Procrastinação: se você sempre adia as coisas importantes, é hora de ler este artigo. Ou vai deixar para amanhã?

Procrastinação: se você sempre adia as coisas importantes, é hora de ler este artigo. Ou vai deixar para amanhã?

Muitas pessoas não conseguem usar bem o seu tempo para fazer rapidamente o que tem de ser feito. Adiam, deixam para “amanhã” aquele relatório cujo prazo terminará em poucos dias. Em vez de priorizar as tarefas importantes vão ler os posts do Facebook, limpar o armário, lavar o carro ou organizar os e-mails, até que a tarefa se transforme em urgente, gerando estresse e ansiedade, além da correria para terminar. Conhece alguém assim?

Outros tomam resoluções fantásticas para o Ano Novo como iniciar a academia, o curso de inglês, mudar radicalmente a alimentação. Ou nem começam ou a nova atitude dura somente poucos dias ou semanas, mesmo sabendo o quão importante seria manter este novo comportamento, e isto gera culpa e arrependimento. Certamente conhecemos pessoas que agem deste modo, mas, por que o fazem?

Quando este comportamento é repetitivo é a chamada PROCRASTINAÇÃO, um grande mal que atinge um enorme número de indivíduos e pode prejudicar sua carreira, produtividade, relacionamentos afetivos e até mesmo a sua saúde.

Procrastinação é definida como um ‘atraso voluntário de uma ação apesar das visíveis e negativas consequências futuras’. É optar por prazeres imediatos ao invés de ter uma visão e ação de longo prazo.
Não é o caso das exceções que aparecem em nossas vidas eventualmente e nos fazem mudar os planos, como por exemplo uma visita inesperada que nos faz adiar voluntariamente por esta razão o término de um relatório, nos diz o Dr. Timothy Pychyl, psicólogo professor da Carleton University, em Ottawa, Canadá, grande pesquisador neste assunto.

O procrastinador SABE que deveria estar fazendo sua tarefa adiada, e se sente mal por isto, e às vezes faz “compensações morais” para diminuir sua culpa, como por exemplo ir à academia em vez de terminar sua tarefa, o que alivia temporariamente sua culpa.

Psicólogos descobriram que procrastinadores crônicos frequentemente tem concepções equivocadas do por que agem deste modo. Muitos acreditam que não podem começar porque querem fazer a tarefa perfeitamente e em condições ideais.

Mas os estudos mostram que a procrastinação não tem a ver com perfeccionismo e sim com impulsividade, tendência a agir imediatamente nas urgências e também tem a ver com estratégias emocionais inconscientes para fugir de situações estressantes. É o que nos conta o Dr. Piers Steel, professor de comportamento organizacional da Universidade de Calgary.

Pessoas impulsivas se bloqueiam ao sentir ansiedade ou lidar com fortes emoções.
Uma empresa de Hong Kong chamada Saent, com a supervisão do Dr. Steel está desenvolvendo um software que atrasa a abertura de sites como o Facebook por 15 segundos ou mais e também cria a necessidade de uma senha para navegar na web, pois muitas vezes, estes pequenos “dificultadores” são tudo o que é necessário para fazer os procrastinadores desistirem de procurar uma distração imediata.

Outras pessoas alegam deixar as coisas para o último minuto porque funcionam melhor sob estresse ou sob pressão, mas os verdadeiros procrastinadores se estressam pelo adiamento. Além disto é bastante questionável se a qualidade de um trabalho feito correndo na última hora é melhor do que aquele feito com prazo e mais planejamento.

Os efeitos psicológicos da procrastinação já são bem conhecidos: aumentam os índices de depressão e ansiedade e empobrecem o bem estar, ou seja, diminuem nossa saúde psíquica.

Quanto à nossa saúde física, a psicóloga Dra. Fuschia Sirois, professora da Universidade de Sheffield, na Inglaterra, estuda os efeitos da procrastinação no modo como lidamos com as doenças crônicas e as suas consequências.

Em recente artigo ela descobriu que os procrastinadores que sofrem de hipertensão arterial e doenças cardiovasculares eram menos propensos a se engajarem em estratégias para lidar com suas doenças crônicas, como por exemplo encontrar um sentido para agir, e fazer atividades físicas com amigos. Ao invés, tinham comportamentos mal adaptativos como evitar lidar com a doença ou culparem-se por ela e mesmo tentar esquecê-la (varrendo-a para baixo do tapete).

Também os procrastinadores parecem mais incapazes de ver claramente no futuro as consequências de suas ações e comportamentos do que os não procrastinadores, um fenômeno chamado de “Miopia Temporal”. Sua visão de futuro é mais abstrata e impessoal, ou seja, são menos conectados emocionalmente com sua imagem de futuro. Isto ocorre principalmente por altos níveis de estresse que desviam o foco para objetivos mais imediatos (prazeres) do que mais distantes (escolha saudáveis para cuidar e manter a saúde).
Uma interessante pesquisa mostrou que o modo ‘como’ pensamos em uma tarefa faz com que a adiemos ou não.

Pesquisadores da Universidade Konstanz na Alemanha liderados pelo Dr. Sean McCrea entregaram questionários a estudantes, que receberiam um valor em dinheiro para responder e entrega-los por e-mail no prazo de até três semanas.

As questões tinham a ver com tarefas cotidianas como por exemplo abrir uma conta bancária. O primeiro grupo de estudantes tinha de responder questões subjetivas (e assim pensar de modo abstrato) referentes à traços de personalidade, por exemplo qual tipo de pessoa abriria uma conta bancária enquanto o segundo grupo tinha de responder questões objetivas e práticas (e assim pensar de modo concreto) por exemplo quais atitudes devem ser realizadas para abrir uma conta bancária, como falar com um gerente, preencher formulários e trazer documentos, fazer um depósito inicial etc. e então os psicólogos esperaram pelas respostas.

Os resultados da pesquisa foram publicados no jornal científico Psychological Science, da Associação de Ciência Psicológica e mostraram claramente que, mesmo que todos os estudantes fossem pagos para responder, aqueles que tinham de pensar nas questões de modo abstrato tiveram uma tendência muito maior à procrastinação, (inclusive alguns nunca entregaram as respostas) enquanto os que pensaram de modo concreto no Como, Quando e Onde entregaram suas respostas muito mais cedo, ao invés de adiar sua tarefa.

Os autores concluíram que “simplesmente por pensar na tarefa em termos mais concretos e específicos fez com que (os estudantes) sentissem que deviam completar a tarefa logo, o que reduziu a procrastinação”. Também apontaram que estes resultados tem implicações importantes para professores e gerentes que querem que seus estudantes e colaboradores iniciem logo seus projetos.

Faça as pessoas pensarem em termos práticos e objetivos e isto aumentará muito a probabilidade que ajam e cumpram a tempo suas tarefas.

A Dra. Sirois e Dr. Pychyl ensinam que focar somente no gerenciamento de tempo ajuda parcialmente os procrastinadores. O componente de regulação emocional também deve ser observado. As pessoas devem reconhecer que tem problemas com emoções como a ansiedade no início de um projeto, mas não devem se autojulgar por isto, e sim iniciar passo a passo, com um foco preciso.

Já que devemos ser práticos, eis aqui algumas dicas de atitudes que contribuem para que mudemos nossos hábitos e consigamos exterminar a procrastinação e suas péssimas consequências:
1- Planeje-se no dia ou noite anterior e inicie suas atividades logo pela manhã, antes que novas atividades, compromissos ou mesmo desculpas apareçam para atrapalhar seus planos. E lembre-se como mostrou a pesquisa, de planejar objetivos práticos e concretos, como um passo a passo até a resolução.

2- Quanto mais frequentemente você realizar uma tarefa, como meditar, ir à academia, comer verduras ou escrever seu artigo, mais facilmente você “programa” este novo e benéfico hábito que fará parte de sua rotina diariamente.

3- Tenha uma companhia para compartilhar sua atividade, se for possível, como um amigo ou grupo para fazer atividades físicas, que te darão apoio, força nos momentos em que queira desistir, e também aumentarão a diversão do momento.

4- Esteja bem preparado para a tarefa que se propõe. Isto aumenta a confiança e motivação para atingir o objetivo.

5- Anote seus objetivos, e coloque as anotações onde frequentemente as veja. Mantém o foco no objetivo continuamente.

6- Primeiro as coisas mais importantes (first things first). Mesmo que pareça atraente, evitar iniciar o trabalho quando parecer difícil ou pouco motivador, trocando por outras tarefas, acaba atrasando aquilo que é importante e acabará se tornando urgente. Quando você não se incumbe do que é importante, terá muitos “incêndios” e coisas urgentes a resolver.

7- Visualize-se desfrutando dos benefícios e boas sensações que terá quando tiver terminado suas tarefas. A ciência prova que a’visualização’ tem o mesmo efeito em nosso cérebro do que a prática e acaba nos preparando melhor para atingir os objetivos. Os atletas de ponta utilizam-se muito deste treinamento. Ver-se mentalmente tendo terminado a tarefa e sentindo-se muito bem com isto prepara o caminho e direciona para um bom resultado.

8- Aprenda a lidar com suas emoções. Autoconhecimento, leituras, meditação, psicoterapia podem ser recursos muito úteis para fortalecer o equilíbrio emocional e ajudar a lidar com a ansiedade e o estresse que aumentam a procrastinação.

E para terminar, sempre que tomar uma decisão importante, aja imediatamente e tome atitudes concretas na hora, dando início imediato ao projeto de mudança (por exemplo, se decidir iniciar o curso de idioma que está adiando há tempos, pesquise escolas e ligue ou visite para ter mais informações e poder se matricular e começar).

Fonte indicada: A Tribuna

Oração de amor por uma semana de paz a todos.

Oração de amor por uma semana de paz a todos.

Vem, segunda-feira! Vem forte, clara, longa, cheia, bela, valente. Chega trazendo um caminhão de trabalho que acelere corajoso e se adiante por estradas novas e caminhos de sol generoso.

Tem a bondade de entrar e ficar à vontade, dona semana menina. Cá estamos, agradecidos pelo domingo, à espera dos outros dias de tua ordem. Que teus dias úteis nos sejam produtivos tanto quanto nos empenharmos em servir e ajudar.

Seremos gratos por cada instante de tensão e todo minuto de conversa leve no corre-corre. Que em tua sequência de acontecimentos não faltem um banho morno de poder curativo, uma notícia alegre, um sonho bom que nos massageie durante o sono de um dia para o outro todos os nossos músculos. Que tuas manhãs, tuas tardes e tuas noites nos tragam a calma, a esperança e a alegria no trabalho, desatando juntas cada um de nossos nós.

Vem, semana que nasce. Abre portas em tuas horas para que os amantes encontrem tempo de passear de mãos dadas. E que ao passarem defronte às construções, despertem a atenção dos serventes de pedreiro. Calmos, os operários os olharão com entusiasmo, não com inveja, mas com admiração respeitosa. E baterão palmas e assoviarão e farão festa de comentar em casa, à noite, com a esposa. “Você não sabe! Hoje eu vi um casal passeando de mãos dadas e lembrei do nosso começo de namoro.”

Entra, semana moça. Revela novos entusiasmos em nossas rotinas, como cacos de vidro desenterrados no quintal da infância. Abre novas esperanças entre um dia e outro, tal e qual capim nascendo nos vãos dos paralelepípedos da rua.

Sê gentil e leve quando possas. E que em tua sexta-feira, à noitinha, quando todos começarmos a tirar o pé devagar do acelerador, prontos para respirar fundo e abraçar o remanso, que por um breve instante sintamos aqui dentro uma singela nostalgia da semana que chega ao fim. Um sopro de saudade da segunda-feira passada, das vozes sobrepostas da terça, da reunião da quarta, do almoço da quinta, da correria, dos risos e choros, das angústias e esperanças e de tudo o que de bom nos ofereceste, semana abençoada, para que em teu sábado estejamos inteiros, sãos, agradecidos e em paz, prontos a começar tudo de novo na semana seguinte.

Amém!!

Zygmunt Bauman: ‘Há uma crise de atenção’

Zygmunt Bauman: ‘Há uma crise de atenção’

POR BRUNO ALFANO

Uma busca no Google com os termos “O que é modernidade líquida?” rende 187 mil resultados em 0,34 segundo. São, todos eles, “fragmentos de conhecimento”, na visão do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, que discursou neste sábado para um auditório lotado na Escola Sesc de Ensino Médio durante o encontro internacional Educação 360, realizado pelos jornais O GLOBO e “Extra” em parceria com a prefeitura do Rio e o Sesc, com apoio da TV Globo e do Canal Futura. O filósofo defende que “não vamos nos livrar da realidade” e que “o problema é como utilizar”.

— A educação é vítima da modernidade líquida, que é um conceito meu. O pensamento está sendo influenciado pela tecnologia. Há uma crise de atenção, por exemplo. Concentrar-se e se dedicar por um longo tempo é uma questão muito importante. Somos cada vez menos capazes de fazer isso da forma correta — disse o pensador. — Isso se aplica aos jovens, em grande parte. Os professores reclamam porque eles não conseguem lidar com isso. Até mesmo um artigo que você peça para a próxima aula eles não conseguem ler. Buscam citações, passagens, pedaços.

Como o próprio Bauman mencionou, a modernidade líquida — definida nos resultados do Google como a época em que vivemos, caracterizada por “volatilidade” , “incerteza” e “insegurança” — norteou as obras do filósofo; ele escreveu cerca de 30 livros apenas em torno dessa maneira de enxergar a contemporaneidade.

— Não há como contestar que a internet nos trouxe grandes vantagens. A facilidade de acesso à informação, a facilidade com que podemos ignorar as distâncias… Lembro-me de que, quando era jovem, passava muito tempo na biblioteca tentando ler cem livros para encontrar um pedacinho de informação de que precisava. Agora, basta pedir para o Google. Em décimos de segundo ele dá milhares de respostas. Um problema foi eliminado: nós não precisamos passar horas na biblioteca. Mas há um novo problema. Como vou compreender essas milhares de respostas? — questionou Bauman, logo recorrendo à Grécia Antiga para para continuar. — Só agora, idoso, consegui entender Sócrates: “Só sei que nada sei”.Há ainda, na visão de Bauman, outras crises que chegam com a internet e precisam ser superadas. O filósofo defende que vivemos com cada vez menos paciência, pela quantidade de informação que recebemos ao mesmo tempo. E, quando não temos isso, o resultado é a irritação.

— Se demoramos mais de um minuto para acessar a internet quando ligamos o computador, ficamos furiosos. Um minuto só! Nosso limiar de paciência diminuiu. As informações mais bem-sucedidas, que têm mais probabilidade de serem consumidas, são apenas pedaços — diz o polonês. — Outra coisa é a persistência. Conseguir algo contém em si um número de fracassos que faz com que você perca tempo e tenha que recomeçar do zero. E isso é muito complicado. Não é fácil manter essa persistência nesse ambiente com tanto ruído e tantas informações que fluem ao mesmo tempo de todos os lados.

Todo esse novo cenário, explicou o pensador à plateia de educadores, desafia e transforma a posição secular do docente. Para Bauman, “não há como voltar à situação em que o professor é o único conhecedor, a única fonte, o único guia”. E dá caminhos:

— Não há como conceber a sociedade do futuro sem tecnologia. Então, se não pode vencê-la, una-se a ela. Tente contrabalancear o impacto negativo, como a crise da atenção, da persistência e de paciência. É preciso ter determinadas qualidades se você deseja construir conhecimento e não só agregá-lo: paciência, atenção e a habilidade de ocupar esse local estável, sólido, no mundo que está em constante movimento. É preciso trabalhar a capacidade de se manter focado.

Educação desigual
Hoje, de acordo com o filósofo, a educação reproduz privilégios em vez de aperfeiçoar a sociedade. Ele lembra que, nos EUA, 70% dos alunos na universidade vêm das classes mais altas, enquanto só 3% são das camadas de renda mais baixa. Segundo Bauman, essa é “uma forma de reafirmar a desigualdade social”, tema do livro “A riqueza de poucos favorece a todos nós?”, o mais recente lançamento (no mês passado) do escritor no Brasil.

— Uma das tarefas da educação é conferir a todas as pessoas que tenham talento a possibilidade de adquirir conhecimento para que isso acabe tendo um uso criativo para a sociedade. Mas esse objetivo não está sendo perseguido em muitos lugares. Na Grã-Bretanha, os preços, em vez de diminuírem para as pessoas com menos dinheiro, vão subindo. E cada vez menos pais têm a possibilidade de economizar a quantia necessária para seus filhos cursarem a universidade.

O problema, segundo Bauman, é que a educação está pressionada pela política e pelos interesses corporativos. E isso, explica ele, se reflete na mente do estudante. O polonês critica o fato de os alunos escolherem a área de estudos baseados “no fato de se vão conseguir emprego ou não”.

— Se você quer conhecimentos especializados, que são as condições para um bom emprego, precisa estudar quatro ou cinco anos, e isso requer muito esforço. Mas, se você está sendo guiado pelo atual estado de coisas, tudo vai mudar nesse tempo de estudo. E você vai perceber que não vai conseguir encontrar um uso rentável para o tipo de qualificação e habilidade que adquiriu nesses anos de trabalho árduo na faculdade — argumenta.

Mesmo após toda essa lista de desafios, a mensagem que o dono de uma das mais influentes mentes no mundo deixou para o auditório na noite de ontem foi de pura esperança:

— Educar, senhoras e senhores, é fazer um investimento nos próximos cem anos.

Fonte indicada: O Globo

“O Perfume”, um “abensonhado” conto de Mia Couto

“O Perfume”, um “abensonhado” conto de Mia Couto

O Perfume

– Hoje vamos ao baile!

Justino assim se anunciou, estendendo em suas mãos um embrulho cor de presente. Glória, sua esposa, nem soube receber. Foi ele quem desatou os nós e fez despontar do papel colorido o vestido não menos colorido A mulher, subvivente, somava tanta espera que já esquecera o que esperava. Justino guardava ferrovias, seu tempo se amalgava, fumo dos fumos, ponteiro encravado em seu coração. Entre marido e mulher o tempo metera a colher, rançoso roubador de espantos. Sobrara o pasto dos cansaços, desnamoros, ramerrames. O amor, afinal, que utilidade tem?

De onde o espanto de Glória, deixando esparramejar o vestido sobre seu colo. Que esperava ela, por que não se arranjava? O marido, parecia ter ensaiado brincadeira. Que lhe acontecera? O homem sempre dela se ciumara, quase ela nem podia assomar à janela, quanto mais. Glória se levantou, ela e o vestido se arrastaram mutuamente para o quarto. Incrédula e sonambulenta, arrastou o pente pelo cabelo. Em vão. O desleixo se antecipara fazendo definitivas tranças. Lembrou as palavras de sua mãe: mulher preta livre é a que sabe o que fazer com o seu próprio cabelo. Mas eu, mãe: primeiro, sou mulata. Segundo, nunca soube o que é isso de liberdade. E riu-se: livre: Era palavra que parecia de outra língua. Só de a soletrar sentia vergonha, o mesmo embaraço que experimentava em vestir a roupa que o marido lhe trouxera. Abriu a gaveta, venceu a emperrada madeira. E segurou o frasco de perfume, antigo, ainda embalado. Estava leve, o líquido havia evaporado. Justino lhe havia dado o frasco, em inauguração do namoro, ainda ela meninava. Em toda a vida, aquele fora o único presente. Só agora se somava o vestido. Espremeu o vidro do cheiro, a ordenhar as últimas gotas. Perfumei o quê com isso, se perguntou lançando o frasco no vazio da janela.

– Nem sei o gosto de um cheiro.

Escutou o velho vidro se estilhaçar no passeio. Voltou à sala, vestido se desencontrando com o corpo. As bainhas do pano namoriscavam os sapatos. Temia o comentário do marido sempre lhe apontando ousadias. Desta vez, porém, ele lhe olhou de modo estranho, sem parecer crer. Puxou-a para si e lhe ajeitou as formas, arrebitando o pano, avespando-lhe a cintura. Depois, perguntou:

– Então não passa um arranjo no rosto?
contioutra.com - "O Perfume", um "abensonhado" conto de Mia Couto
– Um arranjo?

– Sim, uma cor, uma tinta.

Ela se assombrou. Virou as costas e entrou na casa de banho, embasbocada. Que doença súbita dera nele? Onde diabo parava esse baton, havia anos que poeirava naquela prateleira? Encontrou-o, minúsculo, gasto nas brincadeiras dos miúdos. Passou o lápis sobre os lábios. Leve, uma penumbra de cor. Carregue mais, faça valer os vermelhos. Era o marido, no espelho. Ela ergueu o rosto, desconhecida.

– Vamos ao baile, sim. Você não costumava dançar, antes?

– E os meninos?

– Já organizei com o vizinho, não se preocupa.

E foram. Justino ainda teve que tchovar* a carrinha. Ela, como sempre, desceu para ajudar. Mas o marido recusou. Desta vez, não. Ele sozinho empurrava, onde é que se vira?

Chegaram. Glória parecia não dar conta da realidade. Se deixou no assento da velha carrinha. Justino cavalheirou, mão pronta, gesto preso abrindo portas. O baile estava concorrido, cheio pelas costuras. A música transpirava pelo salão, em tonturas de casais. Os dois se sentaram numa mesa. Os olhos de Glória não exerciam. Apenas sombreavam pela mesa, pré-colegiais.

Então, se aproximou um homem, em boa postura, pedindo ao guarda-freio lhe desse licença de sua esposa para um passo respeitoso. Os olhos aterrados dela esperaram cair a tempestade. Mas não. Justino contemplou o moço e lhe fez amplo sinal de anuência. A esposa arguiu:

_ Mas eu preferia dançar primeiro com meu marido.

– Você sabe que eu nunca danço…

E como ela ainda hesitasse ele lhe ordenou quase em sigilo de ternura: Vá, Glorinha, se divirta!

E ela foi, vagarosa, espantalhada. Enquanto rodava ela fixava o seu homem sentado na mesa. Olhou fundo os seus olhos e viu neles um abandono sem nome, como esse vapor que restara de seu perfume. Então, entendeu: o marido estava a oferecê-la ao mundo. O baile, aquele convite, eram uma despedida. Seu peito confirmou a suspeita quando viu o marido se levantar e aprontar a saída. Ela interrompeu a dança e correu para Justino.

– Onde vai, marido?

– Um amigo me chamou, lá fora. Já volto.

– Vou consigo, Justino.

– Aquilo lá fora não é lugar das mulheres. Fique, dance com o moço. Eu já venho.

Glória não voltou à dança. Sentada na reservada mesa, levantou o copo domarido e nele deixou a marca de seu baton. E ficou a ver Justino se afastando entre a fumarada do salão, tudo se comportando longe. Vezes sem conta ela vira esse afastamento, o marido anonimado entre as neblinas dos comboios. Desta vez, porém, seu peito se agitou, em balanço de soluço. No limiar da porta, Justino ainda virou o rosto e demorou nela um último olhar. Com surpresa, ele viu a inédita lágrima, cintilando na face que ela ocultava. A lágrima é água e só a água lava tristeza. Justino sentiu o tropeço no peito, cinza virando brasa em seu coração. E fechou a noite, a porta decepando aquela breve desordem. Glória colheu a lágrima com dobra do próprio vestido. De quem, dentro dela mesma, ela se despedia?

Saiu do baile, foi de encontro às treva. Ainda procurou a velha carrinha. Ansiou que ela anda ali estivesse, necessitada de empurro. Mas de Justino não restava vestígio. Voltou a casa, sob o crepitar dos grilos. A meio do carreiro se descalçou e seus pés receberam a carícia da areia quente. Olhou o estrelejo nos céus. As estrelas são os olhos de quem morreu de amor. Ficam nos contemplando de cima, a mostrar que só o amor concede eternidades.

Chegou a casa, cansada a ponto de nem sentir cansaços. Por instantes, pensou encontrar sinais de Justino. Mas o marido, se passara por ali, levara seu rastro. A Glória não lhe apeteceu a casa, magoava-lhe o lar como retrato do falecido. Adormeceu nos degraus da escada.

Acordou nas primeiras horas da manhã, tonteando entre sono e sonho. Porque, dentro dela, em olfactos só da alma, ela sentiu o perfume. Seria o quê? Eflúvios do velho frasco? Não, só podia ser um novo presente, dádiva da paixão que regressava.

– Justino.

Em sobressalto, correu para dentro da casa. Foi quando pisou vidros, estilhaçados no sopé de sua janela. Ainda hoje restam, indeléveis pegadas de quando Glória estreou o sangue de sua felicidade.

Conto de Mia Couto no livro “Estórias Abensonhadas”
O livro foi publicado pela Editorial Caminho, em 1994.
No Brasil, é vendido pela Companhia das Letras.

Mar Me Quer, por Mia Couto

Mar Me Quer, por Mia Couto


Sou feliz só por preguiça. A infelicidade dá uma trabalheira pior que doença: é preciso entrar e sair dela, afastar os que nos querem consolar, aceitar pêsames por uma porção da alma que nem chegou a falecer. – Levanta, ó dono das preguiças. É o mando de minha vizinha, a mulata Dona Luarmina. Eu respondo: -Preguiçoso? Eu ando é a embranquecer as palmas das mãos. -Conversa de malandro… – Sabe uma coisa, Dona Luarmina? O trabalho é que escureceu o pobre do preto. E, afora isso, eu só presto é para viver… Ela ri com aquele modo apagado dela. A gorda Luarmina sorri só para dar rosto à tristeza. – Você, Zeca Perpétuo, até parece mulher… – Mulher, eu? – Sim, mulher é que senta em esteira. Você é o único homem que eu vi sentar na esteira. – Que quer vizinha? Cadeira não dá jeito para dormir. Ela se afasta, pesada como pelicano, abanando a cabeça. Minha vizinha reclama não haver homem com miolo tão miúdo como eu. Diz que nunca viu pescador deixar escapar tanta maré:

– Mas você, Zeca: é que nem faz ideia da vida. – A vida, Dona Luarmina? A vida é tão simples que ninguém a entende. É como dizia meu avô Celestiano sobre pensarmos Deus ou não Deus…

Além disso, pensar traz muita pedra e pouco caminho. Por isso eu, um reformado do mar o que me resta fazer? Dispensado de pescar, me dispenso de pensar. Aprendi nos muitos anos de pescaria: o tempo anda por ondas. A gente tem é que ficar levezinho e sempre apanha boleia numa dessas ondeações. – Não é verdade, Dona Luarmina? A senhora sabe essas línguas da nossa gente. Me diga, minha Dona: qual é a palavra para dizer futuro? Sim, como se diz futuro? Não se diz, na língua deste lugar de África. Sim, porque futuro é uma coisa que existindo nunca chega a haver. Então eu me suficiento do actual presente. E basta. – Só eu quero é ser um homem bom, Dona. – Você é mas é um aldrabom.

contioutra.com - Mar Me Quer, por Mia CoutoA gorda mulata não quer amolecer conversa. E tem razão, sendo minha vizinha desde há tanto. Ela chegou ao bairro depois da morte de meus pais, quando herdei a velha casa da família. Nessa altura, eu ainda pescava em longas viagens, semanas de ausência nos bancos de Sofala. Nem notava a existência de Luarmina. Também ela, logo que desembarcou, se internou na Missão, em estágio para freira. Ficou enclausurada nessas penumbras onde se murmura conversa com Deus. Só uns anos mais tarde ela saiu dessa reclusão. E se instalou na casa que os padres lhe destinaram, bem junto à minha morada. Luarmina costureirava, era seu sustento. Nos primeiros tempos, ela continuava sem se dar às vistas. Só as mulheres que entravam em seus domínios é que lhe davam conta. No resto, me chegavam apenas os perfumes de sua sombra. Um dia o padre Nunes me falou de Luarmina, seus brumosos passados. O pai era um grego, um desses pescadores que arrumou rede em costas de Moçambique, do lado de 1á da baía de S. Vicente. Já se antigamentara há muito. A mãe morreu pouco tempo depois. Dizem que de desgosto. Não devido da viuvez, mas por causa da beleza da filha. Ao que parece, Luarmina endoidava os homens graúdos que abutreavam em redor da casa. A senhora maldizia a perfeição de sua filha. Diz-se que, enlouquecida, certa noite intentou de golpear o rosto de Luarmina. Só para a esfeiar e, assim, afastar os candidatos.

Depois da morte da mãe, enviaram Luarmina para o lado de cá, para ela se amoldar na Missão, entregue a reza e crucifixo. Havia que arrumar a moça por fora, engomá-la por dentro. E foi assim que ela se dedicou a linhas, agulhas e dedais. Até se transferir para sua actual moradia, nos arredores de minha existência.

Só bem depois de me retirar das pescarias é que dei por mim a encostar desejos na vizinha. Comecei por cartas, mensagens à distância. À custa de minhas insistências namoradeiras Luarmina já aprendera as mil defesas. Ela sempre me desfazia os favores, negando-se. – Me deixa sossegada, Zeca. Não vê que eu já não desengomo lençol? – Que ideia, Dona vizinha? Quem lhe disse que eu tinha essa intenção? Todavia, ela tem razão. Minhas visitas são para lhe caçar um descuido na existência beliscar-lhe uma ternura. Só sonho sempre o mesmo: me embrulhar com ela, arrastado por essa grande onda que nos faz inexistir. Ela resiste, mas eu volto sempre ao lugar dela. – Dona Luarmina, o que é isso? Parece ficou mesmo freira. Um dia, quando o amor lhe chegar, você nem o vai reconhecer… – Deixe-me, Zeca. Eu sou velha, só preciso é um ombro.

Confirmando esse atestado de inutensílio, ela esfrega os joelhos como se fossem eles os culpados do seu cansaço. As pernas dela da maneira como incham, dificultam as vias do sangue. Lhe icebergam os pés, a gente toca e são blocos de gelo. E ela sempre se queixa. Um dia aproveitei para me oferecer: – Quer que lhe aqueça os pés? Arrepiando expectativa, ela até aceitou. Até eu fiquei assim, meio desfisgado, o coração atropelando o peito. – Me aquece, Zeca? – Sim, aqueço mas… pela parte de dentro.

Excerto do livro “Mar Me Quer“, de Mia Couto (Editorial Caminho)

O Transtorno de Jekyll & Hyde

O Transtorno de Jekyll & Hyde

Será que dá pra imaginar o que é abandonar o país em se nasceu e se viveu, ter que sair de lá em fuga, por causa de guerra, violência e destruição, talvez depois de ver uma grande parte da família morrer ao seu lado? Cruzar países e mares carregando seu filho e os únicos pertences que sobraram dentro de uma sacola plástica, sempre com o medo de ser capturado pelas polícias locais? Passar fome e privações durante toda a viagem, vendo seu filho depender da ajuda eventual de estranhos, incapaz de fazer qualquer coisa para melhorar a situação, além de continuar a viagem, tentando chegar a um futuro melhor? Cruzar uma fronteira para atravessar um país inteiro a pé, sabendo que os habitantes poderão te encarar como um criminoso ou terrorista? Ter que fugir de uma polícia que talvez tente te mandar para o lugar de onde saiu, zerando todo o sacrifício feito?

Acho que não dá pra ter a real noção do que seja realmente tudo isso, só dá mesmo pra tentar imaginar. Mas nem todos fazem esse esforço, se limitando a enxergar apenas uma ameaça em pessoas que passaram por tudo isso. É o caso da cinegrafista Petra Lazlo que derrubou um pai que corria com o filho nos braços, enquanto fazia a cobertura da entrada de imigrantes sírios na Hungria. Depois ainda deu chutes em uma menina que passou correndo por ela. Em sua defesa, ela disse que teve um momento de descontrole e que se sentiu ameaçada. Disse ainda que não viu quem agredia, por estar segurando uma câmera.

Se a gente olhar as imagens, fica difícil em acreditar na última parte. As agressões parecem conscientes e bem dirigidas. Daria para acreditar no momento de descontrole, mas de onde ele veio? Não da situação em si, ao que parece. Tanto Petra quanto os outros cinegrafistas não parecem ameaçados em momento algum. No momento em que ela derruba o Homem com o Filho nos Braços, ele está isolado da multidão, conduzido por um policial que parece apenas tentar fazê-lo correr para o lado certo, sem tentar capturá-lo. Petra o derruba assim que ele sai do alcance do policial e, depois que ele cai, aponta sua câmera para ele, filmando-o.

Difícil entender o que se passou na cabeça dela. A própria Petra também é mãe, tem uma família e deseja o melhor para ela. Mas ela também pertence a um partido de extrema-direita, que doutrina seus seguidores a encarar todo aquele que não tem a sua ideologia, religião, cor de pele ou nacionalidade como um inimigo que deve ser mantido longe das fronteiras. Naquele momento, no meio da correria entre policiais e refugiados, Petra tinha dois lados que poderiam se manifestar: um, que poderia fazer com que ela se identificasse com uma pessoa que tenta oferecer um futuro melhor para o filho; outro, onde um condicionamento ideológico a ensinou apenas a enxergar um potencial futuro criminoso. Falou mais alto o segundo, e com uma força tão grande que a levou a sair da posição profissional que exercia e interferir na situação, com violência.

Na carta que escreveu tentando explicar o acontecido, Petra diz: “Eu não sou uma cinegrafista racista, sem coração, que chuta crianças. Eu não mereço a caça às bruxas em que me atiraram, nem as ameaças de morte. Sou apenas uma mulher, que acabou de se tornar uma mãe desempregada.” Petra pode ser uma pessoa como tantas outras, gentil, carinhosa, amada pela família e admirada pelos amigos. Mas naquele campo, na fronteira da Sérvia com a Hungria, Hyde prevaleceu sobre Jekyll.

Um lugar onde o lado Hyde costuma aflorar com mais facilidade é exatamente aqui, na Internet. Parece que estar online funciona como uma espécie de poção, onde aquela pessoa pacata que a gente encontra todo dia no elevador, levando o cachorro para passear, se transforma em alguém capaz de chutar crianças em um campo húngaro. É só ver alguns comentários sobre o caso de Petra:

“Ótima ação, minha co-irmã. Essas pessoas estão ILEGALMENTE em Europa. São alienígenas. Possuem ZERO direito garantido pelas constituições. Tudo que elas querem é espalhar caos e terceiro-mundismo pela Europa. E que não permitiremos que alienígenas destruam tudo pel oqual nossos antepassados já derramaram muito suor e sangue… Deportemos TODOS eles: VIVOS OU MORTOS!”

“Esta é uma atitude de pura revolta pela a invasão de zumbis na Europa !!! Bela atitude da cinegrafista indignada com o fluxo de invasores em seu país …. Pois eu faria o mesmo!!! “

Apoiar a invasão no país alheio é fácil! Acho que deveriam repatriá los e se virem com seus problemas!”

“É isso que aconteceria se separarmos o sul e colocarmos uma barreira na fronteira, muitos nordestinos tentando invadir!”

“Os brasileiros hipócritas e esquerdistas merecem isso, eu espero ansiosamente para que encham o País (menos o Sul é claro) com estes refugiados para eles sintam na pele o erro que cometem ao condenar o Cristianismo e a civilização Ocidental!!”

Saiba mais:

contioutra.com - O Transtorno de Jekyll & HydeA personalidade de Jekyll e Hyde descreve alguém com uma personalidade dupla, cada um distinto e totalmente oposto. Um lado de uma dupla personalidade pode ser amigável e descontraído, enquanto o outro lado pode ser retirado ou até mesmo violenta. Pessoas com transtorno de personalidade borderline ou transtorno bipolar são freqüentemente descritos como sendo este tipo de pessoa.   Transtorno de Personalidade Múltipla em “O Médico e o Monstro”

São urgentes novas memórias

São urgentes novas memórias

Para os meus amigos

São urgentes novas memórias, daquelas que podem ser repetidas mil vezes e continuar a fazer sorrir. Daquelas que fazem doer a barriga de tanto rir e surgir lágrimas nos olhos de tanta alegria e saudade. É urgente, por isso, viver. Viver momentos que tantos de nós deixámos no passado, aqueles momentos de descontração e evasão que pareciam poder durar para sempre. Quando aquela música tocava e começávamos a cantar com a mesma espontaneidade com que trocávamos olhares cúmplices daqueles amigos que não precisam de mais nada para além de estarem juntos. Quando não era preciso assim tanto dinheiro para passar um bom bocado, quando tudo parecia mais fácil e simples: não era mas sentia como tal.

É urgente estarmos com os nossos amigos, não os adiarmos, não nos adiarmos, não adiar a vida. É urgente dizer-lhes o que de mais precioso temos guardado porque não é preciso um momento especial para dizer: “olha, amo-te!”. Pois eu amo-vos meus amigos. Era urgente dizer isto, urgência proporcional aos dias, meses e talvez anos que não o disse a alguns de vós.

Gosto de conhecer outras pessoas, fazer novas amizades mas não tanto como gostaria de vos ter a cada um de vocês de volta na minha vida. Bem sei que, como um grande amigo uma vez me disse, os conhecidos, amigos e melhores amigos acabam todos por ser igualmente importantes na nossa vida se acreditarmos que tudo acontece por uma razão e cada pessoa está e fica exatamente o tempo que tinha de ficar. Mas se pudesse trocava as voltas ao destino só para vos dar mais um abraço, um beijo e dizer o quanto gosto de vocês. Talvez tu meu amigo que já não falo há muito tempo leias este texto e, nesse momento, só quero que saibas que não te esqueci e podes contar comigo.

Acredito que não se deixa de ser amigo de quem se já foi verdadeiramente amigo… mas às vezes mesmo esses amigos deixam praticamente de se falar. Não tem de ser assim. Diz-lhe o quanto sentes saudades de quando passavam mais tempo juntos, de quando as conversas vos faziam esquecer o relógio e as gargalhadas eram tão altas que ficavam todos a olhar. Diz-lhe que não esqueces aquele abraço que te fazia esquecer os problemas nem que fosse por breves segundos. Diz-lhe isso, que não precisas de formalidades, não é preciso marcar um jantar, só queres mesmo estar com ele(a) seja onde for. Não é preciso um pretexto, basta o coração querer.

Já houve um tempo que dedicava muito tempo aos meus estudos e passava pouco tempo com os meus amigos. Presta atenção: no final do dia não são os livros que vão te dar um abraço e dizer tudo aquilo que precisas para ter forças para continuar. Muitas das aprendizagens que fazemos na vida nos soam a óbvias mas só são assim depois de feitas. Talvez dizer-te isto não te vai fazer dedicares-te menos tempo aos estudos, ao trabalho, o que for e passares mais tempo com os teus amigos. Oxalá fizesse! Oxalá te fizesse hoje mesmo olhar para um amigo nos olhos e dizer-lhe tudo o que te vai na alma. Oxalá te fizesse esquecer toda a mágoa que ainda mói a tua energia e não te tem permitido dar tudo o que de bom tens em ti. Mas vai, salta, corre, abraça, beija, ama, vive hoje! Não te adies.

Campanha chinesa alerta para o distanciamento entre as pessoas devido ao excesso de tecnologia

Campanha chinesa alerta para o distanciamento entre as pessoas devido ao excesso de tecnologia

Uma campanha produzida pela Ogilvy Beijing para o Centro de Pesquisas em Psicologia tem gerado discussões calorosas nas redes sociais. Intitulada “The More You Connect, The Less You Connect”, em tradução livre “Quanto mais você conecta, menos você conecta”, ela traz imagens chocantes de pessoas no mesmo ambiente separadas por um smartphone gigante.

Nas redes sociais, muitos dizem que as imagens encorajam a pensar como somos dependentes de conexão e acabamos negligenciando aqueles que nos rodeiam. Já outros internautas dizem que a campanha é um exagero e que a tecnologia não pode ser culpada pelo distanciamento entre as pessoas. Abaixo, mais duas fotos da campanha.
contioutra.com - Campanha chinesa alerta para o distanciamento entre as pessoas devido ao excesso de tecnologia

contioutra.com - Campanha chinesa alerta para o distanciamento entre as pessoas devido ao excesso de tecnologia
contioutra.com - Campanha chinesa alerta para o distanciamento entre as pessoas devido ao excesso de tecnologia
Fonte: Revista Crescer

Dica de livro- Cartas a um Jovem Terapeuta

Dica de livro- Cartas a um Jovem Terapeuta

“Independente da abordagem utlizada, este livro trás reflexões importantes acerca da profissão, que muitas vezes são deixadas de lado nos cursos de formação.” Silvana Cardoso

Através de cartas imaginárias enviadas a dois terapeutas iniciantes, o psicanalista Contardo Calligaris divide com o leitor todo seu conhecimento e experiência em psicologia. Calligaris recorre ao eficiente método de perguntas e respostas para discutir e se aprofundar na profissão, e dá as informações necessárias a quem deseja conhecê-la melhor.

Encontre o livro:

Saraiva

Submarino

Cultura

Lugar de criança não é no shopping

Lugar de criança não é no shopping
Little girl strolling in shopping mall with mom

Feriado chuvoso, ficou na cidade e não tinha o que fazer. Bingo. Foi pro shopping com as crianças. A cena é comum aos finais de semana na cidade. Shoppings cheios, restaurantes cheios, corredores cheios. Tudo cheio. Final de semana parece sinônimo de passeio em shopping. Pelo menos é o que mostra o comportamento de 70% das famílias brasileiras. Passear no shopping aos finais de semana é programa. Fato. Agora reveja a cena: toda essa lotação + barulho e adicione crianças. Crianças pequenas, muitas em carrinhos, que passam a tarde fechadas num shopping vendo vitrine, andando por corredores de lojas. Aprendendo que consumo é sinônimo de diversão, de lazer.

Criança tem energia, e dentro do shopping não pode correr, vamos combinar! Não pode correr, não pode rolar no chão, não pode entrar no meio das araras, não pode pôr a mão suja na vitrine, não pode gritar, não pode lutar com o irmão, não pode um monte de coisas. E daí que chega um certo momento, depois de umas três horas que essa criança está ali, que ela se joga no chão, dá chilique. Ela está estafada de barulho e de não fazer nada. Tá pedindo pelo amor de Deus, me leva embora daqui! Mas os pais pedem um pouco mais de paciência, querem passear mais um pouco. A criança não tem e dá mais um chilique. A família corre pra loja de brinquedo e logo compra alguma coisa. Ou para pra comer um doce. Assim seguram mais um pouco a criança ali. Com isso nossos pequenos crescem aprendendo que basta dar um ataque que se consegue o que quer. Valores roubados.

Criança deveria estar no parque com a família. Deveria ir andar de bicicleta, brincar na praça, subir em arvore, balançar, brincar no parquinho e mais uma infinidade de coisas que a cidade oferece. Criança precisa ver a cor do céu, respirar ar puro, ter contato com valores mais verdadeiros, mais cheios de intenção. Precisam gastar energia de forma correta. Energia de criança, de infância. Chegar suada no final do dia de tanto brincar e capotar na cama. Ah! Pois é, brincar cansa! Isso significa que você vai cansar também, porque não dá pra sair pra passear e ficar 100% do tempo sentada na grama mandando seu filho brincar. Vai lá. Brinque junto. Empurre-o no balanço, ajude-o a subir numa árvore… Mexa-se junto com ele. Afinal finais de semana em família são feitos pra gente ficar junto.

Não dentro de um shopping passeando por corredores de loja. Não podemos fazer da eventualidade uma rotina e achar que isso é normal. Tem um ditado que diz que a vida é feita de escolhas. E escolhas cujas consequências dentro da infância não avaliamos são um tiro no pé. Shopping não é um lugar adequado para uma criança passar a tarde de um final de semana em família. A frase foi comprida pra ser completa. Um reforço aqui no meio do texto.

E pra que se faça diferente é preciso que os pais façam escolhas mais equilibradas, pra que as crianças não se preencham de vontades e “querer”. Preencher esse “querer” com vitrines e consumo é certamente um programa vazio de infância. As cidades proporcionam muito mais às famílias e às nossas crianças. Vamos procurar fazer melhores escolhas para construir um futuro mais saudável e feliz a nossos pequenos. Onde possam preencher suas escolham com algo muito maior do que sacolas e compras. Criança aprende brincando, e consumo não é brincadeira.

Por Carolina Delboni
Fonte indicada: Brasil Post

O que é covardia? – Flávio Gikovate

O que é covardia? – Flávio Gikovate

A covardia é uma das muitas emoções que nos acompanha. Presente em quase todos nós em alguma circunstância, ela não é obrigatoriamente o medo de agressividade física.

Muitos outros ingredientes podem determinar a conduta acuada de um indivíduo diante de situações que envolvam violência direta ou indireta, ou mesmo sutil, como é o caso da inveja.

Para mais informações sobre Flávio Gikovate

Site: www.flaviogikovate.com.br
Facebook: www.facebook.com/FGikovate
Twitter: www.twitter.com/flavio_gikovate
Livros: www.gikovatelojavirtual.com.br

Esse blog possui a autorização de Flávio Gikovate para reprodução deste material.

Mais livros de Flávio Gikovate

O impacto do ensino da arte (ou da falta dele) na percepção do mundo

O impacto do ensino da arte (ou da falta dele) na percepção do mundo

“A arte é o casamento do ideal e do real. Fazer arte é um ramo da artesania. Artistas são artesãos, mais próximos dos carpinteiros e dos soldadores do que dos intelectuais e dos acadêmicos, com sua retórica inflacionada e autorreferencial. A arte usa os sentidos e a eles fala. Funda-se no mundo físico tangível.” – Camille Paglia, Imagens cintilantes

A escritora norte-americana Camille Paglia é conhecida por desafiar as ideias em voga nos mais diversos campos. Professora de Humanidades e Estudos Midiáticos da University of the Arts da Filadélfia, é autora de obras que misturam cultura pop, história da arte, sexualidade e os diferentes meios que tornam o homem um espectador: seja na frente da televisão, de um Pollock ou de sua própria vida.

Em sua mais recente obra, Imagens cintilantes – uma viagem através da arte desde o Egito a ‘Star Wars’ (Apicuri, 2014), Camille retorna ao local que a consagrou, a crítica à arte contemporânea. No livro, a autora analisa 29 obras que considera fundamentais na história da arte e afirma, com certa decepção, que os jovens deixaram ofícios como a pintura e a escultura para emprestar sua lealdade à tecnologia e ao design industrial.

Paglia resumiu o panorama que motivou a criação de Imagens cintilantes:

“O olho sofre com anúncios piscando na rede. Para se defender, o cérebro fecha avenidas inteiras de observação e intuição. A experiência digital é chamada interativa, mas o que eu vejo como professora é uma crescente passividade dos jovens, bombardeados com os estímulos caóticos de seus aparelhos digitais. Pior: eles se tornam tão dependentes da comunicação textual e do correio eletrônico, que estão perdendo a linguagem do corpo.”

De acordo com ela, esta degeneração gradativa da percepção/expressão tem um grande inimigo: o mercado – das galerias às instituições de ensino. Segundo a norte-americana, este mercado não é apenas um objeto a ser combatido, mas sim um profundo problema de visão sobre a vida, que parte, também, do espectador. Ensinado a enxergar o mundo apenas de forma política e ideológica, o homem contemporâneo teria perdido a esfera do sensível, do invisível, do metafísico. Este contexto de constante estímulo atinge a sociedade como um todo, como Camille argumenta logo na introdução da obra:

“A vida moderna é um mar de imagens. Nossos olhos são inundados por figuras reluzentes e blocos de texto explodindo sobre nós por todos os lados. O cérebro, superestimulado, deve se adaptar rapidamente para conseguir processar esse rodopiante bombardeio de dados desconexos. A cultura no mundo desenvolvido é hoje definida, em ampla medida, pela onipresente mídia de massa e pelos aparelhos eletrônicos servilmente monitorados por seus proprietários. A intensa expansão da comunicação global instantânea pode ter concedido espaço a um grande número de vozes individuais, mas, paradoxalmente, esta mesma individualidade se vê na ameaça de sucumbir.

Como sobreviver nesta era da vertigem? Precisamos reaprender a ver. Em meio à tamanha e neurótica poluição visual, é essencial encontrar o foco, a base da estabilidade, da identidade e da direção na vida. As crianças, sobretudo, merecem ser salvas deste turbilhão de imagens tremeluzentes que as vicia em distrações sedutoras e fazem a realidade social, com seus deveres e preocupações éticas, parecer estúpida e fútil. A única maneira de ensinar o foco é oferecer aos olhos oportunidades de percepção estável – e o melhor caminho para isso é a contemplação da arte.”

Ainda em seu texto introdutório, Camille critica as instituições de ensino por falharem completamente no ensino da visão que nos tiraria desta vertigem. Se precisamos reaprender a ver, as faculdades de arte, para ela, poderiam ser consideradas mais um empecilho do que uma parceira nesta tarefa. Leia, abaixo, o que ela tem dizer sobre isso a partir de excerto do livro Imagens cintilantes:

“É de uma obviedade alarmante que as escolas públicas norte-americanas têm feito um mau serviço na educação artística dos estudantes. Da pré-escola em diante, a arte é tratatda como uma prática terapêutica – projetos com cartolina do tipo “faça você mesmo” e pinturas com os dedos para liberar a criatividade oculta das crianças. Mas o que de fato faz falta é um quadro histórico de conhecimentos objetivos acerca da arte. As esporádicas excursões ao museu, mesmo que haja um por perto, são inadequadas. Os cursos de história da arte deveriam ser integrados ao currículo do ensino primário, fundamental e médio – uma introdução básica à grande arte e a seus estilos e símbolos. O movimento multiculturalista que se seguiu à década de 1960 ofereceu uma tremenda oportunidade para expandir o nosso conhecimento do mundo da arte, mas suas abordagens têm com demasiada frequência sacrificado a erudição e a cronologia em favor de um partidarismo sentimental e de queixumes rotineiros.

Era de se esperar que as faculdades que oferecem cursos de artes liberais dessem ênfase à educação artística, mas não é esse o caso. O atual currículo, de estilo self-service, torna os cursos de história da arte disponíveis, mas não obrigatórios. Com raras exceções, as universidades abandonaram toda noção de um núcleo de aprendizado. Os departamentos de humanidades oferecem uma mixórdia de cursos feitos sob medida para os interesses de pesquisa dos professores. Tem havido um gradual eclipse, nos Estados Unidos, do curso de história geral da arte, que cobria magistralmente, em dois semestres, da arte das cavernas ao modernismo. Apesar de sua popularidade entre os estudantes, que se recordam deles como pontos culminantes em suas vivências universitárias, os cursos gerais são cada vez mais vistos como excessivamente pesados, superficiais ou eurocêntricos – e não há mais vontade institucional de estendê-los para a arte mundial.

Jovens professores, criados em meio ao pós-estruturalismo, com sua suspeita mecânica da cultura, consideram-se especialistas, e não generalistas, e não foram treinados para pensar sobre trajetórias tão vastas. O resultado final é que muitos alunos de humanidades se formam com pouco senso da cronologia ou da deslumbrante procissão de estilos que constituía a arte ocidental.

A questão mais importante acerca da arte é: o que permanece e por quê?

As definições de beleza e os padrões de gosto mudam constantemente, mas padrões persistentes subsistem. Defendo uma visão cíclica da cultura: os estilos crescem, chegam ao ápice e decaem para tornarem a florescer, num renascer periódico. A linha de influência artística pode ser vista claramente na cultura ocidental, com várias interrupções e recuperações, desde o Egito antigo até hoje – uma saga de 5 mil anos que não é (como diria o jargão acadêmico) uma “narrativa” arbitrária e imperialista. Grande número de objetos teimosamente concretos – não apenas “textos” vacilantes e subjetivos – sobrevivem desde a antiguidade e as sociedades que moldaram.

A civilização é definida pelo direito e pela arte. As leis governam o nosso comportamento exterior, ao passo que a arte exprime nossa alma. Às vezes, a arte glorifica o direito, como no Egito; às vezes, desafia a lei, como no Romantismo.

O problema com abordagens marxistas que hoje permeiam o mundo acadêmico (via pós-estruturalismo e Escola de Frankfurt) é que o marxismo nada enxerga além da sociedade. O marxismo carece de metafísica – isto é, de uma investigação da relação do homem com o universo, inclusive a natureza. O marxismo também carece de psicologia: crê que os seres humanos são motivados apenas por necessidades e desejos materiais. O marxismo não consegue dar conta das infinitas refrações da consciência, das aspirações e das conquistas humanas.

Por não perceber a dimensão espiritual da vida, ele reduz reflexivamente a arte à ideologia, como se o objeto artístico não tivesse outro propósito ou significado além do econômico ou do político.

Hoje, ensinam aos estudantes a olhar a arte com ceticismo, por seus equívocos, suas parcialidades, suas omissões e ocultos jogos de poder. Admirar e honrar a arte, exceto quando transmite mensagens politicamente corretas, é considerado ingênuo e reacionário. Um único erudito marxista, Arnold Hauser, em seu épico estudo de 1951, A história social da arte, teve bom êxito na aplicação da análise marxista, sem perder a magia e o mistério da arte. E Hauser (uma das influências iniciais do meu trabalho) trabalhava com base na grande tradição da filologia alemã, animada por uma ética erudita que hoje se perdeu.

A arte é o casamento do ideal e do real. Fazer arte é um ramo da artesania. Artistas são artesãos, mais próximos dos carpinteiros e dos soldadores do que dos intelectuais e dos acadêmicos, com sua retórica inflacionada e autorreferencial. A arte usa os sentidos e a eles fala. Funda-se no mundo físico tangível.

O pós-estruturalismo, com suas origens linguísticas francesas, tem a obsessão pelas palavras e, com isso, é incompetente para interpretar qualquer forma de arte além da literatura. O comentário sobre arte deve abordá-la e descrevê-la em seus próprios termos. Deve-se manter um delicado equilíbrio entre os mundos visível e invisível. Aqueles que subordinam a arte a uma agenda política contemporânea são tão culpados de propaganda e rigidez literal como qualquer pregador vitoriano ou burocrata stalinista.

Fonte indicada: Fronteiras do Pensamento

Encontre o livro Imagens cintilantes – uma viagem através da arte desde o Egito a ‘Star Wars’ (Apicuri, 2014)

Maria Callas interpretada por Christiane Torloni emociona São Paulo

Maria Callas interpretada por Christiane Torloni emociona São Paulo

Considerada a maior soprano de todos os tempos, Maria Callas teve sua história contada por muitos em palcos ao redor do mundo, em diferentes montagens. Terrence McNally foi um dos dramaturgos que investigou a cantora lírica: o americano estreou em 1995 um dos mais aclamados e premiados espetáculos da Broadaway, “Master Class”, com montagens em vários países e que ganha uma nova versão brasileira. No papel da cantora está Christiane Torloni, dirigida pelo amigo de mais de 25 anos José Possi Neto.

Quem foi Maria Callas?

Nascida em Nova Iorque em 1923, filha de pais gregos, com pouca idade revelava seus dotes musicais. Seu nome completo era Maria Cecilia Sofia Anna Kalogeropoulou. Em 1937 parte para a Grécia com sua mãe, com quem sempre teve uma relação extremamente difícil. Curiosamente sua mãe e sua irmã, que falaram sempre coisas horríveis da cantora, ficaram milionárias ao herdar a maior parte de sua herança.

Foi na Grécia que Callas começou a estudar musica de forma séria. Cantou algumas vezes em seu país, mas sua glória internacional começou na Itália. Em 1948 despontava, em Florença, uma cantora excepcional, sobretudo como interprete de papéis altamente dramáticos, como a Norma de Bellini.

Sua base musical extremamente solida permitiu que ela aprendesse diversos papéis em pouquíssimo tempo. Sua versatilidade vocal a fazia ter facilidade para cantar papeis dramáticos, como a personagem título de A Valquíria de Wagner (que ela cantava em italiano), e um papel extremamente leve e ágil como o de Elvira, da ópera I Puritani de Bellini, na mesma semana. Logo se tornaria a grande estrela do teatro de ópera mais importante da Itália, o La Scala de Milão. O que mais fascinava o publico italiano, e posteriormente outras plateias na Europa e nos Estados Unidos, era o fato de que Maria Callas não era apenas uma grande cantora. Era também uma grande atriz. Seu comprometimento dramático era tal, que ao final de cada espetáculo estava completamente esgotada.

Callas era muito exigente consigo mesma. Estudava muitas horas, e me foi contado por testemunhas, que em São Paulo, onde atuou em 1951, corria como uma atleta pelo palco, e quando estava ofegante começava a vocalizar. Seus anos dourados vão de 1950 até 1958. Daí em diante sua carreira entra em declínio, quando abandona sua ferrenha disciplina ao conhecer e se apaixonar pelo milionário grego Aristóteles Onassis. Sua paixão a fez reduzir consideravelmente suas apresentações, e praticamente não acrescentou nenhum papel novo em seu repertório. Sua voz no inicio dos anos 60 era extremamente irregular, apesar de que seu empenho dramático continuou intacto. Depois de morar anos na Itália, muda-se para a França na década de 60, e fixa-se em Paris até sua morte. Em 1964 Callas teve seu último êxito num palco operístico, quando no Covent Garden , em Londres, atuou num de seus papéis favoritos: Tosca de Puccini. Suas ultimas apresentações na Ópera de Paris, com a Norma de Bellini , em 1965, foram calamitosas, e nunca mais se apresentou em uma encenação operística.

Sua tristeza pessoal arruinou a sua vida artística, e podemos resumir esta tristeza com dois fatos marcantes: o fato de Onassis ter casado com Jaqueline Kennedy, e o fato de ela ter perdido um filho de Onassis. Seus últimos anos a viram, de forma esporádica, como professora na Julliard School, em Nova Iorque, e como atriz na Medeia de Pasolini, e em 1974 voltou aos palcos em recitais por diversas partes do mundo, junto ao tenor Giuseppe di Stefano, recitais estes que foram infelizmente gravados, gravações estas que mostram o estado deplorável de sua voz. Isolada, deprimida acabou falecendo aos 54 anos, de um enfarto fulminante. Morreu só.

Detalhes da peça

  • Nome: Master Class
  • Gênero: Musical
  • Diretor: José Possi Neto
  • Elenco: Christiane Torloni, Julianne Daud, Bianca Tadini, Leandro Lacava, Thiago Rodrigues, Thiago Soares e Jayana Gomes Paiva
  • Horários: Quinta às 21h; sexta às 21h30; sábado às 21h; domingo, às 19h.
  • Local: Avenida Rebouças, 3970 – Teatro das Artes do Shopping Eldorado – Pinheiros, Sao Paulo, SP.
  • Período: 03/Setembro a 22/Novembro de 2015.
contioutra.com - Maria Callas interpretada por Christiane Torloni emociona São Paulo
Imagem de capa- Foto divulgação

Com informações sobre a peça via Rede Globo e biografia da cantora dos arquivos da Gazeta do Povo.

Dica Saraiva: 30 Complete Operas de Maria Callas- Box Com 64 CDs

Os crimes não catalogados contra o coração

Os crimes não catalogados contra o coração

Acho que algumas formas de ‘amar’ deveriam ser crime.

Deveria ser crime seduzir alguém quando não se está disponível afetivamente. Despertar sentimentos num coração que andava sereno, gerar sonhos nos olhos do outro para depois abandoná-los sem se responsabilizar.

Deveria ser crime agir de má fé com um coração, prevendo o resultado lesivo de uma conduta e, mesmo assim, leva-la adiante, consumando o ato.

Deveria ser crime amar com a intenção de ferir, descarregar as dores de uma vida na pele da apaixonada vítima.

Deveria ser crime o bullying com as carências afetivas. Levar na brincadeira o que no outro é tão sério. Desrespeitar e fazer troça dos sintomas da paixão evidentes nas atitudes do outro.

Deveria ser crime o egoísmo de querer o desejo de alguém que não se quer.

Querer alguém te amando quando não se tem nada para oferecer. Colocar em banho maria corações ansiosos e sedentos. Pedir para que esperem uma resolução que nunca virá.

Deveriam ser crime as mentiras ditas para ganhar tempo.

Querer a lealdade dos sentimentos do outro quando tudo que se pode oferecer  são intermináveis incertezas.

Deveria também ser crime dispensar um coração sem tomar cuidado. Descartar pessoas como roupas velhas. Dizer adeus sem olhar nos olhos, ou pior, nunca dizer adeus. Terminar por mensagem telefônica. Ou pior, não terminar e deixar a ficha do outro cair ao desfilar sem piedade com outro alguém ao lado.

Deveria ser crime despedaçar um coração covardemente, sem aviso prévio, sem honestidade, sem dar tempo para que ele processe a informação.

Deveria ser crime a covardia de não colocar as cartas na mesa.

A mania de criar um time reserva de corações esperançosos, sem avisa-los que eles, na verdade, são café com leite nesse jogo e nunca entrarão em campo.

Deveria ser crime o jogo sujo de criar uma fantasia que não existe. Só para alimentar o ego? Só pelo vício nessa droga que custa caro e tem efeito tão curto, chamada sedução.

Deveriam ser multados os repertórios manjados, os apelidos repetidos, as performances sexuais, a massificação do sentir. As atuações que visam capturar a ingenuidade (ou a vontade de se entregar) da outra pessoa.

Deveria ser crime a falta de criatividade amorosa.

Deveriam ser banidos os roteiros artificiais, os jogos de esquenta e esfria que só querem tornar os corações vassalos de suas vontades.

Deveriam ser punidos com multa o jogo de roleta que só quer flechar corações ao léo, pela sorte (ou azar).

Deveriam entrar em programas de reinserção social as pessoas que se auto-sabotam amorosamente, que têm medo de sentir e viver algo mais profundo, que  preferem o poder ilusório da frieza e o falso pedestal da invulnerabilidade. Deveriam passar por programas de reeducação emocional as pessoas que não sabem mergulhar de cabeça numa história amorosa.

Deveriam voltar para o jardim da infância, para reaprender o beabá de amar, as pessoas que confundem amor com contrato de posse.

Deveriam fazer trabalhos humanitários as pessoas que são ditadoras amorosas, controlando e punindo as atitudes, os pensamentos e os sentimentos alheios.

Deveriam estudar democracia social os corações militares que entendem que amar e viver é seguir regras externas e formatar e punir severamente as opiniões e os comportamentos julgados inaceitáveis.

Deveriam ser crime as torturas emocionais e a produção do medo. (aliás, acho que isso é crime mesmo).

Deveriam ser crime as censuras impostas aos corações que batem em outros peitos e que, justo por isso, são donos de si mesmos.

Deveriam ser banidos da face da Terra os relacionamentos que seguem a falida estrutura de recompensas, ameaças e castigos.

Deveriam ser interditados os agentes podadores de asas, os formatadores de gestos, os que ‘amam’ se importando com o que os outros pensam. Os que pensam que o ser amado é uma massinha de modelar, pronta para se adaptar às vontades de um coração perfeccionista e mimado.

Quantas pessoas tiveram o coração assaltado, sentimentos assassinados, espontaneidades massacradas?

Quantas pessoas tiveram que matar os próprios sentimentos inúmeras vezes?

Quantos são os amores corruptos, querendo somar vantagens, acobertando seus verdadeiros eus?

Anda a olhos nus, se alastrando por aí, a máfia do amar.

E só por que se usa a palavra ‘amor’ todos estão imunes, libertos, salvos.

O amor esconde os crimes.

As vítimas não recebem justiça e têm que arcar sozinhas com os lutos e os danos morais.

Deveria ser crime usar a palavra amor para justificar esses atos.

 

INDICADOS