Todo mundo tem um amigo louco, um amigo tímido, um amigo herói, problemático, romântico, cafona, hippie, safado, malandro… tem amigos que podem levar quase todas as denominações em um só! E por cada um deles, na maioria das vezes, são pessoas adoráveis, daquelas que sorrimos só de saber que iremos encontrá-los e ficamos realmente felizes com suas presenças.
Amigo é riqueza sem tamanho, a gente sabe disso. Ai de mim sem minhas amigas incríveis, sem meus amigos maravilhosos!
Eu afirmaria com muita certeza que, salvo os que decepcionei e também os que já ou ainda irão me decepcionar, amigo é casamento feliz, pra vida toda!
A coisa só fica esquisita no momento que seu amigo começa a te fazer pisar em ovos. – Opa, cadê aquela alegria que eu tinha quando estava indo te encontrar? Por que agora arrumo desculpas para não te telefonar, não responder suas mensagens? Por quais cargas d’água eu ando preferindo estudar a ir beber umas com você e dar risada até a barriga doer?
Um dia, sem maiores alardes, seu amigo começou a te cobrar presença, deu para soltar piadinha quando te vê com outro amigo, não se contendo então, partiu para as frases de efeito: – É, comigo você não vai para tal lugar; – Você nem gosta desse tipo de filme!; – Fica lá com seus amigos novos…
Esse amigo está enciumado, está chateado, está tentando te fazer sentir culpa.
Chato isso, mas pode ter explicação. A pessoa pode estar passando por uma fase insegura, pode estar se sentindo preterida, pode querer mais da sua atenção e não sabe como pedir.
Mas pode também ser uma pessoa controladora, esfomeada, manipuladora. E aí, ou você entrega o jogo e deixa ela te controlar, ou vira totalmente essa relação do avesso e começa tudo de novo.
Cartas na mesa, sinceridade na medida certa, e você explica, do fundo do coração, que essa amizade é importante, mas que em hipótese alguma você pode permitir se deixar controlar, nem pelo amigo, nem pelo amor, nem pelo cachorro, pelo terapeuta, pelo patrão, pelo pai, mãe, filhos, ninguém.
Explica que amor bonito é amor livre, que desconhece os medos de infidelidade, deslealdade, não lembra o tempo que passou, que acha bom o encontro e, naquele momento, a vida é mais feliz porque esse amigo está por perto!
O amor chega a quem espera, ainda que o tenham decepcionado; a quem ainda acredita, mesmo que antes tenha sido traído; a quem ainda precisa amar, mesmo que tenha sido ferido; e a quem tem coragem e fé para construir a confiança novamente.
Não se deixe levar pelo exterior, porque ele pode enganar. Não se deixe levar pelas riquezas, porque ela pode ser perdida. Procure alguém que faça você sorrir, porque um sorriso é capaz de fazer um dia escuro brilhar.
Espero que você encontre aquela pessoa que lhe faça sorrir! Há momentos nos quais você sente tanta saudade da pessoa em seus sonhos, que tem vontade de tirá-la dos seus sonhos e abraçá-la com todas as suas forças.
Espero que você sonhe com esse alguém especial e que essa pessoa sonhe o que você quer sonhar. Veja por onde você quer caminhar e seja o que você quer ser, porque você só tem uma vida e uma oportunidade de fazer tudo o que você quer fazer.
Espero que você tenha felicidade suficiente para tornar-se doce; provas suficientes para tornar-se forte; dores suficientes para ser um humano autêntico; esperança suficiente para ser feliz, recordando que as pessoas mais felizes nem sempre são as que têm o melhor de tudo.
“Sabe, homem é tudo igual.” Acho que todos nós já ouvimos isso. Não é segredo algum que as mulheres sempre reclamaram da sensibilidade masculina, quero dizer, da falta de sensibilidade de nós, homens. Outrora, isso não era nem imaginável como discussão, pois “homem que é homem não tem essas frescuras”. Contudo, o mundo mudou, as mulheres ganharam espaço e não admitem esse tipo de pensamento. Sendo assim, vem a pergunta: como os homens têm lidado com a tal da sensibilidade?
Apesar de toda evolução que a sociedade apresenta em relação à emancipação da mulher, sabemos que o machismo ainda existe e muito. Para a visão machista, um homem não pode ser sensível, pelo contrário, deve manter aquela postura inabalável, independentemente do que acontecer. E, como disse, há resquícios dessa visão na sociedade contemporânea.
Dessa forma, ser um homem com sensibilidade torna-se algo extremamente difícil, pois o homem sensível vive sob o jugo de preconceitos, como o de ser “afeminado”, fraco (inclusive no ponto sexual), chorão etc. “Homem tem que ser macho” – dizem, como se qualquer demonstração de fraqueza ou sentimentos deixasse o homem menos “macho”.
Aliás, essa visão machista acaba fazendo mal aos próprios homens, que se veem sobrecarregados com essa pressão de ser um homem bem sucedido, que anda bem vestido, em um bom carro, rodeado de pessoas que o “admiram”, homem culto, com piadas na hora certa, bom de cama e que, em hipótese alguma, é sensível.
No entanto, essas características podem fazer sucesso no barzinho, mas não garantem uma boa relação, pois a falta de sensibilidade implica falta de percepção do que acontece. E, para uma mulher, é horrível falar e não ser entendida. Apesar de todo mistério que as circunda, com um pouco de sensibilidade é, sim, possível entendê-las, ou pelo menos tentar.
Para tanto, é preciso sair da zona de conforto criada pelo machismo que impede os homens de poderem ouvir, de se colocarem no lugar do outro, de terem curiosidade em saber o que agrada a mulher amada, coisas que, no final, tornam o homem mais sensível e, por conseguinte, um amante melhor e muito mais macho.
Não há nada de errado em ser um homem que não tem medo de demonstrar o que sente, de mandar flores, escrever poemas – ainda que sejam do Caio Fernando e você diga que são seus –, pois homem que é macho tem sentimentos e, porque é macho, coloca-os para fora sem medo de ficar prisioneiro deles.
Entretanto, como já dito, não é fácil ser esse homem com sensibilidade, uma vez que os machistas de plantão sempre estão à solta fazendo a sua caça às bruxas.
Além disso, há de se considerar que, apesar da evolução das mulheres, estas ainda sentem dificuldade em lidar com a sensibilidade masculina, posto que o machismo ainda seja muito forte e, indiretamente, influencia toda uma cultura, um estado psicoafetivo, em que a mulher não está acostumada a lidar com a sensibilidade do homem.
Todavia, é insustentável possuir uma relação com as mesmas formas de agir das gerações anteriores, as quais estavam acostumadas a subjugar a mulher. A mulher moderna não aceita isso. Quer um homem que esteja lado a lado, de mãos dadas, e não querendo afundá-la para que possa sobressair.
Sendo assim, faz-se necessário que as mulheres consigam romper as amarras da cultura machista, para que lidem melhor com a sensibilidade masculina. E os homens devem estar dispostos a abrir mão do trono, para que possam ouvir mais as mulheres e, assim, mergulhar no prazeroso mundo dos mistérios da alma feminina.
No fim das contas, ser macho mesmo é ser sensível, pois são apenas estes que têm a coragem para dizer eu te amos sinceros, chorar nos momentos difíceis e não negar o colo da mulher amada quando a estrada parecer sem fim. Pois, como disse um poeta por aí:
Um homem também chora, menina morena. Também deseja colo, palavras amenas. Precisa de carinho. Precisa de ternura. Precisa de um abraço da própria candura.
O mundo passa rápido por nós. Andamos distraídos, tropeçando em nós mesmos. Vários universos se entrelaçam dentro da gente. Não somos esnobes, nem prepotentes, só estamos distantes prestando atenção às vozes que habitam nossos corações.
Dentro de nós existe um milhão de possibilidades. Perguntas pedem respostas e elas podem vir em horas não tão apropriadas. Ideias surgem e nos saltam da boca, rasgando o tempo e denunciando que não estávamos onde achavam que deveríamos estar.
Muitas vezes simples palavras ditas ao acaso, por outros, se misturam em nós e viram enredo para um filme que se passa só em nossa cabeça. E quando o filme começa muitas vezes a gente esquece de ouvir o que os outros tem a dizer. Mas não é por muito tempo, sempre voltamos à realidade, mais cedo ou mais tarde.
Vivemos no mundo da lua. Diziam antigamente que quem vivia lá era lunático, ou melhor, louco. Então somos um pouco assim e quem nos ouve com a razão sempre se atrapalha.
Não nos enquadramos em todos os lugares, não falamos todas as línguas e muitas vezes preferimos nos deixar quietos a nos declarar.
Guardamos em nosso silêncio um mar de palavras que tornam a vida intensa e interessante dentro da nossa cabeça.
Comumente esquecemos de nos apresentar. Ignoramos lamentavelmente um “oi” para dizer das coisas bonitas que descobrimos em nossas andanças. Inúmeras vezes passamos divagando pelo mundo, deixando de olhar para os lados.
Não temos nada contra ninguém. Não fingimos ignorar. Não negamos acenos ou apertos de mão. Apenas estávamos em outro tempo, em outro espaço, vivendo outras histórias.
Colocamos uma música nos ouvidos e viajamos nela, desligamos o botão da atenção e dançamos descompassados pela vida. Esquecemos o arroz no fogo, a torneira ligada, a luz acesa.
Perdemos as chaves, nunca lembramos todos os nomes e muitas vezes apertamos duas vezes a mesma mão.
Sentimos um calafrio quando nos perguntam “Você se lembra de mim?”, pois quase sempre não nos lembramos.
Guardamos coisas e depois nos esquecemos delas para encontrá-las lá no futuro como se fossem presentes mágicos do tempo para nós.
Detestamos a imposição dos horários. A imposição diplomática das coisas que tem que ser ditas ou feitas.
Resumimos discursos enfadonhos em um desenho que tem significado apenas em nós. Nos esquecemos às vezes de comer, de ligar, de ir, mas corremos afoitos atrás do tempo quando a percepção nos assalta.
Temos bom coração. Gostamos das pessoas e as transformamos em personagens de contos de fadas. Elas são mocinhos, bruxas e fadas que infestam a realidade mágica que nos habita.
Aceitamos viver em um mundo cheio de razão, mas somos nele emoção pura, como se de sonhos tivéssemos sido feitos. Caminhamos pelo cinza enchendo de cor tudo a nossa volta e deixamos furiosos apenas os que teimam em apagar as cores dos nossos sonhos prendendo com força nossos pés ao chão.
(Imagem de capa meramente ilustrativa)
“Palavras são mágicas, são como encantamentos sublimes que nos levam para onde quisermos, seja esse onde um lugar ou uma pessoa”. Acompanhe a autora no Facebook pela sua comunidade Vanelli Doratioto – Alcova Moderna.
É certo que o amor começa quase sempre pelo mesmo mecanismo perfeito, preciso, inexplicável que organiza o reencontro inesperado de dois velhos conhecidos numa cidade com seis milhões de habitantes. Do nada. Nasce com a impertinência de uma espinha no rosto da debutante, da noiva ansiosa, da madrinha solteira. No descabimento de um espirro durante o orgasmo, o amor também dá o ar de sua graça. Surge como visita inesperada, resfriado, bolada na praia, multa de trânsito, mamangava, maria-fedida, vagalume, conjuntivite, cabelo branco em adolescente, flor no asfalto, passarinho em escritório.
Sem aviso, o amor rompe a membrana tênue que separa as coisas elevadas, impossíveis, da vida corriqueira e seus acontecimentos rasteiros. Dá as caras à toa, sem mais, como alguém que vai ao mercado, o despertador que não toca, a moça que acorda com raiva, o pobre que acerta na loteria, o tombo da patinadora. Porque o amor pertence à insuspeitada categoria das coisas imprevisíveis. O amor vive no terreno do imponderável. É ali que ele respira, ali ele espera, invisível, seu tempo fortuito e incalculável de vir a ser.
Ah… o amor que adora despertar no desencontro absoluto e na coincidência escandalosa dos números inacreditáveis, na história improvável da moça que passa sete anos sozinha e, dois meses depois de engatar um namoro assim-assim, encontra um moço que viveu os mesmos sete anos casado e há dois meses — os mesmos e inacreditáveis dois meses — encerrou mais uma entre tantas tentativas de amar e ser amado. É, o amor também principia em desarranjo e escárnio divino.
Então, uma vez iniciado, o amor vive sua maior peleja: o meio. Porque difícil não é o começo e nem o fim do amor. É o meio, o que existe entre um e outro lado da história, entre a capa e a contracapa, a frente e o verso. O morno que um dia foi água pelando e no outro será gelo e indiferença. A segunda, terça, quarta e quinta feiras de todo amor.
Quando chega ao meio é que o amor se põe à prova. E só sobrevive a esse terreno esburacado e enganoso o amor dos amantes operários. O amor trabalhador. Porque é de subidas dolorosas, descidas traiçoeiras e retas sonolentas que se compõe esse meio-caminho.
Quem aprende a ficar e se manter de pé, a cair e levantar nesse território impreciso vive o amor em sua face mais primorosa. O amor parceiro de quem se sabe disposto a caminhar rumo ao inferno para estar ao lado do outro, ou na frente, ou atrás. Porque só quem sobrevive às trevas há de entrar no paraíso.
No meio do amor, é preciso perder o medo de se arrebentar inteiro no campo minado do dia a dia. Ali, os casais caminham com cuidado para não pisar em nenhuma mina, ora sabendo, ora não, que se um o fizer os dois serão atingidos na explosão, tão perto estão um do outro.
A quem supera essa fase é reservado um regalo sublime, bônus do exercício maravilhoso de amar: as lembranças. Vagas e adocicadas lembranças de longas conversas tarde da noite, ouvindo a cidade dormir lá fora. As memórias de viagens e festas, sábados de cinema, domingos de churrasco, segundas a sextas de trabalho, planos e sonhos. As reminiscências, tão sublimes quanto os instantes que as originaram. Afinal, seja qual for o tamanho do meio, um dia o amor chega ao fim.
Nesse dia, a decência dos amantes é medida pelo tamanho de seu desprendimento e de sua capacidade de engolir o pranto e dizer “adeus, seja feliz”. Porque só merece as dores e as delícias do amor aquele que um dia saiba deixar o outro ir em frente. E que aprenda a estar só novamente e a guardar a dor consigo até a dor passar, como as antigas personagens de desenho animado que engolem bananas de dinamite acesas.
No amor, que também ama a lógica, depois do começo e do meio vem o fim. Tempo em que ele se arrasta entre migalhas, restos e sobras. Como o guaraná que perde o gás, a cerveja que esquenta, a goiaba que passa do tempo e deixa a casa inteira com cheiro de quintal, é certo que o amor também acaba como começou. Do nada. Em nada, como uma estranha sombra pálida e triste, sinal agudo de que seu tempo já foi e de que é hora de seguir em frente para, tomara Deus seja logo, começar tudo de novo e de novo outra vez.
Os inocentes sempre sofrem as piores consequências das guerras, e quando não perdem a vida, se veem na obrigação de sair fugindo de seus países de origem para buscar refúgio em terras longínquas onde talvez possam encontrar um pouco de paz.
Atualmente o mundo vive um claro exemplo deste fato, com os conflitos que assolam a Síria, país onde o número de mortos estimados está em 220 mil pessoas.
Pelo temor de perder a vida e ser mais um número no total de vítimas fatais, muitas pessoas fugiram com a esperança de encontrar um lugar melhor para viver e criar suas famílias.
A comovente história que queremos compartilhar hoje é a de um dos sobreviventes desta guerra, que agora se encontra refugiado em Beirute, no Líbano, depois de fugir de seu lar em Yarmouk por medo do pior.
Trata-se de um pai solteiro conhecido como o “vendedor anônimo”, cujo verdadeiro nome é Adbul e cuja trajetória foi fotografada e contada em agosto de 2015, após demonstrar que o amor é a força que pode tudo.
A história…
O “vendedor anônimo” refugiado em Beirute só tinha oito canetas de tinta azul e o amor por sua querida filha de apenas 4 anos, que o acompanhou nesta luta para escapar dos conflitos de seu país.
Desde que chegou como refugiado até esta cidade, ele perambulou pelas ruas tratando sempre de proteger seu tesouro mais apreciado, a quem abrigava durante a noite para proteger do frio e de pessoas ruins que se aproximavam.
Quando a menina abria os olhos e a luz do dia surgia, Abdul continuava vendendo a única coisa que tinha para conseguir um pouco de dinheiro para comprar alimentos para a filha: suas canetas.
A expressão do rosto daquele homem angustiado chamou a atenção de um ativista de Oslo, Noruega, chamado Gissur Simonarson. Ele, sem imaginar o impacto que causaria, tirou uma foto da cena e a compartilhou nas redes sociais.
Em questão de minutos a fotografia se tornou viral e o mundo inteiro conheceu o homem que, em meio às dificuldades, tentava conseguir algo para sua filha.
Gissur não imaginou que poderia mudar a vida daquele homem com a fotografia, mas reconhece que a imagem é muito comovente e, por isso, causou nele um impacto emocional.
Foi assim que uma imagem fez com que milhares de pessoas refletissem sobre o tema, considerando-a inclusive uma das mais representativas da história atual de conflitos.
A boa notícia é que nem tudo se limitou a simples mensagens e comentários nas redes sociais, já que de imediato começaram a chegar milhares de solicitações de pessoas que queriam ajudar aquele homem que demonstrou o que faz o amor de um pai.
Milhões de pessoas aproveitaram as redes sociais para se unir com o objetivo de encontrar o “vendedor anônimo”, já que naquele momento ninguém sabia qual era o seu paradeiro.
Depois de dois dias de buscas intensas, Gissur finalmente conseguiu encontrar Abdul para ajudá-lo com o apoio dos que se uniram à causa.
Através do Twitter, o ativista estabeleceu o objetivo de arrecadar 5 mil dólares para ajudar o homem e sua pequena filha, mas, para sua surpresa, a cifra foi alcançada em apenas 30 minutos, e no total a iniciativa conseguiu arrecadar 80 mil dólares.
Esta cifra significou um novo começo para Abdul, que explodiu em lágrimas quando ouviu a notícia.
Abdul é apenas um dos quatro milhões de refugiados que escaparam desta guerra brutal, e um sobrevivente que demonstra que as pessoas inocentes são as que mais estão sofrendo com as terríveis consequências.
Ele agora tem um teto digno para começar uma nova vida com sua filha, e a menina poderá ir à escola. Durante as entrevistas, ele manifestou que seu desejo é ajudar outros refugiados com o dinheiro que foi doado a ele.
“Agradeço a todos pela generosidade, mas principalmente por colocarem novamente um sorriso no rosto de minha filha…” expressou Abdul, um homem honrado de 35 anos que deixou tudo em seu país de origem para manter a salvo sua amada filha.
Graças à solidariedade de milhares de pessoas, Abdul conseguiu uma vida digna para si mesmo e sua filha. Após sair desta situação de miséria, ele quer ajudar outras pessoas que estejam precisando de auxílio.
É a hora em que o sino toca,
mas aqui não há sinos;
há somente buzinas,
sirenes roucas, apitos
aflitos, pungentes, trágicos,
uivando escuro segredo;
desta hora tenho medo.
É a hora em que o pássaro volta,
mas de há muito não há pássaros;
só multidões compactas
escorrendo exaustas
como espesso óleo
que impregna o lajedo;
desta hora tenho medo.
É a hora do descanso,
mas o descanso vem tarde,
o corpo não pede sono,
depois de tanto rodar;
pede paz — morte — mergulho
no poço mais ermo e quedo;
desta hora tenho medo.
Hora de delicadeza,
agasalho, sombra, silêncio.
Haverá disso no mundo?
É antes a hora dos corvos,
bicando em mim, meu passado,
meu futuro, meu degredo;
desta hora, sim, tenho medo.
Carlos Drummond de Andrade
In: A Rosa do Povo, 1945
Imagem de capa: Van Gogh
O Alzheimer é uma doença silenciosa, que se revela aos poucos. Mas um estudo, publicado por pesquisadores do San Francisco VA Medical Center, nos Estados Unidos, conseguiu mapear os seis principais fatores de risco para a demência: sedentarismo, uso de álcool, depressão, tabagismo, diabetes, hipertensão na meia idade e obesidade.
Em comum, todas essas condições oferecem algum risco à saúde cérebro-vascular. “Fumo, obesidade, hipertensão e diabetes contribuem para o aumento de lesões no cérebro que levam à perda de cognição”, afirma o psiquiatra Cássio Bottino, do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP. As lesões, associadas às dificuldades de conexão entre os neurônios (efeito do aumento da proteína beta-amilóide), dão origem à maioria dos diagnósticos de Alzheimer atualmente. “A demência vascular, ou seja, os problemas que surgem devido ao mau funcionamento do coração já são elementos tão importantes quando o crescimento fora de controle da proteína na descoberta da doença”, afirma o neurologista e geneticista David Schlesinger, do Hospital Albert Einstein. A seguir, especialistas discorrem sobre a relação entre esses fatores e dão dicas para você cuidar melhor da saúde e se proteger contra o Alzheimer.
1- Síndrome metabólica
A geriatra Yolanda Boechat, coordenadora do Centro de Referência em Atenção ao Idoso da UFF-RJ, explica que a síndrome metabólica eleva a incidência de doença vascular cerebral, além de aumentar o estresse oxidativo. A síndrome é a associação de doenças como obesidade, hipertensão arterial, hiperglicemia (níveis elevados de açúcar no sangue), aumento dos níveis de triglicérides, diminuição dos níveis de colesterol “bom” HDL e aumento dos níveis de ácido úrico no sangue.
Em comum, todos esses males provocam um maior acúmulo de gordura no sangue, dificultando a circulação pelo corpo. Com isso, há um aumento de lesões microcardiopáticas, assim como a atrofia cerebral. O excesso de glicose no sangue, proveniente do diabetes, tem as mesmas consequências. Segundo a especialista, esses fatores, juntos, podem elevar a perda da memória em até 40%.
2- Hipertensão
Num quadro de hipertensão arterial, a intensidade com que o sangue circula acaba causando lesões nos vasos, inclusive nos do cérebro (mais sensíveis).” Danificados, eles acabam levando menos sangue, oxigenação e nutrientes para o cérebro”, afirma Cássio Bottino. O tecido cerebral é muito dependente da oxigenação do sangue e pode perder capacidade caso surjam falhas vasculares.
3- Tabagismo
Outro fator apontado na pesquisa é o tabagismo. “O cigarro acelera o processo de envelhecimento neurológico e a atrofia cerebral, o que agrava as chances de Alzheimer”, afirma Yolanda Boechat. Além disso, é possível que o risco aumente por causa de pequenos infartos cerebrovasculares que aumentam a morte de neurônios, provocados pelas toxinas presentes no cigarro.
4- Álcool
O consumo de mais de duas doses diárias de álcool, não importa a bebida, aumenta em quase 10% as chances de ter distúrbios neurológicos. Fora isso, o alcoolista crônico sofre com a perda de tecido cerebral, ou seja, o cérebro encolhe com o tempo e agravam-se problemas como esquecimento e perda da memória recente. Mas o consumo de uma dose diária de álcool (e isso varia de acordo com a bebida) pode retardar o aparecimento do Mal de Alzheimer, de acordo com estudo da Loyola University, em Chicago.
5- Sedentarismo
A atividade física, além de combater a obesidade e outros fatores de risco apontados pelo estudo, banha o cérebro com endorfina. Esse hormônio é um antioxidante capaz de fazer uma faxina no cérebro e eliminar radicais livres, combatendo o envelhecimento das células “A prática regular de atividade física também contribui com a irrigação sanguínea das células neuronais, melhorando as conexões e o raciocínio”, afirma a médica Yolanda. Segundo pesquisadores do Centro Médico da Universidade de Rush, de Chicago (EUA), idosos devem praticar de 2,5 a 5 horas semanais de atividades físicas.
6- Depressão
Por fim, os pesquisadores indicaram a depressão como agravante do Alzheimer. A dificuldade de relacionamento causada pela depressão prejudica a memória e a capacidade de comunicação, inibindo o funcionamento de partes do cérebro. “Se não for tratada, a depressão pode levar à falência da área cerebral responsável pela memória (hipocampo), incluindo a de fatos recentes.
Caso a nossa vida fosse um jogo de baralho, digamos, um “jogo de tranca”, as decisões caberiam muito bem numa analogia com o momento em que decidimos não pegar as cartas abertas na mesa e arriscar na carta do monte fechado. A carta fechada é cheia de possibilidades, desconhecida, misteriosa. Pode ser a nossa saída para virar o jogo. Ou, malograda sorte, pode ser uma carta repetida. Nada pode ser pior do que uma carta repetida, nem mesmo um “três preto” (a carta que tranca o jogo), que tem lá sua utilidade quando decidimos impedir o outro de se dar bem! Decisão tomada; abrimos mão das conhecidas, porém descartadas cartas na mesa e vamos para o monte, arrumadinho de cartas empilhadas, porém secretas. Impossível prever o que virá. E, mesmo que estejamos apenas jogando por diversão, sentiremos aquele friozinho na barriga; a emoção da expectativa: queremos uma carta boa! Queremos “pegar o morto” (outro montinho misterioso de cartas secretamente fechadas); queremos fazer canastra; e, mais que tudo, queremos ganhar!
Quando abrimos a possibilidade para um relacionamento amoroso, é a carta fechada que estamos virando. Não importa que resolvamos tomar a (desastrosa) decisão de transformar em nosso novo amor, o melhor amigo de infância. Assim que ambos forem “promovidos a casal”, passarão por uma assustadora metamorfose ao vivo e a cores, diante dos olhos estupefatos um do outro. O bom e velho confidente, precisará ser poupado de nossos desastres cotidianos. Ele nos olhará com outros olhos e nós o olharemos como a uma verdadeira Caixa de Pandora, cuja curiosa audácia pode nos custar tremendamente caro, caso tenhamos a coragem de destrancá-la.
O funcionamento de um par de seres humanos na dança da conquista é muito mais complicado de se entender do que o mais sofisticado e rebuscado tango argentino. Desde o primeiro olhar, somos arrebatados para dentro de uma sinfonia de sensações desconhecidas que nos fazem agir de maneira tanto estudada quanto irracional. Explosiva combinação, do ensaio com o insano. A paixão é insana; e deliciosa. Quem nunca se apaixonou, talvez não esteja apto a dizer que experimentou a vida. É a paixão que nos impele a experimentar, tocar, sentir, desejar o outro. A paixão é fogo que arde e que se vê! Vê-se nos olhos que brilham, no sorriso que ganha melodia, no corpo que se move pra conversar com o outro corpo, sem proferir uma palavra sequer. É a paixão que planta o amor e é o fim dela que pode decretar a sua morte.
Seria, então, a paixão uma armadilha irresistível; uma teia tecida à nossa volta, à nossa revelia; que nos envolve em suas malhas de prazer e desafio a ponto de nos roubar a capacidade de decisão? Por que nos apaixonamos, afinal? A Antropóloga Helen Fisher, da Universidade Rutger, Nova Jersey, lança uma luz sobre o assunto, utilizando uma explicação lógica para o fenômeno: somos arrebatados pelo impulso primário sexual da procriação, que direcionamos a uma pessoa capaz de nos despertar o desejo. E, todo o resto torna-se secundário, pano de fundo, perda de tempo.
Motivada pela assustadora simplicidade de sua própria teoria, Fisher uniu sua pesquisa aos estudos da Neurocientista Lucy Browm, do Albert Einstein College of Medicine, e ao projeto de pesquisa do Psicólogo Arthur Aron, da Universidade Estadual de Nova York. Os pesquisadores realizaram um trabalho, utilizando a tomografia por ressonância magnética funcional, para acompanhar a atividade cerebral de um grupo de voluntários. Durante os testes, enquanto estavam no interior do tomógrafo, os voluntários eram expostos a imagens da pessoa que amavam e imagens de pessoas conhecidas, mas com as quais houvesse uma relação afetiva neutra. De vez em quando, eram solicitados a contar imagens de frutas ou identificar cores, como forma de distraí-los e acalmar as sensações. “Nessas diferentes situações comparamos a atividade cerebral e percebemos que as duas regiões do cérebro que estavam especialmente envolvidas durante a observação do amado eram partes do núcleo caudado e da área tegmentar ventral (ATV) direita no mesencéfalo” relataram os pesquisadores.
O que há de revelador nessa descoberta é que nessas duas regiões cerebrais há células neurais que se comunicam através da substância mensageira, a dopamina, e reagem de forma sensível àquilo que causa bem-estar, como alimentos saborosos, por exemplo; ou mesmo à possibilidade de experimentá-los. O fato de a paixão estar relacionada a esse “sistema de recompensa” indica que o que estamos habituados a chamar de “sentimento” talvez seja, na verdade, um “estado de motivação” para a busca de algo, comparável à fome, que nos leva a buscar e consumir alimentos. Se pensarmos assim, o cenário fica menos romântico. “Afinal, talvez não nos apaixonemos (como muitas vezes gostamos de pensar) em razão de uma trama bem engendrada do destino ou dos belos olhos do outro, de seu charme e de sua sensualidade. Sob essa óptica o encantamento se vale, antes, de mecanismos neurológicos cuja função é aplacar uma necessidade biológica. E garantir a sobrevivência da melhor forma possível” pondera Fisher.
O fato, é que descobertas científicas dessa natureza têm pouquíssima relevância para os seres irracionais nos quais nos transformamos quando estamos apaixonados. Somos impelidos a construir em torno da recompensa emocional que a paixão nos proporciona, mecanismos para torná-la menos volátil, para fazê-la durar. Nossa natureza gregária é seduzida pela paixão, mas sonha mesmo é com o amor. Queremos a sorte de mergulhar na vida, acompanhados de alguém que já tenha conhecido outros mares, mas que se comprometa a navegar conosco, haja calmaria ou tempestade. O amor é o amante mais maduro da paixão. Ele arrebata, envolve e impulsiona, mas traz de volta outros focos. O amor, ao contrário da paixão, não torna todo o resto secundário. Ele é capaz de entrelaçar todos os elementos envolvidos nas trajetórias dos apaixonados e se renovar a cada transformação.
Quem dera fosse fácil! Não é fácil, nem simples, tampouco descomplicado. Amor exige de nós a nossa porção mais íntegra, leal e honesta. Exige entrega; leveza; alegria e comprometimento. Amar já foi para quem é forte; agora é para que é audacioso. E o fim do amor, é das experiências mais intensas, dolorosas e complexas pela qual podemos passar. Sair inteiro do fim de um amor é uma tarefa para qual nunca estaremos preparados. Nunca será bonito o fim do amor. Chegar ao fim é deparar-se com um lugar que deixou de ser um refúgio acolhedor desde um tempo que já se perdeu no tempo. As risadas gravadas nas camadas mais antigas de tinta da parede, não reverberam mais. Os perfumes e cheiros não se misturam, estão parados, suspensos numa atmosfera tensa, apartados por uma barreira invisível. Os desejos há muito esquecidos em bolhas de ar, flutuam… Querem vagar para além da janela. Não se pode estar junto quando o outro deixou de existir dentro de nós. Não se pode esperar que o que foi quebrado volte a ter a íntegra leveza de antes. É preciso ter coragem pra ser o primeiro a partir. É preciso ter certeza de que se chegou ao fim, para ser o último a sair e apagar a luz.
De todas as coisas que podem nos acontecer na vida, certo é que incontáveis serão boas, excelentes, extraordinárias, outras sequer perceberemos e outras tantas e muitas, serão dolorosas, decepcionantes, frustrantes, traumatizantes.
E para essas, a maioria de nós sempre pedirá uma cabeça para cortar. É por demais injusto passarmos por uma tristeza e ainda sermos os responsáveis por ela. Para isso, sempre haverá de ter um culpado, seja ele um indivíduo, uma situação, uma falha, uma força da natureza ou simplesmente uma palavra dita de forma errada. Importante é que se encontre o culpado. E para ele, nenhuma trégua.
Em consequência, pelo tempo necessário –e não raro uma vida inteira – e na proporção do estrago causado, as sementes do ressentimento brotarão e crescerão de forma espantosa, a ponto de tomarem o jardim inteiro, matando o que de belo e puro ainda poderia resistir. E, sem surpresas nem sustos, tudo o que de bom e feliz acontecer depois disso, tenderá a passar desapercebido, como plantinhas rasteiras que sobrevivem um ou dois dias e morrem por falta de luz. A luz que a árvore do ressentimento rouba de todas as outras. A luz das ideias e do desapego às mágoas que nos aponta novos caminhos, novas escolhas, novas cores, novos afetos.
O passado faz parte do que somos hoje, isso é incontestável, mas dele trazemos uma bagagem bagunçada, revirada, leve se pegamos a mala feliz, impossível de carregar se tentamos a mesma coisa com o baú dos desapontamentos.
Mas, voltando ao presente, por vezes nos pegamos pensativos no jardim das emoções, e, para todo o lado que olhamos, cresce frondosa a árvore do ressentimento, com suas folhas espessas, com espinhos nas pontas, cores mortas e enorme mal cheiro. E, tolos que somos, acreditando também isso ser natureza, regamos e cuidamos, sem sequer desconfiar da quantidade de veneno que estamos nutrindo.
Ressentir é sentir novamente. Sentir a primeira vez, doer, sofrer, amargar. Sentir a segunda vez, e mais uma, e mais uma, e mais uma. Julgar e decretar culpas. Banir pessoas, lugares, músicas, perfumes, palavras… Tudo isso junto vira um labirinto de sofrimentos, donde não se sai e só se perde ainda mais. Acabamos por viver buscando a saída, perdidos por entre caminhos que as árvores que nós mesmos plantamos, nos mostram.
Somente no dia em que resolvermos matar de sede as árvores do ressentimento é que elas murcharão e conseguiremos ver os caminhos, as saídas, a vida além do labirinto. E que tenhamos sorte para não tocarmos nos espinhos antes deste dia!
Pouco depois de chegar a São Paulo, fui a uma loja na Vila Madalena comprar um violão. O atendente, notando meu sotaque, perguntou de onde eu era. Quando respondi “de Londres”, veio um grande sorriso de aprovação. Devolvi a pergunta e ele respondeu: ‘sou deste país sofrido aqui’.
“Fiquei surpreso. Eu – como vários gringos que conheço que ficaram um tempo no Brasil – adoro o país pela cultura e pelo povo, apesar dos problemas. E que país não tem problemas? O Brasil tem uma reputação invejável no exterior, mas os brasileiros, às vezes, parecem ser cegos para tudo exceto o lado negativo. Frustração e ódio da própria cultura foram coisas que senti bastante e me surpreenderam durante meus 6 meses no Brasil. Sei que há problemas, mas será que não há também exagero (no sentido apartidário da discussão)?
Tem uma expressão brasileira, frequentemente mencionada, que parece resumir essa questão: complexo de vira-lata. A frase tem origem na derrota desastrosa do Brasil nas mãos da seleção uruguaia no Maracanã, na final da Copa de 1950. Foi usada por Nelson Rodrigues para descrever “a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo”.
E, por todo lado, percebi o que gradualmente comecei a enxergar como o aspecto mais ‘sofrido’ deste país: a combinação do abandono de tudo brasileiro, e veneração, principalmente, de tudo americano. É um processo que parece estrangular a identidade brasileira.
Sei que é complicado generalizar e que minha estada no Brasil não me torna um especialista, mas isso pode ser visto nos shoppings, clones dos ‘malls’ dos Estados Unidos, com aquele microclima de consumismo frígido e lojas com nomes em inglês e onde mesmo liquidação vira ‘sale’. Pode ser sentido na comida. Neste “país tropical” tão fértil e com tantos produtos maravilhosos, é mais fácil achar hot dog e hambúrguer do que tapioca nas ruas. Pode ser ouvido na música americana que toca nos carros, lojas e bares no berço do Samba e da Bossa Nova.
Pode ser visto também no estilo das pessoas na rua. Para mim, uma das coisas mais lindas do Brasil é a mistura das raças. Mas, em Sampa, vi brasileiras com cabelo loiro descolorido por toda a parte. Para mim (aliás, tenho orgulho de ser mulato e afro-britânico), dá pena ver o esforço das brasileiras em criar uma aparência caucasiana.
Acabei concluindo que, na metrópole financeira que é São Paulo, onde o status depende do tamanho da carteira e da versão de iPhone que se exibe, a importância do dinheiro é simplesmente mais uma, embora a mais perniciosa, importação americana. As duas irmãs chamadas Exclusividade e Desigualdade caminham de mãos dadas pelas ruas paulistanas. E o Brasil tem tantas outras formas de riqueza que parece não exaltar…
Um dos meus alunos de inglês, que trabalha em uma grande empresa brasileira, não parava de falar sobre a América do Norte. Idealizou os Estados Unidos e Canadá de tal forma que os olhos dele brilhavam cada vez que mencionava algo desses países. Sempre que eu falava de algo que curti no Brasil, ele retrucava depreciando o país e dando algum exemplo (subjetivo) de como a América do Norte era muito melhor.
O Brasil está passando por um período difícil e, para muitos brasileiros com quem falei sobre os problemas, a solução ideal seria ir embora, abandonar este país para viver um idealizado sonho americano. Acho esta solução deprimente. Não tenho remédio para os problemas do Brasil, obviamente, mas não consigo me desfazer da impressão de que, talvez, se os brasileiros tivessem um pouco mais orgulho da própria identidade, este país ficaria ainda mais incrível. Se há insatisfação, não faz mais sentido tentar melhorar o sistema?
Destaco aqui o que vejo como um uma segunda colonização do Brasil, a colonização cultural pelos Estados Unidos, ao lado do complexo de vira-latas porque, na minha opinião, além de andarem juntos, ao mesmo tempo em que existe um exagero na idealização dos americanos, existe um exagero na rejeição ao Brasil pelos próprios brasileiros. É preciso lutar contra o complexo de vira-latas. Uma divertida, porém inspiradora, lição veio de um vendedor em Ipanema. Quando pedi para ele botar um pouco mais de ‘pinga’ na caipirinha, ele respondeu: “Claro, (mermão) meu irmão. A miséria tá aqui não!” Viva a alma brasileira!”
Não foi uma ou duas vezes na vida que eu ouvi de algum homem leigo, ou apenas razoavelmente instruído acerca da psicanálise, alguma ofensa mascarada de “diagnóstico analítico”. Popularizada em demasia, creio que as boas intensões freudianas não se realizaram. Como tudo o mais que por demais se populariza e acaba por banalizar-se, devido à falta de conhecimento e aos usos escusos, uma ciência que poderia auxiliar a muitos perde o seu valor.
Nunca vi, por si só, mal algum nessa teoria. Embora psicanálise e psicologia não sejam a mesma coisa, ao contrário do que muitos pensam, foi ela que me levou ao curso de psicologia, e dela desfrutei ao máximo, e ainda é o que vejo como o mais sólido para a orientação clínica, particularmente no caso das psicoses. Todavia, como foi com a bomba atômica e com tantas outras descobertas geniais, o uso predominante que se faz das coisas acaba por travesti-las em sua finalidade e epistemologia, o que, consequentemente, acaba por desacreditá-las.
Não é incomum que escute de outras pessoas, que relatam seus sofrimentos nos lugares mais inusitados, ao sugerir uma terapia ou um processo analítico, uma expressão acompanhada de pavor. São inúmeros os relatos de trabalhos realizados por maus profissionais, imagino que despreparados ou com formação duvidosa, que se utilizam de termos aleatoriamente para impressionar seus “pacientes”, emitem atitudes antiéticas ou simplesmente tentam embromar e acham que está tudo bem. Esquecem-se, talvez, que uma pessoa que sofre emocionalmente, não por isso se torna burra. O pior é que, como nem todo psicanalista precisa ter formação em psicologia, ou psiquiatria (o que penso que seria sensato), muitos não estão submetidos a um conselho ou código de ética.
Fora isso, temos os psicanalistas de boteco ou de esquina, mais charlatães do que certos jogadores de búzios, tarô, pôquer, ou outra jogatina qualquer. Não estou desmerecendo nenhum desses profissionais, nem místicos, nem jogadores, nem psicanalistas sérios. Todavia, é fato que estes se tornam cada vez mais raros, e a profusão dos verbetes dessa ciência que era subversiva em sua época, transforma-se hoje em bala na agulha de rótulo ofensivo para quem quer que, por desonestidade intelectual ou simples desinformação, dispõe deles para diminuir, com uma falsa autoridade, aquele que pretende atingir.
Uma das razões para que isso afete mais às mulheres é devido à própria origem da ciência psicanalítica, que tem seus fundamentos no estudo das histerias. A doença misteriosa que afetava as mulheres da época, possuindo como sintoma conversões físicas, paralizações, perda de conhecimentos essenciais (como esquecer a língua materna), dentre outras manifestações “bizarras”, não raro é utilizada erroneamente para ofender uma mulher quando a mesma apresenta uma atitude que não esteja dentro do esperado pelos padrões. Um desvio de interpretação, intencional ou não, daqueles que podem transformar um “pai nosso” em “pau no osso”. Isso apesar de Freud e tantos outros que, ao contrário do que pareça a alguns, dirigiam sua crítica muito mais aos padrões sociais e aos males que esse causava (como é explícito em “Mal-estar na civilização”) do que aos indivíduos e suas “anomalias”.
É no mínimo curioso de se observar, que caso um homem perca a razão, se altere, grite, ou aja por impulso, ele apenas “perdeu a cabeça”, estava nervoso, no máximo, é “temperamental”. Mesmo que o comportamento abusivo chegue a uma agressão física, tantas vezes é perdoado sem diagnósticos prévios. “É assim mesmo…”. No caso de uma mesma atitude oriunda de uma figura feminina, bom, aí a coisa fica séria: é doença, é histeria, está desiquilibrada, sofre de TPM, é depressiva, melancólica, precisa de tratamento. É penoso! Penoso ter que ouvir relatos e mesmo sentir na pele o uso de um conhecimento tão rico sendo utilizado de forma tão porca. Não apenas no caso das mulheres, mas para denigrir e marginalizar qualquer comportamento que não seja condizente com a concepção de normalidade do oponente.
Infelizmente nem todos os que sofrerem esse tipo de agressão – que ao meu ver é mais grave do que ser chamado honestamente de “filho da p…”, ou qualquer outro palavrão, que para os fins mesmo de ofender é destinado; possuem conhecimento suficiente para recusar esse rótulo e tratar com o devido respeito o seu ofensor: mandando ele à merda, ou mesmo, ir estudar psicanálise (de verdade), ou fazer análise de fato. E no caso dos psicanalistas formados, mas que usam do seu conhecimento para propósitos vis, pedir ao menos que respeitem a teoria tal qual ela merece, pagá-los com uma moeda qualquer (proporcional à qualidade do diagnóstico não requerido) ou encurrala-los a partir de suas próprias ferramentas. Ignorá-los, senão, é o que vejo como a melhor opção. Não há nada pior para um espírito vaidoso, mas de pouco mérito fático, que ser tratado como um pedaço de graveto no meio de uma trilha, que de tão pouca valia, incomoda um pouco, mas não gasta nem mesmo retirá-lo do caminho.
Lamentável que esse tipo de uso mesquinho da psicanálise afaste tantos, não apenas do tratamento analítico, que ao contrário de incutir rótulos, pode proporcionar a tantos um conhecimento maior de si, mas também acaba por afastá-los de qualquer outro tipo de terapia, já que em uma sociedade onde a subjetividade e as emoções são tratadas como de segunda importância, a ignorância sobre o ser humano enquanto mais que uma máquina producente de munição para um sistema vampiresco, se torna predominante, massiva e autodestrutiva.
Não é de hoje que mulheres têm seus corpos e sentimentos demonizados. Desde muito antes da Idade Média, onde mulheres sofreram perseguição, mutilação de seus órgãos e foram encarceradas por seus comportamentos, o sentimento feminino foi considerado um problema a ser resolvido.
Se uma mulher sangrasse, era considerada bruxa e queimada na fogueira durante a Inquisição porque não estava cumprindo com sua função reprodutiva. Se não obedecia seu marido ou se sentia prazer durante relações sexuais, também era queimada, jogada em uma cela e isolada completamente da sociedade, ou sofria diversas formas de tortura.
A concepção da histeria surgiu muito antes dos relatos de Hipócrates (IV a.C), e através dela é possível perceber a relação que se tem com o conceito de mulher nessas sociedades e o papel que elas tinham.
Além da histeria ser considerada uma doença das mulheres, as parteiras eram as responsáveis pelo tratamento e cura. A doença era associada diretamente ao útero, que eles acreditavam ter o poder de se movimentar dentro do corpo de maneira autônoma, causando a sufocação daquilo que eles entendiam como matriz. O tratamento se dava através da manipulação desse órgão.
Imagem do filme ‘Histeria – A história do Vibrador’ que mostra o tratamento recomendado à mulheres consideradas histéricas no século XIX.
A visão do papel da mulher na sociedade não se alterou com o tempo, e com isso foi possível perceber como caminhou a história da loucura feminina e a patologização do sentimento da mulher. Eram consideradas histéricas as mulheres que não cumpriam com a sua função de reproduzir e cuidar do outro.
O diagnóstico de histeria era frequentemente usado para demonizar e invalidar manifestações emocionais. Estas, eram entendidas como comportamentos anormais e indesejados por parte das mulheres. No entanto, para os homens, eram vistos como comportamento característico e completamente aceitável, já que a “responsabilidade” de parir, ser submissa e pacífica ficava para a mulher.
A raiva, o medo, a desobediência e a sexualidade da mulher eram considerados comportamentos histéricos que precisavam ser corrigidos.
“Com quantos homens eu tenho que dormir para ser considerada promíscua?”
A forma de enxergar as emoções das mulheres durante séculos (o que não se alterou, diga-se de passagem) foi justificativa para as mais diversas violências, como foi visto dentro de manicômios e através dos tratamentos de histeria (como extirpação do útero, a invenção do vibrador, etc).
No filme Garota Interrompida, é possível perceber como eram os tratamentos dentro dos ambientes hospitalares voltados pra saúde mental e em como os comportamentos tidos como dissonantes das características femininas, eram vistos.
A loucura feminina por diversas vezes esteve intimamente relacionada com a feminilidade e a corporalidade da mulher.
Os manicômios surgiram como uma forma de encarceramento e higienização das ruas. Era uma instituição que tinha como proposta isolar da sociedade todo e qualquer indivíduo que não se encaixava nas normas vigentes daquilo que era considerado normal ou produtivo.
Hospital Colônia de Barbacena
O termo manicômio surge por volta do século XIX e designa especificamente as instituições responsáveis por tratar da loucura. Segundo Foucault, o hábito de retirar indivíduos de meios sociais e isolá-los surgiu com os árabes e data o século VII, onde surgiu o primeiro manicômio conhecido.
Mulheres foram internadas, muitas vezes, por não corresponderem aos estereótipos ligados ao gênero ou por não se encaixarem dentro daquilo que a sociedade esperava delas.
Lésbicas, mães solteiras, mulheres negras, pobres, mulheres que gostavam de sexo, mulheres tidas como frígidas, mulheres divorciadas ou viuvas, todas aquelas tidas como subversivas, foram inúmeras as justificativas para a internação compulsória e o isolamento de todas elas. O manicômio era uma punição para o comportamento tido como inadequado, e o responsável por diversos traumas.
O documentário “Em nome da razão” mostra como funcionava o manicômio de Barbacena, e denunciava os maus tratos que ocorriam.
Dentro desses ambientes aconteciam diversas práticas violentas sobre a alcunha de tratar e curar doenças mentais, que por diversas vezes, nada mais eram do que o rompimento com o papel esperado pela sociedade.
Banhos frios, abusos sexuais por parte dos cuidadores, agressões físicas e verbais, lobotomia, isolamento completo, privação do sono, falta de alimento e experiências médicas eram acontecimentos comuns dentro dessas instituições. Muitas mulheres nasceram e morreram dentro dessas verdadeiras prisões.
O filme O bicho de sete cabeças se tornou referência ao falar sobre a questão da luta antimanicomial e os abusos cometidos dentro dessas instituições.
Mulheres foram submetidas constantemente a essas torturas com aprovação de suas famílias numa forma de punir e tentar ‘consertar’ o comportamento considerado inadequado. Muitas foram abandonadas dentro dessas instituições, engravidaram, tiveram seus filhos e morreram sozinhas.
“Sucker Punch”, o filme de Zack Snyder, mistura ficção e realidade e retrata os abusos cometidos dentro dos manicômios e em como mulheres eram internadas por suas famílias para corrigir comportamentos indesejados.
Outro exemplo é a temporada “Asylum”, de American Horror Story onde uma jornalista lésbica é internada para impedir que ela denunciasse os abusos e experiências médicas que aconteciam dentro do hospital psiquiatrico.
Foi com Basaglia que se iniciou o movimento de humanização no tratamento de pessoas com transtornos mentais e a crítica aos ambientes manicomiais. Ele era combativo à psiquiatria clássica por acreditar que o isolamento hospitalar como tratamento era exclusivo, repressor e higienizador. É com ele que se inicia o movimento de abolição de hospitais psiquiátricos como forma de tratamento da loucura.
A luta antimanicomial surge então, como um questionamento e uma proposta de visão da loucura e de seu tratamento de forma mais humanizada, voltada à reinserção do indivíduo na sociedade, na sua autonomia e na desinstitucionalização do cuidado.
Como alternativa aos manicômios, foram criadas os centros de atenção psicossocial (CAPS), que atualmente atuam de maneira precária por conta da mercantilização da saúde.
É importante entender que a luta antimanicomial também é uma luta feminista, já que historicamente tivemos nossos corpos e sentimentos invalidados, patologizados.
Ao pensar na questão da saúde mental da mulher, podemos perceber que muitos dos transtornos manifestados são diretamente associados a questões biológicas, esquecendo do fator social, como as jornadas duplas, a maternidade compulsória, abusos sexuais e psicológicos, péssimas condições de trabalho, entre outros. Muito do que é tido como um transtorno tem relação direta com a sociedade que vivemos.
Fazer parte do movimento antimanicomial é também questionar o entendimento sobre a loucura, a forma de tratamento, e o histórico da loucura feminina e a construção do saber em relação à saúde mental da mulher.
Mulheres foram institucionalizadas apenas por serem mulheres e por não se adequarem ao papel que foi designado à elas. Essa luta também é nossa.
Questionar e compreender os aspectos relacionados à loucura, seus tratamentos e a instituição manicomial, também é inquirir/indagar sobre a concepção dos transtornos mentais que atingem, em sua maioria, a mulher, na patologização de seus sentimentos e ao apoderamento de seus corpos.
Vou compartilhar com vocês as referências que usei para a construção desse texto, pra quem tiver curiosidade de ler mais sobre o assunto. Para acessá-los, é só clicar nos links abaixo:
O CONTI outra agradece a autora pela autorização da publicação nesse espaço.
Nanda
Apenas uma jovem jedi aprendendo a ler mentes. Se eu fosse uma x-men eu com certeza seria a Mistica. Chá maniaca, dançarina do tchan e ninja nas horas vagas, também sou maratonista oficial de séries. Welcome to the femininja side of the force. Leia mais artigos da autora no blog Womansplaining
Mais uma vez um matador em série choca a sociedade. Um pintor assumiu ter matado pelo menos cinco pessoas e enterrado seus corpos no terreno do barraco onde morava. Matou sem causa aparente e provavelmente o número de vítimas deve ser ainda maior. Em 1998 Francisco de Assis Pereira, conhecido como maníaco do parque estuprou e matou pelo menos seis mulheres levando-as para um parque na zona sul de São Paulo. Ele as abordava, convencia-as a subir em sua moto e o fim era trágico. Ao ser questionado sobre como conseguia convencer as vítimas a subir em sua garupa sendo que ele era um total desconhecido para elas, ele respondeu: “-Eu falo o que elas querem ouvir”. O pintor da Vila Alba e o maníaco do parque são psicopatas, assim como Suzane Von Richthofen que planejou e participou da morte dos pais e foi vista no dia seguinte chorando no enterro deles numa atuação digna de uma grande atriz.
Duas fortes características de um psicopata são a inteligência e o poder de persuasão. Os psicopatas também mentem muito, manipulam e trapaceiam. São perfeitos demais quando os conhecemos no início e superficialmente. Estão sempre elogiando e são convincentes. São bastante egocêntricos e conseguem se aproximar das pessoas em momentos de vulnerabilidade. Geralmente eles têm um padrão de comportamento transgressor, ficam agressivos sem motivos e nunca sentem culpa, remorso ou empatia alguma.
O diagnóstico da psicopatia só é possível após os 18 anos e deve ser feito por um psicólogo e/ou psiquiatra. Antes disso, os sinais podem apenas ser diagnosticados como Transtorno de Conduta. Ainda assim, algumas características infantis indicam que a criança pode vir a ser um adulto com o transtorno. Crianças que maltratam animais, que mentem com muita frequência, que fazem bullying e se mostram perversas com os amigos na escola, que não obedecem às regras, que têm insensibilidade emocional, dificuldade em manter amizades e vínculos, que apresentam comportamentos transgressores como pequenos furtos, vandalismo e violência; têm mais chances de serem adultos psicopatas.
A proporção da doença é de 1% a 4% da população mundial, sendo três homens para cada mulher. Nem todos os psicopatas são assassinos – muito pelo contrário. Além disso, vale frisar que existem diferentes graus de psicopatia e que nem todos os indivíduos são desprovidos de qualquer limite de conduta. Temos as psicopatias leves, moderadas e graves. Todas envolvem frieza emocional e a incapacidade de empatia, porém, nos casos mais simples, remetem a pessoas que muitas vezes ocupam cargos de destaque, como líderes religiosos, executivos bem sucedidos e políticos que muitas vezes vivem de golpes, roubos, fraudes e estelionatos.
A psicopatia possui duas causas: disfunção neurobiológica e influências sociais recebidas do ambiente ao longo da vida. Quando ocorre em grau leve e é detectada precocemente ela pode – em alguns casos – ser modulada através de uma educação mais rigorosa. Um ambiente familiar mais estruturado e com acompanhamento dos filhos ditos problemáticos certamente não evita a psicopatia, mas pode inibir uma manifestação mais grave.
A psicopatia é irreversível, porém vale lembrar que a existência de apenas algumas características da psicopatia não são suficientes para o indivíduo ser diagnosticado com o transtorno. Existem casos de pacientes que foram diagnosticados e que posteriormente não se mostraram psicopatas. Já outros nos quais os sintomas não foram percebidos, se mostraram extremamente passíveis de serem psicopatas. Por isso, dentre outros critérios, as características são avaliadas pela frequência e intensidade com as quais se manifestam. Isso acontece porque muitos psicopatas já conhecem as características do distúrbio e, por isso, conseguem ser frios o bastante para ludibriar e enganar até os especialistas.
Como muito bem disse a Dra. Ana Beatriz Barbosa da Silva em seu livro sobre o assunto intitulado “Mentes Perigosas – O psicopata mora ao lado”: Eles estão entre nós. Indico a leitura. A rede Globo está reprisando a novela Caminho das Índias, na qual Letícia Sabatella interpreta brilhantemente uma psicopata. A personagem criada por Glória Perez foi inspirada no livro citado por mim acima. Ao perceber a proximidade de um psicopata não há muito a fazer a não ser manter distância. Os psicopatas nunca procuram ajuda psicológica. Aos poucos que cruzaram o meu caminho profissional, a única coisa que fiz foi mostrar a eles que eu percebia a presença do transtorno. Quem procura a nossa ajuda são as suas vítimas.