Não te desejo todos os presentes do mundo.
Apenas te desejo aquilo que mais falta faz:
Desejo-te tempo para rires e seres feliz,
e, se ajudar, para dares também algo em troca.
Desejo-te tempo para ações e pensamentos,
não só para ti, mas também para os outros.
Desejo-te tempo, não para pressas e correrias,
mas tempo para que brote a verdadeira felicidade.
Desejo-te tempo, não apenas para esbanjares.
Desejo que os teus dias transbordem
de momentos maravilhosos e de confiança absoluta,
em vez de te fixares na lentidão dos ponteiros do relógio.
Desejo-te tempo para alcançares as estrelas,
e tempo para cresceres, para atingires a plenitude.
Desejo-te tempo para novas esperanças, para viver.
Pois não adianta deixar esse tempo para depois.
Desejo-te tempo para descobrires
felicidade em cada hora, em cada dia.
Desejo-te tempo e até pessoas para perdoar.
Desejo simplesmente que tenhas tempo para viver.
A artista plástica portuguesa Maria Rita esbanja delicadeza em suas obras. Em seu atelier, em Minde, utiliza-se de diversos matérias e técnicas para dar dimensões aos seus mais variados sonhos.
Abaixo alguns exemplos de seu trabalho da coleção Lolitas. Para ver mais trabalhos e saber mais, visite seu site.
Poesia através de parafusos: Um ferreiro evoca formas surpreendentemente humanas utilizando-se de parafusos. O Ferreiro e fotógrafo norueguês Tobbe Malm consegue criar esculturas extraordinariamente emocionantes usando parafusos antigos.
A matéria do jornal informa que um grupo de cientistas americanos se debruçou sobre as respostas dadas à pergunta “Quanto tempo dura o amor?”. A pesquisa, realizada na Universidade de Wisconsin, ouviu moradores de 10 mil casas. Conclusão definitiva do estudo: o amor dura, no máximo, três anos. Determinada, portanto, a data de validade do deslumbramento, da paixão. Passada esta fase, garantem os cientistas, o arrebatamento dos primeiros meses se transforma em carinho, amizade, respeito, em qualquer outra coisa.
Lentamente, a ciência tenta derrubar as fronteiras entre a realidade objetiva e a alma. Há muito se canta este sentimento em prosa e verso; vãs tentativas de lhe dar sentido. Agora, colocado sob a lupa científica, ele recebe uma data de validade. Ultrapassada tal data, o “que não tem receita, nem nunca terá” corre o risco de embolorar, mofar.
Vivemos sob a ditadura das estatísticas e dos rankings. Hoje, uma partida de futebol ou um esporte qualquer é analisada à luz dos números. Na academia, o desempenho do docente ou pesquisador é medido pelo número de trabalhos publicados, pela quantidade de congressos de que participou. É a chamada “produtividade”. Você pode ser brilhante; se não produz, se arrisca a ficar fora do jogo.
Curiosa, a precisão da ciência ao determinar este período. O cara ou a garota fazem de tudo para a coisa dar certo, até que um dia deparam com o prazo categórico do cientista: três anos. Encontros tórridos, com troca de presentes e juras de amor podem se estender por mil e poucas noites, se tanto. Terminado este período, segundo os cientistas, a vida do casal será invadida pelo bafo quente da rotina.
Suponho que a geração atual esteja mais sossegada, neste sentido. Seguindo um carpe diem instintivo, talvez simplesmente namorem, e deixem rolar. Há quem opte por ficar – verbo recente em nosso léxico afetivo. Eu só fico curioso em saber a faixa etária de quem elabora esse tipo de pesquisa; saber mais sobre o perfil do leitor que realmente dá trela a tais conclusões científicas.
Em que medida a ansiedade e o medo de perder o parceiro são produtos da indústria de Hollywood, e de seus mitos do amor romântico?, talvez valha a pena perguntar. Afinal, sem o ideal do amor romântico, a indústria do cinema e da canção popular que se alimenta de temas como a ausência da pessoa amada, a dor de cotovelo e a “fossa”, simplesmente entraria em colapso.
Determinar a duração deste sentimento indefinível me soa como uma das muitas pretensões do ego. De tudo que já li sobre o amor, guardo o eco de uma frase de J. Krishnamurti, que provocou em mim uma ressonância de catedral. Não lembro as palavras exatas, mas a essência é esta: você é realmente capaz de amar alguém somente quando consegue eliminar da memória qualquer vestígio do passado desta pessoa. Endosso, e vou além: quando se livra de toda e qualquer ideia pré-concebida, de todos os preconceitos, da imagem cristalizada deste indivíduo, formada a partir de atitudes e comportamento do passado.
Ora, na medida em que o passado é constantemente destruído para ceder espaço ao amor, a própria concepção de tempo perde o sentido – o que, consequentemente, invalida este tal estudo científico. Assim, o verdadeiro amor nasce da intensa experiência do aqui-e-agora, que rompe qualquer vínculo com o passado (arrependimentos, culpa) ou com o futuro (ansiedade, expectativas).
Por trás desta obsessão em medir o tempo de tudo talvez esteja o desejo de controlar o curso dos acontecimentos, de atribuir alguma lógica às coisas do coração. A tentativa de explicar e dar sentido à vida e aos sentimentos traz uma sensação (ilusória) de segurança. Sensação que leva à preocupação com a estabilidade no emprego, o plano de saúde, o seguro de vida, a aposentadoria, e, por fim, com o tipo de jazigo. Basta saber quanta energia física e mental vale a pena investir neste processo. Pois a vida – corda bamba de riscos e aventuras – costuma ignorar planejamentos e qualquer tipo de certeza. E dá razão a Guimarães Rosa: “viver é muito perigoso”.
de olhos brancos
Que sente nos poros
A nascença da humanidade
Vidas do transacto tempo
Que nascem do rio da minha respiração
África sou
Meu pretérito ferido pela escravidão
Meus olhos com sonhos da imensidão
Outrora fustigada pela solidão
Sólida hoje, viva na vida dos meus filhos
África rasgada em lágrimas na então esfera
Renascida e cheia de esperança
Em meu ventre…
frutos da minha perseverança
Sou mãe…
pois ofereço a atmosfera
Bela e cheia de corres da natureza
Colorida de águas, banhada de infância
África de bela beleza
Sou África
Énia Stela Lipanga
Nota da CONTIoutra: O poema acima foi reproduzido com a autorização da autora.
Eu sou mulher, mas não tenho bundão, nem peito durinho nem coxas sem celulite. Eu sou mulher, mas não sirvo para embelezar estádios, para ser candidata a musa de torcida e aparecer em propaganda de cerveja. A minha sensualidade não pode ser vendida como atrativo porque ela está na minha inteligência. Entenda: não é a minha arquitetura que me define e sim a minha biblioteca. Sou mulher, mas a minha existência não gira ao redor da aprovação e da satisfação sexual masculina. Não deixo o mundo mais bonito quando uso uma roupa justa e sim quando falo, quando escrevo e quando trabalho.
Não vou negar que fico feliz quando alguém generosamente me acha bonita. Mas sei que a beleza enxergada o tempo já está levando e, em breve, pouco restará. Portanto, se me alegro quando elogiam a carcaça, regozijo-me quando enaltecem o que produzo intelectualmente: minhas aulas, meus textos e meus filhos.
Sou uma mulher madura pois gargalho por besteira. Sou delicada, não como um jarro de vidro mas tal e qual as manhãs: expulso a escuridão não somente ao colocar um salto alto e um vestido estampado de vez em quando, mas também – e principalmente – quando abro um livro ou a minha mente.
Sou mulher e não sou obrigada, por isso, a ter algum grau de parentesco com a Nossa Senhora. Sou dona de mim e rainha do meu Castelo. Não ostento jóias. Mereço mais profundidades. Sou o pássaro que canta não para comunicar-se e sim para permitir a primavera. De reta fiz-me curva ao olhar diariamente meu reflexo tão refratado e pleno de passados. Estou, paradoxalmente, cada vez mais presa aos que me libertam. Meu corpo carrega a história de tantas outras mulheres. Meu pretérito é imperfeito.
Meu tempo é hoje e ele não se mede por extenso. Mede-se pelas explosões e pela intensidade e complexidade dos momentos.
Um vídeo que nos impacta pelas diferenças culturais, mas por esta mesma razão nos permite uma reflexão!
Uma das principais contribuições de Jung à psicologia, foi defender a ideia de que os símbolos são elementos prospectivos que carregam significados que vão muito além de seu aspecto literal. A Índia é um país com um cultura extremamente rica e complexa na expressão de suas vivências e rituais, portanto, é necessário considerar que a dimensão sagrada, formas e normas da sociedade e o papel social dos gêneros atingem o núcleo da personalidade da pessoa. Desse modo, as peculiaridades femininas e culturais da Índia não devem ser olhadas à nossa medida, mas sim de modo a compreender que tipo de indivíduo deve ser formado para aquela sociedade.
O vídeo num primeiro momento pode parecer assustador e, até mesmo violento para algumas pessoas. Mas a cena consiste num ritual milenar praticado pelas mulheres indianas. Não é apenas um banho, mas uma massagem que coloca a mãe em comunicação com seu bebê. O contato através das mãos, além de estimular a circulação sanguínea, energiza o corpinho no novo Ser e oferece-lhe segurança e tranquilidade.
Se pesquisarmos na internet encontraremos uma Índia cheia de problemas sociais: dependência e submissão extremas das mulheres, pobreza, falta de políticas públicas e tantas outras questões. Num ambiente extremamente hostil, o ritual de banhar os seus bebês pode ser interpretado arquetipicamente como uma capacidade humana de proteção e equilíbrio. No toque das mãos, as almas se conectam!
Além da relação com os bebês, o espaço ritual do grupo de mulheres, se torna o lugar do encontro do individual com o coletivo. Na acolhida de umas com as outras, as mulheres mobilizam as forças curativas da psique, despertando o potencial equilibrador e transformador da vida.
Joseph Campbell, um renomado estudioso da mitologia universal diz que o homem intelectual afasta-se de sua natureza. Este pensamento de Campbell nos leva a pensar o quanto nós do ocidente nos afastamos da natureza, dos rituais e da espiritualidade.
Carlos Byington, um dos principais junguianos do Brasil, contou certa vez em uma de suas aulas que uma determinada tribo indígena rezava todos os dias para que o sol nascesse. Poderíamos pensar: Que tolos índios! O sol não depende deles! Mas esquecemos que o Sol para aquele povo apreendia um significado muito maior, onde se não rezassem para o sol aparecer, passariam um dia sem “Sol”. Era preciso que o “Sol”, nascesse dentro deles para que o Dia pudesse começar.
Tal exemplo nos mostra uma conexão ritual com a natureza e a percepção do Ser de uma maneira mais integrada ao Todo e a tudo que o cerca. A Neurociências, cada vez mais tem abordado a importância da estimulação da relação mãe-bebê para o desenvolvimento afetivo e pleno da criança. Portanto, independente da cultura, esse vídeo nos fala da importância de um toque com significado, que acolhe e prepara o bebê para a vida! O banho deixa de ser um ritual básico da vida diária e se torna um momento significativo na vida do bebê, que irá contribuir para sua formação como pessoa e do seu corpo como sua casa sagrada!
Autoras:
Juliana Pereira dos Santos – Psicóloga, especialista em Psicologia Clínica Junguiana. Aprimoranda em Psicopatologia e Psicologia Simbólica pelo Instituto Sedes Sapientiae e Coach formada pela Sociedade Brasileira de Coaching. CRP: 06/ 108582
Marcela Alice Bianco – Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta Junguiana formada pela UFSCar. Especialista em Psicoterapia de Abordagem Junguiana associada à Técnicas de Trabalho Corporal pelo Sedes Sapientiae. CRP: 06/77338
O simples fato de ouvir música ativa diversas áreas do seu cérebro, mas quando você toca um instrumento a atividade é tão intensa que é como se existissem fogos de artifício em plena explosão. E, como você deve imaginar, todo esse estímulo tem consequências positivas.
Por Anita Collins, animação de Sharon Colman Graham.
Ah, e não se esqueça de ativar as legendas.
“Simbolicamente, estão trocando os alimentos. Alimentar uma criança com comida é alimentá-la com amor e de amor. Alimentá-la com imagens e sons de iPad é alimentá-las de impaciência, falta de respeito, falta de dialogo, falta de interação e principalmente, falta de tédio. A médica fonoaudióloga carioca Maria Lúcia Novaes Menezes fala da quantidade assustadora de crianças que têm recebido em seu consultório com a queixa de não se comunicarem por volta dos 2/3 anos de idade. Ela diz que em 80% dos casos a criança simplesmente não fala porque não recebe estímulos dos pais. Porque não existe dialogo, não existe troca. Existem ipads nas mesas dos restaurantes e com isso crianças que crescem mudas e sem a capacidade de aprender a esperar.”
Criança não espera. Elas enlouquecem a gente até que cedemos e damos algo, literalmente, pra que fiquem quietas. Mas nós adultos já aprendemos a esperar (e aprendemos quando criança). Hoje, nossa espera é vivida. A deles é com o iPad ou a TV na cara ligada – e com som ainda. Pais não sentam mais a mesa num restaurante sem que antes já liguem o desenho para a criança. Muitas vezes colocam o iPad dentro do prato.
Simbolicamente, estão trocando os alimentos. Alimentar uma criança com comida é alimentá-la com amor e de amor. Alimentá-la com imagens e sons de iPad é alimentá-las de impaciência, falta de respeito, falta de dialogo, falta de interação e principalmente, falta de tédio. Porque pode ser extremamente tedioso ficar a mesa “sem fazer nada” esperando a comida chegar. Mas é nessa espera que aprendemos a transformar tédio em algo maior como a conversa com os pais.
Recentemente saiu uma entrevista muito interessante no R7 (que repercutiu pacas em sites e blogs), onde a médica fonoaudióloga carioca Maria Lúcia Novaes Menezes fala da quantidade assustadora de crianças que têm recebido em seu consultório com a queixa de não se comunicarem por volta dos 2/3 anos de idade. Ela diz que em 80% dos casos a criança simplesmente não fala porque não recebe estímulos dos pais. Porque não existe dialogo, não existe troca. Existem ipads nas mesas dos restaurantes e com isso crianças que crescem mudas e sem a capacidade de aprender a esperar.
Aparentemente, tentar agradar toda hora (ou muitas vezes temer o próprio filho) é o primeiro passo pra rejeição. Você tira dele a possiblidade de fazer ninhos, fazer laços. A criança se isola primeiro dos pais e logo mais do restante da família e até mesmo dos amigos. Ela perde, aos poucos, a capacidade de se relacionar e se comunicar. Acredite se quiser, tudo isso porque interrompemos o processo da espera. Porque estamos sempre ansiosos para preencher o tempo de nossos filhos e não deixa-los entediados. Etimologicamente, o verbo “esperar” vem de “esperança” que significa contar com, confiar em. Quando a criança espera e tem pais ao lado dela reafirmando a necessidade da espera, ela ganha confiança. E um pouquinho de tédio não mata ninguém.
Ah, a espera…. Que lindo seria se nós pudéssemos ensinar a nossas crianças que é preciso esperar as pessoas saírem do elevador antes de nós entrarmos, que é preciso esperar os que estão na nossa frente para chegar nossa vez, que é preciso esperar todos terminarem na mesa para poder levantar, que é preciso esperar crescer para ter o que se quer… Que é preciso aprender a esperar para respeitar o próximo, para convivermos, minimamente, melhor num mundo onde não existe mais o outro porque o “eu” é tão imediatista que se eu não suprir minhas vontades já eu morro. Daí ensinamos nossas crianças que o outro não importa, que conseguimos fácil e rápido tudo que queremos com um gritar, com um chilique. Tiramos a espera e junto tiramos a possibilidade da conquista. Ganhar de mão beijada não tem graça. Logo a criança encosta e pede outro e a insatisfação vai crescer. E para suprir será cada mais difícil.
A espera gera expectativa do que está por vir. Espera gera respeito, gera noção do próximo, gera dialogo, gera estímulos, gera confiança, gera amizades e, com certeza, gera um mundo melhor. Desculpem a frase feita, mas é isso mesmo: crianças que aprenderem a esperar vão aprender a viver em sociedade e na sociedade. Como parte dela e não no centro dela. Requisito básico para um futuro que todos queremos.
Carolina Delboni Favoritar
Jornalista, diretora da small.co, gestora do SP Future Kids e mãe de 3 meninos
Cresces e fazes meus sonhos aos poucos
Pouco a pouco ocupas meu ventre oco
Palpitas vida no meu ser
Desenho teu rosto e nossos futuros amassos
Sinto teu primeiro caminhar minha filhota
Te moves na melodia dos meus passos
Me empurras em tuas inocentes cambalhotas
Cresces vida em mim
Fazes voar meu entusiamo de te ter
Te apalpo mesmo coberta pelo ventre
E entre o vento me levas a ansiedade
E me ocupas o corpo com teu crescer
E aos poucos vai se unindo a nossa eterna corda
Me fazes esperar e a vontade já transborda
Cresces vida em mim
Magia sem igual na terra
Me das paz e eu protejo-te desta guerra
Cresces a cada segundo que te espero
Cresces como a água no mar dormindo
Cresces tu, cresces, e la vais indo
Énia Lipanga
Nota da CONTIoutra: O poema acima foi reproduzido com a autorização da autora.
Da mesma maneira que o governo brasileiro através de leis quase-utópicas nos obriga a viver na marginalidade, a sociedade nos empurra cada vez mais para a “marginalidade emocional”. Nós vivemos julgando e excluindo aqueles que demonstram sua incapacidade de amar incondicionalmente.
Ninguém ensina que sentimentos não brotam da noite para o dia. Então, uma mãe deve amar um filho, não importa seu caráter, um filho tem que amar um pai, independente das circunstâncias em que foi criado. Sim, temos que amar os “nossos”, “no matter what”.
Cobramos uns dos outros sermos as pessoas bondosas e espiritualmente elevadas que não somos. Ninguém nos ensina que o amor é condicional sim; ninguém se lembra de levar em consideração que o que vemos nas propagandas de margarina e filmes é mera ficção; e que os filmes repetem apenas um modelo muito engessado do que deveria ser um relacionamento ideal, porém “esquecemos de lembrar” que o ideal, em sua própria condição de ideal é nada mais que ilusório.
É tudo muito bonito de ver, esse acolhimento entre amantes, entre pais e filhos, entre amigos de longa data, mas aqui fora no mundo real, entre meros seres mortais que somos, amor é algo bem desafiador. É um sentimento construído em bases muito mais profundas daquelas que aprendemos e é apenas uma troca. Amor não é algo que brota em terreno onde há escassez de sentimentos. Amor não obedece julgamentos, nem raça, cor, credo ou grau de parentesco. A matemática é bem simples: assim como uma semente, se ele não for plantado, regado e cultivado ele simplesmente não nascerá.
Na era do “politicamente correto” todo mundo parece ser doutor de vida alheia enquanto é analfabeto de sua própria vida. Ditamos quem o outro deve amar, ditamos quem o outro deve perdoar. E por vivermos engessados nesses moldes utópicos de como um pai, uma mãe, um filho, um companheiro deveria ser e não é, vivemos frustrados.
Gostamos também de ditar o que o outro deveria fazer, sem pensar se nós mesmos conseguiríamos lograr tamanho ato. Enquanto cobramos amor entre pai e filho, companheiros, amigos, parentes, a realidade é que uma relação de troca saudável entre essas pessoas é a grande exceção e não a regra. Além do mais aqueles que mais amamos serão também aqueles que terão o maior poder para nos magoar. E assim é.
As palavras de Freud, Jung e demais estudiosos da psicologia reverberam e criam uma grande geração de “traumatizados” emocionais. Por nos basearmos nesses modelos vivemos frustrados, cobrados, julgados e julgando em uma busca incessante e utópica de transformar a exceção em regra. Nesse sentido nos tornamos marginais por não sermos capazes de amar a todo e qualquer custo. Oposto à marginal mora o essencial. É perdendo tanta energia em adicionar ao nosso vocabulário o futuro do pretérito (um passado que deveria ter sido mas não foi) e com tantos “e se’s” e “quem sabe’s” que deixamos de incluir. Aceitar nossas incapacidades; de quebrar paradigmas e adotar a diversidade que só existe fora dos moldes; que perdemos de enxergar a essencialidade que existe nas imperfeições; em sermos mais gentis com o outro e com nós mesmos; e principalmente em acolhermos os fatos e as pessoas apenas da maneira como elas se apresentam para nós.
Vale relembrar a resposta do Presidente Mujica e sonhar (ainda não é proíbido) que um dia ainda teremos, no Brasil, líderes políticos com tamanho senso de justiça social.
Em entrevista à TVE, a televisão pública da Espanha, o presidente do Uruguai, José Mujica, falou pela primeira vez sobre o desejo de uma ONG holandesa de indicá-lo ao Prêmio Nobel da Paz.
Reproduzo a resposta – genial – de Mujica:
“Estão loucos. Que prêmio da paz, nem prêmio de nada. Se me derem um premio desses seria uma honra para os humildes do Uruguai para conseguirem uns pesos a mais para fazer casinhas… no Uruguai temos muitas mulheres sozinhas com 4, 5 filhos porque os homens as abandonaram e lutamos para que possam ter um teto digno… Bom, para isso teria sentido. Mas a paz se leva dentro. E o prêmio eu já tenho. O prêmio está nas ruas do meu país. No abraço dos meus companheiros, nas casas humildes, nos bares, nas pessoas comuns. No meu país eu caminho pela rua e vou comer em qualquer bar sem essa parafernália de gente de Estado.”
Quantas vezes nos vemos “presos” ou condicionados a um comportamento, atitude, pensamento ou sentimento sem que consigamos abrir mão, mesmo que ele não nos traga sentido a existência ou nos proporcione recompensas positivas para a vida?
Pode ser um relacionamento amoroso que nos faz mal, mas que não conseguimos deixar. Um jogo de videogame que não conseguimos parar de jogar e perdemos a chance de realizar outras atividades produtivas. A busca incessante por prazeres e vícios para tentar completar um vazio dentro de nós. Enfim, qualquer atividade compulsiva das quais não temos controle, mas que não conseguimos interromper seu cursar em nossas vidas.
O curta metragem “The Last Knit” (“O último tricotar”) de Laura Neuvonem (Finlândia, 2005) retrata a complexa trama das compulsões!
Determinada a tricotar seus novelos de lã, a personagem se coloca na cena, sentada em uma cadeira diante de um abismo, com suas agulhas e novelos e então começa sua tarefa.
De imediato podemos analisar que se trata de uma atividade solitária e com poucos recursos a sua volta. A paisagem é inóspita, sem outros atrativos. Sua atenção, determinação e energia está totalmente voltada para a tarefa. Nada mais importa ou chama sua atenção, nem mesmo a possibilidade de perder a vida, caindo no abismo.
É exatamente assim que nos colocamos diante de uma atitude compulsiva. Nosso mundo se volta apenas para a necessidade interna relacionada ao impulso, em detrimento de qualquer outra necessidade, até mesmo as de sobrevivência.
Recentemente, temos vistos casos de jogadores compulsivos que deixam de comer, realizar seu autocuidado, manter relações sociais saudáveis para passar horas a fio em frente a tela do computador em jogos on-line. Este é um bom exemplo para retratar esse movimento.
E assim, segue a personagem, perdendo-se entre as meadas do seu novelo.
O impulso de executar o próximo ponto é maior que qualquer decisão racional a respeito de si mesma. Neste caso, a vontade consciente está subjugada pelo impulso inconsciente, cuja raízes e significado a personagem desconhece.
De maneira semelhante, algumas mulheres compram compulsivamente roupas, sapatos e objetos de qualquer natureza, sem entender porque o fazem e depois se veem arrependidas diante da energia gasta desproporcionalmente quando se defrontam com a realidade da continuidade de seu vazio existencial. Aquilo que compram não as preenche!
Para Jung, “(…) quando meu consciente encalha por não encontrar saídas viáveis, minha alma inconsciente vai reagir a esta estagnação insuportável.”
O que poderia se tornar um trabalho criativo e útil, perde seu propósito! A personagem deixa seu próprio destino nas mãos das agulhas de tricô, nas mãos do inconsciente!
A trama da personagem nos remete a lenda de Aracne.
“Filha de Ídmon, um rico tintureiro de Cólofon, Aracne era uma bela jovem da Lídia, onde o pai exercia sua profissão. Bordava e tecia com tal perfeição, que até as ninfas dos bosques vizinhos vinham contemplar e admirar-lhe a arte. A perícia de Aracne valeu-lhe a reputação de discípula de Atená, mas entre os dotes da fiandeira não se contava a modéstia, a ponto de desafiar a deusa para uma competição pública. Atená aceitou a provocação, mas apareceu-lhe sob a forma de uma anciã, aconselhando-a a que depusesse sua hýbris, sua démesure, seu descomedimento, que não ultrapassasse o métron, que fosse mais comedida, porque os deuses não admitiam competição por parte dos mortais. A jovem, em resposta, insultou a anciã. Indignada, Atená se manifestou em toda a sua imponência de imortal e declarou aceitar o desafio. Depuseram-se as linhas e deu-se início ao magno concurso. Atená representou em lindos coloridos, sobre uma tapeçaria, os doze deuses do Olimpo em toda a sua majestade. Aracne, maliciosamente, desenhou certas histórias pouco decorosas dos amores dos imortais, principalmente as aventuras de Zeus. Atená examinou atentamente o trabalho da jovem lídia. Nenhum deslize. Nenhuma irregularidade. Estava uma perfeição. Vendo-se vencida ou ao menos igualada em sua arte por uma simples mortal e irritada com as cenas criadas por Aracne, a deusa fez em pedaços o lindíssimo trabalho de sua competidora e ainda a feriu com a naveta. Insultada e humilhada, Aracne tentou enforcar-se, mas Atená não o permitiu, sustentando-a no ar. Em seguida, transformou-a em aranha, para que tecesse pelo resto da vida. Esse labor incessante de Aracne-Aranha, no entanto, configura uma terrível punição” (Brandão, 1987)
Tecer é em essencial um trabalho criativo. Segundo Chevalier, “tecido, fio, tear, instrumentos que servem para tecer (fuso, roca) são todos eles símbolos do destino. Servem para designar tudo o que rege e intervém no nosso destino (…)Tecer é criar novas formas”.
Simbolicamente o fio representa o vínculo entre os diferentes níveis psicológicos (inconsciente e consciente) e também o “agente que liga todos os estados da existência entre si” (Chevalier).
Neste sentido podemos pensar que a personagem está compulsivamente tentando desenrolar seus novelos de lã, transformando-os numa peça útil, para enfeitar-se ou aquecer-se em dias mais frios. Aqui novamente podemos relacionar com o sintoma compulsivo. Os comportamentos compulsivos são tentativas do indivíduo de solucionar sua problemática, suprir um vazio, suprimir uma angustia. Todavia, ao invés de fazê-lo de maneira criativa, compreensiva e direcionada, guiado por uma conversa entre consciente e inconsciente, ele sucumbe as vias do sintoma. Sua tarefa torna-se incansável e interminável. E ele se vê preso em uma verdadeira teia de ilusões.
O processo de fiar também pode ser comparado ao fio produzido pela aranha ao construir sua teia. Neste caso, criar significa “fazer sair da sua própria substância, exatamente como faz a aranha, que tira de si sua própria teia” (Chevalier).
Podemos entender que a solução para as angústias encontra-se dentro do próprio indivíduo e não fora dele.
Os novelos de lã se acabam e a personagem passa a usar seu próprio cabelo para tecer. Motivados pela história de Sansão que, ao perder seus cabelos também perde sua força, podemos compreender aqui que, a atividade consome a força vital da personagem.
Sem escolha e sem percepção consciente do problema a personagem segue na tarefa.
O que era para ser um cachecol se transforma numa verdadeira corda que puxa a personagem em direção ao abismo, cuja força aumenta proporcionalmente a continuidade da construção da peça.
Assim, a tecelã fica presa a sua compulsão e ao fim destinado por ela – cair no abismo.
A queda no abismo está relacionada a força centrífuga inconsciente que impulsiona a personagem a se deparar com as origens do seu problema.
Sobre o abismo, temos na literatura alguns simbolismos interessantes a discorrer.
Segundo dicionário de Símbolos de Juan-Eduardo Cirlot, “toda forma abissal possui em si mesma uma fascinante dualidade de sentido. Por um lado é símbolo da profundidade em geral; por outro lado, do inferior. Precisamente, a atração do abismo resulta da confusão inextricável desses dois poderes”.
Para Chevalier, “nos sonhos, fascinante ou medonho, o abismo invocará o poderoso inconsciente; aparecerá como um convite a exploração das profundezas da alma, para livrá-la de seus fantasmas ou deixar que se soltem”.
Neste ponto da história nos vemos mobilizados e torcendo para que a personagem sobreviva. Trava-se a luta entre vida e morte, perda e transformação. Torcemos pela sua sobrevivência, mas torcemos também para que ela se desvencilhe do seu sintoma.
As agulhas a salvam do abismo, o que pode nos levar a pensar que, como um veneno e seu antídoto, o que nos deixa doente é o que também nos cura. Assim, sintoma e cura fazem parte do mesmo processo. Uma está intrinsicamente ligada a outra.
É preciso compreender o significado de um sintoma para que ele seja integrado e superado na psique.
Se a nossa personagem tivesse esse ganho de consciência durante a subida do abismo, poderíamos ter esperança de sua cura.
Mas novamente ela se senta em sua cadeira, nas mesmas condições que se via anteriormente e busca um novo objeto para simbolizar sua compulsão. Encontra uma nova via para canalizar o impulso, uma vez que esse não foi compreendido e integrado.
Quantas vezes vemos pessoas trocando uma compulsão por outra? Emagrecem, mas passam a comprar. Param de fumar, mas começam a beber. E tantos outros exemplos que podemos encontrar vida a fora…
Assim, é preciso “encarar o abismo” e suas profundezas, a fim de ressurgir tal qual uma fênix, transformada e renovada para a vida!
Do contrário, as vias escolhidas podem ser novamente tentadoras, como foi a tesoura para a personagem da história.
A tesoura, símbolo do “atributo das fiandeiras que cortam o fio da vida dos mortais”, torna-se aqui um objeto ambivalente, expressando a criação e a destruição, o nascimento e a morte.
Ficamos nós expectadores, com a esperança de que, envolta mais uma vez em sua dinâmica compulsiva, nossa personagem tenha mais sucesso da próxima vez!
Referências Bibliográficas
BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega. Petrópolis: Vozes, 1986, V. 2.
CHEVALIER, J. GHEERBRANT, A. Dicionário de Símbolos – Mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. 24ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2000.
CIRLOT, J.E. Dicionário de símbolos. São Paulo: Centauro, 2005.
JUNG, C. G. A prática da Psicoterapia: Contribuições ao problema da psicoterapia e à psicologia da transferência. In Obras Completas. 7ª Edição. Petrópolis: Vozes, [1971], 2011, v. XVI/1.
Autoras:
Lilian Marin Zuchelli – Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta Junguiana pela PUC-SP. Especialista em Psicoterapia de Abordagem Junguiana associada à Técnicas de Trabalho Corporal pelo Institiuto Sedes Sapientiae. CRP: 06/23768
Marcela Alice Bianco – Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta Junguiana formada pela UFSCar. Especialista em Psicoterapia de Abordagem Junguiana associada à Técnicas de Trabalho Corporal pelo Sedes Sapientiae. CRP: 06/77338