Como Caetano estacionando o carro Afeta Shakespeare

Como Caetano estacionando o carro Afeta Shakespeare

Segundo Caetano, você precisa saber da piscina, da margarina, da Carolina, da gasolina, mas segundo uma parte da imprensa, você precisa saber que o Caetano estacionou o carro no Leblon numa quinta-feira, no dia 10 de março de 2011. Só isso. A notícia é essa. Caetano Estacionou o Carro no Leblon. E não era uma denúncia, por ele ter estacionado em local proibido, nem um flagrante, por ele estar se dirigindo a um lugar suspeito. Ele apenas estacionou o carro e alguém, no portal Terra, achou que era notícia e publicou o fato com três fotos. Infelizmente, em nenhuma delas Caetano aparece estacionando o carro. Mas talvez tenham achado que pudesse ser uma redundância que não acrescentaria nada à notícia, sei lá, e temos que nos contentar em ver Caetano atravessando a rua depois de estacionar o carro. De qualquer forma, o dia 10 de março de 2011 entrou para a história do jornalismo brasileiro. Em 2015, teve até evento para comemorar os 4 anos do feito.

E é importante que se comemore, todos os anos a partir de agora. Não, obviamente, para celebrar o feito, mas para questionar. E são várias questões. Por que a cobertura jornalística da vida de celebridades fascina tanto? O quanto essa cobertura tem de impacto na sociedade?

Dá para levantar várias outras questões, mas acho que a gente pensar no impacto pode ser interessante, porque ele é maior do que se pode imaginar em um primeiro momento. É só dar uma olhada na resposta que o músico Herbie Hancock deu em uma entrevista de 2013, quando perguntaram por que o jazz não faz mais parte da cena pop:

Porque não é mais a música que importa. As pessoas não querem mais saber da música em si, mas sim de quem faz a música. O público está mais interessado nas celebridades e em como determinado artista é famoso do que na música. Mudou a maneira como o público se relaciona com a música. Ele não tem mais uma ligação transcendental com a música e sua qualidade. Quer apenas o glamour.

É triste. Mas não é recente. No século XVIII, quando o culto a Shakespeare começou com força, os esforços logo se concentraram em descobrir quem era o homem por trás da obra. E as descobertas não foram animadoras. Os poucos documentos relacionados a ele que foram encontrados, apontavam mais um homem de negócios, que lidava com grãos e fazia empréstimos com juros, do que um homem de teatro ou poeta sensível. Mesmo o seu testamento não ajudou muito, já que lá não há menção nenhuma a livros para serem distribuídos, mas em compensação, ele deixa para a sua mulher a “segunda melhor cama” da casa.

Logo, começaram a surgir as hipóteses de que aquele homem nascido em uma cidade pequena e rural, com acesso reduzido à educação, não podia ser o mesmo artista que escreveu uma obra onde aparecem, no total, 29.000 palavras diferentes, sendo 2035 palavras cunhadas ou registradas pela primeira vez por ele. (só para comparação, a versão do Rei Jaime da Bíblia, contemporâneo de Shakespeare, emprega somente 6.000 palavras diferentes). O autor tinha que ser alguém da nobreza ou um grande filósofo, evidentemente.

E assim, começou a busca por um candidato que melhor se encaixasse no perfil que se imaginava para o autor daquelas peças. Teorias foram desenvolvidas, conspirações imaginadas e muito tempo e esforço foram empregados para provar que Shakespeare era uma farsa. Até gente como Mark Twain e Freud embarcaram nessa, quando poderiam ter utilizado o tempo de forma mais produtiva. Ou não.

A última semana foi marcada por uma reforma ministerial, ameaças de Impeachment e novas denúncias contra Eduardo Cunha, mas segundo o ranking das notícias mais lidas do UOL, essas foram as que ficaram em primeiro lugar, a cada dia:

24/09/15 – Rafael Ilha desfalca A Fazenda 8 de última hora e é substituído

25/09/15 – Cantora é cotada como nova parceira de Chimbinha

26/09/15 – Mike Patton salta do palco e cai sobre grade no no Rock in Rio

27/09/15 – Protagonista morre no fim da 1ª fase de “Além do Tempo”

28/09/15 – Mães fazem ensaio nu com os filhos para mostrar a mulher real

29/09/15 – Yasmin Brunet nua chocou os pais? Nada! Eles viviam pelados

30/09/15 – Apresentadora de afiliada da Globo morre aos 32 anos

01/10/15 – Por engano, mulher envia foto do seio para o chefe por app

02/10/15 – “Eu sou o viagra dele”, afirma mulher de Stênio Garcia

03/10/15 – Jogador errou o pênalti, mas salvou time por saber a regra

Quem lê tanta notícia?, pergunta Caetano. Bom, pelo jeito, nós lemos. Mas não impunemente.      O que é bom, pra manter o samba de Roberto Silva, lançado em um disco de 1961, sempre atual. Ou não.

O Jornal da Morte

Veja só esse jornal, é o maior hospital
Porta voz do bang-bang e da policia central
Tresloucada, semi nua, jogou-se do 8º andar
Porque o noivo não comprava maconha pra ela fumar.

Um escândalo amoroso com os retratos do casal
Um bicheiro assassinado em decubito dorsal
Cada página é um grito, um homem caiu no mangue
Falta alguém espremer o jornal pra sair
Sangue, sangue, sangue….

“A fraternidade tem subtilezas”, por Fernando Pessoa

“A fraternidade tem subtilezas”, por Fernando Pessoa

Hoje, como me oprimisse a sensação do corpo aquela angústia antiga que por vezes extravasa, não comi bem, nem bebi o costume, no restaurante, ou casa de pasto, em cuja sobreloja baseio a continuação da minha existência. E como, ao sair eu, o criado verificasse que a garrafa de vinho ficara ao meio e voltou-se para mim e disse: “Até logo, sr. Soares, e desejo melhoras”.

Ao toque de clarim desta frase simples a minha alma aliviou-se como se num céu de nivens o vento de repente se afastasse. E então reconheci o que nunca claramente reconhecera, que nestes criados de café e de restaurante, nos barbeiros, nos moços de frete das esquinas, eu tenho uma simpatia espontânea, natural, que não posso orgulhar-me de receber dos que privam comigo em maior intimidade, impropriamente dita…

A fraternidade tem subtilezas.

Uns governam o mundo, outros são o mundo. Entre um milionário americano, um César ou Napoleão, ou Lenine, e o chefe socialista da aldeia – não há diferença de qualidade mas apenas de quantidade. Abaixo destes estamos nós, os amorfos, o dramaturgo atabalhoado William Shakespere, o mestre-escola John Milton, o vadio Dante Alighieri, o moço de fretes que me fez ontem o recado, ou o barbeiro que me conta anedotas, o criado que acaba de me fazer a fraternidade de me desejar aquelas melhoras, por eu não ter bebido senão a metade do vinho.

Fernando Pessoa, em “Livro do Desassossego”, nota 24 (pág. 57)

“Chapéu violeta”, por Erma Bombeck

“Chapéu violeta”, por Erma Bombeck

Aos 3 anos: Ela olha pra si mesma e vê uma rainha.

Aos 8 anos: Ela olha para si e vê Cinderela.

Aos 15 anos: Ela olha e vê uma freira horrorosa.

Aos 20 anos: Ela olha e se vê muito gorda, muito magra, muito alta, muito baixa, muito liso, muito encaracolado, decide sair mas, vai sofrendo.

Aos 30 anos: Ela olha pra si mesma e vê muito gorda, muito magra, muito alta, muitobaixa, muito liso muito encaracolado, mas decide que agora não tem tempo pra consertar então vai sair assim mesmo.

Aos 40 anos: Ela se olha e se vê muito gorda, muito magra, muito alta, muito baixa, muito liso, muito encaracolado, mas diz: pelo menos eu sou uma boa pessoa e sai mesmo assim.

Aos 50 anos: Ela olha pra si mesma e se vê como é. Sai e vai pra onde ela bem entender.

Aos 60 anos: Ela se olha e lembra de todas as pessoas que não podem mais se olhar no espelho. Sai de casa e conquista o mundo.

Aos 70 anos: Ela olha para si e vê sabedoria, risos, habilidades, sai para o mundo e aproveita a vida.

Aos 80 anos: Ela não se incomoda mais em se olhar. Põe simplesmente um chapéu violeta e vai se divertir com o mundo.

Talvez devêssemos por aquele chapéu violeta mais cedo!

Nota da Página: Fomos informados que o texto acima não é de Mário Quintana e sim de Erma Bombeck, como indica o link aqui.

“Alimentando trolls”, por Leandro Karnal

“Alimentando trolls”, por Leandro Karnal

Minha vó recomendava: não toque tambor para maluco dançar! é um sábio conselho. Não se alimenta a insanidade alheia com argumentos. Mas minha avó viveu numa era menos pública. Naquela época, os doidos não entravam na sua caixa postal nem deixavam pacotes da sua portaria, creio. Tenho tido contato com um maioria dominante de gente equilibrada, inteligente, que discordando ou concordando , trazem luz ao meu pensamento e me enriquecem. Porém, há uma ativa minoria troll que me assusta.

Seus tipos mais comuns:

01) gente que vive sob a sombra de Muro de Berlim, ou um pedaço do muro caiu na sua cabeça. Ainda vivem em plena Guerra Fria, em polaridades comunistas vs capitalistas.

02) Insanos religiosos, tribo grande, vasta e atenta a tudo que seja diferente da sua mania. Veneram bezerros variados.

03) gente que está voltando de Woodstock a pé e ainda segue ovnis, vidas passadas, cristais, carma, fala com samambaias e flutua no éter no dorso de um pônei mágico. São simpáticos, mas como todo Gremlin, apresentam dificuldades…

04) Conspiracionistas em geral. O mundo é dominado por judeus, maçons, illuminati , por Bill Gates, pelo rock … Podem ser subgrupos dos grupos anteriores…
e vc, acredita em Trolls?

Por Leandro Karnal

Quase vivos

Quase vivos

Este não é um texto sobre zumbis. Tampouco ousaria invadir, com inoportunas palavras, as histórias daqueles que lutam para manter a dignidade inteira, enquanto enfrentam enfermidades graves ou definitivas. É apenas uma singela, porém honesta, tentativa de refletir sobre uma alarmante epidemia, cuja consequência direta é a transformação de gente viva em fantoches animados, prontos para reagir ao menor movimento das cordinhas, pensas acima de suas confusas e entorpecidas cabeças.

 

É muito fácil acreditar em mentiras, sobretudo naquele tipo de mentira que nos permite o conforto de ficar boiando indefinidamente em águas mornas de acomodação. A nossa compleição humana, conta com um cérebro privilegiado. Estamos falando de 100 bilhões de neurônios do cérebro, ligados a 10 mil outros sendo assim capaz de receber 10 mil mensagens ao mesmo tempo. Partindo desse impressionante volume de informações, o neurônio tira uma única conclusão, que será partilhada com milhares de outras células. No entanto, nada é mais intrigante ou cheio de novas informações para serem decodificadas, compreendidas e assimiladas, do que o nosso próprio cérebro. Nossos conhecimentos acerca do nosso funcionamento neurológico assemelham-se a um bebê que acabou de descobrir que consegue ficar em pé sobre suas indecisas perninhas. E é justamente essa nossa ingênua e inicial compreensão de nós mesmos que nos faz presas extremamente fáceis dos sedutores entorpecentes de nossa força de vontade, coragem, curiosidade e determinação.

 

Vivemos ansiosos por alguma coisa, qualquer coisa, que nos garanta alcançar tudo o que queremos numa única dose, num simples botão para se apertar ou numa ideia mirabolante para revolucionar o mundo e que, de quebra, nos ajude a ganhar notoriedade, importância e poder. Até aí, nenhuma novidade, certo? Afinal, de alguma forma, é essa ambição cognitiva que movimenta a vida. A surpresa disso tudo fica por conta de que esquecemos com enorme facilidade o quanto o mundo à nossa volta se transforma rapidamente. Uma ideia que nesse minuto é inusitada e inovadora pode tornar-se obsoleta antes mesmo que tenhamos descoberto algum jeito de divulgá-la, caso ela seja “um fim em si mesma”. Ideias perenes são aquelas que, nascidas de um ser humano, encontram conexões nos mais diversos seres humanos ao redor do planeta. E, assim, ganham novas configurações, adaptam-se, transformam-se; ideias perenes são aquelas capazes de nos transformar antes que as coisas fiquem mais rápidas e sofisticadas e nos encontre despreparados para compreendê-las. Parece complicado. E é mesmo!

Quando começarmos a perceber o quanto estamos nos afastando da nossa natureza humana, obstinados pela contemplação estética da vida, teremos a chance de dar ao nosso destino um roteiro mais completo e consistente. Vivemos representando comédias românticas e sonhando com um reconhecimento pela nossa dramática atuação. Isso não vai dar certo! Para complicar um pouquinho mais a trama, somos tão infantilmente apaixonados por nossas próprias obras que nos tornamos incapazes de reconhecer o esforço contido nas obras alheias. Estamos sempre prontos para criticar; vivemos com o dedo em riste, e não nos damos conta do enorme abismo que estamos cavando entre nós e o nosso sonho. O nosso sonho é tão superficial e egoísta que corremos o risco de que, ao realizá-lo venhamos a ganhar como prêmio tão somente a solidão da vitória, num cume altíssimo onde cabe apenas uma pessoa.

 

A boa notícia (sim, há uma boa notícia!), é que não somos reféns indefesos de nossos bilhões de neurônios. Somos seres constituídos organicamente e forjados no convívio com os demais e na compreensão e acolhimento de nosso funcionamento psíquico. Aleluia! Porém, apesar de ser realmente uma boa notícia, ela nos tira PARA SEMPRE das águas mornas da acomodação. Ser feliz, ao contrário do que ingenuamente supomos, dá um bocado de trabalho.

 

contioutra.com - Quase vivosO pai da Psicanálise, Sigmund Freud revelou em seus estudos publicados que, no transcorrer da modernidade, os humanos foram feridos três vezes em seu narcisismo, ou seja, a belíssima e perfeita imagem que tínhamos de nós mesmos como seres conscientes racionais e com a qual, durante séculos, estivemos encantados. Que feridas foram essas? A primeira foi a que nos infligiu Copérnico, ao provar que a Terra não estava no centro do Universo e que os homens não eram o centro do mundo. A segunda foi causada por Darwin, ao provar que os homens descendem de um primata, que são apenas um elo na evolução das espécies e não seres especiais, criados por Deus para dominar a Natureza. A terceira foi causada por Freud com a psicanálise, ao mostrar que a consciência é a menor parte e a mais fraca de nossa vida psíquica.

A vida psíquica é constituída por três instâncias, duas delas inconscientes e apenas uma consciente: o id, o superego e o ego. Os dois primeiros são inconscientes; o terceiro, consciente. O ego ou o eu é a consciência: pequena parte da vida psíquica, submetida aos desejos do id e à repressão do superego. Obedece ao princípio da realidade, ou seja, à necessidade de encontrar objetos que possam satisfazer ao id sem transgredir as exigências do superego. O ego, diz Freud, é “um pobre coitado”, espremido entre três escravidões: os desejos insaciáveis do id; a severidade repressiva do superego e os perigos do mundo exterior. É desse conhecimento que podemos encontrar uma saída para nosso eterno dilema de coexistir no mundo com outros bilhões de nós. Necessitamos compreender-nos, a ponto de sermos capazes de equilibrar nossos egos, alimentando-os o suficiente e impondo a eles a observação dos princípios de coexistir.

Precisamos, com urgência, abandonar a ilusão de que alguém ou alguma coisa virá externamente nos garantir alegria, prazer ou realização. Não somos obras maravilhosas de ninguém. Somos seres imperfeitos, encantadoramente imperfeitos e permanentemente “em obras”, até o nosso último suspiro. Se quisermos experimentar a leveza do voo, precisamos aprender a cultivar a força das asas. Caso contrário, continuaremos a esbarrar uns nos outros por aí, a esmo, sem conexões. Seremos quase felizes, quase conscientes, quase humanos, quase vivos, pessoas engessadas. Uma vida inteira pede compromisso inteiro, lucidez e a determinação de olhar para dentro tantas vezes quantas forem necessárias, para começar a compreender o caos aqui fora e saber o que fazer com ele e com a beleza que existe nessa nossa permanente incompletude.

Ana Macarini

O silêncio é o grito mais forte

O silêncio é o grito mais forte

O silêncio é o grito mais forte.

Curioso como sempre tentamos nos afirmar com argumentos e explicações, que vão desde as discussões civilizadas e ponderadas, até berros, soluços chiados e muxoxos… E quando a última palavra não é a nossa, que agonia!

– Ah, eu não disse tudo o que queria! Tinha muito mais, e como tinha!
– Desculpe minha sinceridade, mas eu sou assim mesmo…Não é grosseria, é meu jeito!

Sim, todo mundo quer deixar sua marca, ver o outro com a cara no chão, sem argumentos, virar com classe e ir embora deixando o silêncio da última palavra dita, discussão fechada, batalha vencida, final de uma história, laços rompidos… Nessa hora, parece desvantagem não ter voz, não bater o martelo do leilão, não dar um murro na mesa e um grito de “agora você vai me ouvir”.

Mas será que realmente é prejuízo segurar uma ofensa, um demérito, uma confidência, lamentação, xingamento, súplica, uma palavra mal dita, mal encaixada, mal pronunciada?

Dizem que o que a gente guarda para si, um dia pode virar uma doença, como um veneno circulando e fazendo seus estragos. Eu me pergunto se o que a gente fala e não guarda, não é justamente a mesma coisa, sendo que vamos propositalmente atingindo os outros, muitas vezes fazendo para machucar, para ferir, adoecer…

Quisera soubéssemos agir no meio termo de tudo. Calar, digerir, selecionar, descartar e seguir. Quisera não tivéssemos essa vocação para advogar em causa própria ao menor descontentamento.

Argumentar muitas vezes resolve, outras, nem com reza forte.

Poderíamos pensar em alguma regras, para poupar esforços e frustrações:
– Você foi alvo de fofoca? Provocações? Injustiças? Deslealdade? Indiferença? Agressões?
– O quanto vale à pena rever essas situações e se concentrar em debatê-las?
– Quanto tempo e energia você vai concentrar nas respostas? Com qual intenção? Vai melhorar as coisas ou rolar a bola de neve para que aumente um pouco mais? Vai conseguir transformar algo a seu favor?

Quem fala mais alto aqui, afinal?

O silêncio. O silêncio é o grito mais forte!

Dica de livro: Florbela Espanca – A Hora que Passa

Dica de livro: Florbela Espanca – A Hora que Passa

 

Florbela Espanca – A Hora que Passa apresenta a vida dessa grande poeta portuguesa em uma dramaturgia construída a partir de seus poemas, contos, cartas e diário. Em todo o texto, não há nenhuma palavra que não seja da própria Florbela. Este trabalho é o resultado de três anos de pesquisa sobre a sua vida e obra, que deram origem ao espetáculo que fez sua estreia com uma temporada de 40 dias em 16 cidades de Portugal, em março e abril de 2014.

Prefácio

Quando conheci as poesias de Florbela Espanca, o que mais me chamou atenção foi a sua intensidade. Ela parecia viver exatamente o que escrevia. Um misto de amor e de dor.

Eu me perguntava: Quem foi essa mulher que ousou naquela época, na década de 20, expressar os mais íntimos sentimentos? Por que ela se matou? Por que nunca estava satisfeita?

Intrigada, decidi ir atrás da sua história. Fui a Portugal e conheci as três principais cidades em que ela viveu: Vila Viçosa, Évora e Matosinhos. Visitei suas casas, o cemitério, as homenagens nesses lugares – bustos em praças, biblioteca, túmulo em destaque no cemitério -, além de Lisboa e Porto. Filmei cada passo no meu vídeo-diário de bordo. E lá, percebi que Florbela ainda não possui o reconhecimento que merece.contioutra.com - Dica de livro: Florbela Espanca – A Hora que Passa

Até então, eu já tinha planejado montar um espetáculo que tivesse seus poemas como base, mas após ter contato com suas cartas, contos e diário, o texto que seria composto basicamente por uma desconstrução de suas poesias deu lugar às palavras de Florbela que mais expressavam sua forma de viver. O ponto de partida foi imaginar o que ela falaria para alguém exatamente uma hora antes de dormir e construir o texto como um fluxo de pensamento.

Ao reunir todo o material que acreditava não poder ficar fora de uma peça sobre Florbela, cheguei a uma dramaturgia que daria mais de três horas de espetáculo. Foi então que conheci o dramaturgo e diretor Fabio Brandi Torres em uma leitura de uma peça de Luis Eduardo de Sousa e o convidei para o projeto. Minha proposta para o Fabio era que com esse texto inicial descobríssemos juntos, na sala de ensaio, a essência do espetáculo. Fizemos experimentações de estudo de cena no festival de teatro Satyrianas e na Semana Florbela Espanca, que realizamos na Casa de Portugal de São Paulo.

Voltamos ao texto e o cortamos literalmente: usamos papel e tesoura como nas aulas de educação artística. E depois, com cola e papel, montamos um quebra-cabeça a partir das nossas descobertas. O resultado, para mim, é uma linda colcha de retalhos que me emociona sempre que a toco. Espero que você se emocione também.

Lorenna Mesquita

Para adquirir o livro, acesse o site www.lorennamesquita.com.br

Para Sebastião Salgado, crise dos refugiados é culpa dos EUA e Europa

Para Sebastião Salgado, crise dos refugiados é culpa dos EUA e Europa

Um dos mais aclamados fotógrafos da atualidade, o brasileiro Sebastião Salgado pode, ao longo de sua vida, entender muito bem as origens da miséria humana. Ao longo de sua carreira, viajou o mundo todo registrando imagens de momentos de crise e de guerra e acompanhou como se deu o início de uma série de conflitos que culminaram em graves consequências até os dias atuais.

Uma dessas consequências, que ganhou notoriedade principalmente nos últimos meses, é a crise de refugiados que tem levado milhões de sírios, líbios, iraquianos, africanos e cidadãos de outros países a buscarem abrigo em pátrias que não são as suas. Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, neste domingo (4), Salgado fez uma análise da atual crise de refugiados e atribuiu o problema à intervenções militares dos Estados Unidos e de países da Europa.

Para o fotógrafo, há a impressão de que trata-se de um problema novo por conta dos atuais fluxos migratórios de refugiados que chegam à Europa principalmente através da Itália. Ele pontua, contudo, que a crise começou muito antes.

“Como essas pessoas estão chegando à Europa, parece que a história é nova, mas não é nova, não. É velha, é a história da globalização, da reorganização da família humana, da concentração em centros urbanos, das geopolíticas. Quando eu conheci o Iraque, era um país rico, onde as pessoas trabalhavam, tinham aposentadoria, residências e viviam em paz. Um país [Estados Unidos] imaginou que lá havia armas de destruição em massa, atacou o lugar e o trouxe para a idade da pedra. No Iraque hoje ninguém tem casa, bomba explode todos os dias, é um país fisicamente destruído. Para onde você quer que esse povo vá?”, questionou.

Em sua análise, Salgado citou ainda outro exemplo de intervenção, mas dessa vez de países europeus na Líbia.

“Era uma estabilidade, de uma ditadura, mas os líbios tinham casa, escola, viviam de uma maneira razoável. Tomou-se a decisão de botar o [ex-ditador líbio] Gadaffi para fora. Bombardeios, tropas francesas e britânicas entraram com os rebeldes, mas eles não tinham ideia da casa de marimbondo em que estavam mexendo. A ponto de ninguém assumir o controle daquilo, nem os líbios, virou um negócio terrível. De onde saem milhares de refugiados que hoje atravessam em direção à Itália? Você joga com a história dos outros e depois sofre com as consequências”, avaliou.

Fonte indicada:Revista Fórum

“O problema não é crescer, mas esquecer…”

“O problema não é crescer, mas esquecer…”

Tomei a frase-título emprestada do filme “O Pequeno Príncipe” _ a nova animação, dirigida por Mark Osbourne faz uma emocionante releitura do clássico de Saint-Exupéry e nos abraça com a história de amizade entre o aviador e uma menina, pra quem ele conta a história do principezinho, repleta de ensinamentos em forma de poesia.

É para a menina que o aviador fala: “O problema não é crescer, mas esquecer”. E entendemos que ele tem razão, ao constatarmos que o amadurecimento impõe despedidas, e nesse processo muitas vezes esquecemos quem fomos e os vínculos que construímos no decorrer do caminho. Como o principezinho, cativamos e fomos cativados ao longo da vida, mas muitas vezes preferimos esquecer para poder crescer.

No último fim de semana, comemorando o aniversário de quarenta anos do meu irmão, me comovi diante do painel que reunia mais de trezentas fotos de sua vida, do momento do nascimento, passando pela infância e adolescência (em que fomos muito mais que irmãos), e finalmente chegando à vida adulta, celebrada em fotos com sua esposa e os dois filhos. Embalados pelo clima de nostalgia da festa _ muitos parentes e amigos de longa data estavam presentes _ recordei histórias antigas, elos fortes que construímos nos primeiros anos, e nos abraçamos num gesto emocionado.

Fazia tempo que não me permitia estar assim. Fazia tempo que não era para meu irmão a irmã que um dia eu fui. Fazia tempo que eu não me lembrava.

Recordar certas histórias nos traz de volta. Aproxima e aquece. Não permite que fragmentos do que fomos se percam pelo caminho nem fiquem renegados a um canto abandonado de nossa existência.

E vamos descobrindo que precisamos nos despedir para crescer, mas nunca nos esquecer daquilo que um dia fez parte do que fomos, a matéria prima de tudo o que nos tornamos.

Recordar nossos amigos, nossa família-base, nossos afetos e tudo o que envolveu esses encontros é aprender a conciliar dois mundos _ o presente e o passado_ e fazer deles uma construção nova, que nos torna pessoas melhores e mais afetuosas.

Dizem que não devemos mexer em certas dores. Mas é remexendo antigos baús que podemos esclarecer e decodificar o presente de uma forma mais amorosa com nós mesmos.

Meu irmão e eu crescemos, e nosso distanciamento natural, provocado pelas novas famílias que formamos, foi momentaneamente quebrado naquela tarde de seu aniversário. Naquele momento, comovida pelo mural de fotos, lembrei do tempo em que éramos crianças, e quebramos o gelo com nossa lembrança. Com a possibilidade de resgatar quem fomos agarrando-nos às nossas memórias.

“O problema não é crescer, mas esquecer”. Que a gente aprenda a buscar nossa afetividade no presente, mas também no tempo que deixamos pra trás. Que possamos nos lembrar de como era bom ter amigos no portão e ouvir a mãe chamando pro jantar. Que recordemos antigos aromas, como o da chuva numa tarde de maio e do bolo com café numa reunião de família. Que não esqueçamos antigos sons, como a voz da avó cantando “Se alguém te convidar pra tomar banho em Paquetá, pra piquenique na Barra da Tijuca ou pra fazer um programa no Joá…” e os irmãos torcendo pro time campeão. E que, inesperadamente, possamos resgatar essas lembranças e nos comover como há tempos não fazíamos. E descobrir, finalmente, que não estamos sozinhos. Ao contrário, nossos dias estão povoados com aquilo que deixamos, com o que partiu, com o que aparentemente não existe mais…

“Quero estar solteira, mas com você”, uma carta que viralizou na internet

“Quero estar solteira, mas com você”, uma carta que viralizou na internet

A escritora canadense de 33 anos, Isabelle Teissier, tem chamado atenção do mundo inteiro. O motivo? Uma carta intitulada “Quero estar solteira, mas com você”, na qual ela narra como seria um “casal ideal” na sua visão. De acordo com a carta, é possível manter uma relação com alguém, mas, ainda sim, ter sua liberdade de não querer sentir-se preso a nada ou ninguém.

A carta, publicada há alguns dias começou a bombar no Twitter logo após uma matéria da versão americana do site The Huffington Post. Em seguida, chegou às mídias sociais, atingindo milhares de pessoas ao redor do mundo.

Essa é a reprodução íntegra da carta escrita por Teissier:

“Quero que vá tomar cerveja com seus amigos para que no dia seguinte tenha ressaca e me peça que vá lhe ver porque deseja ter-me entre seus braços e que acariciemos um ao outro. Quero que conversemos na cama pela manhã, sobre todo tipo de coisas, mas algumas vezes, pela tarde, quero que cada um faça o que quiser durante o dia.

Quero que me fale sobre as noites em que você sai com seus amigos. Que me conte que havia uma menina no bar que te olhava. Quero que me mande mensagens quando estiver bêbado com seus amigos e que me diga besteiras, apenas para que possa ficar seguro de que eu também estou pensando em você.

Quero que ríamos enquanto fazemos amor. Que comecemos a rir porque estamos provando coisas novas e que não têm sentido. Quero que estejamos com nossos amigos, para que pegue na minha mão e queira me levar a outro local, porque já não pode aguentar-se e tem vontade de fazer amor comigo ali mesmo. Quero ter de permanecer em silêncio porque há pessoas e ninguém pode nos ouvir.

Quero comer com você, que me faça querer falar sobre mim e que você fale sobre você. Quero que discutamos sobre qual é o menor: a costa norte ou a costa sul, a parte ocidental ou a oriental. Quero imaginar o apartamento de nossos sonhos, mesmo sabendo que provavelmente nunca vivamos juntos. Quero que me conte seus planos, esses que não têm nem pé, nem cabeça. Quero surpreender-me dizendo “Pega seu passaporte que estamos indo”.

Quero ter medo com você. Fazer coisas que não faria com ninguém mais, porque com você me sinto segura. Voltar para casa muito bêbada depois de uma noite divertida com amigos. Para que coloque a mão no meu rosto, me beije, me use como travesseiro e me abrace bem forte durante a noite.

Quero que tenha sua vida para que decida viajar algumas semanas, apenas por capricho. Para que eu fique aqui, sozinha e chateada, desejando que salte sua carinha no Facebook me dizendo “oi”.

Não quero que sempre me convide para suas noitadas e não quero convidar você para as minhas. Assim, no dia seguinte, posso contar como foi minha noite e você também pode contar-me como foi a sua.

Quero algo que seja simples e, uma vez ou outra, complicada. Algo que, por alguns minutos, me faça fazer perguntas a mim mesma, mas no momento que estiver com você em um mesmo local, desapareçam todas as dúvidas. Quero que pense que sou bonita e que fique orgulhoso ao dizer que estamos juntos.

Quero que me fale te amo e, acima de tudo, poder dizer isso a você. Quero que me deixe andar na sua frente para que possa ver como meu corpo se mexe. Para que me deixe raspar as janelas do meu carro no inverno, porque meu bumbum balança e isso te faz sorrir.

Quero fazer planos sem saber se no fim os realizaremos. Estar em uma relação clara. Quero ser essa amiga que você adora ficar. Quero que siga tendo desejo de paquerar outras meninas, mas que procure a mim para terminar o dia. Porque quero ir contigo para casa.

Quero ser aquela que você faz amor e depois dorme. A que te deseja paz quando está trabalhando e a que fica encantada quando você se perde no seu mundo de músicas. Quero ter uma vida de solteira com você. Porque nossa vida de casal seria igual às nossas vidas de solteiros de agora, só que juntos.

Um dia te encontrarei”.

Fonte indicada: Tao Feminino

10 frases marcantes de Jorge Luis Borges

10 frases marcantes de Jorge Luis Borges

Um mundo sem livros
Há aqueles que não podem imaginar o mundo sem pássaros; Há aqueles que não podem imaginar o mundo sem água; Ao que me refere, sou incapaz de imaginar um mundo sem livros.

Suprema solidão
A velhice poderia ser a suprema solidão, não fosse a morte uma solidão ainda maior.

Sobre o ódio
Não odeies o teu inimigo, porque, se o fazes, és de algum modo o seu escravo. O teu ódio nunca será melhor do que a tua paz.

A dúvida
A dúvida é um dos nomes da inteligência.

Fim do mundo
São poucos os políticos que sabem fazer política. Mas, quando um intelectual tenta entrar nesse meio, então é o fim do mundo.

Própria Vitória
Há derrotas que têm mais dignidade do que a própria vitória

Fazer o bem
Fazer o bem ao teu inimigo pode ser obra de justiça e não é árduo; amá-lo, tarefa de anjos e não de homens.

Qualquer Destino
Qualquer destino, por mais longo e complicado que seja, vale apenas por um único momento: aquele em que o homem compreende de uma vez por todas quem é.

A outra pessoa
Fica-se enamorado quando se dá conta de que a outra pessoa é única.

Tempo de ventura
A velhice pode ser o nosso tempo de ventura. O animal está morto, ou quase morto. Restam o homem e a alma.

Fonte indicada: Mensagens

Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo (Buenos Aires, 24 de agosto de 1899 — Genebra, 14 de junho de 1986) foi um escritor, poeta, tradutor, crítico literário e ensaísta argentino.Conheça a biografia de Borges

Contribuições de Freud à Psicologia do Amor

Contribuições de Freud à Psicologia do Amor

O modelo como alguns homens amam reproduz certas condições que são construídas no interior do processo de subjetivação do Complexo de Édipo. Em suas contribuições à psicologia do amor, no artigo “Sobre a tendência universal à depreciação na esfera do amor”, Freud (1912) destaca características que determinam a escolha da pessoa amada, demonstrando conflitos que ocorrem entre a capacidade de amar e desejar sexualmente o mesmo objeto. A harmonia de uma relação amorosa normal sustenta-se entre o equilíbrio das correntes eróticas e afetivas.

As correntes afetivas correspondem aos primeiros vínculos amorosos da criança com a mãe, cujas correntes eróticas, por sua vez, estão interligadas, visto que a sexualidade da criança se desenvolve junto ao corpo materno, que a recobre de amor e sensualidade. Freud, nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, de 1905, foi claro ao evidenciar o chuchar como modelo da sexualidade infantil. Ou seja, – mesmo tendo a fome saciada, – a criança insiste em continuar mamando no seio materno, para satisfazer, assim, algo da ordem do erótico que se manifesta ali.

Com a entrada do menino na puberdade, as correntes eróticas que antes estavam misturadas com as correntes afetivas, precisam se separar do primeiro objeto de amor, de modo a redirecioná-las a outros objetos amorosos para fora da família. Trata-se, portanto, de seguir as regras impostas pela barreira do incesto ao exigir que a criança aprenda a amar e a desejar um outro objeto substituto. No entanto, tendo a mãe como primeiro modelo de amor, o adolescente, por fim, agora liberado para amar e transar, não consegue se organizar afetivamente a não ser pelo mesmo modelo primário reproduzido com a mãe, marca esta que o acompanhará ao longo da vida adulta.

A dificuldade, que se apresenta para este tipo particular de dinâmica do amor, reside na difícil tarefa de equilibrar as correntes eróticas e afetivas, sem levar o homem a incorrer em impotência psíquica ao não conseguir desejar a mulher para quem ofereceu seu amor.

Segundo Freud, – existe apenas um pequeno número de pessoas capazes de combinar adequadamente as duas correntes. Em outras palavras, amar sem que isto implique uma diminuição do desejo sexual. Quando essa harmonia não ocorre, o homem precisa recorrer a outra mulher que não seja digna de seu amor como, por exemplo, a prostituta, para assim extravasar seus impulsos sexuais selvagens inibidos pelo fantasma do amor incestuoso.

O que está em voga, nesses casos, para que o desejo sexual se mantenha vivo, é a possibilidade de poder depreciar e inferiorizar outra mulher. Expressões que compõem o jogo erótico como “sua vagabunda”, “vadia”, “cachorra”, ou tapas na cara, puxões de cabelo, dentre outros artifícios, fazem parte do repertório daquele que Freud designa como impotente psíquico devido ao fato de precisar se desvincular de toda e qualquer possibilidade de amar para se manter viril e desejoso.

Destaco aqui a fala de um paciente casado que sempre entrava em atrito com a amante quando ela o demandava afetivamente, exigindo dele algo para além do sexo casual. Esta pretensão da amante de querer namorá-lo o irritava porque, com isso, ela o impossibilitava de usá-la como objeto de seu desejo sexual. “É para isso que serve a amante, dizia ele, para que eu faça com ela o que eu não consigo fazer com a mulher para quem o meu amor está endereçado, a mãe do meu filho.” Ou seja, a esposa está para o amor assim como a amante para o desejo sexual. Este mesmo paciente relatou que decidiu ter um filho para tentar inibir ou deslocar as tentativas da esposa de querer tratá-lo como um bebê.

Freud, em 1914, no artigo sobre o narcisismo: uma introdução, destaca dois destinos da identificação amorosa: o narcísico e o anaclítico. O narcísico ocorre quando o sujeito ama a si próprio a partir do outro. Em outras palavras, ama no outro aquilo que foi, que é ou que gostaria de ser. A identificação amorosa anaclítica diz respeito ao tema sobre o qual estou abordando. Trata-se de amar no outro algum traço que remonte à parentalidade da primeira infância, como no caso agora citado do paciente que estava identificado com o fantasma da mãe reeditado na relação com a esposa.

Há um outro episódio no qual um paciente me declarou que sentia atração sexual por moradoras de rua e, – sempre quando possível, transava com elas, – afirmando que as condições precárias de higiene e clandestinidade o excitavam. Dominado pelos impulsos eróticos mais animalescos, sua satisfação sexual elevava-se à enésima potência através de uma certa mistura de medo, nojo, receio e desejo. Havia uma queixa em torno da frustração de não mais conseguir gozar plenamente com a esposa, alegando que o sexo cumpria apenas a função de satisfazer uma necessidade biológica de querer gozar para, em seguida, dormir. A impotência a qual  Freud se refere para explicar o fato do homem não conseguir desejar quem ama não é peniana, e sim psíquica. Isto não quer dizer, vale lembrar, que também não possa haver impotência sexual em alguns casos. De modo geral, há ereção no órgão, o que não há, é “ereção” nas fantasias eróticas.

A forte fixação na mãe como modelo primário de amor o impede de recorrer às fantasias mais imorais que enriquecem a relação sexual, tal qual aquelas que acontecem com a amante.  Existem vários graus de impotência psíquica. Há quem ao não conseguir depreciar a própria esposa para abrir as portas do desejo sexual precise buscar fora do casamento mulheres passíveis de depreciação e inferiorização, como no caso da moradora de rua. No entanto, o contrário também é verdadeiro. Vejamos este outro fragmento de caso clínico: uma paciente  teve que fazer uma cirurgia nas costas e recorrer ao marido para ajudá-la a tomar banho em virtude do fato de estar quase toda enfaixada e imobilizada. Conclusão: sua vulnerabilidade frente ao marido e o mal cheiro que exalava das faixas o excitavam como na época em que começaram a namorar. Bastou ela se recuperar para o desejo sexual se apagar e seguir os moldes do sexo “arroz com feijão”; ou, como socialmente convencionado, “sexo papai e mamãe”.

Exemplos como estes ilustram o quanto a prevalência do amor diminui a libido sexual como marca atemporal da interdição do incesto que obriga a criança a não desejar a quem ama. Se o homem reproduz com a mulher amada o mesmo protótipo a partir do qual aprendeu a amar, sendo a mãe, sempre sagrada e idealizada, o erotismo, por outro lado, perde sua potência. Depreciar, portanto, seja saindo com a mendiga, com a prostitua ou com a esposa enfaixada, apresenta-se como recurso para este tipo de homem se afastar do inimigo número um do desejo sexual: o amor. Freud traduziu muito bem esta problemática, ao afirmar que os homens governados por esse conflito, quando amam, não desejam, e quando desejam, não podem amar.

Como em todo e qualquer começo de relação, onde o amor ainda está em fase de construção, é comum que, do ponto de vista do homem, que padece desse conflito, a vida sexual seja mais rica e excitante. A combinação entre amor e desejo sexual é sempre muito delicada, principalmente quando a mulher decai da posição de mulher e assume o papel de mãe na relação, levando o homem a reproduzir o modelo primário que impossibilita a livre-expressão do erotismo.

Um outro exemplo que nos ajuda a entender melhor o conflito entre amor e desejo ocorre quando um casal briga. Por que se diz que entre briga de marido e mulher não se mete a colher? Porque acaba na cama! Isto é, uma boa briga, ao fazer emergir os conteúdos agressivos, removendo com isso os efeitos românticos do amor, traz à tona as correntes eróticas antes inibidas, levando o casal a transar como nos velhos e bons tempos. Há casais que precisam recorrer constantemente ao artificio da briga como uma alternativa possível para a manutenção da qualidade da relação sexual.  Para quem não consegue conferir um equilíbrio saudável entre as correntes afetivas e eróticas, a vida sexual fica empobrecida, sem sal. O conflito entre amor e desejo apresenta-se com frequência na minha clínica e, de modo geral, atesta a impossibilidade da pulsão sexual produzir satisfação completa, sempre aquém daquela vivida nos primórdios do bebê com a mãe.

Não somos máquinas. Somos bichos que amam.

Não somos máquinas. Somos bichos que amam.

Todo bicho um dia nasce e um dia morre. Alguns, entre uma coisa e outra, envelhecem. Mas todos, sem exceção, um dia vêm e um dia vão. Os ursos e os jacarés, a coruja, o pavão. Os pinguins e os caramujos. Cães e gatos, minhocas e besouros, vacas, focas, touros.

Tatus, mulas, zebus, cigarras, zebras e urubus. Lagartixas, passarinhos, macacos, golfinhos. Pombas elegantes, elefantes, girafas pescoçudas, preguiças muito mudas, cavalos velozes, lontras, albatrozes.

Leões, rinocerontes e zangões. Todo mundo um dia chega e um dia vai. Até a gente. Bichos perplexos e finitos, tão complexos e perdidos quanto os outros já nascidos.

É que a gente esquece, desconversa, passa ao largo e vai assim, vivendo. Mas um dia, ah, um dia isso tem fim. The End. Entende? E se há diferença que preste entre nós e os outros bichos é que, da chegada à despedida, esse negócio que a gente chama de vida, o que acontece é quase sempre reação, contrapartida. É só o que a gente merece.

Sujeito nasce, veste um sonho e sai. Olha pro alto e vai adiante, pisa cidades não inauguraras, jardins à espera sob o asfalto, respira flores não nascidas, ouve canções ainda não paridas, assoviadas por crianças ainda não compostas. Em suas costas, um amigo nunca feito lhe tem saudade, um lugar em que não esteve lhe sente a falta. E na pele da pessoa amada que ainda não esteve em seus braços, seu cheiro recende, persiste, provoca.

A vida é o que pode acontecer da chegada até a partida. Até lembrança de coisa não vivida, promessa esperando graça, prece não atendida.

Entre chegar e partir, a gente se encontra, se descobre, se completa, se liberta e vive para sempre. Repare, é verdade. Gente já vem ao mundo com vocação de eternidade.

A gente nasce, cresce. Mas quando se encontra é que a gente acontece. Quando o amor, em seu mau jeito de criança que ainda não sabe pedir “por favor”, chega com tudo, do nada, perfeito. Feito um rinoceronte trancado na lojinha de cristais, o amor derruba tudo. Sem mais.

Acontece assim. Todo bicho um dia nasce e um dia morre. Alguns, entre uma coisa e outra, se encontram, crescem, envelhecem. Melhoram. Até o dia em que vão. Todos vamos. Sem exceção. Melhor viver bem o tempo juntos. Me dá sua mão. O amor é o que nos salva da extinção.

Não esconda a vida atrás de uma cortina!

Não esconda a vida atrás de uma cortina!

Eu amo analogias e muito frequentemente me pego fazendo as mais estranhas comparações. Hoje, observando as cortinas da minha sala, constatei mais uma vez que comprei cortinas mais estreitas do que as janelas, onde um lado sempre fica descoberto. No começo achei ruim. Mas, como seria um transtorno fazer a troca, me conformei. Agora, pensando bem, vejo que comprei exatamente o tipo de cortina que me deixa confortável. Eu jamais cerraria tudo, de canto a canto, portanto, trabalho poupado. Para a minha vida, é preciso sempre deixar uma fresta à mostra;  a certeza de ver o outro lado e que o outro lado me veja também.. E, vale o detalhe: a cortina é quase totalmente transparente, portanto, pouquíssima diferença faz se toda aberta ou encolhida.

Por que afinal escolhi uma cortina assim? Será medo? Será desconfiança? Serei eu uma controladora? Uma exibicionista? Pode ser que nada disso. Pode ser que tudo isso.

E nós, como administramos as cortinas das janelas do nosso mundo? Permitimos muita luz? Bloqueamos tudo? Abrimos mão da função principal e as usamos somente uma bela decoração?

Cortinas finas e delicadas, que deixam o  ambiente leve e confortável e convidam a apreciar a luz que refletem, são os dias em que nos sentimos em paz com a vida, abertos para novas experiências, aconchegados e sossegados.

As persianas, que não raro se enrolam, prendem as cordinhas nas estruturas, e ao final ficam com um lado totalmente para cima e outro para baixo, podem representar aquela fase em que perdemos o foco,  nos engalfinhamos com problemas, tropeçamos nas próprias pernas.

Quando nos percebemos mais introspectivos, lembramos as  cortinas com forros, que rapidamente são puxados a qualquer sinal de que há luz demais onde não deveria.

Nos momentos mais complicados, tristes, depressivos, blackouts de parede a parede, com a  função de manter a sombra, a escuridão.

Se livres, cortinas de voal ao vento, escorregando pelos peitoris das janelas… se presos, pesados painéis estáticos.

De todas as formas, em algum momento da vida já passamos por todas as essas cortinas, muitas vezes nos enrolamos nelas, nos escondemos atrás delas, brincamos de abrir e fechar, e até as puxamos, para arrancá-las dos seus varões.

Todas as formas estão valendo, desde que sejam sempre cortinas, e nunca escudos, nunca lacres… Que as cortinas passem por nossa vida, mas, que a nossa vida não passe somente através das cortinas.  Melhor não tê-las então.

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