Uma visão espiritual da não maternidade

Uma visão espiritual da não maternidade

Por Adriana Abraham

Há algumas semanas, estávamos eu e uma colega de trabalho conversando sobre a minha experiência da não maternidade e eis que surge uma frase que, mesmo sem intenção, manifestou em mim a vontade de escrever o presente depoimento.

– Não é a mesma coisa. Amor de mãe é diferente.

A frase acima foi dita em resposta a minha afirmação de que a maternidade poderia ser exercida em favor dos sobrinhos, dos filhos de amigos, namorados, maridos e até mesmo em favor dos filhos de completos desconhecidos.

Ora, se não é a mesma coisa então o que é? Seria um sentimento inferior, produzido a partir da frustração de não estar cumprindo o papel que a natureza determinou a nós mulheres? Os nossos sentimentos seriam diferentes dos sentimentos das outras mulheres?

Se fossemos uma classe distinta de mulheres, como no sistema de castas da Índia, seríamos as “Párias”. Segmento que se encontra fora do sistema de castas. Essas seriam as mulheres que, em algum momento de suas vidas, contrairiam ou não matrimônio, união estável ou qualquer outro tipo de relacionamento íntimo, não tendo gerado filhos dessas relações. Assim, as párias se dedicariam aos filhos dos outros, nutrindo até sentimentos profundos, em busca de um substituto para a sua não maternidade.

Em nossa sociedade a mulher se sente pressionada a justificar a ausência de uma prole, especialmente se já tem uma idade avançada. A expressão de surpresa no rosto das pessoas quando afirmo que não tive filhos me intriga. Avançamos em tantos aspectos, mas ainda hoje discriminamos nossas colegas, amigas, parentes, como se fosse ilegal não ter tido filhos.

Existem tantas circunstâncias que podem levar uma mulher a não ter filhos, como por exemplo: opção pela não maternidade, questões financeiras, emocionais ou até físicas.

Poderíamos então, retomando a reflexão quanto ao amor de mãe, partir da seguinte premissa: Estar biologicamente programada para a maternidade não garante amar incondicionalmente seu (s) filho(s).

Isso me levou a pensar em todas as escolhas que realizei durante meus quarenta e cinco anos que de alguma forma me conduziram a não maternidade. Mesmo que em algumas ocasiões não intencionalmente.

Eu sempre tive uma curiosidade enorme por conhecer outras culturas, viajar, morar em outros países, ser livre para mudar meu destino a qualquer momento, sem maiores consequências. Lembro claramente de optar pela não maternidade aos vinte e poucos anos por não querer interromper um fluxo criativo que me impelia a me movimentar em direção ao desconhecido.

Por volta dos trinta e poucos anos, apesar de ainda sentir esse chamado para o desconhecido, busquei relacionamentos que me possibilitariam exercer a maternidade da forma tradicional. Era fácil abrir mão da maternidade aos vinte e poucos quando a estrada da vida estava só começando. Só que nessa época senti uma inesperada urgência que muitas vezes me levou a estabelecer relacionamentos inadequados para mim, porém perfeitos para o projeto maternidade.

Aos quarenta e poucos anos, em face da aproximação do limite biológico do meu corpo, cheguei a considerar uma produção independente ou mesmo uma adoção como muitas mulheres fazem. Porém, eu sabia que essa não era exatamente a minha vontade. Queria fazer esse projeto junto com alguém especial. Um companheiro com o qual compartilharia as alegrias e também os desafios de trazer um filho ao mundo.

Então, algo inesperado aconteceu. Na verdade não tão inesperado, pois esse processo já tinha se iniciado alguns anos antes, fruto de uma profunda reflexão originada da frustração em não ter conseguido realizar a maternidade da forma como eu concebia ideal.

Estou falando de uma mudança de visão acerca da maternidade. Uma visão que acredito ser espiritual. O exercício da maternidade pode ser muito mais amplo do que a maioria das mulheres percebem. O amor incondicional de uma mãe por seu filho pode ser perfeitamente experimentado por uma mulher que não tenha gerado a criança no seu sentido biológico. Pensem nas mulheres que adotam seus filhos. O amor que uma mãe adotiva sente por seu filho seria diverso do que sente uma mãe biológica?

Pensemos na representação do amor maternal nos relatos bíblicos. Não seria Maria a mãe de todos? Ou só de Jesus? Porque não podemos amar como as demais mães, mesmo que por um breve momento. Um olhar doce para uma criança abandonada na rua, apenas uma palavra carinhosa trocada com o filho de um amigo, um abraço forte nas sobrinhas e puff! Eis que surge o amor incondicional desvinculado da ligação exclusivamente maternal.

Se eu desisti de ser mãe? Não. Apenas descobri, após sofrer muito, que já venho exercendo a maternidade de uma forma mais ampla. Não espero mais ter um filho para, a partir daí, descobrir o que é o amor de mãe.

Quem acredita ser esse sentimento apenas o destinado aos seus filhos, ainda não experimentou o amor maternal. Que é incondicional. Não se trata apenas de compaixão pelo próximo. É AMOR no seu sentido pleno.

Amor de mãe é realmente diferente, agora eu sei.

Amar- Marília Pêra recitando Carlos Drummond de Andrade

Amar- Marília Pêra recitando Carlos Drummond de Andrade

Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
Carlos Drummond de Andrade

Marília Pêra em uma produção do Instituto Moreira Salles_ IMS

Necrológio dos desiludidos do amor- Fernanda Torres recita Drummond

Necrológio dos desiludidos do amor- Fernanda Torres recita Drummond

Necrológio dos Desiludidos do Amor
Os desiludidos do amor
estão desfechando tiros no peito.
Do meu quarto ouço a fuzilaria.
As amadas torcem-se de gozo.
Oh quanta matéria para os jornais.

Desiludidos mas fotografados,
escreveram cartas explicativas,
tomaram todas as providências
para o remorso das amadas.

Pum pum pum adeus, enjoada.
Eu vou, tu ficas, mas nos veremos
seja no claro céu ou turvo inferno.

Os médicos estão fazendo a autópsia
dos desiludidos que se mataram.
Que grandes corações eles possuíam.
Vísceras imensas, tripas sentimentais
e um estômago cheio de poesia…

Agora vamos para o cemitério
levar os corpos dos desiludidos
encaixotados competentemente
(paixões de primeira e de segunda classe).

Os desiludidos seguem iludidos,
sem coração, sem tripas, sem amor.
Única fortuna, os seus dentes de ouro
não servirão de lastro financeiro
e cobertos de terra perderão o brilho
enquanto as amadas dançarão um samba
bravo, violento, sobre a tumba deles.

Carlos Drummond de Andrade, in ‘Brejo das Almas’

*Participação da atriz Fernanda Torres no vídeo do Instituto Moreira Salles em homenagem ao Carlos Drummond de Andrade.

As palavras não ditas e seu efeito nos relacionamentos afetivos

As palavras não ditas e seu efeito nos relacionamentos afetivos

Por Adriana Abraham

As palavras não ditas nos acompanham indefinidamente, como uma melodia desarmônica, causando sofrimento a todos os que se aproximam de nós.

O “diálogo” inacabado com alguém que já não faz mais parte do nosso convívio dificulta que sejam estabelecidas relações saudáveis com os demais. Como ouvir quem está diante de nós se constantemente estamos ocupados conversando com outra pessoa que não está presente fisicamente, mas permanece em nossos pensamentos de forma obsessiva?

Quando não temos a oportunidade de expressar a nossa verdade no momento desejado, seja por qualquer motivo, nos tornamos reféns de um diálogo inacabado. Tal fato ocorre com frequência nos relacionamentos afetivos. Saímos de uma discussão ou até mesmo de uma simples conversa com o parceiro e já engatamos num monólogo que nos acompanhará, em algumas infelizes circunstâncias, por toda a vida. Algumas vezes não dá nem tempo de chegar ao elevador. Muitas vezes a discussão ou conversa nem foi devidamente processada.

Em tempo de comunicações instantâneas perdemos a habilidade de nos comunicar com clareza. Preferimos, então, guardar as “palavras ditas” para quando não estivermos na presença do parceiro. Em algumas circunstâncias por acreditar que não seremos ouvidos, respeitados ou até mesmo acolhidos em nossas colocações.

Caminhamos para uma sociedade na qual os casais se expressarão claramente sobre suas necessidades mais íntimas somente quando estão sozinhos, com os amigos ou com o terapeuta.

Aqueles que ousarem desafiar essa regra serão chamados, no mínimo, de carentes. Ter liberdade suficiente para se expressar dentro de um relacionamento, não pode ser confundida com dependência emocional. Isso não significa dizer tudo o que pensa ou até mesmo omitir a verdade com a intenção de manipular ou ferir o parceiro. Isso é crueldade na sua forma mais bruta.

É fato que desde o nascimento buscamos formas hábeis de nos comunicarmos com quem nos cerca. Descobrimos o choro como forma primária de obter o que desejamos. Nesse sentido, negligenciar nossa necessidade básica de comunicação em nome da manutenção de um relacionamento íntimo, mesmo que esse nos cause sofrimento intenso, nada acrescenta ao futuro da relação, tampouco ao crescimento individual de cada parceiro.

O medo de se expor perante o parceiro, de confiar sua fragilidade ao outro, entra na equação como um componente vertiginoso. Ninguém quer sair de um relacionamento “por baixo”.

Preferimos engolir o que é impossível de digerir e depois sofrer os efeitos físicos, psíquicos e principalmente espirituais dessa decisão.

Se a verdade nos libertará, nas palavras do mestre Jesus, o que temos a temer? Uma relação construída sobre bases reais não esmorece diante do primeiro conflito.

Lya Luft, em seu livro “O silêncio dos amantes”, descreve um casal no qual “(…) as coisas não ditas haviam crescido como cogumelos venenosos”. Então, se as palavras que deveríamos ter dito, no momento em que deveríamos ter dito, não forem devidamente expressas, elas apodrecerão lentamente dentro de nós.

Assim, que tenhamos coragem de expressar nossa verdade, de forma digna e no momento adequado, de tal sorte que as palavras ditas simplesmente transcendam, ou seja, que não pertençam mais ao parceiro que as proferiu e sim ao relacionamento de ambos. Que essas palavras posam ajudar a tornar a relação mais consistente, transparente e real. Que não sirvam para outro fim além de transformar a escuridão em luz.

Mantra:

“Que as minhas palavras sejam ouvidas, respeitadas e acolhidas”.

Publicado originalmente em http://www.nowmaste.com.br/

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Carta de uma esposa (Sheryl Sandberg) após 30 dias do falecimento de seu marido

Carta de uma esposa (Sheryl Sandberg) após 30 dias do falecimento de seu marido

Nota da edição: Imagem de Sheryl Sandberg e seu marido Dave Goldberg, e carta traduzida e republicada com permissão de Sheryl Sandberg.

Sheryl Sandberg, Vice-presidente de operações do Facebook, postou em sua página, no dia 3 de junho de 2015, uma carta e tributo emocionado ao falecido marido Dave Goldberg, presidente executivo do site SurveyMonkey. Dave faleceu no dia 2 de maio de 2015 enquanto em férias com a família no México. Ele se acidentou na academia onde se exercitava e sofreu traumatismo craniano, que resultou em óbito imediato. Abaixo, a tradução do que Sheryl postou em sua página após 30 dias da perda do esposo:

“Hoje é o fim do ‘Sheloshim’, os primeiros trinta dias de luto, por meu amado marido. O judaísmo denomina de ‘Shiva’ um período de intenso luto, que dura sete dias após o enterro de alguém querido. Depois do Shiva, a rotina pode voltar ao normal, mas é o fim do Sheloshim que marca a realização completa do luto por um cônjuge.

Um amigo de infância, que agora é um rabino, recentemente me disse que a oração mais poderosa que ele já leu foi: “não me deixe morrer enquanto ainda estiver vivo”. Eu nunca teria entendido essa oração antes de perder Dave. Agora eu entendo.

Penso que, quando uma tragédia acontece, ela nos apresenta uma escolha. Você pode se render ao vazio que enche seu coração, seus pulmões, tira sua capacidade de pensar ou até mesmo de respirar. Ou você pode tentar encontrar o sentido de tudo isso. Nesses últimos trinta dias, eu fiquei perdida no vazio por muitos momentos. E eu sei que muitos momentos futuros serão consumidos do mesmo jeito por esse mesmo vazio.

Mas, quando eu posso, eu quero escolher a vida e o significado.

E é por isso que eu estou escrevendo: para marcar o fim do Sheloshim e dar de volta um pouco do que os outros têm me dado. Enquanto a experiência de doar é profundamente pessoal, a braveza daqueles que compartilharam suas próprias experiências tem me ajudado a me recolocar nos eixos. Alguns dos que abriram seus corações foram os meus amigos mais próximos. Outros foram totais desconhecidos que compartilharam sabedoria e conselhos publicamente. Então, eu estou compartilhando o que eu aprendi, na esperança de que isso ajude outro alguém. Na esperança de que exista algum sentido para esta tragédia.

Eu envelheci trinta anos nestes trinta dias. Eu estou trinta anos mais triste. Eu me sinto como se fosse trinta anos mais sábia.

Eu ganhei um entendimento bem mais profundo de o que é ser uma mãe, com a agonia que eu senti quando meus filhos gritaram e choraram, e com a conexão que minha mãe teve ao sentir meu sofrimento. Ela tem tentado preencher o vazio na minha cama, me abraçando firme toda noite enquanto eu choro até dormir.

Ela tem lutado para segurar suas próprias lágrimas em lugar das minhas. Ela tem me explicado que a angústia que eu estou sentindo é ao mesmo tempo minha e dos meus filhos, e eu entendi que ela estava certa quando eu vi a dor nos olhos dela.

Eu aprendi que eu nunca vou realmente saber o que dizer para outros que precisam de conforto. Eu acho que eu entendi tudo errado antes; eu tentei afirmar a todo mundo que eu estava bem, pensando que a esperança era a coisa mais confortável que eu poderia oferecer. Um amigo meu com câncer avançado me disse que a pior coisa que as pessoas podem dizer a ele é: “tudo vai ficar bem”. Aquela voz na cabeça dele ficava gritando: “como você sabe que tudo vai ficar bem? Você não entende que posso morrer?”. Eu aprendi nesse último mês que ele estava tentando me aconselhar. A real empatia é, às vezes, não insistir que tudo vai ficar bem, mas saber que provavelmente não vai.

Quando as pessoas dizem para mim “você e seus filhos irão encontrar a felicidade de novo”, meu coração me diz: “sim, eu acredito nisso, mas eu sei que eu nunca mais vou sentir o prazer puro novamente”. Aqueles que têm dito “você irá encontrar um ‘novo normal’, mas nunca será tão bom quanto antes” me confortam mais porque eu sei que eles estão falando a verdade.

Até um simples “como você está?” – na maioria das vezes, perguntado na melhor das intenções – seria melhor substituído por um “como você está hoje?”. Quando me perguntam “como você está?”, eu me esforço e me impeço de gritar: “meu marido morreu há um mês, como você acha que eu estou?”. Quando eu escuto “como você está hoje?”, eu percebo que essa pessoa sabe que o máximo que consigo fazer agora é viver cada dia.

Eu tenho aprendido sobre algumas coisas práticas que importam. Sabemos agora que o Dave morreu imediatamente, mas eu não sabia disso na ambulância. A ida até o hospital foi completamente lenta. Eu ainda odeio cada carro que não deu passagem, cada pessoa que se importava mais em chegar ao seu destino alguns minutos antes do que dar passagem para nós passarmos. Eu notei isso enquanto eu dirigia em diversas cidades e diversos países. Vamos todos sair do caminho! O pai, parceiro ou filho de alguém talvez dependa disso.

Eu tenho aprendido o quão efêmera cada coisa pode ser sentida, e talvez isso seja tudo. Que qualquer que seja o “tapete” em que você esteja, ele pode ser puxado de você sem nenhum aviso. Nos últimos trinta dias eu ouvi de várias mulheres que perderam os maridos que vários tapetes foram puxados. Algumas suportaram e lutaram sozinhas com o sofrimento emocional e a insegurança financeira. Me parece tão errado que nós abandonemos essas mulheres e suas famílias quando elas mais precisam.

Eu tenho aprendido a pedir ajuda, e tenho percebido o quanto de ajuda eu preciso. Até agora, eu tenho sido a irmã mais velha, a diretora de operações, a doadora e a organizadora. Eu não planejei isso, e quando aconteceu, eu não era capaz de fazer a maioria das coisas. Os mais próximos a mim foram os que comandaram tudo. Eles planejaram. Eles arrumaram. Eles me disseram para sentar e me lembrar de comer. E ainda fizeram muito para apoiar a mim e aos meus filhos!

Eu tenho aprendido que a resiliência pode ser aprendida. Adam Grant me ensinou três coisas que são essenciais para a resiliência e que eu posso aprender todas elas. Personalização: admitir que não é minha culpa. Ele me disse para banir a palavra “desculpa”. Para dizer a mim mesma várias e várias vezes que não é minha culpa. Permanência: lembrar que eu não vou me sentir assim para sempre. Que vai ficar melhor. Infiltração: isso não vai afetar cada parte de mim. É a habilidade de permanecer saudável.

Para mim, começar essa transição de voltar ao trabalho tem sido salvadora, a chance de me sentir útil e conectada. Mas eu descobri que mesmo essas conexões mudaram. Muitos dos meus colegas de trabalho têm um olhar de medo quando se aproximam de mim. Eu descobri que eles queriam me ajudar mas não tinham certeza de como fazer isso. “Devo mencionar isso? Não devo falar disso? Se eu falar, o que diabos vou dizer?”. Eu percebi que, para restabelecer a proximidade com meus colegas que sempre foram importantes para mim, eu precisava deixar eles entrarem. E isso significava ser o mais aberta e vulnerável que eu podia.

Eu disse para aqueles com quem trabalho mais que eles poderiam me fazer perguntas honestas, e eu iria responder. Também disse que tudo bem se eles quisessem falar de como eles se sentiam. Uma colega admitiu que estava dirigindo até minha casa frequentemente, em dúvida se entrava ou não. Outro disse que ficava paralisado quando eu estava por perto, preocupado que talvez dissesse a coisa errada. Falando abertamente do medo de dizer e fazer alguma coisa errada. Um dos meus desenhos favoritos de todos os tempos é um elefante na sala do telefone, escrito “isso é o elefante”. Uma vez que enfrentei o elefante, nós pudemos tirar ele da sala. (Nota da edição: a expressão em inglês “elefante na sala” significa quando uma verdade é tão óbvia que não dá para ser ignorada).

Ao mesmo tempo, há momentos em que eu não consigo deixar as pessoas entrarem. Eu fui a uma noite na escola quando as crianças mostram aos pais os desenhos nas paredes das salas de aula. Muitos dos pais, os quais também têm sido muito gentis, tentaram fazer contato ou falar algo que eles pensavam ser confortável. Eu olhava para baixo o tempo todo, para que nenhum deles me olhasse nos olhos, com medo que isso me deixasse pior. Eu espero que eles tenham entendido.

 

Eu tenho aprendido sobre gratidão. A verdadeira gratidão pelas coisas que eu tomava como garantidas antes, como a vida. Como alguém de coração partido, eu olhava para meus filhos todos os dias e agradecia por eles estarem vivos. Eu aprecio cada sorriso, cada abraço. Eu não vejo mais cada dia como garantido. Quando um amigo me disse que ele odiava aniversários e, por isso, não os celebrava, eu olhei para ele em meio a lágrimas: “Celebre seu aniversário, caramba! Você tem sorte de ter cada um deles”. Meu próximo aniversário vai ser muito deprimente, mas estou determinada a celebrá-lo no meu coração mais do que eu jamais celebrei um aniversário antes.

Eu sou realmente agradecida aos muitos que ofereceram sua simpatia. Um colega me disse que sua esposa, quem eu nunca conheci, decidiu mostrar seu apoio indo de volta à escola para obter seu diploma, coisa que ela estava enrolando por anos para fazer. Sim! Quando as circunstâncias permitem, eu acredito, mais do que nunca, em aprender. E muitos homens, alguns que eu conheço e outros que eu sei que nunca irei conhecer, estão honrando a vida de Dave passando mais tempo com suas famílias.

Eu não consigo expressar a gratidão que eu senti à minha família e aos meus amigos que têm feito tanto para me ajudar, e continuam fazendo. Nos momentos brutais quando eu sou preenchida pelo vazio, quando os meses e anos me parecem vazios e intermináveis, só as faces deles me colocam de volta nos eixos. Minha gratidão por eles não tem fim.

Eu estava falando para um desses amigos sobre as atividades de pais e filhos que Dave não está aqui para fazer. Nós pensamos num plano para colocar ele nisso. Eu chorei para ele e disse “mas eu quero o Dave, eu quero a primeira opção”. Ele colocou o braço envolta de mim e disse “a primeira opção não está disponível, então fique satisfeita com a opção B”.

Dave, para honrar sua memória e colocar pra cima seus filhos como eles merecem, eu prometo fazer tudo que eu posso para me satisfazer com a opção B. E mesmo que o ‘Sheloshim’ tenha acabado, eu ainda estarei em luto pela opção A. Como Bono cantou “there is no end to grief… And there is no end to love” (Não há fim para o luto… e não há fim para o amor).

Eu te amo, Dave.”

Fonte indicada Família

contioutra.com - Carta de uma esposa (Sheryl Sandberg) após 30 dias do falecimento de seu marido

Pessoas que ficam vermelhas facilmente são mais generosas e inspiram mais confiança

Pessoas que ficam vermelhas facilmente são mais generosas e inspiram mais confiança

Se você é do tipo que fica vermelho e sem graça por qualquer coisa, provavelmente não vê isso como uma virtude e às vezes até sente que todo mundo te acha meio bobo (experiência própria aqui), não é? Se for assim, temos duas boas notícias. A primeira é: não só as pessoas não te acham bobo, como ainda te acham mais confiável. E a segunda: na verdade, não se trata de apenas parecer mais virtuoso – um estudo publicado no Journal of Personality and Social Psychology (publicação Associação Americana de Psicologia) mostrou que pessoas assim são mais generosas e realmente merecem a confiança dos outros.

“Níveis moderados de constrangimento são sinais de virtude“, disse Matthew Feinberg, um estudante de doutorado em psicologia na Universidade da Califórnia em Berkeley e principal autor do estudo. “Nossos dados sugerem que isso é uma coisa boa, e não algo contra o qual você deve lutar.” Segundo ele, o constrangimento moderado que surge sem ter motivo é uma assinatura emocional das pessoas em quem se pode confiar.

Segundo Feinberg, isso é positivo tanto nos negócios, já que essas pessoas também inspiram maior cooperação dos outros, quanto na vida amorosa: indivíduos que se constrangiam mais facilmente relataram níveis mais elevados de monogamia.

Só não podemos confundir isso com a vergonha exagerada que caracteriza a fobia social, nem com a vergonha decorrente de um erro moral que tenhamos cometido. Essas emoções têm uma natureza diferente. O constragimento que estava sendo estudado vem naturalmente e está associado a pessoas com a consciência limpa que, mesmo sem motivo, ficam sem graça com certas coisas. Os gestos demonstrados são diferentes também: segundo os pesquisadores, enquanto o gesto mais típico de embaraço é olhar para baixo, virado para um lado e cobrindo parcialmente o rosto enquanto sorri ou faz careta, uma pessoa que sente vergonha por algo ruim que tenha cometido normalmente cobre todo o rosto.

Os experimentos

Os resultados da pesquisa foram coletados a partir de uma série de experimentos que usaram depoimentos em vídeo, jogos de confiança econômica e pesquisas para avaliar a relação entre vergonha e sociabilidade. No primeiro experimento, 60 estudantes universitários foram filmados contando momentos embaraçosos, como flatulência em público ou julgamentos incorretos sobre algumas pessoas. As fontes mais típicas de vergonha incluíam achar que uma mulher com excesso de peso estivesse grávida (quem nunca, né?) ou confundir uma pessoa toda desgrenhada com um mendigo. Cada depoimento em vídeo foi classificado com base no nível de constrangimento mostrado.

Os voluntários também participaram do “Jogo do Ditador”, normalmente usado em pesquisas para medir o nível de altruísmo das pessoas. Nesse caso, cada um recebeu 10 bilhetes de rifa e foi-lhes dito que mantivessem uma parte deles para si e dessem o restante a um parceiro. Os resultados mostraram que aqueles que apresentaram maiores níveis de constrangimento deram mais bilhetes para os outros, o que indica mais generosidade.

Pessoas excessivamente confiantes são menos confiáveis?

Em outro experimento, os participantes assistiram a uma cena em que era dito a um ator que ele havia recebido uma pontuação perfeita em um teste. Ele então fazia um gesto deconstrangimento ou orgulho e os voluntários passaram por testes, depois, para mediar o seu nível de confiança no ator com base nessa reação. O resultado? Ter mostrado sinais de constrangimento inspirou mais reações positivas dos espectadores. O estudo descobriu que as pessoas têm mais vontade de se aproximar e se sentem mais confortáveis em confiar em quem fica constrangido facilmente.

Segundo os pesquisadores, a questão que fica e pode ser estudada no futuro é: será que, por outro lado, pessoas excessivamente confiantes inspiram menos confiança? O que você acha?

Por Ana Carolina Prado, via Superinteressante

A morte é um dia que vale a pena viver

A morte é um dia que vale a pena viver

Uma palestra de 18 minutos que já foi vista quase meio milhão de pessoas na qual a médica Ana Cláudia Quintana Arantes afirma que “Medicina é simples, difícil é psicologia”.

Ela fala da dor, da terminalidade e da morte, dando a dimensão vivida por aquele que está sob cuidado paliativo, vivendo os seus últimos dias.

Uma apologia à Vida diante da presença da Morte.

Empreendedorismo: a teologia da contemporaneidade, por Leandro Karnal

Empreendedorismo: a teologia da contemporaneidade, por Leandro Karnal

“O sucesso como responsabilidade e o fracasso como culpa”, eis a teologia do Empreendedorismo. Esta, ao lado da Teologia da Autoajuda e a Teologia da Prosperidade, dita a visão de céu e inferno nos dias de hoje. É o que afirma Leandro Karnal na palestra abaixo.

Inteligente, eloquente e de uma lucidez invejável, ouvir Leandro Karnal é um grande privilégio.

Primavera, uma crônica de Cecília Meireles

Primavera, uma crônica de Cecília Meireles

A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.
contioutra.com - Primavera, uma crônica de Cecília Meireles

Drummond afirma que a crônica é um instrumento de registro histórico

Drummond afirma que a crônica é um instrumento de registro histórico

O poeta Carlos Drummond de Andrade, em entrevista concedida em 1994, afirma que a crônica auxilia o historiador a entender a realidade o momento histórico em que a história é contada.

Sempre bem humorado e com uma presença de espírito singular, a fala de Drummond, neste vídeo, mostra-nos um Brasil cujos costumes sofreram modificações e cujas problemáticas sociais foram pouco modificadas.

É sempre bom ver e ouvir o poeta.

O resgate do amor próprio no filme “Shirley Valentine”

O resgate do amor próprio no filme “Shirley Valentine”

Por Octavio Caruso

Filmes com temática feminina são normalmente vistos com preconceito por grande parte dos críticos, com certa razão, já que, na maioria das vezes, abusam dos clichês e apostam no melodrama folhetinesco, resultando em variações daqueles livros românticos de banca de jornal. Para cada comédia romântica verdadeiramente interessante, original e inteligente, existem dez genéricos imediatistas. “Shirley Valentine”, dirigida por Lewis Gilbert, em 1989, é uma dessas ótimas exceções.

O texto esbanja um senso de humor ácido, amparado por uma estrutura deliciosamente farsesca, com o constante uso da quebra da quarta parede. A protagonista, vivida competentemente por Pauline Collins, conversa com o público, uma troca de experiências, já que, em algumas cenas, a personagem parece seguir a resposta do público, como quando recoloca os óculos escuros ao perceber seu marido se aproximando, perto do desfecho. Quase podemos escutar o público feminino na plateia dizendo em tom orgulhoso: “Não desce do salto, Shirley”. E ela sinaliza imediatamente para a câmera que escutou o conselho. Esse diálogo franco com o público-alvo funciona porque é alicerçado em grandes verdades, algo que se estabelece logo na primeira cena, quando vemos a mulher confidenciando sua solidão para a parede de sua cozinha.

A química é irresistível, ficamos encantados com essa pessoa minimizada pelo acúmulo de decisões equivocadas, mas que, como a bonita música-tema cantada por Patti Austin evidencia, ainda busca reencontrar aquela garota que foi outrora, o pássaro que nasceu para voar, porém, desencantado com os sonhos desfeitos, acordou numa manhã e não se reconheceu no espelho de sua gaiola.

Hábitos simples, como dançar e sorrir em uma manhã chuvosa, substituídos implacavelmente no cotidiano por uma postura submissa ao marido, vivido por Bernard Hill, um estranho grosseiro cuja única conexão aparente é a aliança no dedo, fruto de uma antiga decisão inconsequente, um contrato assinado por mãos jovens e que não haviam sido ainda castigadas pela realidade da vida.

A simpatia dela contrasta violentamente com a insensibilidade dele, demonstrando no subtexto uma tremenda resiliência de Shirley. Qualquer mulher na mesma situação já teria se enclausurado na amargura profunda, sem traço de esperança visível no horizonte. O prato simples, ovos com batata frita, que ele agressivamente rejeita no início do filme, é o mesmo que ela oferece aos clientes do restaurante, no terceiro ato, quando já está avançando no processo de reinicialização do seu sistema pessoal, mostrando que sua autoconfiança, primeiro elemento que é dizimado numa relação fundamentada em ofensas gratuitas, não foi abalada por aquele evento. Ela viaja para a Grécia, realizando seu maior sonho, sem utilizar qualquer muleta psicológica, superando até mesmo a indiferença da amiga que a havia convidado.

“Você beijou minhas estrias!”

Shirley utiliza o silêncio como ambientação para refletir sobre suas decisões, aprendendo que deve buscar a satisfação sexual. Quando descobre que seu amante grego, vivido por Tom Conti, é, na realidade, um mulherengo, ela não se sente ofendida. O que importa para ela é que aquele homem a enxergou como a mulher interessante e bela que sempre foi. Como ela afirma assustada, após fazerem amor, ele havia beijado as suas estrias.

Ela chega a invejar a atitude gazeteira e libertária dele, aproveitando cada momento de sua existência. Talvez, Shirley tivesse se tornado uma conquistadora, abraçando as possibilidades apaixonantes da vida, caso não tivesse se prendido tão cedo em um ritual secular de hipocrisia. Essa identificação carinhosa, simbolizada na cena em que ela o flagra passando mais uma cantada em uma turista, é a constatação definitiva da sublimação de sua insegurança.

“Eu não me apaixonei por ele. Eu estou me apaixonando pela ideia de viver”.
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OCTAVIO CARUSO: colunista Conti outra

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Carioca, apaixonado pela Sétima Arte. Ator, autor do livro “Devo Tudo ao Cinema”, roteirista, já dirigiu uma peça, curtas e está na pré-produção de seu primeiro longa. Crítico de cinema, tendo escrito para alguns veículos, como o extinto “cinema.com”, “Omelete” e, atualmente, “criticos.com.br” e no portal do jornalista Sidney Rezende. Membro da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro, sendo, consequentemente, parte da Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica.

Blog: Devo tudo ao cinema / Octavio Caruso no Facebook

 

Em algum lugar entre o certo e o errado existe um jardim

Em algum lugar entre o certo e o errado existe um jardim

Por Clara Baccarin

Desde muito cedo na vida aprendemos o nosso nome.

Descobrimos que somos menina ou menino, que gostamos de boneca ou de carrinho, que usamos vestido ou bermuda. Nós vamos aprendendo a vestir os nomes que nos são dados e os nossos gostos e hábitos, assim como vamos aprendendo a pentear os cabelos e a calçar os sapatos.

Aprendemos, desde muito cedo, a nos definir e essas definições vêm do mundo, vêm primeiramente dos olhos alheios. Nós recebemos nomes como se fossem títulos, assegurando-nos um tipo, um modelo dos já existentes e catalogados no mundo.
Nos dão um espaço estabelecido no arquivo que registra as personalidades.

Esses nomes e modelos nos servem de guia para sabermos quem somos, para nos reconhecermos, e para nos proteger das florestas misteriosas do mundo e nos colocar num seguro trilho.

Trilhos tem ponto de partida e ponto de chegada, tem mapas, não tem susto, o caminho já é conhecido e por isso garantido. Nossa família, que nos ama tanto, faz questão de assegurar que nos deu atributos o bastante para entrarmos no trilho e seguirmos sozinhos. Então o coração dos pais pode acalmar: serviço cumprido! O filho segue em viagem calma e bem sinalizada.

A viagem pelo trilho é tão macia, fácil, o trem segue no automático, tudo o que nos é familiar segue no mesmo trilho, e nós só temos que nos deixar levar, e manter nossa identidade à mão, saber quem somos pelos nomes e modelos que fomos recebendo desde que nascemos.

Acontece de em algumas fases da vida, algo dentro de nós nos incomodar e então decidimos que precisamos agregar outros nomes e modelos à nossa definição de nós mesmos para ver se expandimos nossa experiência.

Tomamos a decisão de mudar de trilho, entrar em um outro que segue por caminhos mais ‘iluminados’ ou interessantes e que nos dão outras visões de mundo. Então nossos nomes vão crescendo, agora temos estilo, gostos diferentes, somamos experiências, somamos livros na estante, títulos de pós-graduação, amigos no facebook e viagens pelo mundo. Nos tornamos uma pessoa grande, enorme, cheia de nomes e qualidades.

Nós aprendemos a seguir um trilho, nós aprendemos a mudar de trilho, nós aprendemos a enfeitar nossos trilhos e a congregar novos valores a eles, mas nós nunca aprendemos a sair dos trilhos, a mudar verdadeiramente.

Nós não exploramos a nós mesmos debaixo desse monte de entulho de nomes. O que passamos a ser é uma casca, rasa. Somos o que nos define, somos um estereótipo, somos uma máscara pré-moldada de modelo antigo e já não sabemos quem somos sem ela, e já ne sabemos como tira-la.

Nós nunca mudamos verdadeiramente até tirarmos as máscaras e sairmos dos trilhos e entrarmos no nosso desconhecido familiar ou na origem de nós mesmos.

Mas, para que faríamos isso? Para que quebrar uma bonita máscara? Para que romper o caminho comodista?

Eu não sei por que, e não sei para quê.

Só sei que viver assim, sem nunca sair do trilho, parece um viver de quem só fica nas margens das próprias possibilidades, só vive uma vida emprestada, rotulada e trivial. Viver assim me parece um esquecimento de si mesmo.

Há uma criatividade imanente querendo explodir. Há uma alma inquieta, aventureira, que quer vasculhar-se, que sempre se enamorou mais das visões das janelas dos trens que enquadravam as inúmeras possibilidades de ser lá fora.

Há uma criatividade que quer transbordar e quebrar as molduras de qualquer nome e ir além (ou aquém) de qualquer formato pré-estabelecido, que seja político, religioso, intelectual…

Há uma vontade de respirar e fazer da vida um desentulhar e um desatar de laços e trilhos e nomes.

Há uma vontade de ver o mundo sem juízo de valores, de ouvir o silêncio que surge da mente vazia de quem já não briga consigo mesmo porque não conquistou mais títulos e pedaços de papel.

Há uma vontade de aliviar a si mesmo do peso de tantos rótulos e se permitir se definir com tudo que há no mundo, desde o que já foi registrado até o que ainda nem tem nome.

Estereótipos delimitam a vastidão da alma humana.

Todos nós somos rios represados, que já não sabem mais correr e abrir caminhos, livres.

A criatividade me libertou um pouco. O pensamento criativo me fez querer reinventar a vida de forma inaugural. E me fez finalmente aceitar que não, eu não tenho que escolher um nome, um lado, um polo, um partido.

Sou louca e santa, joio e trigo, isso e aquilo, tudo e nada. Eu danço conforme eu sinto (e de olhos fechados).

Eu não tenho que entrar num trilho. Mas em cada esquina que eu passo, nesse eterno caminho entre a lucidez e a loucura, alguém tem um nome para me dar, um rótulo, daqueles banalizados, captados no primeiro olhar. Daqueles que olham para minha cara de boba e já entendem de que tipo eu sou.

Mas hoje eu só queria dizer que definir é delimitar. E que entre o certo e o errado, eu escolho o caminho inexplorado.

Ou como disse Rumi:
‘Em algum lugar entre o certo e o errado existe um jardim. Te encontro lá.’

Os birrentos cibernéticos

Os birrentos cibernéticos

Por Gustl Rosenkranz

Tenho lido e escutado muito que a faixa etária média do usuário do Facebook tem aumentado. Os mais jovens estão buscando outras redes sociais, enquanto os adultos (pre)dominam cada vez mais. Poderíamos até pensar que esse aumento da idade provocasse então uma elevação do nível de maturidade, mas não é isso que constato. Tenho mais a impressão de estar dentro de um enorme jardim de infância virtual.

Imagine crianças brincando. Elas pegam um cobertor e duas cadeiras, fazem uma “casinha” com isso e supõem que é um castelo. Essas crianças vão levar essa brincadeira a sério e acreditar realmente que estão em um castelo medieval, com rei, rainha, bobo da corte, cavaleiros andantes e tudo que se tem direito. Isso, no mundo das crianças, é algo maravilhoso e útil, pois as crianças precisam da fantasia para se prepararem para a vida real dos adultos. Pois bem, agora imagine pessoas adultas fazendo o mesmo, não com cadeiras e cobertor, mas em um mundo virtual, em uma rede social, como no Facebook: essas pessoas adultas constroem também aqui seu mundo fictício, sua “ilha da fantasia”, expondo aquilo que acreditam ser, identificando-se com os folclores e mitos que acham bons. Até aí tudo bem, mas a coisa começa a ficar problemática quando algumas dessas pessoas começam a levar a “brincadeira” a sério demais, acreditando nesses folclores e mitos virtuais e naquilo que expõem de si. O que acontece então é a mesma coisa como no jogo das crianças: um quer ser o rei do castelo, mas outros também querem, até o “bobo da corte” acha que o rei deveria ser ele. Uma menina é escolhida como princesa, mas ela prefere ser rainha, e a discussão é levada com a seriedade de crise mundial. As crianças resolvem o assunto de alguma forma, alguns ficam satisfeitos, outros não gostam, uns ficam embirrados, outros choramingam, xingam, uns se jogam no chão, esperneiam  e se negam a aceitar “as regras do jogo”. E é triste constatar: há adultos que se comportam da mesma maneira!

Não é isso que vemos diariamente? Gente levando tudo a sério, como se fosse vida verdadeira, gente egocêntrica, que acha que tudo gira em torno de sua pessoa (o egocentrismo de crianças é necessário e saudável – até certo ponto. Já o egocentrismo de adultos é para mim um desvio preocupante!), gente que fica embirrada quando não consegue o que quer, quando se declara rei ou rainha, mas não é aclamado(a) pelo “povo”, quando sua forma de “brincar sua fantasia” não é aceita e aplaudida por alguém. Às vezes, rola briga e gente imatura sai zangada, reclamando, e procura seus “amigos” para choramingar e lamentar: <<Olha gente como fui maltratado(a)! Quis ser rei/rainha e brilhar aqui no castelo (Facebook), mas fulano disse que eu só presto para ser dragão>> – coisa que fulano nem disse, mas isso torna a coisa mais dramática e acentua o papel de vítima. <<Consolem-me, por favor!>>. São formadas então fracções e coligações e o “dragão” volta com seu “exército” de embirrados, pronto para atacar quem quer que seja, por lealdade ao “amigo(a)” e por gostar de uma briguinha. E o ataque (infantil) começa: “Você não pode ser rei, pois seu nariz é torto!”, “você não pode ser rainha, pois mais parece uma bruxa”, “você não pode ser cavaleiro, pois mais parece um cavalo”. E a infantilidade continua, continua, continua… E rende, rende, rende, já que, como no mundo real das crianças birrentas, só se quer uma coisa: ter razão, custe o que custar! E, se não for por bem, então vai na birra…

Se alguém acha que estou exagerando, que pare um pouco para ler determinados posts e comentários pelo Facebook afora. Muitas vezes, falta qualquer objetividade, adultos discutem realmente como se fossem crianças embirradas, críticas são imediatamente tomadas como ofensas pessoais, que são devolvidas então como insulta pesada, os fatos são torcidos, a hostilidade é grande e, quando se junta a capacidade de abstração infantil com a prepotência adulta, o controle é muitas vezes perdido e qualquer forma de civilidade e qualquer capacidade de diálogo desaparecem. Pessoas adultas se comportam de uma forma infantil, imatura, cobram sua liberdade de opinião, mas não aceitam que os demais têm o mesmo direito. Qualquer opinião alheia é recusada, exceto quando se trata de um elogio, de alimento para uma autoestima baixa.

Se não fosse a sobriedade de alguns, realmente adultos, que conseguem discernir entre o mundo real e virtual e sabem se comportar adequadamente nos dois, o Facebook poderia ser visto como um verdadeiro hospício!

Não, não estou querendo aqui criticar o Facebook, redes sociais ou mesmo a internet. Não é isso. Como em tudo, há vantagens e desvantagens e sei muito bem usufruir das vantagens do mundo virtual. Só reflito aqui “em voz alta” sobre o comportamento de certos usuários, sobre a forma como muitos usam determinadas ferramentas e sobre o que se encontra por trás disso.

O mundo virtual não é para mim realmente virtual, já que por trás de cada perfil há uma pessoa real. A internet não é (ainda) totalmente controlada por máquinas. Ela é feita por pessoas e o mundo virtual, em minha opinião, é um espelho do mundo real. Mesmo que sejamos mais extremos na internet (por nos acharmos protegidos por uma suposta anonimidade?), os rastros que deixamos aqui é reflexo do que nos move e preenche ou que nos prende e esvazia no mundo real.

Portanto, não creio que essas animosidades de “birrentos cibernéticos” sejam algo “da internet”. Quem se comporta assim ou assado virtualmente é porque se comporta do mesmo jeito no mundo real (ou gostaria, mas não tem coragem ou espaço para isso). Toda essa hostilidade e toda essa infantilidade que vemos por aqui tem sua origem em vaidade, orgulho, frustração, amargura, complexos, limitações reais. A coisa vai tão longe que blogueiros famosos (por exemplo, Leonardo Sakamoto – Por que fechei meu blog para comentários) não permitem mais comentários em seus posts, alegando que eles perdiam muito tempo moderando a “loucura” de certas pessoas, que só comentavam para polemizar, reclamar, insultar e hostilizar, sem nada oferecer, sem nada construir.

Penso que ainda vamos precisar de algum tempo até aprendermos a lidar corretamente com o mundo virtual e com seus desvios e loucuras. Observando a velocidade com que o mundo digital tem se desenvolvido nas últimas décadas, compreendo que ainda estejamos deslumbrados com uma tecnologia que se encontra engatinhando. Acredito que a internet se desenvolverá ainda mais no futuro próximo, tornar-se-á ainda mais poderosa e sua presença em nossas vidas será ainda maior. Só espero que possamos desenvolver também técnicas adequadas para lidar com as excrescências, pois a internet, mesmo sendo uma benção na vida do homem moderno, tem seu lado negativo, para não dizer perverso. Mas creio que o melhor caminho para encerrar ou pelo menos reduzir comportamentos imaturos e hostis na internet seria o de (re)educar urgentemente as pessoas no mundo real, pois acho que é isso que falta. E isso se recebe em casa, na escola e no meio social real de cada um, não na internet.

A cadela e o menino – Um breve olhar sobre raças

A cadela e o menino – Um breve olhar sobre raças

Por Lúcia Costa

Semana passada, enquanto voltava do trabalho, vi uma cadela de uma raça que desconheço.

Ela usava brinco, tiara e uma coleira onde estava gravado seu nome. Era conduzida por uma mulher de óculos escuros e um terninho branco bem ajustado ao corpo. As duas entraram em um Pet Shop e a dona lhe comprou ração de variados sabores: carne, peixe, frango, legumes… Ainda comprou uma escova de dente e um creme dental especial para sua estimada companhia peluda. Depois, entraram em uma camionete. A cadela colocou a cabeça na janela do banco do passageiro e saiu sentindo o ar que batia em seus pelos devidamente tosados. Serenava levemente e a mulher fechou os vidros do veículo para não desmanchar o penteado canino.

Também vi, na semana passada, uma criança de uns cinco anos. Eu reconheço sua raça; é a minha raça.

Ela estava com a mãe em uma parada de ônibus. Falaram alguma coisa ao motorista, que as olhou com ternura e mandou que entrassem pela porta traseira. Era um menino e estava molhado pelo sereno leve que caía. Estava sujo, descalço e queria que a mãe lhe comprasse um cachorro-quente. Exigia. Gritava. A mãe pedia, quase cochichando, que falasse baixo, pois estava “me matando de vergonha, menino”.

A mulher pedia.  Implorava. O pequeno se cansou. Entreteu-se lambendo o sal de um esgotado saco de pipoca. Rasgou-o, ferozmente, e percorreu com a língua todo o interior da embalagem. Depois pediu água. A mãe lhe segredou baixinho que esperasse chegar em casa. Ele chorava alto e pedia. Implorava.

Eu desci do ônibus e vi uma cadela de uma raça, que desconheço…

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