Flor Rubra, um conto de Zack Magiezi

Flor Rubra, um conto de Zack Magiezi

Chovia e não se importava, enquanto todos corriam buscando abrigo,  se apertando embaixo das marquises, ela continuava sentada no banco da praça. Estava coberta das gotas que escorriam por seu corpo, com olhos perdidos no horizonte, a boca semiaberta com seu batom vermelho feito sangue, os cabelos despenteados, a camiseta ensopada, a bolsa no colo que carregava o maço de cigarros e um pequeno caderno de anotações. Era poetisa e leitora de si mesma.

Sempre sentiu enorme vazio e deslocamento, estava feito peça perdida de um quebra-cabeça chamado existência, uma dizima que a vida preferia arredondar. Pensou que os fantasmas eram assim e riu, pois as pessoas que disseram para ela não acreditar em fantasmas hoje não creriam nela. Pensou na sua existência, era excêntrica, praticava o exercício esquecido da reflexão, não tinha tempo para idiotices, carreiras imbecis, status e pessoas rasas. Desde muito cedo sabia que a vida era mais do que rótulos, produtos e transações. Desconfiava que a vida sempre escondia algo dela, igual aos mordomos em romances policiais clichês, e estava disposta a arrancar as respostas. E a vida sabendo disso a evitava.

Silenciou a mente dos barulhos interiores e ficou olhando ao seu redor. Observou as pessoas abrigadas nas marquises, o velhinho que usava uma capa de chuva com a expressão de pressa e passos lentos, os cavalheiros respeitáveis em seus ternos, eles tinham os olhos mergulhadores que exploravam o decote e o colo molhado da moça, que estava mais preocupada em proteger os seus cadernos, o menino com ar solitário com uma camiseta de uma banda que ela nunca tinha ouvido falar e suas tatuagens borradas. A chuva era um lembrete, ela mostrava o abismo que existia entre ela e os outros, não tinha o espirito aventureiro e nem vontade de saltar e alcança-los.

Levantou-se, caminhava devagar em direção a sua casa um apartamento alugado no centro. Pensava em alguma música da Elis, não pela letra em si, mas gostava da voz dela, aquela voz forte e doida, aquela voz que era um vazamento da alma. As dores são assim, a ferida abre ou o vaza o sangue ou a alma. A voz de Elis era um vazamento da alma, assim como o batom vermelho que usava todos os dias. Enquanto as pessoas associavam o batom com a mulher sensual que é, a verdade é que o batom que avermelhava os lábios era flor que brotou de toda a dor de sua alma. Era uma rosa dolorida e bela, e assim prosseguia andando devagar, bolsa no ombro, quadris deslizantes, com a flor rubra na boca querendo a voz de Elis.

Viu o velho prédio, abriu a porta e subiu pelas escadas, detestava elevadores e seus constrangimentos. Gostava de deslizar a mão direita pelo corrimão e se conectar a outras mãos que passearam por ali, estranha mania de se conectar a ausência das pessoas e não as pessoas.

E ria ao pensar que os objetos durariam muito mais do que ela e que na verdade eles são pontes imaginárias que ligam, e assim ela ia tocando os objetos e derramando vida neles, para que talvez algum dia alguém se conecte a ela.

Entrou em seu apartamento, deixou as roupas pelo chão, assim como já tinha deixado os sonhos, as palavras e as esperanças de plástico. Deitada em sua cama, olhava o teto cinza, de um dia cinza, como tantos dias cinzas que se repetem e que nos repetem.

A flor rubra sorriu perfumando o quarto com alma.

Zack Magiezi
No Facebook: Estranheirismo
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Nota da Contioutra:  Agradecemos ao autor pela constante parceria, pelas publicações em nossa página do Facebook e pela autorização dessa publicação.

20 de março – Dia do Contador de Histórias

20 de março – Dia do Contador de Histórias

Nada mais “tudo a ver” com a CONTI outra do que contar histórias.  Antes que o mundo fosse presenteado com a TV e com a internet, ver um pai ou uma mãe com um livro aberto ou até dizendo de memória uma bonita história ao filho, era algo mais recorrente. Hoje, contudo, é mais fácil ver o pai ou a mãe ligar a TV ou o tablet, ou celular, para que o seu filho se distraia.

Nessa nova onda tecnológica, a família perde muito. Afrouxam-se os laços na medida em que os pais não mais compartilham, junto às narrativas de contos e lendas, e até mesmo de suas histórias pessoais, sua emoção, seu pensamento. Quem conta uma história não fala somente da história, fala de si enquanto a descreve. Além disso, ele sente a quem o ouve. Percebe seu sentir, sua dor, sua alegria. Sua angústia ou seu encanto.

Na contramão tecnológica, temos os Contadores de Histórias e hoje, 20 de março, o Brasil comemora o seu dia. Dois deles falaram à CONTI outra um pouquinho do seu dia-a-dia.

Falamos com Rita Nasser, de São Paulo. Ela escreve e conta histórias infantis e aqui nos conta como iniciou na atividade de contadora de histórias.

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Olha aqui a Rita mudando o futuro de crianças…

RITA NASSER: “Costumo dizer que todos somos contadores, em potencial. Na verdade, primeiro vem aquela que lê e escuta e depois a contadora.Na infância eu já contava histórias para o cachorro, os amigos, as bonecas…Ali também nascia a escritora, que aos nove anos começa a escrever em homenagem a Lobato.E, como muitos adolescentes, a poesia se instala nesta fase.Com a maternidade ressurge aquela que lê e conta para o filho e nesta época também renasce a escritora. Escutar, escrever, contar…Três faces de mim que discutem de vez em quando, mas…Sempre se entrelaçam, se respeitam…”

 

Conversamos também com PAULO FERNANDES, de Belo Horizonte.

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Paulo Fernandes fazendo o que mais ama…

“Na verdade eu não decidi contar histórias, foi um processo natural, aconteceu sem que eu sequer percebesse e foi se tornando algo essencial a minha vida.”

Para o Paulo, “É tudo mágico, o sorriso de uma criança, um adulto que se envolve e quando percebe já está dentro da história, a alegria dos ouvintes , as histórias que descubro, a possibilidade de resgatar a tradição oral e a escuta em um mundo cada vez mais ligado a tecnologia e com relações líquidas.”

E penso que deve haver muita magia mesmo, afinal foi também isso que noticiou Rita Nasser:

“É tudo mágico! Momento encantador em que entramos no conto e ele vive em nós. Digo “nós” porque contar é especial para quem ouve e quem conta. Tenho muitas passagens que estou registrando, aos poucos, nesses quase vinte anos contando. O melhor de tudo é que nunca saímos como entramos de um conto. Ele sempre nos modifica pra melhor.”

 

Perguntados sobre situações inusitadas, Rita nos diz:

“Há momentos lindos e inesquecíveis… Por exemplo uma vez eu estava contando uma história sobre um lobo que batia à porta. E? Bem na hora H bateram mesmo e as crianças gritaram : É ele!!! O  Lobo. E quando a porta se abriu todos, aliviados, começaram a rir, eu também.”

O Paulo, por sua vez, fala-nos que, obviamente, há momentos mais e momentos menos mágicos. Mas, por suas palavras, acho que a magia predomina.

“Teve um fato inusitado que aconteceu em uma contação e foi a única vez que aconteceu. Uma criança jogou um sapato em mim e disse: cheira meu chulé. Mas há também fatos memoráveis e estes são muitos.

Destaco um fato que marcou, em uma sessão de histórias um bebezinho de 3 meses ficou durante uma hora com olhar atento e ouvidos ligados na história, ao final a mãe disse: Eu estou emocionada, minha filha está encantada com você e suas histórias.”

Fica o registro das nossas homenagens a esses Dom Quixotes contemporâneos, na esperança de que eles nos inspirem a contar sempre muitas e emocionadas histórias.

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Os livros encantados de Rita Nasser…

Saiba mais:

Canal no Youtube onde Paulo Fernandes faz indicações de leituras

Paulo Fernandes no Facebook

Rita Nasser no Facebook

Editorial CONTI outra. 

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Oratório

Oratório

Por Lourival Antonio Cristofoletti

Prezo tudo de bom com que sou abençoado
na condição de humano fico tentando ir além
se não for abuso, Senhor, nem pedir demais
revigora-me as forças, para renovar a gana de viver
clarifica as tormentas e estica a minha paciência
alarga os horizontes e recicla-me as energias
valida meus propósitos e elucida-me as angústias
testemunha a minha fé, potencializa a resignação
dignifica-me as provações, direciona a bondade
exerce controle do meu ego, expande a abnegação
renova-me espiritualmente, toca-me o coração
agradeço-te, comovido, sendo arrebatado, agora
ampara-me se eu fizer jus às Suas bênçãos, amém.

 

O texto acima faz parte do livro  COMPORTAMENTO: INQUIETAÇÕES & PONDERAÇÕES – Livraria Logos 

A reprodução neste espaço foi autorizada pelo autor.

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LOURIVAL  ANTONIO CRISTOFOLETTI

contioutra.com - OratórioPaulista de Rio Claro e residente em Vitória/ES. É mestre em Administração pela UnB – Universidade de Brasília, Analista Organizacional e Consultor em Recursos Humanos. Atualmente atua como professor na Graduação e MBA na FAESA – Faculdades Integradas Espírito-Santenses; Instrutor na UFES – Universidade Federal do ES e na ESESP– Escola de Governo do ES.

Livro publicado: COMPORTAMENTO: INQUIETAÇÕES & PONDERAÇÕES
Livraria Logos (vendas pelo site)

E-mail de contato: : [email protected]
No Facebook: Lourival Antonio Cristofoletti No Instagram: lourivalcristofoletti

Mãe, um conto para quem não tem preguiça de pensar

Mãe, um conto para quem não tem preguiça de pensar

Por Lúcia Costa

Ainda na infância, aqueles amigos umbilicais descobriram-se apaixonados. Juraram-se, acreditaram-se, o relógio adiantou ponteiros, anelaram-se, casaram-se.

Os anos passaram apressados: o desejo queimou o primeiro; a sede bebeu o segundo; a fome comeu o terceiro. Quatro anos e as bocas frias ruminavam; os corpos gritavam em silêncio pelo pequeno corpo que não lhes chegava. À  parteira, menos um  luz para mostrar; ao padre, uma falta na pia batismal no domingo; ao Mundo, uma ideia negada; ao casal, uma chupeta e dois pesinhos para medir os limites da casa.

Não queriam adquirir choro que não lhe fosse proveniente dos próprios olhos. Acreditavam que, com isso, teriam de se acostumar à vereda que o pequeno desconhecido traria desenhada. Todos os planos davam para um filho; todos os meses davam para o fracasso.

Uma noite, enquanto viam TV na sala, escutaram um choro primário vindo do jardim. Sufocado entre flores e espinhos, formigas e grama úmida, chegou a casa aquele minúsculo ser de olhos ainda fechados.

E por ali descobriu para que servem os pés, subiu as escadas, dormiu sozinho, espremeu a primeira espinha, dormiu junto a uma estranha sorrateira, desceu para ser calouro, subiu com o diploma, beijou os pais, partiu para longe, encontrou o útero que lhe fermentou, libertou-o da prisão, ofereceu-lhe casa, chama-o carinhosamente de”mãe”.

Longe dali, um par de cabelos brancos, ainda de luto, lamenta o que poderia ter sido, e foi.

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Se Ariano Suassuna disse isso sobre o forró, o que ele diria sobre o funk?

Se Ariano Suassuna disse isso sobre o forró, o que ele diria sobre o funk?

O escritor Ariano Suassuna, em sua contumaz crítica à sociedade brasileira, fala-nos, decepcionado, daquilo em que se transformou o forró nacional.

Ele questiona o teor das letras e se mostra preocupado com a geração que, influenciada por tais pensamentos, terão poder sobre o Brasil em breve tempo.

Após ler a fantástica crônica de Ariano, a CONTI outra se pergunta, se Suassuna se mostrou assim desencantado com as letras do forró nacional, o que ele teria dito se fosse convidado a comentar o funk?

Abaixo, o texto de Ariano Suassuna escrito em 2010.

Tem rapariga aí?

Por Ariano Suassuna

“Tem rapariga aí? Se tem, levante a mão!’. A maioria, as moças, levanta a mão. Diante de uma platéia de milhares de pessoas, quase todas muito jovens, pelo menos um terço de adolescentes, o vocalista da banda que se diz de forró utiliza uma de suas palavras prediletas (dele só não, e todas bandas do gênero). As outras são ‘gaia’, ‘cabaré’, e bebida em geral, com ênfase na cachaça. Esta cena aconteceu no ano passado, numa das cidades de destaque do agreste (mas se repete em qualquer uma onde estas bandas se apresentam). Nos anos 70, e provavelmente ainda nos anos 80, o vocalista teria dificuldades em deixar a cidade.

Pra uma matéria que escrevi no São João passado baixei algumas músicas bem representativas destas bandas. Não vou nem citar letras, porque este jornal é visto por leitores virtuais de família. Mas me arrisco a dizer alguns títulos, vamos lá:

Calcinha no chão (Caviar com Rapadura),
Zé Priquito (Duquinha),
Fiel à putaria (Felipão Forró Moral),
Chefe do puteiro (Aviões do forró),
Mulher roleira (Saia Rodada),
Mulher roleira a resposta (Forró Real),
Chico Rola (Bonde do Forró),
Banho de língua (Solteirões do Forró),
Vou dá-lhe de cano de ferro (Forró Chacal),
Dinheiro na mão, calcinha no chão (Saia Rodada),
Sou viciado em putaria (Ferro na Boneca),
Abre as pernas e dê uma sentadinha (Gaviões do forró),
Tapa na cara, puxão no cabelo (Swing do forró).

Esta é uma pequeníssima lista do repertório das bandas.

Porém o culpado desta ‘desculhambação’ não é culpa exatamente das bandas, ou dos empresários que as financiam, já que na grande parte delas, cantores, músicos e bailarinos são meros empregados do cara que investe no grupo. O buraco é mais embaixo. E aí faço um paralelo com o turbo folk, um subgênero musical que surgiu na antiga Iugoslávia, quando o país estava esfacelando-se. Dilacerado por guerras étnicas, em pleno governo do tresloucado Slobodan Milosevic surgiu o turbo folk, mistura de pop, com música regional sérvia e oriental. As estrelas da turbo folk vestiam-se como se vestem as vocalistas das bandas de ‘forró’, parafraseando Luiz Gonzaga, as blusas terminavam muito cedo, as saias e shortes começavam muito tarde. Numa entrevista ao jornal inglês The Guardian, o diretor do Centro de Estudos alternativos de Belgrado. Milan Nikolic, afirmou, em 2003, que o regime Milosevic incentivou uma música que destruiu o bom-gosto e relevou o primitivismo est tico. Pior, o glamour, a facilidade estética, pegou em cheio uma juventude que perdeu a crença nos políticos, nos valores morais de uma sociedade dominada pela máfia, que, por sua vez, dominava o governo.

Aqui o que se autodenomina ‘forró estilizado’ continua de vento em popa. Tomou o lugar do forró autêntico nos principais arraiais juninos do Nordeste. Sem falso moralismo, nem elitismo, um fenômeno lamentável, e merecedor de maior atenção. Quando um vocalista de uma banda de música popular, em plena praça pública, de uma grande cidade, com presença de autoridades competentes (e suas respectivas patroas) pergunta se tem ‘rapariga na platéia’, alguma coisa está fora de ordem. Quando canta uma canção (canção?!!!) que tem como tema uma transa de uma moça com dois rapazes (ao mesmo tempo), e o refrão é ‘É vou dá-lhe de cano de ferro/e toma cano de ferro!’, alguma coisa está muito doente. Sem esquecer que uma juventude cuja cabeça é feita por tal tipo de música é a que vai tomar as rédeas do poder daqui a alguns poucos anos.

Editorial CONTI outra

“O primeiro visitante da lua”, um conto popular da Guiné Bissau

“O primeiro visitante da lua”, um conto popular da Guiné Bissau

Entendemos como tradição oral o mecanismo por meio do qual a tradição de um povo é transmitida, de geração em geração, através de contos, provérbios, cânticos e lendas.

Nesse ínterim, as lendas visam, principalmente, trazer explicações para os questionamentos maiores da humanidade, como o início da vida, a morte, a criação do mundo, o surgimento do universo.

Aqui transcrevemos uma lenda contada, há muitas gerações, em Guiné Bissau que fala da música em sua origem etérea, lunar, levando-nos a meditar de quando e como surgiram os primeiros batuques na Terra.

Segue:

“Dizem na Guiné que a primeira viagem à Lua foi feita pelo Macaquinho de nariz branco. Segundo dizem, certo dia, os macaquinhos de nariz branco resolveram fazer uma viagem à Lua a fim de traze-la para a Terra.

Após tanto tentar subir, sem nenhum sucesso, um deles, dizem que o menor, teve a ideia de subirem uns por cima dos outros, até que um deles conseguiu chegar à Lua. Porém, a pilha de macacos desmoronou e todos caíram, menos o menor, que ficou pendurado na Lua.

Esta lhe deu a mão e o ajudou a subir. A Lua gostou tanto dele que lhe ofereceu, como regalo, um tamborinho. O macaquinho foi ficando por lá, até que começou a sentir saudades de casa e resolveu pedir à Lua que o deixasse voltar.

A lua o amarrou ao tamborinho para descê-lo pela corda, pedindo a ele que não tocasse antes de chegar à Terra e, assim que chegasse, tocasse bem forte para que ela cortasse o fio.

O Macaquinho foi descendo feliz da vida, mas na metade do caminho, não resistiu e tocou o tamborinho. Ao ouvir o som do tambor a Lua pensou que o Macaquinho houvesse chegado à Terra e cortou a corda.

O Macaquinho caiu e, antes de morrer, ainda pode dizer a uma moça que o encontrou, que aquilo que ele tinha era um tamborinho, que deveria ser entregue aos homens do seu país.

A moça foi logo contar a todos sobre o ocorrido. Vieram pessoas de todo o país e, naquela terra africana, ouviam-se os primeiros sons de tambor.”

Editorial CONTI outra

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 Nota:  A lenda transcrita no texto acima foi encontrada no site  Lendas africanas.

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O TEMPO E AS JABUTICABAS

O TEMPO E AS JABUTICABAS

Tempo que foge 

“Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. Sinto-me como aquela menina que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ela chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.
Não tolero gabolices.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos.
Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos para reverter a miséria do mundo.
Não quero que me convidem para eventos de um fim de semana com a proposta de abalar o milênio.

Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir estatutos, normas, procedimentos e regimentos internos.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.

Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões de ‘confrontação’, onde ‘tiramos fatos a limpo’.
Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral.

Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: ‘as pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos’.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa…
Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja tão somente andar ao lado do que é justo.

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, desfrutar desse amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo.
O essencial faz a vida valer a pena…e para mim basta o essencial.”

Ricardo Gondim

in Tempo que foge.

contioutra.com - O TEMPO E AS JABUTICABAS

Nota da Conti outra: existe uma falsa atribuição desse texto ao escritor Rubem Alves, mas a autoria legítima é de Ricardo Gondim como explica a matéria Tempo que foge.

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“ENTRE MUITOS”, um poema da escritora tida como “O Mozart” da poesia: Wisława SZYMBORSKA

“ENTRE MUITOS”, um poema da escritora tida como “O Mozart” da poesia: Wisława SZYMBORSKA

Sou quem sou.

Inconcebível acaso
como todos os acasos.

Fossem outros
os meus antepassados
e de outro ninho
eu voaria
ou de sob outro tronco
coberta de escamas eu rastejaria.

No guarda-roupa da natureza
há trajes de sobra.
O traje da aranha, da gaivota, do rato do campo.
Cada um cai como uma luva
e é usado sem reclamar
até se gastar.

Eu também não tive escolha
mas não me queixo.
Poderia ter sido alguém
muito menos individual.
Alguém do formigueiro, do cardume, zunindo no enxame,
uma fatia de paisagem fustigada pelo vento.

Alguém muito menos feliz,
criado para uso da pele,
para a mesa da festa,
algo que nada debaixo da lente.

Uma árvore presa à terra
da qual se aproxima o fogo.

Uma palha esmagada
pela marcha de inconcebíveis eventos.

Um sujeito com uma negra sina
que para os outros se ilumina.

E se eu despertasse nas pessoas o medo,
ou só aversão,
ou só pena?

Se eu não tivesse nascido
na tribo adequada
e diante de mim se fechassem os caminhos?

A sorte até agora
me tem sido favorável.

Poderia não me ser dada
a lembrança dos bons momentos.

Poderia me ser tirada
a propensão para comparações.

Poderia ser eu mesma – mas sem o espanto,
e isso significaria
alguém totalmente diferente.

SZYMBORSKA,Wisława. Poemas. Trad. de Regina Prazybycien. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p.p. 100,101,102.

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Wisława Szymborska Poetisa, crítica literária e tradutora polonesa. Viveu em Cracóvia, onde se formou em Filologia Polaca e Sociologia pela Universidade Jaguellonica. A sua extensa obra, traduzida em 36 línguas, foi caracterizada pela Academia de Estocolmo como «uma poesia que, com precisão irónica, permite que o contexto histórico e biológico se manifeste em fragmentos da realidade humana», tendo sido a poetisa definida, como «o Mozart da poesia». Prêmio Nobel de Literatura, 1996.

Nota da CONTI outra:  Essa linda indicação de poema foi feita por uma das minhas mais novas amigas do Facebook em sua linha do tempo:  Carmen Silvia Presotto

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A Tribo africana Dogon e sua “inexplicável” relação com as estrelas

A Tribo africana Dogon e sua “inexplicável” relação com as estrelas

Uma das fontes mais surpreendentes da evidência de nossos antepassados ​​vindos das estrelas é a história da tribo de Dogon, África.

Há entre 400.000 e 800.000 Dogon em uma civilização remota na região do planalto central do Mali. A cultura Dogon é conhecida por uma arte significativa e detalhada dos seus costumes tribais, por sua cosmologia precisa e, sobretudo, por suas  lendas que os ligam aos “antepassados ​​de Sirius!

A Importância do Dogon chegou ao mundo ocidental em 1930, quando antropólogos franceses ouviram as lendas dos sacerdotes Dogon. Sçao histórias que foram passadas ​​oralmente, de geração em geração, e documentadas através de obras de arte.

O povo Dogon fala de uma raça extraterrestre do Sistema de Sirius Star, referida como o Nommos, que os visitou na terra. Os Nommos eram uma raça de criaturas humanóides aquáticos, semelhante ao sereias. Interessante é que a deusa Isis, da Babilônia, era descrita como uma sereia e associada com Sirius.

A cultura Dogon diz que os Nommos desceram à terra vindos dos céus, em um grande barco, trazidos por grandes e ruidosos ventos. Os Dogons explicaram que o sistema Sirius tem uma estrela companheira, mas não pode ser vista da Terra devido ao brilho de Sirius. Os pesquisadores descobriram artefatos de Dogon, datados de mais de 400 anos, que descrevem órbitas destas estrelas.

Anos mais tarde, em 1970, os astrônomos finalmente tiveram telescópios bons o suficiente para aumentar o zoom em Sirius e fotografaram Sirius B. O povo Dogon estava certo! Sirius de fato tem sua companheira.

Eles também identificaram as luas de Júpiter e os anéis de Saturno sem o uso de um telescópio. E fica a pergunta: como eles poderiam saber isso?

Abaixo, um exemplo de lenda Dogon falando da criação e do surgimento das estrelas.

A criação da terra

No princípio, o Deus único criou o Sol e a Lua, que tinha a forma de cântaros, a sua primeira invenção. O Sol é branco e quente, rodeado por oito anéis de cobre vermelho, e a Lua, de forma idêntica tem anéis de cobre branco. As estrelas nasceram de pedras que Deus atirou para o espaço. Para criar a Terra, Deus espremeu um pedaço de barro e, tal como fizera com as estrelas, arremessou-o para o espaço, onde ele se achatou, com o Norte no topo e o restante espalhado em diferentes regiões, à semelhança do corpo humano quando está deitado de cara para cima.

(Mito africano de origem Dogon reveladas por um velho cego, Ogotemmêli, escolhido pela tribo para contar aos seus amigos europeus os segredos da mitologia dos Dogons, relatado por Parrinder em África)

O texto acima foi traduzido e adaptado do original Catalyzing Change pela equipe CONTI outra

A lenda “A Criação da Terra” foi encontrada em Lendas Africanas

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Sabedoria indígena: o que os povos da Amazônia sabem, e nós não sabemos

Sabedoria indígena: o que os povos da Amazônia sabem, e nós não sabemos

“Você não frequentou a faculdade de medicina, não é?”

O xamã disse: “Não, não frequentei.”

Ele disse: “E o que você sabe sobre curar doenças”?

O xamã olhou para ele e disse: “Sabe, se você tem uma infecção, vai ao médico. Mas muitas aflições humanas são doenças do coração, da mente e do espírito. A medicina ocidental não chega à elas, eu as curo.”

(Aplausos)

Vídeo: TED – Ideas Worth Spreading

 

A patologização do comportamento humano

A patologização do comportamento humano

Por Gustl Rosenkraz

A menopausa, por exemplo, é uma fase normal na vida de qualquer mulher desde que a humanidade existe. Em meados do século passado, a medicina começou a enquadrar os sintomas típicos desta interrupção fisiológica dos ciclos menstruais como transtornos de saúde, classificando o climatério como doença e tratando-o com hormônios, mesmo que essa terapia tenha feito mais mal que bem, aumentando e não reduzindo a incidência de câncer na mama, como é suposto pelos defensores dessa terapia. Ora, mas para que tratar algo que faz parte da vida humana, que é algo que foi estipulado assim pela natureza e que, com certeza, tem seu sentido? Em minha opinião, isso se deve principalmente a uma mentalidade de querer domar a natureza em todos os sentidos, à arrogância de médicos que acreditam saber mais que a criação, à devoção de pacientes que ainda acreditam cegamente em uma medicina que está mais preocupada com sua vaidade e com o lucro do que com seu bem-estar e à ganância da indústria farmacêutica, que faz questão de patologizar o ser humano para vender mais medicamentos.

Bom, o exemplo acima refere-se em primeira linha à saúde física (mesmo que interferências hormonais também tenham seus efeitos psíquicos), mas não é muito diferente com nossos comportamentos, que também são questionados, fazendo com que coisas que até pouco tempo atrás valiam como normais sejam hoje classificadas como distúrbios. Ou você ainda não notou que palavras como bipolaridade, hiperatividade e depressão andam em moda? Não acha estranho que o mundo inteiro esteja ficando “louco”, que todo mundo parece sofrer de algum mal comportamental? O que antigamente era inerente ao comportamento humano e à personalidade de cada um é hoje transformado em distúrbio psicológico. Temperamento é classificado como agressividade, letargia como depressão, inquietude como hiperatividade, insegurança e dúvida como bipolaridade, sem falar do número crescente de crianças que andam por aí recebendo o diagnóstico definitivo de síndrome de Asperger ou coisa parecida.

É fato que o mundo moderno tem nos sobrecarregado bastante. O fluxo de informações é enorme, as relações têm se tornado mais escassas e superficiais, a velocidade com a qual o mundo muda deixa-nos tontos, as incertezas aumentaram… É compreensível que muitas pessoas tenham dificuldades de se orientar e se sentir bem em um mundo assim e, sem dúvida, um ou outro pode mesmo necessitar de auxílio profissional para se recompor e ter mais clareza, mas ainda assim: isso não é motivo para transformar comportamento humano normal em doença.

Parece-me que há um desejo forte de padronização do comportamento humano. Uma criança que entra na escola e não se comporta da forma esperada pelas pessoas à sua volta é rapidamente taxada de “criança problemática”, sem que se busque a fundo pela causa. Os pais, que querem o melhor para seus filhos, acreditam, buscam ajuda profissional, se veem confrontados com algum diagnóstico “moderno”, remédios são receitados e a criança termina patologizada devido a algo que possivelmente faz simplesmente parte de algo individual, que todos nós temos, e que foge de qualquer forma de padronização: sua personalidade.

O consumo de antidepressivos no mundo anda tão alto que cientistas descobriram que camarões estão se “suicidando” por causa da concentração das substâncias ativas desses medicamentos nos mares (vide: Science – ORF – em alemão). Ou seja: muita gente anda consumindo antidepressivos, que são então eliminados com a urina, que por sua vez vai parar na canalização. Como os sistemas de tratamento de esgotos não filtram tais substâncias completamente, elas vão para o mar, sendo então ingeridas pelos camarões. Sob efeito desses remédios, os camarões, que normalmente vivem a certa profundidade, onde a escuridão os protege contra predadores, perdem esse medo natural, nadam para a superfície, sendo então devorados por peixes e pássaros. Parece piada, mas não é. E isso que parece engraçado mostra um fato triste e preocupante: o mundo anda tomando muitos medicamentos antidepressivos. Acredito que sem motivo, pois não dá para crer que tanta gente esteja realmente sofrendo de depressão. Sou mais de acreditar que tudo isso se deve a uma falsa crença em “pílulas milagrosas”, que servem como mecanismo de fuga para pessoas que não querem enfrentar as dificuldades do dia-a-dia e para encher os bolsos de médicos e da indústria. Eu mesmo passei por uma situação interessante, que mostra bem como se lida com psicofármacos hoje em dia: fui mordido por um carrapato e infetado com borrélias, que atacaram meus músculos, causando dores horríveis. Como os médicos não descobriam o motivo, fiquei muito tempo sem saber o que se passava comigo, algo na verdade resultado de pura negligência e arrogância médica, já que eu mesmo havia questionado várias vezes se meus problemas não teriam ligação com a mordida do carrapato, mas os médicos negavam, ignorando as evidências. Pois bem, depois de sofrer muito e andar de consultório para consultório, fui hospitalizado para um exame mais profundo. Antes mesmo de qualquer exame ser feito, o médico me passou um antidepressivo, supondo que me ajudaria contra minhas dores. Não entendi a lógica e recusei esse tratamento. Mais tarde, um dia antes de ter alta, fiquei sabendo que TODOS os demais pacientes da enfermaria (cada um com problemas diferentes!!!) estavam tomando essa medicação. Para mim ficou claro que a intenção do médico não foi a de combater minhas dores coisa nenhuma. Desconfio que o hospital estava fazendo algum estudo ou simplesmente sendo bem remunerado pelo fabricante do remédio.

Há casos onde realmente há um distúrbio que precisa ser tratado, mas esses casos também já existiam antigamente. O que não dá para aceitar é um aumento assustador de patologias “inventadas” e exageradas, a medicação de psicofármacos como se fossem bombons e a transformação de qualquer nuança de individualidade em patologia. Seres humanos são seres singulares, cada um é diferente, cada um tem desejos e necessidades próprias, sua personalidade e sua forma de lidar com a vida e com o mundo, e isso é algo muito precioso. Jamais deveríamos abrir mão de nossa individualidade e muito menos permitir que sejamos transformados em “anormais” em nome de uma “normalidade” criada, que rejeita o que é diferente e tenta padronizar nosso comportamento. O mundo sem as “loucuras” individuais de cada um de nós nada mais seria que um lugar sem nenhuma graça, ou estou errado?

Meu adorável galanteador, por Elika Takimoto

Meu adorável galanteador, por Elika Takimoto

Por Elika Takimoto

Há algum tempo ando com problema de postura, sentindo umas dores na coluna e evitando o salto alto. Para mim, que tenho metro e meio de altura isso corresponde a dizer adeus à elegância, ao charme, ao frescor da manhã que só um calcanhar bem levantado faz a gente sentir em pleno final de tarde… A auto-estima fica do meu tamanho quando calço uma rasteirinha. Bah! Ainda que não possa reclamar do amor que recebo do meu marido, o que joga mesmo uma mulher pra cima é um assobio dado com vontade de um homem desconhecido. Se forem vários, tanto melhor. E eu nunca mais ouvi nem um sibilinho sequer depois que aposentei os saltinhos…

Mas hoje, vejam vocês, fui abastecer o carro e me deu vontade de comprar bananada na lojinha do posto. Eu e minha sandália, ambas mega sem-graça, fomos até ali enquanto o carro recebia os cuidados do frentista.

Quando estava me aproximando da lojinha, ouvi fiu fiiiuuuuu! Ãhn? Jura? Mas não foi um fiu fiu sem graça não, meu povo. Foi aquele com vontade, sabe?, esses que dão pras mulatas boazudas!

Caraca! Será?!? Fiquei ali. Estática. Paradona de tanta esperança. Daí, respirei fundo e dei um outro passo. E fiu fiiiuuuuu de novo!!! Ah que legal… E de rasteirinha, hein?!? Tô podendo…Meu coração saltitava. Queria olhar. Pouco me importava se o meu admirador era bonito ou feio. Tô nem aí. Mas queria olhar e dar um sorrisinho tipo de gostosa-meiga-pura agradecendo, sabe? Parei de novo. Inspirei o ar. Mexi no cabelo… Virei graciosamente e lentamente para curtir o momento. Olhei em volta.

Nada.

O frentista lá longe lavando o vidro da frente do takimóvel. E na lojinha, o caixa mascando chiclete com fones no ouvido vendo televisão. Onde está o meu adorável galanteador? Mais um passo e fiu fiiiuuuuu de novo. Fui andando devagar meio feliz meio curiosa. Rindo dele estar se escondendo…deve ser um pedreiro consertando o telhado. Fiu fiiiuuuuu!!! Que delícia…

Foi quando percebi que eu estava era me aproximando de um macaco de brinquedo de 20 centímetros que ficava pendurado na entrada da lojinha… Fala sério! Pode isso, Arnaldo????

Quase enfiei a bananada no buraco da boca daquele primata sem coração.

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“American Girl in Italy”, by Ruth Orkinfoto

Retratos da devastação causada pelo Alzheimer

Retratos da devastação causada pelo Alzheimer

A devastação mental que a doença de Alzheimer pode causar está representada na matéria abaixo através de 5 anos de autorretratos do artista inglês William Utermohlen.

Em 1995, aos 61 anos, ele foi diagnosticado com a doença de Alzheimer. Incentivado por sua enfermeira que amava o seu trabalho, Utermohlen nunca abandonou sua paixão pela pintura e, ao longo do tempo, continuou com suas pinturas até o momento em que sua memória  falhou completamente.

Os autorretratos do artista ilustram a infeliz e  inexorável  progressão da doença, que esteve presente nos últimos cinco anos de sua vida artística ativa.

“Mesmo nos momentos em que começou a ficar doente, ele estava sempre desenhando, a cada minuto do dia.” recorda a esposa do artista, Patricia Utermohlen. “Eu digo que ele morreu em 2000, porque ele morreu quando ele não podia pintar qualquer outra coisa. Entretanto sua morte física realmente aconteceu em 2007.”

Do original, Cultura Inquieta.

Traduzido e adaptado por Josie Conti

1967

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1996

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1996

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1997

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1998

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1999

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2000

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Fonte indicada!

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O Canto do Uirapuru, da Série: Recontando as Lendas Brasileiras

O Canto do Uirapuru, da Série: Recontando as Lendas Brasileiras

Por Nara Rúbia Ribeiro

O amor, quando decide nascer, escolhe o solo que bem quiser. Foi assim que um jovem guerreiro se apaixonou pela esposa do grande cacique. E por mais que lutasse internamente contra o sentimento, ele floria e já em breve, temia o guerreiro, o amor se faria a todos notar.

O guerreiro decidiu pedir a Tupã uma dádiva. Ele desejou ser transformado em um pássaro.

Tupã, compreendo a alma apaixonada do jovem, fez o que lhe fora pedido. O guerreiro, assim, num repente, ganhou penas, bico, asas: vermelho, todo vermelho-telha (o Uirapuru)!

E o pássaro dedicou-se, todas as noites, a cantar para a sua amada. Mas mesmo quando entregamos o nosso melhor afeto, mesmo enfeitado de pássaro, mesmo enleado nas mais belas melodias, muitas vezes o outro coração é só despreparo.

O canto do guerreiro-pássaro não foi percebido pelos ouvidos da amada. E, por uma ironia maior, quem enamorou-se do seu canto foi o cacique, que decidiu aprisionar a ave para que cantasse só para si.

Ameaçado, o guerreiro-pássaro voa para lugares longínquos da floresta e, perseguido pelo cacique, faz com que este se perca e nunca mais volte à tribo.

E é assim que o Uirapuru, todas as noites, retorna à tribo e canta as mais belas melodias para alegrar a alma solitária da mulher que lhe é a mais cara. E, ao fim de cada noite, retorna, solitário e vencido, para o seio das matas, pois os ouvidos da amada continuam despreparados para o seu canto de amor.

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Leia outras lendas em:  Recontando as Lendas Brasileiras

Abaixo,  o “Canto do Uirapuru”

Nara Rúbia Ribeiro: colunista CONTI outra

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Escritora, advogada e professora universitária.
Administradora da página oficial do escritor moçambicano Mia Couto.
No Facebook: Escritos de Nara Rúbia Ribeiro
Mia Couto oficial

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