1. Desejar o mal a outra pessoa, porque ela tem algo que nós não temos, não nos trará o bem que não temos, e sim o mal que não tínhamos. Responder com um mal (calúnia, difamação, hostilidade etc.) diante de um bem do outro (uma habilidade que não temos, o sucesso etc.) constitui um mal e se manifesta em outros males (ódio ao próximo, dano causado a ele, dano a si mesmo etc.).
2. Qualquer pessoa é mais valiosa que todas as coisas, possessões ou pertences.
3. É mais saudável ocupar-se dos outros que unicamente de si mesmo.
4. A pessoa vai se enriquecer na medida em que contribuir para o enriquecimento pessoal de parentes, amigos e colegas.
5. O melhor caminho para a autoafirmação é o serviço aos outros; o pior caminho é a magnificação da autovalorização.
6. Não podemos desejar ter o mesmo sucesso dos outros sem esforço nenhum, porque as conquistas pessoais precisam ser alcançadas mediante um saudável desejo de superação de si mesmo.
7. A prosperidade alcançada por outros não pode ser vista como algo que nos prejudica.
8. É muito difícil estabelecer vínculos afetivos e autênticos quando não se é solidário com as pessoas.
9. O egoísmo atrapalha a autoestima, pois cria dependência das gratificações afetivas de outras pessoas (elogios, agrados etc.) e faz que a pessoa condicione seu querer unicamente ao fato de que gostem dela.
10. O egoísmo leva a pessoa a confundir pontos de vista diferentes do dela com manifestações de rejeição.
11. A pessoa egoísta não consegue tolerar as frustrações que tanto a amizade quanto a convivência humana implicam.
O egoísmo afunda a pessoa em um abismo tão insondável e ruim, que reduz a liberdade, pois a torna insensível para agradecer pelos bens materiais e sobretudo espirituais.
A disseminação dos telemóveis, quase todos equipados com máquina fotográfica, gerou um fenómeno singular de assédio de imagem, susceptível de atingir qualquer pessoa que, em razão do seu ofício, esteja sujeita a um mínimo de exposição mediática. Lembro-me, há alguns anos, de ter ido ao Aeroporto da Portela, em Lisboa, para me despedir de Maitê Proença. Tomávamos um café quando fomos interrompidos por três sujeitos de meia-idade. Um deles avançou, de telemóvel em riste:
“Somos angolanos”, disse, dirigindo-se à actriz: “em Angola todo o mundo te conhece, todo o mundo te ama.”
Maitê agradeceu, com o seu belo sorriso.
“Podemos fazer uma foto contigo?”
Maitê voltou a sorrir. Os três foram trocando de posições, fazendo-se fotografar ao lado dela, insistindo em como a conheciam e amavam e respeitavam.
Feitas as fotos, o que parecia ser o mais velho apontou o dedo para Maitê e perguntou:
“E o teu nome é?”
Maitê olhou-o, perplexa:
“Maitê?!”
“Maitê o quê?”
“Maitê Proença…”
“OK. Muito obrigado, Maitê Proença.”
Mais recentemente, mas de novo no Aeroporto da Portela, preparando-me para embarcar para Luanda, veio ter comigo um jovem cheio de suégue.
“Mano, posso tirar uma foto contigo?”
Concordei, convencido de que seria algum leitor mais apaixonado. Fizemos a foto. O rapaz estendeu-me a mão:
“Obrigado, ó polémico! Continua assim.”
Ainda o ouvi, animado, a gabar-se a um amigo: “Tirei uma selfie ali com o polémico. Como se chama o gajo?”
“Não sei”, confessou o outro. “Nem sequer sei o que ele faz.”
Intriga-me esta ânsia de alguém se fazer fotografar ao lado de uma pessoa, apenas porque tal pessoa apareceu duas ou três vezes numa televisão – mesmo não sabendo nada sobre ela. Há aqui, talvez, vestígios de um certo pensamento mágico. Eventualmente, o rapaz com suégue acredita que o reconhecimento público é contagioso. Ou, neste caso concreto, a minha suposta rebeldia. Fazendo-se fotografar comigo regressará a casa um pouco menos submisso, ou um pouco menos anónimo, ou ambas as coisas.
Antigamente havia os Museus de Cera. As pessoas visitavam o Madame Tussauds para posarem ao lado de Elvis Presley ou de Brad Pitt. Depois mostravam as fotografias à família e toda a gente se ria com a fraude ingénua. Agora saem pelas ruas à caça de “famosos”. Como não encontram o Elvis na rua (Elvis não é um bom exemplo, parece que volta e meia o encontram), contentam-se em fotografar o antigo concorrente do último “reallity show”, o cantor em declínio, até mesmo um qualquer escritor.
O dia-a-dia das pessoas está hoje tão dependente do universo virtual, das existências que vêem acontecer nos écrâns de televisão e dos computadores, que muitas delas não acreditam no próprio destino, não acreditam que respiram e estão vivas, enquanto não surgirem também, por um instante que seja, nesses mesmos écrans. Não podendo ser, resta a pose, o beicinho, junto a alguém que frequente tais écrans. Faz-se prova de vida, não através da vida, mas através da imitação da vida. Tristes tempos.
José Eduardo Agualusa Alves da Cunha é um escritor angolano.
O costume é nos perdoar, esticar as rugas com o riso, desprezar a falta de fôlego e os ossos estalando. Ainda guardamos dentro da gente a vitalidade do pensamento, mesmo que o corpo não acompanhe.
Relevamos as pontadas, o cansaço e a vontade de sentar logo ao entrar em uma sala. Não achamos que é sério. Costumamos explicar que é apenas uma indisposição temporária ou uma noite mal dormida ou o excesso do calor.
Não chamamos nunca a velhice pelo nome, está cheia de sinônimos.
O único jeito de encarar o peso dos anos é pela idade dos filhos. Eles nos denunciam. Eles nos entregam. São delatores de nossa data de nascimento. Representam um cartório sempre aberto dentro de casa.
Não tem como pintar o cabelo, estender pano de prato com calendário antigo ou fingir que não é conosco.
Meus pais esqueceram que já estão com 76 anos. Nem as cartelas vazias do remédio no café da manhã são alarmes de suas fragilidades. Mas lembrarão imediatamente do longo percurso se avisá-los que o caçula Miguel tem quarenta anos e que todos os seus filhos passaram das quatro décadas.
Eu me vejo como um guri, capaz de empreender indiadas e emendar noites trabalhando. Por mim, não sofreria abalo psicológico, não experimentaria crise de lobo, raposa, cachorro, hiena. Não me percebia velho. Nenhuma festa acentuava a passagem do tempo.
Até o momento em que comemorei o aniversário de 21 anos de minha filha. Mariana completou a maioridade. Sou pai de uma mulher de 21 anos. Minha menina é uma mulher.
Assim como o Vicente, que parecia um eterno bebê, acaba de pisar na adolescência com os dois pés. Fez 13 anos na última sexta. Meu piá tem 13 anos. A voz é de um homem, fala grosso e chiado, bate a porta do quarto com força exigindo privacidade.
Eu considerava que ambos demorariam séculos imaginários para alcançar a fase adulta. Não estou preparado para ter filhos adultos e abandonar o termo “minhas crianças”. Como se despedir da infância pela segunda vez?
É o medo de perder a paternidade mais pura, a confiança cega e incondicional de seus pequenos, e também o medo de não estar mais aqui para ver a sequência da família.
Recordo que os 13 anos do Vicente estavam ligados à quitação do imóvel de São Leopoldo. Era um longo financiamento, projetado para longe, numa realidade remota e absurda. O ano de 2015 soava, no contrato de 2002, como um filme de ficção científica.
Nem sonhava que esta data fosse existir. Pagava religiosamente todo mês como se fosse um dízimo perpétuo.
A ampulheta virou e perdi a contagem. Distraído com o mar, não enumerei os grãos de areia debaixo dos pés.
Pois aconteceu. Chegou esse dia que me diz que estou envelhecendo, que o futuro já é passado, onde o agradecimento e o pedido de desculpa estão soberanamente misturados.
Publicado no jornal Zero Hora
Donna, p.28
Porto Alegre (RS), 22/02/2015 Edição N°18081
Os negros que fugiam da escravidão entre os séculos XVI e XIX formavam comunidades denominadas “Quilombos”, nelas podiam exercer livremente sua cultura e garantir a transmissão da mesma às próximas gerações.
O mais famoso deles foi o dos Palmares. Entretanto, apesar do enorme descaso dos governos a tudo que diz respeito a preservação da nossa história, ainda existem muitas comunidades quilombolas que resistem ao tempo.
Na região serrana de Petrópolis – RJ, a cerca de 14 km do centro de Itaipava, sobrevive um grupo de treze famílias de quilombolas na Tapera.
Tive a oportunidade de conhecer um desses descendentes de dezessete anos. Ele trabalha com manutenção de jardins depois que vai à escola. Como os ônibus municipais não chegam até lá, todos que pertencem a comunidade contam com uma pequena van cedida pela prefeitura que os leva e trás para área urbana. Como nem sempre seus horários coincidem, meu conhecido costuma caminhar, feliz, cerca de cinco quilometros até a chácara no Vale da Boa Esperança e, com sorte, às vezes tem carona de volta.
Um dia eu e minha família resolvemos visitá-lo.
Para chegar lá, passamos por uma estrada de asfalto por dentro de um condomínio de casas de veraneio, onde alguns deste quilombolas trabalham. Depois ainda fizemos mais três quilometros em estrada de terra para finalmente chegarmos.
Na tragédia recente das enchentes nesta região, a Tapera original foi levada pelas chuvas e todas as famílias, depois de perderem tudo, tiveram que ser realocadas temporariamente em outro local até que, finalmente há um ano, puderam voltar a seu antigo lar com suas casas reconstruídas, em acabamento de PVC, pela prefeitura.
Quando chegamos, mal pude crer nos meus olhos. O lugar parecia saído de um livro. Shangrilá ! Todos vieram ver quem eram os estranhos, uma vez que não costumam receber visitantes.
Tudo tão limpo, organizado, lindas hortas e pessoas sorridentes.
Meu conhecido mal acreditava que estávamos ali e parecia tão espantado quanto nós.
Andamos um pouco enquanto ele nos contava algumas histórias do lugar.
Lá todos falam muito pouco e baixo. Quem fala alto por ali é a natureza exuberante e todos são bons ouvintes. São sobretudo observadores, com exceção da sua irmã que ficou muito curiosa ao ver o celular da minha filha, o que o deixou visivelmente incomodado, até ele pedir para que ela devolvesse dizendo: Para com isso ! É só um celular ! Nunca viu ? Devolva !
Tiramos fotos e, ingenuamente, perguntei a ele se gostaria de sair dali um dia, afinal de contas, ele passa as tardes convivendo com realidades opostas a sua, mas, ao invés de me responder, me questionou por que ele sairia, me dizendo que era muito feliz ali.
E me perguntei depois “Por que” ?
Alimentamos a crença de que necessitamos de tanto. Passamos a vida desperdiçando e esbanjando tempo, alimentos, coisas e a própria vida em busca de objetos e bens de consumo que nos preencham o vazio e nos tirem do nosso próprio abandono.
Distanciados da nossa origem, não chegamos a compreender o que para eles sempre foi óbvio. Nos tornamos insensíveis a tudo o que é natural, aos animais, as plantas, a vida e a morte. Ali, nada disso causa estranheza.
Criamos as chamadas “cidades” frias, cinzas, sem alma, fedidas e barulhentas que nos ferem, maltratam e até matam diariamente e aceitamos “isto” como natural.
Sapos, gambás e grilos, raros de se encontrar nesses “paraísos” de concreto, são vistos com horror, como se fossem alienígenas. Muitos de nós, nunca comemos almeirão, acelga ou taioba, mas passam a vida produzindo lixo e se envenenando com toneladas de comida industrializada dos supermercados.
A comida deles vem direto da terra e as plantas são, na maioria das vezes, seus remédios. Não se interessam em consumir bens, parecem preenchidos. Entendem que são parceiros da natureza e que estão aqui de passagem.
Não são ignorantes nem alienados. São sábios. Possuem algo que já perdemos, o contato com a divino, com a vida.
A luz só chegou há três anos, trazendo muito mais conforto ao dia a dia deles, mas ninguém lamenta a falta dela no passado.
A comunidade é organizada e tem um líder que esta sempre em busca de melhorias. Estão construindo um pequeno centro para a produção de artesanato, festas culturais, além da disponibilização de computadores a comunidade para acesso a internet.
Foi um dia maravilhoso que nos lembrou que a vida que conhecemos é pura ilusão.
Imagem da plantação da comunidade Quilombola da serra do Rio de Janeiro. Foto Miranda Ryan
Nota da Contioutra: A imagem de capa da matéria foi usada apenas para ilustrar o tema, não representando a comunidade da Serra do Rio de Janeiro: Fonte.
Como médico cancerologista, já calejado com longos 29 anos de atuação profissional, posso afirmar que cresci e modifiquei-me com os dramas vivenciados pelos meus pacientes. Não conhecemos nossa verdadeira dimensão até que, pegos pela adversidade, descobrimos que somos capazes de ir muito mais além.
Recordo-me com emoção do Hospital do Câncer de Pernambuco, onde dei meus primeiros passos como profissional… Comecei a frequentar a enfermaria infantil e apaixonei-me pela oncopediatria.
Vivenciei os dramas dos meus pacientes, crianças vítimas inocentes do câncer. Com o nascimento da minha primeira filha, comecei a me acovardar ao ver o sofrimento das crianças.
Até o dia em que um anjo passou por mim! Meu anjo veio na forma de uma criança já com 11 anos, calejada por dois longos anos de tratamentos diversos, manipulações, injeções e todos os desconfortos trazidos pelos programas químicos e radioterapias. Mas nunca vi o pequeno anjo fraquejar. Vi-a chorar muitas vezes; também vi medo em seus olhinhos; porém, isso é humano!
Um dia, cheguei ao hospital cedinho e encontrei meu anjo sozinho no quarto. Perguntei pela mãe. A resposta que recebi, ainda hoje, não consigo contar sem vivenciar profunda emoção.
— Tio, disse-me ela — às vezes minha mãe sai do quarto para chorar escondido nos corredores… Quando eu morrer, acho que ela vai ficar com muita saudade. Mas, eu não tenho medo de morrer, tio. Eu não nasci para esta vida!
Indaguei: — E o que morte representa para você, minha querida?
– Olha tio, quando a gente é pequena, às vezes, vamos dormir na cama do nosso pai e, no outro dia, acordamos em nossa própria cama, não é? (Lembrei das minhas filhas, na época crianças de 6 e 2 anos, com elas, eu procedia exatamente assim.) É isso mesmo.
– Um dia eu vou dormir e o meu Pai vem me buscar. Vou acordar na casa Dele, na minha vida verdadeira!
Fiquei “entupigaitado”, não sabia o que dizer. Chocado com a maturidade com que o sofrimento acelerou, a visão e a espiritualidade daquela criança.
– E minha mãe vai ficar com saudades – emendou ela.
Emocionado, contendo uma lágrima e um soluço, perguntei:
– E o que saudade significa para você, minha querida?
– Saudade é o amor que fica!
Hoje, aos 53 anos de idade, desafio qualquer um a dar uma definição melhor, mais direta e simples para a palavra saudade: é o amor que fica!
Meu anjinho já se foi, há longos anos. Mas, deixou-me uma grande lição que ajudou a melhorar a minha vida, a tentar ser mais humano e carinhoso com meus doentes, a repensar meus valores. Quando a noite chega, se o céu está limpo e vejo uma estrela, chamo pelo “meu anjo”, que brilha e resplandece no céu.
Imagino ser ela uma fulgurante estrela em sua nova e eterna casa.
Obrigado anjinho, pela vida bonita que teve, pelas lições que me ensinaste, pela ajuda que me deste. Que bom que existe saudade! Oamor que ficou é eterno.
Na minha aldeia, a culpa era casada e tinha filhos. Todos com cara de culpa. A carga devia ser enorme porque caminhava carregada sob o peso de imaginários dedos estendidos na sua direcção e como mãe e culpada encontrava na comida uma forma de sobreviver atrás das panelas a cozinhar sentimentos para os filhos e os outros comerem. Um misto de culpa e ressentimento desenhava na sua cara mapas antigos de difícil leitura, sobrecarregados com os sinais do pecado em amarelo e ocre por entre as rugas.
A felicidade e alegria com que todos nós, os outros, teimávamos em incendiar as ruas da aldeia estavam arredias da casa da culpa, dos filhos da culpa e dos animais do quintal, sempre mais magros e ferozes do que os nossos. Nós éramos donos de um manual de avaliação que nos era fornecido em casa e a partir dele partíamos para a conquista do mundo usando os filhos da culpa como nossos serviçais, ou escravos, melhor dizendo. Se queriam brincar tinham que cumprir as regras que eram básicas mas importantes na distribuição das tarefas pesadas de bestas de carga à debulha do milho. Sujeitos e agentes das boas intenções, aplicávamos sem remédio as receitas da casa: os culpados tinham que expiar e arcar com todas as dificuldades. Nossa liberdade era assim interminável, eles, os nossos avessos estavam sempre presentes para nos fazer atravessar o conflito num mundo a várias dimensões onde tudo – actos, delações, desejos podiam ser sempre iluminados pela culpa dos outros.
A nossa conduta, como a dos nossos pais, era sempre a ideal, se comparada com a vida da culpa, seus filhos, seus animais e sua sagrada submissão aos princípios de subir o mundo sob o juízo dos outros. Os princípios que regiam as nossas casas ficavam lá dentro, rigorosa e severamente ordenados pela mãe, pelas avós presentes e nos casos mais graves pelo pai, que de vez em quando aparecia. As nossas mães faziam um rol das culpas e quando o pai chegava éramos chamados um a um para cumprir um castigo. Vivíamos num mundo a duas morais: a de dentro (guardada a sete chaves pela família) e a de fora, onde só se via a culpa, sua casa, seus filhos e animais. Também ela não parecia incomodar-se, tão ocupada andava a fazer comida para os seus filhos e animais, a cuidar da casa para a proteger da chuva, das pragas, dos animais e dos filhos. Não tinha tempo para pensar no mal de viver e assumia bem (em nosso entender) os dedos estendidos do resto da aldeia, bem como o lugar no fundo da igreja que lhe estava reservado. Nunca nos ocorreu perguntar de onde ela vinha, que parentes do lado esquerdo da vida lhe tinham determinado o percurso. Também se alguém tentava, os olhos da avó ficavam compridos como se houvesse um pacto alargado pela culpa que a todos servia.
Para lá da luz crua do silêncio circulava uma história da morte de homem e marido com uma faca e de uma confissão (“sete vidas ele tivesse”) que implicaram degredo e uma vida nova enquanto culpa e transmissora desse sentimento à casa, seus filhos e seus animais.
Nunca lhe percebemos vergonha, mas sim a ideia de cumprir um serviço público – o de ser a eterna culpa dos outros, casada e com filhos.
Ana Paula Tavares
Poetisa e historiadora nascida em Lubango, na província de Huila, em 1952. Obteve o grau de Mestre em Literaturas Africanas pela Universidade de Lisboa.
Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta.
O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar.
Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais.
Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca.
Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera.
Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco.
Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina Natal e ela detesta o Ano Novo, nem no ódio vocês combinam. Então?
Então, que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante do que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome.
Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário. Ele não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro, e é meio galinha. Ele não tem a menor vocação para príncipe encantado e ainda assim você não consegue despachá-lo.
Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita na boca, adora animais e escreve poemas. Por que você ama este cara?
Não pergunte pra mim; você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem seu valor.
É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucura por computador e seu fettucine ao pesto é imbatível.
Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Com um currículo desse, criatura, por que está sem um amor?
Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados.
Não funciona assim.
Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível.
Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó!
Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é! Pense nisso. Pedir é a maneira mais eficaz de merecer. É a contingência maior de quem precisa.”
Martha Medeiros é jornalista e escritora brasileira
“Antigamente, não havia senão noite e Deus pastoreava as estrelas no céu. Quando lhes dava mais alimento elas engordavam e a sua pança abarrotava de luz. Nesse tempo, todas as estrelas comiam, todas luziam de igual alegria. Os dias ainda não haviam nascido e, por isso, o Tempo caminhava com uma perna só. E tudo era tão lento no infinito firmamento!
Até que, no rebanho do pastor, nasceu uma estrela com ganância de ser maior que todas as outras. Essa estrela chamava-se Sol e cedo se apropriou dos pastos celestiais, expulsando para longe as outras estrelas que começaram a definhar.
Pela primeira vez houve estrelas que penaram e, magrinhas, foram engolidas pelo escuro. Mais e mais o Sol ostentava grandeza, vaidoso dos seus domínios e do seu nome tão masculino. Ele, então, se intitulou patrão de todos os astros, assumindo arrogâncias de centro do Universo. Não tardou a proclamar que ele é que tinha criado Deus.
O que sucedeu, na verdade, é que, com o Sol, assim soberano e imenso, tinha nascido o Dia. A Noite só se atrevia a aproximar-se quando o Sol, cansado, se ia deitar. Com o Dia, os homens esqueceram-se dos tempos infinitos em que todas as estrelas brilhavam de igual felicidade. E esqueceram a lição da Noite que sempre tinha sido rainha sem nunca ter que reinar.”
Essa é talvez uma das frases mais marcantes na infância de crianças. Pelo menos para aquelas em que os pais se dão ao trabalho e prezam pelo momento precioso da leitura. O negócio é que muita gente achava que isso era só um carinho a mais – quando, na verdade, este é um hábito fundamental no processo de alfabetização dos pequenos, de acordo com uma nova pesquisa.
A importância de contar histórias durante a infância
Cerca de dois terços das crianças de seis anos desfrutam de histórias antes de dormir ou de outra leitura recreativa com o acompanhamento de um adulto. Mas isso cai para 44% entre as crianças que são apenas um ano mais velhas. E quando as crianças vão para 8 e 9 anos de idade, metade já lê raramente (ou nunca) em casa. Isso porque mães e pais entendem que a sua ajuda já não é mais necessária.
No entanto, especialistas disseram que continuar essa leitura acompanhada por prazer durante a escola primária é “vital” para o desenvolvimento das crianças. Tanto por motivos de alfabetização quanto pelo desenvolvimento do gosto pela leitura, já que quase metade dos jovens leitores que se dizem “relutantes” a leitura também afirmaram que iriam gostar de ler mais se seus pais se sentassem e dividissem esse momento com eles. #FicaDica
Os pais estão estressados DEMAIS para lerem para seus filhos
De acordo com uma pesquisa divulgada recentemente pela loja virtual de livros infantis Littlewoods.com, mais de nove em cada dez pais disseram que liam muitas histórias acompanhados de seus respectivos pais. Isso é quase 100% dos pesquisados.
Mas, em contrapartida, muitos desses pais também admitiram que muitas vezes estão ocupados ou estressados demais para fazer o mesmo para os seus filhos, ou (por algum motivo) entendem que as crianças preferem assistir televisão ou jogar jogos de computador ao invés de se deliciarem com uma boa história.
A pesquisa adicional feita pelo The National Literacy Trust, uma entidade sem fins lucrativos do Reino Unido que tem a proposta de “transformar vidas por meio de histórias”, descobriu que alunos são 13 vezes mais propensos a ler acima do nível esperado para a sua idade, se eles simplesmente verem os livros como uma forma de lazer.
Os pais são modelos de leitura realmente importantes, e o que essa pesquisa mostra é justamente que as atitudes das crianças quanto à leitura melhoram conforme elas veem seus pais lendo. Por isso, essa ONG incentiva que todos os pais encontrem tempo para desfrutar de um bom livro.
Outros resultados, apresentados por uma pesquisa realizada pela Universidade Oxford Press, seguem a mesma linha e afirma que as crianças que leem por prazer são mais propensas a se saírem bem na escola e prosperar no local de trabalho anos depois.
E é por isso que…
Os pais precisam entender o enorme impacto que a leitura com os filhos pode ter e como é vital que a leitura por prazer não fique entre os muros da escola, mas também continue em casa.
Quanto tempo de leitura com os filhos é recomendado?
Os pesquisadores dizem que apenas DEZ MINUTOS de leitura com seu filho todos os dias é uma das melhores maneiras de apoiar a sua educação. Parece um esforço mínimo, não?
Eles também afirmam que ter um momento de leitura junto com os filhos por seis dias por semana, o que daria em um investimento de 1 hora por semana mais ou menos, é definitivamente mais barato do que uma hora com um tutor – seja ele o cara mais competente do mundo. [dailymail, hypescience]
Cena do filme “Um Sonho Possível” (The Blind Side), protagonizado por Sandra Bullock . O filme conta a verdadeira história do jogador de futebol americano Michael Oher (Quinton Aaron).
Já não tenho paciência para algumas coisas, não porque me tenha tornado arrogante, mas simplesmente porque cheguei a um ponto da minha vida em que não me apetece perder mais tempo com aquilo que me desagrada ou fere.
Já não tenho pachorra para cinismo, críticas em excesso e exigências de qualquer natureza.
Perdi a vontade de agradar a quem não agrado, de amar quem não me ama, de sorrir para quem …quer retirar-me o sorriso.
Já não dedico um minuto que seja a quem me mente ou quer manipular. Decidi não conviver mais com pretensiosismo, hipocrisia, desonestidade e elogios baratos. Já não consigo tolerar eruditismo selectivo e altivez académica.
Não compactuo mais com bairrismo ou coscuvilhice. Não suporto conflitos e comparações. Acredito num mundo de opostos e por isso evito pessoas de carácter rígido e inflexível. Na Amizade desagrada-me a falta de lealdade e a traição.
Não lido nada bem com quem não sabe elogiar ou incentivar.
Os exageros aborrecem-me e tenho dificuldade em aceitar quem não gosta de animais.
E acima de tudo já não tenho paciência nenhuma para quem não merece a minha paciência.
Muitos, nos dias de hoje, andam desacreditados no que se refere ao amor. Trouxemos, então, 10 motivos para você se apaixonar!
1. Apaixonar-se faz com que você fique mais bonito.
Quem se apaixona se cuida mais, se ama mais… Você terá aquele brilho nos olhos e sorrirá muito mais vezes. Isso tudo adorna o seu rosto e faz com que você irradie algo especial.
2. Apaixonar-se faz com que você se concentre na felicidade.
Focado na felicidade amorosa, você dará mais atenção ao que lhe faz bem, afastando-se de pensamentos sombrios e negativos.
3. Apaixonar-se melhora as suas finanças. (E eu pensei que era justamente o contrário…)
Obviamente, se você se comprometer com alguém milionário, isso é verdade. Mas, se não, os estudos mostram que, a longo prazo, os que estão em um relacionamento estável e duradouro têm melhores finanças do que aqueles que caminham sozinhos.
4. Apaixonar-se melhora a sua saúde.
Para começar, o apaixonado se preocupa mais com sua aparência física. É que o amor faz com que você preste mais atenção à sua saúde e se esforce para ser mais saudável; isso não só para si, mas também para a pessoa que você ama.
5. Apaixonar-se o torna mais sensível.
Você fica mais receptivo às novas emoções. Se antes as comédias românticas lhe causavam até arrepios de horror, agora você pode ter empatia por essas histórias. E o mesmo vale para poemas e todos os tipos de “canções de amor”.
E isso é bom! Você estará mais aberto a diversas emoções e poderá desfrutar de mais momentos e alegrias saboreando a intensidade desses sentimentos.
6. Apaixonar-se o faz mais forte
Você se fortalece em vários sentidos. Em primeiro lugar, como já dissemos, as pessoas que se apaixonam se preocupam e se dedicam mais.
Em segundo lugar, o caminho do amor verdadeiro é cheio de tensões: discussões, desentendimentos, problemas com sogros, etc. Superar cada um desses obstáculos e manter o relacionamento vivo exige esforço. E tudo isso fortalece o nosso emocional.
E, fisicamente, em terceiro lugar, o sexo nos fortalece e nos mantém em forma.
7. Apaixonar-se faz você mais sábio.
O convívio diário faz com que você pense e repense, frequentemente, as suas teorias, desejos e conceitos, sopesando o que o outro também quer, pensa e diz. Essa interação nos torna mais sábios.
8. Apaixonar-se faz você mais responsável.
Ao apaixonar-se, você quer fazer tudo o que puder para o bem do casal. Quer cuidar de suas finanças. Faz com que você se importe com parentes seus e do outro. Você fica mais atendo às atividades domésticas …
O amor também tem este aspecto: leva a fazer “mais” do que antes.
9. Apaixonar-se o torna mais criativo.
Quando você está apaixonado, você encontra maneiras incomuns para surpreender o seu parceiro e mostrar-lhe o quanto você o ama. Você pode fazer coisas que você nunca teria imaginado.
E a melhor parte é que, embora seja muitas vezes até difícil a tarefa de inovar e surpreender, você faz isso com alegria.
10. Apaixonar-se faz você mais feliz.
Quando você está com a pessoa que você ama, o que você sente? nada do que foi dito acima? Não importa, o mais importante é que você seja capaz de perceber suas próprias mudanças,. Assim você verá que todo o trabalho, todo o tempo gasto e toda a criatividade valeram a pena quando você está ao lado de quem você ama.
Você estará mais feliz, rindo mais, fazendo coisas impensadas e loucas, brincando e, acima de tudo, será uma pessoa positiva enquanto sonha e faz planos para um futuro a dois.
O grande problema do Oscar é ter se tornado, aos olhos do mundo, o símbolo maior de tudo o que representa o cinema. Na realidade, a premiação não diz quase nada sobre a beleza da Sétima Arte. O brasileiro, aquele que não valoriza cinema como algo mais que entretenimento fútil, aproveita a farra que antecede o evento, participa de bolões, chega até a discutir sobre os filmes indicados. No dia da cerimônia, na falta de estofo cultural sobre o tema, ele perde mais tempo analisando os vestidos no tapete vermelho, as gafes cometidas, a plástica no rosto da atriz, os memes, enfim, tudo o que não é cinema. Quase sempre, sem nenhum interesse, dorme antes da metade da exibição. O tema já perdeu o valor que havia como status de elegância, é assunto de ontem, não irá nem comentar no trabalho. A Sétima Arte volta a ser, para esse brasileiro, simples futilidade que ele adquire nas bancas dos camelôs, para assistir quando não tiver nada melhor na televisão, entretenimento inofensivo para passar o tempo, enquanto aguarda a chuva estiar. Um longo ano irá se passar até que ele volte a se interessar por aquilo.
O brasileiro que trata o cinema exatamente como lida com a política. Em época de eleição, ele se torna politizado, discute o tema nas rodas sociais, esbraveja seus direitos, quase sempre se esquecendo dos deveres. Na falta de estofo cultural sobre o tema, embarca em qualquer teoria de conspiração compartilhada nas redes sociais, fazendo piada com a roupa dos políticos, com as deficiências físicas, enfim, tudo o que não é política. Assim que pressiona o botão da urna, aquilo já se tornou assunto de ontem. Ele volta então a programar seu cérebro para o senso comum: todo político não presta; motivo que o leva a não ler absolutamente nada sobre o tema durante o longo ano.
Claro que o ignorante político é tremendamente mais danoso à nação que o ignorante cinematográfico, porém, o segundo é sintomático de uma das causas que levam à criação do primeiro: o total desinteresse pela cultura, a satisfação com o raso e a priorização do “ter”, ao invés do “ser”. Cultura é fundamental no forjar de um cidadão consciente. Como querer um povo politizado, quando ele não lê, não se importa com cinema, só gosta de farra, não é pontual e só pensa em levar vantagem em tudo? Não adianta pensar em modificar governos, quando o cidadão não modifica suas atitudes diárias. O reflexo no espelho será sempre fiel ao monstro que se posiciona na frente dele. Ame a cultura, aprimore o “ser”, estude a memória da Sétima Arte, leia os grandes pensadores, acaricie sua mente com a mesma dedicação que o faz pagar altas somas nas academias de ginástica. O corpo se esvai rápido, o conhecimento se mantém e pode ser transmitido, eternizando-se em seus filhos, seus netos, seus amigos. Aprendi isso com o cinema.
Nota da Conti outra: o texto acima foi publicado com a autorização do autor.
O Poderoso Chefão (1972)
Octavio Caruso
Carioca, apaixonado pela Sétima Arte. Ator, autor do livro “Devo Tudo ao Cinema”, roteirista, já dirigiu uma peça, curtas e está na pré-produção de seu primeiro longa. Crítico de cinema, tendo escrito para alguns veículos, como o extinto “cinema.com”, “Omelete” e, atualmente, “criticos.com.br”, além de uma coluna social no site da jornalista Anna Ramalho, do JB. Membro da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro, sendo, consequentemente, parte da Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica.
Publicado pela Schmidt Editora no ano de 1933, O Caminho para a Distância é a primeira obra do Poetinha. Aqui os poemas do jovem Vinicius giram em torno de suas influências intelectuais iniciais. Os versos indicam a alma do poeta no encontro com seus dramas. Ainda de maneira tímida, porém de fina qualidade, surgia um dos maiores nomes da poesia brasileira pelo mundo.
O poema Rua da Amargura se destaca no livro, pela trama desenvolvida envolvendo os moradores e uma rua marcada por uma climática tensa.
Rua da Amargura
Vinicius de Moraes
A minha rua é longa e silenciosa como um caminho que foge
E tem casas baixas que ficam me espiando de noite
Quando a minha angústia passa olhando o alto.
A minha rua tem avenidas escuras e feias
De onde saem papéis velhos correndo com medo do vento
E gemidos de pessoas que estão eternamente à morte.
A minha rua tem gatos que não fogem e cães que não ladram
Tem árvores grandes que tremem na noite silente
Fugindo as grandes sombras dos pés aterrados
. A minha rua é soturna…
Na capela da igreja há sempre uma voz que murmura louvemos
Sozinha e prostrada diante da imagem
Sem medo das costas que a vaga penumbra apunhala.
A minha rua tem um lampião apagado
Na frente da casa onde a filha matou o pai
Porque não queria ser dele.
No escuro da casa só brilha uma chapa gritando quarenta.
A minha rua é a expiação de grandes pecados
De homens ferozes perdendo meninas pequenas
De meninas pequenas levando ventres inchados
De ventres inchados que vão perder meninas pequenas.
É a rua da gata louca que mia buscando os filhinhos nas portas das casas
É a impossibilidade de fuga diante da vida
É o pecado e a desolação do pecado
É a aceitação da tragédia e a indiferença ao degredo
Como negação do aniquilamento.
É uma rua como tantas outras
Com o mesmo ar feliz de dia e o mesmo desencontro de noite.
É a rua por onde eu passo a minha angústia
Ouvindo os ruídos subterrâneos como ecos de prazeres inacabados.
No meu tempo de criança, os pais eram pessoas esforçadas pelo sustento da família. Com ostentação ou sem, as pessoas eram mais preocupadas com o trabalho do que com ser feliz. Talvez por isso, já que filhos querem sempre fazer tudo diferente dos pais, agora todo mundo quer fazer o filho feliz, acima de tudo. Isso explica os valores escandalosos que se paga hoje em dia por uma festa de aniversário, a quantidade de brinquedos que as crianças têm e o número enorme de brasileiros indo para a Disney, às vezes para passar o final de semana. Claro que existe a culpa de muitos pais que trabalham demais e tentam compensar os filhos de alguma forma. Mas reflexo da culpa ou não, as crianças de agora nasceram para ser felizes. Será que está certo isso?
Vamos lembrar da nossa infância. Eu pelo menos, era muito feliz. Brincando com minha amiga que morava na casa ao lado, passávamos horas penteando o cabelo uma da outra, ou fazendo comidinha com as plantas do jardim. A maior aventura de que me recordo era brincar de pega-pega com o meu cachorro. Muito básico para você? Acontece que meu cachorro se transformava em uma onça que na verdade era uma Medusa, então em um simples olhar, ele poderia nos transformar em pedras. Por isso estávamos sempre equipadas com frascos vazios de shampoo cheios de água que explodiam como granadas quando caiam no chão. Pois é, criança vem com imaginação de berço. Por isso não precisa ir até Orlando ver os espetáculos de fogos de artifício para ficar maravilhada. Aliás, cá entre nós, já estive na Disney 3 vezes (2 em Orlando e 1 em Paris) e nunca vi tanta criança triste em um parque. Chorando, cansadas, angustiadas, com as mães e os familiares estressados. Claro, já viu o tamanho do lugar? E a quantidade de informação? E de sorrisos maquiados, brilhos, alegria explosiva? Gente, somos humanos. Isso não é um filme. É vida real. Não somos super heróis, nem princesas. Seu filho vai comer aquela salsicha processada junto com aquele pão velho de uma lanchonete linda com várias coisas girando, e pode ser que passe mal. E ai? Não! Não pode passar mal na Disney. Tem que curtir. Tem que ser feliz.
Eu trabalhei para a Disney traduzindo todos os materiais para português durante 4 anos. Sou encantada com a empresa e com o negócio em si, gosto de ir porque moro a 300 quilômetros de distância, temos o passe anual então é um programa barato em um lugar super organizado e bonito na maioria das vezes. Só estou usando de exemplo porque sei que é uma viagem muito cara para se fazer do Brasil mas isso não está impedindo cada vez mais brasileiros de fazerem. Minha pergunta usando este exemplo é: será que precisamos fazer tanto pelos nossos filhos? (Viagem de 8 horas de avião, filas intermináveis, kilômetros e mais kilômetros de parque de diversão) Eu suponho que não. E que está errado os pais sentirem que são responsáveis por fazer dos filhos, pessoas felizes. De onde tiramos essa ideia maluca?
O que eles precisam na verdade é de adultos para educá-los. E como adultos é claro que estamos ocupados. Com a família, com o trabalho, com as funções da casa. Se nessa lista se somar “a felicidade do(s) meu(s) filho(s)” alguém vai ficar muito sobrecarregado e frustado. Talvez seu filho, talvez você, talvez todo mundo. É chato tentar e não conseguir. Já pensou como sente os pais que pagaram a viagem em 6 vezes, passaram 8 horas na lata de sardinha, mais 1 hora em um brinquedo se o filho sair do brinquedo chorando?
Uma vez eu li o livro Encantador de Cães e fiquei fascinada com o raciocínio simples que o genial Cesar Millan escreve ali. Ele diz que cães só vão obedecer quem eles respeitam. E para ganhar respeito, é preciso ser a autoridade, é preciso colocar ordem antes do amor. Agora tente trocar a palavra “cães” por “filhos”, dá no mesmo. Autoridade é o contrário de democracia. Os pais não podem estar sempre abertos “o que querem comer, o que vamos fazer hoje, onde vamos passar as férias”. Entende como é complicado para a criança ouvir isso? Sentir que não existe uma ordem. Ela no auge dos seus 4 anos (ou por volta disso) é que precisa saber, querer e lidar com seus desejos. Meu Deus, está tudo errado ai. No meu tempo de criança, minha mãe interrompia a brincadeira trazendo uma bandeja com uma limonada fresca e biscoitos Maria. Sempre que lembro dessa cena (que aconteceu várias vezes) ela aparece iluminada como uma fada. O que eu sentia era: Nossa, ela é mágica! Como ela sabe que estamos com fome e com sede? Teria sido bem diferente se ela tivesse aparecido e perguntado: querem lanchar? vão querer sorvete ou pode ser biscoito mesmo? Estava pensando em fazer uma limonada, vocês vão beber? Ou é melhor eu trazer um suco de uva?
Infelizmente não estou escrevendo isso porque já aprendi a lição depois de ler o livro. Estou tentando aprender. E só estou escrevendo sobre isso porque descobri que tenho errado bastante. Desde que nos mudamos para Miami, fico com pena e compaixão por qualquer expressão de sofrimento que meus filhos tenham. Porque sei que é difícil para eles. E até esqueço que é difícil também para mim. Minha vida mudou completamente. Mas nem lembro disso. Só penso neles. A consequência? Minha filha de 4 anos cada dia faz uma coisa para me irritar. E então percebi que ela está fazendo isso porque eu estou irritando ela. E porque? Porque estou aberta todos os dias para ouvir, para entender o lado dela. Não parece errado à princípio, certo? Mas está errado. Criança precisa de adulto, alguém que tenha um norte, e ela acompanha o caminho, se frustando, entendendo seus limites e entendendo, porque não, que a vida não é um parque de diversões cheio de pessoas fantasiadas sorrindo para você o dia todo. A vida é para evoluir. Vamos tentar evoluir como pais antes que eles cresçam. Já pensou como deve ser frustante a adolescência de uma criança que sempre teve uma, duas, ou mais pessoas prontas a atender seus pedidos? Como deve ser difícil perder para um adulto que passou a infância sempre ganhando? Nem que a custa de 12 sofridas prestações para os pais?
Educar dá mais trabalho do que servir o sorvete antes do jantar, já que seu filho está querendo tanto. Educar envolve mais compromisso do que pagar as 6 parcelas da viagem mágica. Educar é coisa de gente grande. Deve ser por isso que crianças não podem ter filhos. Porque filhos precisam de adultos. Parece que esse é o grande problema da minha geração, não queremos ser adultos. Outro dia vi um post sobre a crise dos 25 anos. Levei o maior susto! A maioria das pessoas que conheço estão nessa crise aos 35 (ou mais). Está na hora de dar esse passo. Parar de focar só na diversão e na felicidade e evoluir, amadurecer. Todo grande passo na vida acontece quando a gente faz aquilo que é desconfortável. Já aprendemos muito sobre diversão e entretenimento, que tal agora aprender a viver?