Para se apaixonar por quem quer que seja, faça isso

Para se apaixonar por quem quer que seja, faça isso

Há mais de 20 anos, o psicólogo Arthur Aron conseguiu fazer com que dois estranhos se apaixonassem em seu laboratório. No começo do segundo semestre de 2014 apliquei essa técnica na minha vida, e por isso acabei de pé em uma ponte a meia-noite, olhando um homem nos olhos durante exatamente quatro minutos.

Deixem que eu me explique. Horas antes esse homem me disse: “Suspeito que, com algumas coisas em comum, poderíamos nos apaixonar por quem quer que seja. Se é assim, como escolhemos alguém?”.

Era um conhecido da universidade com o qual cruzava de vez em quando na academia onde pratico escalada, e que me fez pensar “pode ser ele?”. Dei uma olhada no seu dia a dia no Instagram. Mas essa era a primeira vez que nos encontrávamos só nós dois.

“Na realidade, existem psicólogos que tentaram fazer com que as pessoas se apaixonassem”, eu disse, relembrando o estudo do doutor Aron. “É fascinante. Sempre quis experimentá-lo”.

Soube do estudo pela primeira vez quando estava no meio de um término. Cada vez que pensava em terminar, meu coração anulava a decisão do meu cérebro. Me sentia presa. Então, como boa acadêmica, me voltei para a ciência na esperança de que houvesse uma forma mais inteligente de amar.

Expliquei o estudo para meu conhecido da universidade. Um homem e uma mulher heterossexuais entram no laboratório por portas diferentes. Os dois sentam-se frente a frente e respondem uma série de perguntas cada vez mais pessoais. Depois se olham nos olhos durante quatro minutos. O detalhe mais cativante: seis meses depois, dois dos participantes estavam casados. Convidaram todo o laboratório para a cerimônia.

“Vamos testar”, ele disse.

Eu preciso admitir que nossa experiência não se ajusta ao estudo. Primeiro, estávamos em um bar, não no laboratório. Segundo, não éramos estranhos. Não só isso, me dei conta agora de que uma pessoa não sugere e nem está de acordo em testar uma experiência feita para criar um amor romântico se essa pessoa não está aberta ao que possa acontecer.

Busquei as perguntas do doutor Aron no Google; são 36. Passamos as duas horas seguintes passando o iPhone entre nós na mesa, fazendo as perguntas alternadamente.

Começaram de forma inócua: “Você gostaria de ser famoso? De que forma?”. E “quando foi a última vez que cantou sozinho? E para alguém?”.

Mas rapidamente tornaram-se mais inquisitivas.

Como resposta à provocadora “nomeie três coisas que você e seu companheiro aparentemente têm em comum”, me olhou e disse: “Creio que nós dois estamos interessados um no outro”.

Sorri e dei um gole na minha cerveja enquanto ele enumerou outras duas coisas das quais logo me esqueci. Trocamos histórias sobre a última vez que choramos e confessamos uma pergunta que gostaríamos de fazer para um adivinho. Explicamos nossas relações com nossas mães.

As perguntas me lembraram a famosa experiência da rã na qual o animal não percebe como a água vai esquentado até que seja tarde demais e ela esteja fervendo. No nosso caso, e como o nível de vulnerabilidade aumentava gradualmente, não notei que havíamos entrado no terreno íntimo até que estávamos dentro, um processo que normalmente pode levar semanas ou meses.

Gostei de aprender sobre mim através das minhas respostas, mas gostei ainda mais de aprender coisas sobre ele. O bar, que estava vazio quando chegamos, havia enchido quando fizemos uma pausa para ir ao banheiro.

Sentei sozinha na mesa, consciente do entorno pela primeira vez em uma hora, e me perguntei se alguém estava ouvindo nossa conversa. Se o fizeram, não me dei conta. Não percebi também que a multidão foi diminuindo a medida que ficava cada vez mais tarde.

Todos temos uma história sobre nós mesmos que contamos a estranhos e conhecidos, mas as perguntas do doutor Aron fazem com que seja impossível usá-la. Foi criada essa espécie de intimidade acelerada que me lembra o acampamento de verão: ficar acordada toda noite com um amigo novo, trocando detalhes de nossas curtas vidas. Com 13 anos, longe de casa pela primeira vez, parecia natural conhecer alguém tão depressa. Mas a vida adulta raramente nos oferece essas circunstâncias.

Os momentos nos quais me senti mais incômoda não foram quando tive de confessar coisas sobre mim, mas quando tinha de dar opiniões sobre meu companheiro. Por exemplo: “Compartilhe alternadamente algo que considere uma característica positiva de seu companheiro; um total de cinco coisas” (pergunta 22), e “diga a seu companheiro o que você gosta nele; seja muito honesto dessa vez e diga coisas que não diria para alguém que acabou de conhecer” (pergunta 28).

Grande parte das pesquisas do doutor Aron estão centradas em como criamos proximidade interpessoal. Concretamente, vários de seus estudos pesquisam as formas com as quais incorporamos os demais em nosso sentido do eu. É fácil ver como as perguntas animam o que chama de “autoexpansão”. Dizer coisas como “gosto da sua voz, das suas preferências em cerveja, a forma com que todos os seus amigos parecem admirá-lo” faz com que certas qualidades positivas de uma pessoa sejam explicitamente valiosas para a outra.

 

É realmente surpreendente ouvir o que alguém admira sobre você. Não sei por que não nos dedicamos a dizer elogios para todo mundo a todo momento.

Acabamos a meia-noite, e levamos muito mais tempo para terminar do que os 90 minutos do estudo original. Olhei ao meu redor, no bar, e fiquei com a impressão de que acabava de despertar. “Não foi tão mal – eu disse – Definitivamente menos incômodo do que seria a parte de nos olharmos nos olhos”.

Ele duvidou e perguntou: “Acha que deveríamos fazer isso também?”.

“Aqui?”, olhei o bar. Eu achava muito estranho, muito público.

“Poderíamos ir para a ponte”, ele disse, virando para a janela.

A noite estava quente e eu estava completamente desperta. Caminhamos ao ponto mais alto e depois viramos para ficar cara a cara. Toquei lentamente meu celular para colocar o cronômetro.

“Valendo”, eu disse, respirando profundamente.

“Valendo”, ele disse, sorrindo.

Eu esquiei em desfiladeiros inclinados e estive pendurada em uma parede rochosa atada com um pedaço curto de corda, mas olhar nos olhos de alguém durante quatro silenciosos minutos foi uma das experiências mais emocionantes e aterradoras da minha vida. Passei o primeiro par de minutos simplesmente tentando respirar de forma adequada. Ocorreram muitos sorrisos nervosos até que, finalmente, nos sentimos confortáveis.

Sei que se diz que os olhos são a janela da alma, ou coisa parecida, mas o xis da questão não era somente que eu estava olhando para alguém, mas que estava olhando para alguém que me olhava. Quando aceitei a aterrorizante ideia da qual havia me dado conta e dei tempo para que ela assentasse, cheguei em um lugar inesperado.

Eu me senti corajosa e em um estado de assombro. Parte desse assombro foi por minha própria vulnerabilidade e parte veio pela estranha forma de fascinação que ocorre quando dizemos uma palavra repetidamente até que perde seu significado e se transforma no que realmente é: uma união de sons.

Foi o que aconteceu com o olho, que não é uma janela para nada, mas um conjunto de células muito úteis. O sentimento associado com o olho se desvaneceu e eu me vi impactada por sua surpreendente realidade biológica: a natureza esférica do globo ocular, a musculatura visível da íris, e o cristal suave e úmido da córnea. Era estranho e gostoso.

Quando o alarme tocou, estava surpresa… E um pouco aliviada. Mas senti também uma espécie de perda. Já estava começando a ver nossa noite com as lentes irreais e pouco confiáveis da retrospecção.

Muitos de nós pensamos no amor como algo que nos acontece. Em inglês, “we fall in love”, caímos no amor. “We get crushed”, ficamos esmagados.

Mas algo que gosto nesse estudo é como ele assume que o amor é uma ação. Leva em consideração que aquilo que importa para meu companheiro também me importa, porque temos pelo menos três coisas em comum, porque mantemos relações próximas com nossas mães e porque ele deixou que eu o olhasse.

Eu me perguntei o que sairia daquela interação. Pelo menos, pensei que me daria material para uma boa história. Mas agora me dou conta que a história não é sobre nós; é sobre o que significa ter o incômodo de conhecer alguém, que por sua vez e na realidade é uma história sobre o que significa nos conhecerem.

Com certeza você não pode escolher quem te ama, ainda que eu tenha passado anos com a esperança contrária, e também não pode criar sentimentos românticos baseados somente no que lhe convém. A ciência nos diz que a biologia importa; nossos feromônios e hormônios trabalham muito nos bastidores.

Mas apesar de tudo isso, comecei a pensar que o amor é mais flexível do que acreditamos. O estudo de Arthur Aron me ensinou que é possível – simples, até – gerar confiança e intimidade, que são os sentimentos que o amor necessita para prosperar.

Você provavelmente está perguntando se ele e eu nos apaixonamos. Bem, aconteceu. Ainda que seja difícil dar todo o mérito ao estudo (poderia ter acontecido de todas as formas), as perguntas nos ofereceram um caminho para uma relação que sentimos como voluntário e deliberado. Passamos semanas no espaço íntimo que criamos essa noite, esperando para ver no que poderia se transformar.

O amor não nos aconteceu. Estamos apaixonados porque tomamos a decisão de está-lo.

Mandy Len Catron dá aulas de escrita na Universidade da Columbia Britânica, em Vancouver, e está trabalhando em um livro sobre os perigos das histórias de amor.

Este artigo foi publicado originalmente no The New York Times em 9 de janeiro, onde em apenas uma semana teve 5,2 milhões de leitores e foi compartilhado 365.000 vezes no Facebook e mais de 14.000 no Twitter.

© The New York Times

Se você quer ler (e testar) as 36 perguntas mencionadas no artigo, aqui estão.

Estas são as 36 perguntas que farão você se apaixonar por qualquer um

Estas são as 36 perguntas que farão você se apaixonar por qualquer um

Mandy Len Catron publicou no dia 9 de janeiro um artigo no The New York Times (que traduzimos em Verne) e no qual narra como se apaixonou com a ajuda de 36 perguntas elaboradas pelo psicólogo Arthur Aron.

Embora a escritora tenha usado as perguntas de Aron para se apaixonar e para que se apaixonassem por ela, Aron colocou-as em seu estudo como uma ferramenta para gerar intimidade, não necessariamente amorosa, de forma gradual. O objetivo era ajudar os psicólogos a criar uma relação próxima no contexto de um laboratório, de modo que fosse possível manipular e estudar as variáveis desta relação.

Quando Aron testou o questionário, distribuiu alguns dos participantes em casais de homens e mulheres. Um dos casais que participou e se conheceu neste estudo acabou se casando seis meses mais tarde.Segundo explicou Aron à revistaWired, em 2010, “a última vez que entrei em contato com eles, ainda estavam juntos”.

Quer dizer, é possível que este questionário, criado para que as pessoas se abram aos poucos, realmente funcione. Nós o reproduzimos a seguir se alguém quiser testá-lo (sob sua responsabilidade). O estudo original exige que se trate de alguém completamente desconhecido. Recomenda-se empregar 45 minutos: quinze para cada conjunto de perguntas, embora tanto Mandy Len Catron quanto estes dois voluntários do The Guardianprecisaram de mais tempo. Os participantes devem ler em voz alta uma pergunta cada um, embora os dois devem responder todas.

Quando terminarem o questionário, os dois devem se afastar e responder às perguntas feitas pelos pesquisadores. No estudo original não se menciona a necessidade de olhar nos olhos durante quatro minutos ao terminarem, mas não é desaconselhável:funcionou para Mandy Len Catron.

Grupo I

1. Se pudesse escolher qualquer pessoa no mundo, quem convidaria para jantar?

2. Gostaria de ser famoso? De que forma?

3. Antes de fazer uma ligação telefônica, você ensaia o que vai falar? Por quê?

4. Para você, como seria um dia perfeito?

5. Quando foi a última vez que cantou sozinho? E para outra pessoa?

6. Se pudesse viver até os 90 anos e ter o corpo ou a mente de alguém de 30 durante os últimos 60 anos de sua vida, qual das duas opções escolheria?

7. Tem uma intuição secreta de como vai morrer?

8. Diga três coisas que acredita ter em comum com seu interlocutor.

9. Por quais aspectos de sua vida você se sente mais agradecido?

10. Se pudesse mudar algo em como foi educado, o que seria?

11. Use quatro minutos para contar a seu companheiro a história de sua vida com todo o detalhe possível.

12. Se amanhã pudesse se levantar desfrutando de uma habilidade ou qualidade nova, qual seria?

Grupo II

13. Se uma bola de cristal pudesse contar a verdade sobre você, sua vida, o futuro ou qualquer outra coisa, o que lhe perguntaria?

14. Há algo que há muito tempo deseja fazer? Por que ainda não fez?

15. Qual é a maior conquista que conseguiu em sua vida?

16. O que mais valoriza em um amigo?

17. Qual é sua lembrança mais valiosa?

18. Qual é sua lembrança mais dolorosa?

19. Se você soubesse que vai morrer daqui a um ano de maneira repentina, mudaria algo em sua maneira de viver? Por quê?

20. O que significa a amizade para você?

21. Que importância tem o amor e o afeto em sua vida?

22. Compartilhem, de forma alternada, cinco características que consideram positivas em seu companheiro.

23. Sua família é próxima e carinhosa? Acha que sua infância foi mais feliz que a dos demais?

24. Como se sente em relação a sua mãe?

Grupo III

25. Diga três frases usando o pronome “nós”. Por exemplo, “nós estamos neste aposento sentindo…”

26. Complete esta frase: “Gostaria de ter alguém com quem compartilhar…”.

27. Se fosse terminar sendo amigo íntimo de seu companheiro, divida com ele ou com ela algo que seria importante que ela soubesse.

28. Diga a seu companheiro o que mais gostou nele ou nela. Seja muito honesto e diga coisas que não diria a alguém que acaba de conhecer.

29. Divida com seu interlocutor um momento embaraçoso de sua vida.

30. Quando foi a última vez que chorou na frente de alguém? E sozinho?

31. Conte a seu interlocutor algo que já gosta nele.

32. Há algo que seja muito sério e que não se deve fazer piadas a respeito?

33. Se fosse morrer esta noite sem possibilidade de falar com ninguém, o que lamentaria não ter dito a uma pessoa? Por que não disse até agora?

34. Sua casa está pegando fogo com todas suas coisas dentro. Depois de salvar seus entes queridos e seus bichos de estimação, sobra tempo para fazer uma última incursão e salvar um único objeto. Qual escolheria? Por quê?

35. De todas as pessoas que formam sua família, qual morte seria mais dolorosa para você? Por quê?

36. Divida um problema pessoal e peça a seu interlocutor que conte como ele ou ela teria agido para solucioná-lo. Pergunte também como acha que você se sente em relação ao problema que contou.

Para se apaixonar de qualquer um, faça isto: o artigo no qual Mandy Len Catron conta como encontrou o amor graças a estas 36 perguntas.

Fonte indicada: El País

As grandes transições na vida – Flávio Gikovate

As grandes transições na vida – Flávio Gikovate

Passamos por algumas transições no decorrer da vida. A acomodação pode gerar maior resistência a certas fases mesmo que elas impliquem uma mudança para melhor.

Quando criança, os cuidados da mãe tornam a vida agradável. Logo vem a vontade de se tornar adolescente, fase desejada mais pelas meninas devido a aspectos da vaidade. A transição para a fase adulta é vista como desagradável durante a puberdade, pois irá integrar responsabilidades próprias dos adultos. A velhice traz consigo o medo da morte e a negação de uma fase que poderia ser muito harmoniosa por conta do maior tempo livre.

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Esse blog possui a autorização de Flávio Gikovate para reprodução deste material.

Deixe Sangrar

Deixe Sangrar

Complico, reclamo e deixo doer. Não pretendo me abdicar do meu lado humano para me tornar um não sei o que. Não cegarei meus olhos para dizer que está tudo bem ou melhor, enquanto o mundo está desabando ao meu redor. Muito menos irei sorrir e atuar, quando o mundo estiver desabando dentro de mim. Deixarei a elegância para as passarelas quando minhas emoções pedirem para borrar os olhos. Não é que elas mandem em mim, simplesmente não vejo sentido em negar uma parte da minha existência para atender a um certo imperativo de felicidade ditado não sei por quem nem para quê. Não é que eu queira mergulhar na minha tristeza até me afogar, mas vamos combinar, senti-la faz parte da vida.

Não vou colocar salto alto para fazer alguém pensar que estou por cima, embora também não esteja por baixo – estou por dentro, lá no fundo, descansando dos apuros no covil duro no qual se transformou, neste momento, a minha alma. Também não recusarei minhas lembranças das coisas boas que acabam de partir, muito menos trairei meus sonhos, ou apagarei os acontecimentos fictícios produzidos pela minha imaginação. Ela deve estar tentando resolver o que não compete à razão. Deixe-a assim.

Andarei por aí distraída, me orientando por sinais verdes e vermelhos, olhando o cinza do asfalto enquanto penso e o azul do céu para esvaziar meus pensamentos. Observarei cada pássaro pensando no quanto seria bom poder voar, e que ainda que eu tivesse asas, o peso do acontecido agora me pressionaria tão intensamente contra o chão, que meus passos deixariam rastros de rachaduras. Ando rachando as durezas e deixando no maleável esculturas vazadas dos meus pés inquietos. É que outro dia eu estive flutuando em levezas, e talvez por inveja, aqueles que não a podiam despertar em si, resolveram me encher de esperanças obesas, que ingenuamente aceitei, e agora, será assim, até que caminhe o suficiente para me livrar de todo esse excesso.

Não forçarei minha face a nada, nem expressão de farra, nem expressão de dor. Estarei íntegra em cada momento, deixarei fluírem minhas cores, guardarei as lágrimas para os quartos e os banheiros, só porque é assim que eu sou. E quando ficar embriagada, escreverei cartas que nunca serão enviadas, poemas que depois serão apagados, e mandarei mensagens pelo vento, apenas para não te dar o gosto de ouvir minha voz nem em pensamento. Falarei dos meus pessimismos e das minhas decepções, assim como outrora – e certamente, como voltarei a fazer; falei dos meus sonhos e dos meus amores.

Continuarei amando. Derramando amor pelo mundo, sorrindo pela chuva, pelas nuvens sempre em fuga pelo céu, pelos pássaros cantando às 17 horas em pleno centro sujo da cidade como se fossem um despertador para a vida. Continuarei sorrindo pelas flores que nascem fora de época, e pelas que nascem no tempo certo também. Cantarei gargalhadas pelas besteiras fúteis da internet, pelas passagens cômicas perspicazmente elaboradas pelos meus miolos tortos de tanto mudarem de lugar, pelas sacadas sutis no sarcasmo e na ironia de certos autores.

Não me envergonharei mais pelas palavras dispensadas, fossem doces ou amargas – eram sinceras, pelos olhares trocados, pelas incoerências e confusões. Não cobrarei por culpa, nem me sentirei culpada. É apenas como as coisas são. Quando somos abençoados com um sentimento intenso, podemos por um momento viver como figuras divinas, seres mágicos que como tudo podem, simplesmente se entregam, arriscam, permitem-se embriagar com o elixir das experiências fantásticas, dessas peculiaridades das coisas compartilhadas sem a intervenção das usuais barreiras neuróticas.

Mas como não se pode ficar para sempre nesse torpor, e como há todo um “lá fora” que vem nos perturbar, seja pelas experiências mortas que nos assombram, seja pelas vozes sábias que nos aconselham sem nunca seguir a direção da própria língua, logo contaminamos nossa fonte de afetos honestos com dúvidas e exigências curriculares: “Porque para estar ao meu lado tem que…”, retumbavam verbalizantes seus passos para trás. Só que não tenho vocação para preencher requisitos. Não estou procurando por uma profissão disfarçada de paixão.

Porque para me acompanhar neste caminho no qual me arrisco, é preciso ter vontade de seguir e ter coragem de sangrar. E só. Algo como ser assumidamente e apaixonadamente humano.

Segurança íntima

Segurança íntima

Que medo que dá, e esta emoção nos toma conta a cada momento. Já nem sabemos mais medo de quê, porque tudo parece ameaçador nesses tempos incertos. O certo é que ele espreita: podemos cair, bater, ser atacados, roubados, adoecer. Algo pode nos fazer mal, ou a alguém que amamos. Podemos perder as coisas que conquistamos, a caro custo. O medo é uma fera indomada para a qual não ousamos olhar de frente. Sentir-se totalmente em segurança é uma utopia. Não temos saída. Do nascimento à morte, da manhã à noite, os riscos são constantes e tudo é um grande ciclo de apostas.

Mergulhados nas incertezas do mundo e na nossa condição de impotência diante desta emoção que tanto nos perturba, vamos buscando as rotas de fuga, que podem melhorar ou piorar ainda mais nossa condição frágil de seres humanos. Afinal, fugir é muito mais fácil do que encarar o monstro de frente ou, eventualmente, convidá-lo para um amistoso chá. Antes do encontro com nossos horrores internos, já começamos a imaginar o massacre, então corremos sem pensar, sem rumo, para longe de nós mesmos.

A fuga constante de algo que sequer conseguimos desenhar no pensamento, também nos desgasta e fere. A busca de algum alívio acaba custando muito caro a nós e aos nossos. Não há saída. Viver exige coragem. Rezamos, pedimos pela sorte, barganhamos os prazeres da vida, negociamos as saídas que tragam algum fôlego para seguir. Mas o cansaço chega, o temor é destilado e toma conta das emoções, transformando pensamentos em doenças. Precisamos, enfim, buscar alguma proteção de nós mesmos. Porque atacamos o próprio coração, tão precioso, na busca desesperada de alívio.

Ansiosos, deprimidos, ou com alguma das dezenas de doenças mentais fabricadas no mundo contemporâneo, buscamos soluções junto às autoridades que, sobrecarregadas, falham vez após outra. A Segurança Pública torna-se uma piada neste caos, afinal, claramente não funciona. Além de inseguros, estamos revoltados com os outros, focados no que poderia vir de fora para nos salvar. E não vem.

Pois bem, e se pudéssemos, enfim, buscar nas entranhas de nossas emoções, este encontro corajoso com nossos monstros? E se talvez, numa tentativa desesperada, mas corajosa, buscássemos uma negociação com esses bichos terríveis do pensamento? Seria possível então, no embate, perceber que o tamanho do medo é bem maior que os riscos efetivos. Acredite, o monstro pode diminuir diante de um olhar firme e lúcido dos fatos.

E que tal tentar obter a segurança diante da certeza de que nada pode ser controlado? Afinal, as pessoas são incontroláveis, o mundo gira o tempo todo e o tempo é veloz. Pairando em meio a tudo isso, não há certezas. Mas pode haver paz, na medida em que o medo torna-se um aliado. E no fim,  vamos descobrir que tudo não passa de um sonho. A vida é plástica, tudo passa enfim, e sob os auspícios e olhares brilhantes das estrelas, prosseguimos na aventura sem fim da consciência. Sejamos piedosos então, em nome da frágil condição comum a todos os seres.

Dessas coisas que um homem só compreende quando alguém aprende a chamá-lo de pai

Dessas coisas que um homem só compreende quando alguém aprende a chamá-lo de pai

Meu pai tinha acabado de fazer 19 anos quando eu cheguei por aqui. Vinha ele de um tempo difícil: antes de mim, minha mãe havia dado à luz uma menina, minha irmãzinha, que, desgraçadamente, nasceu e viveu poucas horas. Então, quando completei o primeiro dia de vida, ele deve ter se sentido um sujeito de posse de sua benção.

Nasci no último dia do primeiro mês de 1974. Meu pai, Nivaldo de Jesus Gomes, era pouco mais que um adolescente que já trabalhava desde a infância. Pintor de ofício, dava outras cores às casas de sua cidade alaranjada, Araraquara, e tinha ares e físico de atleta. Vestindo camisetas ilustradas que ele mesmo pintava, corria maratonas no calor generoso da Morada do Sol.

A lembrança mais antiga que eu tenho dele não é bem uma cena. É um sentimento. Eu era então o filho único, muito apegado às mulheres da minha casa – mãe, bisavó, avó, duas tias – e meu pai uma noite me tirou das barras das saias delas e me levou com ele a um lugar que os araraquarenses conheciam como “a quermesse do Carmo”.

A única imagem que guardo dessa noite é a de uma porção de batatinhas sobre uma mesa de plástico. O resto é só um punhado de sensações: susto com o primeiro rojão, pavor com a sequência infinita de estouros da queima de fogos, medo de que aquilo não acabasse nunca, desespero de criança que chora. E alívio quando meu pai me botou nos ombros e fugiu comigo dali.

Ele me salvou! Minha lembrança mais antiga do meu pai é o sentimento de ter sido salvo por ele de uma guerra.

Hoje, muitos anos e tantas guerras depois, continuo fechando os olhos quando um rojão estoura. Meu filho João é assim também. Avesso a barulho, explosões, trovoada, gritaria. E eu vivo atento a cada chance que a vida me dá de acudi-lo do foguetório.

Compreendi, entre meia dúzia de outras coisas, que não há urgências profissionais, reuniões inadiáveis, compromissos da vida prática tão importantes quanto o chamado silencioso de um filho. Por mais que a crise econômica, a ameaça de desemprego, o aquecimento global, a invasão extraterrestre nos ponham medo, nada preocupa tanto quanto a febrinha de nada que visita nossos pequenos em qualquer terça-feira à noite. Não há dinheiro que pague estar perto dos nossos quando o rojão estoura. E acho no fundo que esse amor é o que nos salva.

Peço a Deus que sigamos assim. Por perto. Dispostos, atentos, esforçados, calorosos. Com ânimo para pintar a sala ou correr uma maratona. Ora mais distantes, ora mais próximos. Mas sempre por perto. E que nunca nos falte um bocado de amor e uma porção de batatinhas.

Feliz Dia dos Pais, minha gente!

Do vinil aos fones de ouvido

Do vinil aos fones de ouvido

Quatro horas da manhã. O som emitido pelo despertador sinaliza que meu dia começou. A música se faz presente na minha vida já daí, desse despertar matinal. Depois ela segue meus ouvidos quando pego o ônibus com destino à faculdade. Duas horas de duração de viagem são preenchidas pela minha playlist eclética. A trilha serve para passar o tempo, isso quando ela consegue vencer minha batalha interna entre ouvir a música ou me deixar cair no sono quase incontrolável.

Vivi numa época em que a música saia de um CD. Meus pais já são da época em que a música era gravada em fitas cassetes. Meus avós já são da época do vinil. E a vida é esse ciclo. Uma vitrola em que as pessoas são como discos ritmados organicamente, em constante movimento, mas que um dia para de girar e então troca-se de disco. E a música tem dessas coisas! Esse despertar de uma nostalgia desde a canção de ninar quando ouvimos ainda bebê, até aquela trilha que embala o primeiro amor ou até mesmo aquela canção que marca as noites de solidão — sofrência!

Hoje a música, tecnicamente falando, já é um padrão de arquivos de áudio, também conhecido como mp3. Cabe aqui, cabe acolá, cabe dentro do radinho do Zé da padaria até no meu celular! Essa é a magia da música, a universalidade de se fazer som em diferentes ritmos, melodias, lugares, tempos e povos. Cada nota emitida é capaz de arrancar lágrimas, de abrir sorrisos, de levar à outra dimensão. E me vem à memória o pensamento de uma amiga que diz que a música por si só tem o poder de transcender. “Quase um orgasmo musical!”, brinca a gente.

Mas esse jeito fácil de possuir determinada música é bem diferente de alguns tempos atrás. Velhos tempos! Antes quando escutávamos uma música, geralmente na rádio, o desejo de tê-la nos preenchia. Logo vinha a vontade de conseguir um CD com aquela canção. O gosto de escutá-la várias e várias vezes trazia a sensação de que naquele momento aquela música marcava o instante. E isso resultou na nostalgia de hoje, na lembrança de está brincando no meio da sala enquanto minha tia varria a casa escutando aquela canção tocada no rádio. Para ela o rádio era o entretenimento das manhãs, a trilha sonora dos afazeres domésticos.

Aí veio minha adolescência e com ela as espinhas, os dramas juvenis e o auge do mp3. A música agora poderia ser compactada e colocada tanto em CDs virgens, quanto nos celulares, em iPods, no computador, enfim, acompanhou os passos da tecnologia. E acompanhou também os meus passos, melhor dizendo, os meus ouvidos, nas tardes fazendo deveres do colégio, nas férias na casa da prima, nas noites de crises existenciais. A música permeia entre o novo e o antigo, o high-tech e o retrô. Todavia acima de tudo ela não fica velha, mas sim eterniza gerações.

Encontro um baú musical. Abro e me deparo com: Anos 50, o rock de Elvis Presley e a bossa nova de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Anos 60 e 70, a popularidade dos Beatles e o nascer da MPB, bem como dos movimentos punk, hippie, black power e com eles enraizada a música que lhes representa. Anos 80 e 90, o grunge de Nirvana e o pop de figuras como Madonna, Michael Jackson e Cindy Lauper. E dos anos 2000 para cá vêm se propagando os mais diversos ritmos, as mais variadas sonoridades e estilos, desde o funk ao indie, desde o pagode ao folk. Muito disso eu não vivi, não naquele tempo, não naquele instante. Contudo hoje posso colocar meus fones de ouvidos e transcender para qualquer momento, posso navegar nas ondas sonoras de cada um desses ritmos, independente de idade, pois o magnifico da música é que ela não tem data de validade.

Por André Luís

“André Luis é um jornalista em formação e metido a escritor. Maldito clichê. Sentimental às avessas, amante de música, livros, filmes, séries e outras coisinhas a mais. Pode ser encontrado no facebook: https://www.facebook.com/andre.anddy e no e-mail: [email protected]. “

Sobre a paixão por viajar

Sobre a paixão por viajar

Viajar é uma paixão!

Quem gosta de viajar, quem está sempre viajando ou com a próxima ideia de viagem na cabeça, sabe que viajar pode servir para tudo isso (e mais um pouco):

Viajar serve para quebrar o comodismo que cega os dias. Para renovar as energias, romper a rotina, mudar o ritmo, para se desligar de tudo, desacelerar. Viajar serve para respirar.

Viajar serve para sair da bolha, para perceber outros modos de enxergar o mundo, tentar compreende-los e entender que a sua visão de mundo também é relativa.

Viajar é um ótimo exercício de respeitar as diferenças.

Viajar serve para mudar o corpo e a alma, para perder os medos, para passar apertos e ver como você lida com imprevistos no caminho. Viajar serve para desapegar, para ver que o que é supérfluo pode virar peso e atrapalhar a caminhada.

Viajar serve para experimentar sabores, texturas, para quebrar conceitos, para descobrir maravilhas que você nem imaginava.

Viajar pode servir para aprender novas línguas, para aprender a se comunicar de diferentes formas, com diferentes pessoas, de diferentes culturas, classes, idades…

Viajar serve para silenciar.

Viajar serve para ler um livro inteirinho de uma vez só.

Viajar serve para olhar paisagens pela janela e ir longe em um pensamento, tentando assimilar o que aconteceu na vida e no atropelo dos dias não deu tempo de entender. Viajar serve como auto análise, ou análise em grupo, quem sabe… Viajar também serve para não pensar em nada, admirar o que a vista alcança e onde os pés tocam. Viajar serve para fazer trilha. E também serve para se perder numa cidade grande e desconhecida.

Viajar serve para ver as belezas do mundo e as realidades encobertas.

Viajar serve para perder a identidade (nem que seja temporariamente) e para deixar de ser entendida, para sentir o gosto bom de ser estrangeira – livre e desprotegida. E para se tornar uma criança de novo, aprendendo a decodificação do mundo do começo. E perder a própria personalidade por não conseguir se fazer entender, ou aprender a lindeza da linguagem corporal e conseguir revelar a própria alma pelo olhar.

Viajar serve para aprender a entender almas pelo olhar.

Viajar serve para esquecer – uma pessoa, uma história, uma dor…. Viajar serve para lavar a alma, para sair de um ciclo vicioso, para interromper o destino e (des)construir a própria história. Para colorir a existência, limpar o pensamento, mudar de assunto e desvendar caminhos alternativos. Viajar serve para finalizar. Viajar serve para recomeçar.

Viajar pode servir para se apaixonar, para mergulhar em algo sem regras, para descobrir outros olhares, para sentir à flor da pele novas sensações, encontrar outro colos, outras falas, outras amizades.

Viajar serve para fazer amigos, amigos de andanças, amigos que seguem nessa viagem e depois partem, amigos que ficam pra vida toda.

Viajar serve para reencontrar amigos antigos, amigos perdidos por aí. Viajar também serve para levar o melhor amigo junto e estreitar os laços.

Viajar serve para passar a limpo, ou para começar outro capítulo desse livro chamado vida. Para celebrar o novo, e para dar valor ao velho.

Viajar serve para sentir saudades de sua terra, de sua gente, de seu país, de sua comida, de sua família, de quem você é no seu amado (e nem sempre fácil) círculo.

Viajar serve para se perder e se encontrar. Viajar serve para se resgatar ou se reinventar.

Viajar serve para ter vontade de voltar

Ou, quem sabe, de ficar (na estrada).

A Loucura de ser Pai nos Dias de Hoje

A Loucura de ser Pai nos Dias de Hoje

Quando me pediram pra escrever sobre a experiência de ser pai, fiquei com medo de dar uma resposta daquelas que filho dá quando você pergunta como foi a escola: legal. E como foi o passeio?  Legal. A visita ao médico? Legal. E como foi que você caiu e ralou o joelho? Legal.

Fico olhando para a barriga onde meu filho cresce e várias coisas me passam pela cabeça. Não sei se foram os filmes de alien, mas caramba! Essa foi a melhor solução que a natureza encontrou? Deixar ele crescendo ali, dentro de outra pessoa? Sério? Às vezes eu acho que até ovo seria mais negócio. Eu nem ia me importar se tivesse que ajudar a chocar. Era só me dar um livro e tava tudo certo.

Tem gente que me olha com espanto quando fica sabendo que vou ser pai, mas só alguns têm a coragem de fazer a pergunta: Nossa, mas você não acha meio loucura trazer uma pessoa pra esse mundo? Do jeito que ele anda? Acho que eu sou incorrigivelmente otimista ou sei lá, vai ver que eu acredito mesmo nessa história de que não somos nós que escolhemos ter filhos e sim, eles que escolhem ter pais. Não sei mesmo, mas eu prefiro acreditar que ainda dá pra vir pra esse mundo, que ele ainda tem chance de ser habitável.

contioutra.com - A Loucura de ser Pai nos Dias de HojeE tem muita coisa ainda por fazer. Nem todas as peças estão escritas, nem todas as músicas estão compostas, nem todas as pontes estão construídas e nem todas as grandes descobertas já foram feitas ou as grandes invenções inventadas. Ainda temos pensamentos para serem transformados e novas fases nesse jogo para serem alcançadas.

Ao mesmo tempo, quando a gente olha para um mundo de corrupção, destruição e intolerância, sempre se levanta o questionamento: vale a pena perpetuar essa espécie? Uma espécie que vira o rosto quando está em segurança e um predador ataca os que estão desprotegidos, no meio da planície? Que canibaliza de várias maneiras os membros mais fracos do bando? Que na maior parte das vezes se comporta como um vírus que destrói o seu hospedeiro? Vale a pena insistir nisso?

Sei lá, eu meio que teimosamente acho que sim, mas ao mesmo tempo sei que é a visão parcial de alguém que já é pai de alguém e que espera a chegada de outro alguém para breve. E essa espera gera um amor tão grande, tão incomensurável, que nubla qualquer arremedo de razão, por mais que eu tente me colocar numa distância racional que me permita fazer uma análise minimamente fria. Mas não tem jeito. Só de escrever esse parágrafo, pensando nos dois, meus olhos já se encheram de lágrimas. Pequena pausa pra respirar.

Voltei. É uma droga, quando somos derrotados por nós mesmos e a gente não consegue segurar nem uma emoção boba, mas é isso, é essa a matéria de que somos feitos. Ainda acho que dá pra acreditar numa geração que pode vir e começar uma outra época, melhor que essa. Não vou descrever como eu acho que poderia ser, todo mundo pode imaginar os lugares-comuns de sempre e customizar essa utopia de acordo com as suas inclinações. Podem ficar à vontade, porque nisso a imaginação de cada um deve ser estimulada. Vai que, se todo mundo sonhar junto, ainda que sonhos diferentes, alguma melhora acontece?

Além de louco, podem me chamar de ingênuo ou sonhador (é só usar o espaço pra comentários aí embaixo), mas eu acho que as coisas estão melhorando, que têm melhorado.

Tem bastante corrupção? Tem, mas eu acredito que é o começo de uma melhora. Dá pra imaginar você chegar na década de 70 ou 80 e dizer que os presidentes de grandes empreiteiras seriam presos? Ou que a cúpula de um partido poderia ser presa enquanto este mesmo partido estivesse no poder? E taí, tá acontecendo.

Tem muita violência? Pra caramba, já que temos Taliban, Estado Islâmico, Al-Qaeda, Boko Haram e, por aqui, os personagens da nossa guerra civil. Mas já foi pior, acredite. É só colocar tudo em uma perspectiva histórica e sair daquele comentário-padrão de “não sei onde esse mundo vai parar” a cada crime que é eleito para receber a atenção da mídia.

Eu sei que sempre tem a chance de tudo piorar, claro, e os avanços são lentos e pequenos. Para cada grande livro que é escrito, existem milhões de comentários raivosos mal-digitados nos sites de notícia. Para cada grande invenção que chega pra ajudar a humanidade, milhões de pequenos atos que a atrasam são praticados. Mas é como tem sido e temos continuado a marcha, trazendo na bagagem Mozart, Shakespeare e Einstein, enquanto tentamos resolver os grandes estragos causados por um Hitler. Ou os pequenos, causados por quem jogou uma garrafinha de plástico na rua ontem e que vão se tornar imensos, quando somados. Vamos caminhando e encontrando formas de melhorar a caminhada.

Talvez a tecnologia venha nos salvar de nós mesmos, ao invés do que profetizam todos os filmes de ficção científica e até o bom-senso. Todos nós trazemos a corrupção e a violência de berço, incrustados no nosso código genético. É fruto do nosso instinto de sobrevivência, de preservação, que um dia foi decisivo pra gente sobreviver no meio dos tigres-dentes-de-sabre. Mas acho que as coisas mudaram um pouco nos últimos milhares de anos e já dá pra gente começar a pensar em abrir mão dessa herança. A razão pode assumir o lugar desse instinto e através dela é que poderemos sobreviver nessa nova selva. Pra isso, temos que olhar para nós mesmos e identificar as nossas próprias doses de corrupção e violência. Na maior parte das vezes, elas são controladas, mas só precisam de um ambiente propício pra florescer. Talvez seja esse o papel da tecnologia e da razão, o de diminuir cada vez mais o tamanho e a quantidade destes ambientes propícios. Claro que isso vai cobrar o seu custo em outras áreas, mas não é assim que tudo funciona?

Bom, acho que acabei falando mais que só um “legal”. Mas no caso da experiência de ser pai, talvez seja mesmo mais o caso de falar menos e sentir mais. E no máximo, dizer que é legal. É muito legal.

Que bom que você já está por aqui, João Gabriel. E seja bem-vindo, Diogo. Tomara que eu possa mostrar pra vocês que esse mundo também pode ser legal. E vamos ver o que a gente pode fazer juntos, pra deixar ele ainda mais legal.

Poema do Padre Fábio de Melo, em homenagem aos pais

Poema do Padre Fábio de Melo, em homenagem aos pais

Quando o sol ainda não havia cessado seu brilho,
Quando a tarde engolia aos poucos
As cores do dia e despejava sobre a terra
Os primeiros retalhos de sombra
Eu vi que Deus veio assentar-se
Perto do fogão de lenha da minha casa
Chegou sem alarde, retirou o chapéu da cabeça
E buscou um copo de água no pote de barro
Que ficava num lugar de sombra constante.
Ele tinha feições de homem feliz, realizado
Parecia imerso na alegria que é própria
De quem cumpriu a sina do dia e que agora
Recolhe a alegria cotidiana que lhe cabe.
Eu o olhava e pensava:
Como é bom ter Deus dentro de casa!
Como é bom chegar a essa hora da vida
Em que tenho direito de ter um Deus só pra mim.
Cair nos seus braços, bagunçar-lhe os cabelos,
Puxar a caneta do seu bolso
E pedir que ele desenhasse um relógio
Bem bonito no meu braço
Mas aquele homem não era Deus,
Aquele homem era meu pai
E foi assim que eu descobri
Que meu pai com o seu jeito finito de ser Deus
Revela-me Deus com seu
Jeito infinito de ser homem

Padre Fábio de Melo

Por sapatos (e amores) que não machuquem

Por sapatos (e amores) que não machuquem

Amores são como sapatos: os melhores são os que machucam. Quanto mais nas alturas eles nos elevam, mais duro é voltar a ter os pés no chão quando a festa termina.

Não é bem assim.

De que adianta viver rodeada de scarpins salto 15 se eles não foram feitos para dançar a noite inteira? E a história se repete. É descer do salto e andar de pés descalços sujeita a cacos de vidros no chão. Pois, é melhor correr o risco de se cortar do que parar de dançar, não é?

Sapatos (e amores), também precisam ser do número certo. Os maiores são frouxos, sobra muito espaço vazio, abandonam os pés e se fazem perder pelo caminho. Os menores apertam, sufocam, fazem sangrar e causam feridas pela falta de liberdade. De ambos os jeitos, exigem cuidado demais a cada passo para evitar tropeços no primeiro paralelepípedo. Dificultam a caminhada. Tornam impossível pegar a estrada e seguir adiante.

Não adianta se contentar com o “quase serviu”. Sapatos, assim como amores, não mudam seu jeito de ser só porque nos apaixonamos por eles.

Sapatos (e amores) precisam ser confortáveis, companheiros para enfrentar a caminhada junto. Precisam nos encorajar a trilhar um caminho leve, sem dor. Alguns se desgastam com o tempo, outros cedem e se rompem. Tudo bem. Aquele sapato (ou seria amor?) simplesmente não serve mais.

A busca hoje é esta. Por sapatos e amores que não machuquem e que nos levem cada vez mais longe.

Texto de Luiza Garmendia

Fonte: Entenda os homens

Viviane Mosé, filósofa brasileira, classifica a cobertura da imprensa brasileira de “pobre e simplista”

Viviane Mosé, filósofa brasileira, classifica a cobertura da imprensa brasileira de “pobre e simplista”

Em entrevista ao programa Observatório da Imprensa, na TV Brasil, a doutora em Filosofia Viviane Mosé comentou sobre o discurso hegemônico adotado pela mídia brasileira em relação à atual situação política e econômica do país. Para ela, a falta de uma abordagem mais aprofundada em relação a esses assuntos cria um debate “pobre e simplista”.

“Nós não temos uma notícia sobre o perigo da instabilidade econômica mundial, da situação da Europa, da situação dos Estados Unidos, da China e o que significa o Brasil ali. Então, a crise brasileira é vista isoladamente. Ela não tem contexto. Mas, espera aí, o papel da imprensa não é dar contexto a esse debate?”, questionou.

Mosé criticou ainda a forma com que a imprensa tradicional seleciona as reportagens que serão publicadas. Ela afirma que os avanços do país deixam de ser noticiados para evitar passar uma boa imagem do governo. “Além de um problema cognitivo e intelectual grave, é partidário, é gueto, é sectário”, alertou sobre o posicionamento dos veículos de comunicação. “O que representa esse governo pode ser discutido eternamente, mas existe um fato: nós temos alguém no governo e o país precisa caminhar”, completou.

Fonte: Geledés

Meus secretos amigos

Meus secretos amigos

Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos.

Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles… Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências…

A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Essa mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida. Porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles!

Eles não iriam acreditar! Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação dos meus amigos, mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não o declare e não os procure.

Às vezes, quando os procuro, noto que eles não têm noção de como me são necessários, de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.

Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado. Se todos morrerem, eu desabo! Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles e me envergonho porque essa minha prece é, em síntese, dirigida ao meu bem-estar. Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.

Por vezes, mergulho em pensamento sobre alguns deles. Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer… Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos e, principalmente, os que só desconfiam ou talvez nunca vão saber que são meus verdadeiros amigos.

“A gente não faz amigos, reconhece-os.” (Garth Henrichs)
*
Texto de Francisco PAULO SANT’ANA (Porto Alegre, 15 de Junho de 1939) é um jornalista e escritor brasileiro.

Pessoas que corrigem erros gramaticais na Internet

Pessoas que corrigem erros gramaticais na Internet
Quem sabe?

Ontem descobri na página de um amigo o artigo que reproduzirei abaixo. O autor, português, discorre sobre como se comportam as pessoas que passam os dias procurando erros de grafia em textos alheios numa suposta superioridade. Aqui, por exemplo, nós reconhecemos que erramos muito. O problema é que quem escreve ou faz suas colocações sobre os erros, na maioria das vezes, apresenta profundo desdém e deprezo por textos que apresentam algum tipo de erro e acabam desvalorizando todo um texto e trabalho do site. Outras vezes, polidamente a pessoa indica a falhas por duas ou três vezes antes de oferecer seus serviços profissionais em uma atitude de delicadeza claramente manipulatória. E tem os piores que são grosseiros e ainda oferecem seus serviços. Só um masoquista para contratar um tipo desses, né.

Agora, ajudar por ajudar, falando com educação e respeito e sem querer nada em troca são casos raríssimos. Seria maravilhoso que mais pessoas nos corrigissem apenas por gentileza.

Apresento o texto com o qual me identifico profundamente. E, se a carapuça se ajustar à alguém, espero que pelo menos sirva de reflexão.

Pessoas que corrigem erros gramaticais na Internet

Por Raiden, do blog Ritual do Habitual

Não existe grupo mais irritante na Internet que o composto por aquelas pessoas que patrulham, incansavelmente, redes sociais, fóruns de discussão, blogs, etc. à procura de erros gramaticais. Estes cavaleiros da linguística, estes cruzados de Camões, pensam estar a fazer um serviço à humanidade ao retificar palavra após palavra, sem se aperceberem que o spell check faz o seu trabalho automaticamente e que, se existe um erro gramatical, ele existe por alguma razão — mesmo que esta razão seja tão fraca como não se levar muito a sério o que se escreve.

contioutra.com - Pessoas que corrigem erros gramaticais na Internet
Sieg heil!

O que torna estes nazis da gramática particularmente irritantes é o facto de terem razão. Isto faz com que o aborrecimento de quem é corrigido seja ilógico. Afinal, se formos corrigidos, devíamos até agradecer à pessoa, certo? Devíamos pedir desculpa por ter ferido as retinas de tão alta referência linguística como certamente é este estranho que emerge das profundezas da Web, com a sua caneta vermelha metafórica, e que nos risca um afiado “X”, também metafórico, no que quer que estejamos a tentar comunicar.

Mas nós não somos pessoas totalmente lógicas, pois não? Nós temos emoções, caraças! E as nossas emoções perguntam-nos: “quem é que este gajo pensa que é?”

O problema destas mentes brilhantes é que escondem as suas verdadeiras e egoístas razões atrás de um conceito que é, geralmente, defendido: a coerência gramatical.

Antes sequer de pensarmos nas tais razões, vamos só pensar noutra coisa durante um momento, está bem? Quem é que inventou a gramática? Será que foi algum iluminado, há milhares de anos atrás, que comeu uns cogumelos que não devia, teve a trip da sua vida, e viu um mundo em que ninguém se atreveria a fugir a um conjunto de regras completamente estáticas — regras essas que ele escreveria detalhadamente algures, assim que aquele coelho da Páscoa gigante parasse de olhar para ele de lado?

Claro que não! A linguagem é orgânica, é feita pelas pessoas. A linguagem foi criada como uma ferramenta, nada mais. Muitos “erros” gramaticais deram origem a novas palavras ou a palavras mais simples que usamos agora sem questão. Só com variações na norma é que qualquer evolução é possível.

A linguagem é uma das últimas coisas não institucionais que podemos usufruir, povo! Revoltemo-nos pelo nosso direito de cometer erros!

O facto de, ultimamente, ser o governo que decide como a linguagem evolui, deixa-me, portanto, aborrecido. Está-se a decidir, de uma forma artificial, como evolui uma inteira língua comum — a nossa maneira de trocar ideias mais antiga ( sim, sim, a subida do TSU também é grave).

Mas, sim, infelizmente, poucos sabem do conceito de evolução linguística. É mais fácil ir ao Google confirmar se realmente se tem razão antes de corrigir um infeliz qualquer — o que nos leva de volta às razões egoístas que referi em cima.

Caros corretores compulsivos: vocês não querem saber minimamente da manutenção da linguagem. Vocês não querem saber se eu corrijo o que escrevo ou não. Vocês sabem bem que corrigir alguém na Internet é inútil. A verdadeira razão que vos leva a corrigir os outros é a pequena sensação de controlo que ganham com isso: “Ah, sou mais inteligente que este rapaz que não conheço de lado nenhum porque ele cometeu um erro que eu consegui identificar, lol, rofl, me gusta, true story, epic win! xDxD”

A sério? Tudo isto por uma sensação vazia de superioridade? Espero que valha a pena.

É só a impressão com que fico de vocês. Claro que pode ser um mecanismo de defesa primitivo para me sentir melhor com o facto de ter cometido um erro. Quem sabe?

contioutra.com - Pessoas que corrigem erros gramaticais na Internet
Quem sabe?

E é isto que me irrita — saber que o meu erro está a fornecer prazer mesquinho a alguém, mas não poder responder porque essa pessoa até tem alguma razão. Daqui em diante, limitarei-me a linkar este post — efetivamente dando a minha opinião sobre o assunto e fazendo publicidade desavergonhada.

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