“O caqui”, uma belíssima crônica de Rubem Alves

“O caqui”, uma belíssima crônica de Rubem Alves

O CAQUI

Gosto muito da Itália. Lá fiz muitos amigos. O que sinto é não saber falar italiano, uma língua tão bonita. Lá, quando vou fazer uma fala, tenho de me valer de um intérprete. De vergonha, pus-me a estudar italiano. Estudo o “Berlitz” antes de dormir.

Pois me convidaram a fazer uma fala num congresso da “Fundação da Carta da Terra.” Carta da Terra é um tipo de “Direitos Humanos”. É um documento lindo, que deveria ser objeto de estudo nas escolas e no Congresso Nacional.

Pediram-me que falasse poeticamente sobre “Jardins”, que é um dos temas que repito sempre. O que é belo deve ser repetido, como os poemas e as músicas. Mas, vocês sabem, existe dentro de mim um Rubem brincalhão… Aí comecei a falar sobre o “Paraíso”, que é o grande sonho de Deus – para aqueles que lêem as Escrituras Sagradas.

Lembrei-me da tela de Dürer em que pintou Adão e Eva, os seres paradisíacos. Adão e Eva, corpos esculturais, cheios de vida. Notei, entretanto, que o pintor cometeu três erros.

Primeiro, ele colocou umbigos na barriga de Adão e de Eva. Por esse erro ele poderia ter ido parar na fogueira. Esse detalhe, Adão e Eva com umbigos é, claramente, uma heresia. Umbigos só existem em seres nascidos de mulheres. Mas Adão e Eva não nasceram de mulheres. Saíram diretamente das mãos do Criador. Portanto, não tinham umbigo.

Segundo erro: Adão e Eva foram pintados ainda no seu estado de inocência. Prova disso está no fato de que as maçãs que têm nas mãos ainda não foram mordidas. Estão inteiras. Portanto, como diz o texto bíblico, eles estavam nus e não se envergonhavam. Assim sendo, não existe razão alguma para que eles sejam pintados colocando o precário galho com uma maçã na ponta sobre as partes mais interessantes do corpo. Eles deveriam estar exibindo despudorada e castamente a sua linda nudez.

E, em terceiro lugar, o pintor pintou a maçã como sendo o fruto tentador, o furto [ Revisor: é “furto” mesmo ]proibido. O que está errado. O fruto proibido tinha de ser um fruto de potência sedutora máxima. O que não é o caso da maçã. A maçã é fruta pudica. Não se despe por vontade própria. Só tira a roupa sob a violência da ponta da faca. E ainda geme quando é mordida. Comer uma maçã é sempre um estupro.

Acho que o fruto tentador só poderia ter sido o caqui. O caqui inteiro é tentação. É só olhar pra ele para que ele diga, vermelho e lascivo: “Me coma, vá…” E basta relar o dedo na sua carne para que ele se dispa e seus sucos vermelhos comecem a escorrer.

As potências eróticas, heréticas, filosóficas e teológicas do caqui estão presentes no poema “O Caqui”, de Heládio Brito:
“O vento, o vento ali.
Mínimo sol por d’entre galhos,
de trás, de frente, álacre, o caqui.
Um ser-aí. Cá, aqui.
Redondo gesto e gesta vegetal
e uma festa de cor, pingo no i.
Bem maior que a pi-tanga,
menor que a manga,
o seu raio (ex)sangra,
dois, vezes o pi.
A pele tranasluz. Si dá.
A carne é mansa. E-d’entro
o hirto centro: sêmen
te do existir e hífen do prazer.
Não vi? E é fruta.
Ou é fruto do inconsciente?
Abrupto estar, não-ser-aíí?
Ou é silêncio ou grito?
Ou é sumo ou suma teológica?
Uma fruta? Fruto-em-si?
Comi? Ou não comi?
E é acre. Doce. Pouca.
Nódoa, travo na boca. E o vento, o vento ali…”

( Oficina, Papirus, p. 11 ).

Foi isso que disse Adão depois de comer o caqui…

No dia seguinte recebi um telefonema de uma pessoa que eu não conhecia. Convidava-me a visitar um prédio que em tempos passados havia sido um mosteiro onde viviam reclusas e castas duzentas freiras. Aceitei o convite e fui na hora marcada. Ele me levou então para o jardim interior do mosteiro e me contou a seguinte história:
“Depois da bomba atômica que matou 200.000 pessoas em Hiroshima e torrou todas as coisas vivas, houve uma árvore que sobreviveu. Era um caquiseiro. Esse caquiseiro passou a ser então, , para o japoneses, um símbolo do triunfo da vida sobre a morte. Os japoneses o tomaram sob seus cuidados, colheram seus frutos, plantaram suas sementes e espalharam suas mudas por muitas cidades do mundo. Uma das cidades agraciadas com essa dádiva fora Brescia, onde estávamos.”

Me apontou então para uma árvore plantada no meio do jardim. Estávamos diante de uma filha ( quem sabe uma neta?) do caquiseiro que sobrevivera à bomba atômica de Hiroshima…

Senti-me como Moisés diante da árvore que se incendiava sem se consumir… Com medo de estar fazendo um pedido impróprio, perguntei-lhe se me seria permitido apanhar três folhas do caquiseiro. Ele disse que sim. Apanhei as folhas. Coloquei-as dentro de guardanapos de papel para desidratá-las. Trouxe-as para Campinas. Pintei-as com verniz para preservá-las do contacto com o ar. A seguir levei-as a uma loja especializada e mandei fazer um quadro.

As folhas estão agora na minha parede. Quem só vê o quadro não entende: as folhas não têm nenhuma beleza especial… Então eu conto a estória…
Passadas duas semanas recebi da Itália um e-mail. Informavam-me que a fundação que cuidava do caqui estava disposta a dar-me uma muda a ser plantada nalgum lugar. Onde? – me perguntei. Não na minha casa. Aquela árvore é um símbolo para o mundo todo. Não num jardim público. Tenho medo dos vândalos. Imaginei então que um bom lugar seria a Fazenda Santa Elisa. Faríamos um jardim cercado por um espelho de água com peixes e plantas aquáticas… E no centro, protegida pelo espelho dágua, a arvorezinha.

As escolas poderiam levar as crianças para visitá-la. E então os professores e professoras lhe contariam a história.

Conheça o Instituto Rubem Alves e participe de seus projetos.

Dica de livro: Sete Vezes Rubem (Fruto do trabalho de uma década, esta obra reúne sete livros de Rubem Alves publicados pela Papirus entre 1996 e 2005.)

A pior mãe do mundo!

A pior mãe do mundo!

Por Adriane Sabroza

Quem, desde que seja mãe de uma criança entre três e dez anos de idade nunca ouviu esta frase?

E não adianta disfarçar, porque quando cada palavra dessa ressoa no seu ouvido, tem o peso de uma tonelada jogada sobre a sua cabeça.
Ninguém quer ser a pior mãe do mundo, não é mesmo?

A gente quer ser aquela mãe divertida, legal, pra quem os filhos contam tudo, com quem os amigos dos filhos gostam de estar, a famosa “melhor amiga” dos filhos. Mas, cá estou eu, na difícil tarefa de te lembrar uma coisinha: Você não é a melhor amiga do seu filho, pode até ser uma grande amiga, mas é antes de tudo, mãe.

E ser mãe abrange uma enorme gama de adjetivos que vão desde “a pessoa mais maravilhosa de todo o universo” até “a pior mãe do mundo”. Bem assim, desse jeito.

Porque ser mãe é plural. Mãe abraça, acolhe, ensina, briga, chora, castiga, fala demais, critica, reclama, acalma, corrige, suporta, carrega, amamenta, acarinha, resolve, diverte, faz chorar, diz sim, diz não… ufa! Mãe também cansa. E se cansa… E é por isso que ouvir “você é a pior mãe do mundo” machuca tanto. Afinal, como assim??? Depois de tudo o que eu faço? De todo o meu esforço para dar o meu melhor?

O que a gente esquece, no meio dessa loucura toda que é conciliar a maternidade com tudo o mais que acontece nas nossas vidas, é que ser “a pior mãe do mundo” é requisito fundamental para que sejamos uma boa mãe.

A pior mãe do mundo é aquela que dá limites, muito mais do que presentes. Ela se faz presente num mundo onde, cada vez mais, a educação dos filhos é delegada às escolas, babás ou mesmo ao computador.

A pior mãe do mundo sabe que o comportamento errado sempre gera punição, senão pelos pais, futuramente, pela vida, sem dúvida nenhuma.
A pior mãe do mundo sabe que ao impor limites não receberá elogios ou sorrisos, mas sabe que estes um dia chegarão aos filhos, no tempo correto.

A pior mãe do mundo não teme desagradar, até porque confia na relação de amor que estabelece, simplesmente porque ela está lá.
A pior mãe do mundo sabe a responsabilidade que é educar um filho pra vida e que a maternidade foi escolha sua e consciente, o que não há como negar em pleno século 21, não é mesmo?

A pior mãe do mundo, aliás, como todas as outras, deseja o melhor pro seu filho, só que ela não teme o desagrado, pois entendeu que seu papel não é o de um animador de festas, mas de alguém que também precisa ensinar sobre regras e as consequências por não cumpri-las.
A pior mãe do mundo é aquela que não teme dizer o não, pois sabe que o amor do filho também é incondicional e que mesmo diante dos maiores protestos e até tentativas de transgressão, pois isso faz parte do crescer, o amor ainda estará lá, do mesmo jeito de quando vocês se olharam pela primeira vez e quando ele ainda não sabia que a melhor e a pior mãe do mundo são exatamente a mesma pessoa.

A foto que emocionou o mundo: menino, morador de rua, se vale da luz do McDonald’s para fazer lição de casa

A foto que emocionou o mundo: menino, morador de rua, se vale da luz do McDonald’s para fazer lição de casa

De joelhos no chão com um lápis na mão; um livro aberto e uma “mesa” improvisada.

As imagens emocionaram o mundo ao mostrar uma criança, sem-teto, fazendo sua lição de casa na rua, usando a luz de um restaurante do McDonald’s para conseguir enxergar.

Ele demonstra ser estudioso e se concentra em suas obrigações escolares. Sua casa foi destruída durante um incêndio e a mãe, que é viúva, cuida dele e de um irmão doente.

A foto foi registrada em Manila, capital das Filipinas, pela estudante Joyce Torrefranca.

Estudantes que observaram a cena se sentiram tocados, pois nem sempre possuem a motivação ou vontade em fazer seus trabalhos de casa pedidos durante a aula.

Seu nome é Daniel Cabrera e todas as noites usa a luz do restaurante, mesmo estando por horas, ou dias, em jejum.

Ele comentou: “Apesar da minha situação atual, estou determinado em terminar meus estudos e ser capaz de ajudar minha família”, de acordo com declaração da CBN News.

Rosalina Detuya, uma das professoras de Daniel, disse: “Daniel é uma criança feliz. Ele também é inteligente e realmente participa e responde durante as discussões em classe, ele participa muito”.

Um oficial do bem-estar social do país visitou a família nas ruas para saber o que pode fazer para eles em termos de assistência, para ajudá-los no sustento.
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Fonte indicada: Jornal da Ciência

“Calcanhar de Aquiles”, você conhece a origem dessa expressão?

“Calcanhar de Aquiles”, você conhece a origem dessa expressão?

O mito de Aquiles é um dos mais ricos e complexos – na “Ilíada”, de Homero, ele aparece 292 vezes! Segundo a mitologia, Tétis, mãe de Aquiles, para imortalizá-lo, mergulhou-o nas águas do rio Estige, que tinha o poder de tornar invulnerável o corpo de quem nele fosse banhado. Ao fazer isso, Tétis segurou o filho pelo calcanhar.

E assim o corpo de Aquiles ficou todinho invulnerável, exceto no local onde a mãe o segurou.

Anos depois, Páris leva para Tróia Helena, a mulher de Menelau, rei de Esparta. Pronto, vai começar a Guerra de Tróia, entre gregos e troianos. Aquiles é convidado para integrar a expedição grega vingadora e aceita. Tétis, que conhece o futuro, previne o filho de que a guerra o levará à morte. Aquiles não dá ouvidos à mãe, nem mesmo ao seu último conselho: “Aquiles, meu filho, pelo menos bota uma meia”.

Aquiles vai à luta e, numa batalha, é morto por uma flechada no calcanhar. Daí a expressão “calcanhar de Aquiles”, utilizada para designar o ponto vulnerável de alguém.

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Texto de Reinaldo Pimenta, no livro “A casa da mãe Joana – Curiosidades nas origens das palavras, frases e marcas” – Editora Campus

Afrobetizar a educação no Brasil

Afrobetizar a educação no Brasil

Por Vanessa Cancian no Namu

No morro do Cantagalo, no Rio de Janeiro, a psicóloga Vanessa Andrade ouvia com frequência: “Ai tia que cabelo feio” ou então “tia bruxa”. Essa era a reação dos pequenos quando ela passava pelas ruas com seu cabelo afro. Segundo Andrade, isso ocorria porque essas crianças estavam desacostumadas a enxergar a beleza presente no jeito negro de ser. “Isso me doía muito, mas ao mesmo tempo me convocava para uma missão maior de tentar mudar o pensamento dessas crianças”, conta a psicóloga e coordenadora do projeto Afrobetizar.

Quando se trata de identidade, as escolas brasileiras são monocromáticas nos livros e nas histórias. Nossa educação não possibilita que alunos negros encontrem seu caminho e conheçam o lado verdadeiro da vida e da cultura africana presente de forma intensa no Brasil. Com a finalidade de mostrar que outra pedagogia é possível, Andrade iniciou um trabalho intenso de transformação social no Cantagalo.

“O Afrobetizar surgiu da necessidade de trabalhar uma pedagogia diferente, que fizesse com que as crianças descobrissem o próprio corpo através de reconhecer a beleza de ser negro”, diz a psicóloga. Segundo ela, a ideia que coloca professores negros que cursaram ou estão na universidade, realizando projetos de sucesso na vida, tem como intuito trabalhar o protagonismo negro e inverter o processo histórico que sempre colocou o negro como ser inferior em relação ao branco.

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Nosso corpo é nosso território

“Com o tempo tivemos a ideia de fazer ações contínuas com as crianças da comunidade”, conta Andrade, a qual ao lado de Gessica Justino e Aruanã Garcia, forma a equipe de professores que organizam oficinas semanais com as crianças em busca de descontruir preconceitos e fortalecer os saberes que não chegam aos pequenos por meio da escola convencional.
“Eu sempre acreditei que não adianta ficar no blábláblá, é preciso provocar a criança com as sensações e com corpo”, diz a psicóloga. Vanessa Andrade pontua que esse é um projeto que trabalha com corporeidade, mas não aquela que se esgota no movimento de dança ou de capoeira e sim a capacidade de ter consciência e acesso às possibilidades corporais. Isso ajuda essas crianças a assumir espaços nos quais tradicionalmente não estão inseridas.

Ensinar além dos livros

A Lei nº 10.639 de 2003 estabeleceu que a história e cultura afro-brasileira e indígena fossem inseridas na educação do país. Ainda assim, os livros que carregam a informação sobre outros personagens fundamentais para a história e a formação da identidade brasileira chegam a passos lentos nas escolas do Brasil. Para Andrade, existe um esforço para que essa lei seja respeitada, mas falta potencializar a descoberta de metodologias para aplicá-la.

“Não basta dizer para as crianças que é lindo ser negro. Contar quem foi Zumbi e Maria Carolina de Jesus. Essas crianças precisam viver uma experimentação positiva para que elas interiorizem esse sentimento de valorizar a própria cultura”, relata. A psicóloga reconhece a importância de transformação presente na lei, porém, vê também a necessidade de trabalhos que afetem de verdade as crianças e jovens.
“A sensação que eu tenho com relação a essa lei é que há uma corrida para que ela seja aplicada através de livros, mas se não tiver um trabalho além do papel, não adianta”, diz Andrade. Para ela o “letramento corporal” que contemple o campo sensorial e entre no mundo de cada criança é fundamental.

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Projeto no Museu de Favela

O projeto é realizado na sede administrativa do Museu de Favela – MUF. O local foi criado por moradores do Cantagalo e conta a história da origem da favela através de grafites nas paredes das casas das pessoas que vivem ali. No espaço cedido para o Afrobetizar, há cerca de 30 crianças que participam com frequência das atividades.

“O MUF é o primeiro museu a céu aberto criado em uma favela”, conta Andrade. Segundo ela, as pinturas foram feitas para proteger os moradores desse lugar que sofriam com a ameaça de serem retirados de suas casas. Localizado na zona sul do Rio de Janeiro, a ameaça da especulação imobiliária fez com que a população se unisse e utilizasse o museu estratégia como estratégia de sobrevivência nessa região.

Com o passar do tempo, o MUF tornou-se uma referência em grafite e passou a integrar um dos pontos turísticos da cidade maravilhosa. A iniciativa popular é reconhecida como o primeiro museu territorial e vivo sobre memórias e patrimônio cultural de uma favela no mundo.
As fotos da reportagem foram feiras pela equipe do Coletivo Baobá, projeto de comunicação que também trabalha em parceria com o Afrobetizar.

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Razão e sensibilidade em todos os tempos

Razão e sensibilidade em todos os tempos

Por Patrícia Dantas

O que queremos com nossa quantidade de razão e sensibilidade espalhadas e desconexas em nossos poros de amores, inspirações, loucuras, paixões e de morte?

Se não temos a métrica perfeita para medir toda essa explosão dentro da gente, essa harmonia deixa o ser humano assaltado dentro de si, porque um não se une ao outro; a razão é metódica com os sentimentos, gregária em seu espaço; a sensibilidade é predadora da própria carne, exploradora de cada lugar por onde passa. Ainda hoje parece meio controverso unir razão e sensibilidade.

Jane Austen, nos séculos dezoito e dezenove, pensou a razão e a sensibilidade buscando adaptações necessárias para esses poros e polos humanos. Ela sentiu, talvez, o que os outros sentiam frente a esses dois enigmas poderosos o que muita gente não sabia exprimir ou lutar para chegar a uma liberdade permitida dentro daquela sociedade inglesa provinciana, cheia de normas e exigências morais. Assim, ela deu vida a Razão e Sensibilidade, orgulho e Preconceito, Persuasão, Emma, só para citar alguns dos seus livros.

Escrever sobre essa sociedade romântica, observar a vida das pessoas, comparar os gestos, os papeis, os arranjos permitidos, exigia sobretudo um olhar mais questionador e à frente do seu tempo.
Embora se pagasse uma cara resistência por assumir tal postura, encontrava muitas mentes pensantes sobre essas particularidades que incendiavam a vida de muitas pessoas, principalmente as mulheres que desejavam conquistar mais espaços de liberdade, sem o consentimento das suas famílias.

Estava na hora de começar algumas mudanças: pensando, dialogando, escrevendo, atuando. E tudo isso não passava despercebido, havia questionamentos e um mal-estar barulhento dentro de algumas almas que queriam se libertar e ganhar voz ativa, opinar, assumir uma postura que valesse em qualquer lugar, já não aceitavam mais tão passivamente as regras do jogo.

E em nosso tempo presente, será que temos essa inquietação para a conquista de uma liberdade maior para as sensações e sentimentos que nem sempre entendemos como são tão íntimos e nossos? É razão, é sensibilidade, é o que? Quem merece prioridade dentro das nossas vidas tão cheias de afazeres diários? Nem sempre temos tempo para pensar e fazer a escolha mais sensata frente ao mundo caótico e prático que nos cerca.

Muitos poetas, escritores, filósofos, pessoas e pessoas pensam diariamente nessa abstração de temas que tomam conta do nosso cotidiano acelerado e tantas vezes ausente, que dão origem aos romances e ficções comuns a todos os tempos, com outros vieses, outras conotações, outros meios.

E esse tempo que se apega a nós, trazendo novidades tão cheias de interpretações e compreensões diversas também nos traz outras razões e sensibilidades diante das nossas escolhas.

É somente o meu ato, minha continuidade, o meu olhar que estendo ao outro que podem medir minha presença nesse burburinho caótico e acelerado das horas que refletem nosso ser em algum lugar possível de chegar. Talvez um dia contem como foi esse nosso tempo.
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10 filmes imperdíveis sobre a história da arte

10 filmes imperdíveis sobre a história da arte

Por Octavio Caruso

Como sempre faço, revi todos os filmes e conheci outros, na tentativa de incluir nessa lista dez obras importantes, algumas subestimadas, famosas e valiosos tesouros escondidos, sem ordem de preferência, com breves introduções objetivando o despertar do interesse. Levei em consideração as cinebiografias e roteiros que envolvam pintores, reais e fictícios, ou a arte da pintura.

Sede de Viver (Lust for Life – 1956)

Com direção de Vincente Minnelli, Kirk Douglas, em grande momento, vive Van Gogh, em um roteiro de estrutura linear, que se foca nos conflitos internos do artista, sem romantizar o homenageado, expondo seu gradual abraço na insanidade, com as telas exibidas durante as cenas, um recurso que traz ainda mais elegância ao projeto.

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Frida (2002)

Salma Hayek, em seu melhor trabalho, vive Frida Kahlo, em um roteiro bastante fiel, sem se intimidar com os aspectos mais cruéis dos vários obstáculos que ela superou, sem apelar para o melodrama piegas, e que funciona como uma excelente introdução aos estudos sobre a pintora mexicana. E, emoldurando a trama, uma fotografia impecável de Rodrigo Pietro.

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Os Amantes de Montparnasse (Les Amants de Montparnasse – 1958)

Cinebiografia dirigida por Jacques Becker, que retrata o atribulado último ano de vida do pintor italiano Amedeo Modigliani, vivido pelo francês Gérard Philipe, depois que ele conheceu e se apaixonou loucamente pela colega artista Jeanne Hébuterne. O roteiro se aprofunda no vício dele pelo álcool, atormentado por seus fracassos, a incapacidade de vender suas pinturas a um público que não compreende seu trabalho.

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Agonia e Êxtase (The Agony and The Ecstasy – 1965)

A competente direção de Carol Reed equilibra os excessos histriônicos de Charlton Heston, que vive o pintor e escultor renascentista Michelangelo, com o roteiro focado na eterna disputa entre ele e o Papa Júlio II, vivido por Rex Harrison, enquanto ele trabalhava na pintura do teto da Capela Sistina. A trama tem problemas de ritmo, porém, isso é compensado pelos excelentes diálogos, abordando a relação entre arte e fé, a impossibilidade de domar os instintos de um criador ao delimitar o terreno de sua imaginação.

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Andrei Rublev (1966)

A Rússia do século XV passa por um período turbulento, o povo sofre injustiças e está fragilizado pela fome. Nesse cenário, acompanhamos um pouco da vida do pintor Andrei Rublev, que mais tarde abandonaria seu ofício para dedicar-se a Deus. Um dos melhores trabalhos do diretor Andrei Tarkovski, uma obra-prima intimista do cinema mundial, que somente melhora a cada revisão. “O que hoje é elogiado, amanhã será criticado e depois de amanhã, esquecido. Eu e você seremos esquecidos. Todos serão. Tudo se resume a vaidade e é transitório. Tudo gira num ciclo eterno. Se Cristo voltasse à Terra, seria crucificado novamente”.

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Edvard Munch (1974)

O diretor Peter Watkins, da pérola pouco conhecida: “Privilégio”, comanda a cinebiografia, misto de documentário e ficção, do pintor expressionista norueguês responsável por obras como “O Grito”. A opção de filmar quase sempre em primeiro plano, buscando o que se esconde por trás dos olhos, nas intenções dos atores, explorando camadas de narrativa sobrepostas, oferecendo um retrato visceral da juventude de um artista que, em vida, teve seus trabalhos hostilizados por grande parte do público.

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Basquiat – Traços de Uma Vida (Basquiat – 1996)

O diretor Julian Schnabel, que viria a comandar o ótimo “O Escafandro e a Borboleta”, nos transporta para a década de oitenta, abordando a ascensão meteórica do jovem
grafiteiro Jean-Michel Basquiat (Jeffrey Wright), que foi descoberto por Andy Warhol, no cenário artístico contemporâneo. O roteiro se destaca pela sensibilidade com que retrata o homenageado vanguardista, evidenciando o preconceito racial e os meandros da indústria. “E nunca poderá se explicar para alguém que usa os dons de Deus para escravizar, que você usou os dons de Deus para ser livre”.

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A Bela Intrigante (La Belle Noiseuse – 1991)

O processo criativo do recluso Édouard Frenhofer, pintor fictício vivido por Michel Piccoli, que encontra sua musa renascida na namorada de um colega. Depois de anos de inatividade e falta de inspiração, a jovem revigora sua carreira artística. Obra pouco citada do ótimo diretor Jacques Rivette, que merece ser redescoberta. Não se intimide pela longa duração, quase quatro horas, esse é um daqueles filmes que você irá indicar para seus filhos e netos.

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Cristo Parou em Éboli (Cristo si è Fermato a Eboli – 1979)

Adaptação refinada, dirigida por Francesco Rosi, da obra autobiográfica do pintor Carlo Levi, que relata o período de sua prisão política domiciliar em uma atrasada e remota vila italiana, onde, longe dos intelectuais, incapaz de exercer seu trabalho, o artista irá entrar em contato com hábitos simples, misticismo religioso, e viverá experiências que irão fazer com que ele reavalie sua função na sociedade. Outra obra pouco citada, que, com certeza, entrará na sua lista de filmes favoritos.

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Sonhos (Dreams – 1990)

Nessa última obra-prima de Akira Kurosawa, num dos episódios, intitulado: “Corvos” (referência a “Campo de Trigo com Corvos”), protagonizado pelo diretor Martin Scorsese, um estudante de artes descobre-se dentro do vibrante e, por vezes, caótico mundo dos trabalhos de Vincent van Gogh, durante uma visita a um museu de artes. Num passeio onírico pelas telas, ele encontra o próprio artista e conversa com ele.

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OCTAVIO CARUSO

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Carioca, apaixonado pela Sétima Arte. Ator, autor do livro “Devo Tudo ao Cinema”, roteirista, já dirigiu uma peça, curtas e está na pré-produção de seu primeiro longa. Crítico de cinema, tendo escrito para alguns veículos, como o extinto “cinema.com”, “Omelete” e, atualmente, “criticos.com.br” e no portal do jornalista Sidney Rezende. Membro da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro, sendo, consequentemente, parte da Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica.

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Cansaço – O maior inimigo do sono

Cansaço – O maior inimigo do sono

Por Terezinha Gnoatto

Pode parecer contraditório o que você acabou de ler.

Mas sim, o cansaço tem sido o maior vilão da produtividade e do sono.

Entenda o porquê.

Olhe só esta história.

Há alguns anos, em um desses programas de variedades na TV, um médico estava falando sobre os distúrbios do sono. Foi a primeira e única vez que ouvi alguém fazer uma colocação daquelas.

Em meio a sua fala, comentou que para dormir bem, o corpo precisaria estar descansado.

Ao ouvir isso, a apresentadora, bastante surpresa, interpelou o médico imediatamente, perguntando: “Mas nós não deveríamos dormir justamente para descansar?” – E o médico respondeu que sim, porém explicou que deveríamos estar descansados para que o corpo pudesse cair no sono mais facilmente e alcançar um estado de repouso profundo.

Parece coisa de louco, não é mesmo?

Apesar de estranho, o que o médico quis dizer é: “Não se canse demais.”

Não há dúvida de que na atualidade, os excessos são muitos.

É excesso de trabalho, de compromissos sociais, de viagens, de shoppings, de informação.

Parece que aproveitar a vida tem a ver com envolver-se com alguma coisa, o tempo todo. E descansar? Bem, disso poucos lembram e vão deixando para depois.

Assim, o cansaço só aumenta e os problemas também.

O sono diário é necessário para reparar o corpo, porém quando as pessoas procrastinam a hora de dormir e dormem menos do que deveriam, a fadiga acaba não sendo eliminada totalmente, naquela noite.

E, dia após dia, ela vai se acumulando como poeira em cima de um móvel que não é limpo todo dia. No inicio ela é quase imperceptível, porém em poucos dias é possível ver uma camada fina de pó. Com o tempo, se não for limpo totalmente, forma uma crosta de feia aparência.

Se o corpo não descansa, a “poeira”, tensões que se impregnam em todo sistema, deixa o corpo em condições nada ideais de funcionamento.

O sistema nervoso é um mecanismo que funciona conforme o ritmo da natureza – com períodos de atividade e descanso.

Todo dia o corpo se fadiga pelo desempenho do seu trabalho, o que é normal.  E todo dia essa fadiga deveria ser eliminada com um descanso adequado.

Uma vez que isso não ocorre diariamente, a fadiga se acumula e com o tempo, o corpo não suporta mais e passa a sofrer com a sobrecarga. A produtividade se reduz e o sono demora a chegar.

Por mais incrível que possa parecer, o cansaço gera agitação no sistema nervoso. É assim: o corpo agitado, agita a mente e esta agitada continuadamente, exaure o corpo. E, sem que se perceba, acontece um “toma lá da cá” recíproco. O resultado é cansaço mental e físico, pois a mente influencia o corpo e esse influencia a mente.

É muito comum ouvir pessoas reclamarem de cansaço. Dormem, porém não descansam e outras já têm sérios problemas para dormir.

Dica: Siga o curso da natureza. Após às 18:00, deixe-se levar pela morosidade que o corpo passa a sinalizar.

Tome seu relatório (clique aqui) e veja que anotações você fez.

Se você tem feito coisas demais antes de ir deitar, reavalie.

Estamos aqui para te ajudar a realizar mais, fazendo menos.

Fique em sempre paz!

Meu afetuoso abraço!

Terezinha Gnoatto

P.S1.: A mente sossegada alivia as tensões do corpo. Este, menos agitado, propicia um sono reparador.

P.S2: (Todos os direitos reservados – Registro na Biblioteca nacional)

Reprodução autorizada para a CONTI outra.

Terezinha Gnoatto

contioutra.com - Cansaço – O maior inimigo do sonoUma experiência pessoal sobre o Sono, no inicio de sua carreira corporativa, a levou a pesquisar intensamente o tema e, desvendou conhecimentos incríveis. Desligou-se do mundo corporativo e dedicou-se a projetos para ajudar pessoas a cuidar da própria saúde e bem estar. Fundou a escola do sono como um guia para transformar vidas, um espaço para aprender aquilo que faz bem, com base nas perfeitas leis da natureza.

Para saber mais sobre o tema conheça também o site Escola do Sono

Dos medos da infância ao reconhecimento da dádiva da sensibilidade

Dos medos da infância ao reconhecimento da dádiva da sensibilidade

Por Adriana Vitória

Se existe algo que conheço intimamente é o medo.

Fui uma criança muito forte, mas muito sensível. Em minha meninice sentia-me como se o mundo reverberasse dentro de mim. Tudo era muito barulhento. 

Em casa, eu reagia aos sons que me incomodavam fechando as janelas do meu quarto. Em ambientes sociais como festas, eu ficava incomodada com o excesso de pessoas, os ônibus também me traziam desconforto por causa do barulho do motor.

Eu via as pessoas como seres instáveis, imaginava-as como pequenos vulcões prestes a explodir. Era muito assustador.

Eu tinha medo de tudo, inclusive de sentir medo. A morte, entretanto, eu não temia. Eu a via como um alivio, como uma oportunidade de respirar de novo. 

Não era fácil ter tanta alegria de viver e ao mesmo tempo não querer estar aqui, mas eu vivia e ia aprendendo a lidar com isso, uma vez que ninguém me compreendia.

Aos oito anos, tudo ficou pior. Passei a suar frio e a deixar de comer. Fui para terapia.

Minhas preocupações eram a superpopulação do planeta e saber o que iríamos fazer com tanto lixo. Eu pensava na revolta do povo e na situação das favelas. Enfim, obviamente eu não tinha nenhum coleguinha de escola com quem pudesse partilhar minhas questões. O que eles sabiam de mim é que eu “era louca”. Assim falavam as outras crianças, pois na minha época “só louco” fazia terapia. 

Eu não sabia, mas era uma criança altamente sensível.

As pessoas altamente sensíveis já receberam muitos nomes e conhecem bem a força da incompreensão de quem não vê o mundo com a mesma sensibilidade.

Elas já nascem com essas características diferentes e que não são nem boas e nem más, apenas diferentes. São boas quando bem equilibradas. Nesses casos, os sensíveis percebem o mundo e as outras pessoas com muito mais facilidade, são empáticos e solidários com os sentimentos e necessidades dos outros. Alguns são considerados até sensitivos por perceberem nuances que passam invisíveis aos olhos comuns.

Encontrei minha salvação no contato com a natureza e na terapia. Eu e minha família viajávamos todos os fins de semana e férias para as montanhas. Isso era tudo pra mim. Lá eu gastava horas e mais horas perdida no meio do mato cantando, dançando e fazendo poções magicas.  O retorno era sempre dramático, mas tive que lidar com isso. 

As fases difíceis me acompanharam ao longo de 27 anos, mas eu queria muito da vida e ele não pode me deter.

O medo sempre existiu, é primitivo e todo ser vivo o compartilha conosco. É saudável senti-lo desde que ele só apareça como instinto de sobrevivência: naqueles momentos em que ele nos salva.

Por causa do medo conheci pessoas incríveis, terapias maravilhosas, filósofos, educadores, culturas diversas, mas, principalmente a mim mesma.

Sai de casa cedo, vivi em vários países sem conhecer as pessoas ou a língua local. Durante anos me aventurei por lugares distantes e desenvolvi grande gosto por esse processo de transição, descobertas e constante desapego.

Cresci e aprendi. Aprendi a pedir ajuda, a lidar com meus fantasmas, a lidar com as pessoas, a perceber meus limites, a seguir e respeitar minha intuição. Penso que aprendi a viver. E, vivendo, aprendi que qualquer um pode seguir em frente.  Hoje, com o medo entendido e os limites assimilados, a sensibilidade se fez dádiva.

Adriana Vitória : colunista Conti outra

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Mineira de alma e carioca de coração, a artista plástica, escritora e designer autodidata Adriana Vitória deixou Belo Horizonte com a família aos seis meses para morar no Rio de Janeiro. Se profissionalizou em canto, línguas e organização de eventos até que saiu pelo mundo sedenta por  ampliar seus horizontes. Viveu na Inglaterra, França, Portugal, Itália e Estados Unidos. Cresceu em meio à natureza, nas montanhas de Minas, Teresópolis, Visconde de Mauá, e do próprio Rio. Protetora apaixonada da Mata Atlântica e das tribos ao redor do mundo, desde a infância, buscou formas de cuidar e falar deste frágil ambiente e dos seres únicos que nele vivem. Página oficial- Adriana Vitória

Adolescente com autismo é espancado por colegas e lhes dá uma grande lição de vida

Adolescente com autismo é espancado por colegas e lhes dá uma grande lição de vida

No início da semana, por meio de uma publicação do Jornal O Globo, tomamos conhecimento de uma história impressionante.

Após ser espancado por um grupo de estudantes, o jovem americano Gavin Stone decidiu solicitar uma punição inusitada, embora muito inteligente, aos seus agressores. Em vez de exigir uma punição convencional, ele quer que aqueles que o agrediram estudem para entenderem a sua condição. Gavin é autista.

Ainda na infância, Gavin Stone foi diagnosticado com Síndrome de Asperger (uma forma “suave” de autismo) e com Transtorno de Déficit de Atenção. Em razão da doença, ele tem tendência ao isolamento e grande dificuldade para se relacionar com outras pessoas. Tal comportamento teria irritado os colegas, que reagiram agredindo-o.

Uma amiga da família chamada Susan Moffatt, publicou toda a história em sua própria página no Facebook, sendo amplamente compartilhada.

Segundo Suzan, “ele pode parecer grosseiro, impaciente, ‘estranho’, individualista, ou desinteressado, mas nada disso é intencional. Ele também pode ser gentil, generoso e indulgente, mas mesmo isso pode parecer estranho às vezes, porque alguns desses comportamentos ele aprendeu, mas não são sempre naturais para ele”.

Possivelmente em razão do seu comportamento diferenciado, afirma Suzan que “”na quinta-feira à noite, alguns meninos estavam comentando como é ‘estranho’ que ele esteja sempre sozinho, indo aos eventos sozinho e observando as pessoas, e como é assustador que era queira ser amigo de pessoas que nem conhece. Na noite de sexta-feira, outro garoto que ouviu essa conversa decidiu fazer justiça com as próprias mãos, ser o juiz e o júri, e esse é o resultado disso. O menino não fez perguntas, não tentou conhecer Gavin, nunca o tinha visto e não deu a ele uma chance de ir embora. Um grupo disse que alguém queria encontrá-lo, então ele foi cercado por pessoas que ele não conhecia, sufocado, perfurado, e deixado na calçada para que ‘aprendesse a lição'”.

Foi assim que o adolescente a sua família solicitaram que os jovens agressores prestassem serviço comunitário relacionado em auxílio a pessoas com o transtorno psicológico, que escrevam artigo sobre o autismo e ainda que vejam, ao lado de suas famílias, um vídeo por ele próprio gravado, relatando a sua experiência e analisem a gravidade de seus atos.
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A questão relevante sobre o grito

A questão relevante sobre o grito

Por Rachel Macy Stafford

Quando eu me tornei uma mãe que gritava, eu descobri que estava destruindo meus filhos e a mim mesma. Conheça minha história.

Eu amo os bilhetes que recebo de meus filhos – sejam eles apenas rabiscos em uma folha amarela ou escritos em caligrafia perfeita e papel alinhado. Mas o poema do Dia das Mães que recentemente recebi da minha filha de 9 anos de idade foi especialmente significativo. Na verdade, a primeira linha do poema prendeu minha respiração e lágrimas quentes deslizaram pelo meu rosto.

“A coisa mais importante que eu posso dizer sobre a minha mãe é… que ela está sempre pronta a me apoiar, mesmo quando eu estou em apuros.”

Mas nem sempre foi assim.

Em meio às distrações da minha vida, comecei uma nova prática muito diferente da forma como eu havia me comportado até aquele ponto. Eu me tornei uma mãe que gritava. Não era sempre, mas era intenso – como um balão extremamente inflado que fazia com que todos ao alcance da minha voz se sobressaltassem com medo.

Então, como minhas meninas, na época com 3 e 6 anos de idade, me fizeram começar com isso? Foi no modo como uma insistia em correr para buscar mais três colares de contas e os seus óculos de sol rosa favoritos quando já estávamos atrasados? Foi na maneira como a outra tentou servir-se sozinha de cereal e derramou a caixa inteira no balcão da cozinha? Foi quando uma delas caiu e quebrou o meu anjo de vidro especial no piso de madeira depois de ter sido avisada para não tocá-lo? Foi por que elas lutavam contra o sono quando eu precisava de um pouco mais de paz e tranquilidade? Ou foi quando brigavam por coisas ridículas como quem seria o primeiro a sair do carro ou quem tem o maior sorvete?

Sim, eram esses percalços normais, questões e atitudes típicas de crianças que me irritavam a ponto de perder o controle.

Isso não é algo fácil de escrever. E também não foi um momento fácil na minha vida para reviver, porque verdade seja dita, eu me odiava nesses momentos. O que acontecia comigo para que precisasse gritar com as duas pequenas e preciosas pessoas que eu amo mais do que a vida?

Deixe-me dizer-lhe o que tinha acontecido comigo.

Distrações

O uso excessivo do telefone, a sobrecarga de compromissos, várias páginas de listas de tarefas, e a busca da perfeição me consumiam. E gritar com as pessoas que eu amava era um resultado direto da perda de controle que eu estava sentindo na minha vida.

Inevitavelmente, acabaria por desmoronar em algum lugar. Então eu desmoronei a portas fechadas na companhia das pessoas que mais significam para mim.

Até um dia fatídico.

Minha filha mais velha subiu em um banquinho e foi atingida por algo que caiu na despensa e ela acidentalmente entornou um saco inteiro de arroz no chão. Com um milhão de minúsculos grãos no chão parecidos com a chuva, os olhos de minha filha se encheram de lágrimas. E foi aí que eu vi – o medo em seus olhos quando ela se preparou para o discurso de sua mãe.

Ela está com medo de mim, eu pensei, com a conscientização mais dolorosa que se possa imaginar. Minha filha de seis anos de idade está com medo da minha reação ao seu erro inocente.

Com profunda tristeza, percebi que eu não era o tipo de mãe que eu queria para meus filhos conviverem e nem era assim que eu queria viver o resto da minha vida.

Dentro de algumas semanas depois desse episódio, eu tive meu momento de colapso e ruptura – foi a conscientização dolorosa que me impulsionou à jornada do Hands Free. Chegara a hora de deixar ir a distração e entender o que realmente importava. Isso foi há dois anos e meio atrás – dois anos e meio de lenta batalha para diminuir a distração e excesso de eletrônicos na minha vida… Dois anos e meio para me livrar do padrão inatingível de perfeição e da pressão da sociedade para “fazer tudo”. Ao deixar de lado minhas distrações internas e externas, a raiva e o estresse reprimidos dentro de mim lentamente se dissiparam. Com nova clareza eu era capaz de reagir aos erros e às injustiças de minhas filhas de uma forma mais calma, compassiva e razoável.

Comecei a dizer coisas como: “É apenas xarope de chocolate. É só limpar e a bancada ficará tão boa como se fosse nova.”

(Mudei do suspiro exasperado e revirar de olhos para uma boa atitude).

Eu me ofereci para ajudar com a vassoura enquanto ela varria um mar de flocos de cereais que cobriam o chão.

(Em vez de pular em cima dela com um olhar de desaprovação e aborrecimento total).

Eu a ajudei a pensar por onde ela poderia ter deixado seus óculos.

(Em vez de envergonhá-la por ser tão irresponsável).

E nos momentos em que a total exaustão e o choramingar incessante estavam prestes a me derrubar, eu entrava no banheiro, fechava a porta, e dava a mim mesma um momento para esfriar a cabeça e me lembrar que elas são crianças e as crianças cometem erros. Assim como eu.

E ao longo do tempo, o medo que uma vez brilhou nos olhos de minhas filhas quando estavam com problemas desapareceu. E graças a Deus, eu me tornei um refúgio em seus momentos de dificuldade, em vez de o inimigo do qual queriam correr e se esconder.

Não estou certa de que eu teria pensado em escrever sobre esta profunda transformação, não fosse pelo incidente que aconteceu na tarde da última segunda-feira. Naquele momento, senti o gosto da vida sendo esmagada e a vontade de gritar estava na ponta da minha língua. Eu estava chegando aos capítulos finais do livro que estou escrevendo atualmente e meu computador travou. De repente, as edições de três capítulos inteiros desapareceram na frente dos meus olhos. Passei vários minutos tentando freneticamente reverter para a versão mais recente do manuscrito. Quando isso não funcionou, eu consultei o backup da máquina, apenas para descobrir que ele, também, havia dado erro. Quando eu percebi que nunca iria recuperar o trabalho que fiz nesses três capítulos, eu queria chorar, mas mais ainda, queria sentir e extravasar a raiva.

Mas eu não podia porque era hora de pegar as crianças na escola e levá-las para o treino de natação em equipe. Com grande contenção, eu calmamente fechei meu laptop e me lembrei que poderia haver problemas muito piores do que reescrever esses capítulos. Então eu disse a mim mesma que não havia absolutamente nada que eu pudesse fazer sobre esse problema naquele momento.

Quando minhas filhas entraram no carro, elas imediatamente perceberam que algo estava errado. “O que há de errado, mamãe?”. Elas perguntaram em uníssono depois de vislumbrarem meu rosto pálido.

Eu queria gritar: “Eu perdi três valiosos dias de trabalho no meu livro!”

Eu tinha vontade de bater no volante com os punhos, porque sentada no carro era o último lugar que eu queria estar naquele momento. Eu queria ir para casa e corrigir os meus livros – e não transportar crianças para a natação, torcer roupas de banho molhadas, pentear cabelos emaranhados, fazer o jantar, lavar a louça e pôr crianças na cama.

Mas ao invés disso, eu calmamente disse: “Eu estou tendo um pouco de dificuldade para falar agora. Eu perdi parte do meu livro. E eu não quero falar, porque eu me sinto muito frustrada.”

“Sentimos muito”, disse a mais velha por ambas. E então, como se soubessem que eu precisava de espaço, elas ficaram quietas todo o caminho até a piscina. As crianças e eu cumprimos o nosso dia e, embora eu estivesse mais calma do que o habitual, não precisei gritar e tentei o meu melhor para abster-me de pensar sobre o assunto do livro.

Finalmente, o dia estava quase terminando. Eu tinha colocado minha filha mais nova na cama e estava deitada ao lado de minha filha mais velha para nosso momento noturno de BATER PAPO.

“Você acha que vai conseguir seus capítulos de volta?”. A minha filha perguntou em voz baixa.

E foi aí que eu comecei a chorar – não tanto pelos três capítulos, eu sabia que eles poderiam ser reescritos – o meu choro era mais um extravasamento, devido ao cansaço e frustração envolvidos em escrever e editar um livro. Eu estava tão perto do fim. E de repente ter arrancado de mim meu trabalho, foi algo extremamente decepcionante.

Para minha surpresa, minha filha estendeu a mão e acariciou meu cabelo suavemente. Ela disse palavras reconfortantes como: “Os computadores podem ser muito frustrantes”, e “Eu poderia dar uma olhada na máquina para ver se consigo consertar o backup.” E então, finalmente, “Mãe, você pode refazer o que perdeu. Você é a melhor escritora que eu conheço”, e “Eu vou ajudar no que puder.”

No meu momento difícil, problemático, lá estava ela, uma paciente e compassiva incentivadora que não pensaria em me chutar quando eu já estava para baixo.

Minha filha não teria aprendido essa resposta empática se eu tivesse permanecido no hábito de gritar. Porque quando se grita, desliga-se o canal de comunicação, que por sua vez rompe o vínculo e afasta as pessoas – em vez de aproximar.

“A coisa mais importante… É que a minha mãe está sempre pronta a me apoiar, mesmo quando eu estou em apuros”.

Minha filha escreveu isso sobre mim, a mulher que passou por um período difícil, do qual não se orgulha, mas que a ajudou a aprender. E nas palavras da minha filha, eu vejo esperança para os outros.

A coisa mais importante… É que não é tarde demais para parar de gritar.

A coisa mais importante… É o perdão das crianças, especialmente se elas veem a pessoa que amam tentando mudar.

A coisa mais importante… É que a vida é muito curta para se chatear com cereal derramado e sapatos fora do lugar.

A coisa mais importante… É que não importa o que aconteceu ontem, hoje é um novo dia.

Hoje podemos escolher uma resposta pacífica.

E ao fazê-lo, podemos ensinar aos nossos filhos que a paz constrói pontes – pontes pelas quais podemos atravessar com segurança por sobre tempos difíceis.

Rachel Macy Stafford é certificada como professora de educação especial com mestrado em pedagogia e dez ano de experiência trabalhando com pais e filhos. Traduzido e adaptado por Stael Pedrosa Metzger.

Fonte indicada e altamente recomendada por tratar-se de um site de absoluta seriedade e competência: Família.com.br

Divórcio? E agora?

Divórcio? E agora?

Por Viviane Lajter Segal

Desde pequenos somos influenciados pelos contos de fadas e nos acostumamos a ouvir a famosa frase “e foram felizes para sempre” no encerramento de todas as histórias. Esse imaginário infantil da princesa que conhece o príncipe e que tudo dá certo no final permeia a fantasia até hoje de grande parte dos adultos. A decisão de se casar e de compartilhar uma vida com outra pessoa é repleta de expectativas e de projetos em relação ao futuro. Incluem ideais como o desejo de ter a felicidade plena, filhos, morar em uma casa bonita, vivenciar diariamente trocas mútuas de carinho e afeto. Mas, será que é sempre assim que acontece?

A vida de um casal nem sempre funciona tão perfeitamente quanto se imagina. O convívio a dois é difícil, uma vez que são duas pessoas diferentes, com histórias de vida distintas, manias e exigências adquiridas ao longo dos anos. Compartilhar tudo isso às vezes se torna uma missão bastante delicada e, em certos casos, conflituosa.

Tenho observado no consultório, em que atuo como psicóloga individual e de casal, um aumento significativo de pessoas sofrendo com sérios problemas no relacionamento que culminam quase sempre em separação ou em divórcio.

A rotina

Ao longo do tempo é natural que o casal entre em uma rotina e que aquela paixão e euforia iniciais se tornem mais silenciosas. Além disso, com o passar dos anos as pessoas tendem a se modificar, o que pode gerar um descompasso entre os cônjuges, uma vez que as transformações de cada um deles parecem não acontecer na mesma direção. Isso costuma assustar os casais e gerar um afastamento. Passam a se olhar de forma diferente e consequentemente a questionar os seus sentimentos e o relacionamento como um todo.

Quando um casal passa a se desentender com certa frequência, muito pode ser feito para tentar renovar e reestimular o casamento. Conversas francas, mudanças de hábitos e rotinas, como por exemplo voltar a fazer programas do começo do namoro, são boas estratégias. Procurar uma ajuda psicológica individual ou para o casal muitas vezes se torna necessário ao longo desse processo, pois ajuda na reflexão e na compreensão do que se deseja para o futuro. Perceber se ainda há um desejo de permanecer e reconstruir a relação, ou se a separação é necessária para que cada um possa reescrever suas histórias. A tomada de decisão se torna mais sólida e segura.

A tomada de decisão

Porém, há situações em que, mesmo após várias tentativas, o casal não consegue mais se entender e nem sequer conviver. As brigas e discussões são frequentes, há falta de interesse mútuo e o desgaste do relacionamento é nítido.

Tomar a decisão de se divorciar requer coragem para enfrentar os problemas de frente e assumir que aquela escolha feita anteriormente não deu certo. É admitir para si, e para o mundo, que sim, nesse sentido, os seus planos fracassaram. É se conhecer bem o suficiente para perceber que o seu relacionamento não está mais satisfatório e se permitir escrever outra história a partir dali. Toda mudança requer coragem e força interior para acontecer.

O luto

Quando o casal decide se divorciar, não é somente a relação que acaba, mas também todos os projetos criados para o futuro se rompem. É preciso aprender a lidar com um turbilhão de sentimentos que surgem. Variam entre frustração, perda, tristeza, medo, vergonha e insegurança.

Inicia-se, então, um processo de luto. A morte dos ideais e expectativas construídos para a vida. Morte de um sonho, de uma história que terminou, morte dos planos fantasiados, dos projetos futuros. O divórcio, segundo estudos, é o segundo evento psicossocial que gera maior sofrimento psíquico. Perde somente para a morte de um ente querido, ou seja, é um momento muito difícil na vida de qualquer um, independentemente de ter sido amigável ou litigioso.

A sensação de medo e de insegurança são muito frequentes, pois o divorciado se vê em uma incerteza enorme perante a vida. Readaptação do cotidiano, voltar a estar sozinho e ser independente, ter autonomia, retomar um convívio social, lidar com as incertezas se conseguirá reconstruir uma nova relação, medo de se arrepender da decisão tomada.

Às vezes vemos situações em que o medo de um futuro incerto gera uma ansiedade tão forte no divorciado que este prefere se reconciliar com o ex-companheiro. Porém, tal comportamento costuma ser muito prejudicial para o casal, uma vez que esse retorno foi movido por uma insegurança e não pelo desejo de reestabelecer a relação. Consequentemente, após algum tempo os problemas conjugais retornarão gerando ainda mais desgaste e sofrimento para ambas as partes.

E agora? A reestruturação

Certa vez ouvi de um paciente que o divórcio “é uma montanha russa de sentimentos”. Por isso, é importante se respeitar e respeitar o seu tempo. É se permitir vivenciar o luto, parar e refletir sobre o que deu errado e como pretende seguir a vida para reconstruir a sua história. Evitar ter pressa para iniciar outro relacionamento.

A vida é construída baseada em acertos e erros! Quando acertamos nos sentimos plenos e seguros para seguir adiante. Quando erramos temos que nos levantar, aprender com aquilo que deu errado e seguir em frente. Na vida afetiva e nos relacionamentos não pode ser diferente! Temos que tentar nos aprofundar cada vez mais em nós mesmos, para percebermos o que queremos e para onde queremos guiar a nossa trajetória. A ajuda de um psicólogo é muito importante no auxílio para que esse processo de superação e de mudança possa ocorrer de forma mais plena e segura.

Não tenha medo de julgamentos e nem sinta vergonha por tentar mudar! A vida é sua, então, que seja vivida da maneira que você julgar ser melhor para traçar a sua história.

Seja feliz!

A Fita Branca: Reflexões compartilhadas no Cine Sedes Jung e Corpo

A Fita Branca: Reflexões compartilhadas no Cine Sedes Jung e Corpo

A fita Branca (Das weiße Band) é um premiado filme de 2009 dirigido por Michael Haneke e que retrata os acontecimentos de um vilarejo protestante no norte da Alemanha, em 1913, às vésperas da Primeira Guerra Mundial. Segundo o diretor, o enredo é sobre “a origem de todo tipo de terrorismo, seja ele de natureza política ou religiosa.”

De início somos apresentados a várias personagens: o barão, o reitor, o pastor, o médico, a parteira, o professor, os camponeses, as babás e as crianças. Todos os núcleos do elenco envolvem da relação entre pais e filhos, e aos seus rígidos métodos de disciplina e educação.

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Um arame derruba um médico, uma colheita é destruída, crianças são punidas severamente. Perguntas e mais perguntas vão sendo jogadas em nossa face, e no lugar de respostas, recebemos cenas indigestas de maus tratos com crianças.

A trama não nos permite o alívio da emoção, mas, ao contrário, nos deixa presos de maneira quase claustrofóbica nas vivências das crianças e dos estranhos acontecimentos “acidentais” e criminosos, que tomam aos poucos o caráter de um ritual punitivo.

Todos os personagens do filme conseguem transbordar frieza, palidez e características sombrias. O fato do filme ser em preto e branco e quase sem trilha sonora enaltece sua atmosfera rígida e nos situa nos selfs cultural e social que marcaram o período pré-guerras na Alemanha.

Aos poucos vamos entendendo que os eventos criminosos funcionam como descargas emocionais diante da educação severa e repressora e aos abusos sexuais e psicológicos cometidos pelos adultos.

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À primeira vista podemos pensar que o filme fala da maldade e da pureza. A tal fita branca do título é na verdade um elemento que o pastor usa para lembrar seus filhos de não pecar. Mas, a própria maneira rígida que ele usa ao lidar com as crianças já não seria um pecado? Nada é o que parece. Todos os personagens aos poucos vão revelando características dúbias e extremamente duvidosas. A fita branca, símbolo de pureza e inocência ganha o caráter de exposição e humilhação.

Assim, a Fita Branca fala dos extremos provocados por uma sociedade patriarcal, em que a ordem, o autoritarismo, a repressão e a punição caminham lada a lado.  Onde as expressões do matriarcal, de afeto, cuidado, e prazer não encontram espaço e permanecem encaixotadas e aprisionadas na Sombra.

A expressão da religiosidade materialista e não espiritualista, levada ao extremo e de maneira sombria, faz com que tudo que não esteja nas regras seja tido como pecado e precisa ser reprimido. A princípio podemos pensar que esses adultos são pessoas essencialmente más. Na verdade, elas também refletem a educação que receberam, trazendo assim a herança do patriarcado e sua repetição compulsiva na educação dos filhos e nos atos delituosos que comentem. Por consequência, toda uma sociedade se torna vítima de uma história perversa de educação e violência. E, ao invés de se conscientizar de sua inadequação, justifica seus atos como sendo os corretos e esperados.

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No cenário do filme, o mal se elimina através da atitude repressora. Mas, o que ocorre na verdade é que, com isso, a energia reprimida permanece fixada e ganha força no inconsciente, manifestando-se de maneira sombria, através de defesas psicopáticas (abusos, assassinatos, agressões de todos os tipos).

A criança quando nasce vai aprendendo como o mundo funciona a partir daquilo que é apresentado para ela. Dentro da sociedade retratada não há espaço para que elas sejam diferentes. Todo o potencial do Ser fica aprisionado e, como não há estímulo, o desenvolvimento pleno torna-se impossível de ser alcançado.

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Em contrapartida, chama a atenção a cena em que um menino indaga sobre o que é a morte. Sua irmã vai explicando, e ele faz mais perguntas, as quais ela responde na medida dos questionamentos. Após todo um lindo diálogo, o menino fica em silêncio alguns segundos, até que chega à uma conclusão: sua mãe nunca foi viajar, ela estava morta.

Através das respostas para suas perguntas, ele compreendeu algo que ainda não haviam explicado a ele. Nesta cena específica, percebemos a mudança de alguém ingênuo para alguém que adquire conhecimento. O menino, neste momento, fica sabendo o que é morrer e que nunca mais verá sua mãe. Vemos aqui uma das poucas expressões do feminino no filme. Sensível e protetora do irmão, a jovem acolhe o diálogo e permite a expressão da raiva e da frustração. Com isso, o pequeno pode elaborar a morte e entender melhor a vida.

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Em determinada cena, o médico recém-saído de uma recuperação, revela-se monstruoso e cruel. A maneira como ele trata a mulher que cuida de seus filhos é horrenda. Suas palavras de mau gosto ao rebaixar a pobre mulher que o ama é incrivelmente dilacerante. A mulher submissa àquela realidade servil aceita a humilhação. Mais adiante entenderemos os motivos dele, embora não haja desculpas para isto. A filha tenta proteger o irmão mais novo dos abusos cometidos contra ela pelo pai. Com isso, protege a inocência da criança, mas também a imagem do pai e a dela própria. A criança tende a “encobrir” os maus tratos causados pelas figuras dos cuidadores, pois necessita delas preservadas para poder dar curso ao seu desenvolvimento. Desta forma, a garota protege sua própria psique e a do irmão do abuso sofrido pela figura que deveria protege-la.

Toda criança precisa de acolhimento e de respostas às suas indagações para que possa compreender a realidade a sua volta. Quando não há espaço para a elaboração e para a compreensão do que a cerca, a criança preenche as lacunas através da fantasia ou da própria experiência.

Aos poucos, as pobres crianças vão se revelando tão cruéis e frias quanto seus pais e cuidadores.

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Pela metade do filme, começam os boatos da guerra. Em determinado momento se narra a notícia do assassinato do arquiduque austríaco Francisco Fernando, que acaba desencadeando a temível Primeira Guerra Mundial. O que levou os líderes e políticos da Europa a estourar a guerra na verdade já estava arraigado nos seus corações e modos de vida.

Deste modo, uma das grandes reflexões que o filme nos permite é que somos reflexo do ambiente em que fomos criados, neste caso hostil e inflexível.

Neste ponto relembramos as cenas em que um dos filhos do pastor que pede para cuidar de um filhote de passarinho que encontrou ferido. Recebe do pai seu aval, mas com grande discurso de responsabilidade. Deixa claro que quando o pássaro melhorar ele terá que devolvê-lo a natureza. O animal, símbolo da liberdade e do espírito ganha aqui duplo simbolismo. O pai também mantém um pássaro engaiolado e pelo qual nutre grande apreço. Para atingi-lo e puni-lo sua filha sacrifica o animal, transpassando uma tesoura em seu corpo. O menino que cuidara devidamente do pássaro ferido se penaliza da dor do pai e ao invés de entregar o filhote de volta à mãe natureza, oferta-o ao pai como forma de reposição do objeto perdido. Mais uma cena que demonstra que, mesmo entre os mais pequenos, o ciclo patriarcal continuará exercendo sua força e engaiolará as possibilidades de mudança e de afeto.

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Através das vivências do vilarejo, que representa aqui um microcosmos do cenário da Alemanha na época, A Fita Branca mostra as origens das guerras e da maldade em si. Quando se tira a inocência das indefesas crianças, pode-se esperar o pior! Porque inocência é a única coisa que elas não ensinarão quando adultas. Assim, o que se repete é um ciclo de unilateralidade, violência e terror, que não estrutura a prole para a vivência integrativa e da alteridade.

As escassas figuras que representam a função do sentimento e do afeto são os que “vieram de fora” do vilarejo. O professor, a babá e a esposa do barão. Mas eles não conseguem modificar a situação estagnada e repressora e todos acabam saindo o local.

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O professor, que é quem nos narra a história do filme é o que merece maior atenção. Possui a função de mestre educador, apresenta-se mais sensível as necessidades das crianças, poderia ser agente de transformação e de criatividade. Mas se vê preso as regras e a formatação da cultura local para sobreviver. Investiga os fatos e consegue decifrar parcialmente os enigmas que envolvem a série de incidentes. Porém, revelar os atos das crianças também desmascararia os adultos e, então é preferível manter o status quo e seguir com a farsa. E assim, faz o pastor.

A trama se encerra sem resolução, nem dos fatos e nem das emoções. A polarização é tão unilateral e extrema que não há chance de integração. Sem elaboração não há possibilidade de transformação!

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E quando prospectamos o futuro desses jovens e crianças do filme o que encontramos é a segunda grande guerra mundial. Vemos a fita branca da pureza e da humilhação transformar-se em estrelas costuradas na roupa dos judeus, tidos como impuros e indignos, vitimados pelo holocausto. Eventos de terror dos quais nos envergonhamos até os dias de hoje, mas que ainda vemos acontecer nas atitudes de intolerância, punição e destruição pelo mundo e especialmente com nossas crianças.

A guerra, a maldade, a rigidez de uma vida inteira, todo o padrão de uma sociedade em si, tudo é obscuro e nos remete a Sombra.  A Fita Branca é um filme que usa suas imagens em preto e branco, quase sem som, mas diz tudo sem precisar de diálogos. Um filme perturbador onde cabe muitas amplificações. Afinal de contas, todos nós, em algum momento da vida nos deparamos com alguma norma de moral autoritária.

Autoritarismo este que perturba, choca e reprime, tanto quanto uma simples fita branca. Elemento este que está ali para fazer lembrar sobre a pureza e os bons costumes ou seria para fazer perder a pura essência da inocência e da bondade?

Entre o Bem e o Mal, qual vence? A resposta que o diretor nos dá é que o vencedor é aquele que for alimentado! Cabe a nós refletir e identificar que lado nutrimos nas ações individuais e coletivas dos dias atuais. Afinal o que ocorre no macrocosmo é um reflexo do que ocorre dentro de nós.

Este texto foi produzido pela Comissão Organizadora do Cine Sedes Jung e Corpo com base nas reflexões realizadas durante o evento realizado em Maio de 2015, com os comentários da Professoras e Psicólogas Junguianas Denise Mathias e Karina Midori Ishimori.

O Cine Sedes Jung e Corpo é uma atividade extracurricular do curso Jung e Corpo: Especialização em Psicoterapia Analítica e Abordagem Corporal do Instituto Sedes Sapientiae de São Paulo.

É um evento gratuito e aberto ao público geral organizado pelos professores do curso em conjunto com ex-alunos e ocorre todas as últimas sextas-feiras dos meses letivos do curso.

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Reprodução autorizada para o CONTI outra.

Conversa íntima com Fernando Pessoa

Conversa íntima com Fernando Pessoa

Por Josie Conti

“Tenho pensamentos que, se pudesse revelá-los e fazê-los viver, acrescentariam nova luminosidade às estrelas, nova beleza ao mundo e maior amor ao coração dos homens.”
Fernando Pessoa

Pois, eu também os tenho, querido Pessoa. Cultivo-os à noite, depois que o sol se vai, e um mundo só meu é construído.

De criança, lembro-me de me deitar antes que o sono chegasse. Queria sonhar acordada para que o dormir não atrapalhasse a lucidez do sonho planejado.

Adolescente, nessas horas sagradas, imaginava romances, construía futuros, refletia possibilidades. Eram sonhos juvenis daquela que ainda não tinha trilhado reais caminhos e nem assumido o peso de suas escolhas.

Hoje, continuo profunda admiradora do noturno silêncio, do tempo que precede a entrega, daquele momento em que as influências do mundo externo quase não nos tocam, das horas em que a agitação descansa e que o coração pode ser ouvido.

Sou amante da madrugada, da passagem do tempo que me despe de trajes e máscaras. No momento do mais pleno encontro, onde não há outras pessoas, obrigações, carros e nem celulares. Sou apenas a beleza, a luz e a profundeza do existir.

Mas, se a consciência corporal é maior, a fantasia não se apequena a seu lado. Sedutora dos portais da consciência, ela encontra morada, onde tudo é possível, em cenários que são só meus, em terra encantada, onde o amor pleno é rei.

Meu lúcido sonho, despido de ilusões mundanas, é terno aconchego. Transforma-se em barco que viaja por águas calmas e sabe-se passageiro.

O barco que conduzo reconhece que a água que hoje o acalanta já foi cruel tempestade, água benta em batizado de criança, salvação da vida em terra que não pode ser arada, suor de enxada, lágrima de mãe órfã de filho morto.

A consciência do momento, entretanto, não diz do futuro e nem do passado. Ela fala do presente que é o único momento onde talvez tenhamos um ínfimo controle. E, antes que Morfeu me abrace e conduza a embarcação, coloco-me a navegar.

As águas tranquilas permitem a real observação da paisagem. E, nessa viagem escolhida, conecto-me com algo maior do que sou. Com o infinito que está além da humana compreensão.

Agradeço, então, pelo direito à vida quando reconheço a finitude do corpo. Sei que, independe de mim, as águas seguirão.

Ah, e como é bela a visão da pequenez humana. O senhor sabia das coisas, querido Pessoa:

“Navegar é preciso, viver não é preciso.”

contioutra.com - Conversa íntima com Fernando Pessoa

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