O voto: uma abordagem psicológica

O voto: uma abordagem psicológica

Uma matéria produzida pela BBC constatou algumas verdades acerca do comportamento do eleitor na hora do voto. Ocorre que, toda vez que uma importante votação se aproxima, nós, eleitores, passamos meses e meses ouvindo sobre políticos, políticas e ideologias. No dia da eleição, saímos para as urnas com a sensação de termos tomado uma decisão racional sobre em quem votar. Mas será mesmo?

Segundo muitos psicólogos, são possíveis que não tenhamos tanto controle assim sobre nossa escolha política quanto imaginamos. Educação, saúde e economia são, sem dúvida, assuntos importantes, mas eleitores também podem ser “atraídos” por fatores aparentemente sem nenhuma relação, como sensações de medo e repugnância.

Já se sabe que nossas decisões conscientes são frequentemente influenciadas por processos inconscientes, emoções e ideias preconcebidas. Jon Krosnick, professor de ciência política da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, dedicou sua carreira a estudar o fenômeno. “Todas as escolhas são, na realidade, inconscientes”, defende.

Segundo Krosnick, durante um debate na televisão, muitos fatores podem ter impacto na decisão do eleitor – e não apenas o que cada candidato está dizendo. Ele e seus colegas descobriram que, durante as eleições presidenciais americanas de 2008, muitos eleitores não perceberam o quanto foram influenciados pela etnia dos candidatos Barack Obama e John McCain. Pessoas que marcaram mais pontos em um teste para medir o racismo implícito tinham menos tendência a optar por Obama.

 

Propensão à repulsa

Já Yoel Inbar, professor de Psicologia da Universidade de Toronto, no Canadá, estuda outra maneira como podemos ser influenciados: coisas que despertam sensações de nojo. Sua equipe testou voluntários em uma “escala de repugnância” e, em seguida, apresentou a eles um questionário sobre suas visões políticas.

O estudo descobriu que aquelas pessoas que sentem repulsa mais facilmente tendem a ser mais conservadoras politicamente.

Inbar acredita que associações políticas e morais com a repugnância podem ser explicadas pela biologia pré-histórica: quando o homem passou a permanecer mais tempo em grupos sociais maiores, ele desenvolveu uma série de comportamentos para minimizar seus riscos de contrair doenças, o que psicólogos chamam de “sistema imunológico comportamental”.

Segundo Inbar, isso significa “evitar grupos com quem não se está familiarizado, aderir a práticas sociais tradicionais e se impor uma certa restrição sexual”. “O nojo é uma emoção que realmente nos avisa: ‘não faça isso, fique longe daí, isso é perigoso'”, afirma o cientista.

A principal implicação é algo que alguns marqueteiros políticos já perceberam: usar uma linguagem que desperte uma sensação de nojo – como dizer que “tal político ou tal partido fede” – pode ter uma influência muito mais profunda em algumas pessoas do que se pensa.

Jogo do medo

Outro estudo, que avaliou o impacto da “sensibilidade ao medo” na ideologia política, sugere conclusões semelhantes. Um grupo de 46 voluntários do Estado americano de Nebraska foi convidado a dar sua opinião a uma série de assuntos, da guerra ao Iraque à pena de morte. Os que mostraram ter opiniões fortes, foram chamados para uma segunda fase.

Nela, os voluntários foram expostos a uma série de imagens ameaçadoras e a vários ruídos barulhentos, enquanto eram avaliados em sua suscetibilidade ao medo. Os pesquisadores descobriram que as pessoas que se assustavam mais facilmente tinham mais opiniões alinhadas com uma ideologia de direita.

Portanto, um discurso político que provoque medo – enfatizando o risco de instabilidade econômica ou de ataques terroristas, por exemplo – pode ter um efeito impactante em alguns grupos quando é usado para tentar atrair votos.

 

Força da rejeição

Outras respostas subconscientes já são bem exploradas em campanhas políticas. Uma delas é o negativismo – uma tendência das pessoas de se lembrarem preferencialmente de informações negativas e permitirem que emoções negativas dominem suas decisões.

A pesquisa de Krosnick sugere que quando um político enfatiza as características negativas de seus rivais, ele pode fazer com que mais simpatizantes seus compareçam às urnas (em países onde o voto não é obrigatório).

Da mesma maneira, o estudo mostrou que apenas gostar de um determinado candidato não necessariamente faz o eleitor sair de casa para votar: a rejeição é um motivo muito mais forte para levar uma pessoa às urnas. “Se você não gosta de um dos candidatos, fica mais incentivado a participar. Ou seja, é a rejeição que motiva o comparecimento”, afirma Krosnick.

 

Punição nas urnas

Também há cada vez mais indícios de que eleitores inconscientemente punem políticos quando se sentem decepcionados com eles – mesmo em questões completamente desassociadas da política.

Os cientistas políticos Larry Bartels e Christopher Achen, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, têm a teoria de que a disputada e polêmica eleição de 2000, nos Estados Unidos, entre Al Gore e George W. Bush, foi também influenciada por uma série de secas e enchentes que castigaram várias partes do país.

Ao analisarem o resultado das urnas e o clima em cada Estado, os pesquisadores perceberam que os democratas, que estavam no poder até então, obtiveram até 3,6% menos votos do que normalmente receberiam – o que pode indicar que muitos eleitores resolveram “castigar” o partido por sua má sorte com o tempo.

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Fonte: Diário da Manhã

“Vista cansada”, uma crônica a quem não se fez cego de indiferença

“Vista cansada”, uma crônica a quem não se fez cego de indiferença

Otto Lara Resende

Acho que foi o Hemingway quem disse que olhava cada coisa à sua volta como se a visse pela última vez. Pela última ou pela primeira vez? Pela primeira vez foi outro escritor quem disse. Essa idéia de olhar pela última vez tem algo de deprimente. Olhar de despedida, de quem não crê que a vida continua, não admira que o Hemingway tenha acabado como acabou.

Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta. Um poeta é só isto: um certo modo de ver. O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não-vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio.

Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê. Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro. Dava-lhe bom-dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer.

Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima idéia. Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado, o porteiro teve que morrer. Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser também que ninguém desse por sua ausência. O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver. Gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos.

Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.

Texto publicado no jornal “Folha de S. Paulo”, edição de 23 de fevereiro de 1992.

Otto Lara Resende nasceu no dia 1°. de maio de 1922,em São João del Rei, Minas Gerais. Foi, dentre outras atividades, professor, jornalista e escritor, tendo publicado 10 livros.

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Fotografia de Elena Shumilova

“Ahasverus e o Gênio” – momento de reler Castro Alves

“Ahasverus e o Gênio” – momento de reler Castro Alves

Sabes quem foi Ahasverus?… — o precito,
O mísero judeu, que tinha escrito
Na fronte o selo atroz!
Eterno viajor de eterna senda…
Espantado a fugir de tenda em tenda
Fugindo embalde à vingadora voz!

Misérrimo! Correu o mundo inteiro,
E no mundo tão grande… o forasteiro
Não teve onde… pousar.
Co’a mão vazia — viu a terra cheia.
O deserto negou-lhe — o grão de areia,
A gota d’água — rejeitou-lhe o mar.

D’Ásia as florestas — lhe negaram sombra
A savana sem fim — negou-lhe alfombra
O chão negou-lhe o pó!…
Tabas, serralhos, tendas e solares…
Ninguém lhe abriu a porta de seus lares

E o triste seguiu só.
Viu povos de mil climas, viu mil raças,
E não pôde entre tantas populaças
Beijar uma só mão…
Desde a virgem do norte à de Sevilhas
Desde a inglesa à crioula das Antilhas
Não teve um coração!…

E caminhou!… E as tribos se afastavam
E as mulheres tremendo murmuravam
Com respeito e pavor.
Ai! Fazia tremer do vale à serra…
Ele que só pedia sobre a terra
— Silêncio, paz e amor! —

No entanto à noite, se o Hebreu passava,
Um murmúrio de inveja se elevava,
Desde a flor da campina ao colibri.
“Ele não morre” a multidão dizia…
E o precito consigo respondia:
— “Ai! mas nunca vivi!” —

O gênio é como Ahasverus… solitário
A marchar, a marchar no itinerário
Sem termo de existir.
Invejado! A invejar os invejosos.
Vendo a sombra dos álamos frondosos…
E sempre a caminhar… sempre a seguir…

Pede u’a mão de amigo — dão-lhe palmas:
Pede um beijo de amor — e as outras almas
Fogem pasmas de si.
E o mísero de glória em glória corre…
Mas quando a terra diz: — “Ele não morre”
Responde o desgraçado: “Eu não vivi!…”

Castro Alves, no livro “Espumas Flutuantes”

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Que tudo fique apenas entre nós

Que tudo fique apenas entre nós

Por Patrícia Dantas

Hilda Hilst é uma transgressão necessária, um soco no estômago, daqueles que nos obriga parar a leitura e respirar ofegante, porque nossa santíssima dignidade já se perdeu ou foi parar em algum lugar mais sórdido que escondemos dos nossos hábitos. E, tendo Hilst nas mãos, também é a certeza que teremos alguma coisa desfigurada e pedindo clemência dentro da gente – porque se queimou com a brasa de sua própria pele e já foi engolido por um riso tolo e nostálgico que jamais compreendeu a necessidade de se pertencer, ter a si mesmo revelado entre mãos corajosas e dentes famintos. Hilst faz você comer a si e dentro de si num ato de gratidão e contentamento pela vida. Tudo é dentro e vem de dentro. E Deus, pai tão misterioso e observador contumaz dos nossos atos acha graça de tudo e nos olha com uma bondade estampada na cara.

É do paradoxo pessoa-humano-pessoa que vem essa sensação de esvaziamento para se chegar a algum lugar que faça tão bem ao processo interior da criação; é não morrer de tédio, mas asfixiar-se por dentro, de excesso de vida. É desse poder que tomamos das mãos de Hilst – o “divino ato criador” – esse arregaçar de mangas para exteriorizar o concreto de energias que se lança ao mundo e que se necessita de uma linguagem mais intensa e nua galgando cada fio limítrofe das nossas palavras.

Ela nos faz ver – e vemos sem mais transgredir a brutalidade cega e perspicaz como tomamos proporções desconexas e insanas, porque esse mesmo poder é também do extravio de algo que deixamos inerte por um tempo dentro da gente, é o que faz sentido na esfera do existir e não-existir. É o que somos em tempos cruzados. Não é questão de intimidade, mas de um tato revelador de corpos ausentes.

Existe uma coisa da qual não podemos fugir: o amor e o temor pelos nossos personagens. Não posso deixar de questionar com a minha profunda desaprovação de mim quando olho o outro (é que me vejo muito mais nos personagens que me falam, e não no real palpável que me açoita). Como posso não depender deles, se assim vivo e morro dentro de todos eles? Apossam-se de mim e me transmitem como gostariam de ser na pequena e elástica realidade que deles se desprende. A história de cada um segue as curvas e o contexto de roteiros muito particulares. Gesticulam e atuam com devoção e compaixão pelo substrato do humano.

O que fazer com alguém que nem sabemos ao certo se existe, se não se declara, se não fala, nem se define, não apresenta virtudes ou defeitos, que apenas se deixa existir livremente, de fomes, tormentos e algumas insaciedades? Eu nunca soube o que fazer deles, nem de mim. Também vou me descobrindo aos poucos – como eles que se deixam levar pelas suas chamas ardentes de curiosidade pelo estranho.

Do meu medo passando pelo eco do estranhamento e solidão encontro o familiar que me adapta ao mundo e remove toda a sensação de que algo é revelado somente em pleno contato. A revelação às vezes só precisa que fiquemos um pouco sozinhos e conectados com nosso estado de graça.

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Restaurante projeta animação 3D no prato dos clientes e promove experiência sem igual

Restaurante projeta animação 3D no prato dos clientes e promove experiência sem igual

Existem limites para as percepções humanas? Segundo a equipe da Skull Mapping não há. Em um genial projeto de tecnologia 3 D eles nos provam que sempre é possível aumentar a satisfação de um cliente.

No vídeo abaixo, os clientes aguardam por suas refeições quando um mini chef francês assume o preparo de seus pratos. Humor, sensações e diversas surpresas são exploradas em uma experiência lúdica que faz de um jantar um momento de total entretenimento.

Sirvam-se desse delicioso vídeo.

A indicação foi de nosso site parceiro Psique em Equilíbrio.

Woody Allen e a felicidade plena

Woody Allen e a felicidade plena

Por Josie Conti

Por indicação do crítico de cinema Octavio Caruso assisti recentemente  Woody Allen: Um Documentário. (2012), dirigido por Robert B. Weide.

Regado com depoimentos de diversos artistas que já trabalharam com o grande mestre, o documentário conta a história da carreira de Woody Allen. Após assisti-lo, é quase impossível não rememorar as cenas que mostravam como, quase sem nenhuma experiência prévia, o franzindo Woody obteve aval completo dos patrocinadores para trabalhar nos filmes sendo, além de roteirista, o diretor e na maioria das vezes também ator de seus filmes.

Em um dos trechos, quando questionado, após um período de queda de popularidade, se, ao invés de fazer um filme por ano- como tem feito há 40 anos- se teria interesse em fazer um a cada dois anos, Woody mal cogitou a hipótese. Para ele a constância do trabalho aparenta ser muito mais interessante que as críticas. É o movimento de criação e de execução que o alimenta. Já o glamour e os tapetes vermelhos nada mais são do que um obstáculo a ser ultrapassado. Woody aparece muito à vontade na privacidade de seu quarto, onde datilografa seus textos na mesma máquina que o acompanhou por quase toda sua carreira. São cenas que, se me permitem a liberdade de dar uma opinião totalmente pessoal, ilustram um estado de felicidade plena.

Há em Woody a característica essencial de identificação da neurose social e a transformação desse olhar em um humor simples, mas sagaz. Em suas qualidades ou mesmo enfrentando grandes polêmicas, ele é autêntico. E, como Woody Allen não é como ninguém, ninguém é como Woody Allen.

Não tenho dúvidas que é essa autenticidade inigualável que o mantém onde está, com quase 80 anos, ainda fazendo um filme por ano e, em um dos últimos, “Meia noite em Paris”, de 2012, obtendo uma das maiores bilheterias de sua carreira.

Abaixo o trailler do documentário.

“O rato e a ratoeira” – uma fábula de Esopo

“O rato e a ratoeira” – uma fábula de Esopo

Numa planície da Ática, perto de Atenas, morava um fazendeiro com sua mulher; ele tinha vários tipos de cultivares, assim como: oliva, grão de bico, lentilha, vinha, cevada e trigo. Ele armazenava tudo num paiol dentro de casa, quando notou que seus cereais e leguminosas, estavam sendo devoradas pelo rato. O velho fazendeiro foi a Atenas vender partes de suas cultivares e aproveitou para comprar uma ratoeira. Quando chegou em casa, adivinha quem estava espreitando?

Um rato, olhando pelo buraco na parede, vê o fazendeiro e sua esposa abrindo um pacote. Pensou logo no tipo de comida que haveria ali.

Ao descobrir que era uma ratoeira ficou aterrorizado.

Correu para a esplanada da fazenda advertindo a todos:

– Há uma ratoeira na casa, uma ratoeira na casa !!

A galinha disse:

– Desculpe-me Sr. Rato, eu entendo que isso seja um grande problema para o senhor, mas não me prejudica em nada, não me incomoda.

O rato foi até o porco e disse:

– Há uma ratoeira na casa, uma ratoeira !

– Desculpe-me Sr. Rato, disse o porco, mas não há nada que eu possa fazer, a não ser orar. Fique tranqüilo que o Sr. Será lembrado nas minhas orações.

O rato dirigiu-se à vaca. E ela lhe disse:

– O que ? Uma ratoeira ? Por acaso estou em perigo? Acho que não !

Então o rato voltou para casa abatido, para encarar a ratoeira. Naquela noite ouviu-se um barulho, como o da ratoeira pegando sua vítima.

A mulher do fazendeiro correu para ver o que havia pego.

No escuro, ela não viu que a ratoeira havia pego a cauda de uma cobra venenosa. E a cobra picou a mulher… O fazendeiro chamou imediatamente o médico, que avaliou a situação da esposa e disse: sua mulher está com muita febre e corre perigo.

Todo mundo sabe que para alimentar alguém com febre, nada melhor que uma canja de galinha. O fazendeiro pegou seu cutelo e foi providenciar o ingrediente principal.
Como a doença da mulher continuava, os amigos e vizinhos vieram visitá-la.

Para alimentá-los, o fazendeiro matou o porco.

A mulher não melhorou e acabou morrendo.

Muita gente veio para o funeral. O fazendeiro então sacrificou a vaca, para alimentar todo aquele povo.

Moral:
“Na próxima vez que você ouvir dizer que alguém está diante de um problema e acreditar que o problema não lhe diz respeito, lembre-se que quando há uma ratoeira na casa, toda fazenda corre risco. O problema de um é problema de todos.”

Biografias não autorizadas podem ser publicadas por decisão do STF

Biografias não autorizadas podem ser publicadas por decisão do STF
RC SHOW TERESINA

O Supremo Tribunal Federal decidiu, na semana passada, pela liberação das biografias não autorizadas. A ministra-relatora Cármen Lúcia frisou que o direito à liberdade de expressão sobrepuja o dos indivíduos à privacidade.

A vida de um homem público pertence ao público, quer dizer, à sociedade. Portanto, deve ser descrita com liberdade por pesquisadores qualificados — como Lyra Neto (Getúlio Vargas, Castello Branco e José Alencar), Fernando Morais (Olga Benario e Assis Chateau­briand), Ruy Castro (Nelson Rodri­gues, Garrincha e Carmen Miranda), Sérgio Cabral (Tom Jobim, Ataulfo Alves, Elizeth Cardoso e Nara Leão), Mário Magalhães (Carlos Marighella), Leonencio Nossa (Sebastião Curió), João Máximo (João Saldanha e Noel Rosa), Paulo Cesar Araújo (Roberto Carlos), Fernando Molica (Antonio Expedito Perera), Luiz Maklouf Carvalho (David Nasser).

Destes exímios biógrafos, apenas Ruy Castro (com a família de Garrincha) e Paulo Cesar Araújo (com Roberto Carlos) enfrentaram problemas judiciais. Nenhum pode ser qualificado de sensacionalista ou de ter achincalhado a vida das pessoas examinadas. As biografias colaboraram para o entendimento dos pesquisados, de suas obras e, em alguns casos, serviram mesmo para “reabilitá-los”. Nelson Rodrigues já era grande, mas, como estava meio esquecido, “cresceu” com o denso estudo de Ruy Castro.

A liberdade para dissecar uma personalidade pública não equivale à liberdade para achincalhá-la. Porém a maioria dos biógrafos pretende muito mais explicar a vida das pessoas, com suas contradições, do que agredi-las. A biografia de Assis Chateaubriand é tão bem feita que, mesmo a exibição de sua faceta pantanosa, não o diminui como empreendedor jornalístico e criador do Museu de Arte de São Paulo. Os problemas são apontados, mas as virtudes são conectadas. Um leitor pode avaliar que se trata de um escroque. Outro leitor pode percebê-lo como um empresário modernizador na área da comunicação.

Biografias laudatórias não servem para a compreensão da vida e da obra dos pesquisados. Biografias críticas e equilibradas ajudam a entender a história das pessoas e do país. Com a decisão do Supremo, o brasileiro poderá ler, brevemente, biografias de Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Geraldo Vandré e Roberto Carlos.

 

 

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RC SHOW TERESINA


Fonte: Jornal Opção Trata-se de um jornal goiano cuja riqueza da informação e a abordagem de assuntos cosmopolitas fazem por merecer recorrentes visitas.

Do outro lado da janela – uma crônica de domingo

Do outro lado da janela – uma crônica de domingo

Por Josie Conti

Minha casa fica em uma esquina e, não raro, pessoas param para conversar. Hoje acordei com uma dessas conversas. Sob minha janela um senhor com opinião sobre tudo monopolizava o “diálogo” com seu interlocutor. Clima, política, vizinhança, família, não havia assunto que não pudesse ser encarrilhado em seu fôlego.

Em psiquiatria existe um termo utilizado para pessoas que falam sem parar: verborragia. Nunca vi termo mais adequado. É uma real hemorragia das palavras e, por coincidência ou não, costuma vir em voz alta. É uma falta de controle, uma falta de freio. Assim, como a hemorragia, é um sintoma que, se não controlado, temo que possa matar. No meu caso, um verdadeiro matador de sonhos.

É no diálogo que mora a relação, que existe a troca. O monólogo é vaidoso. Não conhece empatia.

É necessário perceber o tempo do outro, sua resposta é até seu silêncio. Quem fala demais não enxerga olhar de tédio, não ouve bocejo e nem se atém a inquietação física da vítima que está desesperada para sair correndo ou escorrer pela guia da calçada.

Penso que para viver melhor precisamos da inteligência do silêncio. Silenciar é dar tempo a si mesmo e ao outro para que o mundo todo se acomode, e mundo acomodado é mundo macio, confortável, com sentido.

É no silêncio dos amigos que surge a troca de olhares cúmplices, é esse silêncio que precede as gargalhadas.

É no silêncio dos amantes que os olhares conversam e trocam juras de amor. É o silêncio que precede o beijo.

É no silêncio da emoção que não encontramos palavras exatas para descrever o que sentimos, que ficamos embargados e gaguejamos, porque as palavras vieram na hora errada.

Mesmo na dor, há beleza. Lá dentro, no escuro, no silêncio, na essência de si, no sentido do mundo.

Vou me levantar. O homem ainda fala.

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Aos 73 anos, modelo vivo diz que não sabe o sentido da vida, mas quer posar para artistas até morrer

Aos 73 anos, modelo vivo diz que não sabe o sentido da vida, mas quer posar para artistas até morrer

Por Gabriela Gasparin

Vera França tinha 19 anos quando posou nua pela primeira vez como modelo vivo para artistas fazerem obras de arte com as curvas de seu corpo. Profissão que mantém até hoje, aos 73 anos. “Depois que comecei, só trabalhei como modelo a vida toda”, revelou.

Ela não faz a menor ideia de quantas pinturas, desenhos, esculturas e fotografias já foram feitas com suas formas em todas as fases da vida, passando pela juventude, períodos de gravidez e velhice, mas garante: “é muito, muito, muito mesmo.”

Nascida em um sítio no interior de Pernambuco, ela se mudou ainda jovem com a família para a Bahia. A mais velha de 13 irmãos, aos 15 anos saiu de casa e foi cuidar da própria vida. Morou em pensões e foi operária em fábricas de roupas e sapatos em Salvador.

Interessou-se pelo meio artístico e tentou ser bailarina de cancan num circo. “Eu gostava dessas coisas de se enfeitar toda”. Após um tempo, conseguiu o papel de “menor mulher do mundo” num espetáculo ilusionista na capital baiana. Ela ficava de biquíni numa sala com espelhos. As pessoas entravam e a viam bem pequeninha de longe, por trás de um aquário.

Em uma dessas apresentações foi vista por um estudante que a indicou para ser modelo vivo na Faculdade de Belas Artes de Salvador. Vera fez a entrevista num dia e começou a trabalhar no outro.

O teste consistia em fazer algumas poses nua. “Eu fiz uma pose em pé, uma sentada, outra de costas, uma deitada com a mão na cabeça e outra deitada de novo. E ai já comecei a posar.” No mesmo dia, recebeu a recomendação para não pintar os cabelos, nem tomar sol na praia ou posar maquiada. “Tem que ser a pessoa natural”, explicou.

‘Com gordura e tudo’

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Vera França diz que tem como missão posar

E Vera ficou sem pintar os cabelos até hoje – mesmo com a idade avançada, ainda preserva um grisalho natural. Sente-se feliz e valorizada por ainda ser procurada para posar, mesmo na velhice. “Eles precisam de modelo diferente, com gordura e tudo. Enfim, natural, né? Eles não ligam para a barriga.”

E é justamente o fato de ser valorizada como é o que mais a encanta na profissão. “Se eu não tivesse valor, com a idade que eu estou e meu corpo já mudado, eles não me procuravam. Então eu fico contente, fico alegre, me considero valorizada. A arte copia a vida e a arte não tem fim, né?”

A modelo nunca se esqueceu de certa vez, aos 29 anos, quando pensou que teria que deixar a profissão ainda jovem. “Eu falei assim para um professor, ‘nossa, já estou com 29 anos, logo eu vou deixar a profissão porque ninguém vai me aceitar mais’. Ele falou, ‘imagina, você ainda tem chão pela frente, só se você não quiser, mas quanto mais idade, melhor ainda’. Aquilo ali me alegrou. Pronto, até hoje estou aqui nessa palavra.”

‘Guerriei, guerriei’

Não que a vida como modelo vivo tenha sido fácil. Vera batalhou muito todos esses anos e, mesmo assim, nunca conseguiu pagar um convênio médico. “Infelizmente eu nunca consegui. Lutei, lutei lutei. Guerriei, guerriei e nunca consegui.”

Mãe de duas filhas, posou grávida e até de madrugada para sustentar as crianças – uma nasceu em Salvador e a outra em São Paulo, 18 anos depois – ela saiu do Nordeste rumo à capital paulista em busca de mais trabalho. Disse que nunca se casou e criou as filhas praticamente sozinha.

Vera nunca teve vergonha de ser observada em todos os mais íntimos detalhes pelos artistas. Pelo contrário, sempre fica tão concentrada em fazer a pose corretamente que nem percebe que está nua. “Eu digo aos estudantes, ‘é assim mesmo, [a obra] não precisa ficar bonita, é só vocês aprenderem e pronto. Eu quero passar meu astral para vocês levarem para o papel, para a tela, o barro, a escultura’.”

Em São Paulo, disse que até tentou voltar a trabalhar em fábrica uma vez, mas não se sentiu respeitada e pediu as contas. “Não me dei bem. Eu não gostava de ser mandada. Aliás, ser mandada tudo bem, mas com respeito, mas não fazendo pouco caso (…). Eu disse, eu prefiro é trabalhar nua, que ninguém me desrespeita. Eu nasci para isso. E aí fiquei até hoje.”

Preconceito

Vera guarda uma ou outra história de estudantes que a assediaram ou que queriam namorar com ela por ficarem encantados com as curvas de seu corpo. Revelou, ainda, que sofria certo preconceito no passado, principalmente no Nordeste, de pessoas que julgavam sua profissão por desconhecimento. “Tinhas muitos que entendiam a profissão, mas a maioria achava que era mulher de programa antigamente.”

Em São Paulo, disse que até tentou voltar a trabalhar em fábrica uma vez, mas não se sentiu respeitada e pediu as contas. “Não me dei bem. Eu não gostava de ser mandada. Aliás, ser mandada tudo bem, mas com respeito, mas não fazendo pouco caso (…). Eu disse, eu prefiro é trabalhar nua, que ninguém me desrespeita. Eu nasci para isso. E aí fiquei até hoje.”

Sentido da vida

E mesmo aos 73 anos, Vera revelou que ainda não sabe o sentido da vida, mas afirma que não alcançou seu objetivo final, que é viver em paz. “Ah, eu nem sei te responder o sentido da vida… Se eu não consegui meu objetivo até agora então eu tenho que dar uma parada para ver qual é o futuro que eu tenho que encontrar, estou procurando ainda, ainda não deu certo.”

Perguntei qual seria esse “objetivo”: “A única coisa é poder comprar meu remedinho, minha comidinha e morrer sossegada. Morar num lugar onde eu fique sossegada. Ainda não alcancei isso aí, estou na luta. Talvez venha logo ou talvez demore muito, enquanto eu tiver força eu vou puxando o carro, né, até cansar e parar.”

O sentido da vida Vera pode até não saber, mas é com bastante certezas que ela fala sobre para que veio ao mundo. “A minha missão é de ajudar meus netos e pousar ainda pras pessoas que gostam de me usar como artista. Isso é que eu gosto. É uma missão e eu quero terminar ela posando mesmo.

Nem que seja uma pose não tão retorcida, mas a pose natural, a pose da vida. Eu quero que aconteça isso. Agora vai fazer 54 anos no mês de março que estou trabalhando como modelo. Por isso eu acho que essa é minha missão e eu vim para cumpri-la.”

Vidaria é um projeto parceiro Conti outra.

Leia mais histórias como essa em Qual o sentido da vida?

Conheçam mais essa linda mulher em uma entrevista que ela fez no Jô.

 

“O último poema”, penso que todo poeta já desejou ter escrito este poema.

“O último poema”, penso que todo poeta já desejou ter escrito este poema.

 O ÚLTIMO POEMA

Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

Manuel Bandeira

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Claudio Naranjo: egoísmo, educação e liberdade

Claudio Naranjo: egoísmo, educação e liberdade

Psiquiatra chileno indicado ao Prêmio Nobel da Paz, Claudio Naranjo, fala sobre a diferença entre amor próprio e egoísmo.

Naranjo também reforça a urgência de uma mudança na educação. Para ele, o ensino deve permitir o diálogo genuíno entre professores e alunos.

Por uma boa reflexão, ouçamos com o coração.

Conteúdo originalmente publicado no Portal Namu, um espaço altamente recomendado. 🙂

Semelhanças e direnças entre pombos e sonhos, no poema de Raimundo Correia

Semelhanças e direnças entre pombos e sonhos, no poema de Raimundo Correia

As Pombas
(Raimundo Correia)

Vai-se a primeira pomba despertada…
Vai-se outra mais… mais outra… enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada.

E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada.

Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem… Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais.

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4 poemas de Adélia Prado que deveríamos ler e reler

4 poemas de Adélia Prado que deveríamos ler e reler

Casamento
Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como “este foi difícil”
“prateou no ar dando rabanadas”
e faz o gesto com a mão.

O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.

Exausto
Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.

Poema Começado no Fim
Um corpo quer outro corpo.
Uma alma quer outra alma e seu corpo.
Este excesso de realidade me confunde.
Jonathan falando:
parece que estou num filme.
Se eu lhe dissesse você é estúpido
ele diria sou mesmo.
Se ele dissesse vamos comigo ao inferno passear
eu iria.
As casas baixas, as pessoas pobres,
e o sol da tarde,
imaginai o que era o sol da tarde
sobre a nossa fragilidade.
Vinha com Jonathan
pela rua mais torta da cidade.
O Caminho do Céu.

Pranto Para Comover Jonathan
Os diamantes são indestrutíveis?
Mais é meu amor.
O mar é imenso?
Meu amor é maior,
mais belo sem ornamentos
do que um campo de flores.
Mais triste do que a morte,
mais desesperançado
do que a onda batendo no rochedo,
mais tenaz que o rochedo.
Ama e nem sabe mais o que ama.

contioutra.com - 4 poemas de Adélia Prado que deveríamos ler e reler

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