A “Ilha das flores” e o casamento gay nos Estados Unidos

A “Ilha das flores” e o casamento gay nos Estados Unidos

Quando menina, eu vi um documentário de que jamais me esquecerei: “A ilha das flores”. Era a história de um tomate. O tal tomate possuía algum defeito que o fez ser jogado no lixo. Fora encontrado por um cuidador de porcos e novamente rejeitado, voltando a ser jogado no lixo. O tomate é, então,  encontrado por uma criança, em um lixão a céu aberto. E assim, o tomate que foi jogado fora por ser imprestável, que foi rejeitado como inservível aos porcos passa a ser a sagrada refeição daquela criança.

Eu sempre fui uma pessoa inconformada. Minha face serena e meus olhos doces camuflam tempestades interiores. Mares revoltos, gritos silenciados, dores petrificadas desde os primórdios da minha existência. Ver um vídeo como esse, aos 10 anos, causou-me e ainda causa intenso sofrimento.

Doía-me mais porque eu bem sabia que aquela história não era fruto da mente criativa do produtor do filme. Na escola em que eu estudava, pública e da periferia de uma cidade interiorana deste nosso Brasil, a merenda escolar não servia apenas aos alunos. Após o nosso lanche, entrávamos para a sala de aula e, no portão, forma-se uma longa fila. Eram os irmãozinhos, crianças abaixo da idade escolar, que aguardavam para, caso sobrasse lanche, também comerem.

Hoje contemplei algo que me fez recordar de todas essas histórias. Pessoas de todo o mundo celebraram o reconhecimento do casamento entre pessoas do mesmo sexo nos Estados Unidos. Cada qual celebrou a seu modo e, no Facebook, colocando as cores do arco-íris na foto de perfil. Alguns, discordando da referida celebração, utilizaram a foto de uma criança africana esfomeada, também nas cores do arco-íris, com o seguinte dizer: “O dia que a nação se unir por essa causa, me chama que eu quero participar”.

Por vezes acho que a hipocrisia e a vileza humana são imensuráveis. Esses indivíduos que, em sua maioria, se autoproclamam “cristãos”, expõem a nudez cadavérica de uma criança como disfarce da homofobia de que são porta-vozes, sem pensar na dor e na fome que vitimam essa criança. Sem pensar na morte que lhe bate à porta, sem se colocar em seu lugar, sem ver a pequenez do seu próprio coração diante daquela cena e diz: “me chama que eu quero participar”. Como assim: “Me chama”?

São centenas e centenas de campanhas mundiais contra a fome, contra a desnutrição e de prevenção à mortalidade infantil. São milhares de ONGs que se dedicam a esse propósito. São inúmeras as instituições religiosas que se dedicam a isso. Há programas governamentais que visam exatamente à erradicação da miséria e da fome e a pessoa vem dizer que quando houver essa mobilização devemos chamá-la?

Eu faço aqui um desafio. Aposto que a maioria desses que postaram a foto da criança esfomeada é contra os programas governamentais de combate à fome. Afinal, a hipocrisia pseudo cristã é de grandeza infinita.

Num mundo onde porcos, não raro, são melhor alimentados que muitos humanos, ainda há religiosos que asseveram que a divindade se ocupa de orifícios penetráveis e não penetráveis, de amores abençoados e abomináveis, da existência de filhos e de meras criaturas. Talvez esse deus tenha mandado aos seus que estes amassem o próximo, mas não muito. Mas não sempre. Que amassem apenas quando lhes conviessem, como, por exemplo, quando estivessem despeitados pela alegria dos “hereges e abomináveis gays”.

Você tem uma religião? Tenho Deus, serve?

Você tem uma religião? Tenho Deus, serve?

Por Adriana Vitória

Outro dia, depois de 6 horas de trabalho intenso no Rio, deixei minha filha por um momento na casa da tia enquanto finalizava minha última reunião.

Quando sai, marquei com ela em frente ao carro onde estacionamos, perto de onde a deixei.

Nesse meio tempo fui à farmácia logo em frente.

Quando entrava, vi um menino de rua sentado. Ele se levantou e tinha cerca de 1,80. Veio em minha direção e me pediu dez reais  para comprar bala pra vender.

Naquele momento, de fato eu não tinha, mas disse a ele que quando trocasse o dinheiro lhe ajudaria.

A farmácia não tinha o que queria, então sai e ele estava bem ali, me esperando. Disse que tinha mais uma na outra esquina e me pediu para que o acompanhasse. Me senti um tanto acuada, talvez mais pelo seu tamanho. Apesar disso, ele tinha uma aparência frágil e desprotegida e estávamos no “baixo” Botafogo. Um bar atrás do outro, cinemas, livraria, gente pra todo lado. O máximo que poderia acontecer era, de fato, ele me roubar, mas mesmo assim resolvi  confiar e lá fomos nós.

Fomos conversando e perguntei a ele se estudava. Me disse que não, tinha abandonado os estudos. Perguntei onde morava. Na favela do Alemão, uma das mais perigosas do Rio.

Que droga! Não sabia mais o que pensar. Chegamos na farmácia e ele correu pra fila pra segurar um lugar pra mim: Vem, tia! A fila é aqui !

O lugar estava cheio e todos olharam para o menino alto e maltrapilho. Uns com receio, outros com desdém.

Aquilo me incomodou profundamente e foi o que bastou. Peguei-o pelo braço e decidi sair pra trocar o dinheiro. Ele não entendeu nada. Troquei o dinheiro no primeiro bar e sai.

Olhei bem pra ele. Era um rapaz magrinho e bonito com uns 17 anos, mas mesmo com a vida toda pela frente, já carregava no rosto um olhar vazio.

Não resisti e perguntei porque alguém tão jovem como ele vendia bala. Ele me respondeu que mal sabia ler e escrever.

Fiz um discurso gigante tentando fazer com que ele entendesse que seu destino só dependia dele e da sua força de vontade (certamente um discurso mais para mim mesma do que para ele).

Na verdade, nem sei se acreditava no que falava enquanto me esforçava tentando mudar o destino daquele menino, ao mesmo tempo me via em seu lugar.

Me via vivendo em um barraco frio, com fome, medo, sem ter o que vestir, sem dinheiro pra nada, sem escola, sem uma família acolhedora, sem um governo que se interesse, sem saber porque nasci, sem nada.
Quanto mais imaginava, mais engasgada ia ficando.

Que sensação horrível!

Até que, subitamente, sem conseguir ver uma saída, perguntei:

Você tem uma religião? E ele olhou bem pra mim e respondeu:

Tenho Deus, serve? Então nós rimos.

Apertei sua mão, lhe dei o dinheiro e falei:

Então confia nele e acredite. Você pode mudar tudo e é o único que pode acreditar em você. Não desista! Ele me agradeceu e nos despedimos.

A esta altura, minha amiga estava me ligando enlouquecida porque minha filha não tinha me encontrado e eu não atendia o celular.

Voltei correndo pra buscá-la enquanto pensava…. Quantos Tiagos conseguirão chegar à maioridade? Eu não sei se o Tiago que cruzou o meu caminho conseguirá, mas prefiro acreditar que sim.

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Para rapaz que conta piadas de graça na rua, sentido da vida é se motivar: ‘tento estar aqui e dar o meu melhor’

Para rapaz que conta piadas de graça na rua, sentido da vida é se motivar: ‘tento estar aqui e dar o meu melhor’

Por Gabriela Gasparin

Naquele começo de tarde, eu caminhava apressada pela Avenida Paulista em direção ao metrô Trianon quando li a seguinte frase: “Eu sou o Gabe. Conto piadas.” O cartaz estava colado numa mesinha na calçada. Sentado nela, um rapaz fazia anotações num caderno.

Foram poucos os segundos entre eu ler a frase, passar direto e decidir dar meia volta para conversar com o Gabe. Mesmo atrasada para um almoço, pensei que valeria a pena perder alguns minutinhos para perguntar o sentido da vida ao rapaz– no mínimo, eu poderia sair de lá dando risada.

Gabe é o apelido que Gabriel Cielici, de 28 anos, sempre teve. “Minha mãe me chama de Gabiroba, que é uma fruta da terra dela. Ela não me chama de Gabriel nem quando é sério. Quando é sério ela fala Gabe. Ninguém me chama de Gabriel. É Gabe.”

(aliás, aprendi com o meu xará que Gabiroba, palavra que muitas pessoas também usam para me chamar, é o nome de uma fruta. Eu achava que eram apenas sílabas que, juntas, formassem sons divertidos, mas sem significado)

Após a introdução sobre o apelido, eu quis entender o que levava Gabe a ficar sentado na calçada para contar piadas. E não era dinheiro. Eu cheguei a achar que o intuito seria ganhar alguns trocados, mas logo em seguida ele mostrou a outra cartolina que estava colada ao lado da primeira: “piadas de graça.”

Foi quando Gabe me explicou que é comediante de “stand up comedy”. Ele mora numa kitnet apertada no Centro de São Paulo. Para não ficar enclausurado trabalhando nos textos sozinho dentro de casa, foi para um lugar onde há alto fluxo de pessoas: pegou uma mesinha e foi escrever seus roteiros na rua. “As pessoas me viam e perguntavam o que eu estava fazendo. Eu sempre chegava e explicava a mesma história, dizia que conto piadas. As pessoas falavam, então conta uma piada!”

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“O comediante é aquele cara que está quieto no canto só observando e guardando a ironia para a cabeça dele”

Gabe acatou a sugestão, colocou o cartaz e passou a praticar na rua as piadas para contar à noite no bar. Faz isso há cerca de cinco meses. “Eu fico escrevendo e contando piada. Testando meu material ao mesmo tempo em que crio.” Além da Avenida Paulista ele costuma ficar também em outros lugares públicos de São Paulo, como o Parque do Ibirapuera ou o Minhocão.

E explicou que não cobra pelas piadas na rua porque não é o intuito final – ele já recebe pelas apresentações que faz à noite. Ele até colocou a plaquinha para dizer que é de graça para não inibir as pessoas de se aproximarem e pedir uma piada. “Eu realmente não quero nada em troca na rua, de dinheiro. Eu já faço meus shows para me sustentar. Aqui é mais para divulgar meu trabalho e ganhar experiência com as piadas que conto. Observo e absorvo bastante coisas à minha volta, eu gosto.”

Rir pra não chorar

Gabe me contou que é comediante autodidata. Chegou a começar várias faculdades, mas não concluiu nenhuma. “O mais próximo que eu cheguei de me formar foi um curso que eu fiz de roteiro na Academia Internacional de Cinema. É o que eu precisava para me dar a diretriz de escrita e conseguir passar os pensamentos melhor da minha cabeça para o papel. O resto a gente vai pegando no palco, vai pegando experiência, vai pegando o timing sozinho.”

Entre as faculdades que começou a fazer está Rádio e TV, Administração e Publicidade. Além disso, sempre trabalhou. Já foi vendedor de portas, professor de inglês e classificador internacional de café por cinco anos em Santos, no litoral de São Paulo, onde vivia.

Aí perdeu o emprego e, no mesmo período, levou um fora de uma namorada com quem estava há cinco anos. “Vendi meu carro pra viajar com ela para a Disney e ela terminou comigo. Tenho até hoje tatuado o M de Maíra.”

Gabe sempre gostou de stand up comedy. Aproveitou o ‘boom’ que ocorria na época no Brasil e começou a frequentar apresentações e a fazer participações rápidas. “Comecei a desenvolver meu próprio material e a falar das minhas coisas, da minha ex-namorada, do meu jeito de ver as coisas, e comecei a fazer piada.”

O comediante avaliou que o período depressivo que passou, com a perda do emprego e da namorada, de certa forma o estimulou a fazer piadas. “Ainda mais com a comédia. Eu sigo muito a linha que a comédia verdadeira vem de um lugar sombrio. O comediante nunca é aquele cara que é o engraçadinho da roda ou da sala, que todo mundo acha graça. O comediante é aquele cara que está quieto no canto só observando e guardando a ironia para a cabeça dele.”

Sentido da vida

Quando perguntei a Gabe qual é o sentido da vida, ele me disse logo de cara: “eu já entrei em depressão várias vezes sobre isso. Eu não sabia qual é a utilidade, a importância de eu estar aqui. Se existem alienígenas ou não, se eu vou deixar um legado ou não. É puro egoísmo meu eu querer deixar um legado, então eu vivo em conflito com isso.”

E a conclusão que chegou é que, se há ou não um sentido maior, tem que fazer o melhor que puder enquanto estiver aqui. “Eu tento estar aqui e dar o meu melhor.”

Revelou que pensava justamente nesse assunto naquele dia, ao olhar para cima. “Eu acho que quando a gente olha para cima com esperança em alguma coisa, ou em Deus, ou como eu, que acredito em alienígena, a gente está olhando meio que no espelho da gente. Sempre que alguém reza para alguma coisa, a pessoa não sabe mas ela está rezando para si mesma.”

Para Gabe, esse rezar para algo funciona como uma força motivacional. “Eu acredito que parte do sentido da vida é você se motivar bastante, porque quando a gente morre, morre e acabou. Pelo menos pelo o que sei. E morre e é frio. E não importa o quanto você seja importante, o mundo vai continuar sem você.”

Disse acreditar em energias que nos influenciam. “Quando eu coloco um pouco mais de fé, quando eu acredito, coloco fé em mim, eu acredito que energias ficam em volta de mim e ajuda. Acredito que quem se aplica nas coisas consegue, porque tem coisas que agem para o nosso bem quando a gente trabalha muito. É meio clichê falar isso, é meio vago, mas funciona.”

(Atualização: esqueci de colocar que saí de lá tão atrasada para o meu almoço (a conversa com Gabe demorou uns 20 minutos, mas isso pra quem está atrasada é muito tempo), que acabei não pedindo nenhuma piada. Tudo bem, fui embora dando risada mesmo assim, porque conheci uma figura e tanto e um sentido da vida a mais para ‘motivar’  meu dia)

Vidaria é um projeto parceiro CONTI outra.

 

O domingo e os sentimentos sinceros

O domingo e os sentimentos sinceros

Por Josie Conti

Eu tive um professor de química no ensino médio, antigo colegial, que sempre dizia ao justificar sua agitação: ” Se eu paro, eu penso; se eu penso, eu choro. “

É evidente que sua frase era dita em tom humorístico, mas, como muitas das brincadeiras que vemos por aí (inclusive as nossas), trazia em si grandes e possíveis verdades. A frase remetia a ideia de que para não entrar em contato com sentimentos indesejados e que fazem chorar, a melhor opção era não parar.

É necessário um dia para eclipsar a rotina. Um dia que, independente de simbologias religiosas, permita-nos respirar em outro ritmo, sentir o ar preenchendo os pulmões e estendendo a vida dentro de nós para, depois, expirar o alívio de um existir mais leve, aquele que só a mais verdadeira reflexão pode promover.

Tem gente que não gosta de domingo, considera-o entediante, triste, um luto que precede mais uma semana de trabalho.

Mas, a não ser que a pessoa trabalhe em turnos ou com plantões, domingo há de ser sinônimo de um tempo a mais. Não perceber essa realidade a seu favor é como existir, dia a dia, como o cachorro que corre atrás do próprio rabo e até o morde, mas, que não entende que, assim como o rabo é dele, a dor que vem da mordida também o é. Ele não junta os pontos. Ele sente a dor, mas, não lhe atribui o significado da origem. Ele sangra, mas, não deixa de se machucar porque não percebe que são seus próprios dentes que o perfuram.

Ter tempo para si é respeitar o corte, buscar a sua origem e permitir a cicatriz. Aquele que entende o percurso de sua história se orgulha das marcas que carrega na carne.

Parar e silenciar um lado de nós é também oportunidade de ampliar outras capacidades. Incomparável é a beleza adaptativa daqueles que, ao perderem alguma capacidade, superam-se em outros aspectos de suas vidas. São exemplos os cegos que veem mais do que nós, os mudos que falam com as mãos, os paraplégicos que dançam com o olhar…

Mas, se alguns só desaceleram por força de uma deficiência física, de um acidente, de uma depressão ou mesmo de um luto – fatores não opcionais, nós podemos promover um desacelerar consciente como chance de contemplar a vida, atentar-nos para os detalhes ou, como diria Manoel de Barros, viver no mundo das insignificâncias.

O sentimento encontrará então chance de fluir por todo nosso corpo, cairá em nossa corrente sanguínea, irrigará veias e artérias.

Se for necessário, o sentimento deve também chorar, espernear, descabelar-se. Tudo o que precisar até que possa se recompor para a próxima semana. Mas, isso leva tempo e exige pausa. E o tempo deve ser parâmetro de medida liberado para o sentir, para aquele sorriso maroto se formar nos lábios, para os olhos se encontrarem com suas lágrimas, para que o corpo se ajuste ao seu próprio ser.

Sentir com tempo é não bater asas, apenas planar enquanto se observa o horizonte.

Rompendo as prisões invisíveis da existência

Rompendo as prisões invisíveis da existência

Por Marcela Alice Bianco

Engana-se quem se considera totalmente livre ou acredita que o mundo é realmente como se vê. De certa maneira, e em alguma dimensão, somos todos prisioneiros de nós mesmos e, por essa razão, vemos o mundo como somos!

Cada um enxerga a vida através de suas próprias lentes e o que nos compõe na trama da vida depende de inúmeros fatores biológicos, psíquicos, sociais, culturais, familiares, etc. E como grande parte da nossa vida consciente sofre influência dos aspectos inconscientes, nunca seremos totalmente donos da verdade, das nossas próprias casas internas e das nossas decisões.

Claro que nunca poderemos perder a noção de reponsabilidade e de livre arbítrio pois, se assim fosse, seria impossível nos organizarmos em sociedade e até mesmo entender que ampliar a nossa consciência é a melhor forma de estarmos mais aptos ao discernimento, às relações de alteridade e ao exercício da ética na vida diária.

Porém, desde a introdução da Psicanálise de Freud a partir dos estudos das neuroses e da hipnose até as descobertas de Jung sobre o conceito de complexo existente na Psicologia Analítica, os fatores inconscientes e sua influência sobre o comportamento humano são amplamente estudados e divulgados, tanto na área científica quanto no senso comum.

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As descobertas mais recentes da Neurociências vêm confirmando o que lá atrás já se teorizava através das observações e das análises. Partes diferentes do nosso cérebro são responsáveis pelo funcionamento da vida. Uma delas, o córtex pré-frontal é a responsável por nossas funções executivas, como o raciocínio, julgamento, pensamento lógico, simbólico, etc. Porém, essa estrutura não está pronta assim que nascemos, mas se forma durante toda infância até o início da vida adulta.

Em contrapartida, as partes que são responsáveis pelos comportamentos reflexos, instintivos e pelas emoções (sistema límbico e tronco cerebral) já estão funcionando a todo vapor. O bebê é capaz de interagir com seu cuidador e reagir frente às necessidades de fome e cuidado, mesmo que de maneira rudimentar.

Assim, as primeiras experiências são registradas e absorvidas prioritariamente nessas partes do cérebro que já se encontram prontas e amadurecidas, formando o que chamamos de memória implícita. Esse tipo de registro inconsciente não envolve a lembrança dos fatos (por isso não conseguimos lembrar do que nos aconteceu nos primeiros anos), mas influencia o tom básico do sentimento de si mesmo no mundo e também a formação dos registros conscientes posteriores.

Ao mesmo tempo, o córtex-frontal segue em franca expansão e formação com base nas nossas experiências e estímulos para o aprendizado. Mas também sofrendo a influência das outras partes do cérebro que podem distorcer a percepção, interferir nas expectativas do futuro e modificar o comportamento.

Neste ponto do texto você já deve estar se perguntando: – Mas o que tem isso a ver com essa história de vermos o mundo como somos e de não sermos senhores da nossa própria casa?

Então vamos alinhavar tudo isso! Quando acreditamos que somos conscientes dos nossos atos e escolhas, acreditamos que somente a parte do nosso cérebro responsável pela consciência está atuando, mas isso não é verdade. Tudo está ativado o tempo todo e uma parte influencia a outra. Apesar da aprendizagem e da expansão no nosso córtex, os núcleos responsáveis pelas emoções e pelos instintos continuam agindo de maneira predominantemente inconsciente sobre nós.

contioutra.com - Rompendo as prisões invisíveis da existênciaTodos conhecemos os tão chamados complexos de inferioridade, superioridade, de Peter Pan, de Cinderela, etc. não é mesmo? Eles, por exemplo, têm a ver com toda essa história!

Os conteúdos não assimilados, reprimidos, fixados e não registrados na consciência (instintos, emoções, traumas, etc.) se agrupam em torno de um tema e se tornam verdadeiras unidades vivas, capazes de existência própria (autônoma) e com forte carga afetiva dentro da nossa psique. E é justamente essa força que chamamos de Complexo.

Como disse a renomada Psiquiatra Nise da Silveira, “não somos nós que temos o complexo. É o complexo que nos tem, que nos possui”. Assim, quando dominados por nossos complexos inconscientes, nos tornamos verdadeiros prisioneiros da experiência não simbolizada, assimilada e integrada na consciência.

Mas, como podemos identificar isso na nossa vida cotidiana? Saber quando é o Complexo que fala e age por nós e que não estamos sendo tão autênticos como achamos que deveríamos ser?

Os complexos interferem na vida consciente por meio de atos falhos, lapsos, perturbações da memória, situações contraditórias, atos impulsivos, automatizados, comportamentos estereotipados, fantasias, etc. Eles funcionam como verdadeiros imãs e atraem para si tudo o que se relaciona com ele. Uma pessoa dominada por um complexo vive em função da sua energia compulsiva. Eles funcionam como verdadeiras prisões invisíveis da existência, das quais a pessoa nem mesmo imagina estar.

Nem por isso, os complexos são essencialmente patológicos. Afinal, ao mesmo tempo que eles sinalizam que há algo não integrado e assimilado na consciência, eles também servem de estímulo para que nos esforcemos em nos desenvolver e amadurecer, mantendo uma abertura para novas possiblidades de existir no mundo.

Vamos tomar como exemplo uma pessoa que sofre de um complexo de inferioridade. Ela terá dificuldades em aceitar os pontos fortes de sua personalidade. O seu olhar turvo enxergará somente os próprios defeitos e fraquezas, projetando fora de si todo o potencial negado. Os outros serão os bons, belos, capazes, superiores, etc. Assim, o estímulo é identificar o que em sua biografia contribuiu para a formação dessa visão desajustada, trabalhar os afetos relacionados a essa atitude pessimista e reivindicar para si próprio as qualidades e tesouros depositados para fora de si.

Quando dominados pelos complexos não temos escolhas, vivemos em estado de identificação, como verdadeiras marionetes em suas mãos. Mas, se formos atentos, podemos identificar a atuação de um complexo em muitas situações da vida diária!

Ele estará ativado quando não queremos abrir mão de uma conduta, uma ideia, crença ou ação e agimos de maneira exagerada, explosiva, unilateral e reacionária frente a diversidade de opiniões, sem o mínimo de questionamento ou discriminação racional.

Também estará atuando quando agimos de maneira compulsiva e não conseguimos escolher ou barra nossos instintos e agimos de maneira impulsiva, descontrolada e irracional. E depois nos perguntamos, o que foi que nos deu, sem encontrar respostas.

Eles serão profundamente afetados por nossas emoções, frustrações e dificuldades do passado não elaborados e muitas vezes inconscientes. Neste caso, percebemos sua ativação quando não conseguimos atualizar nossa condição, superar nossos traumas e desamparo e passamos a reagir como se tudo que já se foi continuasse presente. Ou quando permanecemos encarcerados no futuro, quando a nossa expectativa do porvir teima em não cessar dentro de nós.

O próprio corpo pode ser uma via de expressão dos complexos quando ficamos fixados em padrões estéticos e de saúde e não compreendemos que ele envelhece, modifica-se e adoece a desdém do nosso desejo.
Enfim, quando subjugamos a força do inconsciente e nos escondemos de nós mesmos, acabamos nos tornando verdadeiros cativos, como gênios presos em uma garrafa!

Prisioneiros dos complexos, não temos escolha, liberdade e autonomia. Permanecemos privados da verdadeira essência do nosso Ser, da possibilidade de vivenciar a plenitude e conviver melhor com os outros e com nós mesmos.

contioutra.com - Rompendo as prisões invisíveis da existência Mas, como superar nossos complexos? Para sair dessas prisões precisamos caminhar rumo a ampliação da consciência. Reconhecer e recolher as projeções inconscientes. Aprender a discriminar o que realmente é fruto da nossa escolha e o que é a voz do complexo atuando dentro de nós. Precisamos sair do automatismo e, a partir desse novo caminho, nunca abandonar a estrada. Confiar na vida, entregar-se a novos voos ou aprender a pôr os pés no chão.

Para identificar e assimilar a força de um complexo precisamos nos despir das nossas cascas, das nossas defesas e se despojar do nosso orgulho, da vaidade e de tudo que nos é pré-concebido. Soltar os grilhões das certezas e resistências. Permitir a dúvida e buscar construir nossas pontes de conhecimento.

Tarefa hercúlea que exige esforço intenso e, muitas vezes, um bom companheiro de estrada, como o Psicoterapeuta. Num ambiente neutro, de acolhimento e sigilo é possível examinar cuidadosamente os complexos, identificar suas origens, expressar os afetos neles contidos e, assim, ganhar novas formas de compreender a si, o outro e o mundo. Relação que envolve comprometimento, empatia, confiança, esforço e profundidade.

Temos a nosso favor o fato de que nosso cérebro ser um órgão plástico e uso-dependente, ou seja, ele se modifica e se transforma com a experiência vivida, imaginada, sonhada e sentida. Assim, mesmo que os conteúdos sejam referentes às fases da vida em que nunca teremos um registro consciente, poderemos trabalhá-los através das artes, do movimento, das técnicas de relaxamento e da própria relação terapêutica. Recursos que ajudam o cérebro a compor novos caminhos e com isso, deixar de atuar através dos trilhos dos complexos.

Afinal, para alargar nosso poder de escolha e discernimento é necessário mergulhar e descer nas profundidades do Ser para encontrar sua essência, e após transformar-se, projetar-se novamente em direção ao alto. Subir para um novo patamar de consciência e vislumbrar a luz. Para então, seguir em frente, não se esquecendo que outras descidas virão e serão necessárias para que conquistemos o verdadeiro tesouro que somos Nós!

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Confissões de uma ignorante

Confissões de uma ignorante

Por Elika Takimoto

Estou um pouco cansada. Por onde ando sinto-me humilhada pela cultura de amigos, de inimigos, de alunos, de conhecidos e até de gente que acabei de ser apresentada. Não falo somente da cultura apreendida nas universidades e em escolas, mas também da cultura assimilada nos botequins, nas academias, nos shoppings e na Bahia. Quem está ao meu lado sempre leu mais livros do que eu, é filiado a algum partido político, cita com precisão frases de filósofos, estudou mais do que eu, sabe mais física do que eu, pratica mais esportes do que eu, foi a mais congressos do que eu, vai mais a médicos do que eu, sabe mais línguas do que eu, falam melhor do que eu, conhecem mais teatro e música do que eu e sempre bebem mais do que eu.

Basta eu colocar os pés na rua para certificar-me da minha pequenez. Você já leu Kenzaburo? Não? Como não? Você é filha de japonês e não conhece Kenzaburo? Chego a casa correndo, com pressa em ver-me livre de tanta ignorância, entro no site do submarino, compro o livro de Kenzaburo, leio Kenzaburo e vou para a rua de cabeça erguida. A alegria acaba ao me deparar com a primeira pessoa que estabeleço um diálogo. Já usou os cremes da Victoria Secrets? Victoria Secrets? Hã?!? O que é isso, só conheço nívea, johnson e os ácidos retinoicos que a dermatologista prescreve. Você é de marte? Como uma mulher pode não saber o que são os cremes da Victoria Secrets? Lá vou eu correndo, compro os cremes, na verdade, ganho os cremes, passo os cremes, volto às ruas me sentindo uma mulher mais completa e o que ouço? Além de tooodos me perguntando se estou usando Victoria Secrets (como todos conheciam o cheiro menos eu?) ainda apontam um prédio, assim do nada com a maior naturalidade, e falam que aquele desenho lembra Fernand Léger. Quem é esse? Não sabe? Como não sabe quem é Fernand Léger? O grande artista francês especialista em cubismo! Nem vou perguntar o que é cubismo, tenho lá minha ideias sobre uns quadros sem pé nem cabeça, ou com um pé e uma cabeça no meio do quadro, mas é melhor ficar calada. Deve ser isso. Deixa quieto. Quando o assunto é cinema sempre acho que vou arrasar, mas não tarda em chegar um daqueles que ficam classificando filmes pela direção e de diretor eu só conheço o Scorsese e o Spielberg. Também sei quem foi Copola e só! O cara me pergunta se eu já vi filmes do Kubrick. Quem? Stanley Kubrick, não conhece? Jesuis. Não.

De esportes ignoro absolutamente tudo. Por mais que meus pais me expliquem não sei contar os pontos de vôlei e não vejo sentido naquelas pontuações do tênis. Por que não um a zero, dois a três? Que diabos é isso de acertar uma bolinha e ganhar 15 pontos? Depois 30 e depois 40!!!! Não. Desisto. Nas raras vezes em que assisto uma partida de futebol me assusto cada hora que um menino cai. Todos gritam: não foi nada! Não foi nada! E aí vem o slow motion. Nem em câmera lenta eu consigo perceber que o jogador de verde caiu de propósito. Velejar? Eu sei toda a parte teórica porque tem a ver com soma de vetores e coisa e tal e disso eu entendo um pouco, mas me distraio contemplando as velas e esqueço sempre o que é uma bolina. O que é uma bolina? Essa é uma pergunta metafísica que ao ser feita resulta sempre em deslocar o centro de massa do barco e cair no mar. Resultado: sempre vou na direção que o vento sopra e tenho medo de navegar sem companhia.

Estive em Buenos Aires, no Caribe e na Suíça, mas não sabia ao certo onde estava. Nunca soube quem estava fazendo fronteiras comigo e ficava boquiaberta quando via alguém correndo animado para tirar fotos com a estátua de Rousseau ou algum monumento histórico que eu até então desconhecia a existência. Que legal! Uma igreja ortodoxa russa! Meodeos. Como sabem tanto? De história nem sei quais foram os quatro gigantes da Reforma e nem adianta me falar que esquecerei em menos de dois dias!

De bebida eu nada entendo. Não sei o nome de vinhos mais triviais e nem vamos falar da diferença de paladar entre um que custa os olhos da cara e um baratérrimo. Meu organismo carece de uma enzima que metaboliza o álcool e, portanto, não bebo. Quando insisto, desmaio. Pronto. Justificado. Mas comer eu como e como bem e de tudo, embora isso não seja coisa para se vangloriar e muito menos cultura que é o tema em pauta. Para dizer a verdade até passei vergonha ao tentar esnobar um pouco. Estive em Salvador e voltei batendo no peito dizendo que comi um sarapatel delicioso. Crente que estava fazendo bonito quando percebi que todos que me ouviam faziam cara de nojo. Sabe do que é feito o sarapatel, Elika? Alguém sabe? Como todos vocês sabem disso e eu não?

Além de tudo, sou uma leitora completamente devassa. Não posso ler nenhum filósofo e nenhum político. Sou facilmente convencida. Seduzem-me sem a menor resistência. Tenho orgasmos múltiplos sem perceber que estou sendo estuprada. Mas o meu amor não é inabalável. Ao abrir outro livro, lá vou eu de novo sem ao menos me sentir confusa para os braços de um outro bambambã qualquer.

Ando preenchida de indagações, angústias e incertezas, mas não sou infeliz por conta disso. Não transformo essa minha “ignorância” em depressão, mas em força, curiosidade e criatividade. Sobrevivo porque sou como os historiadores. Só explico depois do acontecido e escolho as causas para todos esses efeitos desastrosos. O problema é que, às vezes, eu fraquejo e fico assim. Como hoje. Cansada por ser tão inofensiva.

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Nise da Silveira, uma vida como obra de arte, por Edson Passetti

Nise da Silveira, uma vida como obra de arte, por Edson Passetti

Nise da Silveira entendeu os estados do ser vividos e difundidos por Antonin Artaud. Disse não à loucura como doença mental, afirmando a anti-psiquiatria. Não se deixou enganar pelos objetos inventados pelos loucos do hospício e tomados pelos críticos como obras de arte. Nem a vida dos seus loucos nem a sua, podiam ser apanhadas pela psiquiatria ou pela arte dos mecenas, críticos, avaliadores e historiadores.

Nise da Silveira, como Antonin Artaud, não concebia a arte separada da vida, teatro alheio à minha existência, loucura como doença, artista como momento profissional. Louco, artista e terapeuta ocupacional, como ela preferia se chamar, ao lado de bichos, amigos e amorosidades, atentam contra as estabilidades. Vivem intensamente até perderem-se de si. Alguns, às vezes, demoram mais para retornarem, vivem mais longamente certos estados do ser, silenciosos, alheios, sequestrados. Ali onde não há sociedade — lá onde não há mais a tirania do conceito de sociedade propunha, no século XIX, o filósofo libertário Max Stirner: é preciso acabar com a ideia de sociedade para que pessoas livres inventem associações livres. Naquela zona cinza para tantos de nós, atordoante e inebriante de preto e branco e de cores para outros tantos de nós.

Diante de Dioniso, irracional, instintivo e paixão, apartado de Apolo, Nise quer Apolo (Espinoza) dionisíaco (Artaud). Dioniso é teatro, é tragédia, é abalo na normalidade, nos democratas juramentados, nos tiranos da ocasião, nos bons-moços defensores de direitos, deveres e castigos. Onde se castiga mais: na prisão, no hospício, no asilo, na escola, ou na sua própria casa? Eles querem punir mais para com isso acabarem com as doenças, os crimes, as rebeliões. Eles não querem acabar com a doença em nome da saúde, mas a glorificação do espírito.

Dioniso torna impossível confinar a vida na casa, no sexo seguro, na escola, na prisão, na empresa, na burocracia, no partido, no governo, no teatro, ou na grande arte. Dioniso afeta: atinge o alvo e provoca amizades. É atuação pública o tempo todo; não é um estado alterado de consciência circunstancial. Não é o junky, não é o clubber, não é o criminoso ou o louco. Não é o privado, a particularidade, o efêmero. Ele está aqui, sou eu, você e o cara ao seu lado. É trágico. Ele é o avesso.

Aristóteles, na Poética, quer fazer crer que a tragédia opera pela mímese, repetição das marcas deixadas pelos deuses gerando medos e temores que, pela encenação, purifica as paixões. Nietzsche, em Nascimento da tragédia, afirma: “do interior do homem também soa algo de sobrenatural; ele se sente como um deus, ele próprio caminha agora tão extasiado e elevado, como vira em sonho os deuses caminharem. O homem não é mais artista, tornou-se obra de arte: a força artística de toda a natureza, para deliciosa satisfação do Uno-primordial revela-se sob o frêmito da embriaguez” (p.31).

Domitilla Amaral, chamada por Nise da Silveira para uma leitura dramática de As bacantes, de Eurípedes, provoca a amiga, propondo utilizar como ator na encenação somente Rubens Corrêa, no papel de Dioniso. Os demais deveriam ser os loucos do Centro Psiquiátrico Engenho de Dentro. Nise vacila. Domitilla vai até Mihail. Ela o descreve como sendo “o russo educado em Instambul, que encantava a todos pela nobreza de sua cultura” (in Revista Quaterni 8, p. 88). Mihail era um louco, pelo qual Nise tinha especial carinho. Foi-lhe entregue o papel de Tirésias, o cego vidente. Dirigindo-se ao rei Cadmo e falando sobre Penteu, o que desafia Dioniso, diz Tirésias:
“É hora de fazermos preces, tu e eu,
por um demente, embora seja tão feroz,
preces pela cidade, e conjurar o deus
a não lhe trazer males nunca imaginados.
Agora segue-me. Segura teu bastão
coberto de ramos de hera. Trata, amigo,
de orientar meus passos enquanto me amparo,
pois seria ridículo para dois velhos
caírem juntos. Siga-nos quem tiver ânimo,
pois temos de servir a Báquio, o deus
filho de Zeus. Mas deves ter cuidado, Cadmo,
para que o rei Penteu não faça entrar luto
em tua casa (não me inspira o dom profético;
os fatos falam e são bastante eloqüentes).
Estando louco, ele procede loucamente”.
(As bacantes, Eurípedes, tradução Mário da Gama Kury, Jorge Zahar Editor, p.
223).

Conta Domitilla Amaral que “o público inteiro sentiu a esmagadora presença de Mihail; quando ele se levantou e, de olhos fechados, falou seu longo monólogo, alheio a tudo e a todos, houve um momento  mágico em que os deuses baixaram” (Idem, p. 89). Nise era assim, sabia mudar. Tinha prazer em correr perigo. Os estados do ser são cada vez mais perigosos, lembra Artaud. Carlos Pertuis, outro interno, humilde
sapateiro e guru de Nise, segundo Domitilla, dizia: “que culpa tenho eu de querer a luz da sombra” (Idem, p.90)…

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Nise desacatou a ditadura, a psiquiatria, os estabelecidos. Era afirmadora. Era libertária. Não suportava desigualdades, nem tampouco uma igualdade uniformizadora. Inventou em lugar do conceito de Terapia Ocupacional, a noção emoção de lidar, termo criado por um “cliente da Casa das Palmeiras” (Frankin Chang, idem, p.24). Os terapeutas ocupacionais são orientados para funcionarem com afeto catalizador, um estar ao lado, uma relação de horizontalidade, de abolição da hierarquia entre razão e desrazão, afirmação de legisladores, provável emergência de outros estados do ser. É ser afetado, é troca de afetos espontâneos. É algo que se passa entre cliente e bicho também, pois os animais, como as pessoas, são catalizadores de afetos. Da cadela Caralâmpia que se aproxima dos doentes no hospício ao seu querido e mais amado ente, o gato Carlos, que viveu a seu lado por 19 anos e morreu um ano antes dela, Nise da Silveira não deixou de reparar que a vida não existe para ser conservada. A vida está em expansão dentro e fora de mim. A Casa das Palmeiras, por isso mesmo e devido à impossibilidade de acabar com a ditadura da psiquiatria é, nas palavras de Nise, “um pequeno território livre” (apud Idem, p.27). A Casa das Palmeiras, lugar de arte e arteiros, é um não-lugar que evita internações.

Nise da Silveira, aprendeu a lidar com estados do ser. Uma paciente chamada Luiza, conta Luiz Carlos Mello, tida pela psiquiatria como esquizofrênica crônica, quando soube que a doutora Nise tinha sido presa pela polícia da ditadura de Vargas, devido uma delação de certa enfermeira, não teve a menor dúvida: “deu uma surra extraordinária na enfermeira, deixando-a estendida no chão” (Idem, Luiz Carlos Mello, p. 9). É preciso sair do verbal, experimentar a vida, perigos, perder o controle de si. Com Artaud e ao seu lado, é preciso rebeldia e agressão. O livro Artaud, uma nostalgia do mais foi publicado contendo artigos de Nise, do ator Rubens Corrêa, do filósofo Marco Lucchesi e do ex-paciente psiquiátrico Milton Freire. Mas Nise, segundo
Lucchesi, não merece etiquetas… ou qualquer forma que não ajude a perceber a marca diferencial de seu trabalho” (Idem, p. 51). Quando ela nasceu, em 15 de fevereiro de 1905, diz Agilberto Calaça (Idem, p. 201), essa filha única, que casou e não teve filhos, recebeu o nome de Nise em homenagem à musa inatingível e rebelde do poeta inconfidente Cláudio Manoel da Costa.

Nise foi a Jung, ao ministro Pinotti, em 1959, requerer a liberação dos quadros do Museu do Inconsciente que tinham seguido para Zurique. Recebia amigos, artistas, estudantes e estudiosos para com eles dialogar, tomar chá, inventar um neto, Gilberto Gomath, que a via uma Nise dionisíaca provocando as agradáveis tardes de Domingo que chamou de Domi/Nises. Andou pelo cárcere, saiu e voltou para trabalhar no hospital ao lado de seus clientes. Foi aposentada. Regressou no dia seguinte ao hospício inscrevendo-se como voluntária. Não cedeu a ordens superiores e às hierarquias. Ao contrário, com persistência, estremeceu-as. Permaneceu jovem. Muitas pessoas falaram e ainda falarão de Nise. Às vezes demora um pouco. Vivemos um tempo, como o do personagem de O inominável de Samuel Beckett, o de um pensar sem corpo. Quem sabe, em breve, as associações, avessas à sociedade, façam proliferar o corpo sem órgãos, como queria Artaud, livre da hierarquia da organicidade a ele atribuída pelas funções dos órgãos; um corpo sem órgãos tomando
a nossa história que é a das marcas no corpo. Um devir dionisíaco, desconcertando o presente.

Nise da Silveira diante das luzes da psiquiatria, da maioridade atingida com o cartesianismo, nos sugere a emoção de lidar, a liberdade de pensar livremente pela razão do outro. Não há mais doente mental, não há mais o outro, aquele ser que em nossa cultura, para não ser dizimado, precisa aceitar ser subordinado, tornando-se o mesmo de mim. Um outro que é negro, pobre, nordestino, habitante da periferia, um diferente, aquele para quem se dá o direito para ele/ela ficar onde está, o direito de gueto, de ser estranho e portanto, como todo direito, dever de ser o Mesmo, aquele que me domina. O antropólogo Claude Lévi-Strauss dizia, em Tristes trópicos, que nossa cultura se opõe à dos primitivos. Esta é antropofágica. A nossa é antropoêmica, não suporta os desvios, os vomita para fora: prende, interna, confina, exila, mata. Nise quer o outro sim, o perigoso de mim e de você, estágios do ser. O terapeuta e o cliente como legisladores lado a lado. Ah, você dirá, ela não disse nada disso. É, te direi acrescentando, é muito pouco! Você e eu sabemos que ela não investiu em conservação, mas em expansão da vida. E todo aquele que sobre isto se atira abre possibilidades para que outros parceiros, construam outros mapas, gerando uma cartografia libertária.

Nise, diante da razão e de sua forma científica, lança mão da razão do outro: literatura, jogos, bichos, objetos e texturas, arte não como hedonismo mas como existência. Existência não como possibilidade de integração ou aceitabilidade mas como desestabilidade à razão e às instituições do são, do normal e do boçal. Não se
está em busca de identidades, mas de diferenças na igualdade. Uma coisa para poucos, uns, mas que poderá ser para muitos.

Emoção de lidar, no hospício, na casa das Palmeiras, na sua casa, no seu caminho nômade. Não mais pacientes, mas parceiros nesta longa viagem pelos estados do ser, perigosos momentos da arte de viver.

“A vida não é isso ou aquilo”, disse-me Nise durante a gravação do vídeo que leva seu nome, “a vida é isso e aquilo”. Diante da centralidade, a descentralidade, a titânica e contínua luta entre autoridade e liberdade, a inequívoca existência de Apolo Dioniso. Vida são relações de força!

É preciso segredar como na amizade privada dos amigos tanto quanto conspirar, ser subevrsivo na intimidade e na polis. Mas é preciso ser leal. A amizade é particular e pública, estabelecida entre os envolvidos entre si contra o estado geral das coisas (o hospital, o governo, o Estado, a psiquiatria, o teatrão…). É preciso amorosidade dos envolvidos entre si (os amigos) para com os clientes (sob múltiplos
estados do ser). Amizade privada entre amigos, atingindo o público, investindo em antipsiquiatria.

Viver os diferentes estados do ser é também abolir a sociedade; é inventar as igualdades longe das uniformidades; é se libertar da mesmice em rezar por direitos que nada mais são do que uma nova forma de confinamento. Diferentes estados do ser é reconhecer que não somos indivíduos, mas divíduos esse ser capaz de afirmar a impossibilidade do indivíduo e de sua utopia, a ilusão da autonomia.

Nise da Silveira dizia que preferia a loba faminta ao cão gordo e encoleirado: “a palavra que mais gosto é liberdade. Como gosto desta palavra” (Idem, apud Bernardo Horta, p. 70). Nise escreveu poucos livros, mas proferiu muitas palavras vivas, como estas: “ouçam bem: nós todos caminhamos para uma diferenciação. A massa dos iguais é um verdadeiro muro e, para não se amoldar a ela, de novo, é preciso lutar sempre” (Idem, p. 72).
Foucault, no final de sua obra se preocupou com a ética. Não com a ética como conjunto de prescrições particulares diante da moral. Mas ética livre de moral, inventada, um estilo de vida, uma estética da existência. Dizia Foucault que ela diz respeito a critérios de estilo. Nise, os terapeutas, os clientes inventam emoções de lidar, afetos catalizadores, subversões, liberações, estados do ser. Perigo!

Perigo para a sociedade!
“Quem no seio de certas angústias, no âmago de alguns sonhos não conheceu
a morte como sensação que despedaça e é maravilhosa?” (Antonin Artaud).

Edson Passetti
Professor do Depto. Política e Pós-Graduação em Ciências Sociais
Coordenador do NU-SOL (Núcleo de Sociabilidade Libertária) da PUC-SP

Fonte: Museu de Imagens do Inconsciente

Uma mistura africana de Jazz e poesia: Cheikh Lo

Uma mistura africana de Jazz e poesia: Cheikh Lo

Impossível não se contagiar com a mistura presente neste clipe.

Trata-se de  Cheikh Lo, nascido em 1955, no Senegal. Com uma voz encantadora, faz uma releitura de clássicos, música cubana e jazz, numa batida africana capaz de levar o ouvinte ao êxtase.

Cheikh Lô featuring Fixi & Flavia Coelho «Degg Gui»

Vale conferir.

Disponibilidade é um grande presente

Disponibilidade é um grande presente

Por Tatiana Nicz

“O tempo se mede com batidas. Pode ser medido com as batidas de um relógio ou pode ser medido com as batidas do coração. Os gregos, mais sensíveis do que nós, tinham duas palavras diferentes para indicar esses dois tempos. Ao tempo que se mede com as batidas do relógio – embora eles não tivessem relógios como os nossos – eles davam o nome de chronos. O pêndulo do relógio oscila numa absoluta indiferença à vida. Com suas batidas vai dividindo o tempo em pedaços iguais: horas, minutos, segundos. A cada quarto de hora soa o mesmo carrilhão, indiferente à vida e à morte, ao riso e ao choro. Agora os cronômetros partem o tempo em fatias ainda menores, que o corpo é incapaz de perceber. Centésimos de segundo: que posso sentir num centésimo de segundo? O tempo do relógio é indiferente às tristezas e alegrias.


Há, entretanto, o tempo que se mede com as batidas do coração. Ao coração falta a precisão dos cronômetros. Suas batidas dançam ao ritmo da vida – e da morte. Por vezes tranqüilo, de repente se agita, tocado pelo medo ou pelo amor. Dá saltos. Tropeça.Trina. Retoma à rotina. A esse tempo de vida os gregos davam o nome de kairós.

Chronos é um tempo sem surpresas: a próxima música do carrilhão do relógio de parede acontecerá no exato segundo previsto. Kairós, ao contrário, vive de surpresas. Nunca se sabe quando sua música vai soar.”

Rubem Alves em O AMOR QUE ACENDE A LUA – Um caso de amor com a vida.

Tenho um grupo de amigas muito queridas e de longa data, a vida nos colocou em caminhos diferentes, porém sempre que possível tentamos nos reunir para celebrar nossa amizade e colocar a conversa em dia. Nos últimos meses têm sido extremamente difícil de conseguir uma data em que todas possam participar. No começo do ano, fiz algum movimento no sentido de manter nossos encontros mais constantes e, ao ver que isso me estava exigindo esforço, resolvi não mais insistir.

Esses dias uma delas fez outra tentativa e logo começaram as falas de incompatibilidade de agendas e falta de tempo. Então disse que havia desistido de tentar, que nossa amizade não mudaria, mas não vejo sentido em desprender tanta energia e esforço para encontrar alguém, entendo que temos estilos e ritmos de vida totalmente diferentes, mas para mim, no fundo mesmo apenas falta vontade. Claro, minha sinceridade provocou certo desconforto entre todas, para elas eu estava sendo intolerante, mas eu fui apenas honesta.

Certamente o fato de ser tão difícil de nos encontrarmos não muda o que sinto por elas, mas eu quero mesmo é me cercar de pessoas disponíveis. Pessoas disponíveis são aquelas que respondem mensagens, que atendem ou retornam ligações, que ligam, que aceitam convites e fazem questão de ir, que convidam e fazem questão que eu vá, que perguntam e respondem, que se interessam, que compartilham experiências e sorrisos, que olham no olho, que sabem o valor de ter e ser uma boa companhia; são pessoas que estão disponíveis para celebrar a vida.

Estar disponível não é abrir mão de sua vida em prol do outro, não é ficar à mercê e esperando por ele, é apenas se abrir para viver aquele encontro que se apresenta de maneira leve e despretensiosa, por inteiro. Eu gosto do trabalho voluntário por causa disso, acho bem importante cultivar a prática de ações onde a moeda de troca seja a disponibilidade e não o dinheiro.

Estar disponível é estar presente e estar presente é de fato o maior presente que podemos dar e receber de alguém. Disponibilidade é desacelerar os ponteiros do relógio, é transformar Chronos em Kairós, é imprimir pequenos fragmentos de tempo no coração e construir elos que nos fazer melhores para a vida e para o mundo.

“O tempo é senhor de delicadezas, desafios e novidades constantes”: caminhando com Tim Tim

“O tempo é senhor de delicadezas, desafios e novidades constantes”: caminhando com Tim Tim

Observar a infância, não raro, é um aprendizado poético. Neste vídeo, a mãe, Genifer Gerhardt, observa o filho de um ano e meio no trajeto que percorrem diariamente: dois quarteirões. Pedrinhas, árvores, poças de água da chuva, gato, mas, acima de tudo, chama-nos a atenção os quatro encontros diariamente buscados e cultivados pelo pequeno.

Assim, aprendemos todos “sobre caminhos, caminhares e destinos. Que o chegar não é mais valioso que a andança. Que o encontro é precioso e necessário”

Nise da Silveira e a psiquiatria no cinema

Nise da Silveira e a psiquiatria no cinema

Por Octavio Caruso

Talvez o público brasileiro ainda não conheça como deveria Nise da Silveira, psiquiatra alagoana admirada por Carl Jung, que combateu os agressivos métodos convencionais de tratamento de doentes mentais: lobotomia, insulinoterapia, confinamento e eletrochoque, oferecendo uma opção linda, a cura pela arte.

Como todos aqueles pioneiros que ousam fugir do senso comum, ela teve que enfrentar vários obstáculos no próprio sistema, porém, o seu legado eterno em sua área continuará sendo celebrado, décadas após o silenciar de todos aqueles que se opuseram ao seu estilo. A sua história está sendo contada no filme “Nise”, do diretor Roberto Berliner, protagonizado por Gloria Pires, em fase de pós-produção.

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“Nise”, do diretor Roberto Berliner, protagonizado por Gloria Pires, em fase de pós-produção.

O cinema sempre abordou o tema, desde o clássico mudo do início da década de vinte: “O Gabinete do Dr. Caligari”, passando pela pérola de Hitchcock: “Quando Fala o Coração”, o extremamente popular “Um Estranho no Ninho”, de Milos Forman, até o mais recente: “Ilha do Medo”, de Martin Scorsese. Selecionei duas dicas para o final de semana, dois tesouros que merecem maior reconhecimento, afinal, essa é uma das funções essenciais de uma lista, direcionar o foco da luz para os cantos escuros da memória cultural.

A Cova da Serpente (The Snake Pit – 1948)

Virginia, vivida por Olivia de Havilland, sofre um ataque de nervos logo após seu casamento, sendo internada num manicômio. Tudo piora quando a enfermeira-chefe ameaça transferir ela para a “cova das serpentes”, o Pavilhão 33, onde são colocados os pacientes sem esperança de cura. Com a ajuda do marido e do psiquiatra, ela se recupera, mas é testemunha dos maus tratos e das péssimas condições às quais as outras internas estão submetidas. Analisando a obra no contexto de sua época, ela se torna essencial para psicólogos que queiram enxergar como a arte refletia o processo inicial de revolta pública na luta antimanicomial. A psicoterapia como filosofia de vida, o conceito de transferência, evidenciado na lucidez da protagonista ao entender-se curada por não se sentir apaixonada por seu psiquiatra. Vale destacar também a defesa da psicanálise como ferramenta importante no tratamento dos pacientes mais graves, dentro de instituições psiquiátricas, algo que, ainda hoje, é discutido na área. O roteiro retrata diversas variações do estado psicótico, de forma quase didática, emocionando ainda mais pelo pioneirismo de sua abordagem direta.

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Paixões Que Alucinam (Shock Corridor – 1963)

Poucos diretores foram tão corajosos quanto Samuel Fuller. Ele apertava o dedo nas feridas abertas da sociedade, de forma crua, impiedosa. Não deixe o título nacional te enganar, a trama, que coloca o jornalista Johnny Barrett (Peter Breck) simulando insanidade para ser internado em um hospício e investigar o misterioso assassinato de um louco cometido dentro da instituição, utiliza a interação do personagem com os suspeitos como forma de criticar manchas históricas norte-americanas, como a Guerra Civil, a paranoia nuclear e o racismo. Vale salientar a fantástica sequência do ilógico temporal dentro da instituição, algo que parece saído da mente de Luis Buñuel. Com um desfecho marcante, evidenciando no protagonista os resquícios de mais uma mancha histórica, a obsessão pelo frágil sonho americano, representado pelo prêmio Pulitzer que motiva o profissional, o filme permanece como uma joia rara, o tipo de produção audaciosa que nunca receberia o sinal verde hoje.

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OCTAVIO CARUSO

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Carioca, apaixonado pela Sétima Arte. Ator, autor do livro “Devo Tudo ao Cinema”, roteirista, já dirigiu uma peça, curtas e está na pré-produção de seu primeiro longa. Crítico de cinema, tendo escrito para alguns veículos, como o extinto “cinema.com”, “Omelete” e, atualmente, “criticos.com.br” e no portal do jornalista Sidney Rezende. Membro da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro, sendo, consequentemente, parte da Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica.

Blog: Devo tudo ao cinema / Octavio Caruso no Facebook

“O Homem que não conseguia parar: TOC e a história real de uma vida perdida em pensamentos”

“O Homem que não conseguia parar: TOC e a história real de uma vida perdida em pensamentos”

Por Nara Rúbia Ribeiro

Você já se viu assombrado, atônito, dominado pelas sombras do seu próprio intelecto? Já teve pensamentos que reconhece serem descabidos, exagerados e até bizarros, mas que se sentaram diante de você e lá ficaram contemplando a sua face o dia inteiro de modo a não permitir que você os esquecesse? Para tentar se livrar desses pensamentos, você já criou rituais como conferir certo número de vezes se trancou a porta da sala, lavou as mãos repetidas vezes, bateu na parede toda vez que escutou determinada palavra porque, caso não o fizesse, cada um da sua família correria risco de morte? Você percebe que aqueles pensamentos são irracionais e inconvenientes, contudo, o quanto mais pensa que deve esquecer, mais se lembra de tudo deles?

Então,O Homem que não conseguia parar: TOC e a história real de uma vida perdida em pensamentos foi publicado especialmente para você. Trata-se de uma obra do escritor e jornalista David Adam, publicado este ano, no Brasil, pela Editora Objetiva.  Escrito em linguagem acessível e bem humorada, é fruto da busca de respostas para o seu próprio mal, uma vez que sofreu, por 20 anos, as inconveniências do TOC – Transtorno Obsessivo Compulsivo.

contioutra.com - “O Homem que não conseguia parar: TOC e a história real de uma vida perdida em pensamentos”O livro está repleto de relatos que farão com que aquele que possui sintomas similares não se sinta sozinho ou tão envergonhado pela própria excentricidade.  Pesquisas revelam que cerca de 3% da população padece, silenciosamente, dessa doença. Bater na parede após ouvir dada palavra pode parecer algo inofensivo, mas e se o número de palavras se multiplicar? E se o número de batidas após cada uma dessas palavras aumentar progressivamente será que essa ação permanecerá sem consequências?

Pessoas que realmente desenvolvem quadros de TOC podem gastar até seis horas por dia em suas obsessões e quatro horas em suas compulsões em busca de alívio. Desvia-se então toda a energia vital para pensamentos fixos e suas variáveis em um quebra-cabeças mental de como não contaminar-se por uma doença, não agredir alguém ou mesmo se está suficientemente limpo. A complexidade dos sintomas e sua mistura entre real, imaginário, culpa, rituais e vida prática é tanta que a aceitação e busca de ajuda pode levar até dez anos.

Os profissionais que trabalham na área sabem que não faltam exemplos de compulsões. Muito além de comer unhas, as pessoas podem arrancar cabelos e até comê-los (ou só os seus bulbos), falar palavras obscenas, tocar partes do corpo, entre milhares de outras coisas.  Não existem limites nem para a invenção aplicável em um ritual de alívio e muito menos para suas consequências.

O livro narra, ao lado do drama pessoal vivido pelo escritor, que tinha medo de ser infectado pelo vírus do HIV, a infelicidade de diversos outros como o caso da jovem que comeu as paredes da própria casa, os jovens que morreram soterrados no lixo que eles próprios acumularam, compulsivamente, em sua casa ou o jovem brasileiro que ficou cego em um ritual de tocar suas órbitas oculares constantemente.

O livro alerta-nos ainda para a real necessidade de não nos permitirmos estacionar nesse lado escuro da mente, onde os pensamentos nos invadem e nos paralisam, bem como a procurar ajuda especializada para o enfrentamento desses sintomas.

Encontre o livro aqui.

Amar é dançar sob um velho carvalho

Amar é dançar sob um velho carvalho

Por Josie Conti

Um dia desses, eu estava sentada em um banco do parque enquanto comia um sanduíche, quando um casal de idosos estacionou seu carro nas proximidades. Eles abaixaram os vidros das janelas e eu pude ouvir o jazz que vinha do rádio. Em seguida, o homem saiu do carro, deu a volta até o lado do passageiro, abriu a porta para a mulher, pegou sua mão e a ajudou a sair de seu assento. Guiou-a, então, à cerca de dez metros de distância do veículo. Na próxima meia hora eu os observei, enquanto dançavam lentamente sob um carvalho.

A maturidade afetiva reflete diversos aspectos dessa doce história. Um programa planejado, a cumplicidade, o cuidado com o outro, ao abrir a porta do carro, o fundo musical que promove uma harmonia rítmica, afina os passos e promove o conforto para a condução mútua que só o par pode realizar. O local indica atenção, é bonito, agradável. Reflete um desejo de resgatar memórias ou mesmo de construir novas e especiais lembranças. A dança possibilita o estar próximo, o toque da pele que acontece em um espaço afetivo e seguro. O tempo da dança também é cenário, é disponibilidade para o outro, para aquele que amamos e que merece atenção.

Há diversas formas de dançar sob um carvalho, basta destinar ao parceiro escolhido uma parcela da sua melhor atenção. É constante treino de desapego, é celular desligado e redução de horas extras. Tem que haver tempo separado para conversa interessada e sem interferência.

O local especial pode ser a cadeira da cozinha, o sofá da sala, o momento dividido antes de dormir. Cumplicidade e companheirismo gostam de simplicidade, lavam quintal, varrem a varanda e dão boas risadas na calçada.

Dançar sob o carvalho é ainda saber que parceiro também precisa de dança solo, de momento pessoal atrás das cortinas e de holofotes só para si. É só na independência da dança individual que pode surgir a maturidade da parceria, a opção pelos passos compartilhados.

Falo sobre isso porque, assim como o carvalho, fui testemunha. E, se não acreditarem em mim, prestem atenção aos carvalhos de sua própria existência, visitem-nos, dancem aos seus pés.

Talvez, no futuro, eles possam te falar desta e de outras histórias de amor.

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Nota: A história introdutória foi adaptada do original traduzido.

Divertida Mente – uma análise especializada da nova animação da Pixar

Divertida Mente – uma análise especializada da nova animação da Pixar

Por Octavio Caruso

Após três decepções, a Pixar retorna em grande estilo ao nível de brilhantismo que consagrou o estúdio, com uma produção minimalista em escala, porém, épica em sua essência psicológica. Ao focar a trama na infância da menina, o inteligente roteiro possibilita a exploração de um cenário turbulento, uma época da vida em que as emoções estão desequilibradas. O filme já teria mérito só pela coragem de abordar esse período sem romantismo poético, algo usual no gênero, evidenciando o quão brutal pode ser essa complicada transição para a adolescência.

A menina Riley (Kaitlyn Dias), de onze anos, com suas roupas coloridas, um arco-íris de sonhos projetados nos pais, percebe seu mundo desmoronar ao descobrir que aquelas figuras simbólicas de bondade e justiça haviam sido as responsáveis pela maior injustiça e maldade, o deslocamento para outro ambiente, uma nova casa, em tons de cinza, longe dos amigos e de seu amado esporte. Quando a mãe prende o cabelo, atitude que representa o resgate da diversão, o pai interrompe para atender ao telefone, a negação da pureza, o abraço no capitalismo, a ambição por ascender no emprego, o gradativo afastamento da família. O momento, comum em nossa existência, onde os pais passam a deixar a responsabilidade da criação dos filhos para a televisão, babás, o elemento externo. A menina não compreende nada disso, ela apenas sente falta, sofre em silêncio.

A mente, representada pelos agentes de cada sentimento, começa a entender que a felicidade, as esferas douradas, vão minguando. E quando a Alegria (Amy Poehler) e a Tristeza (Phyllis Smith), por um acidente, são impedidas de agir, resta a terrível apatia. As cenas agitadas, recurso imediatista necessário, mantêm os pequenos acordados, mas, por sorte, o roteiro se mostra mais interessado no atemporal, resultando em tiradas geniais, como a inserção do amigo imaginário, que aparece exatamente depois da ilha da amizade ser destruída. Aquela figura imaginativa que aparece, como desesperada tentativa de solução, quando o mundo real se torna opressivo demais.

São tantas ideias interessantes, audaciosamente complexas, considerando a faixa etária do público-alvo, que irei exemplificar, em resumo, aquelas que mais me impressionaram. Bing Bong (Richard Kind), um amálgama visual de todos os bichos que ela amava, expressa tristeza chorando balinhas. O doce, normalmente utilizado pelos pais como forma de cessar o choro de uma criança; o abstrato como atalho para o trem do pensamento; o universo dos sonhos, o terreno das aspirações, sendo representado por atores em sets de filmagem, o mundo do cinema; o triste, porém, necessário sacrifício do amigo imaginário, para que ocorra o amadurecimento, simbolizado pelo equilíbrio das emoções. Alguns dos muitos detalhes que enriquecem as camadas de interpretação em revisões.

A mensagem mais bonita, aquela que ficará na memória semanas após a sessão, fala diretamente a um dos problemas mais sérios na sociedade moderna, ocasionado pela imaturidade emocional: a incapacidade de lidar com os altos e baixos da vida. A obsessão equivocada pela imagem vencedora, uma falsa felicidade meticulosamente trabalhada para impressionar outrem nas redes sociais, mascarando a natureza humana com um verniz frágil. E essa recusa em lidar com a imprevisibilidade das ondas desse oceano acaba ocasionando o extremo oposto, a mais profunda depressão. A dor, a derrota, tem papel fundamental, uma função importante, como na cena em que a Tristeza resolve um problema apenas por ter escutado o desabafo melancólico do amigo imaginário. A Alegria, por si só, não consegue se colocar na pele de quem sofre, ela foge, vira a cara. A maturidade emocional só é alcançada quando a pessoa aprende a equilibrar esses impulsos naturais.

Veja o trailer AQUI.

contioutra.com - Divertida Mente - uma análise especializada da nova animação da Pixar

OCTAVIO CARUSO

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Carioca, apaixonado pela Sétima Arte. Ator, autor do livro “Devo Tudo ao Cinema”, roteirista, já dirigiu uma peça, curtas e está na pré-produção de seu primeiro longa. Crítico de cinema, tendo escrito para alguns veículos, como o extinto “cinema.com”, “Omelete” e, atualmente, “criticos.com.br” e no portal do jornalista Sidney Rezende. Membro da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro, sendo, consequentemente, parte da Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica.

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