Filhos são como navios, por Içami Tiba

Filhos são como navios, por Içami Tiba

Por Içami Tiba

Ao olharmos um navio no porto, imaginamos que ele esteja em seu lugar mais seguro, protegido por uma forte âncora.
Mal sabemos que ali está em preparação, abastecimento e provisão para se lançar ao mar, destino para o qual foi criado, indo ao encontro das próprias aventuras e riscos.

Dependendo do que a força da natureza reserva para ele, poderá ter de desviar da rota, traçar outros caminhos ou procurar outros portos.

Certamente retornará fortalecido pelo aprendizado adquirido, mais enriquecido pelas diferentes culturas percorridas.

E haverá muita gente no porto, feliz à sua espera.

Assim são os filhos.

Estes têm nos pais o seu porto seguro até que se tornem independentes.

Por mais segurança, sentimentos de preservação e de manutenção que possam sentir junto dos seus pais, eles nasceram para singrar os mares da vida, correr os próprios riscos e viver as próprias aventuras.

Certos de que levarão os exemplos dos pais, o que eles aprenderam e os conhecimentos da escola – mas a principal provisão, além da material, estará no interior de cada um:

A capacidade de ser feliz:
Sabemos, no entanto, que não existe felicidade pronta, algo que se guarda num esconderijo para ser doada, transmitida a alguém.

O lugar mais seguro em que o navio pode estar é o porto. Mas ele não foi feito para permanecer ali.

Os pais também pensam ser o porto seguro dos filhos, mas não podem se esquecer do dever de prepará-los
para navegar mar adentro e encontrar o próprio lugar, onde se sintam seguros, certos de que deverão ser, em outro tempo, esse porto para outros seres.

Ninguém pode traçar o destino dos filhos, mas deve estar consciente de que, na bagagem, eles devem levar valores herdados, como humildade, humanidade, honestidade, disciplina, gratidão e generosidade.

Filhos nascem dos pais, mas devem se tornar cidadãos do mundo. Os pais podem querer o sorriso dos filhos, mas não podem sorrir por eles. Podem desejar e contribuir para a felicidade dos filhos, mas não podem ser felizes por eles.

A felicidade consiste em ter um ideal e na certeza de estar dando passos firmes no caminho da busca.

Os pais não devem seguir os passos dos filhos. e nem devem estes descansar no que os pais conquistaram.

Devem os filhos seguir de onde os pais chegaram, de seu porto, e, como os navios, partir para as próprias conquistas e aventuras.

Mas, para isso, precisam ser preparados e amados, na certeza de que
“quem ama educa”.

“COMO É DIFÍCIL SOLTAR AS AMARRAS”

Fonte indicada: Bogger Mery

Uma linda animação que ilustra bem o sentido desse texto é O Farol.

10 Traços de uma mulher poderosa

10 Traços de uma mulher poderosa

As mulheres foram tratadas como cidadãs de segunda classe em muitas culturas que datam de milhares e milhares de anos. Existem ainda alguns na sociedade de hoje que acreditam que as mulheres devam ser subservientes aos homens, mas vamos ser realistas: aqueles homens são retrógrados que precisam começar a se alinhar com os tempos atuais. As mulheres poderosas sabem disso.

Quais são os traços mais comuns de uma mulher poderosa?

1. Ela assume a responsabilidade por sua vida.
Mulheres empoderadas não precisam se casar com alguém rico – ou mesmo se casar, se elas não quiserem. Elas são responsáveis ​​por suas próprias vidas. Elas enfrentam seus medos, curam suas próprias feridas, eliminam a auto-sabotagem e processam qualquer crença que as detém. Uma mulher poderosa conquista o mundo, questiona narrativas sociais e desafia o papel limitado da mulher na sociedade.

2. Ela faz suas próprias regras.
Uma mulher poderosa não precisa pedir a uma figura de autoridade se devem aceitar um outro emprego, mudar-se para um lugar novo, ou começar a namorar um parceiro em potencial a longo prazo. Ela faz suas próprias regras no final do dia. Ela não precisa da permissão de ninguém.

3. Ela honra a si mesma, sem questionamentos.
Uma mulher poderosa honra a si mesma e ao seu corpo. Ela entende que a vida é um presente, mesmo que alguns aspectos da vida possam não ser tão agradáveis. Ela honra-se com escolhas positivas, boa saúde e vitalidade. Ela passa o tempo na natureza, descansa quando está cansada e entende e abraça seu ciclo.

4. Ela segue seu próprio compasso.
Uma mulher poderosa irá ouvir e agir a partir de seu próprio conhecimento interior. Ela confia em sua própria intuição e não depende dos outros para dar sua direção. Ela sabe o que a faz sentir-se bem e sabe que, por mais  estranha que sua intuição possa parecer, ela geralmente sabe o que está acontecendo.

5. Ela valoriza muito as coisa pelas quais tem paixão.
Uma mulher poderosa valoriza suas paixões e interesses, e estrutura sua vida em torno delas. Ela sabe que vale a pena viver uma vida inspirada. Ela age em prol do que ela ama, sem desculpas.

6. Ela escolhe parceiros que a empoderam.
Mas ela também entende que um relacionamento é uma via de mão dupla, com compromissos a serem feitos e decisões conjuntas a considerar.  Eles desempenham um papel de apoio em todas as áreas que podem.

7. Ela não briga, mas uma mulher poderosa sabe quando deve tomar uma posição.
Uma mulher poderosa não é uma vítima das circunstância. Ela se levanta quando precisa e estabelece limites para proteger o que valoriza.

8. Uma mulher poderosa encara o relacionamento e enfrenta seus medos.
O medo é como o inimigo. Mantenha seus inimigos por perto, certo? Uma mulher poderosa é uma alma corajosa, mas não destituída de medo. É preciso coragem para ir a borda da sua zona de conforto e continuar a frente. Uma mulher poderosa tem compaixão pela parte dela que está com medo.

9. Ela quer capacitar outras mulheres.
Mulheres poderosas estão no seu melhor quando estão apoiando outras mulheres poderosas. Uma falsidade popularizada em nossa cultura é que as mulheres estão em constante competição umas com as outros. A competição pode ser saudável, mas, no final do dia, mulheres fortes irão trabalhar com afinco para fortalecer umas às outras, não subjugar.

10. Ela não tem medo de seu próprio prazer.
Mulheres poderosas se sabem dignas de receber prazer do modo que entenderem, seja em seus corpos, um bom livro, belas flores ou um vestido favorito. Elas não sentem nenhuma vergonha de se entregarem àquilo que amam.

Fonte indicada: Portal Divina

“Nunca tivemos uma geração tão triste”

“Nunca tivemos uma geração tão triste”

Augusto Cury, o famoso psiquiatra que tem livros publicados em mais de 70 países e dá palestras para multidões no Brasil e lá fora, lançou recentemente uma versão para crianças e adolescentes do seu best-seller Ansiedade – Como Enfrentar o Mal do Século. O autor conversou com a gente sobre os desafios de se criar os filhos hoje e não poupou críticas à maneira como a família e a escola têm educado os pequenos. Confira!

Excesso de estímulos

“Estamos assistindo ao assassinato coletivo da infância das crianças e da juventude dos adolescentes no mundo todo. Nós alteramos o ritmo de construção dos pensamentos por meio do excesso de estímulos, sejam presentes a todo momento, seja acesso ilimitado a smartphones, redes sociais, jogos de videogame ou excesso de TV. Eles estão perdendo as habilidades sócio-emocionais mais importantes: se colocar no lugar do outro, pensar antes de agir, expor e não impor as ideias, aprender a arte de agradecer. É preciso ensiná-los a proteger a emoção para que fiquem livres de transtornos psíquicos. Eles necessitam gerenciar os pensamentos para prevenir a ansiedade. Ter consciência crítica e desenvolver a concentração. Aprender a não agir pela reação, no esquema ‘bateu, levou’, e a desenvolver altruísmo e generosidade.”

Geração triste

“Nunca tivemos uma geração tão triste, tão depressiva. Precisamos ensinar nossas crianças a fazerem pausas e contemplar o belo. Essa geração precisa de muito para sentir prazer: viciamos nossos filhos e alunos a receber muitos estímulos para sentir migalhas de prazer. O resultado: são intolerantes e superficiais. O índice de suicídio tem aumentado. A família precisa se lembrar de que o consumo não faz ninguém feliz. Suplico aos pais: os adolescentes precisam ser estimulados a se aventurar, a ter contato com a natureza, se encantar com astronomia, com os estímulos lentos, estáveis e profundos da natureza que não são rápidos como as redes sociais.”

Dor compartilhada

“É fundamental que as crianças aprendam a elaborar as experiências. Por exemplo, diante de uma perda ou dificuldade, é necessário que tenham uma assimilação profunda do que houve e aprender com aquilo. Como ajudá-las nesse processo? Os pais precisam falar de suas lágrimas, suas dificuldades, seus fracassos. Em vez disso, pai e mãe deixam os filhos no tablet, no smartphone, e os colocam em escolas de tempo integral. Pais que só dão produtos para os seus filhos, mas são incapazes de transmitir sua história, transformam seres humanos em consumidores. É preciso sentar e conversar: ‘Filho, eu também fracassei, também passei por dores, também fui rejeitado. Houve momentos em que chorei’. Quando os pais cruzam seu mundo com os dos filhos, formam-se arquivos saudáveis poderosos em sua mente, que eu chamo de janelas light: memórias capazes de levar crianças e adolescentes a trabalhar dores perdas e frustrações.”

Intimidade

“Pais que não cruzam seu mundo com o dos filhos e só atuam como manuais de regras estão aptos a lidar com máquinas. É preciso criar uma intimidade real com os pequenos, uma empatia verdadeira. A família não pode só criticar comportamentos, apontar falhas. A emoção deve ser transmitida na relação. Os pais devem ser os melhores brinquedos dos seus filhos. A nutrição emocional é importante mesmo que não se tenha tempo, o tempo precisa ser qualitativo. Quinze minutos na semana podem valer por um ano. Pais têm que ser mestres da vida dos filhos. As escolas também precisam mudar. São muito cartesianas, ensinam raciocínio e pensamento lógico, mas se esquecem das habilidades sócio-emocionais.”

Mais brincadeira, menos informação

“Criança tem que ter infância. Precisa brincar, e não ficar com uma agenda pré-estabelecida o tempo todo, com aulas variadas. É importante que criem brincadeiras, desenvolvendo a criatividade. Hoje, uma criança de sete anos tem mais informação do que um imperador romano. São informações desacompanhadas de conhecimento. Os pais podem e devem impor limites ao tempo que os filhos passam em frente às telas. Sugiro duas horas por dia. Se você não colocar limite, eles vão desenvolver uma emoção viciante, precisando de cada vez mais para sentir cada vez menos: vão deixar de refletir, se interiorizar, brincar e contemplar o belo.”

Parabéns!

“Em vez de apontar falhas, os pais devem promover os acertos. Todos os dias, filhos e alunos têm pequenos acertos e atitudes inteligentes. Pais que só criticam e educadores que só constrangem provocam timidez, insegurança, dificuldade em empreender. Os educadores precisam ser carismáticos, promover os seus educandos. Assim, o filho e o aluno vão ter o prazer de receber o elogio. Isso não tem ocorrido. O ser humano tem apontado comportamentos errados e não promovido características saudáveis.”

Conselho final para os pais

“Vejo pais que reclamam de tudo e de todos, não sabem ouvir não, não sabem trabalhar as perdas. São adultos, mas com idade emocional não desenvolvida. Para atuar como verdadeiros mestres, pai e mãe precisam estar equilibrados emocionalmente. Devem desligar o celular no fim de semana e ser pais. Muitos são viciados em smartphones, não conseguem se desconectar. Como vão ensinar os seus filhos e fazer pausas e contemplar a vida? Se os adultos têm o que eu chamo de síndrome do pensamento acelerado, que é viver sem conseguir aquietar e mente, como vão ajudar seus filhos a diminuírem a ansiedade?”

Fonte indicada: M de Mulher

Declare-se inocente! Não assuma culpas alheias.

Declare-se inocente! Não assuma culpas alheias.

Quem nunca resmungou ou ao menos pensou em se culpar por mal feitos alheios, por medo, preguiça, ou por conveniência?

– Eu não deveria ter falado isso ou aquilo. Criei tensão e deu no que deu;
– Eu deveria ter esperado um pouco mais, mesmo depois de tanto tempo;
– Eu poderia tentar esquecer aquele gesto impensado. Talvez não tenha sido proposital… nem doeu tanto assim;
– Eu gostaria de mais atenção, mas talvez eu não seja uma boa companhia…

E sim, afinal consegui me sentir culpada por tudo. Uma palavra torta, um baita de um bolo, um esquecimento, uma passada de perna, uma violência… e as coisas só se complicam, mas certamente eu poderia ter evitado, ou aliviado, ou relevado, ou tudo isso e ainda pedindo desculpas. Em mim cabe toda a culpa do mundo e eu me declaro culpada talvez para não ter que enxergar a maldade alheia, para não admitir as minhas escolhas equivocadas, para tentar desajeitadamente consertar o que?

Isso não é bondade, não é altruísmo, não é civilidade. Está bem perto de ser outra forma de manipulação. O culpado declarado desarma o verdadeiro culpado, gera piedade, mostra uma sinceridade inocente, uma delicada fragilidade. Sempre a postos para pegar para si as culpas e as responsabilidades. E sempre livrando outras caras.

– Sim, eu poderia ter feito algo para evitar isso, mas não fiz. Além de culpada, sou omissa. É tudo culpa minha.

Mas sabe o que? Dei para discordar desse modelo de vida, onde, em qualquer nível, um assume a arrumação para o outro cantarolar. Ando mesmo decidida a me declarar inocente!
Inocente por permitir a arrogância alheia no meu território;
Inocente por crer que algumas coisas podem ser resolvidas amigavelmente; Inocente por deixar o tempo passar demais;
Inocente por me sentir culpada pelo que não fiz.

Eu me declaro inocente, agora com muita malícia, a mesma que recusei antes, para não voltar atrás. Não carrego mais culpas, nem desculpas.
E tudo isso, em legítima, incontestável e incondicional defesa. Quem irá me culpar?

Sapiossexualidade : Quando a libido é estimulada pela admiração intelectual

Sapiossexualidade : Quando a libido é estimulada pela admiração intelectual

O prefixo da palavra tem origem do latim sapien, que significa inteligência. Inclusive temos uma palavra em nosso vocabulário que já podia dar noção do que se tratava, mas infelizmente nem é tão utilizada assim: sapiência.

A sapiossexualidade é a atração sexual que uma pessoa sente pela inteligência , visão de mundo e toda a bagagem cultural de outra pessoa. É importante dizer que uma pessoa sapiossexual não se importa, portanto, com o gênero da pessoa pela qual ela está atraída. Ela sente atração pela inteligência e conhecimento que a pessoa tem, independente do sexo da pessoa.

Isso não significa que todos os sapiossexuais repudiem beleza ou não achem seus parceiros bonitos. A atração vem da inteligência, o que não elimina outros aspectos da pessoa.

A terminologia foi supostamente criada por Darren Stalder, que afirma ter inventado a expressão em 1998. O termo só pegou mesmo, no entanto, a partir de 2008, graças, em parte, à escritora erótica Kayar Silkenvoice, que criou o domínio Sapiosexual.com em 2005.

Silkenvoice afirma nunca ter feito sexo ruim. Porque ela é atraída a pessoas inteligentes, crê que essas pessoas são mais inteligentes até mesmo na cama. Elas não partem do princípio que sabem do que o outro gosta, e adoram ganhar conhecimento. Sendo assim, querem aprender o que faz o seu parceiro feliz, descobrir como tornar o sexo o melhor possível.

Fonte indicada: Enfu

A transformação das crianças-lagarta

A transformação das crianças-lagarta

Hoje, ao invés de um texto mais pautado nas teorias psicológicas, gostaria de dividir com vocês uma das histórias que vivi e acompanhei durante a minha trajetória profissional, e que ainda faz com que eu possa realmente acreditar em uma mudança significativa em crianças e jovens que passam por situações de vulnerabilidade social através de uma ação empática e criativa.

Há quase 10 anos, idealizei e desenvolvi com alguns amigos, um projeto que tinha como objetivo, através da arte da animação, melhorar a autoestima e estimular a inclusão digital de crianças de uma ONG que eu já conhecia como estagiária quando cursava a faculdade de Psicologia.

A empreitada durou um ano e inicialmente o que víamos, eram crianças que não acreditavam em si mesmas, em seus talentos e habilidades. Que desconfiavam dos adultos, especialmente quando eles a elogiavam ou acreditavam em seu potencial.
Certo dia, estávamos fazendo uma atividade na área externa da casa e de repente algumas crianças começaram a se alvoraçar em volta de algum bicho que havia surgido ali… me lembro delas exclamando:

– Mata! Mata! – Que bicho feio! – Credo, que nojo!

Quando me aproximei para ver o que era, percebi que era uma lagarta! Sua cabeça era bem maior que o resto do corpo e isso dava a ela, um jeito ainda mais monstruoso e desengonçado. Sentei ao lado das crianças e pedi para elas pararem um pouquinho para me escutar antes de matarem o “monstro”.

Foi então que contei para elas a história da lagarta e da borboleta. De que aquele bicho aparentemente feio e esquisto, era na verdade um ser em pleno processo de transformação. Que em breve, ele sentiria a necessidade de parar de comer e rastejar e que então, se colocaria em alguma àrvore ou parede e ali faria um cásulo. Depois de um tempo, ele ficaria totalmente diferente, seu corpo diminuiria e cresceriam asas em suas costas. E elas aumentariam tanto que sua força romperia o cásulo e ela sairia voando, mas agora como uma linda borboleta.

Quando terminei minha história, percebi ao meu redor um silêncio que não era corriqueiro. As crianças pareciam encantadas com aquela possibilidade de transformação. Algumas não acreditavam na minha história…mas, aí outras diziam: “A tia sabe!”
E então, ocorreu uma reviravolta! De condenada à sentença de morte, a “largata-monstra” passou a ser protregida, admirada, fotografada e celebrada!

A história passou, voltamos ao nosso trabalho e pouco a pouco fomos vendo as mudanças começarem a acontecer em nossas crianças. Elas não só passaram a aceitar os elogios que vinham de nós, como se mostravam mais participativas, autoconfiantes e afetivas.

Foi então que nos demos conta que, ao final de um ano de trabalho, outra reviravolta havia acontecido: nossas crianças tinham conseguido viver o símbolo da transformação dentro de si! Foram verdadeiros meninos e meninas-lagartas, que após um longo processo de reconhecimento dos próprios talentos, da assimilação de novos conhecimentos, da possibilidade de serem reconhecidas e aceitas por um Outro apesar das aparências e, também, de se aceitarem e se autocuidarem, se transformaram em lindas borboletas prontas para alçar novos voos, agora com sonhos e inspirações.

Faz anos que não tenho notícias das minhas crianças-borboletas. Mas, desejo do fundo do coração que as mudanças que viveram durante àqueles nossos encontros tenham perdurado dentro delas e que hoje, suas almas sejam livres e batam asas mundo a fora para realizar seus potenciais de vida.

Quanto a mim, posso afirmar que essa experiência me transformou para sempre! Guardo em mim cada um de seus rostinhos, cada aprendizado e especialmente a esperança de que podemos fazer muito mais para construir o mundo que tanto idealizamos! Basta que olhemos para além das aparências, que acreditemos nos potenciais encobertos e que nos engajemos verdadeiramente em ações que valorizem a vida, ao invés de sentenciarmos à morte quem ainda está em franco processo de crescimento e evolução.

“Teu riso”, um poema de Pablo Neruda capaz de tirar o fôlego de quem ouve ou lê

“Teu riso”, um poema de Pablo Neruda capaz de tirar o fôlego de quem ouve ou lê

O teu riso

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.

Pablo Neruda

 

Obras de Frida Kahlo em São Paulo a partir de 27 de setembro.

Obras de Frida Kahlo em São Paulo a partir de 27 de setembro.

Com curadoria de Teresa Arcq, a exposição Frida Kahlo- conexões entre mulheres surrealistas no México, revela uma intrincada rede que se formou no México, no início do século passado, tendo como eixo fundamental a figura de Frida Kahlo.

A mostra conta com cerca de 100 obras de 16 artistas mulheres, nascidas ou radicadas no México. Cerca de 20 pinturas de Frida serão mostradas pela primeira vez no Brasil, proporcionando um amplo panorama de seu pensamento plástico.

Exposição Frida Kahlo- conexões entre mulheres surrealistas no México

ONDE: Instituto Tomie Ohtake

QUANDO: DE 27 SETEMBRO A 10 JANEIRO 2016.

ENDEREÇO:  Avenida Faria Lima, 201.

Compre seu ingresso aqui

O que NÃO dizer a uma pessoa em processo de luto

O que NÃO dizer a uma pessoa em processo de luto

Por Nazaré Jacobucci, especialista em Luto

“O silêncio também fala, Fala e muito! 

O silêncio pode falar mesmo quando as palavras falham”. (Osho)

O luto é um processo normal de elaboração diante de um rompimento de um vínculo. Este processo se iniciará por perdas reais e/ou simbólicas, ou seja, cotidianamente nós passamos por este processo e ele será vivenciado por toda a nossa existência. Contudo, o luto fica mais em evidência após a morte de um ser humano.

Possivelmente, neste exato momento, você conheça alguém que esteja vivenciando um processo de luto. Como na nossa sociedade moderna pouco falamos ou se quer pensamos sobre a morte, então, em muitas situações, não sabemos o que dizer ou até mesmo como agir diante de um enlutado. Muitas vezes, as palavras são absolutamente ineficazes e, às vezes, no desejo de querer confortar a pessoa enlutada, podemos dizer coisas que, na verdade, podem piorar a situação.

Quando estamos diante de um enlutado devemos ter muito cuidado com as palavras, pois a necessidade de dizer algo pode ser mais constrangedora que o silêncio. Uma palavra dita inadequadamente pode ter um impacto devastador para alguém que está vivenciando um momento de extrema fragilidade. Na minha prática clínica ouvi muitos pacientes comentarem sobre frases que lhes foram ditas e que não lhes ajudaram em nada. Ao contrário, muitos expressaram tristeza e até mesmo raiva por essas frases. Por isso, preparei uma lista de frases para que possamos refletir sobre o que não dizer a um enlutado.

– Quando uma pessoa morre após um longo período de internação por doença sem possibilidade de cura:

“Pelo menos ele(a) agora não está mais sofrendo” – “Ele(a) agora está num lugar muito melhor que nós” – “Deus sabe sempre o que faz” – “Tudo nesta vida tem uma razão” – “Deus não nos dá tristezas que não possamos suportar” – “Ele(a) já tinha idade viveu bastante”…

Estas frases, eu as escuto desde criança e são muito marcantes. Por gentileza, esqueça as frases clichês no seu próximo funeral.

– Quando uma mãe e/ou pai perdem um filho e estes possuem outros filhos:

” Pelo menos você tem outros filhos” – “Vocês são jovens e ainda poderão ter outros filhos” – “Agora ele é uma estrelinha no céu” – “Seja grato(a) por ele ter estado em suas vidas, mesmo que por pouco tempo” – “Ele(a) agora será mais um anjinho no céu”…

Um dos lutos mais difíceis de serem elaborados é quando os pais perdem um filho. Então, imaginem o que é ouvir estas frases durante o processo de luto. Para esses pais um outro filho jamais substituirá aquele que morreu.

– Quando um homem ou uma mulher torna-se viúvo e/ou viúva:

“Você é jovem com certeza encontrará outro companheiro(a) – “Hoje em dia tem muitos viúvos(as) em busca de alguém”…

Cuidado, pois a pessoa que acabou de perder seu companheiro(a) ao ouvir estas frases pode achar que você está insinuando que aquela pessoa que morreu não era tão amada e pode ser facilmente substituída.

– Quando transferimos para o tempo a solução de todos os problemas:

“O tempo cura todas as dores” – “Isso leva tempo, mas não se preocupe, vai passar”…

Sim, o tempo é algo importante. Até mesmo nós terapeutas, quando atendemos um enlutado, precisamos saber há quanto tempo aquele paciente está em processo de luto. Mas precisamos compreender que, quando uma pessoa perde alguém querido, a vida demora um certo tempo para voltar ao normal. Ao ouvir estas frases o enlutado pode ter a impressão de que há um prazo de validade para a sua dor e que precisam se recuperar logo. Contudo, pode ser que algumas pessoas demorem uma eternidade para se recuperarem da perda que tiveram.

– Quando queremos encorajar uma pessoa a voltar para vida cotidiana:

“Bola para frente, você precisa sair de casa” – “Você sempre foi tão forte” – “Para de chorar, ele(a) não fica feliz com isto de lá onde ele(a) está”…

Certamente, ao dizer estas frases a pessoa está querendo de alguma forma encorajar o enlutado a retomar seu cotidiano. Mas elas podem ser prejudiciais para a elaboração adequada do luto. O enlutado pode sentir-se inibido de demostrar a sua dor e isto pode causar complicações psíquicas futuras. Talvez neste momento de profunda dor o enlutado queira mostrar a todos o quão ele também é frágil e que possui fraquezas. O enlutado precisa expressar a sua dor.

– Quando há comparações:

“Sei exatamente o que você está sentindo, pois aconteceu comigo” – “Não sei se serve de consolo, mas o meu caso foi bem pior que o seu, porque…” – “Nossa, eu chorava o dia inteiro”…

Cada pessoa é única e cada qual sente e percebe as situações do cotidiano de uma maneira. Posso afirmar que nunca alguém saberá exatamente o que o outro está sentindo. O enlutado pode achar que a pessoa está menosprezando a sua dor.

– Quando há curiosidade:

“Mas, exatamente como ele morreu? ” – “Me disseram que ele(a) morreu de maneira trágica, como foi?”…

Não existe nada mais inapropriado do que alguém ficar perguntando os detalhes sobre como a pessoa morreu ao enlutado. Neste momento, caso o enlutado queira falar sobre o ocorrido, apenas ouça. Não faça perguntas apenas para satisfazer a sua curiosidade.

Não tenho dúvidas de que as pessoas dizem as frases citadas acima com as melhores das intenções, pois a maioria não sabe o que dizer num momento de morte. Com certeza, estar ao lado de um enlutado não é uma tarefa fácil, mas devemos ter muito cuidado com as palavras ao tentarmos “amenizar” a dor de uma perda.

Com efeito, se você estiver com dificuldade de expressar seus sentimentos em palavras, então, diga apenas o necessário – “Eu sinto muito pela sua perda, meus sentimentos”. Às vezes, um forte abraço pode “dizer” mais que mil palavras. Eu penso que uma frase interessante seja: “O que eu posso fazer para ajudá-lo?”. Pois, quando a pessoa está em processo de luto, muitas vezes, não tem condições psíquicas para pensar nas coisas básicas do cotidiano. Então, colocar-se à disposição para alguns afazeres do dia-a-dia pode ser de grande valia para seu amigo e/ou familiar enlutado.

O importante é que o enlutado se sinta acolhido em seu momento de dor, apenas isto.

contioutra.com - O que NÃO dizer a uma pessoa em processo de luto

Nazaré Jacobucci

Possuo graduação em Psicologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Especialista emcontioutra.com - O que NÃO dizer a uma pessoa em processo de luto Psicologia Hospitalar pela Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Especialista em Teoria, Pesquisa e Intervenção em Luto pelo 4 Estações Instituto de Psicologia. Atuando principalmente nos seguintes temas: Psicóloga Clínica, Avaliação Psicológica, Intervenção em Perda e Luto e Medicina Paliativa. Atualmente resido na Inglaterra. Estou aprimorando meus conhecimentos em Tanatologia, Perdas e Luto (Grief and Bereavement).

Conheça mais trabalhos da autora em seu blog Perdas e Luto.

Vivemos com muita graça

Vivemos com muita graça

Somos como qualquer povo, universais, curiosos, criativos e não nos contentamos com o óbvio de cada dia. Gostamos do prazer que surpreende nas situações mais simples; sabemos amar de graça e com a graça de um povo risonho e alegre; causamos e chamamos atenção quando pisamos em solos estrangeiros; somos fogos cruzados que brilham nos campos de batalha; entendemos e provamos do poder transformador da arte, do fazer, da expressão que nos ampara na fé que temos na vida. Buscamos um espaço mais generoso dentro desse universo tão nosso.

Dizem muito por aí que o brasileiro gosta da boa vida, passar férias no exterior e esbanjar com o supérfluo. Feriado, então, nem se fala, alguns dariam até parte da vida por um. Muitos também irão bater nessa tecla falando em “vagabundagem”, estereotipando a coisa com rótulos banais. E a essa altura, alguns reclamam da falta de direitos básicos, do analfabetismo, da imitação ao modelo norte-americano e europeu, culpando essas faltas e imitações como justificativas do nosso atraso cultural. Com humor ou não, vale pesar como usufruímos do nosso lazer aliado ao trabalho, somados aos nossos prazeres.

Mas não há nada mais chato quando ouvimos a expressão correr solta do tal do “jeitinho brasileiro” – jargão batizado de convicções e certezas que só existem na cabeça de quem fala -, aí viramos a casaca e buscamos nos impor como um povo digno e trabalhador como qualquer outro que ajuda a manter a harmonia e funcionamento de um país.

Abandonando os rótulos e estereótipos, deixando-os onde devem estar – no submundo da ignorância – merecemos muito mais que estes discursos dominantes nas formas de poderes corrosivas vigentes em nossa sociedade se anulem, e que possamos buscar o real sentido do nosso lazer nesse país tão vasto em cultura, sorrisos, acolhidas e alegrias reconhecidas em todas as partes do mundo. Ficamos alegres e nos sentimos valorizados com a nossa identidade.

Que há roubalheiras, falsos sonhos e mentiras espalhados por todos os cantos não há como negar, o melhor que temos a fazer é assumir nossas fragilidades. Porque também temos a força impulsiona nossas lutas e conquistas. E necessitamos lutar por alguns planos inacabados dentro dos sonhos, para não irmos embora daqui com a sensação de que a chance que nos foi dada não foi suficiente para sermos um pouquinho felizes dentro de apenas uma vida reservada para nós.

Lazer e boa vida, quem não os deseja que atire a primeira pedra. Temos consciência da situação mundial, dos migrantes, da escassez de água, da falta de emprego adentrando as casas das famílias, do submundo das drogas, da violência extrema praticada de forma gratuita contra os mais indefesos, da fome que mata milhões de pessoas diariamente, da ausência de altruísmo e justiça entre os semelhantes, da falta de amor entre os seres humanos. São questões universais que necessitam de uma compreensão universal do humano e que não admitem pensarmos trancafiados em rótulos ou câmaras de gás.

Não somos preguiçosos alheios, infames, despreocupados. Somos, acima de tudo, humanos criativos que se equilibram na frente da vida com dois pés e duas mãos, e às vezes até nos falta um desses membros e aí buscamos alternativas que nos coloquem de pé no mundo. Bem que poderíamos abstrair todos esses julgamentos vergonhosos que vêm sobretudo das manipulações políticas e da burocracia de mentiras que hoje ganharam as rédeas das vida e cultura brasileira. Não podemos aceitar ser um povo submisso neste país tão rico e vasto, o maior da América do Sul.

Talvez estejamos em busca de vivenciarmos algo como o ócio criativo que o sociólogo italiano Domenico de Masi nos abriu as portas do seu pensamento, a fim de analisarmos melhor como podemos colocá-lo em prática com as nossas fontes de recursos naturais e humanos. Inteligência temos de sobra. Esse ócio criativo não é ficar sem fazer nada e de pernas pro ar o tempo que quiser – não podemos confundir – é sobretudo um estado de exercitar e direcionar nossa mente em trabalhos que exigem a criatividade aliada ao prazer. Abrir espaços isentos de culpas para transformar nossa genialidade numa forma mais livre e desimpedida de viver.

Dica de Livro: Manifesto pela ocupação amorosa dos corações vazios

Dica de Livro: Manifesto pela ocupação amorosa dos corações vazios

Manifesto pela ocupação amorosa dos corações vazios e outras sandices crônicas é o sexto livro de André J. Gomes. Lançado pela Editora Nova Alexandria, o livro tem 34 crônicas publicadas originalmente na Internet, em portais como o CONTI outra e Bula.

O prefácio é do escritor João Anzanello Carrascoza, duas vezes premiado com o Jabuti. Algumas das crônicas superaram um milhão de visualizações na rede. “Os textos tratam do amor de uma forma mais ampla, o amor pelo trabalho, pelo movimento de um dia depois do outro, pelos filhos, a família, a saudade, os lugares em que estivemos e em que sonhamos estar”, conta André J. Gomes.

Manifesto pela ocupação amorosa dos corações vazios e outras sandices crônicas é o quinto livro de André na Editora Nova Alexandria, que também tem quatro títulos infantis do autor em seu catálogo.

Em 2014, André J. Gomes lançou também a coletânea Cartas de Amor a toda gente, pela Editora Lumos, de Curitiba.

Confira uma conversa com ele:

– Quando e por que você começou a escrever?

Eu sempre achei bonito o trabalho de escrever. Sou de Araraquara, uma cidade muito quente e muito bonita no interior de São Paulo. Antes de me alfabetizar, eu me lembro de passar um tempo deitado de barriga no chão fazendo rabiscos com uma caneta sobre o jornal, imitando o gesto de escrever. Riscava a folha inteira e perguntava à minha avó, à minha bisavó, à minha mãe ou à minha tia o que estava escrito. E elas “liam” o que eu tinha feito. Inventavam ali na hora. Depois, aprendi a ler e escrever e fazia paródias para as músicas que tocavam no rádio. Também passava horas copiando num caderno os textos da cartilha da escola. Escrever me deixava tranquilo. Depois passei a ter a impressão de que a gente escreve para se sentir menos só. Para dividir com alguém ali fora o que passa aqui dentro da gente. A gente escreve e abre a porta para quem passa.

– Quais são seus autores preferidos?

Gabriel Garcia Márquez, Ernest Hemingway, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Machado de Assis, Marcos Rey, Jack Kerouac, Jerome David Salinger, Franz Kafka e tantos outros super-heróis e seus superpoderes de empurrar a gente pra frente com a força de um tropeção.

– E livros?

Cem Anos de Solidão, O Amor nos tempos do cólera, O Velho e o Mar, Por quem os sinos dobram, O Verão e as Mulheres, O Amor acaba, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Memórias de um gigolô, On the Road, O apanhador no campo de centeio, A Metamorfose, O Processo e muitos outros.

– O que lhe dá mais prazer: ler ou escrever?

Ler e reler dá prazer, angústia, medo, saudade, alegria, coragem, tristeza, insegurança, vontade de aprender o que a gente não sabe, viajar a lugares que a gente não conhece. Escrever dá tudo isso em doses mais altas.

– Você é adepto de e-readers? O que pensa sobre a “guerra” e-books x livros impressos?

Sim, eu leio muito e-book. Gosto muito do formato, mas tenho mais livros em papel ainda. E acho que se toda guerra fosse assim, em que dois lados “disputam” a preferência dos leitores, incentivando todo mundo a consumir livros no papel ou na tela, o mundo estaria um pouquinho melhor.

– Como surgem as suas crônicas?

São histórias, lembranças, divagações e desejos sinceros sobre o amor, as pessoas e a experiência amorosa. Tenho uma vontade infantil de ver isso publicado, mostrar à minha mãe, à minha avó e às minhas tias em Araraquara e pedir para elas lerem os meus rabiscos.

– Que dicas você pode dar para quem está começando a se aventurar no universo literário agora?

São os mesmos conselhos que as minhas avós me deram e que eu também sigo com o coração cheio de festa. Elas diziam que a gente precisa cuidar direitinho do que tem. Do trabalho, da família, do amor, do sonho. Na literatura, como em todas as áreas, uma dedicação canina nos dá no mínimo a sensação de que estamos tentando honestamente. E a vida é isso mesmo, né? É o conjunto das nossas tentativas honestas.

– E o que o inspira como autor?

Eu sou um sujeito que trabalha desde muito cedo. Meu primeiro emprego com carteira assinada foi aos 15 anos, em um cartório no centro de São Paulo. Eu era office-boy e passava o dia na rua. Fazia o serviço rapidinho pra sentar nos ônibus e ler. Quando caminhava nas ruas do centro ou na avenida paulista, aprendi que ler e andar a pé são atividades incompatíveis e descobri o prazer de olhar as pessoas. Olhava com curiosidade, inveja, medo, dó, desejo, alegria. Eu olhava. Então, olhar os outros e ler no ônibus representavam a quase totalidade das minhas atividades na adolescência durante o dia. Por outro lado, eu cresci numa família de trabalhadores braçais. Meu pai é um honrado pintor de paredes até hoje, minha mãe sempre foi uma empregada doméstica dedicada, assim como minha tia paterna, que foi das pessoas mais importantes da minha infância. Minha bisavó, com quem convivi até os 11 anos, e minha avó paternas, donas de casa que em algum momento trabalharam em casas de outras famílias. Também tenho um tio marceneiro e inúmeros outros parentes operários. Então, eu também sou um trabalhador braçal. Tenho dois empregos. Trabalho em agência de propaganda durante o dia e dou aula em faculdade à noite. Escrever vem dessa aventura de todo dia e de olhar o que acontece aqui e ali. Sigo observando a vida. Olho, ouço, anoto e tento dividir honestamente o que passa aqui dentro com quem está por perto. Esse movimento, a vida, as pessoas, as conversas com o meu filho, o que nos falta e o que nos sobra, tudo isso me dá uma vontade louca de contar tudo para alguém. Aí eu vou escrevendo as minhas cartas, meus manifestos. São as minhas cartas de amor que escrevo para Deus e todo mundo.

Para conhecer os livros de André J. Gomes, clique aqui.

“Acontecerá algo terrível antes de se encontrar um equilíbrio.” Migração e refugiados, por Umberto Eco

“Acontecerá algo terrível antes de se encontrar um equilíbrio.” Migração e refugiados, por Umberto Eco

A entrevista era sobre livros, sobretudo o dele que estava para sair, e aconteceu num tempo em que esta crise de refugiados que nos entrou pelas notícias já existia mas sem o impacto destes dias – transformados pela imagem do naufrágio da humanidade simbolizado num menino morto numa praia. A entrevista dele ao Expresso era sobre livros, mas Umberto Eco falou sobre mais – incluindo este tema que o preocupa há muito, o da migração e dos refugiados. Recuperamos o que ele enunciou em abril agora que estamos despertos para uma tragédia que se estende não há dias nem semanas, mas há meses e quase anos. É uma reflexão dura: ” A Europa irá mudar de cor. E isto é um processo que demorará muito tempo e custará imenso sangue”. Mas também com fé no outros homens – nos que estão e nos que vêm: “A migração produz a cor da Europa”

Era abril quando entrevistamos Umberto Eco no seu apartamento em Milão. Atendeu o intercomunicador e abriu a porta de casa, revelando a sua alta figura e a cordialidade que seria uma constante durante a conversa. De eterno cigarro apagado entre os dedos – desistiu de fumar mas não se desfez do gesto – ofereceu café e sentou-se na sua poltrona de cabedal. Falámos da infância, da escrita, de jornalismo – central em “Número Zero“, o novo romance que saiu em maio em Portugal. Mas falámos também da Europa e dos longos processos migratórios que a configuraram. Para Eco, estamos a atravessar um deles e não será um caminho fácil nem desprovido de desafios. Eis alguns excertos da entrevista.

1. CULTURA NÃO QUER DIZER ECONOMIA

“Desde a juventude que sou um apoiante da União Europeia. Acredito na unidade fundamental da cultura europeia, aquém das diferenças linguísticas. Percebemos que somos europeus quando estamos na América ou na China, vamos tomar um copo com os colegas e inconscientemente preferimos falar com o sueco do que com o norte-americano. Somos similares. Cultura não quer dizer economia e só vamos sobreviver se desenvolvermos a ideia de uma unidade cultural.”

2. UM GRANDE ORGULHO

“Quando atravesso a fronteira sem mostrar o passaporte e sem ter de trocar dinheiro, sinto um grande orgulho. Durante dois mil anos, a Europa foi o cenário de massacres constantes. Agora, esperemos um bocado: mesmo que o mundo hoje seja mais veloz, não se pode fazer em 50 anos o que só fomos capazes de fazer em dois mil. E mesmo indo nessa direção, não sei como os países europeus poderão sobreviver: estão a tornar-se menos importantes do que a Coreia do Sul, e não apenas do ponto de vista industrial. Culturalmente, está-se a traduzir mais livros lá do que em França.”

3. A COMISSÃO DAS PESSOAS SÁBIAS

“Entidades nacionais como Portugal ou Itália tornar-se-ão irrelevantes se não fizerem parte de uma unidade maior. Mas nada disto se constrói em pouco tempo. O problema da Europa é estar a ser governada por burocratas. Uma vez, uma instituição europeia – não me recordo qual – decidiu criar uma comissão de pessoas sábias. Estava lá Gabriel García Márquez, Michel Serres e eu próprio. Os outros convidados eram burocratas europeus. Cada reunião servia para discutir a ordem de trabalhos da reunião seguinte. Aquilo era o retrato da Europa: pessoas a governarem uma máquina autorreferencial. Porém, é o que temos. É como a democracia segundo Winston Churchill: um sistema horrível, mas melhor do que os outros.”

4. UM PROCESSO QUE CUSTARÁ IMENSO SANGUE

“Estou muito preocupado, não por mim, mas pelos meus netos. Escrevi-o há 30 anos: o que se passa no mundo não é um fenómeno de imigração, mas de migração. A migração produz a cor da Europa. Quem aceitar esta ideia, muito bem. Quem não a aceitar, pode ir suicidar-se. A Europa irá mudar de cor, tal como os Estados Unidos. E isto é um processo que demorará muito tempo e custará imenso sangue. A migração dos alemães bárbaros para o Império Romano, que produziu os novos países da Europa, levou vários séculos. Portanto, vai acontecer algo terrível antes de se encontrar um novo equilíbrio. Há um ditado chinês que diz: ‘Desejo-te que vivas numa era interessante’. Nós estamos a viver numa era interessante.”

5. A ÉTICA DA REPÚBLICA

“Não se deve perguntar porque haverá derramamento de sangue: é um facto. Vejamos a França. É o caso típico de um país que acreditou poder absorver a migração. Porém, por um lado, impôs logo aos migrantes a ética da República; e, por outro, arrumou-os nos bairros remotos. É muito raro encontrar um migrante a viver ao lado de Notre-Dame.” NUNO BOTELHO

6. INTEGRAÇÃO E ÓDIO

“Porque é que um muçulmano em França se torna fundamentalista? Acha que isso aconteceria se vivesse num apartamento perto de Notre-Dame? A sua integração não foi completa nem poderia ser. De novo, é um facto. A migração a longo prazo pode produzir integração mas a curto prazo não, e a não-integração produz uma reação, que pode ser de ódio.”

7. NO SENTIDO EM QUE HITLER NÃO ERA A CRISTANDADE

“O inimigo é sempre inventado, construído. Precisamos dele para definir a nossa identidade. A extrema-direita italiana acredita que são os ciganos ou os migrantes pobres, ou o Islão em geral, ainda que o Islão possa assumir muitas formas. Ora, o Estado Islâmico não é o Islão, no sentido em que Hitler não era a cristandade.”

8. RESPOSTA: NÃO

“A Idade Média não existe, porque tem dez séculos. É uma construção artificial. De qualquer forma, vemos que é uma época de transição entre dois tipos de civilização. E provavelmente – falávamos de migração – estamos numa era de transição, que é sempre difícil. A questão é: houve alguma era que não fosse de transição? Resposta: não. Mas houve momentos em que cada um vivendo no seu país não se apercebia de que havia uma transição a acontecer no mundo.”

9. CHAMA OS BOMBEIROS

“Qual o papel do intelectual hoje? Não dar muitas entrevistas! [risos] Falando a sério, penso que é duplo. Primeiro, é dizer o que as outras pessoas não dizem. Não é dizer que há desemprego em Itália. Segundo, não é resolver os problemas imediatos, é olhar para a frente. Se um poeta está num teatro e há um incêndio, não se põe a recitar poemas: chama os bombeiros. Pode é escrever sobre incêndios futuros.”

10. PERDA DO PASSADO

“É impossível pensar o futuro se não nos lembrarmos do passado. Da mesma forma, é impossível saltar para a frente se não se der alguns passos atrás. Um dos problemas da atual civilização – da civilização da internet – é a perda do passado.”

Fonte indicada: Expresso

O livro “A lista de Bergoglio” comprova: quem cala nem sempre consente

O livro “A lista de Bergoglio” comprova: quem cala nem sempre consente

Os regimes ditatoriais há muito envergonham a humanidade. Há alguns anos, precisamente a partir de 1976, a Argentina passou por esse vexame.

Nesse tempo, um jovem padre jesuíta teve que escolher entre três caminhos:

Primeiramente, ele poderia aliar-se à ditadura, valendo-se da via escolhida por grande parte da Igreja argentina.

Em segundo lugar, poderia declarar-se frontalmente contrário à ditadura militar que se instalara em seu país, colocando em perigo não só a sua vida como as vidas dos integrantes da ordem religiosa pela qual era responsável.

Mas havia ainda uma terceira via. Esse padre poderia, valendo-se de superior perspicácia, silenciar-se, aparentando neutralidade aos generais, e propiciar o salvamento de dezenas de vidas que estariam sob a mira do regime, acusadas de subversivas e comunistas.

Ele escolheu a terceira opção.

Trata-se do argentino Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco. A história desse período de sua vida é narrada no livro “A lista de Bergoglio“, escrito por Nello Scavo, publicado pela Paulinas Editora.(No Brasil, o livro é editado pelas Edições Loyola) O prefácio é do pacifista e ativista argentino Adolfo Pérez Esquivel, ganhador do Nobel da Paz em 1980. O prefaciador, um dos grandes perseguidos pela ditadura argentina, afirma: “Bergoglio contribuiu para ajudar os perseguidos“.

O livro traz diversos depoimentos de pessoas que foram salvas pelo Papa Francisco, revelando, ainda, singularidades sobre a vida do Pontífice, enquanto discorre sobre as barbáries praticadas pelos militares, descrevendo detalhadamente as torturas a que eram submetidos os presos políticos.

A título de exemplo, menciono aqui o militante uruguaio Gonzalo Mosca que, em 1977, ativista de esquerda, era procurado pelos militares argentinos e seria morto ali mesmo na Argentina ou mandado para o país de origem onde seria morto pela ditadura de lá. Um conhecido de Bergoglio lembrou-se dele e solicitou sua ajuda. Mesmo desconhecendo o Mosca, Bergoglio prontificou-se a ajudar. Recebeu-o em Buenos Aires e transportou-o, em seu carro, por mais de 50 quilômetros, até a Casa San Miguel dos Jesuítas, onde este ficou escondido até que Bergoglio organizasse a rota de sua fuga do país.

Ao lado dessa extrema generosidade, o cavalheirismo. Alicia Oliveira, a primeira mulher a tornar-se juíza na Argentina e que passou a ser perseguida pela ditadura militar e foi despedida do cargo, afirma: “Fiquei sem emprego. Quando soube que me tinham despedido, Jorge enviou-me um esplêndido ramo de rosas”.

Sergio e Ana, casal que também foi salvo por Bergoglio, eram voluntários em uma comunidade de extrema pobreza, em Buenos Aires, e recebiam recorrentes visitas de Bergoglio. Sergio recorda que:“Lembro-me de quando Jorge ia à minha barraca de chapas e de terra batida. Ficava alguns dias em retiro espiritual. Era um daqueles momentos que se percebia que ele não era pessoa de conversas e leituras teológicas debaixo de uma ventoinha. Era um homem de missão. Ouvia os pobres, observava-os na sua miséria e nos ímpetos. Mergulhava na sua realidade, no sofrimento das pessoas, entrava na profundidade dos seus corações para, depois, voltar a subir transmitindo a sua mensagem de esperança.”

O livro consegue elucidar ainda toda a contradição criada com relação a ter ou não o então padre Bergoglio entregue dois de seus subordinados à ditadura, ficando cabalmente evidenciado que o atual papa não só não entregara os padres como agiu de modo decisivo para a libertação destes, solicitando audiências ao general que os mantinha cativos e ameaçando denunciar tal situação ao Vaticano.

No mais, revela um “homem-orquestra“, como citado por Juan Scavonne, amigo do Papa e um dos expoentes da Teologia da Libertação: “homens como ele, no sentido de que podem tocar vários instrumentos de uma só vez“. E prossegue recordando que certa vez, Bergoglio “escreveu um artigo à máquina, depois, lavou a roupa interior, depois acolheu um fiel para uma conversa de direção espiritual“.

A personalidade do homem cujos olhos penetram a alma do mundo não foi forjada no silêncio dos monastérios ou na leitura exaustiva dos teólogos. O livro mostra que ele se fez nas batalhas cotidianas, sempre ao lado dos fracos e oprimidos. Sempre a serviço dos menores.

Quem cala nem sempre consente. Os olhos, não as palavras, são o espelho da alma. E os atos, estes sim, refletem a força de nossos ideais. Calar e agir: esta foi a decisão de Bergoglio que nos garantiu a preservação da vida de tantos, incluindo a dele, a do nosso amado Papa Francisco.

Encontre “A lista de Bergoglio” aqui.

Uma dor chamada Angústia

Uma dor chamada Angústia

Sabe de uma coisa? Não sou super-herói e nem preciso ser. Sou humano, sou frágil e preciso de ajuda. Não sei de tudo e nunca saberei. Às vezes me canso e ando devagar. Preciso de um pouco de água, olhar o céu e recuperar o fôlego. Não sou do tipo que reclama, mas têm horas em que não tem jeito. Parece que o chão vai desabar, procuro um apoio e não encontro. Sinto dor, a dor da angústia. Dor que me consome.

Sei muito pouco sobre a vida, mais do que devia, menos do que preciso. Caminhos sinuosos sempre aparecem. Caminhos no plural para a singularidade que sou. Então, o que escolher? Para onde ir? Ser o que sonharam para mim? Ou aquilo que arde dentro do peito e que grita com a mais alta visceralidade?

Não sei, já disse, não tenho respostas para tudo. Consulta o Aurélio. Não, não faz isso. Existem significados para além dos olhos. Mas a dor continua, é incessante. Existem estradas cheias de pessoas que caminham de forma igual, sem diferença. Devo seguir, ir junto com a manada. Devo estar seguro, com tantos assim ao redor. Não é possível que todos eles estejam enganados.

Ah! Sinto um incômodo. Ah! Sinto a dor, agora mais forte. Ah! Por que tenho que sentir? Preciso de ar, preciso sair da manada, preciso de mim. Meu coração grita, mas não consigo entendê-lo. Talvez não queira ouvi-lo. Talvez as vozes que ecoam da estrada sejam mais fortes. Sou fraco, falta-me coragem para fechar os sentidos para aquilo que não pulsa no coração.

Vejo outra estrada, com muitas pessoas. Elas sorriem, devem estar felizes. Quero também essa felicidade, quero sorrir. Então, passo a segui-las. Mas que estranho, ainda não consigo sorrir. Na verdade, esses sorrisos me incomodam. Entro em pânico, tento sair, corro o mais rápido que posso, mas elas tentam me segurar. Elas são fortes, rasgam a minha roupa, me arranham e me ferem. Mas consigo sair.

Agora, estou sozinho. Recupero o fôlego. Sinto-me feliz por estar fora do caminho da felicidade. Agora, estou sozinho e com ferimentos. Não tenho remédios para passar. Deixo-os com o tempo, para que possa curar-lhes. Agora, estou sozinho e tenho que continuar. Há inúmeras estradas, não sei qual seguir. Muitas delas estão cheias de pessoas. Algumas com pessoas ainda mais sorridentes e felizes.

Penso comigo: será que não mereço um pouquinho dessa felicidade? Como queria apenas um abraço que me confortasse e me fizesse esquecer que existem tantos caminhos. Mas estou só e sozinho preciso seguir. O sol já está se pondo, não resta muito tempo, logo irá anoitecer. Sinto a dor, mais forte do que antes. Fico paralisado. A dor aumenta e deito no chão. Tenho, como companheiro, o sol, testemunha de uma dor que me toma por inteiro.

A noite chega e, com ela, a escuridão. A dor fica mais fraca, consigo ficar de pé. Olho em volta, penso, mas não enxergo muito bem. Escuto vozes que passam por um caminho e que dizem ser este o melhor. Escuto outras vozes, em outro caminho, que repetem a mesma coisa, e, portanto, não consigo diferenciá-las.

Percebo que há um caminho em que não há ninguém, exceto uns vaga-lumes que o iluminam. Decido seguir os vaga-lumes. Vou caminhando em à medida que caminho, a dor diminui. Sinto o meu coração, não agitado, mas terno. Não há outras pessoas, nem vozes, tampouco sorrisos. Mas existem vaga-lumes que iluminam suficientemente o lugar. Consigo ver o céu, estrelado e com uma lua que parece brilhar só para mim.

Sinto-me forte, revigorado. Meu coração fala e consigo ouvi-lo. Ainda estou só, sem pessoas felizes dizendo o caminho que devo seguir, mas sinto a minha própria companhia. Sinto que talvez não sirva para seguir uma manada. Sinto que minha razão é muito distante. Sinto que o meu coração guia-me e nele devo confiar.

A dor, esta não desaparece. Caminhos continuam existindo. Vozes são multiplicadas como a areia da praia. Mas, apesar disso, o meu coração fala e, somente nos caminhos dos vaga-lumes, eu consigo ouvi-lo. Ele diz coisas que somente eu entendo. Diz coisas inadequadas. Diz coisas que me afastam mais e mais da manada. Mas o sigo, sem medo, pois ainda que erre, estarei sendo eu.

As vozes não entendem e por isso me chamam de louco. Eu sigo o meu caminho. Às vezes me canso e ando devagar. Preciso de um pouco de água, olhar o céu e recuperar o fôlego. Não sou tipo que reclama e não reclamo. Tenho um coração como amigo e vaga-lumes que ajudam a iluminar o caminho. Pode parecer pouco e que seja. É o suficiente. Pois o final da estrada chegará e, quando chegar, se precisar voltar, saberei que cada pegada naquela estrada é minha.

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