Sobre o amor à primeira vista

Sobre o amor à primeira vista

Por Diego Caroli Orcajo

Muito se diz sobre o tal “amor à primeira vista”, porém pouco se questiona acerca de tal fenômeno. Será mesmo possível que de repente, como em um passe de mágica, tão grande sentimento surgisse? De onde viriam tais afetos, vidas passadas? Sem querer ser estraga prazeres, terei de negar as hipóteses mais românticas que poderiam ser ofertadas frente a esta questão.

Nenhum grande sentimento nasce do nada, tanto ódio quanto amor são afetos construídos sob muita frustração e/ou satisfação (não custa dizer que amor e ódio andam sempre juntos). O bebê, por exemplo, nasce sem compreender exatamente que existe algo que não seja extensão de seu próprio corpo. Ao perceber parcialmente a existência de um outro ser (no caso a mãe) ele começa a desenvolver seus afetos por esta. Tal fenômeno ocorre simplesmente por conta de uma carga filogenética? Negativo! A mãe irá oferecer muita segurança e satisfação (fisiológica e afetiva) para que o amor de seu filho seja conquistado.

Ok, já ultrapassamos a primeira parte da questão, agora resta-nos explicar algo de extrema relevância. Se tais sentimentos não surgem do nada, como é que se pode explicar aquele grande “amor” (ou ódio, por que não?) sentido ao ver uma pessoa pela primeira vez?

A resposta é simples: “Não existe amor à primeira vista, porém existe um mecanismo nomeado transferência”. Por meio deste, um afeto construido por um indivíduo é transferido para outro. Gosto de dizer que ocorre um deslocamento duplo. Primeiramente o deslocamento temporal, afinal, um sentimento do passado (mais ou menos remoto) ressurge agora, no presente. E em segundo, o deslocamento de objeto, neste momento o amor que foi construído para um indivíduo agora está sendo ofertado a outro.

Não seria nada adequado encerrar por aqui sem responder uma questão crucial: “E como é que se define para quem tais afetos serão transferidos?”.

Costumo trabalhar com duas hipóteses primordiais:

– Proximidade temporal: É muito comum e costuma ocorrer em alta frequência tanto no caso do amor quanto no do ódio. Proximidade temporal remete à curta distância de tempo entre uma construção afetiva e sua transferência. Como assim? Simples! Você nunca se estressou com alguém e descarregou seu ódio em outra pessoa que nada tinha a ver com a circunstância inicial? Então, eis um belo exemplo! E sobre o amor? Podemos citar os casos em que um casal se separa e rapidamente a garota (ou garoto) adentra um novo relacionamento com as mesmas características do anterior.

– Similaridade estética e/ou comportamental: Nestes casos o afeto irá surgir por conta de um indivíduo ter alguma característica que o conecte com uma figura afetiva importante do passado. Também ocorre com alta frequência e demoramos a perceber a quantia imensa de similaridades que o objeto atual de afeto tem se comparado ao anterior. Estes casos são bem demarcados pelo fato de que a pessoa que “ama” sempre espera que o indivíduo atual se comporte de maneira identica ao do passado, fazendo com que o afeto vá sendo desconstruído conforme a convivência força a pessoa a perceber as diferenças da pessoa real frente àquela idealizada inicialmente.

Agora, com tudo muito bem esclarecido resta-me apresentar um ponto positivo e um negativo acerca do que foi dito acima.

– Todos ganhamos uma maior compreensão acerca da psicologia humana e começaremos a perceber de forma muito mais adequada circunstâncias que antes nos passavam despercebidas;

– Continuaremos tão vulneráveis quanto antes aos explosivos sentimentos de amor e ódio que surgirão durante nossa existência.

Diego Caroli Orcajo, 23 anos. Estuda psicologia na Faculdade Municipal Professor Franco Montoro.

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A perda é inevitável

A perda é inevitável

Por Padma Samten

A aparente normalidade de nossas rotinas não nos prepara para os eventos-limite da derrota, abandono, depressão, doença e morte. Olhar esses acontecimentos com olhos de profundidade, antes que eles ocorram, nos ajuda a ter lucidez quando se concretizam. Omitir a realidade deles é inútil. Referindo-se à inevitabilidade da morte, Chagdud Rinpoche dizia, sorrindo: “antes de cair na água é necessário aprender a nadar”.

Na nossa cultura, a morte parece algo a ser evitado. Confrontados com a proximidade do fim de nossos entes queridos, nos sentimos incapazes de ajudá-los. Parece insuportável até mesmo ouvi-los. Impotentes, sofremos diante de suas dores e lamentos. Como ajudá-los e a nós mesmos quando nos aproximarmos desse momento? Onde colocar nossa mente e nossas emoções nessa passagem?  O que fazer quando entendemos que não poderemos mais ajudar nossos pais, nossos filhos e nossos amigos queridos? Nesse momento, as habilidades quanto ao funcionamento comum do mundo perdem seu poder. Defrontamo-nos com o desconhecido, impenetrável à nossa compreensão.

Situações-limite ocorrem também durante nossa trajetória, quando estamos doentes, derrotados, excluídos, impotentes. Parece não haver mais lugar para nós na vida, que então se apresenta hostil e inescrutável. Quando uma pessoa amada nos abandona, por exemplo, há um mundo que cessa. A dor da morte nos invade. Tudo ao redor perde o sentido, o brilho e a cor. A própria respiração é afetada. A energia vai embora. O futuro desaparece. O passado muda. O segredo dos mestres é que o potencial de visão, lucidez e cura está em cada um de nós. O que as estrelas no céu diriam das nossas dores e frustrações? Olhando a partir do espaço longínquo, o próprio planeta parece diminuto. O que dizer dos seres minúsculos e suas vidas, frustrações e dores flutuantes? Os mestres vivem no espaço livre além das bolhas e de lá nos ajudam com sua visão.

Mergulhados nas realidades estreitas e suas aflições, perdemos a consciência até mesmo do céu infinito sobre as nossas cabeças. A dor abarca a bolha onde estamos mergulhados. Quando reconhecemos essas bolhas de realidade e sua ação, é porque nossos olhos migraram para um lugar além delas e, portanto, além do sofrimento inerente a elas. Magicamente há o renascimento, o momento em que voltamos a sorrir e a energia passa a circular novamente. É como uma nova vida; talvez seja mesmo uma nova vida.

PADMA SAMTEN é lama budista. Fundou e dirige o Centro de Estudos Budistas Bodisatva, em Viamão, RS.

Fonte: Vida Simples

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“Eu penso renovar o homem usando borboletas”

“Eu penso renovar o homem usando borboletas”

Por Nara Rúbia Ribeiro

Tenho a mania interiorana de ouvir conversa alheia. Certo dia, goiana que sou, sentei-me no mercado central de Goiânia para comer uma empadinha de frango, enquanto ouvia três senhores de avançada idade, avós, bons cidadãos, comentarem sobre a violência e dizer que o seu crescimento se dava pela frouxidão com que as penas são cumpridas no Brasil.

O problema é que eles só enxergam uma ponta do nó afrouxado. Mas as pontas são duas e vou mostrá-las.

Proponho que pensemos no seguinte experimento:

Caminhe por sua rua e catalogue todos os cães ferozes, indomados, aparentemente não domesticados. Escolha um reduto pequeno, uns 10 metros quadrados, e aprisione-os a todos. Dá para colocar uns 30 cães nesse espaço. Comida regrada, pouco ou nenhum contato com o ambiente externo. Uns ferirão a outros, mas não tome partido. Deixe que a lei do mais forte prevaleça ali no cativeiro. Os mais fracos e os mais velhos, os menos ferozes, serão mortos em meio aos demais. Não se ocupe disso. Não os adestre. Não lhes dê carinho e afeto. Não lhes dê qualquer sorte de retribuição considerável por bons comportamentos. Nada.

Deixe-os ali por 5, talvez 10 anos. Findo esse prazo, chame a sua filha, ou sua neta de 5 anos e diz a ela:

– Pronto, já ensinamos essas feras. Está aqui a chave do cativeiro. Você pode soltá-los agora, querida. Já estão aptos ao convívio social.

Você faria isso? Entregaria a chave para a sua filha? Penso que não.

Todavia, assim como no experimento acima, trancafiamos humanos de tendência infeliz, descumpridores da lei penal, de comportamento antissocial e caráter questionável, na mesma condição que teríamos trancafiado os cães, no citado experimento. E, pasmem, ainda há quem se queixe e não entenda a escalada da violência em nosso país e diga estar estarrecido pela insegurança de nossos filhos.

A insegurança aumenta porque a maldade é viscosa. Uma vez em contato com a violência, ficamos impregnados do ódio, da sede de vingança, do desejo de retribuir o mal com um mal equivalente ou maior. Nós nos permitimos o uso da violência para com os violentos como se essa fosse a panaceia de todos males e o resultado disso é a sentença que hoje pesa sobre nós: medo, dor, insegurança, tristeza. Somos assombrados pelo espectro da nossa não caridade para com os menos afeitos à bondade: o “bandido” estuprado, ferido, ofendido, extorquido por autoridades vai voltar para a rua dez vezes pior do que quando entrou para a prisão. Isso é fato.

A violência é crescente porque pulou as nossas cercas morais e se alojou no sofá das nossas almas. Por isso aqueles bons senhores diziam: “Estuprador tem que ser estuprado mesmo. E tinha que matar a quem rouba.”

Acaso quem estupra ou quem faz apologia ao estupro de um estuprador é menos estuprador que o primeiro criminoso? Acaso a sociedade que mata a quem pratica um crime grave ou hediondo é menos criminosa, é menos vil que aquele a quem a pena capital está a ser aplicada?

A frouxidão do nó da justiça penal no Brasil não se dá apenas quando a pena é parcialmente cumprida, quando o culpado é inocentado ou quando o apenado, de dentro do presídio, permanece a praticar crimes. Tem outro lado e ainda mais frouxo: quando não tratamos o apenado como humano, quando retiramos dele muito mais do que a lei prevê, privando-o não só da sua liberdade, mas também do seu senso de dignidade, da possibilidade de ocupar-se decontioutra.com - "Eu penso renovar o homem usando borboletas"coisas nobres, da sua integridade física, da sua integridade psíquica.

Manoel de Barros, poeta matogrossense, pensava renovar o homem de um modo muito peculiar: usando borboletas. Sábio Manoel! Só a beleza, a candura, a pureza e a liberdade é que renovam o homem. Que elas (as borboletas)  inspirem-nos na tolerância da grande metamorfose que necessita advir para que possamos experimentar a real evolução.

Assim como hoje nos envergonhamos dos nossos antepassados em razão da escravidão a que submetiam outros humanos valendo-se de parâmetros como a cor, a origem ou a classe social, as futuras gerações se envergonharão de nós pela forma com que tratamos primeiro a educação dos nossos jovens e, depois, da reeducação dos nossos infratores.

Os nossos filhos e netos saberão, quando tiverem nas mãos as chaves do “canil humano” a que submetemos os nossos apenados, que os verdadeiros culpados da violência são aqueles que estão atrás das grades. E diga-me aqui: Algum de nós hoje é livre? Não estamos todos atrás das grades?

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Arte Pedro Ruiz

Meu nome no divã

Meu nome no divã

Por Patrícia Dantas

Quem nunca se imaginou num divã, fazendo uma terapia instigante, ser mais livre de si e do peso dos outros, acreditando que todas aquelas palavras iriam salvar sua vida do tédio e da confusão instalada? Eu sempre me imaginei e tinha certeza que algum dia, mais cedo ou mais tarde, iria acontecer.

A qualquer momento estaria pronta para embarcar em percepções que poderiam mudar o rumo de toda uma vida. Minha terapia, em minha cabeça, seria um daqueles tipos alternativos; algo que eu teria o controle e mudaria o ponto de vista a qualquer momento; uma tremenda de uma ficção com toques brutalmente reais.

Foi numa daquelas tardes, aparentemente sem novidade alguma, como costumamos chamar o novo que pode acontecer sem que tenhamos necessidade de esperar ou sabê-lo – ele apenas acontece, às vezes com longos pousos, prazeres e uma certa ironia quando se vai – e é como se ele (esse novo que chega tão repentino) escapasse de dentro da gente e ganhasse formas humanas irreconhecíveis.

Eu, tão quanto ela, era a moça da rua, das pessoas, da catarse das emoções. Alana Dias. Soava melhor Alana dos Dias – mas deixa como está. Ela veio a mim. Uma mulher tão humana e palpável como eu. Uma coincidência, como se eu realmente fizesse parte desse nome tão familiar que me foi confiado não sei por quanto tempo. Então, decidi que Alana seria o nome da minha primeira personagem que se fartará de si mesma num divã largo e de liberdade completa, no meio de tantas outras também personagens que ocupariam lugares secundários, mas não menos interessantes. Pode parecer autobiográfico porque ela – a Alana solta e livre – tem muito de mim, mas a desejo em sua total independência do meu universo tão vasto de trivialidades.

Alana agora é quase meu nome, como uma insígnia, veste as mesmas roupas, transita no mesmo cotidiano, sofre das mesmas inquietações quase esquizofrênicas, e vive como se não restassem as sombras do passado; para ela, é o futuro que se ergue a cada dia e a complexidade das relações que moldam seu universo. O presente – deste já lhe falaram tanto – é tudo o que ela deseja saber, perscrutar, arrancar com força e coragem de dentro de si, como um vulcão em erupção, não sabe por onde espalhar seus rastros ainda incertos. Ela depende imensamente do seu presente, mas necessita ainda mais saber o rumo que sua vida tomará em pouco tempo.

Há alguém para escutar, ou o divã parecerá mais um monólogo a sangue frio, como se Alana estivesse sozinha, convivendo aflitivamente com sua própria sombra? É o que muitos se perguntarão, ao tomarem conhecimento de toda essa história, dessa vontade de poder mais que superar, do desejo imenso e louco de voar, de permear os ares desconhecidos e vias inalcançáveis às pernas humanas, mas que o voo da imaginação as levará ainda mais alto. Há alguém que escuta, respira, acena, e não necessita ser visto ou notado. Há Alana agora somente, frente a frente com suas máscaras conflituosas.

E por que não serão permitidos diálogos intercalados e frequentes, um jogo de perguntas e respostas? Dá para saber que há mais alguém para escutar, e que talvez fale bem pouco ou não fale nenhuma palavra sequer, apenas um aceno de cabeça como quem diz “continue, continue” – e só se interessará pelo que perceber de necessário no meio ao redemoinho das histórias conectadas ou desconexas, ambíguas ou inúteis. Não será um bate e volta de diálogos, mas uma viagem de descobertas que poderá ter um fim inimaginável, com convergências e muito mais divergências, uma composição aleatória de complexas mesclas humanas não esperadas. São as minhas múltiplas vidas espalhadas num divã.

Desejamos e sonhamos com a liberdade – desesperadamente! -, e quando nos sentimos livres num divã, espalhamos mais que o necessário da nossa individualidade, de como somos e nos apresentamos no mundo, de como muitas vezes somos extrapolados, tomados e guiados por intensos e desvairados desejos; é a forma que aprendemos a nos conter e construímos socialmente nossas ações pelo nosso inimigo-amigo disfarçado que está sempre ao nosso lado.

Eles me esperam – os outros personagens! Saio correndo daqui, quase tombo diante da cadeira da escrivaninha; vou solta e leve como uma pluma. São tantos e tantos, leves, pesados, ingênuos, tirânicos, suas personalidades vão de deuses aos seres mais satânicos; são solitários, mas adoram a algazarra que há dentro de uma introspecção armada; eles estão à solta, longe da prisão. Vão se mostrar, uma a um, cara a cara. Veremos bichos soltos correrem de um lado para o outro, aflitos em suas confissões quase indizíveis.

Agora, o divã é só nosso. Temos pressa para que tudo aconteça e dê um basta em nossas vidas espalhadas em meio a estilhaços incompreensíveis. E que tudo recomece e seja breve e intenso e solto no mundo.

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Foto Henri Cartier Bresson

Vou tentando me encontrar

Vou tentando me encontrar
Por Adriana Vitória
Ele é maravilhoso ! Temos muito em comum ! Ela adora meus filhos ! Ele é bonzinho ! Ela é legal ! Ela é divertida ! E por aí vai …

Essas são algumas das muitas expressões que tenho ouvido ao longo dos anos. Alguns meses, semanas ou até, dias depois a coisa muda:

Ele é um egoísta ! Ela é muito chata, não gosta de fazer nada que eu gosto ! Ele não suporta meus filhos! Ela é pão dura ! E seguem as lamentações quase como refrões.
É o fim ! Mais um ! E a fila, que mais parece a de um banco, segue em frente aumentando cada dia mais a frustração.
A solidão anda incomodando cada vez mais, e na tentativa de resolver a questão, tenho visto muita gente, cada vez mais deprimida e desesperançada,  se apaixonando pelo primeiro(a) que aparece e logo desaparece, como na música de Altemar Dutra, “Você não me Ensinou a te Esquecer”:

“E nesse desespero em que me vejo
Já cheguei a tal ponto
De me trocar diversas vezes por você
Só pra ver se te encontro”

Ou nesse:
“Agora, que faço eu da vida sem você?
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
E te querendo eu vou tentando te encontrar
Vou me perdendo
Buscando em outros braços seus abraços
Perdido no vazio de outros passos
Do abismo em que você se retirou
E me atirou e me deixou aqui sozinho”

E termina:
“Você só me ensinou a te querer
E te querendo eu vou tentando me encontrar

Na tentativa de denunciar o abandono, acabamos nos denunciando. A música deixa claro que o indivíduo esta em busca de si mesmo.

Linda música ! Linda e melancólica.
A verdade é que, a solidão só aparece para aqueles que não suportam o vácuo, aqueles momentos tão necessários em que estamos cara a cara conosco, nossos medos, ansiedades e necessidades, então partem em busca de um lugar “seguro”, aquele que nos distancia de tudo que mais tememos, nós mesmos.
Nunca entenderam que, este contato é fundamental para desmistificar nossos fantasmas, descobrir nossas qualidades, nos transformar, tomar fôlego e pegar a estrada novamente, renovados e mais maduros.
Não há mágica no ciclo da vida, é a única forma de crescer.As eternas frustrações seriam evitadas se parássemos de tentar nos encontrar no outro e no outro, fugindo de nós mesmos, iludidos e refugiados em “casamentos” ou “sociedades” amargas com pessoas que mal conhecemos. E como poderíamos se nem nos demos a chance de sabermos quem somos e o que de fato queremos ?Seguimos sabotando a nós mesmos com a ilusão de que o próximo irá proporcionar a felicidade tão desejada e o amor tão esperado. A angustia só termina quando paramos para nos apreciar, arrumar a bagunça e seguir em frente.Quantos de nós, hipocritamente,  não acham graça daqueles que passam anos sozinhos sem querer sair com qualquer um ? Como diz o ditado: “Antes só do que mal acompanhado.”

Muito se perde ao longo dos anos com esta recusa, incluindo nosso tempo de vida desperdiçado com quem não tem nada em comum conosco. Se perdem as oportunidades de se ser feliz profissionalmente e até de encontrar quem de fato seria, o amor da nossa vida.

Não confundam tudo isto com amor. O amor não julga e nem cobra porque não precisa, ele sabe a quem pertence.
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Todos ambicionam a paz. Que fazes para sustentá-la?

Todos ambicionam a paz. Que fazes para sustentá-la?

Na tarefa da paz

Todos ambicionam a paz. Raros ajudam-na.
Que fazes por sustentá-la?
Recorda que a segurança dos aparelhos mais delicados depende, quase sempre, de
parafusos pequeninos ou de junturas inexcedivelmente singelas.
Não haverá tranqüilidade no mundo, sem que as nações pratiquem a tolerância e a
fraternidade.
E se a nação é conjunto de cidades, a cidade é um agrupamento de lares, tanto quanto o
lar é um ninho de corações.
A harmonia da vida começará, desse modo, no íntimo de nossas próprias almas ou toda
harmonia aparente na paisagem humana será sempre simples jogo de inércia.
Comecemos, pois, a sublime edificação no âmago de nós mesmos.
Não transmitas o alarme da crítica, nem estendas o fogo da crueldade.
Inicia o teu apostolado de paz, calando a inquietação no campo do próprio ser.

Emmanuel

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Papa Francisco revela leitura do livro “Pedagogia do Oprimido”, de Paulo Freire

Papa Francisco revela leitura do livro “Pedagogia do Oprimido”, de Paulo Freire

Conforme noticiado pela Revista Fórum, há algum tempo, o Papa Francisco recebeu, no Vaticano, a viúva do Pedagogo Paulo Freire, Ana Maria Araújo Freire,  em encontro privado que durou cerca de 40 minutos.

A audiência fora solicitada viúva e ocorreu há cerca de um mês para pedir ao Bispo de Roma que intercedesse junto aos sacerdotes de sorte a trazerem a público as cartas que lhes foram escritas por Paulo Freire acerca da Teologia da Libertação (corrente latino-americana que defende que a igreja deve estar sempre voltada às necessidades dos menos favorecidos).

Solicitou, ainda, que fossem abertos os arquivos do Vaticano para que se pudesse pesquisar a possível influência do livro “Pedagogia do Oprimido”, de Paulo Freire, nos pontificados a partir de 1970, data de sua publicação.

A viúva de nosso notável pedagogo e grande humanista obteve uma notícia que revela, de pronto, a grandeza da obra de Freire e sua repercussão junto à Igreja Católica: o Papa Francisco revelou ter lido o livro “Pedagogia do Oprimido”.

O livro mencionado por Francisco e todos  os demais livros de Paulo Freire podem ser baixados gratuitamente, no Acervo Paulo Freire.

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O desconhecido

O desconhecido

Por Patrícia Pinheiro

Sabe, um dia desses, em um desses momentos únicos, em que mergulhamos na infinitude de nossos pensamentos e parecemos esquecer do resto do mundo, minha mente me fez a seguinte pergunta: o que dá sentido a vida?

O que nos faz ter a vontade de levantar todo dia pela manhã e abrir a janela, mesmo quando o sol insiste em não aparecer?

Talvez seja uma ousadia, e até mesmo bobagem da minha parte tentar desvendar esse mistério, mas acredito que a resposta dessa pergunta pode ser resumida em apenas uma palavra: o desconhecido.

Já parou para pensar se nossa vida fosse um livro escrito, a partir do qual teríamos acesso não só aos grandes, como aos pequenos acontecimentos de nosso dia a dia?

Sendo assim, você levaria o guarda chuva ao sair de casa, pois saberia que a chuva viria, mas não desfrutaria da sensação única que é sentir ela escorrendo pelo seu corpo.

Você não tomaria as decisões erradas, mas também não teria a chance de adquirir o amadurecimento que, muitas vezes, só elas são capazes de nos fornecer.

Você não escolheria se apaixonar e se envolver com alguém que, segundo seu livro, irá te fazer sofrer, porém não traria consigo lindas lembranças dos momentos que dividiram juntos.

Mas não. Felizmente não é assim. Somos convidados cada dia a ir deitar sem saber o que esperar do dia de amanhã.

E é isso, esse total mistério e infinitude de possibilidades que nos dá, se não o sentido, a vontade de viver.

Tudo bem, a vida pode até ser um livro, mas somos nós quem pegamos o lápis e o preenchemos a cada dia com nossas constantes descobertas daquilo que, até então, era desconhecido.

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Conheça o trabalho de street art hiper-realista que surge da água

Conheça o trabalho de street art hiper-realista que surge da água

Sean Yoro é um artista havaiano que, mesmo morando em Nova Iorque, mantém parte de seu trabalho criativo sobre uma prancha de surfe. Para isso ele realiza pinturas de “street art” em murais de concreto que foram construídos dentro da água.

As figuras femininas surgem, então, também da água e o artista explora seus reflexos em um efeito tridimensional hiper-realista.

Convido-os para conhecer o seu trabalho.

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Conheça mais sobre o artista em seu website HULAInstagram.

Racismo, linchamento e meias – verdades

Racismo, linchamento e meias – verdades
Desde o ano passado, episódios de racismo contra jogadores de futebol têm sido frequentes. Em meados de 2014 um caso, relatado abaixo no texto, chamou a atenção devido a maneira como a torcedora do Grêmio foi identificada e perseguida após sua manifestação racisca. Em abril de 2015 a pôlemica foi reacesa quando o jogador Elias do Corinthians sofreu o mesmo tipo de insulto. Convido-os para refletir sobre o tema e o posicionamento das pessoas frente a situações como essas.

Racismo, linchamento e meias – verdades

Por Ana Flávia Velloso

Os jornais dão notícia do incêndio criminoso na casa da torcedora que chamou o goleiro do time adversário de “macaco.” O linchamento, que antes era moral, passou às vias de fato. Não se trata de minimizar o conteúdo racista da palavra usada. Mas é a história toda que se deve contar, pois, como me ensinou meu pai, pior do que a mentira é a meia verdade.

O insulto ocorreu num estádio de futebol, onde gramados e arquibancadas têm o hábito de testemunhar impropérios. Por que tanta comoção em torno de seis letrinhas proferidas num contexto tão, digamos, específico?

Psicanalistas costumam evocar a inclinação do indivíduo a se exaltar com feitos que ele próprio identifica como potencial fraqueza sua. É como se pela indignação pudéssemos expurgar o mal que habita nossa própria alma. Segundo essa lógica, a crítica voraz seria um meio de exorcizar nossos demônios, promovendo a equação simples: ele, malvado, eu, que o reprovo e repudio, bonzinho.

Hannah Arendt, ao presenciar o julgamento de Adolf Eichmann, expressou a opinião de que aquele homem, visto como a encarnação do mal, não passava de um burocrata. Ele seria, para ela, a personificação daquilo que chamou de a “banalidade do mal”, ou seja, de uma ideologia criminosa que permeava as estruturas de um Estado, de uma sociedade, de uma cultura.

A notável pensadora alemã, de origem judaica, foi mal interpretada. Acusaram-na de assumir a defesa do criminoso nazista. Hannah Arendt foi alvo de uma espécie de linchamento intelectual. Também pudera. Tocava ela num ponto nevrálgico. Sua tese era impalatável aos judeus, que buscavam, na condenação de Eichmann, uma catarse de sentimentos com os quais se tornava difícil conviver. Identificar o mal numa pessoa e aniquilá-la deve ser menos penoso que vislumbrar a injustiça como difusa, sem rosto, sem nome.

A sociedade ocidental, por sua vez, tão ciosa dos valores elevados que propagava naquele pós-guerra, pode ter sido insuportável a ideia de que a barbárie pudesse ter se disseminado também em suas bases, e de que ela própria teria sido cúmplice do horror que então censurava com veemência. A todos, quem sabe, teria parecido uma boa saída detonar os símbolos, acreditando que com as suas cinzas evaporava-se uma aberração, purgavam-se os crimes cometidos contra a humanidade.

Pergunto-me se o alvoroço criado pelo racismo – se é que houve mesmo manifestação de racismo – da jovem torcedora não se produziu por termos sido obrigados a confrontar um de nossos maiores flagelos. Talvez os julgadores mais severos tenham bem presente na memória o fato de que até outro dia alguns clubes brasileiros barravam abertamente a entrada de negros, que expressões pejorativas para designar os afrodescendentes, não faz muito tempo, eram articuladas impunemente, e ainda o são, hoje, em voz baixa. Talvez, enfim, seja um ódio racial inconsciente, convertido em insuportável culpa, que a sociedade brasileira queira arrancar de suas vísceras mediante atos de hostilidade dirigidos a uma pessoa determinada, escolhida no meio da multidão para purgar seus pecados.

Sigmund Freud mencionou a escolha de bodes expiatórios como o mais primitivo dos mecanismos de defesa do ser humano. É aquele gesto corriqueiro de descontar no outro as próprias frustrações e rancores. A sublimação seria o mais bem sucedido daqueles mecanismos. Sublimamos quando extraímos do sofrimento o poder de criar, como escrever um poema ou pintar um quadro. No âmbito coletivo, a agressão está longe de ser a forma mais evoluída de expressar boas intenções.

Gilberto Freyre escreveu, nos anos trinta, Casa Grande e Senzala. Se não podemos produzir obra-prima semelhante sobre as origens da discriminação racial em nossa sociedade, que tenhamos, pelo menos, ânimo para ler o livro, coragem para examinar nossas consciências e nos contarmos uma verdade inteira, e não cortada ao meio, por mais infame que ela nos pareça.

“O porto de Maputo é a minha varanda”, por Álvaro Taruma

“O porto de Maputo é a minha varanda”, por Álvaro Taruma

Já começaram a cacarejar os galos ainda que tomados pela timidez, há pouco tempo eram os cães a latir para dentro da minha insónia, mas não era para espantá-la, era um latido de amor; um amor canino que só dois cães vadios podem conceber. Afinal a insónia é uma cadela a evadir-se do quintal do sono. É um sonho que não nos quer sonhando a dormir.

Deixemos então a noite dormir e acordemos nós e a tarefa da escrita. São 04 horas e 13 minutos, de um madrugador inverno, o quarto é ainda escuro a não ser o fino clarão dos olhos das lagartixas de pele parda que se arrastam pelas paredes. Lá fora um camião desenrola-se no extenso lençol de nevoeiro, e vai grunhindo pela estrada batida a caminho do cais. Vejam que não é necessária a insónia para não se dormir. Há gente que trabalha a esta hora. Há gente cujo ofício se confunde com o das estrelas.
No cais, o camião vai ensopar-se de camarão; dois barcos o esperam, dois barcos cansados de arrastar o mar para dentro das suas redes, dois barcos que gritam, impacientes, as suas buzinas, cortando o desenlace silencioso da madrugada.

Quase nada circula por aqui, a estas alturas, excepto os cães e os felinos que atravessam pelo tecto da casa, os galos confusos com o fuso horário, e agora o gingado do motor do camião. É mesmo pacata esta minha Catembe que me perpassa o olhar nocturno.
Não muito distante, do outro lado da baía, chega-me imponente a cidade, monumental e antiga, como um dado sobre o dedo, resvala a sua carne de luz que preenche de brilho o trilho que percorre sua dura arquitectura de pedra; as melodias da incandescência vão subindo lentas pelo rubro telhado, e dissipam-se ao longe, entre as paredes de madeira e zinco, enquanto um grito corta a noite na exaustão do porto que trabalha.

O porto de Maputo é minha varanda! Todas as tardes navios chegam carregados de velhos fardos de sonhos, de roupa velha, da também velha Europa, que se renova no peito nu de um irmão africano; e de carros reciclados para embarcar o desejo motorizado da nossa classe média, e sua gula, dos vinhos, dos perfumes, e do charme de desconhecidos boullevards, que os vejo atravessar nossas globalizadas ruas. Mas daqui outros navios partem disparados, carregadíssimos de ouro, rubis, carvão mineral, camarões, chá, cornos de rinoceronte, tabaco, petróleo, algodão e um sei lá de coisas que me perturbam o sono.

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Álvaro Fausto Taruma é poeta, contista, e cronista (moçambicano), tendo publicado vários textos em jornais, revistas e blogues, entre outros espaços dedicados a literatura. É formado em Ensino de Português pela Faculdade de Línguas (actual ECLA) da Universidade Pedagógica. É também formado em Sociologia e Antropologia na Faculdade de Ciências Sociais e Filosóficas, exerceu funções no Secretariado Técnico de Administração Eleitoral. Actualmente está ligado a área de Educação

Prospecção, um profundo e belo poema de Miguel Torga

Prospecção, um profundo e belo poema de Miguel Torga

Procurar as riquezas dentro em nós: seria este o principal objetivo da Vida?

Prospectar-se: seria este o ato de obediência ao “Conhece-te a ti mesmo”?
Abaixo, o poema de Torga, leva-nos a esta profunda meditação.

Prospecção

Não são pepitas de oiro que procuro.
Oiro dentro de mim, terra singela!
Busco apenas aquela
Universal riqueza
Do homem que revolve a solidão:
O tesoiro sagrado
De nenhuma certeza,
Soterrado
Por mil certezas de aluvião.
Cavo,
Lavo,
Peneiro,
Mas só quero a fortuna
De me encontrar.
Poeta antes dos versos
E sede antes da fonte.
Puro como um deserto.
Inteiramente nu e descoberto.

Miguel Torga

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“Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá”, por Rubem Alves

“Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá”,  por Rubem Alves

Quero contar para vocês a estória que mais tenho contado – não aconteceu nunca, acontece sempre. Um homem muito rico, ao morrer, deixou suas terras para os seus filhos. Todos eles receberam terras férteis e belas, com a exceção do mais novo, para quem sobrou um charco inútil para a agricultura. Seus amigos se entristeceram com isso e o visitaram, lamentando a injustiça que lhe havia sido feita. Mas ele só lhes disse uma coisa: “Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá.”

No ano seguinte, uma seca terrível se abateu sobre o país, e as terras dos seus irmãos foram devastadas: as fontes secaram, os pastos ficaram esturricados, o gado morreu. Mas o charco do irmão mais novo se transformou num oásis fértil e belo. Ele ficou rico e comprou um lindo cavalo branco por um preço altíssimo.

Seus amigos organizaram uma festa porque coisa tão maravilhosa lhe tinha acontecido. Mas dele só ouviram uma coisa: “Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá.” No dia seguinte seu cavalo de raça fugiu e foi grande a tristeza. Seus amigos vieram e lamentaram o acontecido. Mas o que o homem lhes disse foi: “Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá.”

Passados sete dias o cavalo voltou trazendo consigo dez lindos cavalos selvagens. Vieram os amigos para celebrar esta nova riqueza, mas o que ouviram foram as palavras de sempre: “Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá.” No dia seguinte o seu filho, sem juízo, montou um cavalo selvagem. O cavalo corcoveou e o lançou longe. O moço quebrou uma perna. Voltaram os amigos para lamentar a desgraça. “Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá”, o pai repetiu. Passados poucos dias vieram os soldados do rei para levar os jovens para a guerra. Todos os moços tiveram de partir, menos o seu filho de perna quebrada. Os amigos se alegraram e vieram festejar. O pai viu tudo e só disse uma coisa: “Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá…”

Assim termina a estória, sem um fim, com reticências… Ela poderá ser continuada, indefinidamente. E ao contá-la é como se contasse a estória de minha vida. Tanto os meus fracassos quanto as minhas vitórias duraram pouco. Não há nenhuma vitória profissional ou amorosa que garanta que a vida finalmente se arranjou e nenhuma derrota que seja uma condenação final. As vitórias se desfazem como castelos de areia atingidos pelas ondas, e as derrotas se transformam em momentos que prenunciam um começo novo.

Enquanto a morte não nos tocar, pois só ela é definitiva, a sabedoria nos diz que vivemos sempre à mercê do imprevisível dos acidentes. “Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá.”

Conheçam o Instituto Rubem Alves e participem de seus projetos.

Os sete pecados de nosso sistema de educação forçado

Os sete pecados de nosso sistema de educação forçado

Educação forçada: como o termo prisão, esse termo soa pesado. Mas, se temos uma escolaridade obrigatória, então temos educação forçada. O termo obrigatório, se ele tem qualquer significado, significa que a pessoa não tem escolha quanto a isso.

A reflexão que vale é a seguinte: seria a educação forçada – e a consequente prisão de crianças – uma coisa boa ou uma coisa ruim?

Aqui estão algumas das razões para se acreditar que é uma coisa ruim, em uma lista com os “sete pecados” do nosso sistema de educação forçada:

1. Negação de liberdade com base na idade.

Para prender um adulto, precisamos provar, em um tribunal de direito, que a pessoa cometeu um crime ou é uma séria ameaça para si mesma ou aos outros. Ainda assim, encarceramos crianças e adolescentes na escola apenas por causa de sua idade: este é o mais flagrante dos pecados da educação forçada.

2. A promoção de vergonha, por um lado, e arrogância, por outro.

Não é fácil forçar as pessoas a fazer o que elas não querem. Nós não usamos a palmatória, como professores faziam antigamente, mas contamos com um sistema de controle incessante, classificação e ranking das crianças em comparação com os seus colegas. Nós, assim, distorcemos os sistemas emocionais humanos de vergonha e orgulho para motivar as crianças a fazer o trabalho. As crianças são colocadas a se sentir envergonhadas se tiverem um desempenho pior do que os seus colegas e orgulho se tiverem um melhor desempenho. Vergonha leva alguns a abandonar, psicologicamente, o esforço educacional e a se tornar palhaços de classe (não muito ruim), ou valentões (ruim), ou abusadores e traficantes (muito mau). Aqueles que são colocados a sentir orgulho excessivo das realizações rasas que fazem eles ganharem um A (ou 10) e honrarias podem tornar-se arrogantes, desdenhosos dos outros comuns que não se saem tão bem em testes; desdenhosos, portanto, dos valores e processos democráticos (e este pode ser o pior efeito de todos).

3. Interferência com o desenvolvimento da cooperação e nutrição.

Nós somos uma espécie intensamente social, concebida para a cooperação. As crianças naturalmente querem ajudar os seus amigos, e até mesmo na escola elas encontram maneiras de fazer isso. Mas o nosso sistema baseado na competição de classificação e graduação de estudantes trabalha contra a unidade cooperativa. Além disso, a divisão de idades forçada que ocorre na própria escola promove a concorrência e bullying e inibe o desenvolvimento de nutrição. Ao longo da história humana, as crianças e adolescentes aprenderam a serem atenciosos e prestativos através de suas interações com as crianças mais jovens. O sistema escolar graduado em idade os priva de tais oportunidades.

4. Interferência com o desenvolvimento da responsabilidade pessoal e auto-direção.

As crianças são biologicamente predispostas a assumir a responsabilidade por sua própria educação. Elas brincam e exploram de formas que lhes permitem aprender sobre o mundo físico e social em torno delas. Elas pensam sobre o seu próprio futuro e tomam medidas para se preparar para isso. Confinando as crianças na escola e em outras atividades de adultos, e preenchendo seu tempo com tarefas, os priva das oportunidades e tempo que eles precisam para assumir suas responsabilidades. Além disso, a mensagem implícita e às vezes explícita do nosso sistema de escolaridade obrigatória é: “Se você faz o que é dito para se fazer na escola, tudo vai funcionar bem para você”. As crianças que caem nisso podem parar de assumir a responsabilidade por suas próprias educações. Elas podem assumir falsamente que alguém tenha descoberto o que elas precisam saber para se tornar adultos bem sucedidos, então elas não têm que pensar nisso. Se suas vidas não funcionam tão bem, elas tomam a atitude de uma vítima: “A minha escola (ou pais ou sociedade) me falhou, e é por isso que a minha vida é toda ferrada.”

5. Relacionar aprendizagem com medo, repugnância e trabalho forçado.

Para muitos estudantes, a escola gera intensa ansiedade associada com a aprendizagem. Os alunos que estão aprendendo a ler e são um pouco mais lentos do que o resto se sentem ansiosos sobre a leitura na frente dos outros. As provas geram ansiedade em quase todos que as levam a sério. Ameaças de fracasso e vergonha associada à insuficiência geram enorme ansiedade em alguns. O princípio psicológico fundamental é que a ansiedade inibe a aprendizagem. A aprendizagem ocorre melhor em um estado brincalhão, e a ansiedade inibe a ludicidade. A natureza forçada da escolaridade transforma a aprendizagem em trabalho. Os professores até chamam isso de trabalho: “Você deve fazer o seu trabalho antes de você poder brincar”. Assim, aprender, algo que crianças biologicamente anseiam, torna-se uma labuta – algo a ser evitado sempre que possível.

6. Inibição do pensamento crítico.

Presumivelmente, um dos grandes objetivos gerais da educação é a promoção do pensamento crítico. Mas apesar de todo esforço que os educadores se dedicam a esse objetivo, a maioria dos estudantes – incluindo a maioria dos “estudantes de honra” – aprendem a evitar pensar criticamente sobre seus trabalhos escolares. Eles aprendem que sua função na escola é obter notas altas em testes e que o pensamento crítico apenas desperdiça tempo e interfere. Para conseguir uma boa nota, você precisa descobrir o que o professor quer que você diga e, em seguida, dizer isso. O sistema de classificação, que é o principal motivador no nosso sistema de educação, é uma força poderosa contra o debate honesto e pensamento crítico em sala de aula.

7. Redução da diversidade de competências, conhecimentos e formas de pensar.

Ao forçar todos os alunos através do mesmo currículo padrão, podemos reduzir as suas oportunidades para seguir caminhos alternativos. O currículo escolar representa um pequeno subconjunto das habilidades e conhecimentos que são importantes para a nossa sociedade. Neste dia e época, ninguém pode saber mais do que um pedaço de tudo que há para saber. Por que forçar todo mundo a aprender a mesma coisa? Quando as crianças são livres – como já observado em escolas alternativas e homeschooling (educação em casa) – elas tomam caminhos novos, diferentes e imprevisíveis. Elas desenvolvem interesses apaixonados, trabalham com afinco para se tornar especialistas em áreas que as fascinam, e, em seguida, encontram maneiras de ganhar a vida através da prossecução dos seus interesses. Os alunos forçados através do currículo padrão têm muito menos tempo para perseguir seus próprios interesses, e muitos aprendem bem a lição de que seus próprios interesses não contam; o que conta é o que é medido em testes das escolas. Alguns superam isso, mas muitos não o fazem.

Fonte: Psychology Today, Notícias Alternativas

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