Psicanálise: Veneno e cura

Psicanálise: Veneno e cura

Não foi uma ou duas vezes na vida que eu ouvi de algum homem leigo, ou apenas razoavelmente instruído acerca da psicanálise, alguma ofensa mascarada de “diagnóstico analítico”. Popularizada em demasia, creio que as boas intensões freudianas não se realizaram. Como tudo o mais que por demais se populariza e acaba por banalizar-se, devido à falta de conhecimento e aos usos escusos, uma ciência que poderia auxiliar a muitos perde o seu valor.

Nunca vi, por si só, mal algum nessa teoria. Embora psicanálise e psicologia não sejam a mesma coisa, ao contrário do que muitos pensam, foi ela que me levou ao curso de psicologia, e dela desfrutei ao máximo, e ainda é o que vejo como o mais sólido para a orientação clínica, particularmente no caso das psicoses. Todavia, como foi com a bomba atômica e com tantas outras descobertas geniais, o uso predominante que se faz das coisas acaba por travesti-las em sua finalidade e epistemologia, o que, consequentemente, acaba por desacreditá-las.

Não é incomum que escute de outras pessoas, que relatam seus sofrimentos nos lugares mais inusitados, ao sugerir uma terapia ou um processo analítico, uma expressão acompanhada de pavor. São inúmeros os relatos de trabalhos realizados por maus profissionais, imagino que despreparados ou com formação duvidosa, que se utilizam de termos aleatoriamente para impressionar seus “pacientes”, emitem atitudes antiéticas ou simplesmente tentam embromar e acham que está tudo bem. Esquecem-se, talvez, que uma pessoa que sofre emocionalmente, não por isso se torna burra. O pior é que, como nem todo psicanalista precisa ter formação em psicologia, ou psiquiatria (o que penso que seria sensato), muitos não estão submetidos a um conselho ou código de ética.

Fora isso, temos os psicanalistas de boteco ou de esquina, mais charlatães do que certos jogadores de búzios, tarô, pôquer, ou outra jogatina qualquer. Não estou desmerecendo nenhum desses profissionais, nem místicos, nem jogadores, nem psicanalistas sérios. Todavia, é fato que estes se tornam cada vez mais raros, e a profusão dos verbetes dessa ciência que era subversiva em sua época, transforma-se hoje em bala na agulha de rótulo ofensivo para quem quer que, por desonestidade intelectual ou simples desinformação, dispõe deles para diminuir, com uma falsa autoridade, aquele que pretende atingir.

Uma das razões para que isso afete mais às mulheres é devido à própria origem da ciência psicanalítica, que tem seus fundamentos no estudo das histerias. A doença misteriosa que afetava as mulheres da época, possuindo como sintoma conversões físicas, paralizações, perda de conhecimentos essenciais (como esquecer a língua materna), dentre outras manifestações “bizarras”, não raro é utilizada erroneamente para ofender uma mulher quando a mesma apresenta uma atitude que não esteja dentro do esperado pelos padrões. Um desvio de interpretação, intencional ou não, daqueles que podem transformar um “pai nosso” em “pau no osso”. Isso apesar de Freud e tantos outros que, ao contrário do que pareça a alguns, dirigiam sua crítica muito mais aos padrões sociais e aos males que esse causava (como é explícito em “Mal-estar na civilização”) do que aos indivíduos e suas “anomalias”.

É no mínimo curioso de se observar, que caso um homem perca a razão, se altere, grite, ou aja por impulso, ele apenas “perdeu a cabeça”, estava nervoso, no máximo, é “temperamental”. Mesmo que o comportamento abusivo chegue a uma agressão física, tantas vezes é perdoado sem diagnósticos prévios. “É assim mesmo…”. No caso de uma mesma atitude oriunda de uma figura feminina, bom, aí a coisa fica séria: é doença, é histeria, está desiquilibrada, sofre de TPM, é depressiva, melancólica, precisa de tratamento. É penoso! Penoso ter que ouvir relatos e mesmo sentir na pele o uso de um conhecimento tão rico sendo utilizado de forma tão porca. Não apenas no caso das mulheres, mas para denigrir e marginalizar qualquer comportamento que não seja condizente com a concepção de normalidade do oponente.

Infelizmente nem todos os que sofrerem esse tipo de agressão – que ao meu ver é mais grave do que ser chamado honestamente de “filho da p…”, ou qualquer outro palavrão, que para os fins mesmo de ofender é destinado; possuem conhecimento suficiente para recusar esse rótulo e tratar com o devido respeito o seu ofensor: mandando ele à merda, ou mesmo, ir estudar psicanálise (de verdade), ou fazer análise de fato. E no caso dos psicanalistas formados, mas que usam do seu conhecimento para propósitos vis, pedir ao menos que respeitem a teoria tal qual ela merece, pagá-los com uma moeda qualquer (proporcional à qualidade do diagnóstico não requerido) ou encurrala-los a partir de suas próprias ferramentas. Ignorá-los, senão, é o que vejo como a melhor opção. Não há nada pior para um espírito vaidoso, mas de pouco mérito fático, que ser tratado como um pedaço de graveto no meio de uma trilha, que de tão pouca valia, incomoda um pouco, mas não gasta nem mesmo retirá-lo do caminho.

Lamentável que esse tipo de uso mesquinho da psicanálise afaste tantos, não apenas do tratamento analítico, que ao contrário de incutir rótulos, pode proporcionar a tantos um conhecimento maior de si, mas também acaba por afastá-los de qualquer outro tipo de terapia, já que em uma sociedade onde a subjetividade e as emoções são tratadas como de segunda importância, a ignorância sobre o ser humano enquanto mais que uma máquina producente de munição para um sistema vampiresco, se torna predominante, massiva e autodestrutiva.

Histeria, a luta antimanicomial e o feminismo

Histeria, a luta antimanicomial e o feminismo

Por Nanda

Não é de hoje que mulheres têm seus corpos e sentimentos demonizados. Desde muito antes da Idade Média, onde mulheres sofreram perseguição, mutilação de seus órgãos e foram encarceradas por seus comportamentos, o sentimento feminino foi considerado um problema a ser resolvido.

Se uma mulher sangrasse, era considerada bruxa e queimada na fogueira durante a Inquisição porque não estava cumprindo com sua função reprodutiva. Se não obedecia seu marido ou se sentia prazer durante relações sexuais, também era queimada, jogada em uma cela e isolada completamente da sociedade, ou sofria diversas formas de tortura.

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A concepção da histeria surgiu muito antes dos relatos de Hipócrates (IV a.C), e através dela é possível perceber a relação que se tem com o conceito de mulher nessas sociedades e o papel que elas tinham.

Além da histeria ser considerada uma doença das mulheres, as parteiras eram as responsáveis pelo tratamento e cura. A doença era associada diretamente ao útero, que eles acreditavam ter o poder de se movimentar dentro do corpo de maneira autônoma, causando a sufocação daquilo que eles entendiam como matriz. O tratamento se dava através da manipulação desse órgão.

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Imagem do filme ‘Histeria – A história do Vibrador’ que mostra o tratamento recomendado à mulheres consideradas histéricas no século XIX.

A visão do papel da mulher na sociedade não se alterou com o tempo, e com isso foi possível perceber como caminhou a história da loucura feminina e a patologização do sentimento da mulher. Eram consideradas histéricas as mulheres que não cumpriam com a sua função de reproduzir e cuidar do outro.

O diagnóstico de histeria era frequentemente usado para demonizar e invalidar manifestações emocionais. Estas, eram entendidas como comportamentos anormais e indesejados por parte das mulheres. No entanto, para os homens, eram vistos como comportamento característico e completamente aceitável, já que a “responsabilidade” de parir, ser submissa e pacífica ficava para a mulher.

A raiva, o medo, a desobediência e a sexualidade da mulher eram considerados comportamentos histéricos que precisavam ser corrigidos.

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“Com quantos homens eu tenho que dormir para ser considerada promíscua?”

A forma de enxergar as emoções das mulheres durante séculos (o que não se alterou, diga-se de passagem) foi justificativa para as mais diversas violências, como foi visto dentro de manicômios e através dos tratamentos de histeria (como extirpação do útero, a invenção do vibrador, etc).

No filme Garota Interrompida, é possível perceber como eram os tratamentos dentro dos ambientes hospitalares voltados pra saúde mental e em como os comportamentos tidos como dissonantes das características femininas, eram vistos.

A loucura feminina por diversas vezes esteve intimamente relacionada com a feminilidade e a corporalidade da mulher.

Os manicômios surgiram como uma forma de encarceramento e higienização das ruas. Era uma instituição que tinha como proposta isolar da sociedade todo e qualquer indivíduo que não se encaixava nas normas vigentes daquilo que era considerado normal ou produtivo.

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Hospital Colônia de Barbacena

O termo manicômio surge por volta do século XIX e designa especificamente as instituições responsáveis por tratar da loucura. Segundo Foucault, o hábito de retirar indivíduos de meios sociais e isolá-los surgiu com os árabes e data o século VII, onde surgiu o primeiro manicômio conhecido.

Mulheres foram internadas, muitas vezes, por não corresponderem aos estereótipos ligados ao gênero ou por não se encaixarem dentro daquilo que a sociedade esperava delas.

Lésbicas, mães solteiras, mulheres negras, pobres, mulheres que gostavam de sexo, mulheres tidas como frígidas, mulheres divorciadas ou viuvas, todas aquelas tidas como subversivas, foram inúmeras as justificativas para a internação compulsória e o isolamento de todas elas. O manicômio era uma punição para o comportamento tido como inadequado, e o responsável por diversos traumas.

O documentário “Em nome da razão” mostra como funcionava o manicômio de Barbacena, e denunciava os maus tratos que ocorriam.

Dentro desses ambientes aconteciam diversas práticas violentas sobre a alcunha de tratar e curar doenças mentais, que por diversas vezes, nada mais eram do que o rompimento com o papel esperado pela sociedade.

Banhos frios, abusos sexuais por parte dos cuidadores, agressões físicas e verbais, lobotomia, isolamento completo, privação do sono, falta de alimento e experiências médicas eram acontecimentos comuns dentro dessas instituições. Muitas mulheres nasceram e morreram dentro dessas verdadeiras prisões.

O filme O bicho de sete cabeças se tornou referência ao falar sobre a questão da luta antimanicomial e os abusos cometidos dentro dessas instituições.

Mulheres foram submetidas constantemente a essas torturas com aprovação de suas famílias numa forma de punir e tentar ‘consertar’ o comportamento considerado inadequado. Muitas foram abandonadas dentro dessas instituições, engravidaram, tiveram seus filhos e morreram sozinhas.

“Sucker Punch”, o filme de Zack Snyder, mistura ficção e realidade e retrata os abusos cometidos dentro dos manicômios e em como mulheres eram internadas por suas famílias para corrigir comportamentos indesejados.

Outro exemplo é a temporada “Asylum”, de American Horror Story onde uma jornalista lésbica é internada para impedir que ela denunciasse os abusos e experiências médicas que aconteciam dentro do hospital psiquiatrico.

Foi com Basaglia que se iniciou o movimento de humanização no tratamento de pessoas com transtornos mentais e a crítica aos ambientes manicomiais. Ele era combativo à psiquiatria clássica por acreditar que o isolamento hospitalar como tratamento era exclusivo, repressor e higienizador. É com ele que se inicia o movimento de abolição de hospitais psiquiátricos como forma de tratamento da loucura.

A luta antimanicomial surge então, como um questionamento e uma proposta de visão da loucura e de seu tratamento de forma mais humanizada, voltada à reinserção do indivíduo na sociedade, na sua autonomia e na desinstitucionalização do cuidado.

Como alternativa aos manicômios, foram criadas os centros de atenção psicossocial (CAPS), que atualmente atuam de maneira precária por conta da mercantilização da saúde.
É importante entender que a luta antimanicomial também é uma luta feminista, já que historicamente tivemos nossos corpos e sentimentos invalidados, patologizados.

Ao pensar na questão da saúde mental da mulher, podemos perceber que muitos dos transtornos manifestados são diretamente associados a questões biológicas, esquecendo do fator social, como as jornadas duplas, a maternidade compulsória, abusos sexuais e psicológicos, péssimas condições de trabalho, entre outros. Muito do que é tido como um transtorno tem relação direta com a sociedade que vivemos.

Fazer parte do movimento antimanicomial é também questionar o entendimento sobre a loucura, a forma de tratamento, e o histórico da loucura feminina e a construção do saber em relação à saúde mental da mulher.

Mulheres foram institucionalizadas apenas por serem mulheres e por não se adequarem ao papel que foi designado à elas. Essa luta também é nossa.

Questionar e compreender os aspectos relacionados à loucura, seus tratamentos e a instituição manicomial, também é inquirir/indagar sobre a concepção dos transtornos mentais que atingem, em sua maioria, a mulher, na patologização de seus sentimentos e ao apoderamento de seus corpos.

Vou compartilhar com vocês as referências que usei para a construção desse texto, pra quem tiver curiosidade de ler mais sobre o assunto. Para acessá-los, é só clicar nos links abaixo:

Texto 1 | Texto 2 | Texto 3 | Texto 4 | Texto 5 | Texto 6 | Texto 7 | Texto 8 | Texto 9 | Texto 10

Você pode assistir aos filmes clicando nos links.

Em nome da razão | Bicho de sete cabeças | Estamira

O CONTI outra agradece a autora pela autorização da publicação nesse espaço.

contioutra.com - Histeria, a luta antimanicomial e o feminismoNanda

Apenas uma jovem jedi aprendendo a ler mentes. Se eu fosse uma x-men eu com certeza seria a Mistica. Chá maniaca, dançarina do tchan e ninja nas horas vagas, também sou maratonista oficial de séries. Welcome to the femininja side of the force. Leia mais artigos da autora no blog Womansplaining

Sobre psicopatas

Sobre psicopatas

Mais uma vez um matador em série choca a sociedade. Um pintor assumiu ter matado pelo menos cinco pessoas e enterrado seus corpos no terreno do barraco onde morava. Matou sem causa aparente e provavelmente o número de vítimas deve ser ainda maior. Em 1998 Francisco de Assis Pereira, conhecido como maníaco do parque estuprou e matou pelo menos seis mulheres levando-as para um parque na zona sul de São Paulo. Ele as abordava, convencia-as a subir em sua moto e o fim era trágico. Ao ser questionado sobre como conseguia convencer as vítimas a subir em sua garupa sendo que ele era um total desconhecido para elas, ele respondeu: “-Eu falo o que elas querem ouvir”. O pintor da Vila Alba e o maníaco do parque são psicopatas, assim como Suzane Von Richthofen que planejou e participou da morte dos pais e foi vista no dia seguinte chorando no enterro deles numa atuação digna de uma grande atriz.

Duas fortes características de um psicopata são a inteligência e o poder de persuasão. Os psicopatas também mentem muito, manipulam e trapaceiam. São perfeitos demais quando os conhecemos no início e superficialmente. Estão sempre elogiando e são convincentes. São bastante egocêntricos e conseguem se aproximar das pessoas em momentos de vulnerabilidade. Geralmente eles têm um padrão de comportamento transgressor, ficam agressivos sem motivos e nunca sentem culpa, remorso ou empatia alguma.

O diagnóstico da psicopatia só é possível após os 18 anos e deve ser feito por um psicólogo e/ou psiquiatra. Antes disso, os sinais podem apenas ser diagnosticados como Transtorno de Conduta. Ainda assim, algumas características infantis indicam que a criança pode vir a ser um adulto com o transtorno. Crianças que maltratam animais, que mentem com muita frequência, que fazem bullying e se mostram perversas com os amigos na escola, que não obedecem às regras, que têm insensibilidade emocional, dificuldade em manter amizades e vínculos, que apresentam comportamentos transgressores como pequenos furtos, vandalismo e violência; têm mais chances de serem adultos psicopatas.

A proporção da doença é de 1% a 4% da população mundial, sendo três homens para cada mulher. Nem todos os psicopatas são assassinos – muito pelo contrário. Além disso, vale frisar que existem diferentes graus de psicopatia e que nem todos os indivíduos são desprovidos de qualquer limite de conduta. Temos as psicopatias leves, moderadas e graves. Todas envolvem frieza emocional e a incapacidade de empatia, porém, nos casos mais simples, remetem a pessoas que muitas vezes ocupam cargos de destaque, como líderes religiosos, executivos bem sucedidos e políticos que muitas vezes vivem de golpes, roubos, fraudes e estelionatos.

A psicopatia possui duas causas: disfunção neurobiológica e influências sociais recebidas do ambiente ao longo da vida. Quando ocorre em grau leve e é detectada precocemente ela pode – em alguns casos – ser modulada através de uma educação mais rigorosa. Um ambiente familiar mais estruturado e com acompanhamento dos filhos ditos problemáticos certamente não evita a psicopatia, mas pode inibir uma manifestação mais grave.

A psicopatia é irreversível, porém vale lembrar que a existência de apenas algumas características da psicopatia não são suficientes para o indivíduo ser diagnosticado com o transtorno. Existem casos de pacientes que foram diagnosticados e que posteriormente não se mostraram psicopatas. Já outros nos quais os sintomas não foram percebidos, se mostraram extremamente passíveis de serem psicopatas. Por isso, dentre outros critérios, as características são avaliadas pela frequência e intensidade com as quais se manifestam. Isso acontece porque muitos psicopatas já conhecem as características do distúrbio e, por isso, conseguem ser frios o bastante para ludibriar e enganar até os especialistas.

Como muito bem disse a Dra. Ana Beatriz Barbosa da Silva em seu livro sobre o assunto intitulado “Mentes Perigosas – O psicopata mora ao lado”: Eles estão entre nós. Indico a leitura. A rede Globo está reprisando a novela Caminho das Índias, na qual Letícia Sabatella interpreta brilhantemente uma psicopata. A personagem criada por Glória Perez foi inspirada no livro citado por mim acima. Ao perceber a proximidade de um psicopata não há muito a fazer a não ser manter distância. Os psicopatas nunca procuram ajuda psicológica. Aos poucos que cruzaram o meu caminho profissional, a única coisa que fiz foi mostrar a eles que eu percebia a presença do transtorno. Quem procura a nossa ajuda são as suas vítimas.

Poema à boca fechada- José Saramago

Poema à boca fechada- José Saramago

Poema à boca fechada

Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.

José Saramago

Tempo é ternura, por Fabrício Carpinejar

Tempo é ternura, por Fabrício Carpinejar

Viver tem sido adiantar o serviço do dia seguinte. No domingo, já estamos na segunda, na terça já estamos na quarta e sempre um dia a mais do dia que deveríamos viver. Pelo excesso de antecedência, vamos morrer um mês antes.

Está na hora de encarar a folha branca da agenda e não escrever. O costume é marcar o compromisso e depois adiar, que não deixa de ser uma maneira de ainda cumpri-lo.

Tempo é ternura.

Perder tempo é a maior demonstração de afeto. A maior gentileza. Sair daquele aproveitamento máximo de tarefas. Ler um livro para o filho pequeno dormir. Arrumar as gavetas da escrivaninha de sua mulher quando poderia estar fazendo suas coisas. Consertar os aparelhos da cozinha, trocar as pilhas do controle remoto. Preparar um assado de 40 minutos. Usar pratos desnecessários, não economizar esforço, não simplificar, não poupar trabalho, desperdiçar simpatia.

Levar uma manhã para alinhar os quadros, uma tarde para passar um paninho nas capas dos livros e lembrar as obras que você ainda não leu. Experimentar roupas antigas e não colocar nenhuma fora. Produzir sentido da absoluta falta de lógica.

Tempo é ternura.

O tempo sempre foi algoz dos relacionamentos. Convencionou-se explicar que a paixão é biológica, dura apenas dois anos e o resto da convivência é comodismo.

Não é verdade, amor não é intensidade que se extravia na duração.

Somente descobriremos a intensidade se permitirmos durar. Se existe disponibilidade para errar e repetir. Quem repete o erro logo se apaixonará pelo defeito mais do que pelo acerto e buscará acertar o erro mais do que confirmar o acerto. Pois errar duas vezes é talento, acertar uma vez é sorte.

Acima da obsessão de controlar a rotina e os próximos passos, improvisar para permanecer ao lado da esposa. Interromper o que precisamos para despertar novas necessidades.

Intensidade é paciência, é capricho, é não abandonar algo porque não funcionou. É começar a cuidar justamente porque não funcionou.

Casais há mais de três décadas juntos perderam tempo. Criaram mais chances do que os demais. Superaram preconceitos. Perdoaram medos. Dobraram o orgulho ao longo das brigas. Dormiram antes de tomar uma decisão.

Cederam o que tinham de mais precioso: a chance de outras vidas. Dar uma vida a alguém será sempre maior do que qualquer vida imaginada.

Publicado no jornal Zero Hora. 21/06/201, p. 2. Porto Alegre (RS), Edição N° 16736

Encontrado em Modos de olhar

Liberdade

Liberdade

Aprendi quando criança que ser responsável era entregar o dever de casa na data solicitada e olhar para os dois lados da rua ao atravessar. Quem me ensinou isso foi a escola e os meus pais.

Com o passar do tempo, ser responsável passou a ser não faltar no trabalho por mais que sua cama esteja boa e, não dirigir bêbado, por mais que você considere que está apto para a corrida maluca do momento.

E assim permaneceu durante muito tempo minha concepção de responsabilidade, se atendo ao cumprimento das minhas obrigações e me mantendo viva.

O interessante sobre este último viés é que, com o tempo, mesmo que ainda muito limitadamente perto do significado verdadeiro, houve uma evolução. Antes, a menina desatenta tinha apenas que olhar para os dois lados da rua e se preocupar consigo, hoje ela já olha para os dois lados da rua preocupada com os pais, amigos e até uma senhorinha que se locomove bem devagar.

A noção de responsabilidade, naturalmente, expandiu com a noção da vida em sociedade.

No entanto, o que a escola não ensina, nem os pais e nem a vida em sociedade ensinam é o verdadeiro significado de responsabilidade. O que significa que o receptor principal ainda é você, mas por outra lógica, pela lógica do outro.

Desnude-se do egoísmo de querer se salvar e a quem você ama, ou do medo de levar ocorrência ou perder seu emprego. Tire sua convivência em sociedade e as regras mínimas por ela impostas. Você ainda vê alguma responsabilidade?

Sim, eu vejo. A única verdadeira. Aquela que significa liberdade

A responsabilidade sincera, de quem sabe que tem responsabilidade com o mundo, mesmo sabendo que o mundo não responderá com reciprocidade. É a responsabilidade de assumir a consequência dos seus atos porque, sinceramente, não existe outra pessoa que assumirá.

Mas, principalmente, trata-se da responsabilidade com o outro, porque a diferença entre você e o outro é uma questão de posição, um na frente e outro atrás, da película do espelho.

Por que então o receptor principal ainda é você? Porque ninguém faz nada com o outro, sem antes ter feito consigo mesmo. Toda raiva, dor, desamor que é transmitido de uma pessoa a outra foi, antes de mais nada, sentido e sofrido por este alguém.

Entendo que tudo se resume a energia. Aquilo que Você emana, antes de externalizar, teve como fonte criadora você, e você é você, mas também é o outro e todos juntos, desde a criação desta energia até………..

Tome e aceite responsabilidade por tudo que você faz, e pelo que o outro faz a você.

Dói?

Não é para doer, é para se ter consciência de que somos eternamente responsáveis por aquilo que cativamos, ou não…por aquilo que plantamos, ou não…

Mas que principalmente está somente em cada um de nós, e em nós todos, o poder e a força para mudar!

E isso, além de uma tremenda sorte, é ser livre, como ninguém que coloca no outro a responsabilidade por sua ações um dia será!

Amém!

Até mesmo porque, já pensou depender daquele velha mente com opinião formada sobre tudo, para poder ser você?

contioutra.com - LiberdadeMarcella Starling

É mineira e paulista de coração. É advogada e estudante de economia. Está tentando ser aquela pedra jogada ao rio, que gera pequenas ondas ao redor.

Leia mais textos da autora em seu blog The Shrinking Pants 

Projeto fotográfico retrata a escravidão moderna

Projeto fotográfico retrata a escravidão moderna

Por 

A fotógrafa Lisa Kristine mostra em seu projeto Modern Day Slavery, uma série que retrata a escravidão moderna.

Lisa está há 28 anos retratando culturas indígenas, mas em 2009 despertou para um problema que muitas vezes a sociedade moderna finge não existir, mais de 27 milhões de pessoas são escravizadas no Mundo. Esse é um número assustador presente nos dias atuais, a fotógrafa retratou de uma forma brilhante que a escravidão existe, uma série linda pela sua estética e triste pela história que conta.

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Veja abaixo a palestra de Lisa no canal TED

Fonte indicada: Vagalumeria

Isso que você faz todos os dias pode causar câncer

Isso que você faz todos os dias pode causar câncer

Por Caroline Canazart

São tantas as preocupações diárias que por vezes esquecemos, ou nem nos damos conta, que muitas coisas que estão ao nosso redor podem causar grande mal para a saúde. A exposição constante a produtos químicos, por exemplo, presentes na nossa casa ou no trabalho, pode trazer um diagnóstico que ninguém gostaria de ter: o câncer.

Abaixo você pode ver uma lista de produtos usados no dia a dia e que podem contribuir para o aumento de casos de câncer. Mas, para a nossa tranquilidade, algumas atitudes práticas também são capazes de exterminar com esses problemas. É só começar e manter disciplina.

1. Panela antiaderente

Você sabia que as panelas e outros utensílios domésticos antiaderentes podem trazer risco para a nossa saúde? Pois existem estudos que dizem que o teflon contém o ácido perfluorooctanóico suspeito de causar câncer. De acordo com especialistas, o produto pode ser liberado na hora do preparo do alimento e, principalmente, quando a superfície da panela estiver riscada.

Desde 2006, o programa “PFOA 2010/15 Stewardship Program” pede que os fabricantes de panelas antiaderentes reduzam e eventualmente eliminem as emissões de PFOA.

A alternativa é cozinhar em panelas de vidro, ferro, cobre ou panelas revestidas de cerâmica ou porcelana.

2. Maquiagem

Aquela sua nécessaire cheia de produtos pode ser uma grande vilã e estar lhe deixando doente. Muitos produtos que estão na composição das maquiagens e cremes para a pele são cancerígenos. Sabe aquele seu batom maravilhoso? Ele é o principal vilão de todos os produtos, pois pode conter chumbo, causador de câncer e outros problemas de saúde.

Todos os produtos que contenham as substâncias a seguir precisam ser utilizados com atenção ou simplesmente abolidos do uso: Peróxido de benzoíla, DEA (Dietanolamina), MEA (Monoetanolamina) e TEA (Trietanolamin), dioxina, DMDM hidantoína e ureia (Imidazolidinyl), cor e pigmentos FD&C, parabenos (metil, butilo, etilo, propilo), PEG (polietilenoglicol), ftalatos, propileno glicol (PG) e butileno glico, lauril sulfato de sódio (SLS) e lauril éter sulfato de sódio (SLES), produtos químicos de protetores solares: avobenzona, benzphenone, ethoxycinnamate e triclosan podem ser a porta de entrada para um câncer.

A solução é ler o rótulo de cada maquiagem e ir em busca das empresas que utilizam tudo natural e orgânico.

3. Plástico

Depois de todo o sucesso e facilidade que um belo conjunto de pote de plástico pode significar para uma família, as notícias dizem que ele não é a melhor opção para armazenar comida. Isso porque a maioria deles contém o BPA ou bisfenol A, uma substância ligada ao câncer, problemas reprodutivos e doenças cardíacas.

Em alguns países como o Canadá, Costa Rica e Dinamarca e alguns estados dos Estados Unidos a substância é proibida, mas, no Brasil é utilizada na fabricação de todos os produtos plásticos, como mamadeiras, copos para bebês e garrafas plásticas.

A contaminação com o produto químico acontece principalmente na hora do aquecimento. Então acabe com a mania de esquentar comida em plásticos no micro-ondas ou colocar aquele filme plástico em cima de algum pote na hora do aquecimento. A água também não deve ser colocada em garrafas plásticas. E sempre procure comprar recipientes plásticos que contenham a mensagem “Livre de BPA” no rótulo.

4. Pesticidas e herbicidas

Eles são utilizados para controlar pragas e ervas daninhas em plantações e normalmente são tóxicos para o ser humano. Um estudo de 2009 diz que existe uma maior incidência de casos de câncer no cérebro de crianças cujo os pais tiveram grande exposição à pesticidas, herbicidas e fungicidas, em casa ou no trabalho. O Mal de Parkinson também está sendo ligado à exposição desses produtos, já que um outro estudo concluiu que pessoas diagnosticadas com a doença tinham duas vezes mais chances de relatar que já haviam sido expostas aos produtos tóxicos. Os inseticidas também estão sendo relacionados aos problemas como o câncer.

Para prevenir-se aprenda a cuidar de seu jardim ou horta de forma natural. Arranque as ervas daninhas com as mãos ou encontre substâncias naturais para fazer o controle de pragas. Se você precisar utilizar bombas de inseticidas em casa, assegure-se de ficar longe por um dia completo.

5. Tinta

Você já ouviu falar no perigo que as tintas de parede trazem para a saúde? E não estamos falando apenas sobre o cheiro ruim. Diferente de muitos países, no Brasil, até existe uma legislação que limita o uso do chumbo nas tintas, mas muitas vezes ela não é cumprida. Uma pesquisa de 2009, da Associação de Proteção ao Meio Ambiente de Cianorte, mostrou que a maioria das marcas de tintas brasileiras tem chumbo acima do estipulado (600 partes por milhão (ppm) de acordo com a lei de 2008. Nos Estados Unidos, em 1978 a quantia de 600 ppm já era limitada. Hoje não pode passar de 90 ppm. A preocupação é tanta com o perigo da presença de chumbo nas casas americanas, que, muitas vezes, ao preencher formulário de matrícula para a escola de crianças aparecem as perguntas: você mora em uma casa construída antes de 1978? Houve alguma reforma nela depois disso? A tinta da parede esta descascando?

Tudo isso porque o chumbo prejudica o sistema nervoso central, fígado, sangue, rins e sistema reprodutor de homens e mulheres.

Além disso, tintas, vernizes, ceras e alguns produtos de limpeza contém composto orgânico voláteis (VOCs), outras substâncias que, somado ao chumbo, trazem problemas para a saúde elevando a possibilidade de câncer.

A alternativa é comprar tintas e produtos que marquem no rótulo que não contenham chumbo e que tenham baixo nível de VOC. Pintar a casa no verão e primavera também pode ajudar na hora da ventilação.

Fonte indicada: Família

Uma hora todo mundo sofre. Só sente dor quem continua vivo.

Uma hora todo mundo sofre. Só sente dor quem continua vivo.

Todo mundo sofre. Uma hora ou outra, dói. Não há quem escape. Uns sentem mais, outros menos. Mas todos sofrem. Ah, sofrem, sim.

Há os que demonstram pouco, quase nada, e isso não quer dizer que também não amarguem uma perda aqui, uma separação ali, uma decepção acolá. E há os que escancaram seu pesar com a honestidade de um alto-falante. Tem gente que grita sua queixa muito mais alto que o volume da dor que sente. Também tem aqueles que sofrem não pela tristeza da perda, do fim, do adeus, mas pela incompreensão do fato, pela dificuldade de aceitar que algo acabou.

E tem ainda aquela gente que sente tanto, mas sente tão fundo, que nem tem força para sair por aí berrando seu desespero. Então se fecha e chora baixinho até passar a dor.

Cada um de seu jeito, todo mundo sofre. Paciência. Estamos todos na fila para renovar nosso visto de permanência na vida.

Talvez esteja aí a menor distância entre cada um de nós. Nossa divina capacidade de sofrer, deixar para trás e seguir em frente. Em cada um de nós essa arte se manifesta de um jeito, em seu tempo. Porque somos diferentes, digerindo misérias diversas.

Tão chato quanto quem nos enfia suas alegrias goela abaixo, “eu sou mais feliz que você”, é quem insiste em nos castigar com suas desgraças, “eu sou mais triste que você”. Aí não basta nos mostrarmos solidários, bons ouvintes. É urgente sermos tão desgraçados quanto aquele a quem tentamos consolar. Sentimento estranho.

Lá pelas tantas, vem um de nós e escancara seu infortúnio em nossa cara, como quem diz “olha só o meu brinquedo, ele é maior do que o seu”. Em sua lógica perversa de exigir que todos reconheçam sua penúria e padeçam a seu lado, recusa o apoio simples, a mão estendida, o ombro vago. E agride, ataca, machuca quem estiver perto para provar que sua dor é mais sofrida.

Quanto engano. Dor nenhuma é pior que outra. Pessoais e intransferíveis, nossas dores podem ser consoladas, jamais comparadas ou transferidas. E a vida não é um concurso de sofrimentos.

Todo mundo sofre nessa vida. Sofre o rico e sofre o pobre, o mocinho e o bandido, o patrão e o empregado, homens e mulheres, crianças e velhinhos, heteros e gays, enrustidos e assumidos, pretos, brancos, vermelhos e amarelos, solteiros e casados, sozinhos e enturmados, cães e gatos, moscas e lagartixas, joaninhas, tatus-bola, lesmas e minhocas, as formigas, as girafas e os elefantes. Todos nós sofremos.

E sofre mais, sofre ainda mais quem acha que “o amor não acaba assim ou assado”. Esse padece em dobro. Primeiro pela falta do amor que se foi, depois com a descoberta de que a verdade sobre o coração alheio não lhe pertence. Sofre como qualquer um de nós. Ah, sofre, sim.

Por que o tema da redação do Enem incomodou tanto?

Por que o tema da redação do Enem incomodou tanto?

Dia 25 de Outubro de 2015. Redação do Enem. O tema? Poderia ser a crise econômica, o empobrecimento da população através da baixa do crescimento do PIB. Outra possibilidade era discutir a situação dos refugiados e os tópicos políticos envolvidos no assunto. Porém, o MEC decidiu que seria A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira.

Todos os temas que acabei de citar são importantes. Nenhum deles é banal. Em qualquer um o aluno poderia seguir diversos caminhos para elaborar o texto. O meu assombro veio quando percebi que algumas pessoas não querem falar sobre violência contra a mulher. Por quê?

Não vou me limitar. Pode ser que não dominem o assunto (realmente as nossas escolas não nos preparam pra falar disso), porém a medida que manifestam raiva do assunto, fico assustado. Já que, na minha cabeça, só é possível odiar coisas que possuo o mínimo de conhecimento. Eu não odeio ETs de Plutão, nem o Iphone 15, ou o Android 96.5 , são objetos distantes da minha realidade.

Uma das críticas ao tema é um suposto teor de esquerda. É cômico imaginar que só pessoas de esquerda querem tratar deste tema. Minha Mãe não era de esquerda, nem de direita, nem nada. E enquanto ela apanhava do meu padrasto, quando eu tinha 7 anos, eu corri na casa dos vizinhos sem me preocupar com qual partido político eles defendiam. Eu só queria a minha mãe em segurança.

Assisti homens baterem na mulher que mais amo nessa vida e ninguém queria falar sobre o assunto. Era tabu. Eu me deprimi. As cenas eram insuportáveis. A minha escola não falou disso. Estudei a vida toda e nunca entraram nesse assunto. Minha única saída era correr e pedir ajuda.

Eu não sou de esquerda, eu não sou de direita. Eu sou gente. Façam o favor de enxergarem além de suas disputas eleitorais. As mulheres, mães ou não, já enfrentam muita agressão pra terem que esperar vocês abandonarem as brigas partidárias.

Que não seja só tema de uma redação, que seja tema de músicas, filmes, documentários, propagandas, capinha de celular.

Os seus partidos, suas ideologias, seus teóricos políticos, juntem todos eles e não valem uma mulher em segurança e livre do perigo dos socos de alguém.

Parte de uma história, por Nina Spim

Parte de uma história, por Nina Spim

O filme Frances Ha, de 2012, fala sobre crescimento profissional e, especialmente, sobre crescer ao lado de alguém. As protagonistas Frances e Sophie são melhores amigas e precisam aprender a lidar com o fato de que a vida não para por ninguém.  Em certo ponto da narrativa, Frances diz algo que eu já tinha ouvido falar em outras produções audiovisuais, mas que nunca realmente tinha parado para refletir sobre: “Aquela é a sua pessoa nessa vida”. A personagem faz alusão ao fato de duas pessoas gostarem tanto uma da outra que, mesmo em um ambiente público, sabem reconhecer o quanto são importantes nas vidas de ambas.

Fico imaginando quantas pessoas passam por nós todos os dias, que sequer observamos. Ou quantas pessoas olham para nós com carinho e não nos damos conta. Ou quantas pessoas escondem o amor para se preservar, ou para preservar a quem se ama. A verdade é que, ao nunca pensarmos nessas questões, estamos também ignorando o fato de que temos importância na vida de alguém. E esse alguém pode ser um desconhecido completo, a nossa melhor amiga, ou aquele vizinho que só sabemos o nome.

No final do monólogo, Frances diz que a situação é “divertida e triste, mas só porque essa vida irá acabar”. Temos mania de afirmar o quanto precisamos fazer tudo aquilo que gostaríamos de fazer sem pensar nas conseqüências, já que a vida é curta e precisamos aproveitá-la. Devíamos fazer aquela pergunta que achamos idiota no meio da aula, aprender a tocar piano só porque gostamos da sonoridade (não precisamos ser realmente bons), esquecer de acordar cedo num sábado mesmo que tenhamos combinado de ir ao parque com alguém, adotar cachorros, ou dizer que amamos nossos amigos (por que nunca dizemos?). Mas, quando tentamos colocar tudo isso na prática, sempre parece loucura, esquisitice, ou simplesmente inútil. De certo modo, pensamos que tudo o que fazemos ou dizemos não faz diferença nas vidas alheias, quando é exatamente o contrário. Talvez, a pessoa que você menos espera está lá te ouvindo falar com as paredes, enquanto seus amigos estão no celular. Talvez, tudo o que você sempre quis dizer para alguém, esse alguém também esteja querendo dizer.

E é por isso que Frances – e muita gente por aí – deseja que exista aquela única pessoa em sua vida: porque, quando se a tem, a vida pode terminar a hora que for que, ainda assim, haverá felicidade, companheirismo e aceitação. É pertencer a algo exclusivo, algo que não dá pra dividir com mais ninguém. E não precisa ser parte de algo romântico, como no caso das protagonistas, apenas precisa ser parte de uma história.

Nina Spim

contioutra.com - Parte de uma história, por Nina SpimÉ uma escritora sonhadora dotada de blue feelings. Cursa Jornalismo na PUCRS, adora as palavras, mora nos livros, gosta de cinema como um esporte, é seriadora aos fins de semana e escritora compulsiva. Autora dos contos “Heart and Love” e “Coisas, definitivamente, de Amélia” das Antologias Amor nas Entrelinhas e Aquarela, respectivamente, pela Adross Editora.

Dona do blog http://ninaeuma.blogspot.com/

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A intimidade é o desapego das relações artificiais

A intimidade é o desapego das relações artificiais

Andamos tão carentes de relações reais que, do nada, esbarramos em pessoas de forma acidental e descobrimos em minutos de convivência que existe por aí gente semelhante a nós; gente que acredita, almeja, sonha e persegue os mesmos ideais que nos movem. O que nos falta é tirar a cabeça do modo automático e dirigir nossas vidas utilizando nossas próprias mãos. O resultado pode ser surpreendente!

A ansiedade é o combustível universal da atualidade. Vivemos ansiosos, por resultados, por conquistas, por reconhecimento. E, que coisa mais maluca: vivemos ansiosos para nos livrar da ansiedade. Haverá solução para nós? Ouso acreditar que sim. Ora, a ansiedade é fruto da nossa confusão mental. Diferente do medo, que tem causas reais e palpáveis, a ansiedade nasce de uma excitação mental. Ela é alimentada por pensamentos acelerados que buscam encontrar, de forma imediata, conforto para sensações de perigo.

Quando ainda vivíamos nas cavernas, a ansiedade tinha um aspecto mais visceral, e era um elemento indispensável para que conseguíssemos prever o perigo. Depois de alguns (nem tantos, né?), anos de evolução, está claro que não temos mais que sair por aí escalando árvores ou caçando o que comer. Tampouco, precisamos escapar de quem esteja nos caçando como prato principal do almoço ou jantar. No entanto, fizemos trocas. A nossa “sobrevivência”, hoje, está ligada ao medo de perder status, conforto, relacionamentos amorosos, amizades, e tantas outras milhares de coisas que sustentam a nossa vida e a nossa vaidade. Trocamos alguns poucos itens de sobrevivência por infinitos objetos de desejo, cuja lista não para de crescer.

Do ponto de vista dos relacionamentos, sejam eles amorosos ou não, vivemos perdidos por não ter a real ideia do que de fato estamos procurando. Muitas vezes, procuramos por afeto ou companhia, seguindo uma espécie de “manual de instrução do viajante perdido do século XXI”. Nosso comportamento de busca é tão desorganizado que, qualquer novo critério nos atinge. Vivemos com a cabeça tão entupida de verdades, que nos esquecemos de lembrar que somos mentirosos por natureza. Mentimos sobre tudo! Principalmente, mentimos sobre o que sentimos. Mentiras sinceras nos interessam, essa é que é a verdade.

Nessa altura, estimado leitor, pode ser que você esteja balançando sua linda cabecinha (cheia de verdades), para lá e para cá. Instalou-se em seu rosto uma expressão indignada e você está pensando “Eu não me enquadro nisso! De jeito nenhum! Detesto mentira!”. Ahhhhh… tá! Só de ser atacado por essa suposta onda de revolta, você já é um mentiroso. Por favor, não se ofenda. Ou, se ofenda… Caso isso seja necessário para tirar você dessa postura empedernida da defesa hipócrita! Aleluia! Veja bem, não estou aqui fazendo nenhuma apologia da mentira. Apenas estou fazendo a minha confissão sobre algo que é incontestável: para podermos sobreviver, mentimos muito.

Muitas vezes, faltamos com a verdade com a nossa própria consciência, de forma pouco consciente. Por exemplo: você está em vias de conseguir uma colocação naquela empresa altamente qualificada e avaliada como “a empresa dos sonhos”. Neste momento, você convenientemente, ignora algumas de suas características pessoais e veste uma capa de funcionário ideal para o emprego dos sonhos. Numa situação dessas, você só vê o lado bom das coisas. Pronto! Você está mentindo. A dura verdade é que não há nada (nada mesmo!) nesse mundo que só tenha lado bom ou seja completamente virtuoso!

E, tudo bem você mentir. Até porque as verdades são coisinhas extremamente volúveis. O que hoje é verdade, amanhã não é mais. É meu amigo… Está ficando cada vez mais complicada a nossa sobrevivência longe das queridas caverninhas.

E, é nessa conjectura de afogamento dos sonhos para encontrar a paz, que saímos da nossa casquinha de perfeição e resolvemos olhar para nossa necessidade de afeto com olhos mais benevolentes. É abrindo mão do nó das idealizações que acabamos encontrando nossos pares, sejam eles para escrever conosco uma história de parceria ou nos completar com promessas de amizade ou amor. É sem armaduras douradas e perfeitas que vamos ao encontro do estranho, que de perto, nem é tão estranho assim. É sem a expectativa do maldito “manual de instrução” que nos damos ao luxo de encontrar a deliciosa sensação de intimidade que, acredite, é o que mais nos falta neste mundo maluco, para nos sentirmos mais humanos.

Imagem de capa meramente ilustrativa- cena do filme argentino Medianeiras

‪#‎meuprimeiroassedio‬ e o que isso realmente quer dizer.

‪#‎meuprimeiroassedio‬ e o que isso realmente quer dizer.

A sociedade encontra formas estranhas de revelar seus esqueletos no armário. Essa semana, foi através de um programa de culinária voltada para crianças e pré-adolescentes, onde uma participante de 12 anos mereceu comentários do nível “se tiver consentimento é pedofilia?” ou “a culpa da pedofilia é dessa molecada gostosa”.

Isso motivou uma reação enorme, levando várias pessoas – não só mulheres – a postar seus relatos com a hashtag #meuprimeiroassédio. Uma amiga fez um post contando um assédio que havia sofrido ainda muito pequena e ficou surpresa com as mensagens que recebeu inbox, de outras mulheres que se sentiram incentivadas a contar a ela o que haviam passado. Algumas diziam que era a primeira vez que falavam sobre o assunto com alguém. Só não se sentiam a seguir o exemplo dela e tornar público. E dá pra entender a razão.

Muitas pessoas ficaram surpresas com a quantidade de relatos que surgiram de pessoas próximas, o que mostra que não são fatos isolados, mas parte de uma cultura que atinge todas as camadas, grupos ou qualquer divisão que se queira fazer.

Essa mesma cultura que permite (e é essa a palavra) que crianças sejam abordadas sexualmente, é a cultura que evita que o assunto seja discutido. Mas não discutir, é exatamente o que dá a permissão para que esses casos aconteçam. É preciso falar, para que se dimensione essa questão, que não é pequena. Mas ainda mais importante, é preciso que se ouça.

E nós não ouvimos. Ou não acreditamos. Ou culpamos a vítima.

A apresentadora Xuxa Meneghel revelou que foi vítima de abusos quando criança. Nos dias depois da entrevista em que deu essa declaração, muitas mulheres também aproveitaram para contar seus casos pessoais. Mas muitas pessoas – homens e mulheres – preferiram fazer piada com o caso. Choveram comentários como esse abaixo:

Xuxa fazer fime porno com menor pode ne,sera que nao foi voce que atacou quem voce esta acusando,seu passado te condena fecha o bico que e melhor.

Como dá pra ver, a pobreza revelada aí não está só no uso do português, em um comentário que dá pra ser analisado em várias camadas. E todas, são reflexo da forma como identidades são criadas.

Eu sou homem. Só posso olhar para a questão do assédio fato a partir dessa perspectiva. Quando ouço falar em cultura do estupro, eu reconheço nisso a descrição da cultura em que eu fui criado. Em maior ou menor grau, todos os homens recebem essa educação pela sociedade, em casa, na rua, através dos programas de humor, da publicidade (de cerveja ou não) e de qualquer lugar onde a figura da mulher é explorada. Isso leva os homens a replicar um comportamento que é visto como normal, onde a cantada de rua, por exemplo, é vista apenas como uma brincadeira inofensiva e que as mulheres deveriam se sentir felizes em receber um assobio ou “elogio”. E muitas vezes, o ato de virar o pescoço na rua, é tanto para ver a bunda, como para ter o próprio ato registrado pelos amigos, como prova de masculinidade.

Tenho uma amiga que sempre faz questão de abordar o homem que lhe dirige uma cantada, nem sempre de um jeito “light”. Mas ela diz que mesmo quando humilha o sujeito, ela está sendo didática. Quer que ele aprenda que o que ele está fazendo não é uma coisa normal e que é uma forma de abuso sexual.

Esse exemplo aí de cima pode não ser o melhor, mas é importante falar sobre isso. Muito. Comportamentos que são vistos como normais, precisam ser discutidos. Casos em que a vítima é culpabilizada, têm que ser revistos. E talvez o mais importante: nós, homens, precisamos ser reeducados.

Tem gente que diz que o mundo está ficando chato, que as pessoas não sabem mais brincar e que estão criminalizando até a “cantada de rua”, essa instituição nacional. O que elas não percebem, é que para algumas pessoas o mundo sempre foi chato. E mais que isso, perigoso.

Criado em fazenda Hare Krishna, rapaz volta a viver na comunidade pelos filhos.

Criado em fazenda Hare Krishna, rapaz volta a viver na comunidade pelos filhos.

Quando a mãe de Arjuna Sundara Kirtana Claro da Silva, 33 anos, engravidou dele, ela pediu a Deus que o tivesse num lugar especial, onde as pessoas buscassem um sentido a mais para a vida, distante da realidade mesquinha do mundo materialista, na descrição do próprio Arjuna. E não é que ela encontrou? O filho nasceu e foi criado em uma comunidade Hare Krishna que fica em Pindamonhangaba, no interior de São Paulo.

Foi lá, na Fazenda Nova Gokula, em Pindamonhangaba (SP), que essa mãe encontrou sentido para ter seu jovem guerreiro – é que, no texto Bhagavad-gita, um dos mais populares do hinduísmo, Arjuna é um guerreiro que se vê no campo de batalha tendo que enfrentar a própria família.

A fazenda é um lugar lindo, fica na Serra da Mantiqueira, numa área de proteção ambiental repleta de rios e cachoeiras com águas cristalinas. E lá vive a maior comunidade Hare Krishna da América Latina, composta por aproximadamente 100 pessoas. Todas trabalham para o desenvolvimento local e seguem uma proposta de vida simples.

Eu conheci Arjuna – ou Sundara, como ele se apresentou – em visita à comunidade durante um passeio com um grupo de amigos praticantes de yoga.

Sundara (que eu pesquisei e descobri que significa ‘belo’ e sânscrito) foi o guia do grupo durante um passeio de observação de pássaros na fazenda. Era maravilhado que ele fazia todos tentarem prestar atenção nos assovios para descobrir onde o passarinho estava escondido. Com uma câmera fotográfica na mão, capturava as mais diferentes aves encontradas e depois mostrava a foto aos que não tinham conseguido enxergá-las – ou seja, a maioria dos ali presentes.

Quando a observação terminou, eu pedi para ele contar um pouco como é ter crescido num lugar como aquele. Foi quando Sundara me explicou o motivo que levou a mãe dele, então solteira, a escolher aquele local para o nascimento, o que ocorreu após o pedido que ela fez a Deus, descrito no início do texto. “Ela teve contato com o movimento Hare Krishna, que leu no livro de Swami Prabhupada, que é nosso fundador, e ela se encantou com o que ela leu e veio para cá.”

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Fazenda fica em área de preservação ambiental

‘Sou um filho desta terra’

Sundara nasceu, cresceu e viveu até os 16 anos na comunidade. “A minha infância inteira eu passei aqui. Eu conclui o ensino fundamental aqui. A gente tinha uma escola bem bacana, com bastante crianças. Digamos que eu sou um filho desta terra.”

Quando terminou a 8ª série, o jovem guerreiro foi em busca de encontrar novos desafios fora da fazenda. Concluiu os estudos na cidade, apaixonou-se, casou-se e teve três filhos. Além da técnica de observação de pássaros, é amante de escalada em montanhas. Aprendeu as técnicas e montou uma pequena empresa que presta serviços de pinturas e lavagens de fachadas com os aparelhos e conhecimentos usados na escalada.

Viveu tudo o que tinha que viver e agora, no começo deste ano, voltou a morar na comunidade para criar os filhos. “Como isso para mim é tão importante, eu queria que meus filhos também tivessem essa experiência. Será numa dimensão menor de tempo, porque hoje não tem escola e a gente não vai poder matriculá-los aqui. Mas esse tempinho, um ano, dois, vai deixar uma base do que foi para mim, vai conectar eles com o lado espiritual, com essas duas questões da vida, que é a material e a espiritual. Então, essa introduçãozinha eles vão levar para o resto da vida.”

E assim Krishna, de 7 anos, Anakin, 5, e a Serena, de 3, estão vivendo em meio às cachoeiras, árvores e pássaros da comunidade. “As crianças ficam encantadas. Meu filho Krishna falou, ‘pô, pai, eu não quero sair daqui nunca mais’. Então não há nada mais bacana para os pais do que seus filhos felizes, de bem, protegidos. É um lugar bacana para eles.”

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Sundara na Nova Gokula: ‘Digamos que eu sou um filho desta terra’

Sentido da vida

Bastante espiritualizado, Sundara explicou que, para ele, ter nascido na comunidade o proporcionou esclarecimentos sobre o sentido da vida. “Qual é o diferencial de eu ter nascido nessa egrégora de paz, de harmonia, de espiritualidade, de ter essa comunhão com Deus? Por eu ter vivido e nascido aqui, ter experienciado isso aqui, isso me esclareceu questões de que a gente não é simplesmente uma matéria, esse corpo perecível que tem um prazo de validade, que chegando no prazo ele vai virar pó, virar terra, e se encerrou. Eu acho que a criação de Deus é infinita, é muito maior do que a gente pensa. (….) Essas respostas me vieram, me foram esclarecidas, que somos centelhas de vida, infinitas, energia espiritual, e que a gente está aqui por um processo para evolução mesmo e para retornar para nossa morada eterna.”

E enquanto isso não ocorre, Sundara? Para ele, a resposta é simples: “A ideia é a gente se tornar melhor para poder passar adiante essa ideia e também melhorar a vida daqueles que estão ao nosso redor, dos nossos irmãos. A humanidade é uma irmandade só, então é interessante que todos nós ascensionemos, que todos nos alcancemos plenitude, paz, felicidade, saúde plena, harmonia. Então é isso que eu vim buscar e eu encontrei.”

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Para ele, o sentido de nossa existência está em “viver em plenitude, ter uma vida plena, equilibrada e feliz: É se realizar aqui, porque eu penso assim, a terra é um exemplo do que a gente pode ter no mundo espiritual, é um reflexo de lá. Então, quanto melhor passarmos aqui, quanto melhor sermos aqui, mais próximos do nosso objetivo a gente estará, que é viver em plenitude, encerrar esse ciclo de nascimento e morte (…). Existe muito mais do que isso aqui.”

E foi assim que, depois de conversar com Sundara, eu nunca mais fui a mesma ao ouvir, com atenção, o canto de um pássaro.

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