Meu filho, você não merece nada

Meu filho, você não merece nada

Por ELIANE BRUM

A crença de que a felicidade é um direito tem tornado despreparada a geração mais preparada.

Ao conviver com os bem mais jovens, com aqueles que se tornaram adultos há pouco e com aqueles que estão tateando para virar gente grande, percebo que estamos diante da geração mais preparada – e, ao mesmo tempo, da mais despreparada. Preparada do ponto de vista das habilidades, despreparada porque não sabe lidar com frustrações. Preparada porque é capaz de usar as ferramentas da tecnologia, despreparada porque despreza o esforço. Preparada porque conhece o mundo em viagens protegidas, despreparada porque desconhece a fragilidade da matéria da vida. E por tudo isso sofre, sofre muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu com o patrimônio da felicidade. E não foi ensinada a criar a partir da dor.

Há uma geração de classe média que estudou em bons colégios, é fluente em outras línguas, viajou para o exterior e teve acesso à cultura e à tecnologia. Uma geração que teve muito mais do que seus pais. Ao mesmo tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil. Ou que já nascem prontos – bastaria apenas que o mundo reconhecesse a sua genialidade.

Tenho me deparado com jovens que esperam ter no mercado de trabalho uma continuação de suas casas – onde o chefe seria um pai ou uma mãe complacente, que tudo concede. Foram ensinados a pensar que merecem, seja lá o que for que queiram. E quando isso não acontece – porque obviamente não acontece – sentem-se traídos, revoltam-se com a “injustiça” e boa parte se emburra e desiste.

Como esses estreantes na vida adulta foram crianças e adolescentes que ganharam tudo, sem ter de lutar por quase nada de relevante, desconhecem que a vida é construção – e para conquistar um espaço no mundo é preciso ralar muito. Com ética e honestidade – e não a cotoveladas ou aos gritos. Como seus pais não conseguiram dizer, é o mundo que anuncia a eles uma nova não lá muito animadora: viver é para os insistentes.

Por que boa parte dessa nova geração é assim? Penso que este é um questionamento importante para quem está educando uma criança ou um adolescente hoje. Nossa época tem sido marcada pela ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito. E tenho testemunhado a angústia de muitos pais para garantir que os filhos sejam “felizes”. Pais que fazem malabarismos para dar tudo aos filhos e protegê-los de todos os perrengues – sem esperar nenhuma responsabilização nem reciprocidade.

É como se os filhos nascessem e imediatamente os pais já se tornassem devedores. Para estes, frustrar os filhos é sinônimo de fracasso pessoal. Mas é possível uma vida sem frustrações? Não é importante que os filhos compreendam como parte do processo educativo duas premissas básicas do viver, a frustração e o esforço? Ou a falta e a busca, duas faces de um mesmo movimento? Existe alguém que viva sem se confrontar dia após dia com os limites tanto de sua condição humana como de suas capacidades individuais?

Nossa classe média parece desprezar o esforço. Prefere a genialidade. O valor está no dom, naquilo que já nasce pronto. Dizer que “fulano é esforçado” é quase uma ofensa. Ter de dar duro para conquistar algo parece já vir assinalado com o carimbo de perdedor. Bacana é o cara que não estudou, passou a noite na balada e foi aprovado no vestibular de Medicina. Este atesta a excelência dos genes de seus pais. Esforçar-se é, no máximo, coisa para os filhos da classe C, que ainda precisam assegurar seu lugar no país.

Da mesma forma que supostamente seria possível construir um lugar sem esforço, existe a crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem sofrer. De que as dores inerentes a toda vida são uma anomalia e, como percebo em muitos jovens, uma espécie de traição ao futuro que deveria estar garantido. Pais e filhos têm pagado caro pela crença de que a felicidade é um direito. E a frustração um fracasso. Talvez aí esteja uma pista para compreender a geração do “eu mereço”.

Basta andar por esse mundo para testemunhar o rosto de espanto e de mágoa de jovens ao descobrir que a vida não é como os pais tinham lhes prometido. Expressão que logo muda para o emburramento. E o pior é que sofrem terrivelmente. Porque possuem muitas habilidades e ferramentas, mas não têm o menor preparo para lidar com a dor e as decepções. Nem imaginam que viver é também ter de aceitar limitações – e que ninguém, por mais brilhante que seja, consegue tudo o que quer.

A questão, como poderia formular o filósofo Garrincha, é: “Estes pais e estes filhos combinaram com a vida que seria fácil”? É no passar dos dias que a conta não fecha e o projeto construído sobre fumaça desaparece deixando nenhum chão. Ninguém descobre que viver é complicado quando cresce ou deveria crescer – este momento é apenas quando a condição humana, frágil e falha, começa a se explicitar no confronto com os muros da realidade. Desde sempre sofremos. E mais vamos sofrer se não temos espaço nem mesmo para falar da tristeza e da confusão.

Me parece que é isso que tem acontecido em muitas famílias por aí: se a felicidade é um imperativo, o item principal do pacote completo que os pais supostamente teriam de garantir aos filhos para serem considerados bem sucedidos, como falar de dor, de medo e da sensação de se sentir desencaixado? Não há espaço para nada que seja da vida, que pertença aos espasmos de crescer duvidando de seu lugar no mundo, porque isso seria um reconhecimento da falência do projeto familiar construído sobre a ilusão da felicidade e da completude.

Quando o que não pode ser dito vira sintoma – já que ninguém está disposto a escutar, porque escutar significaria rever escolhas e reconhecer equívocos – o mais fácil é calar. E não por acaso se cala com medicamentos e cada vez mais cedo o desconforto de crianças que não se comportam segundo o manual. Assim, a família pode tocar o cotidiano sem que ninguém precise olhar de verdade para ninguém dentro de casa.

Se os filhos têm o direito de ser felizes simplesmente porque existem – e aos pais caberia garantir esse direito – que tipo de relação pais e filhos podem ter? Como seria possível estabelecer um vínculo genuíno se o sofrimento, o medo e as dúvidas estão previamente fora dele? Se a relação está construída sobre uma ilusão, só é possível fingir.

Aos filhos cabe fingir felicidade – e, como não conseguem, passam a exigir cada vez mais de tudo, especialmente coisas materiais, já que estas são as mais fáceis de alcançar – e aos pais cabe fingir ter a possibilidade de garantir a felicidade, o que sabem intimamente que é uma mentira porque a sentem na própria pele dia após dia. É pelos objetos de consumo que a novela familiar tem se desenrolado, onde os pais fazem de conta que dão o que ninguém pode dar, e os filhos simulam receber o que só eles podem buscar. E por isso logo é preciso criar uma nova demanda para manter o jogo funcionando.

O resultado disso é pais e filhos angustiados, que vão conviver uma vida inteira, mas se desconhecem. E, portanto, estão perdendo uma grande chance. Todos sofrem muito nesse teatro de desencontros anunciados. E mais sofrem porque precisam fingir que existe uma vida em que se pode tudo. E acreditar que se pode tudo é o atalho mais rápido para alcançar não a frustração que move, mas aquela que paralisa.

Quando converso com esses jovens no parapeito da vida adulta, com suas imensas possibilidades e riscos tão grandiosos quanto, percebo que precisam muito de realidade. Com tudo o que a realidade é. Sim, assumir a narrativa da própria vida é para quem tem coragem. Não é complicado porque você vai ter competidores com habilidades iguais ou superiores a sua, mas porque se tornar aquilo que se é, buscar a própria voz, é escolher um percurso pontilhado de desvios e sem nenhuma certeza de chegada. É viver com dúvidas e ter de responder pelas próprias escolhas. Mas é nesse movimento que a gente vira gente grande.

Seria muito bacana que os pais de hoje entendessem que tão importante quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um Ipad é dizer de vez em quando: “Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa briga é tua”. Assim como sentar para jantar e falar da vida como ela é: “Olha, meu dia foi difícil” ou “Estou com dúvidas, estou com medo, estou confuso” ou “Não sei o que fazer, mas estou tentando descobrir”. Porque fingir que está tudo bem e que tudo pode significa dizer ao seu filho que você não confia nele nem o respeita, já que o trata como um imbecil, incapaz de compreender a matéria da existência. É tão ruim quanto ligar a TV em volume alto o suficiente para que nada que ameace o frágil equilíbrio doméstico possa ser dito.

Agora, se os pais mentiram que a felicidade é um direito e seu filho merece tudo simplesmente por existir, paciência. De nada vai adiantar choramingar ou emburrar ao descobrir que vai ter de conquistar seu espaço no mundo sem nenhuma garantia. O melhor a fazer é ter a coragem de escolher. Seja a escolha de lutar pelo seu desejo – ou para descobri-lo –, seja a de abrir mão dele. E não culpar ninguém porque eventualmente não deu certo, porque com certeza vai dar errado muitas vezes. Ou transferir para o outro a responsabilidade pela sua desistência.

Crescer é compreender que o fato de a vida ser falta não a torna menor. Sim, a vida é insuficiente. Mas é o que temos. E é melhor não perder tempo se sentindo injustiçado porque um dia ela acaba.

Esse texto foi previamente publicado em Revista Época,  Clínica Alamedas, Geledes

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Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes – o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos e do romance Uma Duas.

Intersecção

Intersecção

Por Lourival Antonio Cristofoletti

O bom texto não pede para somente ser lido: ele quer ser vivenciado, até que o leitor se impregne de sua mensagem e se transporte para aquele mundo.

Ao se sentir tocado pela ajuda que chega, tem humildade para vestir as carapuças que cada situação oferece, certo de que o escrito foi feito de encomenda para ele – e como chegou em boa hora!

Nem sempre adianta a intenção de quem escrevinha, pois esta se dilui no mundo da subjetividade: o que vale mais é o sentido que aquele que lê consegue dar ao escrito, tocado que foi, de forma especial, ao vivenciar intensamente esse encontro com a mensagem.

Fica nele a doce sensação que aquele era o momento certo para ler o recado que fala tão alto ao seu coração, como se tivesse sido cúmplice na sua elaboração e apenas tivesse se esquecido de verbalizá-lo.

A oscilação é contínua: um resgate de coisas marcantes – e que poderia ter tido um desenrolar diferente se houvesse tanta clareza de propósitos no passado – e um programa de voo temperado, de forma que as turbulências futuras sejam mais bem satisfatoriamente administradas, face o discernimento que, com tanta clareza, se instala ora em seu ser.

E o que é lido como quem recorre a preces, desencadeia viagens pelo mundo das relações, certo de que esse movimento pendular tempera os sentimentos e oferece bálsamos para quem busca mais oferendas e encantamento em tudo vê, toca e sente.

LOURIVAL  ANTONIO CRISTOFOLETTI

contioutra.com - IntersecçãoPaulista de Rio Claro e residente em Vitória/ES. É mestre em Administração pela UnB – Universidade de Brasília, Analista Organizacional e Consultor em Recursos Humanos. Atualmente atua como professor na Graduação e MBA na FAESA – Faculdades Integradas Espírito-Santenses; Instrutor na UFES – Universidade Federal do ES e na ESESP– Escola de Governo do ES.

Livro publicado: COMPORTAMENTO: INQUIETAÇÕES & PONDERAÇÕES
Livraria Logos (vendas pelo site)

E-mail de contato: : [email protected]
No Facebook: Lourival Antonio Cristofoletti No Instagram: lourivalcristofoletti

Meu pai mente

Meu pai mente

“Ser pai ou mãe exige de nós não só o maior como o nosso melhor esforço. No vídeo abaixo, temos registrado a história de um pai que, em prol do futuro da filha, dá sempre o melhor de si.

Tudo começa quando, ao sair da escola, a filha entrega ao pai uma carta. Nela, diz que o pai é amoroso, carinhoso, a leva para tomar sorvete, sempre brinca com ela. Em um ponto, porém, há uma pausa e ela diz que sabe que o pai mente.

Que sabe que o pai finge que não está cansado, que o dinheiro do sorvete é contado, que o pai está desempregado e faz serviços braçais.

Só então o pai percebe que ela sempre soube de tudo o que se passava, e que ambos fingiam para preservar a alegria um do outro.

Animação bem humorada mostra o que aconteceria se nossos pensamentos fossem visíveis

Animação bem humorada mostra o que aconteceria se nossos pensamentos fossem visíveis

O homem é, a um só tempo, razão e instinto. O equilíbrio entre eles é que dirá da nossa capacidade de administrar os nossos relacionamentos.

O outro não precisa sempre ver, ouvir ou saber daquilo a que nossos instintos ou pensamentos não refletidos nos dizem.

Afinal, a sinceridade em excesso, nesse caso, não levará o outro a conhecer-nos em nossa integralidade, mas a tão somente ver um fragmento nosso que, raramente, dará norte ao nosso comportamento.

“Ophelia: Love & Privacy é uma animação de by Bin-Han

Ophelia: Love & Privacy_Settings from Cartoon Brew on Vimeo.

Como as crianças encaram a deficiência

Como as crianças encaram a deficiência

Uma coisa é certa: o a maldade e o preconceito estão nos olhos de quem vê.

No vídeo produzido pela ONG francesa Noémi Association, você vai se espantar e se encantar como as crianças enxergam a deficiência física.

Na experiência, país e filhos são convidados a ver um vídeo com pessoas a fazer caretas. A tarefa é imitar todas as caretas que são feitas na tela. No final, aparece uma garota com necessidades especiais e a reação é surpreendente.


Fonte: Vídeos do dia

“Amor Pleno”, um filme para ver de coração bem aberto

“Amor Pleno”, um filme para ver de coração bem aberto

Por Patrícia Sebastiany Pinheiro

Há alguns meses, uma amiga querida me procurou e sugeriu que eu assistisse ao filme “Amor Pleno”, alegando que poderia servir de grande inspiração para os meus textos. “Assista com o coração bem aberto”, disse ela. Logo deduzi que se trataria de um filme diferente.

Eu não estava enganada. O filme não conta com uma sequência linear de fatos e diálogos organizados, como estamos acostumados a ver as histórias sendo contadas; ele é quase um poema. As falas, apesar de raras, são carregadas de significado e passíveis de diversas interpretações, e os gestos, por vezes repetitivos e entediantes como a vida, transbordam verdade.

Uma cena, especificamente, me tocou e permaneceu por dias na minha mente: Marina (Olga Kurylenko) jogava-se, de costas, nos braços de seu companheiro, interpretado por Ben Affleck. Observava-se, quando ela abria bem os braços e se deixava cair, a adrenalina e o medo em seu rosto, em seus olhos que se fechavam como quem espera, num misto de temor e êxtase, o que está por vir, seguidos do riso largo que enfeitava seu semblante agora tranquilo quando, em meio ao nada, braços firmes a seguravam com força.

Não pude deixar de perceber que, em uma simples brincadeira, enxerga-se tanto do que é o amor: a insana coragem de abrirmos mão de algumas defesas e seguranças e, ainda que saibamos o quão cruel é a dor da queda, nos jogarmos – no escuro e de braços bem abertos – em direção ao chão, simplesmente por acreditarmos que o outro estará lá para nos segurar; por carregarmos a fé daqueles que sabem-se amados, que sabem que não há mal no mundo capaz de atingi-los enquanto houver as mãos firmes e amortecedoras esperando do outro lado.

Nosso equilíbrio e força para nos mantermos em pé vêm – e devem vir – das nossas próprias pernas, as únicas que, ainda que fraquejantes, jamais nos trairão. Mas, por vezes, é necessário que nos joguemos.

Nos jogamos, quando, na doença, permitimos que alguém cuide das nossas necessidades essenciais. Nos jogamos ao dividir nossas dores com alguém. Nos jogamos ao permitir que outras vidas segurem as nossas e as embalem no colo.

Quando nossos corpos estiverem cansados demais para caminhar, que ainda existam outros que, capazes ou não de nos carregar, nos confortem e renovem apenas ao proporcionar a serenidade do confiar; a paz que é poder andar ao lado de alguém de olhos fechados, sem medo de cair.

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10 entendimentos de Jiddu Krishnamurti sobre grandes temas da humanidade

10 entendimentos de Jiddu Krishnamurti sobre grandes temas da humanidade

Jiddu Krishnamurti foi um filósofo, escritor, e educador indiano. Proferiu discursos que envolveram temas como revolução psicológica, meditação, conhecimento, liberdade, relações humanas, a natureza da mente, a origem do pensamento e a realização de mudanças positivas na sociedade global. Constantemente ressaltou a necessidade de uma revolução na psique de cada ser humano e enfatizou que tal revolução não poderia ser levada a cabo por nenhuma entidade externa seja religiosa, política ou social. Uma revolução que só poderia ocorrer através do autoconhecimento; bem como da prática correta da meditação ao homem liberto de toda e qualquer forma de autoridade psicológica.

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Caos planetário

Se você está infeliz, confuso, caótico por dentro, isso, por projeção se torna o mundo, se torna a sociedade, pois a relação entre você e eu, entre eu e outra pessoa é a sociedade– a sociedade é o produto das nossas relações – e se a nossa relação for confusa, egocêntrica, restrita, limitada, nacional, projetamos isso e trazemos o caos ao mundo.”

Morte

Não queremos saber o que a morte é; não queremos conhecer o extraordinário milagre, a beleza, a profundeza, a vastidão da morte. Não queremos investigar esta coisa que não conhecemos. Tudo que queremos é continuar.

Segurança

Através de todas estas tentativas de acumulação esperam ter a garantia da certeza; certeza essa que leve embora todas as dúvidas e ansiedade; certeza essa que lhes dá – pelo menos esperam que lhes dê – certeza de escolha.

Com o pensamento da certeza, escolhem, na esperança de ganhar mais compreensão. Assim, na busca da certeza nasce o medo da obtenção e o medo da perda.”

Energia

Energia é ação e movimento. Toda ação é movimento e toda ação é energia. Todo desejo é energia. Todo sentimento é energia, todo pensamento é energia. Todo viver é energia. Toda vida é energia.

Status

Todos, neste mundo, desejam prestígio, prestígio na sociedade, na família, ou à direita de Deus-Padre, mas esse prestígio tem de ser reconhecido por outros, pois, do contrário, não será prestígio. Queremos estar sempre sentados no palanque. Interiormente, somos remoinhos de aflição e de malevolência, e, por conseguinte, ser olhado exteriormente como uma grande figura proporciona imensa satisfação.

Amor

O amor é sempre o presente ativo. Não é “amarei” ou “amei”. Se conheceis o amor, não seguireis ninguém. O amor não obedece. Quando se ama, não há respeito nem desrespeito.

Não sabeis o que significa amar realmente alguém – amar sem ódio, sem ciúme, sem raiva, sem procurar interferir no que o outro faz ou pensa, sem condenar, sem comparar – não sabeis o que isto significa? Quando há amor, há comparação? Quando amais alguém de todo o coração, com toda a vossa mente, todo o vosso corpo, todo o vosso ser, existe comparação? Quando vos abandonais completamente a esse amor, não existe “o outro”.

Exploração do homem pelo homem

Todos nós sentimos realmente, nos nossos corações, a crueldade aterradora da exploração, se já tivermos pensado nisso um só instante. E contudo cada um de nós é apanhado nesta roda, neste sistema de exploração, e esperamos e temos esperança que por algum milagre nasça um novo sistema.

Vida

Eu afirmo que a vida não é um processo de aprendizagem, de acumulação. A vida não é uma escola na qual aprovam os exames sobre o que aprenderam, o que aprenderam das experiências, das ações, do sofrimento.

Evolução

Para a maioria de nós a ideia de evolução implica uma série de realizações, isto é, realizações nascidas da escolha contínua entre aquilo a que chamamos não essencial e o essencial. Implica deixar o não essencial e movimentar-se em direção ao essencial. A esta série de contínuas realizações resultantes da escolha, chamamos evolução.

Mente e coração

E a mente e o coração – que para mim são a mesma coisa, divido-as por conveniência de discurso – são debilitadas e nubladas pela memória, e a memória é o resultado nascido da procura de segurança, é o resultado do ajustamento ao meio, e essa memória está continuamente a nublar a mente que é em si inteligência, e portanto dividindo-a da inteligência; essa memória cria a falta de compreensão, essa memória cria o conflito entre a mente e o meio

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Verdade

Não se pode descobrir o que é o valor verdadeiro enquanto a mente estiver à procura de consolo; e uma vez que a maioria das mentes anda à procura de consolo, conforto, segurança, não podem descobrir o que é a verdade.

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Edgar Morin e a poesia da vida

Edgar Morin e a poesia da vida

“Não se pode sonhar com uma felicidade contínua para a humanidade”

Edgar Morin, sociólogo e filósofo francês, reflete sobre a fragilidade e a complexidade da felicidade. Para ele, o grande segredo da vida é favorecer elementos que permitam uma vida poética, repleta de momentos de êxtase e de alegria. Conferencista do Fronteiras do Pensamento nos anos de 2008 e 2011.

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Um senhor muito velho com umas asas muito grandes, conto de Gabriel García Márquez

Um senhor muito velho com umas asas muito grandes, conto de Gabriel García Márquez

No terceiro dia de chuva tinham matado tantos caranguejos dentro de casa que Pelayo teve de atravessar o seu pátio inundado para atirá‑los ao mar, pois o bebé recém‑nascido tinha passado a noite com febre e pensava‑se que era por causa da pestilência. O mundo estava triste desde terça‑feira. O céu e o mar eram uma única e mesma coisa de cinza e as areias da praia, que em Março resplandeciam como poeira de luz, tinham‑se transformado numa papa de lodo e mariscos podres. A luz era tão fraca ao meio‑dia que, quando Pelayo regressava a casa depois de ter deitado fora os caranguejos, teve dificuldade em ver o que era que se movia e gemia no fundo do pátio. Teve de aproximar‑se muito, para descobrir que era um homem velho, que estava caído de borco no lodaçal e que, apesar dos seus grandes esforços, não podia levantar‑se, porque lho impediam as suas enormes asas.

Assustado por aquela visão aflitiva, Pelayo correu em busca de Elisenda, sua mulher, que estava a pôr compressas ao bebé doente, e levou‑a até ao fundo do pátio. Ambos observaram o corpo caído com um silencioso pasmo. Estava vestido como um trapeiro. Não lhe restavam mais do que uns fiapos descoloridos no crânio pelado e pouquíssimos dentes na boca, e essa lastimosa condição de bisavô ensopado tinha‑o desprovido de qualquer grandeza. As suas asas de abutre velho, sujas e meio depenadas, estavam encalhadas para sempre no lodaçal. Tanto o observaram, e com tanta atenção, que Pelayo e Elisenda muito rapidamente se recompuseram do assombro e acabaram por achá‑lo familiar. Então atreveram‑se a falar‑lhe, e ele respondeu‑lhes num dialecto incompreensível, mas com uma boa voz de navegante. Foi por isso que deixaram de preocupar‑se com o inconveniente das asas e chegaram à sensata conclusão de que era um náufrago solitário de algum navio estrangeiro, desfeito pelo temporal. Contudo, chamaram, para que o visse, uma vizinha que sabia todas as coisas da vida e da morte, e a ela chegou‑lhe um olhar para tirá‑los do engano.

‑ É um anjo ‑ disse‑lhes. ‑ Com certeza vinha por causa da criança, mas o desgraçado está tão velho que a chuva o fez cair.

No dia seguinte toda a gente sabia que em casa de Pelayo tinham cativo um anjo de carne e osso. Contra o critério da vizinha sábia, para quem os anjos destes tempos eram sobreviventes fugitivos de uma conspiração celestial, não tinham tido coragem para matá‑lo à paulada. Pelayo esteve toda a tarde a vigiá‑lo, da cozinha, armado com o seu garrote de aguazil, e, antes de deitar‑se, tirou‑o de rastros do lodaçal e fechou‑o com as galinhas no galinheiro alambrado. À meia‑noite, quando terminou a chuva, Pelayo e Elisenda continuavam a matar caranguejos. Pouco depois o menino acordou, sem febre e com desejos de comer. Então sentiram‑se magnânimos e decidiram pôr o anjo numa balsa com água doce e provisões para três dias e abandoná‑lo à sua sorte no mar alto. Mas, quando foram ao pátio com as primeiras claridades, encontraram toda a vizinhança em frente do galinheiro, divertindo‑se com o anjo, sem a menor devoção e a atirar‑lhe coisas para comer pelos buracos dos alambres, como se não se tratasse de uma criatura sobrenatural, mas sim de um animal de circo.

O padre Gonzaga chegou antes das sete, alarmado pela desproporção da notícia. A essa hora já tinham acorrido curiosos menos frívolos que os do amanhecer e tinham feito toda a espécie de suposições sobre o futuro do cativo. Os mais simples pensavam que seria nomeado alcaide do mundo. Outros, de espírito mais austero, supunham que seria promovido a general de cinco estrelas, para que ganhasse todas as guerras. Alguns visionários esperavam que fosse conservado como reprodutor, para implantar na Terra uma estirpe de homens alados e sábios que se encarregassem do universo. Mas o padre Gonzaga, antes de ser cura, tinha sido lenhador vigoroso. Chegado aos alambres, fez uma rápida revisão do seu catecismo, e, entretanto, pediu que lhe abrissem a porta, para examinar de perto aquele varão de lástima que mais parecia uma enorme galinha decrépita entre as galinhas absortas. Estava deitado num canto, secando ao sol as asas estendidas, entre as cascas de frutas e as sobras de pequenos‑almoços que lhe tinham atirado os madrugadores. Alheio às impertinências do mundo, mal levantou os seus olhos de antiquário e murmurou alguma coisa no seu dialecto quando o padre Gonzaga entrou no galinheiro e lhe deu os bons‑dias em latim. O pároco teve a primeira suspeita da sua impostura ao verificar que não compreendia a língua de Deus nem sabia cumprimentar os seus ministros. A seguir, observou que, visto de perto, tinha a aparência demasiado humana: tinha um insuportável odor de intempérie, o avesso das asas semeado de algas parasitárias e as penas maiores maltratadas por ventos terrestres, e nada da sua natureza miserável estava de acordo com a egrégia dignidade dos anjos. Então abandonou o galinheiro e, com um breve sermão, preveniu os curiosos contra os riscos da ingenuidade. Recordou‑lhes que o Demónio tinha o mau hábito de servir‑se de artifícios de Carnaval para confundir os incautos. Argumentou que, se as asas não eram o elemento essencial para determinar as diferenças entre um gavião e um aeroplano, muito menos o podiam ser para reconhecer os anjos. No entanto, prometeu escrever uma carta ao seu bispo, para que este escrevesse outra ao seu primaz e para que este escrevesse outra ao Sumo Pontífice, de maneira que o veredicto final viesse dos tribunais mais altos.

A sua prudência caiu em corações estéreis. A notícia do anjo cativo divulgou‑se com tanta rapidez que ao cabo de poucas horas havia no pátio um alvoroço de mercado, e tiveram de levar a tropa, com baionetas, para espantar o tumulto, que já estava quase a deitar a casa abaixo. Elisenda, com o espinhaço torcido de tanto varrer lixo de feira, teve então a boa ideia de taipar o pátio e receber cinco centavos pela entrada para ver o anjo.

Vieram curiosos até da Martinica. Veio uma feira ambulante com um acrobata voador, que passou a zumbir várias vezes por cima da multidão, mas ninguém lhe ligou importância, porque as suas asas não eram de anjo, mas de morcego sideral. Vieram em busca de saúde os doentes mais infelizes do Caribe: uma pobre mulher que desde criança estava a contar os latejos do seu coração e já não tinha números que lhe chegassem, um jamaicano que não podia dormir porque o atormentava o ruído das estrelas, um sonâmbulo que se levantava de noite para desfazer as coisas que tinha feito acordado, e muitos outros de menor gravidade. No meio daquela desordem de naufrágio que fazia tremer a terra, Pelayo e Elisenda estavam felizes de cansaço, porque em menos de uma semana atulhavam de dinheiro os quartos de dormir, e, todavia, a fila de peregrinos que esperavam vez para entrar chegava até ao outro lado do horizonte.

O anjo era o único que não participava do seu próprio acontecimento. O tempo ia‑se‑lhe em procurar acomodação no seu ninho emprestado, aturdido pelo calor de inferno das lamparinas de azeite e das velas de sacrifício que lhe encostavam aos alambres. Ao princípio insistiram para que comesse cristais de cânfora, que, de acordo com a sabedoria da vizinha sábia, era o alimento específico dos anjos. Mas ele desprezava‑os, como desprezou, sem os provar, os almoços papais que lhe levavam os penitentes, e nunca se soube se foi por ser anjo ou por ser velho que acabou por comer nada mais que papas de beringela. A sua única virtude sobrenatural parecia ser a paciência. Sobretudo nos primeiros tempos, quando o espiolhavam as galinhas em busca dos parasitas estelares que proliferavam nas suas asas e os aleijados lhe arrancavam penas, para tocar com elas nos seus defeitos, e até os mais piedosos lhe atiravam pedras, tentando conseguir que se levantasse, para vê‑lo de corpo inteiro. A única vez que conseguiram perturbá‑lo foi quando lhe queimaram as costas com um ferro de marcar novilhos, porque havia tantas horas que estava imóvel que pensaram que estava morto. Acordou sobressaltado, disparatando em língua hermética e com os olhos em lágrimas, e bateu as asas duas vezes, o que provocou um remoinho de estrume de galinheiro e pó lunar e um vendaval de pânico que não parecia deste mundo. Apesar de muitos terem ficado convencidos de que a sua reacção não tinha sido de raiva, mas sim de dor, desde esse dia trataram de não o incomodar, porque a maioria compreendeu que a sua passividade não era a de um herói em gozo de boa reforma, mas a de um cataclismo em repouso.

O padre Gonzaga enfrentou a frivolidade da multidão com fórmulas de inspiração doméstica, enquanto lhe chegava um parecer decisivo sobre a natureza do cativo. Mas o correio de Roma tinha perdido a noção da urgência. O tempo ia‑se‑lhes a averiguar se o prisioneiro tinha umbigo, se o seu dialecto tinha alguma coisa a ver com o aramaico, se podia caber muitas vezes na ponta dum alfinete, ou se não seria simplesmente um norueguês com asas. Aquelas cartas de parcimónia teriam ido e vindo até ao fim dos séculos se um acontecimento providencial não tivesse posto um fim às tribulações do pároco.

Sucedeu que, por esses dias, entre muitas outras atracções das feiras ambulantes do Caribe, levaram ao povoado o espectáculo triste da mulher que se tinha convertido em aranha por ter desobedecido a seus pais. A entrada para a ver não só custava menos que a entrada para ver o anjo, mas ainda permitiam fazer‑lhe toda a espécie de perguntas sobre a sua absurda condição e examiná‑la pelo direito e pelo avesso, de maneira que ninguém pusesse em dúvida a veracidade do horror. Era uma tarântula espantosa do tamanho de um carneiro e com a cabeça de uma donzela triste. Porém, o mais aflitivo não era a sua aparência de disparate, mas a sincera aflição com que contava os pormenores da sua desgraça; sendo quase uma criança, tinha‑se escapado de casa dos seus pais para ir a um baile, e, quando regressava pelo bosque, depois de ter dançado toda a noite sem autorização, um trovão pavoroso abriu o céu em duas metades e por aquela greta saiu o relâmpago de enxofre que a converteu em aranha. O seu único alimento eram as bolinhas de carne moída que as almas caritativas quisessem deitar‑lhe na boca. Semelhante espectáculo, carregado de tanta verdade humana e de tão temível castigo, tinha de derrotar, sem premeditação, o de um anjo despeitoso que mal se dignava olhar para os mortais. Além disso, os raros milagres que se atribuíam ao anjo revelavam uma certa desordem mental, como o do cego que não recuperou a vista mas a quem apareceram três dentes novos, o do paralítico que não pôde andar mas esteve quase a ganhar a lotaria e o do leproso a quem nasceram girassóis nas feridas. Aqueles milagres de consolação, que mais pareciam divertimentos de troça, já tinham enfraquecido a reputação do anjo quando a mulher convertida em aranha acabou de a aniquilar.

Foi desta maneira que o padre Gonzaga se curou para sempre das insónias e o pátio de Pelayo voltou a ficar tão solitário como nos tempos em que choveu três dias e os caranguejos andavam pelos quartos.

Os donos da casa não tiveram nada que lamentar. Com o dinheiro arrecadado construíram uma mansão de dois andares, com balcões e jardins e com muros muito altos, para que não entrassem os caranguejos do Inverno, e com barras de ferro nas janelas, para que não entrassem os anjos. Pelayo instalou, além disso, uma criação de coelhos muito perto da povoação, renunciando para sempre ao seu mau emprego de aguazil, e Elisenda comprou uns sapatos acetinados com saltos altos e muitos vestidos de seda furta‑cor, como os que usavam as senhoras mais categorizadas nos domingos daqueles tempos. O galinheiro foi a única coisa que não mereceu atenção. Se alguma vez o lavaram com creolina e nele queimaram as lágrimas de mirra, não foi para prestar honras ao anjo, mas para conjurar a pestilência de esterqueira, que andava como um fantasma por toda a parte e estava a tornar velha a casa nova. Ao princípio, quando o menino começou a andar, tiveram cuidado para que não estivesse muito perto do galinheiro. Mas depois foram‑se esquecendo do temor e acostumando‑se à pestilência, e antes que o menino mudasse os dentes tinha‑se habituado a brincar dentro do galinheiro, cujos alambres apodrecidos caíam aos bocados. O anjo não foi menos desabrido para com ele do que para com o resto dos mortais, mas suportava as infâmias mais engenhosas com uma mansuetude de cão sem ilusões. Ambos contraíram a varicela ao mesmo tempo. O médico que tratou o menino não resistiu à tentação de auscultar o anjo e encontrou‑lhe tantos sopros no coração e tantos ruídos nos rins que não lhe pareceu possível que estivesse vivo. O que mais o assombrou, contudo, foi a lógica das suas asas. Pareciam tão naturais naquele organismo completamente humano que não podia compreender‑se porque não as tinham também os outros homens.

Quando o menino foi à escola, havia muito tempo que o sol e a chuva tinham desmantelado o galinheiro. O anjo andava a arrastar‑se por aqui e por ali, como um moribundo sem dono. Expulsavam‑no a vassouradas de um quarto e um momento depois encontravam‑no na cozinha. Parecia estar em tantos lugares ao mesmo tempo que chegaram a pensar que se desdobrava, que se repetia a si mesmo por toda a casa, e a exasperada Elisenda gritava, fora de si, que era uma desgraça viver naquele inferno cheio de anjos. Mal podia comer, os seus olhos de antiquário tinham‑se‑lhe tornado tão turvos que andava a tropeçar nas vigas que sustentavam o telhado e já não lhe restavam senão os ráquis pelados das últimas penas. Pelayo atirou‑lhe para cima uma manta e fez‑lhe a caridade de o deixar dormir no alpendre, e só então repararam que passava a noite com febres, delirando, em tartamudeios de norueguês velho. Foi essa uma das poucas vezes em que se alarmaram, porque pensavam que ia morrer e nem sequer a vizinha sábia tinha podido dizer‑lhes o que se fazia com os anjos mortos.

No entanto, não só sobreviveu ao seu pior Inverno como até pareceu melhor com os primeiros sóis. Permaneceu imóvel durante muitos dias no canto mais afastado do pátio, onde ninguém o visse, e em princípios de Dezembro começaram a nascer‑lhe nas asas umas penas grandes e duras, penas de passarão velho, que mais pareciam um novo percalço da decrepitude. Mas ele devia conhecer a razão dessas mudanças, porque tinha todo o cuidado para que ninguém as notasse e para que ninguém ouvisse as canções de navegantes que às vezes cantava sob as estrelas.

Uma manhã, Elisenda estava a cortar rodelas de cebola para o almoço, quando um vento que parecia do alto mar se meteu na cozinha. Então assomou‑se à janela e surpreendeu o anjo nas primeiras tentativas do voo. Eram tão desajeitadas que abriu com as unhas um sulco de arado nas hortaliças e esteve quase a deitar abaixo o alpendre, com aqueles adejos indignos que escorregavam na luz e não encontravam apoio no ar. Mas conseguiu ganhar altura. Elisenda exalou um suspiro de alívio, por ela e por ele, quando o viu passar por cima das últimas casas, sustentando‑se de qualquer maneira com um agourento esvoaçar de abutre senil. Continuou a vê‑lo até ter acabado de cortar a cebola, e continuou a vê‑lo até quando já não era possível que o pudesse ver, porque nesse momento já não era um estorvo na sua vida, mas um ponto imaginário no horizonte do mar.

Gabriel García Márquez, 1968.

Do blog mais do que indicado:  Pessoa

contioutra.com - Um senhor muito velho com umas asas muito grandes, conto de Gabriel García Márquez

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Sugestão para o carnaval: que tal um retiro de meditação Vipassana em casa?

Sugestão para o carnaval: que tal um retiro de meditação Vipassana em casa?

Por Grace Bender

Época de carnaval é sempre associada a farras e extravasos, o legítimo “adeus à carne” – já que na origem do termo, a data precedia os dias de jejum da quaresma. Independente do significado, eis aí um feriado auspicioso para fazer o movimento inverso: ao invés de ir para fora, já experimentou voltar-se para dentro e ver o que acontece?

A sugestão é aproveitar os dias de feriado para ampliar a consciência acerca de si mesmo, um encontro que você jamais esquecerá! Um retiro em casa é uma opção agradável para quem não tem a oportunidade de participar de um retiro oficial. E do que você precisará dispor? De muito pouco: Um espaço silencioso em que não poderá ser perturbado (se mora sozinho, sua própria casa será um lugar perfeito, ou em algum chalé de preferência perto da natureza); no máximo três refeições por dia (opte por uma alimentação mais leve e vegetariana) algumas boas almofadas para sentar-se confortavelmente, e agora o último e mais importante elemento: muita determinação e disciplina para cumprir até o fim a jornada!

Já a lista do que você não vai precisar é bem maior: dê um descanso para o computador, o celular, a televisão, inclusive para os livros ou qualquer outro artefato que possa causar distração. A ideia é realmente se desconectar da rotina, das preocupações e afazeres mundanos. Importante também lembrar que o retiro Vipassana é baseado no absoluto e completo silêncio. Vipassana significa “ver as coisas como elas realmente são” e isto significa abster-se dos diálogos externos e internos. Nesta meditação, observamos cada sensação do corpo no corpo.

Aqui o corpo é seu grande aliado, uma verdadeira âncora que o conecta ao momento presente. O corpo nunca pode estar em outro lugar que não no agora.

Para quem nunca teve intimidade com a prática de meditação Vipassana, ou nunca realizou nenhum dos retiros de 10 dias de silêncio, sugiro que utilize seu método de meditação pessoal ou a meditação de sua preferência. Não importa qual for, desde que você esteja totalmente consciente e ela possa lhe abrir para um espaço meditativo e silencioso. Se for uma meditação ativa, não esqueça de dedicar o tempo proporcional de atividade ao tempo de não-atividade (sentado em posição confortável, com a coluna bem ereta, olhos cerrados ou semi-cerrados). Isto é muito importante de ser ressaltado, uma vez que nossa sociedade cultua freneticamente o fazer e a hiperatividade, dedicando-se pouco à simples contemplação do Ser. Por isso insisto na importância de, nesse dia, abster-se de qualquer afazer que possa distanciá-lo do agora. Esse é o maior presente que você pode se dar. Um luxo inigualável!

Os preparativos devem acontecer desde a noite anterior ao dia de retiro. Procure deixar suas refeições encaminhadas, para que não precise se preocupar com isso na hora em que for se alimentar. Dê preferência a alimentos leves, vegetarianos, orgânicos. Exclua ingredientes artificiais ou industrializados e que contenham estimulantes como a cafeína. Após os preparativos dos alimentos e do local de meditação, recolha-se cedo para dormir, entre 22:00-22:30h. Não esqueça de avisar com antecedência parentes e amigos para que não seja atrapalhado. Coloque o despertador para tocar e lembre-se: assim que acordar, o retiro estará valendo!

Confira um breve roteiro para você se guiar durante seu dia de meditação:

5:00 às 6:00 Hora de despertar, faça a higiene pessoal, escove os dentes, tome banho (um banho frio para ativar a circulação e ajudar a afastar o sono), coloque roupas limpas e confortáveis;

6:30 às 7:00 Primeira prática do dia, deve ser feita ainda em jejum para aproveitar o máximo da serenidade do horário do dia. Sessão de 1h ou duas de 30 minutos com um breve intervalo para descanso;

8:00 às 10:00  Desjejum e descanso. Aproveite para degustar lentamente sua primeira refeição. Comer já é uma prática completa de meditação em si! No período de descanso, saiba contemplar, cada passo, cada mínimo detalhe do local onde estiver, cada pensamento que sondar sua mente, cada respiração e cada som que escutar. Evite quaisquer distrações;

10:30 às 11:00 Segunda sessão da manhã. Pode ser de tempo mais reduzido. Recomendo mínimo de 30 minutos;

11:30 – 14:30  Pausa para o almoço. Lembre-se de comer devagar e com plena atenção ao sabor, às cores e textura do alimento. Mastigue lentamente. Após o almoço você poderá fazer um descanso prolongado. Importante voltar à meditação somente depois de duas à três horas após o término da refeição;

15:00 às 16:30  Prática meditativa. Entre 1h e 1h30 de duração;

17:00 às 18:00  Pausa, seguida de jantar;

19:00 Última rodada da noite. Meditação mais longa. Dê o seu melhor!

22:00 Deite-se respeitando os votos de silêncio e durma tranquilamente.

Nota da Conti outra: o texto acima foi publicado com a autorização da autora.

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Ao acordar, procure permanecer ainda mais alguns instantes em silêncio e faça uma última meditação de encerramento.

Em um retiro Vipassana a duração diária de meditação pode chega à 10 horas. A quantidade de horas aqui pode ser ajustada conforme o nível de experiência e prática pessoal de cada um. O mais importante não é exatamente a quantidade, mas a qualidade de sua entrega. O roteiro acima foi criado baseado no retiro de meditação Vipassana de 10 dias. É altamente recomendado para pessoas que já possuem alguma experiência com Vipassana ou para aqueles que possuem um estilo de vida extremamente ativo, com poucos períodos de silêncio e quietude.

Ainda assim, você mesmo pode criar seu próprio dia de retiro usando sua criatividade, disposição e vontade para fazer suas próprias regras. Afinal, você é o único que deve contas a si mesmo. Há até quem prefira realizar jejuns paralelamente ao período de meditação.

Cultive uma postura contemplativa, ancorada no presente. Tenha persistência e não dê ouvidos às vozes mentais que tentarão sabotar seu mergulho dentro de si mesmo. Muitos conflitos e pensamentos turvos poderão vir à tona e este é um bom sinal: significa que o processo de limpeza dos samskaras (impressões remanescentes que levam a padrões e condicionamentos) estão agora atuando na camada mais superficial da sua mente.

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Escritora, mestre em comunicação, pesquisadora, artista, entusiasta espiritualista e terapeuta / professora de yoga. Nas horas vagas contenta-se em contemplar, compor músicas e investigar seu próprio universo interior.

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Todo para sempre é provisório

Todo para sempre é provisório

Por Nara Rúbia Ribeiro

Quando crianças, somos tomados pela alegria das incessantes descobertas. Nesse tempo, o deslumbramento nos instiga a sondar e a conhecer, a tocar o não sabido, a explorar o incerto. Na medida em que vamos crescendo, tomamos um caminho contrário. Cercamo-nos de certezas diversas na ilusão de que essa redoma nos deixará seguros. Então passamos a desejar que o conhecido e amado se perpetue no tempo e no espaço, e nos fechamos para o novo.

Passamos, assim, a escolher caminhos com a intenção de perenidade, firmamos compromissos com prazos a perder de vista, desenhamos o nosso destino, celebramos contratos, juramos amores selados de eternidade. Contudo, todo para sempre é provisório. Os planos, as metas, as juras eternas, eles são o cenário perfeito para que a vida se mostre maior do que toda e qualquer previsão.

É que o verdadeiro viver só acontece no improviso. Ele acontece quando um “quase”  nos resvala a alma. Quando um “se” nos exaspera. Quando você olha um desconhecido e percebe que ele o observa e que os olhos dele brilham. Quando você finalmente constata que a profissão dos seus sonhos não era tão a profissão dos seus sonhos assim e que você pode criar alternativas. Ele acontece quando tudo transborda ou quando tudo falta, e você sente que algo dentro de si se agiganta e que você pode ser maior do que é.

A vida não tem relógio de ponto. Não se apresenta de hora marcada. Ela não vem com manuais. Não tem garantias. Mas é  uma aventura a ser levada a sério, pois tudo só é  enquanto não se esvair. E tudo se esvai de nós, embora em nós ainda possa eternizar-se.

O bonito é regressar às infâncias e ver, com a maturidade dos nossos olhos já vividos, que existe beleza nesse caos. Perceber que existem flores e perfumes nesse tumulto. Saber que não fomos feitos para o tédio, que não nascemos para ser mornos. Certamente se a beleza de ontem fosse eterna já não encontraria o mesmo eco em nossas almas. Afinal, aquele que em nós viveu já não é vivo. Somos, a cada dia, a nossa mais nova reinvenção.

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Nara Rúbia Ribeiro: colunista CONTI outra

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Escritora, advogada e professora universitária.
Administradora da página oficial do escritor moçambicano Mia Couto.
No Facebook: Escritos de Nara Rúbia Ribeiro
Mia Couto oficial

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10 cartões de visita extremamente criativos e inusitados

10 cartões de visita extremamente criativos e inusitados

Existe uma matéria que foi publicada pelo site Tudo Interessante chamada  23 Cartões de visita extremamente criativos que deixarão os demais obsoletos.

Como o conteúdo realmente era “muito interessante”, fizemos uma triagem dos 10 cartões que consideramos os mais criativos e trouxemos para vocês se inspirarem.

Divirtam-se!

1. Cartão do advogado especialista em divórcios

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2. Cartão do professor de yoga

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3. Cartão do médico especialista em circuncisões

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4- Cartão do personal trainer

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5- Esse nem cartão é! Palmas pra esse centro de yoga, muito criativo

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6. Cartão do sommelier. Um dos melhores, na minha opinião: simples, criativo e eficaz.

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7. Cartão do cirurgião plástico

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8. Cartão-cárie do dentista (bem bolado)

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9. Cartão ralador de queijo da loja de queijos (Brasil inovando novamente. Parabéns)

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10. Cartão comestível. Pena que não dura pra sempre.

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Indicação da seleção Beatriz Arte Confeitaria.

Cartão de professora de Yoga

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Por que as mentes mais brilhantes precisam de solidão?

Por que as mentes mais brilhantes precisam de solidão?

Por SILVIA DÍEZ

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Segundo o professor Robert Lang, da Universidade de Nevada (Las Vegas), especialista em dinâmicas sociais, muitos de nós acabarão vivendo sozinhos em algum momento, porque a cada dia nos casamos mais tarde, a taxa de divórcio aumenta, e as pessoas vivem mais. A prosperidade também incentiva esse estilo de vida, escolhido na maioria dos casos voluntariamente, pelo luxo que representa. A jornalista Maruja Torres, em sua autobiografia, Mujer en Guerra (da editora Planeta España, não publicada em português), já se vangloriava do prazer que lhe dava cair na cama e dormir sozinha, com pernas e braços em X. A isso se soma a comodidade de dispor do sofá, poder trocar de canal sem ter que negociar, improvisar planos sem avisar nem dar explicações, andar pela casa de qualquer jeito, comer a qualquer hora…

Como se fosse pouco, o sociólogo Eric Klinenberg, da Universidade de Nova York, autor do estudo GOING SOLO: The Extraordinary Rise and Surprising Appeal of Living Alone (ficando só: o extraordinário aumento e surpreendente apelo de viver sozinho, em tradução livre), está convencido de que viver só significa, também, desfrutar de relações com mais qualidade, já que a maioria dos solteiros vê claramente que a solidão é muito melhor que se sentir mal-acompanhado. Há até estudos que asseguram que a solidão facilita o desenvolvimento da empatia. Outra socióloga, Erin Cornwell, da Universidade Cornell, em Ítaca (Nova York), concluiu, depois de diversas análises, que pessoas com mais de 35 anos que moram sozinhas têm maior probabilidade de sair com amigos que as que vivem como casais. O mesmo acontece com as pessoas adultas que, embora vivendo sozinhas, têm uma rede social de amizades tão grande ou maior que a das pessoas da mesma idade que vivem acompanhadas. É a conclusão do estudo feito pelo sociólogo Benjamin Cornwell publicado na American Sociological Review.

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Fotografia Tom Chambers.

A base da criatividade e da inovação

As pessoas são seres sociais, mas depois de passar o dia rodeadas de gente, de reunião em reunião, atentas às redes sociais e ao celular, hiperativas e hiperconectadas, a solidão oferece um espaço de repouso capaz de curar. Uma das conclusões mais surpreendentes é que a solidão é fundamental para a criatividade, a inovação e a boa liderança. Estudo realizado em 1994 por Mihaly Csikszentmihalyi (o grande psicólogo da felicidade) comprovou que os adolescentes que não aguentam a solidão são incapazes de desenvolver seu talento criativo.

Susan Cain, autora do livro Quiet: The Power of Introverts in a World That Can’t Stop Talking (silêncio: o poder dos introvertidos num mundo que não consegue parar de falar), cuja conferência na plataforma de ideias TED Talks é uma das favoritas de Bill Gates, defende ao extremo a riqueza criativa que surge da solidão e pede, pelo bem de todos, que se pratique a introversão. “Sempre me disseram que eu deveria ser mais aberta, embora eu sentisse que ser introvertida não era algo ruim. Durante anos fui a bares lotados, muitos introvertidos fazem isso, o que representa uma perda de criatividade e de liderança que nossa sociedade não pode se permitir. Temos a crença de que toda criatividade e produtividade vem de um lugar particularmente sociável. Só que a solidão é o ingrediente essencial da criatividade. Darwin fazia longas caminhadas pelo bosque e recusava enfaticamente convites para festas. Steve Wozniak inventou o primeiro computador Apple sentado sozinho em um cubículo na Hewlett Packard, onde então trabalhava. Solidão é importante. Para algumas pessoas, inclusive, é o ar que respiram.”

Cain lembra que quando estão rodeadas de gente, as pessoas se limitam a seguir as crenças dos outros, para não romper a dinâmica do grupo. A solidão, por sua vez, significa se abrir ao pensamento próprio e original. Reclama que as sociedades ocidentais privilegiam a pessoa ativa à contemplativa. E pede: “Parem a loucura do trabalho constante em equipe. Vão ao deserto para ter suas próprias revelações”.

A conquista da liberdade

“Só quando estou sozinha me sinto totalmente livre. Reencontro-me comigo mesma e isso é agradável e reparador. É certo que, por inércia, quanto menos só se está, mais difícil é ficá-lo. Mesmo assim, em uma sociedade que obriga a ser enormemente dependente do que é externo, os espaços de solidão representam a única possibilidade se fazer contato novamente consigo. É um movimento de contração necessário para recuperar o equilíbrio”, diz Mireia Darder, autora do livro Nascidas para o Prazer (Ed. Rigden, não publicado em português).

Também o grande filósofo do momento, Byung-Chul Han, autor de A Sociedade do Cansaço (Ed. Relogio D’Agua, de Portugal), defende a necessidade de recuperar nossa capacidade contemplativa para compensar nossa hiperatividade destrutiva. Segundo esse autor, somente tolerando o tédio e o vácuo seremos capazes de desenvolver algo novo e de nos desintoxicarmos de um mundo cheio de estímulos e de sobrecarga informativa. Byung-Chul Han preza as palavras de Catão: “Esquecemos que ninguém está mais ativo do que quando não faz nada, nunca está menos sozinho do que quando está consigo mesmo”.

Autoconsciência e análise interior

As 5 chaves para desfrutar da solidão

1. Você é sua melhor companhia. A premissa básica é mudar a crença de que quem está acompanhado está melhor.

2. Uma oportunidade para nos conhecermos melhor e descobrir nosso rico mundo interior.

3. Em vez de se torturar, é preciso aproveitar a solidão para ler, pintar ou praticar esporte.

4. Escrever um diário. Ajuda a expressar sentimentos e a contemplar-se com mais conhecimento e carinho.

5. Como indica o psicólogo Javier Urra, com a solidão recuperamos “o gosto pelo silêncio e pelo domínio do tempo”.

“Para mim a solidão representa a oportunidade de revisar nosso gerenciamento, de projetar o futuro e avaliar a qualidade dos vínculos que construímos. É um espaço para executar uma auditoria existencial e perguntar o que é essencial para nós, além das exigências do ambiente social”, diz o filósofo Francesc Torralba, autor de A Arte de Ficar Só (Ed. Milenio) e diretor da cátedra Ethos da Universidade Ramon Llull. Na solidão deixamos esse espaço em branco para ouvir sem interferências o que sentimos e precisamos. “A solidão nos dá medo porque com ela caem todas as máscaras. Vivemos sempre mantendo as aparências, em busca de reconhecimento, mas raramente tiramos tempo para olhar para dentro”, diz Torralba.

Na verdade, a solidão desperta o medo porque costuma ser associada ao vazio e à tristeza, especialmente quando é postergada longamente por uma atividade frenética e anestesiante. Para Mireia Darder, é bom enfrentar esse momento tendo em mente que a tristeza resulta simplesmente do fato de se soltar depois de tanta tensão e de ter feito um esforço enorme para aparentar força e suportar a pressão frente aos que nos cercam. “Não se pode esquecer que para ser realmente independente é preciso aprender a passar pela solidão. O amor não é o contrário da solidão, e sim a solidão compartilhada”, diz Darder.

Em nossa sociedade, a inatividade —que surge com frequência da solidão— é temida e desperta a culpa. Fomos preparados para a ação e para fazer muitas coisas ao mesmo tempo, mas é quando estamos sozinhos que podemos refletir sobre o que fazemos e como o fazemos. O escritor Irvin Yalom, titular de Psiquiatria na Universidade de Stanford, confessava que desde que tinha consciência se sentia “assustado pelos espaços vazios” de seu eu interior. “E minha solidão não tem nada a ver com a presença ou ausência de outras pessoas. De fato detesto os que me privam da solidão e além disso não me fazem companhia.” Algo que, segundo Francesc Torralba, é muito frequente: “Embora estejamos cercados de gente e de formas de comunicação, há um alto grau de isolamento. Não existe sensação pior de solidão que aquela que se experimenta ao estar em casal ou com gente”.

Estudo: Pais manipuladores criam filhos inaptos para relações futuras

Estudo: Pais manipuladores criam filhos inaptos para relações futuras

Por Marta F. Reis

Via contioutra.com - Estudo: Pais manipuladores criam filhos inaptos para relações futuras

Um estudo da Universidade de Virgínia, nos Estados Unidos, avisa os pais que a forma como interagem com as crianças pode hipotecar as suas relações futuras com amigos e namorados.

Os pais que sempre tentam mudar o que os filhos sentem, tentam educá-los fazendo-os  se sentirem culpados ou ameaçando-os de que, se não fizerem as coisas à sua maneira, vão gostar menos deles, não arriscam apenas contribuir para um ambiente hostil em casa enquanto os filhos são adolescentes. Um estudo da Universidade da Virgínia concluiu que este tipo de táticas psicológicas afeta as relações que mais tarde os jovens terão com amigos e namorados. As crianças que crescem sujeitas a este tipo de manipulação psicológica tendem a ser menos independentes e abertas nas suas relações, concluem os investigadores num artigo publicado esta semana na revista científica “Child Development”.

Barbara Oudekerk, co-autora do estudo, explicou ao i que não se trata de os pais não poderem orientar os filhos para o que entendem ser as opções mais saudáveis. A forma como o fazem é que pode ser problemática. A equipe dedicou-se a investigar uma questão relativamente consensual da psicologia do desenvolvimento: os adolescentes menos independentes tendem a ter mais dificuldades de relacionamento quando crescem. O objetivo era perceber o que estaria na origem dessa lacuna e, para isso, os pesquisadores testaram a hipótese de que eles tinham pais que se utilizavam de táticas psicológicas consideradas intrusivas.

O trabalho começou em 1998, com o recrutamento de jovens que que estavam no 8.o ano. Pediram-lhes que escolhessem amigos próximos, que também fariam parte da experiência. A partir daí a investigação durou quase nove anos, o que implicou recolher informação quando os jovens tinham 13, 18 e 21 anos. Envolveu ao todo 184 jovens.

Por um lado, submeteram-nos a inquéritos sobre o tipo de atitudes que os pais tinham com eles. Eles  procuraram avaliar o grau de controle psicológico. Por outro, filmaram-nos a discutir com os amigos que tinham selecionado desafiando-os a chegar a consensos em jogos mentais adaptados às suas idades, para avaliarem a forma como expressavam as suas opiniões e interagiam com os amigos. Aos 13 anos, por exemplo, os jovens eram confrontados com a ideia de que tinham 12 pessoas conhecidas em Marte mas só sete poderiam voltar à Terra. Depois de a “cobaia” e o amigo escolherem separadamente os seus eleitos, tinham de chegar a acordo.

Mais velhos, as questões eram mais abstratas, como o que preferiam manter quando chegassem aos 90 anos: o corpo ou a cabeça de uma pessoa de 35.

Os investigadores concluíram que os jovens cujos pais usavam mais vezes técnicas de chantagem psicológica e procuravam manipular os filhos acabavam por sair-se pior nestes confrontos com amigos, exteriorizando menos o que pensavam ou adoptando posturas mais hostis para defender as suas ideias. Os jovens que tinham revelado possuir pais mais controladores aos 13 anos acabavam por continuar a ser menos funcionais nove anos mais tarde, quando tinham 21 anos. Além disso, os que tinham mais dificuldades nestes jogos com os amigos tinham vidas amorosas também menos estáveis nas idades mais adiantadas. “Já tínhamos verificado noutras investigações que quanto mais tempo se está numa relação mais se precisa de autonomia e intimidade”, diz Barbara Oudekerk.

DISCUTIR É EDUCAR “Só porque os pais têm atitudes deste gênero uma ou duas vezes não quer dizer que vão prejudicar as relações dos filhos”, sublinha a investigadora: “O que concluímos é que, quanto mais os pais são assim e tentam controlar o comportamento dos jovens usando técnicas intrusivas, menos eles são capazes de expressar a sua independência e desenvolver intimidade em futuras relações com amigos e namorados.”

Embora não tenham uma explicação clara do resultado, que no fundo mostra que os jovens não se tornam controladores como os pais mas pelo menos nestas idades acabam por ficar mais vulneráveis, Barbara Ouderkek arrisca que uma das hipóteses é que este tipo de abordagem dos pais ensina os jovens a priorizar os desejos e necessidades dos outros acima das suas. “Se os pais são excessivamente controladores em termos psicológicos, os jovens podem ter menos oportunidades para defender as suas opiniões sem temer chateá-los ou ficar menos próximos deles”, diz. “Podem também interiorizar que precisam tomar decisões para agradar aos pais em vez de pensar no seu bem-estar, nos seus objetivos.” Por outro lado, podem não ter margem para aprender a defender as suas ideias sem atacar e diminuir as dos outros. “Se formos bons defendendo as nossas opiniões mas de uma forma que magoe a outra pessoa, a amizade não dura.”

A investigadora defende que uma das lições a tirar deste estudo é que, quando os pais se queixam que não conseguem controlar as relações dos filhos, talvez não tenham a percepção de que a forma como lidam com eles é estruturante dessas relações fora de casa.

Antes deste estudo, a equipe já tinha demonstrado que o mesmo tipo de controle psicológico durante a adolescência levava os jovens a seguirem mais vezes os colegas e começar, por exemplo, a vida sexual mais cedo.

Tomar uma decisão e explicá-la é uma melhor opção que recorrer à culpa ou ao remorso, defende Ouderkek. “Quando têm uma discussão com os filhos, devem ter em conta que estão a ensinar aos filhos as formas adequadas de expressarem as suas opiniões em relações de intimidade.” O grupo de investigação tem verbas para continuar a seguir o grupo até terem 32 anos, o que acontecerá em 2017. Nessa altura já deverá ser possível avaliar se replicam a atitude dos seus pais com os próprios filhos.

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