

Nascido em 1962 em Lisboa, Carlos Lobato teve o privilégio de fazer farte de uma geração jovem que viveu a transição do antigo regime em Portugal para a nova democracia, em Abril de 1974. Tempos conturbados de escola, onde o caos imperou durante alguns anos de liceu, mas com a sorte e aproveitamento de entrada no país “da cultura que se fazia lá fora”, assim como o desenvolvimento nacional das artes da escrita, música, teatro, pintura, que aos poucos foram conquistando o espaço cultural nacional, tão vazio até então. Usufruiu do negócio livreiro do pai, na altura, onde o prazer pela leitura e escrita se enraizou pelo fácil acesso a obras literárias. A escrita sempre fez parte da sua vida, não se tendo nunca preocupado em guardar o que escrevia, até muito recentemente. Habita atualmente em Londres no Reino Unido.

Acompanhe o autor pelo blog Palavras Soltas

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Entrevista Zygmunt Bauman: “É possível que já estejamos em plena revolução”

Entrevista Zygmunt Bauman: “É possível que já estejamos em plena revolução”

O sociólogo polônes Zygmunt Bauman, em entrevista à MGMagazine traduzida para o português e publicada pelo site Fronteiras do Pensamento, fala, aos 89 anos, sobre o mundo atual e como entende os efeitos da modernidade sobre as pessoas. “As consequências são a austeridade, o aumento do desemprego e, sobretudo, a devastação emocional e mental de muitos jovens que entram agora no mercado de trabalho e sentem que não são bem-vindos, que não podem adicionar nada ao bem-estar da sociedade, porque são uma carga”, diz.

MGMagazine: O senhor imaginou que poderia se tornar uma estrela midiática em nível global?
Zygmunt Bauman:
Certamente não. Mas não sou uma estrela. Quando eu morrer, o que provavelmente acontecerá logo, com certeza morrerei como uma pessoa insatisfeita, que não alcançou seu objetivo.

MGMagazine: Por quê?
Zygmunt Bauman: Porque tratei de transmitir certas ideias durante toda a minha vida, que tem sido muito longa. E quando olho pra trás, existe toda uma montanha cinza de esperanças e expectativas que morreram ao nascer ou faleceram muito jovens. Não tenho nada para me gabar. Tento juntar palavras para dizer às pessoas quais são os problemas, de onde eles vêm, onde se escondem, como encontrar ajuda para resolvê-los se for possível. Mas são palavras. E não nego que são poderosas, porque a nossa realidade, o que nós pensamos que é o mundo, esta sala, nossa vida, nossas lembranças, são palavras. Mas, apesar de ter vivido tantos anos, não consegui resolver o problema de transformar as palavras em carne. Hoje, existe uma enorme quantidade de pessoas que querem a transformação, que têm ideias de como tornar o mundo melhor não somente para eles, mas também para os outros, mais hospitaleiro. Mas na sociedade contemporânea, na qual somos mais livres do que nunca, ao mesmo tempo somos também mais impotentes do que em qualquer outro momento da história. Todos sentimos a desagradável experiência de ser incapazes de mudar qualquer coisa. Somos um conjunto de indivíduos com boas intenções, mas entre as intenções e os projetos e a realidade tem muita distância. Todos sofremos agora mais do que em qualquer outro momento pela falta total de agentes, de instituições coletivas capazes de atuar efetivamente.

MGMagazine: O que mudou?
Zygmunt Bauman: Quando eu era jovem, todos os meus contemporâneos, de esquerda, direita ou centro, coincidiam em um ponto: se chegamos ao governo ou fazemos uma revolução, sabemos o que fazer e como fazer através do poder do Estado. Agora, ninguém acredita que o governo pode fazer algo. Os governos são vistos como instituições que nunca cumprem suas promessas. É um grave problema. Porque significa que, embora saibamos como criar uma sociedade mais humana – e no momento abandonamos a esperança de poder projetá-la–, a grande pergunta, para a qual não tenho resposta, é quem vai transformá-la em realidade.

MGMagazine: Viver em um mundo líquido, o que isso significa exatamente?
Zygmunt Bauman: Modernidade significa modernização obsessiva, viciante, compulsiva. Modernização significa não aceitar as coisas como elas são, e sim transformá-las em algo que consideramos que é melhor. Modernizamos tudo. Você pega as suas regulações, seus objetos, e trata de modernizá-los. Não duram muito tempo. Isso é o mundo líquido. Nada tem uma forma definida que dure muito tempo. Deve-se dizer que fundir o que é sólido, transformá-lo em líquido e moldá-lo de novo era uma preocupação da modernidade desde o princípio, mas o objetivo era outro. Arbitrariamente, mas acredito que de forma útil, situo o início da modernidade no ano de 1.775 no terremoto de Lisboa, seguido de um incêndio que destruiu o que restava e em seguida um tsunami que levou consigo tudo para o mar.

MGMagazine: Por que nesse terremoto?
Zygmunt Bauman: Foi uma catástrofe, não só material, mas também intelectual. As pessoas pensavam, até então, que Deus tinha criado tudo, que tinha criado a natureza e disposto leis. Mas, de repente, veem que a natureza é cega, indiferente, hostil com os humanos. Não se pode confiar nela. O mundo tem que estar sob direção humana. Substituir o que existe pelo que se pode projetar. Assim, Rousseau, Voltaire ou Holbach viram que o antigo regime não funcionava e decidiram que tinham de fundi-lo e refazê-lo de novo no molde da racionalidade. A diferença em relação ao mundo de hoje é que não o faziam porque não gostavam do que era sólido, e sim, pelo contrário, porque acreditavam que o regime que existia não era suficientemente sólido. Queriam construir algo resistente para sempre que substituísse o oxidado. Era a época da modernidade sólida. A época das grandes fábricas empregando milhares de trabalhadores em enormes edifícios de tijolos, fortalezas que iam durar tanto quanto as catedrais góticas. No entanto, a história decidiu um caminho muito diferente.

 

MGMagazine: Tornou-se líquida?
Zygmunt Bauman: Sim. Hoje a maior preocupação da nossa vida social e individual é como prevenir que as coisas sejam fixas, que sejam tão sólidas que não possam mudar o futuro. Não acreditamos que existam soluções definitivas, e não é só isso: não gostamos delas. Por exemplo: a crise que muitos homens têm ao fazer 40 anos. Ficam paralisados pelo medo de que as coisas já não sejam como antes. E o que mais lhes dá medo é ter uma identidade aferrada a eles. Uma imagem que não se pode tirar. Estamos acostumados com um tempo veloz, certos de que as coisas não vão durar muito, de que vão aparecer novas oportunidades que vão desvalorizar as existentes. E isso acontece em todos os aspectos da vida. Há duas semanas, as pessoas faziam filas durante a noite pelo iPhone 5 e agora mesmo estão fazendo pelo 6. Posso garantir que em dois anos aparecerá o 7 e milhões de iPhones 6 serão jogados no lixo. E isso dos objetos materiais funciona da mesma forma com as relações pessoais e com a própria relação que temos conosco mesmos, como nos avaliamos, que imagem temos de nossa pessoa, que ambição permitimos que nos guie. Tudo muda de um momento a outro, somos conscientes de que somos transformáveis e, portanto, temos medo de fixar qualquer coisa para sempre. Provavelmente, seu governo, como o do Reino Unido, convoca seus cidadãos a serem flexíveis.

MGMagazine: Sim, convoca.
Zygmunt Bauman: O que significa ser flexível? Significa que você não está comprometido com nada para sempre, mas sim pronto para mudar a sintonia, a mente, em qualquer momento no qual seja requisitado. Isso cria uma situação líquida. Como um líquido em um copo, no qual o mais leve empurrão muda a forma da água. E isso está em todos os lugares.

MGMagazine: Quais o senhor acredita que são os efeitos desta nova situação nas pessoas?
Zygmunt Bauman: Há alguns anos, os jovens iam trabalhar para a Ford ou a Fiat como aprendizes e podiam acabar ficando ali pelos próximos 40 anos se não se embebedavam ou morriam antes. Hoje, os jovens que não perderam a ambição depois de ter amargas experiências de trabalho sonham em ir ao Vale do Silício. É a meca das ambições de todo homem jovem, a ponta da lança da inovação, do progresso. Você sabe qual é a média de um trabalhador de uma empresa do Vale do Silício? Oito meses. O sociólogo Richard Sennet calculou, há uns anos, que o trabalhador médio mudaria de empresa onze vezes durante a sua vida. Hoje, essa quantidade é inclusive maior. As gerações que emergem das universidades em grandes quantidades estão ainda buscando emprego. E se encontram, não tem nada a ver com suas habilidades e expectativas. Estão empregados em trabalhos precários, temporários, sem segurança, sem carreira. Então, a principal maneira pela qual nos conectamos com o mundo, que é a nossa profissão, nosso trabalho, é fluida, líquida. Estamos conectados apenas pela água. E não se pode estar conectado por isso, ocorrem inundações, fugas…

MGMagazine: Por isso você diz que passamos do proletariado ao precariado?
Zygmunt Bauman: Há não muito tempo o precariado era a condição de vagabundos, sem-teto, mendigos. Agora, marca a natureza da vida de pessoas que há 50 anos estavam bem instaladas. Pessoas de classe média. Com exceção do 1% que está acima de tudo, ninguém pode se sentir seguro hoje. Todos podem perder as conquistas alcançadas durante sua vida sem aviso prévio. Não faz tantos anos, seis, o crédito e os bancos entraram em colapso e as pessoas começaram a ser despejadas de suas casas e seus trabalhos. Antes disso, os otimistas falavam de orgia de consumo, as pessoas pensavam que podiam gastar dinheiro que não tinham porque as coisas seriam cada vez melhores, assim como seus rendimentos, mas tudo isso desabou. As consequências são hoje os cortes, a austeridade, o alto nível de desemprego e, sobretudo, a devastação emocional e mental de muitos jovens que entram agora no mercado de trabalho e sentem que não são bem-vindos, que não podem acrescentar nada ao bem-estar da sociedade, que são um peso.

MGMagazine: Aumenta o que o senhor chama de vidas desperdiçadas.
Zygmunt Bauman: Cada vez há mais. Mas é que, além disso, as pessoas que têm emprego experimentam a forte sensação de que existem altas possibilidades de que também virem resíduos. E, mesmo conhecendo a ameaça, são incapazes de preveni-la. É uma combinação de ignorância e impotência. Não sabem o que vai acontecer, mas nem mesmo sabendo seriam capazes de preveni-lo. Ser o resto, um resíduo, é uma condição ainda de uma minoria. No entanto, impacta não somente os empobrecidos, mas também setores cada vez maiores das classes médias, que são a base de nossas sociedades democráticas modernas. Estão atribuladas.

contioutra.com - Entrevista Zygmunt Bauman: "É possível que já estejamos em plena revolução"
Zygmunt Bauman fotografado por Carlos González Armesto

MGMagazine: As classes médias vão desaparecer?
Zygmunt Bauman: Estamos em um interregno. A palavra foi usada pela primeira vez na história da Roma Antiga. O primeiro rei lendário foi Rômulo, que reinou por 38 anos. Essa era a expectativa de vida das pessoas, então, quando ele morreu, pouca gente lembrava do mundo sem ele. As pessoas estavam confusas. O que fazer? Rômulo lhes dizia o que fazer. E se houvesse outro, ninguém sabia o que ele lhes pediria. Gramsci atualizou a ideia de interregno para definir uma situação na qual as antigas formas de fazer as coisas já não funcionam, mas as formas de resolver os problemas de uma nova maneira efetiva ainda não existem ou não as conhecemos. E nós estamos assim. Os governos vivem presos entre duas pressões impossíveis de reconciliar: a do eleitorado e a dos mercados. Eles têm medo de que, se não agem como as bolsas e o capital móvel querem, as bolsas quebrarão e o dinheiro irá a outro país. Não se trata apenas de que possa haver corrupção e estupidez entre os nossos políticos, mas sim que essas situações os deixam impotentes. E, por isso, as pessoas buscam desesperadamente novas formas de fazer política.

MGMagazine: Como os indignados?
Zygmunt Bauman: É um bom exemplo. Se o governo não cumpre, vamos à praça pública. Mas é uma boa tentativa que não traz muito resultado. Estamos tentando. Tentando criar alternativas praticáveis para atender às necessidades coletivas. O interregno por definição é transitório. Eu acredito que não viverei para ver o novo arranjo, mas sua vida estará repleta de buscas por essas alternativas. Porque este período de suspensão, no qual muitas coisas vão mal e temos poucas ideias para resolvê-las, não é eternamente concebível.

MGMagazine: Será que já não estamos líquidos demais?
Zygmunt Bauman: As mudanças vêm e vão. Muita gente está hoje convencida de que já existem alternativas, mas que são invisíveis porque ainda estão muito dispersas. Jeremy Rifkin fala da utilidade pública colaborativa. Benjamin Barber publicou o livro Se os prefeitos governassem o mundo, no qual diz que os estados estão acabados, que foram uma boa ferramenta para a separação, a independência e a autonomia, mas que em nossos tempos de interdependência devem ser substituídos. Que as instituições locais são capazes de enfrentar os problemas muito melhor, têm a dimensão adequada para ver e experimentar sua coletividade como uma totalidade. Podem levar adiante lutas muito mais efetivas para melhorar as escolas, a saúde, o emprego, a paisagem. Pede um tipo de Parlamento mundial de prefeitos das grandes cidades. Um Parlamento onde as pessoas falem e compartilhem experiências que são altamente parecidas. E as mudanças podem já estar aqui. Minha tese, quando eu estudava, foi sobre os movimentos operários na Grã Bretanha. Pesquisei nos arquivos do século XIX e nos jornais. Para minha surpresa, descobri que até 1875 não se mencionava que estava acontecendo uma revolução industrial, havia apenas informações dispersas. Que alguém tinha construído uma fábrica, que o teto de uma fábrica desabou… Para nós, é óbvio que estavam no coração de uma revolução, para eles, não. É possível que, quando você for entrevistar alguém dentro de 20 anos, essa pessoa lhe diga: “Quando você entrevistou o Bauman em Leeds, vocês estavam no meio de uma revolução e o senhor perguntava a ele sobre mudanças”.

A criação do mundo

A criação do mundo

Por Tarso Araújo

Do original: A criação do mundo

Todos os livros sagrados têm uma resposta sobre a natureza e a origem do Universo. Por que isso é tão importante para as religiões?

No começo, era o nada. Então alguém resolveu contar a origem de tudo. E assim nasceu a tentativa do homem de explicar a origem do Universo. As civilizações mais antigas já tinham essa questão existencial. E as religiões, preocupadas em dar respostas a seus fiéis, não poderiam deixar de formular suas respostas. “Como surgiu tudo? Como é a origem do planeta, das coisas, do homem? Essas são as primeiras perguntas que o homem faz a si mesmo. Sejam indígenas, africanas, orientais, grandes ou pequenas, novas ou antigas, todas as religiões terão respostas para isso”, diz o teólogo da PUC-SP, Rafael Rodrigues, especialista no Antigo Testamento, que começa com a narrativa do livro do Gênese.

Na falta de referências, os homens costumam usar como matéria-prima dos mitos o mundo real para responder essas perguntas transcendentais. Por isso, a cosmologia de cada grupo social é um reflexo da cultura e do momento histórico de quem a inventa. “Os mitos colocam o que é mais importante na cultura local com uma importância proporcional nos mitos de criação”, diz Rodrigues. Logo o sol e a água, essenciais para a produção agrícola e a sobrevivência, sempre ocuparam lugar de destaque na mitologia das civilizações antigas. Muitas histórias sobre a origem do mundo começam contando como esses recursos foram criados ou controlados pelo homem.

Segundo a mitologia iorubá, no início dos tempos havia dois mundos: Orum, espaço sagrado dos orixás, e Aiyê, que seria dos homens, feito apenas de caos e água. Por ordem de Olorum, o deus supremo, o orixá Oduduá veio à Terra trazendo uma cabaça com ingredientes especiais, entre eles a terra escura que jogaria sobre o oceano para garantir morada e sustento aos homens. Para a tradição religiosa chinesa, o caos inicial era como um ovo no qual entraram em equilíbrio os princípios opostos, yin e yang. Desse equilíbrio nasceu Pangu, gigante de cujo corpo se formou a água, a terra e o Sol.

Às vezes os mitos de criação são verdadeiros tratados políticos de sua época. “Só compreendemos o 1º capítulo do Gênese se entendemos a catástrofe dos povos que o escreveram”, diz Rodrigues. A cosmologia judaico-cristã foi escrita por povos dos antigos territórios de Israel e Judá, levados à força para a Babilônia, onde pagavam tributos. “Quando dizem que ‘antes a terra estava vazia e sem forma’, eles não se referem ao planeta, mas ao território deles, que ficou devastado e abandonado após a invasão dos povos assírios.” A ordem de criação das coisas no mito é uma provocação ao poder local. A primeira frase dop Gênese diz que Deus fez a luz. Só no 4º dia Ele criaria o Sol, contrariando a cosmologia dos opressores babilônios, para quem Marduk, o Sol, era o deus supremo e criador de todas as coisas, inclusive da luz.

Ainda contando a tragédia dos povos de Israel e Judá, os capítulos 2 e 3 do Gênese mostram o que acontece quando um camponês perde aquilo que é mais primordial para sua sobrevivência: a horta. “O sentido da palavra que traduzimos para jardim, em hebraico, é horta”, diz Rodrigues. Ao ser expulso do Éden e perdê-la, Adão comerá “o pão com o suor do rosto” e Eva sentirá aumentar “as dores do parto” porquê, em vez de ter filhos de 7 em 7 anos, como era o hábito, terá de engravidar mais vezes para o casal ter mais filhos e mão-de-obra. Trabalhando para os babilônios, eles precisavam produzir mais para pagar impostos. “O mito nasce como uma crítica ao sistema produtivo da época. É um texto antitributarista”, afirma Rodrigues.

A versão de quem lê

A cosmologia das religiões geralmente é elaborada a partir de mitos mais antigos. Ao se apropriar deles, elas se alimentam do mito e ao mesmo tempo o fortalecem. Afinal, elas transformam as lendas em algo mais que a realidade: a verdade de Deus. E é nesse processo de assimilação que geralmente os mitos são organizados em livros sagrados, quando também entram em jogo as interpretações e tradições orais e escritas que vão orientar sua leitura pelos fiéis.

Os mitos do Gênese, por exemplo, foram escritos entre os séculos 8 e 5 a.C., mas a organização deles numa Torá só começaria no século 2 a.C. Nessa época, é provável que o texto tenha sofrido mudanças e adaptações, segundo os ideais do judaísmo nascente. A própria escolha dos textos também obedece os critérios da religião que o organiza, como aconteceria com o Novo Testamento, no início do cristianismo.

Mesmo fora dos livros sagrados, as tradições e interpretações dos mitos de criação fundamentam valores, regras morais e de comportamento para seus seguidores. “Há textos rabínicos que interpretam cada linha do Gênese para mostrar que a mulher não pode dar testemunho em público. Porque, quando ela tomou alguma decisão, levou o homem ao erro e ao pecado. A partir daí aparece toda a questão da sujeição da mulher”, diz Rodrigues. As tradições construídas a partir do texto às vezes se tornam mais fortes no imaginário do que os originais. Quando lembramos de Adão e Eva no paraíso, é comum pensarmos na maçã, como retratado na imagem da página anterior. Apesar de a palavra maçã não aparecer no texto do Gênese.

A cosmologia do hinduísmo também explica, além da origem do mundo, sua organização social. Segundo os Vedas, 3 divindades são responsáveis pelos ciclos de criação e destruição do Universo: Brahma cria, Vishnu preserva e Shiva o destrói para que o ciclo recomece. Para criar o mundo e os humanos, Brahma fez dois deuses de si: Gayatri e Purusha, o homem cósmico de onde foram feitas todas as coisas. Mas, enquanto alguns homens nasceram da boca de Purusha, e se tornaram sacerdotes, outros nasceram dos pés, e se tornaram os escravos da sociedade indiana.

O exemplo da sociedade hindu é apenas mais um exemplo de como os mitos sobre a criação do Universo fazem bem mais que resolver questões existenciais ao estabelecer relações de poder e detalhar códigos de conduta. O que faz deles ferramentas importantes para a coesão social, como parte indispensável da cultura e da identidade de um povo.

O viajante clandestino, Mia Couto

O viajante clandestino, Mia Couto

– Não é arvião. Diz-se: avião.

O menino estranhou a emenda de sua mãe. Não mencionava ele uma criatura do ar? A criança tem a vantagem de estrear o mundo, iniciando outro matrimónio entre as coisas e os nomes. Outros a elas se semelham, à vida sempre recém-chegando. São os homens em estado de poesia, essa infância autorizada pelo brilho da palavra.

– Mãe: avioneta é a neta do avião?

Vamos para a sala de espera, ordenou a mãe. Sala de esperas? Que o miúdo acreditava que todas as sa¬las fossem iguais, na viscosa espera de nascer sempre menos. Ela lhe admolestou, prescrevendo juízo. Aquilo era um aeroporto, lugar de respeito. A senhora apon¬tou os passageiros, seus ares graves, sotúrnicos. O me¬nino mediu-se com aquele luto, aceitando os deveres do seu tamanho. Depois, se desenrolou do colo ma¬terno, fez sua a sua mão e foi à vidraça. Espreitou os imponentes ruídos, alertou a mãe para um qualquer espanto. Mas a sua voz se arfogou no tropel dos mo¬tores.

Eu assistia a criança. Procurava naquele aprendiz de criatura a ingenuidade que nos autoriza a sermos estranhos num mundo que nos estranha. Frágeis onde a mentira credencia os fortes.

Seria aquele menino a fractura por onde, naquela toda frieza, espreitava a humanidade? No aeroporto eu me salvava da angústia através de um exemplar da in¬fância. Valha-nos nós.

O menino agora contemplava as traseiras do céu, seguindo as fumagens, lentas pegadas dos instantâneos aviões. Ele então se fingiu um aeroplano, braços esten¬didos em asas. Descolava do chão, o mundo sendo seu enorme brinquedo. E viajava por seus infinitos, roçan¬do as malas e as pernas dos passageiros entediados. Até que a mãe debitou suas ordens. Ele que recolhesse a fantasia, aquele lugar era pertença exclusiva dos adultos.

– Arranja-te. Estamos quase a partir.

– Então vou despedir do passaporteiro

A mãe corrigiu em dupla dose. Primeiro, não ia a nenhuma parte. Segundo, não se chamava assim ao senhor dos passaportes. Mas só no presente o menino se subditava. Porque, em seu sonho, mais adiante, ele se proclama:

– Quando for grande quero ser passaporteiro.

E ele já se antefruía, de farda, dentro do vidro. Ele é que autorizava a subida aos céus.

– Vou estudar para migraceiro.

– És doido, filho. Fica quieto.

O miúdo guardou seus jogos, constreito. Que crian¬ça, neste mundo, tem vocação para adulto?

Saímos da sala para o avião. Chuviscava. O me¬nino seguia seus passos quando, na lisura do alca¬trão, ele viu o sapo. Encharcado, o bicho saltiritava. Sua boca, maior que o corpo, traduzia o espanto das diferenças. Que fazia ali aquele representante dos primórdios, naquele lugar de futuros apressados?

O menino parou, observente, cuidando os perigos do batráquio. Na imensa incompreensão do asfalto, o bicho seria esmagado por cega e certeira roda.

– Mãe, eu posso levar o sapo?

A senhora estremeceu de horror. Olhou vergonhada, pedindo desculpas aos passantes. Então, começou a disputa. A senhora obrigava o braço do filho, os dois se teimavam. Venceu a secular maternidade. O meni¬no, murcho como acento circunflexo, subiu as escadas, ocupou seu lugar, ajeitou o cinto. Do meu assento eu podia ver a tristeza desembrulhando líquidas missangas no seu rosto. Fiz-lhe sinal, ele me encarou de soslado. Então, em seu rosto se acendeu a mais grata ban¬deira de felicidade. Porque do côncavo de minhas mãos espreitou o focinho do mais clandestino de todos os passageiros.

Mia Couto in Cronicando, Caminho

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