O que aprendi com a morte do meu pai

O que aprendi com a morte do meu pai

Por Georgina Munaier

Nunca fui o tipo de pessoa que precisou perder algo pra valorizar. Sempre soube dar importância às pessoas ao meu redor e cuidar para que permanecessem na minha vida. Mas nem sempre isso dependeu de mim. Perder meu pai, por exemplo, não dependeu. Como morávamos em cidades diferentes, a relação ficava restrita a viagens planejadas, telefonemas, mensagens e emails.

Hoje me pergunto se deveria ter ligado mais, abraçado mais, paparicado mais, feito mais favores, ter visto mais filmes quando ele queria ficar junto de mim, ter mandado mais mensagens de “bom dia” e “saudades”. Me pergunto se eu podia ter feito diferente, ter sido uma filha melhor, ter tirado notas melhores na escola para deixá-lo feliz por se sacrificar tanto para me manter no melhor colégio de minha cidade. Me pergunto se eu deveria ter discutido menos, feito menos drama, cedido mais, ter almoçado mais vezes na cozinha junto com ele e não na sala vendo televisão. Me pergunto tanto sobre tantas coisas…

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Mas a verdade é que ele sabia. Ah, sabia! Ele sempre soube o quanto era amado e admirado por mim. Ele sabia que eu pensava nele todos os dias, sabia que eu mandava energias positivas antes de dormir, sabia que eu o queria por perto! Ele, assim como eu, era sempre o dono da razão e das certezas. E o que me motiva todos os dias a ser uma pessoa melhor é saber que ele tinha certeza da mulher “formidável” que eu me tornaria. E quem sou eu pra contrariá-lo, né? Se é fácil? Não. Se dá medo? Sim. Mas o interessante é que com o passar do tempo, a dor da perda começou a se aconchegar no meu corpo e aos poucos transformou-se em força, coragem, determinação e fé.

Hoje penso nele como parte de mim, a parte que me motiva, que me acalma e que acredita no meu potencial; aquilo que me sustenta e me equilibra. A base. O conforto. A segurança. A imensidão. Uma energia capaz de controlar a saudade deixada pela ausência das ligações, dos abraços e sorrisos. Uma energia que se renova a cada manhã. Uma energia que me encaminha para a direção certa, para o tão sonhado (e não presenciado) futuro que ele tanto planejou pra mim.

E escrevendo este texto, me lembrei da frase de um filme que costumávamos assistir juntos: “ELA APRENDEU A VIVER, ELE APRENDEU A AMAR”. Qualquer semelhança com a vida real, não é mera coincidência!

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Sobre a autora:

Georgina Munaier tem 19 anos, é estudante e apaixonada por livros, café e música. Encontrou na escrita um modo de tornar a vida um pouco mais leve e especial.

O CONTI outra agradece a Georgina pelo envio e autorização da postagem.

Dica de livro: “Amizades Tóxicas”, de Mireille Bourret

Dica de livro: “Amizades Tóxicas”, de Mireille Bourret

Decepcionarmo-nos com amigos, num ou noutro momento da vida, todos já nos deparámos com essa situação. Nos tempos actuais, em que temos mais amigos virtuais do que reais, é mais fácil rompermos uma amizade através de um simples clique: ‘remover amizade’. Muitas vezes o dito amigo, só passados uns tempos é que se dá conta que nos seus contactos de Facebook já não encontra o nome do amigo lá. Na realidade, o verdadeiro significado de uma amizade não possui nada de virtual: implica presença física, disponibilidade, partilha, solidariedade e atenção recíprocas. Contudo, quando não nos sentimos bem numa relação de amizade, antes de a terminarmos, convém pôr a relação à prova, dedicar-lhe alguma reflexão, elencando-lhe os prós e contras; ao fim e ao cabo: identificar o nível de toxidade que da amizade emana.

A socióloga Mireille Bourret, explica em ‘Les Amitiés Toxiques’ (título original do livro) o por quê de algumas amizades se desfazerem com o tempo. Na primeira parte da obra, ‘Identificar as Amizades Tóxicas’, a autora canadiana dá-nos conta que “é geralmente a dinâmica, a relação que é tóxica, e não a natureza das pessoas que a vivem” e que, por norma, as problemáticas advindas de uma má relacção desenvolve-se no que não se diz, na insegurança e na falta de consideração para com o outro. A importância de estarmos atentos à linguagem não-verbal que um amigo revela (o tom de voz, os gestos, o olhar, etc.) diz-nos Bourret, é fundamental para evitarmos surpresas constrangedoras, a curto e médio prazo.

contioutra.com - Dica de livro: “Amizades Tóxicas”, de Mireille BourretA partir da página 59 de ‘Amizades Tóxicas’, a especialista descreve seis tipos de “personalidades tóxicas” (como as que possuem os narcisistas, os negativistas e os histriónicos) com que convivemos e mostra-nos como podemos afastá-las e assumir o controlo da nossa vida.

Depois de fornecer ao leitor ferramentas e técnicas úteis para que ele consiga identificar esses tipos de personalidades, saber como reagir em determinados casos e decidir o futuro da relacção, a especialista em Sociologia, na última parte do livro, compila uma série de emoções negativistas que fazem com que os laços entre duas pessoas possa se dilacerar. São exemplos: a frustração, a irritação, a troça, a avareza e a inveja. No final da leitura da terceira parte, estaremos mais capazes de lidar com os amigos que nos atraiçoam, abandonam ou magoam, pois estaremos mais consciencializados de que todas as perdas do passado que ainda não resolvemos transformam-se num peso que não nos deixa levantar voo, numa emoção tóxica que não nos deixa avançar. Uma das mensagens do livro é a de que quanto mais protegidos das pessoas tóxicas estamos, mais felizes seremos.

‘Amizades Tóxicas’ é um livro de leitura simples (sem jargões) e esclarecedora, dirigido a todos os que buscam respostas para poderem manter uma amizade que esteja em vias de extinção, ou para ultrapassar de uma vez por todas o sofrimento que adveio de uma outra. Este é um livro de auto-ajuda que pode servir de guia para muitos leitores que acreditam que tudo o que nos acontece, até a dor de uma amizade dilacerada, pode ser transformado em aprendizagem.

Excertos

“Seja qual for o resultado da amizade que o levou à tristeza, faça de maneira a sair mais enriquecido, mais atento a si e aos outros.” (p. 154)

“Convença-se de que os diferendos são muitas vezes fundados no orgulho e na soberba, que nos fazem esquecer a humanidade do outro.” (p. 161)

A indicação de leitura é do nosso blog parceiro Silêncios Que Falam (Site; Facebook)

O perigo de não se importar

O perigo de não se importar

Passamos a vida sendo aconselhados a ignorar, a “deixar pra lá”, como no caso das pessoas que nos aborrecem, das paixões não correspondidas, das tristezas aparentemente superficiais. Nesses e em outros vários contextos, dizem-nos para esquecermos, não darmos importância e seguirmos em frente. No entanto, até que ponto é suportável acumular tanta contrariedade aqui dentro? Para onde vai tudo isso?

Fico pensando naqueles programas televisivos que tratam dos acumuladores, cujas residências se transformam em depósitos de inutilidades amontoadas e que vão ocupando todos os espaços possíveis, causando danos à saúde e à vida do proprietário dos entulhos e daqueles que o amam. O entulho obstrui, enfeia, sufoca, imobiliza e prende a pessoa ao que não lhe acrescenta nada, àquilo que ela procura sem ao menos saber o motivo. Da mesma forma, ao tentarmos passar por cima das contrariedades passivamente, sem externarmos nenhuma reação que seja, vamos nos tornando acumuladores de angústias, as quais, assoberbadas, obstruem o nosso bem estar e a resolução pessoal de nossa vida como um todo. Caminhamos, assim, com pendências que nos ferem aos poucos, imperceptivelmente, mas de forma ininterrupta, latente e nociva ao nosso bem estar.

Viver com pendências sentimentais é viver pela metade, com um peso que se vai acumulando e um dia tem que escapulir de alguma forma, uma vez que nosso íntimo não consegue abarcar tanta negatividade em seus limites sensoriais. Daí a somatização, as depressões, as explosões de raiva e tudo o mais, inevitáveis consequências que só machucam a nós mesmos e àqueles que nos amam, justamente quem não tem nada a ver com isso, na maioria das vezes. No entanto, preocupar-se demasiadamente com os fatos, com o que já aconteceu ou pode vir a acontecer, também faz mal, assim como o faz, igualmente, irritar-se e esbravejar contra tudo e contra todos, sem papas na língua, dizendo o que se pensa, sem dar atenção aos sentimentos alheios. Porque uma coisa é ser sincero, outra coisa é ser agressivo e deselegante – e não poucas vezes confundimos tudo isso, machucando, no final das contas, menos os agredidos do que a nós próprios.

Tenho comigo que aquelas pessoas que externam apenas um ar “blasé” frente a qualquer situação e para com qualquer pessoa acabam se tornando muito chatas, ocas e isentas de emoção alguma, pelo menos externamente. E o perigo maior em sermos indiferentes demais é a armadilha que nos armamos ao relegar tudo ao segundo plano, aí incluídas as pessoas que nos são mais caras – marido, esposa, filhos, irmãos, amigos -, visto que, assim, poderemos estar nos condenando ao distanciamento sem volta de quem mais precisamos, fugindo aos encontros essenciais da vida em comum.

No mais, o ponto crucial que nos desabilita às interações sinceras e edificantes em nossa jornada vem a ser a desonestidade, o fingimento, quando adotamos posturas que fogem completamente ao que existe dentro de nós. Enganamos a nós próprios, às vezes para evitar contendas e indisposições com o outro. Entretanto, temos de entender que conflitos são muitas vezes imprescindíveis e não necessariamente inúteis, pois precisamos aparar as arestas que empacam nossos relacionamentos, seja com o parceiro, com o filho, com o amigo, com o colega de trabalho, com o chefe. Saímos mais gente, mais humanos e mais verdadeiros desses embates. Nossos dias, afinal, preenchem-se com essas relações e, caso estejam entravadas em algum aspecto, teremos nossa jornada adulterada em suas verdades, pois estaremos largando mão de chances preciosas de aprimoramento pessoal, de crescimento e de descobrimento. Escamotearmos os sentimentos implica, pois, negarmo-nos a encarar e a superar aquilo que nos impede de ao menos tentar buscar a felicidade.

Faz-se mister, como se vê, encontrarmos um jeito de lidar com nossos sentimentos, de forma a torná-los amigos da vida lá fora, harmonizando-os com o meio – umas vezes aconchegante, outras vezes inóspito – em que vivemos. E, caso precisemos de algum tipo de ajuda – de um familiar, de um amigo, de um profissional -, não podemos nos furtar de procurá-la, pois ninguém é obrigado a se safar sozinho de seus abismos, a ponto de tornar sua jornada ainda mais solitária e triste do que já possa lhe parecer.

Viver é uma arte, uma rota entremeada de atalhos e armadilhas, de conquistas e de frustrações, o que deveria nos tornar propensos a ficarmos cada vez mais fortalecidos e confiantes, mas não é sempre assim. Muitas vezes nos amedrontamos e nos acovardamos durante esse caminhar, paralisados emocionalmente, como que acuados num beco sem saída. Nesses momentos, quem nos salvará, oferecendo conforto, consolo e motivação, serão as pessoas com quem nos relacionamos de forma verdadeira, compartilhada, com quem construímos uma interação de confiança e entendimento mútuo, ou seja, quem ficou conosco após nossas misérias e virtudes terem sido cruamente expostas e aceitas, sem fingimento e sem anulação. Um conselho: cultivemos as relações sinceras, com quem vale a pena, com quem nos ama a ponto de entrar em nossas escuridões e nos resgatar de lá com vida e com amor.

Chinelos velhos viram brinquedos na África

Chinelos velhos viram brinquedos na África

Por Daniel Froes

Passeando pelas praias da costa leste da África, você pode se deparar com esculturas coloridas de elefantes, javalis, rinocerontes, leões e girafas, algumas em tamanho real, feitas com chinelos de borracha velhos encontrados no mar.

A transformação desses materiais em peças de arte e moda é ideia da empresa Ocean Sole. Com sede em Nairóbi, capital do Quênia, o negócio reaproveita sandálias velhas e outras peças de borracha encontradas nas praias do país. O resultado do trabalho são criações lúdicas que chegam a ser vendidas para jardins zoológicos, aquários e lojas de nicho de 20 países.

“A poluição em todos os nossos cursos de água é um grande problema”, diz Church, nascida e criada no Quênia. “Os rios estão entupidos com plástico e borracha”, ela acrescenta. “Quando as pessoas dizem que o oceano é uma sopa de plástico, é porque o plástico não vai embora – ele só se decompõe em partes menores”.

Segundo os cientistas, o tempo de decomposição desses resíduos varia de 100 a 600 anos. Em grandes quantidades no fundo dos oceanos, são alguns dos principais vilões da vida marinha, responsáveis pela morte de peixes, crustáceos e outras espécies.

Como tudo começou

Em 1997, Church trabalhava num projeto de preservação de tartarugas marinhas na ilha de Kiwayu, na fronteira do Quênia com a Somália.

Na época, Church ficou chocada com uma cena desoladora: praias inundadas por objetos de plástico que obstruiam a chegada das tartarugas aos seus locais de desova.

Mas foi lá também que ela viu crianças da região fazendo brinquedos com o lixo retirado do mar. Nesse dia, ela decidiu fundar uma empresa focada na solução de um problema ambiental grave.

Church pensou que poderia ajudar a limpar as praias e, ao mesmo tempo, impulsionar o desenvolvimento econômico e social daquela comunidade, incentivando moradores locais a recolher, lavar e processar materiais recicláveis para terem uma renda.

Confira as fotos:

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Fonte indicada: Razões para Acreditar

Fotos: Reprodução/Ocean Sole

Travessia

Travessia

No cinema, assistindo ao filme “A Travessia”, meu menino tinha as mãos suadas. O filme, uma história real sobre o francês Philippe Petit, que na década de 70 atravessou de forma ilegal o vão entre as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, usando apenas um cabo e se equilibrando sobre ele, desacomoda e leva à transpiração as almas mais sensíveis. Assistindo ao longa, a sensação que fica é a do medo. Medo pelo que pode acontecer ao protagonista (mesmo sabendo que ele sobrevive), medo pelo que sentiríamos estando na pele dele, medo de altura, medo da morte.

Isso me fez recordar uma frase do escritor Mia Couto que diz: “Eu tive as minhas mortes. Felizmente, todas elas passageiras”. E assim lembramos que a vida é composta de muitos lutos, a maioria deles reversíveis, e só isso deveria bastar para justificar nossa coragem, ou a capacidade de viver sem medo.
 Apesar de nos resguardar do perigo, o medo nos afasta da vida. Da vida e de suas inúmeras mortes. Da vida e de seus vários renascimentos. O equilibrista desafia o perigo com a certeza de que a morte está perto, mas não irá derrubá-lo. Já os que vacilam perante os desafios da própria existência constroem muros onde podem se refugiar, isolando-se de uma vida nova, muitas vezes melhor.
 Apesar de adorar montanha russa e de ter pulado de paraquedas há alguns anos, não me considero uma pessoa muito corajosa. Fui criada para desejar uma vida segura, longe do burburinho da corda bamba, recatada em meu mundinho particular. O hábito me fez almejar segurança. Na minha redoma, cultivo minhas leis. Não ouso virar a mesa nem levantar a voz. Não troco o certo pelo duvidoso, prefiro “um pássaro na mão do que dois voando”, perdi um pouco da espontaneidade com a idade. Não é motivo para me gabar não. Queria ter uma dose a mais de coragem para me livrar das culpas que me atam as asas e seguir pela corda bamba que me chama. A corda bamba que todos nós possuímos e, quer queira, quer não, temos que atravessar.
Todos nós possuímos um cabo de aço por onde devemos nos equilibrar e fazer a travessia. Alguns veem lá de cima precipícios enormes, como o vão entre as torres gêmeas. Outros percebem que tiveram medo de cair de uma altura irrisória, que não passava de ilusão causada pelo medo de seguir adiante. Porém, a vida é para quem ousa colocar pé ante pé, devagar ou com pressa, acreditando firmemente que cair não é o fim, pois muitas vezes o chão está a um palmo de distância.
Chegar ao fim, mesmo sentindo as pernas fraquejarem, nos dá a certeza de que a fé nos impulsiona a viver melhor. Ter a coragem de romper antigos nós, quebrar velhos tabus, experimentar novos ares e ousar fazer a travessia nos confronta com o amadurecimento, a única forma de crescer _ independente da idade que tivermos.
 Fazer a travessia é ter coragem de crescer. É experimentar o prazer que vem da descoberta de que vivemos constantes mortes, e que, com sorte, renascemos melhores e mais sábios. Que haja esperança, fé, inspiração divina. Que saibamos o momento de avançar e o de recuar. Que experimentemos cruzar a linha de chegada mais livres e com a consciência de que dando o primeiro passo já somos vencedores.

Ser querido não é ser útil!

Ser querido não é ser útil!

Ser querido é café quente com bolo. Ser útil é pílula de suplemento.

Ser querido é dia de sol com ventinho leve. Ser útil é protetor solar e repelente.

Ser querido é abraço apertado. Ser útil é capa de chuva.

Ser querido é ser aguardado, ter a presença desejada, ser incluído nos sonhos, nos planos, na vida.

Ser útil é ser indispensável pelas qualidades e especialidades.

Ser querido é ser amado apesar dos odiosos e repugnantes defeitos, ser compreendido, reconfortado, protegido, repreendido, o que for preciso.

Ser útil é ser dispensável quando a utilidade findar…

Todo mundo é querido de alguém, todo mundo é útil para alguém, os ambos, ou nenhum. Perceber a diferença é essencial para saber que papel figuramos nas vidas que tocamos ou que nos tocam.

Para alguns, preciso ser apenas útil. E quero o pagamento e a recompensa por isso.

Para outros, quero ser querida, como os quero bem também.

O que não quero, é ser útil para me sentir querida. Não quero me tornar indispensável para ter a ilusão de que sou muito querida. Ser querido é bem diferente de ser útil.

Jamais me conformarei em ser uma panela  aderente com excelentes qualidades e diferenciais! A panela é útil!

Eu? Eu quero ser motivo de doces lembranças, afeto, saudades e grandes planos para a vida!

Um texto sobre a gentileza

Um texto sobre a gentileza

 Por Martina Sarzi Neubüser

Gentileza. Palavrinha leve, soa fresca como brisa de verão. Alimenta a boca de quem fala e aquece os ouvidos de quem escuta. Quatro sílabas de humanidade genuína, na sua mais pura forma. Gentileza, ao contrário do que pode nos parecer hoje em dia, não é ato de outro mundo: é aquilo que nos faz mais irmãos, mais iguais, mais humanos. Gentileza não é puxar o saco. Não é dar mais importância ao outro do que a si mesmo. Não confunda. Gentileza é se doar para se sentir completo. É amar para se sentir, simplesmente, capaz de doar seu amor sem esperar coisa em troca. É estender a mão e, quando nos for estendida, é não pedir o braço. É olhar o mundo com bons olhos e incentivar que outros também façam isso.

É levar flores em um momento difícil ou, simplesmente, levar companhia. É servir uma xícara de café de bom grado. Gentileza de verdade não é obrigação, é virtude, é colher de chá. Na gentileza não pode haver cobrança, isso desvirtua seu sentido. Gentileza é dar e não esperar o troco, muito menos devolução. Vai além de ajudar; gentileza é cativar. Faz válida a nossa existência ao produzir frutos que não apodrecem, mas se multiplicam. É falar, mas é também calar.  E, muitas vezes, o silêncio é mais gentil que qualquer palavra amiga. Quem é gentil cultiva um jardim dentro de si, não edifica castelos. Castelos são feitos de tijolos, tijolos trazem peso. Flores purificam, embelezam, trazem felicidade. E o jardim permanece ali: gentil. Com uma nova muda a cada gentileza. Depois de um tempo, ele cresce sem que percebamos. Os atos gentis tornam-se involuntários e, nesse momento, estamos floridos da cabeça aos pés.

Seja gentil, o mundo precisa da sua gentileza. Doe-se e verá que, mesmo parecendo contraditório, se sentirá mais completo. 

Para contato com a autora: [email protected]

Quem te atenderia depois da Zero Hora?

Quem te atenderia depois da Zero Hora?

Quantas vezes não acordamos no meio da noite com o sono a nos escapar apressado, batendo em retirada para outras paragens? Então ficamos nós, espremidos em nossa cama, desconfortáveis e muitas vezes sozinhos.

Como ansiamos nessas horas poder nos partilhar com outro! Procuramos então entre um tic e um tac não o telefone, mas a memória para recordar aquele capaz de uma acolhida inesperada em uma noite de tormentas interiores nas quais tudo o que mais desejamos é nos abrigar longe de nós mesmos.

Temos tantos amigos nas redes sociais, tantos colegas de trabalho, tantas companhias para o chope de sexta, mas e para as madrugadas insones, o que temos? Quem em sua essência nos atenderia de bom grado depois do relógio tocar doze vezes e de nos vermos desprovidos de nossos encantos?

A gente se vê, a gente se fala, a gente marca alguma coisa mais tarde, a gente combina qualquer coisa dia desses… qualquer coisa eu te ligo, passa lá depois, vou ver aqui e te falo, me dá cinco minutos que eu já retorno, são frases cotidianas e cabem em muitas bocas.

Coloca uma roupa que eu estou indo te buscar. Abre a porta que eu vou te fazer companhia. Joga um colchão no chão que eu vou dormir ao teu lado. Chora no meu ombro que eu te entendo. Deita aqui no meu colo que eu vou te abraçar. Vem pra cá agora, são frases para poucos, essas só podem ser ditas por aqueles com os quais temos a tão preciosa intimidade.

E intimidade é uma coisa rara, quase encantada. Muitas vezes uma vida ao lado de uma pessoa não garante que a intimidade exista, contudo, uma hora ao lado de outra pode ser como um marco no calendário de nossa vivência, um raro encontro de almas. Então escancaramos sem ressalvas a porta do nosso íntimo, fazemos confissões na certeza da aceitação, dividimos vontades descabidas, muitas vezes isentas de justificativas, sem parecermos bobos ou levianos. Contamos segredos sussurrados, nos deixamos tocar sem medos e ressalvas por um outro que parece feito de nós.

Ao lado daquele com o qual temos intimidade, um olhar se transforma em aconchego, um sorriso vira um convite para o ânimo. Para ele podemos ligar de madrugada para desabafar sem medos. Para ele não precisamos ser perfeitos, não precisamos ser encantados. A intimidade é como ouro em pó. É um partilhar sublime de corações que se entendem no silêncio introspectivo, na beleza de uma lágrima mansa, na doçura de uma canção compartilhada.

Quantos afirmam apertando nossas mãos que são amigos de verdade, que são para todas as horas, contudo amigos para depois da zero hora são bem poucos. Amigos para dividir não só o lado bom da vida, mas as ansiedades gritantes e os medos infundados são raros.

A intimidade no outro é a morada do amor, é nela que vive a aceitação, o apreço, os ensinamentos brandos, as palavras que consolam e que curam. A intimidade na amizade é maravilhosa, no amor é um bálsamo, no sexo é sublime.

Se nossa memória se retesar em alguém nas silenciosas horas de uma madrugada insone. Se ao pensarmos nesse alguém soubermos que podemos com ele partilhar o nosso tudo a qualquer momento. Se ele entrou silencioso e respeitoso em nossa mente e sentou-se confortável em nosso coração, talvez seja hora de trazê-lo para mais perto de nossa vida.

Por outro lado, se nossa mente foi incapaz de encontrar nas horas notívagas um alguém íntimo o bastante para nos resgatar de nós, talvez tenha chegado o momento de repensarmos nossos relacionamentos. Talvez seja a hora reavaliarmos nossas prioridades e de termos claro em nossa mente que apesar de vivermos cercados diariamente por inúmeras pessoas, virtuais e não virtuais, são preciosos e raros aqueles com os quais podemos partilhar a tão bonita intimidade em um dia de sol ou em uma noite vazia.

Acompanhe a autora no Facebook pela sua comunidade Vanelli Doratioto – Alcova Moderna.

10 conselhos que deveríamos receber em várias etapas da vida

10 conselhos que deveríamos receber em várias etapas da vida

1) Você receberá um corpo. Poderá amá-lo ou odiá-lo, mas ele será seu todo o tempo.

2) Você aprenderá lições. Você está matriculado numa escola informal de tempo integral chamada Vida. A cada dia, terá oportunidade de aprender lições. Você poderá amá-las ou considerá-las idiotas e irrelevantes. A escolha é sua.

3) Não há erros, apenas lições. O crescimento é um processo de ensaio e erro, de experimentação. Os experimentos ‘mal sucedidos’ são parte do processo, assim como experimentos que, em última análise, funcionam.

4) Cada lição é repetida até ser aprendida. Ela será apresentada à você sob várias formas. Quando você a tiver aprendido, passará para a próxima.

5) Aprender lições é uma tarefa sem fim. Não há nenhuma parte da vida que não contenha lições. Se você está vivo, há lições a serem aprendidas e ensinadas.

6) ‘Lá’ só será melhor que ‘aqui’. Quando o seu ‘lá’ se tornar um ‘aqui’, você simplesmente terá um outro ‘lá’ que novamente parecerá melhor que ‘aqui’.

7) Os outros são apenas espelhos de você. Você não pode amar ou odiar alguma coisa em outra pessoa, a menos que ela reflita algo que você ame ou deteste em você mesmo.

8) O que você faz da sua vida é problema seu. Você tem todas as ferramentas e recursos que precisa. O que você faz com eles não é da conta de ninguém. A escolha é sempre sua.

9) As respostas para as questões da vida estão dentro de você. Você só precisa olhar, ouvir e confiar.

10) Você se esquecerá de tudo isso… e ainda assim, você se lembrará.

Fonte indicada: Lar

Assista a uma autópsia

Assista a uma autópsia

“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”
(Fernando Pessoa)

Assim como existem bloqueadores da dor física, existem relatos de bloqueadores da dor emocional. Muitos já devem ter ouvido falar sobre ir ao hospital do fogo selvagem para perceber que seus problemas não devem ser tão graves assim. Há também uma foto de uma criança africana que circula na internet, ela parece beber urina de uma vaca. Cenas chocantes que mostram a realidade na qual estão inseridas outras pessoas podem ter um efeito avassalador quando conseguimos nos colocar no lugar do outro e, ao voltar “ao nosso mundo” percebermos que talvez estejamos voltados demais para nós mesmos – o que nunca é bom.

A dor de cada um de nós é sempre a maior de todas, porque é a única dor que sentimos; entretanto acredito que olhar para fora possa nos dar força para enfrentar obstáculos ao longo do caminho. Enxergar o outro e tentar imaginar a dor daquele que não sou eu pode ser uma grande motivação – não para bloquear a sua dor – mas para enfrentá-la. Toda dor passa. Não há nada que dure para sempre.

Aos vinte e dois anos eu já estava no quinto ano de faculdade e estagiava dentro do Hospital Celso Pierro, em Campinas. Naquela época eu era uma jovem típica de vinte e dois anos, achava que sabia tudo, achava que já tinha nas mãos o script da minha vida pessoal e profissional. Tenho saudade daquela certeza que eu tinha sobre tudo, todavia, tenho uma vontade imensa de voltar no tempo, dizer umas verdades àquela presunçosa e rir da cara dela ao dizer: “você nem imagina o que te espera”. Voltando ao meu estágio, depois de muita luta acadêmica, consegui uma das duas vagas para estagiar na enfermaria de moléstias infectocontagiosas e lá eu cruzei com um dos seres humanos mais espetaculares que Limeira “pariu”. Ela era na época residente na ala e um dia fez uma das tantas boas ações que carrega no currículo quando me convidou para ir com ela levar um papel qualquer no setor onde eram realizadas as autópsias no hospital.

Eu era muito ligada a ela porque éramos da mesma cidade e estávamos no imenso hospital da PUCCampinas, então era como se eu tivesse uma irmã mais velha lá dentro. Aprendi muita coisa naquele ano, porém nada que se compare àquele dia quando entrei naquele quarto e vi o paciente que eu havia atendido um dia antes todo aberto e com seus órgãos sendo retirados; ali eu mudei para sempre. Havíamos apelidado-o carinhosamente de Tião Gavião. Ele costumava morar ou na enfermaria, ou na cadeia do São Bernando onde eu também estagiava. Eu conhecia o Tião e o via feliz quando era internado “porque tinha uma cama só para ele e comia super bem”. Na cadeia era diferente! Tudo é uma questão de referência. Tião morreu por complicações pulmonares, era soropositivo e não tinha a menor motivação para se cuidar. O pulmão dele estava tão comprometido que a médica ao realizar a autópsia usava um tipo de concha para retirar “aquilo”. Enquanto a Dra. Cau e a amiga médica que manuseava a concha conversavam eu pensei: “Eu sou nada”. E desde aquele dia eu comecei a sonhar. Perdi as certezas, todas elas.

Aquele dia me deu a exata noção de que o nosso corpo físico não é nada, e que há que se ter sempre a busca, a motivação para ser feliz, porque tudo passa, e passa mesmo. Não é preciso assistir a uma autópsia, é preciso viver sabendo que elas existem.

Dedico esse texto e a minha eterna gratidão, amizade e afeto á Doutora Claudia Barros Bernardi, médica infectologista que protagonizou essa história junto com o Tião. Ela atualmente está em Luanda trabalhando, distribuindo amor e acordando menininhas dormentes como eu fui um dia.

Acorde, tem um desconhecido mandando na sua vida

Acorde, tem um desconhecido mandando na sua vida

Por  contioutra.com - Acorde, tem um desconhecido mandando na sua vida

O armênio George Ivanovich Gurdieff faz parte daquele grupo de loucos geniais do século XX, que misturavam insights reveladores com pirações às vezes perigosas, grupo ao qual pertenciam figuras como Colin Wilson, William Reich, Aleister Crowley, Jodoroswki e tantos outros doidos de variado grau de periculosidade social. Sabendo separar o joio do trigo, a teoria maluca das ideias proveitosas, podemos aprender um bocado com Gurdjieff.
Para ele, estamos sempre adormecidos, seja durante o sono noturno, seja com os olhos abertos ao longo do dia, ocasião em que nos iludimos de que estamos totalmente despertos.

Para entendermos o que ele quer dizer, precisamos compreender alguns aspectos elementares dos sonhos. Quando dormimos à noite, ficamos apenas parcialmente e não completamente isolados do mundo externo, sem perceber o que ocorre lá fora. Afinal, fechamos nossos olhos para dormir, mas não nossos ouvidos e os demais sentidos de nosso corpo.

Então, às vezes, percepções do mundo real vazam para dentro de nossos sonhos, e nós incorporamos esses estímulos ao que sonhamos no momento. Todos nós já passamos por esse tipo de experiência. Às vezes, sentimos sede e sonhamos que estamos bebendo água. Dentro de nosso sonho um carro buzina, um telefone toca ou alguém nos chama pelo nome, e logo em seguida despertamos para descobrir que no mundo real um carro estava mesmo buzinando, nosso celular realmente tocava ou alguém de fato tentava nos despertar.

Isso ainda acontece quando estamos supostamente acordados, pois em certo sentido ainda continuamos a sonhar, e quem sonha de olhos abertos é alguém chamado “Ego”.

E o ego sonha porque tende a organizar todas experiências do mundo em torno de si, como se tudo o que ocorresse tivesse ele, direta ou indiretamente, como protagonista, como personagem central para o qual todas as coisas, todos os eventos, convergem.
Assim, a única diferença entre estar dormindo e estar acordado seria apenas do grau de profundidade do ato de sonhar realizado pelo Ego. Isso porque os sonhos são formados por fragmentos de estímulos do mundo lá fora e por elementos que estão em nosso inconsciente. Há, por assim dizer, uma mistura de realidade e de subjetividade.

Durante o dia, a quantidade de percepções do mundo lá fora que vazam para esse nosso “sonho” é muito maior, e o Ego se encarrega de ajustar todos esses estímulos exteriores para formar uma narrativa coerente que confundimos com a realidade, mas que não passa de algo imaginado — pois, no centro da narrativa, nós somos os protagonistas e a verdade é que o mundo existe, as pessoas vivem e as coisas acontecem independentemente de nossa existência.

Vamos lembrar do exemplo da buzina e do celular. Quando estamos acordados, percebemos a realidade ao nosso redor, e estamos conscientes quando um carro buzina ou toca nosso celular. Podemos, assim, interagir com o mundo lá fora.

Porém, para Gurdjieff, não percebemos os estímulos externos tais como são, mas os selecionamos e os interpretamos conforme nossa perspectiva de Ego que está em parte acordado e em parte sonhando.

Da mesma forma como, enquanto dormimos à noite, a matéria de nosso sonhar é o conjunto de elementos pertencentes ao inconsciente somado a algumas percepções da realidade, enquanto estamos acordados durante o dia essas percepções, mais numerosas, são misturados pelo Ego condicionamentos da infância, traumas, preconceitos, desejos frustrados, temores, expectativas e pressuposições sobre como gostaríamos que as coisas fossem.

Para explicar esse processo, há um conceito muito útil formulado pela psicologia. Trata-se do fenômeno da projeção. Assim como um antigo projetor de cinema projeta na tela branca cenas de um filme, da mesma forma nosso Ego projeta nos acontecimentos suposições e circunstâncias que não são reais, mas que correspondem, de forma por vezes simbólica, ao que está dentro de nós e que somos incapazes de reconhecer conscientemente.

Estamos parcialmente dormindo nesse exato momento justamente porque nosso estado de semidespertar é repleto dessas projeções.

Esse é o motivo pelo qual, muitas vezes, um pequeno incidente no trânsito acaba em violência desproporcional. Também é a razão pela qual uma rivalidade entre torcidas de futebol pode ser a dar lugar a um homicídio, ou um pequeno desentendimento entre familiares ou amigos pode resultar num grande desentendimento, com todos magoados de forma incompreensível.

Matar por um time, agredir por causa de um pedaço de metal motorizado ou magoar-se por um incidente minúsculo: fatos insignificantes que resultam em grandes tragédias. É que, envolvendo os fugazes e pouco relevantes eventos da vida real, há camadas e camadas de projeções resultantes de nosso estado semidesperto.
Nesses casos e em muitos outros, quem discute, agride ou se magoa não está realmente enxergando o outro ser humano na sua frente, mas uma mistura da outra pessoa com uma projeção de algo que existe apenas na sua cabeça. Porém, como sonhamos acordados, julgamos ter existência concreta coisas que estão apenas em nossa mente. É assim que nosso Ego mantém uma narrativa coerente, mas falseada, sobre sua importância no mundo.

Mas se a diferença entre nosso sonho noturno e nosso sonho diurno está apenas no grau em que os estímulos internos vazam para nosso sono, há algum modo de realmente despertar?

E como despertar?

Para Gurdjieff haveria, ao lado do adormecer noturno e do “sonambulismo” diurno, um terceiro estágio de consciência. Esse seria o estado de pleno despertar.

É dessa forma que o bigodudo armênio definia o conceito oriental de “iluminação” e seus equivalentes ocidentais, como a “beatitude”: não haveria nada de místico nesses estados, o iluminado não seria alguém que atingiu um nível de espiritualidade superior. Quem se ilumina simplesmente acordou no sentido de não misturar e confundir as coisas do mundo real com elementos do seu mundo subjetivo — a vida lá fora não é mais uma tela branca na qual seu ego projeta, sem perceber, conteúdos que estão aqui dentro. Ele reconhece as coisas tal como são.

(…)

Um mundo com pessoas mais despertas é um mundo de pessoas mais amorosas em suas relações e mais responsáveis em seus atos. Quem acordou um pouco mais do sonambulismo diário é capaz de ter a abertura necessária para construir uma sociedade realmente evoluída, em que o centro de nossas decisões não é o ego, mas o bem estar coletivo.

Fazemos, por fim, amizade com o desconhecido que há em nós e que comanda nossas vidas. Trazemos ele à luz, reconhecemos os seus objetivos confusos, medos ocultos e desejos inconfessos. E ele se torna menos manipulável, menos cego em seus passos. Na verdade, ocorre a fusão entre nós e uma parte de nosso ser que ignoramos. Por fim, abrimos nossos olhos um pouco mais, pois eles estão fechados neste exato momento, e sonhamos sem perceber.

Portanto, despertemos.

contioutra.com - Acorde, tem um desconhecido mandando na sua vida

Victor Lisboa é editor de Ano Zero, colunista do Papo de Homem e autor do blog Minha Distopia. Escreve não por achar que tem vocação ou talento, e muito menos com a pretensão de dizer algo importante. O problema é de outra ordem. É descaramento, é o prazer de se deixar levar por uma compulsão. Isso porque, de todas as perversões toleradas em sociedade, a mais inofensiva é escrever. Deixem que abuse, portanto.

Livros falam cada vez menos de emoções

Livros falam cada vez menos de emoções

Com exceção do medo, as emoções foram sendo continuamente varridas dos livros ao longo do último século.

Pesquisadores britânicos fizeram uma varredura em mais de 5 milhões de livros digitalizados em busca das palavras que nomeiam as emoções.

A lista de palavras procuradas foi dividida em seis categorias, incluindo raiva, nojo, medo, alegria, tristeza e surpresa, normalmente catalogadas como “emoções básicas”, ou instintivas, do ser humano.

“Ficamos surpresos ao ver como períodos de humores positivos e negativos são bem correlacionados com eventos históricos. A Segunda Guerra Mundial, por exemplo, é marcada por um aumento marcante de palavras relacionadas à tristeza, e uma diminuição correspondente de palavras relacionadas com alegria,” conta Alberto Acerbi, da Universidade de Sheffield.

Mas o estudo publicado na revista científica PLOS One mostra outras surpresas.

A mais marcante é uma queda contínua do conteúdo emocional nos livros publicados nos últimos 100 anos, com exceção da palavra medo, uma emoção que ressurgiu com força na literatura nas últimas décadas.

Contudo, os cientistas alertam que não é possível concluir que as emoçõestenham estado menos presentes na população.

“Uma questão que ainda precisa ser respondida”, escrevem os autores, “é saber se o uso das palavras representa um comportamento real de uma população, ou possivelmente uma ausência desse comportamento, que é cada vez mais descartado da ficção literária. Os livros podem não refletir a população real assim como as modelos da passarela não refletem o corpo médio. “

Fonte: Diário da Saúde

O ciclo do amor moderno

O ciclo do amor moderno

Por  Priscila Nicolielo

Oi tudo bem, você vem sempre aqui, que perfume bom o seu, aceita uma bebida, qual o seu nome, o que você está estudando, eu também gosto de Los Hermanos, deixa que eu te adiciono no Facebook, deixa que eu pago a conta, quer uma carona, quer subir, bom dia, quero te ver de novo, pode na terça, e na sexta, e no sábado, te pego às oito, você tá linda, tem um restaurante que vai gostar, separei um texto que li na internet pra você, te mandei pelo Whatsapp, você tem tatuagem, você já foi pra Roma, você curte fotografia, você quer pedir a conta, tem um lugar aqui perto que toca uma música boa, quer ir comigo, tudo bem também estou cansado, quer subir, acabou minha camisinha, bom dia, quero te ver de novo, cinema, teatro, tem uma festa também, você tá linda, vamos fazer uma selfie, a peça é boa, quem é Zé Celso, por que você não me falou que os atores interagiam, vamos tomar cerveja, você é mais bonita ainda bêbada, marquei você na nossa foto do Instagram, vou pedir a conta, quer subir, dorme aqui hoje, bom dia, fiz o café da manhã, quer viajar este final de semana, pessoal essa é a Bruna, todo mundo gostou de você, claro que é namoro, a gente se fala durante a semana, ah é bom dia, hoje num dá porque vou ficar preso no trabalho, amanhã num dá tem futebol, depois tem ensaio da banda, é tenho uma banda, pode ser segunda, como você dorme cedo, eu tento passar aí pelo menos pra te dar boa noite, num deu, me enrolei, tô com dor nas costas, minha vó morreu, meu carro tá sem freio, tenho um jantar de trabalho, tá bom eu vou, nossa que lugar chato, que cara trouxa, que garçom trouxa, que mulher bonita, que cerveja quente, que som alto, que merda de ator que quer interagir no bar, reparei sim, você cortou, ah mudou a cor, vamos embora, te deixo em casa, hoje num dá, tô com enxaqueca, tenho que fechar a planilha, a namorada do Caio terminou com ele, minha mãe vem pra são Paulo, é final do campeonato, aniversário da chefe, não estou muito animado, por que você quer terminar, me dá mais uma chance, vou mudar, vamos sair, quando você quiser, onde você quiser, eu te pego, você tá linda, linda, linda, do que fala essa exposição, o artista interage, que interessante, esse bar é de jazz, eu pago a conta, vamos subir, dorme aqui em casa, fiz café da manhã, o seu perfume é bom, imprimi um texto que li na internet e me lembrei de você, vamos pra Roma fotografar as tatuagens dos atores de peças doidas, mas não nesse mês, não nessas férias, não nesse ano, porque vou ficar preso no futebol, amanhã tem casamento do Caio, minha enxaqueca piorou, minha vó ressuscitou, a minha banda morreu, vou dar um jantar pra minha mãe, meu twitter tá com vírus, tá frio, tá calor e eu não tava a fim de tomar banho hoje.

Fonte indicada: EOH

Quando aprendi a desistir

Quando aprendi a desistir

Aquele ano foi terrível para Araceli. Não éramos exatamente amigos. Eu a encontrava na casa de um casal de amigos e sempre a ouvia falar da vida. Aquela mulher merecia um prêmio. Sério. O marido era um sacana, sua loja de roupas de banho estava falindo, ela ganhava peso, apesar de tantas dietas malucas, semana após semana – Mas eu continuo forte. Eu sigo firme. Não vou desistir não! – dizia, mexendo seu famoso assado no tempero, com uma tristeza intacta por trás daquele sorriso incrivelmente insistente.

Um dia a encontrei no shopping. Onze milhões de habitantes nessa cidade e eu a encontrei olhando uma vitrine. Atravessamos a rua pra tomar um suco em um beco charmoso cheio desses food trucks. Ela tentou falar de outras coisas, mas claro, seu coração queria falar do marido, da loja que sua mãe deixou, dos quilos que a incomodavam – Tem sido difícil. Nem eu sei como aguento. Mas eu li um texto seu esses dias que falava sobre isso. Sobre não desistir – me contou em tom de elogio. Aquilo me incomodou profundamente.

Aquele texto não era pra ela – Araceli, eu sei que vai parecer estranho o que eu vou dizer, mas… desista. – ela estava em choque – Como assim, desistir? – com o copo gigante de suco congelado no ar – Não basta perseverar. Nós também precisamos entender, sentir se estamos insistindo na direção correta. Às vezes, enquanto todo mundo diz pra gente continuar, nós temos que saber se aquele caminho merece mesmo nosso esforço. Existem caminhos superdifíceis que simplesmente não levam a lugar nenhum. A vida tenta muito sabiamente nos mostrar isso, como uma mãe delicada. A gente é que não vê – disse, abaixando o copo dela com cuidado enquanto segurava as suas duas mãos.

Vez ou outra, a gente precisa parar de machucar os pés, dar murro em ponta de faca, ter a coragem de deixar pra lá. Um relacionamento infeliz que pede desistência pode dar espaço a uma história pela qual valha verdadeiramente a pena lutar. Um sonho que nem é nosso, um emprego que nos diminui, a carreira que escolhemos lá atrás, quando nem sabíamos quem éramos de verdade. Talvez você precise simplesmente desistir agora. É fácil reconhecer um caminho que é nosso. Mesmo na dificuldade, mesmo na dor, mesmo nas noites insones, ele se mostra nosso, flui, ainda que devagar.

Um ano depois reencontrei Araceli no mesmo lugar. Dessa vez, fui visitá-la na inauguração do seu próprio food truck. Foi lá que conheci seu namorado novo, aquele poço de carinho, correndo pra um lado e pro outro pra atender todo mundo, enquanto ela se matava de cozinhar com um sorriso insistente no rosto. Ela não emagreceu. Continua lutando. Embora Beto a agarre o tempo todo, a implorando para não mudar. Minha comida chegou com algo escrito no guardanapo. Um recado de Araceli dizia “Fui feliz bem mais quando aprendi a desistir do que não era pra mim”.

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